Crimes autorizados pelo departamento demográfico confundem-se com os actos de um assassino cujas razões e identidade ninguém parece conseguir desvendar. Uma criança que perde a mãe para um desses crimes autorizados e que cria laços com os filhos do assassino. Um rapaz que quer mudar o mundo criando desenhos que se devem tornar reais. E, no centro de tudo, uma investigadora que não sabe bem que pistas seguir, um livreiro que procura a verdade nas palavras e um homem que regressou de longe com sonhos de mudança. Assim é a vida naquela avenida nos dias antes da revolução. Mas que revolução? Nem eles sabem ao certo...
Parte do que torna este livro cativante está na conjugação entre a simplicidade de alguns momentos (e na inocência das vontades de algumas personagens) e a complexidade resultante de tantas histórias cruzadas. O ambiente parece ser, inicialmente, o da realidade quotidiana, mas cedo revela a sua verdadeira natureza nas características do sistema em vigor. Já com as personagens, o mistério é o factor predominante e as suas escolhas e acções são marcadas não só pelo seu papel no sistema, mas também pela forma como se moldam à mudança e à descoberta dos que com eles interagem. É isso que os torna complexos, mesmo quando a vontade na base é tão simples como a de querer alguém com quem contar. Desejos comuns num cenário diferente dão, assim, forma a uma história - ou teia de histórias - feita de contrastes.
Também a escrita é cativante. Sem ser demasiado elaborada, mas com momentos poéticos que lhe definem um estilo próprio, adapta-se ao conteúdo, dando voz às emoções, pensamentos e palavras das personagens e definindo-lhes uma identidade própria, que se diferencia da voz do narrador. Narrador este que tem as suas opiniões, também, mas que surge como uma presença discreta em complemento à força das personagens.
Apesar das muitas histórias cruzadas e do ambiente de mudança global a aumentar-lhe a complexidade, este é um livro relativamente breve. E essa brevidade leva a que certos elementos sejam explorados apenas na medida em que são essenciais ao rumo das personagens. Fica, assim, a impressão de que mais poderia ser dito, nalguns aspectos, principalmente no respeitante ao funcionamento do departamento demográfico (e do sistema em geral) e a certos mistérios, como o buraco da Loja da Felicidade, que ficam em aberto. Já à história individual das personagens, nada falta, e a conclusão acaba por ser a mais adequada ao seu percurso.
Complexo e envolvente, Metade Maior tem tanto de estranheza como de fascínio no seu mundo, que, apesar de todas as diferenças, se aproxima, por vezes, tanto da nossa realidade. E é essa proximidade, afinal, às personagens e à empatia que as suas circunstâncias despertam, que mantém viva a envolvência despertada pelo mistério. Vale a pena ler este livro.






