terça-feira, 16 de outubro de 2012

Corsets & Clockwork

Mecanismos que ganham vida, estranhas conjugações de magia e tecnologia, regras sociais rígidas e mundos completamente diferentes. Estas são apenas algumas das coisas a descobrir nesta antologia em que, com algum romance à mistura, o mundo do steampunk se revela em múltiplas possibilidades.  Mas o que pensar da ideia de romance steampunk? A isso, responde Trisha Telep, organizadora da antologia, numa introdução leve e que desperta curiosidade ao falar sobre o conceito geral e os contos que constituem este livro.
Mas são os contos o que realmente interessa e, nesse aspecto, a antologia abre da melhor forma. Rude Mechanicals, de Lesley Livingston, apresenta uma encenação particularmente trágica da peça Romeu e Julieta e um teatro a precisar desesperadamente de público como pontos de partida para uma história envolvente e um pouco caricata. Fascinante na caracterização do cenário e, principalmente, da invenção, cativa também pelo bom equilíbrio entre mistério e emoção, que culmina num final intenso e surpreendente. 
The Canibal Fiend of Rotherhithe, de Frewin Jones, fala da filha de uma sereia e do seu captor e de como ela busca o amor nas ruas de uma cidade estranha. Bastante descritivo, mas cativante, o enredo evolui com naturalidade, neste conto com momentos bastante sombrios e em que o mais interessante está no cenário na base da história. Que é interessante, também, mas que é narrada num tom algo distante.
Em Wild Magic, Ann Aguirre conta a história de uma jovem de boas famílias que compra um quadro numa rua duvidosa, sem saber que está prestes a cruzar-se com o dono do rosto retratado. Misterioso e envolvente, este conto tem como ponto forte o interessante sistema que apresenta e, dentro deste, a oposição entre magia e tecnologia. Escrito de forma agradável e com as medidas certas de romance e aventura, trata-se, pois, de uma história cativante, que se conclui também num final intenso.
Segue-se Deadwood, de Michael Scott. A história é a de como um rapaz e uma rapariga se conhecem numa viagem e de como esta é inesperadamente interrompida. Com uma escrita directa, sem grandes elaborações, mas agradável, também este conto é uma leitura cativante. Interessante no desenvolvimento dos elementos tecnológicos, mantém a envolvência também pela aura de mistério em torno das razões para a interrupção da viagem, bem como pela muito bem conseguida - e um pouco arrepiante - revelação sobre o local de paragem. Fica a sensação de um final um pouco brusco, mas nem por isso menos surpreendente.
Magia e mistério numa Veneza em guerra servem de base a Code of Blood, de Dru Pagliassotti. No centro da história está uma rapariga cujo sangue tem um valor especial. O resultado é um conto envolvente, com muita acção e um cenário cativante. Apesar de a intensidade compulsiva da acção deixar, em certos aspectos, para segundo plano a caracterização das personagens, estas são, ainda assim, cativantes quanto baste. Além disso, a interessante abordagem aos espíritos alimentares contribuem para manter o interesse nesta história cativante e de leitura agradável, também ela com um final particularmente forte.
The Clockwork Corset, de Adrienne Kress, mostra a evolução para algo mais, de uma amizade de longa data entre o filho de um empregado e uma rapariga que, educada como um rapaz, tem de aprender a viver segundo as normas sociais. Partindo de um início quase inocente, que marca a base para o crescimento dos protagonistas, esta história aparentemente simples e descontraída cresce com a mudança de rumo provocada pela influência da guerra, enquanto elemento de incerteza e motivador para a acção, na vida dos protagonistas.Cativante, quer pelo enredo, quer pela personalidade forte de Imogen, este conto surpreende também por alguns momentos caricatos e pelo final bem conseguido.
Em The Airship Gemini, Jaclyn Delamore conta a história de duas gémeas siamesas que se tornam os centro das atenções de um mago que, decidido a aumentar a sua reputação a qualquer custo, persiste em proceder à separação de ambas. Envolvente e intenso na forma como coloca as protagonistas no que parece ser uma situação impossível, bem como na bem conseguida e muito realista posição de algumas personagens que elevam os seus interesses acima de tudo, este conto perde, talvez, um pouco, pela brusquidão de algumas revelações, sobre as quais fica a impressão de que bastante mais haveria a dizer. Fica, ainda assim, a impressão global de uma história cativante, de leitura agradável e com alguns momentos comoventes.
Segue-se um dos melhores contos do livro. Under Amber Skies, de Maria V. Snyder conta como a filha de um inventor descobre que o pai desapareceu e se torna alvo da perseguição dos nazis. Cativante, muito bem escrito e com um ambiente fascinante, este conto tem entre os seus muitos pontos fortes o duo de protagonistas carismáticos, com uma relação bem conseguida e vidas familiares constrastantes. Junte-se a isto uma reviravolta inesperada que abre caminho para um final poderosíssimo e o impressionante contraste entre os lados da natureza humana (do simples amor à máxima crueldade) reflectidos pela protagonista e pela sua mãe e o resultado é um conto brilhante em todos os aspectos.
King of the Greenlight City, de Tessa Gratton, apresenta dos jovens prometidos, um dos quais descobre que consegue controlar mais magia que a que o seu elemento lhe devia permitir. Tendo como base um sistema muito interessante, com destaque para a ligação dos elementos às diferentes famílias, este é, também, um conto cativante, ainda que alguns momentos pudessem ter sido mais desenvolvidos. A caracterização do mundo sobrepõe-se à das personagens, o que dá à história um tom algo distante. Trata-se, ainda assim, de uma história interessante e agradável de ler, principalmente devido à nova perspectiva que a surpresa do final dá à separação entre os dois lados do sistema.
Em The Emperor's Man, de Tiffany Trent, um membro da guarda imperial recebe a missão de escoltar a princesa, mas descobre que ela não está interessada na sua protecção. Com uma boa conjugação entre magia e ciência, com os grandes vultos desta a serem apresentados como santos e uma considerável presença das criaturas mágicas, trata-se de uma história envolvente, com um final surpreendente, uma relação algo bizarra, mas também enternecedora, entre os protagonistas e uma base bem conseguida para a fundação do mundo em que decorre a acção.
Chickie Hill's Badass Ride, de Dia Reeves, parte da luta contra a segregação racial num cenário em que outros perigos se movimentam, como base para revelar a coragem - e uma certa temeridade - dos dois jovens protagonistas. Muito interessante na abordagem ao preconceito e à reacção das pessoas - as que lutam, as que fogem e as que se resignam - , este conto marca principalmente pelo curioso contraste entre o lado sombrio do tema e a quase leveza da relação entre os protagonistas. Com um sistema sólido e uma bem conseguida conjugação de questões humanas e sobrenaturais, trata-se, pois, de uma boa história e de uma leitura cativante.
Um dos contos mais curtos do livro e também um dos melhores é The Vast Machinery of Dreams, de Caitlin Kittredge. O ponto de partida é o clássico romance entre rapaz e rapariga de meios diferentes, mas a abordagem é completamente inesperada. A estrutura peculiar, com a narração de factos que são, mais tarde, desmentidos, mantém viva a curiosidade relativamente à verdadeira história dos protagonistas. O ambiente tem muito de surreal, mas exerce também um estranho fascínio. Tudo somado, obtém-se um conto sombrio e intenso, onde as fronteiras entre realidade e ficção são tudo menos claras.
O último conto, Tick, Tick, Boom, de Kiersten White, apresenta uma rapariga com uma vida dupla e a situação complicada em que se encontra quando um dos seus planos não corre como planeado. Cativante, com uma protagonista forte e um bom contraste entre a sociedade rica e o que se passa nas classes inferiores, não é, apesar disso, uma história particularmente surpreendente. Ainda assim, o papel dos protagonistas no combate às diferenças sociais está na base de vários momentos muito bons, numa história que é, na generalidade, envolvente e agradável.
Diferentes abordagens, que reflectem um género rico em possibilidades, diferentes tipos de protagonistas e finais para todos os gostos, do mais harmonioso ao mais trágico, fazem com que haja nos contos deste livro muito de cativante para descobrir. Com alguns contos particularmente impressionantes e nenhum que não tenha algo de cativante, a impressão que fica desta antologia é, claramente, positiva. Trata-se, pois, de um bom livro para descobrir alguns aspectos do steampunk e conhecer um pouco da obra dos autores aqui incluídos, de alguns dos quais fica a curiosidade em ler algo mais. Muito bom.

Novidade Porto Editora


Como nos versos de Pablo Neruda, Dora e Luka sentem, "cada dia, cada hora", estar destinados um ao outro. Em crianças eram inseparáveis, até ao momento em que a família de Dora parte da pequena cidade croata onde viviam. Dezasseis anos mais tarde, o destino volta a uni-los, desta vez em Paris. É evidente que foram feitos um para o outro, mas a vida encarrega-se de separar os seus caminhos.  Cada dia, cada hora é a história de um amor atemporal e único, tão poético e comovente como a voz em que é narrado. Desde a costa do Adriático até aos teatros de Paris, o romance de Dora e Luka faz-nos sonhar com os amores perdidos ao longo da vida e devolve-nos a esperança num final feliz.

Nataša Dragnić nasceu na cidade croata de Split, em 1965. Depois de estudar Filologia Românica e Alemã em Zagreb, frequentou o curso de estudos Diplomáticos. Vive desde 1994 em Erlangen, na Alemanha, onde é professora de Línguas e Literatura. Cada dia, cada hora, o seu romance de estreia, está publicado em 25 países.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

100 Coisas para Fazer Depois de Morrer (Viton Araújo)

Já ouviram dizer que a morte é apenas o início? Pois, parece que é mesmo. E, aparentemente, o além não é tão desprovido de possibilidades de entretenimento como seria de esperar. Por isso, e como a eternidade é coisa para demorar o seu tempo, este livro apresenta cem interessantes dicas de como tirar o máximo proveito da vida depois da morte, desde os primeiros passos em direcção à luz ao fundo do túnel até aos momentos prévios à reencarnação. Independentemente de a que parte do outro mundo a alma tiver sido destinada.
Basta considerar a premissa deste livro para ficar com uma ideia muito clara do que esperar: entretenimento puro e pura diversão. Com textos simples, mas muito divertidos, cada um deles com uma ilustração perfeita para o contexto, cada uma das sugestões de ocupação post-mortem é uma pequena delícia. E nada se perde pela brevidade das explicações. Muito pelo contrário. A explicação sucinta para cada uma das ideias, aliada ao tom divertido (e com um toque de ironia, nalguns casos) com que esta é dada, adequa-se na perfeição ao formato de guia que pretende representar. 
Apesar das explicações curtas, que formam, na totalidade, um livro relativamente pequeno, há, ainda assim, muito a descobrir nesta curiosa abordagem à vida no além. Nenhuma alma é esquecida, esteja destinada ao Paraíso ou a domínios mais quentes. Além disso, a forma como o outro mundo é apresentado, em fragmentos sempre breves, não significa que o cenário seja vago. Não. Na verdade, há toda uma série de conceitos interessantes a descobrir neste livro, desde o funcionamento da função pública no além ao funcionamento do sistema de reencarnação e às formas de pagamento dos serviços disponíveis. Um cenário que tem, afinal, muitas semelhanças com a vida deste lado, o que torna algumas observações particularmente certeiras.
Importa ainda realçar, mais uma vez, as ilustrações de Gustavo Nardini e a forma como, adequando-se na perfeição ao texto que representam, contribuem em muito, quer para a diversão que o livro proporciona, quer para o tornar visualmente cativante. Porque, para além de muito interessantes no seu ponto de vista do outro mundo, estas 100 Coisas para Fazer Depois de Morrer vêm também apresentadas com um aspecto apelativo, o que contribui também para, desde a primeira página, despertar a curiosidade.
Nem longo, nem complexo, mas muito, muito divertido, este é, essencialmente, um livro para entreter e descontrair. E fá-lo da melhor das maneiras, abordando com leveza e muito humor um tema que é sombrio por natureza. Simples, mas muito viciante, um livro que vale muito a pena ler.

Novidade 5 Sentidos


Quatro jovens da sociedade elegante de Londres partilham um objectivo comum: usar os seus encantos femininos para arranjarem marido. E assim nasce um ousado esquema de sedução e conquista. Num refinado baile londrino, Lillian Bowman depressa descobre que a sua educação tipicamente americana não está propriamente  na moda. E encontra no insuportável Marcus, Lord Westcliff, o seu crítico mais implacável. Pena que seja um excelente partido... Quando Lillian cai acidentalmente nos braços de Marcus, vê-se chocada e consumida por uma súbita paixão por um homem que julgava detestar. O tempo parece parar e o corpo da jovem cede ao erotismo do momento, descobrindo sensações que nem sonhava existirem... Marcus, conhecido pela sua constância, também se vê perdido num turbilhão sensual. Cada toque de Lillian é pura tortura, cada beijo o faz gemer por mais. Mas como pode ele pensar em aceitar uma mulher tão pouco adequada para sua noiva?

Lisa Kleypas é autora de 21 romances  já publicados em 12 línguas. Licenciada  em Ciências Políticas, editou o primeiro romance com 21 anos. Os seus livros figuram  constantemente em listas de  bestsellers como o The New York Times e a Publishers Weekly. Os seus romances conquistaram já vários prémios  RITA, o  prestigiado galardão da  RWA (Romance Writers of America). Figura no panteão da literatura de cariz sensual ao lado de autoras já bem conhecidas em Portugal, como Madeline Hunter, Elizabeth Hoyt, Mary Balogh, Emma Wildes ou Nicole Jordan.

Novidades Bizâncio para Outubro


Título: O Perfeito Cavalheiro – Maomé, Jesus e James Bond
Subtítulo: Um rapazinho muçulmano encontra o Ocidente
Autor: Imran Ahmad
Colecção: Vidas
ISBN: 978-972-53-0516-4 
Págs.: 320
Preço: Euros 13,21 / 14,00
Memórias

Uma cativante autobiografia que tomou de assalto o mundo literário, que conquistou o favor da crítica e que tocou o coração de leitores de todo o mundo. Escrito com humor e funda perspicácia, O Perfeito Cavalheiro é a história verídica de um rapaz muçulmano que cresceu dividido entre a sua identidade islâmica e o desejo de integração na sociedade inglesa. Junte-se a Imran na sua luta contra a corrupção e a injustiça, no seu eterno desejo de ser o Perfeito Cavalheiro Inglês (Simon Templar, o Santo) e de ter o carro ideal (Jaguar XJS) e a namorada perfeita (morena, de preferência, mas não necessariamente). Com um estilo original e uma honestidade a toda a prova, o livro aborda temas sérios, — o encontro de civilizações, o prevalecente racismo ocidental — com a candura de um olhar infantil, divertindo o leitor e convidando-o à reflexão.

Título: A Cidade da Saúde
Autor: Artur Portela
Colecção: Autores Portugueses
ISBN: 978-972-53-0514-0 
Págs.: 208
Preço: Euros 12,74 / 13,50
Romance

A Cidade da Saúde destina-se a políticos da saúde, assessores, gestores, seguradores, bastonários, psiquiatras, neurologistas, dream teams da cirurgia, médicos em geral, enfermeiros, doentes, utentes, respectivos familiares, laboratórios, técnicos, farmacêuticos, estudantes de medicina, funcionários dos hospitais e serviços clínicos públicos e privados, maqueiros, empresas de segurança, banqueiros, agências de notação, mercados, todos os manifestantes do 15 de Setembro, etc. É também um livro de auto-ajuda, um mapa do tesouro (ou se quiserem um GPS) que se consulta e se lê com a mais-valia de ser também uma ficção entre realista, satírica e fantástica.

Título: Eu Faço Sexo Amoroso
Subtítulo: A Sexualidades dos Jovens pela Voz dos Próprios
Autor: Cristina Pereira Vieira
ISBN: 978-972-53-0510-2 
Págs.: 304
Preço: Euros 13,21 / 14,00
Sociologia / Sexualidade

Um estudo inovador sobre a sexualidade dos jovens portugueses, um testemunho ímpar

— Amor é uma coisa, sexo é outra.
— É isso é... Eu faço sexo amoroso, digam-me se eu estou certa ou errada... É sexo?

«A palavra, em discurso directo, é dada aos jovens. A autora, utilizando grupos de discussão, recolheu discursos de jovens, entre os 18 e os 23 anos (…) É esta a grande novidade (…). Conhecer, mais de perto, um pensamento e experiências a que dificilmente se tem acesso, pois, tomando as palavras dos próprios, “falar assim descaradamente, tudo direitinho, (só) com o meu namorado... e com a minha melhor amiga”.»

Título: Repensar Portugal
Subtítulo: Apontamentos Político-Económicos
Autor: António Marques-Mendes
ISBN: 978-972-53-0515-7 
Págs.: 208
Preço: Euros 12,74 / 13,50
Política / Economia

«Encontramo-nos numa encruzilhada do tempo, e dela fala o Repensar Portugal... de António José Marques-Mendes»

«Preocupado com a felicidade dos povos, vê no capitalismo de mercado um dos pilares que sustêm o bem da Humanidade, e no capitalismo de Estado um dos males que a afetam. A análise torna-se particularmente viva no modo como descreve a constituição de oligopólios que, em nome das virtudes da privatização, associam o Estado e capitais privados em setores chave da economia, mantendo troca de favores e de cadeiras e desvirtuando a concorrência.»
in Prefácio, de Amadeu Lopes Sabino

Título: Baby Blues 29 – Cocó, Ranheta e Facada  
Autor: Rick Kirkman e Jerry Scott
ISBN: 978-972-53-0509-6 
Págs.: 132
Preço: Euros 11,90 / 12,61
Banda Desenhada

Cocó, Ranheta e Facada traz−nos o habitual em Baby Blues: o Hammie a fazer malabarismos, a Zoe a meter o irmão em sarilhos, a Wren a observar tudo isto e a Wanda assoberbada.

Qualquer semelhança com a realidade, não é pura coincidência.

domingo, 14 de outubro de 2012

Calix Christi (Luís Correia)

Durante umas férias em Linhares da Beira, Luís ouve falar, pela primeira vez, do Gargantas e do tesouro que este se gabou de ter encontrado. Tomada como uma história inventada por simples gabarolice, a suposta existência desse tesouro nunca foi mais que razão de troça para as gentes do lugar. Mas Luís sente-se intrigado e decide saber mais sobre essa história. E quando Liliana, a filha da dona da casa onde se encontra, entra em cena, Luís encontra não só uma parceira de investigação, mas um possível amor. Nos versos deixados pelo Gargantas encontram pistas para aquilo que procuram, mas é preciso agir com o máximo secretismo. E talvez o valor do que estão prestes a encontrar seja maior do que imaginam.
Tendo em conta que a base deste livro é a busca de um tesouro, é curioso notar que os possíveis perigos dessa busca são, afinal, abordados de forma bastante discreta. Apesar do valor dos objectos em questão, as verdadeiras ameaças não são muitas e acabam por se resolver de forma relativamente simples. Não há, portanto, grande acção neste aspecto, sendo o enredo centrado mais na busca e na resolução das pistas e, depois, nas decisões relativas ao que fazer com as respostas que vão surgindo. Isto não torna a história menos envolvente, já que, se os protagonistas não se deparam com grandes obstáculos externos à sua busca, têm, ainda assim, o mistério para resolver. E, no que toca ao mistério, há alguns momentos particularmente interessantes, principalmente no que diz respeito ao engenho na construção dos esconderijos, mas também na forma como os protagonistas agem para manter secretas as suas acções. 
Além disso, há outros aspectos para lá desse mistério que, apesar de serem secundários à linha principal do enredo, acabam por estar na base dos momentos mais cativantes. A caracterização da vida numa localidade pequena - com os característicos mexericos e o ambiente em que todos sabem o que se passa com todos - representa com bastante precisão o ambiente real e a construção dos laços familiares, principalmente do lado de Liliana acrescenta à história um toque de ternura.
A escrita é relativamente simples, mas agradável e envolvente, no geral, e o ritmo, não sendo propriamente compulsivo, acaba por se adequar bem à história. Desta, fica a impressão de que, por vezes, as personagens conseguem evitar alguns conflitos que seriam expectáveis, não havendo grandes dificuldades externas no seu percurso. Ainda assim, o mistério é cativante, assim como a interacção entre personagens.
Trata-se, pois, de uma história agradável e interessante, que, apesar de alguns aspectos (nomeadamente a nível dos obstáculos no caminho das personagens) que poderiam ter sido mais desenvolvidos, apresenta também vários momentos bem conseguidos. Uma leitura cativante, portanto, e que apreciei.

sábado, 13 de outubro de 2012

Sangue Impetuoso (Charlaine Harris)

A convivência com todo o tipo de sobrenaturais deu a Sookie Stackhouse um conhecimento privilegiado do mundo para lá daquilo que os outros humanos sabem. Mas arranjou-lhe também uma série de problemas. Depois do papel que desempenhou na morte de Victor Madden, Sookie sabe que o rei exigirá respostas e, quando uma rapariga aparece morta à porta da casa de Eric, a situação torna-se ainda mais complicada. Há um homicídio para investigar e é necessário colaborar com as autoridades humanas, sem desvendar os segredos dos vampiros. Mas será Eric o culpado, ou terá essa morte alguma relação com o ambiente agitado que se vive entre as fadas que ficaram para trás ou com as lutas pelo poder entre lobisomens? Com o que conhece dos sobrenaturais, Sookie está numa posição privilegiada para obter respostas, mas também numa posição arriscada. Principalmente agora, que sabe ter na sua posse um objecto de poder cobiçado por muitos...
Agora que a série se aproxima do fim e que, aparentemente, muita da hierarquia sobrenatural foi já revelada e a forma como os diferentes seres interagem entre si é já bastante familiar, o que primeiro cativa neste livro é a forma como há sempre algo de surpreendente a surgir. Personagens aparentemente familiares revelam um lado completamente diferente da sua natureza e, em consequência, as circunstâncias mudam, também, de forma drástica. O resultado é uma história cheia de acção, com muitas mudanças inesperadas e em que tanto a vida pessoal de Sookie como o mundo em que se enquadra são abalados pelas revelações.
As relações de Sookie, que, ao longo dos últimos livros, pareceram estabilizar um pouco e passar para um relativo segundo plano, têm, afinal, ainda muito que se lhe diga, já que, sem recuperar o destaque de alguns dos volumes iniciais, a situação amorosa de Sookie sofre, neste livro, novas mudanças. A situação de Eric é delicada, tal como o são as negociações na hierarquia vampírica. Destas, apenas uma parte é abordada, já que a história é contada do ponto de vista da protagonista, mas basta para revelar também algumas das fragilidades do carácter de Eric. Mais uma vez, os sentimentos de Sookie são abalados e, mais uma vez, a força da sua personalidade revela-se em resposta. E é essa personalidade, com uma força inerente, mas com as vulnerabilidades que a humanizam, que a tornam cativante enquanto protagonista de um enredo cheio de perigos e de surpresas.
Sendo este, ao que tudo indica, o penúltimo volume da série, nota-se também a forma como vários acontecimentos se encaminham para um fim. Principalmente no que diz respeito às fadas, mas também nas ligações humanas de Sookie e nalgumas das escolhas que ela própria precisa de fazer, há situações que parecem ter encontrado uma conclusão. Ficam também várias perguntas no ar e pequenos momentos que insinuam possíveis rumos para o último volume, mas há, ainda, vários aspectos em aberto, o que deixa muita curiosidade para ler a conclusão desta série. 
Com uma protagonista forte, capaz de fazer as suas próprias escolhas e de crescer com elas, e um enredo envolvente, com muita acção e cheio de surpresas, Sangue Impetuoso dá continuidade a uma série que já vai longa, mas que tem sempre algo de novo para descobrir. Por tudo isto, é sempre bom regressar a este mundo intrigante, viciante e sempre surpreendente. Muito bom.