terça-feira, 12 de agosto de 2014

Quem Matou o Almirante? (The Detection Club)

Quando o corpo do almirante Penistone é encontrado num barco à deriva, ninguém sabe muito bem o que pensar. Cabe ao inspector Rudge seguir as pistas e descobrir o culpado, mas ninguém parece disposto a facilitar-lhe a vida e prova disso são as várias possíveis testemunhas que, logo a seguir à descoberta do cadáver, partem apressadamente para alegados compromissos noutro lugar. Ainda assim, não basta o êxodo para deter a determinação do inspector em descobrir o que aconteceu. E, através de pistas e declarações aparentemente contraditórias, que apontam para um passado distante e para a cumplicidade de muitos, o caminho para as respostas pode ser longo e surpreendente, mas trará, seguramente, a verdade.
Um dos aspectos mais interessantes deste livro não se prende nem com o enredo nem com a escrita, mas antes com a história que está na sua origem. A história da fundação do Detection Club, dos seus objectivos e da sua continuidade através dos tempos é, por si só, um ponto de partida interessante, principalmente tendo em conta a presença de autores que, ainda hoje, permanecem bem próximos da atenção do público. Além disso, o processo de escrita a várias mãos, quase como que num jogo com regras bem definidas, lança, desde logo, uma nova perspectiva sobre a leitura, já que cria expectativas quanto à forma como cada um dos autores seguintes irá moldar as pistas deixadas pelos anteriores.
Isto leva-nos à história propriamente dita. Nesta, há todos os elementos necessários para dar forma a um bom policial. Um crime de difícil resolução, suspeitos em abundância, um mistério vindo do passado e, com ele, vários possíveis motivos e uma sequência de pistas que abrem caminho a várias respostas possíveis. É a partir destes elementos, pois, que os autores vão desenvolvendo a sua história, sempre tendo em vista a necessária explicação para todos os elementos, mas, ao mesmo tempo, criando novas possibilidades e novas suspeitas. O resultado, claro, é que, com tantos possíveis motivos e tantas personagens com a oportunidade nas mãos, não é muito fácil adivinhar a identidade do responsável. (Ainda que haja, de facto, alguns sinais.
Ao ser o mistério o centro da narrativa, o desenvolvimento das personagens acaba por ficar para segundo plano. Rudge é um protagonista bem desenvolvido e a sua forma de lidar com algumas das personagens proporciona vários momentos interessantes, mas, quanto aos restantes intervenientes, fica a impressão de uma certa distância, talvez porque surgem principalmente enquanto intervenientes no caso, deixando de fora tudo o resto - ou grande parte.
Tudo somado, Quem Matou o Almirante? surge como uma história cativante, com um mistério cheio de surpresas e em que a ideia por detrás do enredo - e do que uniu os seus autores - tem tanto de cativante como o próprio livro. Uma leitura interessante, em suma.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A Escolha dos Três (Stephen King)

Depois do confronto e da longa conversa com o homem de negro, Roland desperta numa praia desconhecida. Aí, encontra perigo, em primeiro lugar. E, depois, três portas que o levarão a outro mundo. É desse mundo e de diferentes pontos no tempo que Roland precisará de trazer os três que moldarão os próximos passos na sua busca da Torre Negra. Mas nenhuma das escolhas será fácil. Eddie Dean é um viciado e encontra-se numa situação delicada. Odetta Holmes perdeu as pernas num acidente e, nesse mesmo episódio, ganhou uma segunda personalidade. E Jack Mort espalha morte pela cidade enquanto se esconde sob a fachada de um homem respeitável. A todos Roland terá de alcançar para trazer para o seu mundo aquilo de que precisa. Mas, fraco e ferido, precisará de toda a sua força de vontade para se manter vivo. E todas as escolhas que fizer terão consequências.
Seguindo na mesma senda do primeiro volume desta série, A Escolha dos Três tem muitos pontos em comum com o anterior O Pistoleiro. A mais evidente delas é a mistura de mistério e de ambiguidade, num enredo em que, para cada resposta, surgem várias perguntas e em que os diferentes mundos, com o que os diferencia e com os traços que têm em comum, se cruzam de uma forma nem sempre fácil de compreender. Disto resulta também a mesma mistura de estranheza e fascínio perante um cenário que é diferente em muitos aspectos, mas em que há muito de cativante - na história, nas personagens e nos próprios lugares.
A forma como a história é contada, em capítulos relativamente curtos e com vários momentos intensos a surgir ao longo do percurso, facilita a assimilação dos momentos de maior estranheza. Mas a verdadeira âncora de toda esta história é Roland. Carismático, com os valores certos e uma consciência bem presente, mas pragmático e capaz de elevar a sua demanda acima de tudo, incluindo as vidas de seja quem for, Roland surge, por vezes, como herói, mas também como anti-herói. E, por isso, a sua presença e as suas escolhas, complexas, como a sua própria personalidade, estão na base de alguns dos momentos mais surpreendentes do livro. E também dos mais emotivos.
Quanto à busca da Torre Negra e ao caminho a seguir, há ainda muitas perguntas sem resposta, quer quanto aos motivos, quer quanto ao que se seguirá. Ainda assim, fica a impressão, no final deste livro, do encerramento de uma fase e, ao mesmo tempo, do abrir de novas possibilidades. E, precisamente por isso, muita curiosidade quanto ao que se seguirá.
Estranho e fascinante, com personagens fortes e uma história cheia de surpresas, A Escolha dos Três conjuga mistério, fantasia, emoção e até mesmo um toque de humor. O resultado é um livro intenso e surpreendente, com vários momentos memoráveis e que promete muito de bom para o que virá depois. Recomendo.

sábado, 9 de agosto de 2014

Vestido para a Morte (Donna Leon)

A descoberta de um cadáver num baldio perto de um matadouro pode não motivar grandes preocupações na sociedade, mas basta para arruinar os planos de férias de Guido Brunetti. À primeira vista, a vítima é um travesti e tudo - ou pelo menos a mentalidade geral - parece apontar para que seja um prostituto que foi morto por um cliente. Mas há pequenas coisas que não batem certo e silêncios que alimentam a suspeita. Aos poucos, as investigações de Brunetti começam a apontar que não se trate de um crime de menor relevância, mas apenas de parte de uma situação bem mais vasta. Mas, à medida que o Commissario se aproxima das respostas, é também mais premente a vontade dos que o querem fazer parar.
Um dos aspectos que sobressai deste livro (como, de resto, de outros volumes desta série) é a caracterização de uma sociedade em que os aspectos menos nobres das mentalidades e das formas de estar na vida são especialmente vincados. Desde os esquemas e os desvios escondidos sob a aparência respeitável, a um preconceito socialmente aceite, o cenário em que a autora desenvolve as suas histórias define-se por características não muito positivas. Mas é precisamente ao destacar estas características e ao apresentá-las como normais aos olhos das personagens (ou, pelo menos, de uma vasta maioria delas) que a autora realça o que há de errado na situação. O efeito acaba o de ser, em certa medida, o de uma reflexão sobre o que não deveria ser.
Isto reflecte-se também na forma como o próprio mistério é gerido, com os interesses dos envolvidos a influenciar comportamentos ao longo de todo o enredo. Mas, para além disso, há também intriga e mistério em abundância, com umas quantas situações de verdadeiro perigo a contrastar com os ocasionais momentos caricatos. Disto resulta um interessante equilíbrio entre leveza e tensão, o que contribui em muito para manter a envolvência do enredo.
Quanto às personagens, fica, por vezes, a impressão de uma certa distância, ainda que atenuada pelo desenvolvimento de alguns aspectos da vida familiar de Brunetti. Em termos de emoções ou de impacto pessoal das coisas, fica a ideia de que uma maior proximidade poderia tornar o enredo mais intenso. Ainda assim, e apesar dessa distância, há nesse aspecto alguns momentos surpreendentes. E, quanto ao caso, a conclusão acaba por ser particularmente bem conseguida.
Trata-se, pois, de mais uma boa leitura, intrigante e agradável, com um cenário que marca pelo muito que tem de invulgar e uma história que, entre as grandes revelações e os momentos peculiares, consegue sempre surpreender. Gostei.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Deusa (Josephine Angelini)

Com os deuses livres para deixar o Olimpo e voltar a percorrer a terra e partes da profecia cada vez mais próximas da concretização, Helena sabe que a guerra com os deuses é inevitável. Mas a verdadeira dimensão dos seus poderes e o papel que lhe está destinado na batalha final são ainda elementos que escapam à sua compreensão. Fugir ao que lhe está destinado e encontrar uma solução que não seja o perpetuar da mesma história que, desde Tróia, foi várias vezes repetida, exigirá de Helena todas as suas forças e uma boa dose de astúcia. Mas, à medida que a sua verdadeira força se revela, há, entre os que considera amigos, quem comece a sentir medo do que ela pode fazer. E esse será apenas mais um dos duros golpes com que terá de lidar...
Volume final da trilogia e, por isso, conclusão de toda a história (ou pelo menos da sua linha essencial), este é o livro onde se encontram muitas das respostas para as perguntas deixadas pelos anteriores. Mas é também aqui que a teia se adensa e que a complexidade das relações, das profecias e dos planos se revela em todo o seu potencial. Assim sendo, o grande ponto forte deste livro não podia deixar de ser o desenvolvimento dos elementos mitológicos e a forma como estes se conjugam num enredo cheio de possibilidades inesperadas. 
Do conflito entre Deuses e Rebentos, e da sua repetição ao longo dos tempos, resultam algumas revelações particularmente interessantes. As memórias recentemente adquiridas de Helena, bem como as misteriosas explicações de Hades, apresentam uma versão alternativa para alguns mitos sobejamente conhecidos, o que acaba por ser um dos aspectos mais surpreendentes em todo o livro. Mas, além disso, as novas descobertas - em termos de capacidades, mas também de explicações para os acontecimentos - servem também para colocar as personagens perante decisões complicadas, o que dá origem a momentos de grande intensidade.
E, falando das personagens e da forma como as suas relações evoluem, há um crescimento bastante evidente nas escolhas que tomam e na forma como encaram o futuro, ainda que continuem a surgir algumas atitudes difíceis de compreender. Com a iminência do conflito e a necessidade de definir uma solução definitiva, os pequenos atritos e as indecisões românticas acabam por ficar para segundo plano. O que acontece, então, é que o romance, quando surge, parece agora bastante mais equilibrado. Além disso, as longamente adiadas revelações acabam por desempenhar um papel muito relevante para o que é, no fim de tudo, um final intenso e surpreendente.
A impressão que fica, pois, é a de uma conclusão adequada, com momentos intensos e respostas surpreendentes, numa história em que nem todas as personagens são perfeitas, mas em que, no fim, tudo se conjuga da melhor forma. Um bom final, portanto.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A Arte de Pensar com Clareza (Rolf Dobelli)

Quando estamos perante uma grande decisão, seja ela profissional ou de âmbito pessoal, tentamos tomá-la da forma mais racional possível. Mas há casos em que os erros de raciocínio acabam por nos levar numa lógica que nem sempre é a que faz mais sentido. Neste livro, o autor apresenta os erros mais comuns e, de forma sucinta, explica as razões que os motivam e as formas de o contornar. O resultado é uma análise sintética, pouco exaustiva, mas que, na generalidade, faz todo o sentido.
O que autor apresenta neste livro é um conjunto de erros comuns e, para cada uns, uma explicação com alguns exemplos (e humor quanto baste) e o raciocínio subjacente. Tudo de forma muito breve, resumindo em poucas páginas o essencial de cada ideia. O que está errado, de que forma o erro se repercute nas decisões e de que forma pode, ou não, ser contornado. Ora, esta forma sucinta e directa de apresentar as coisas permite realçar os elementos essenciais, ao mesmo tempo que, com a brevidade do desenvolvimento e o humor que lhe está associado, transmite uma impressão de leveza no desenvolvimento das ideias. Assim, a leitura nunca deixa de ser cativante, mesmo nos elementos em que as ideias não são assim tão fáceis de assimilar.
O lado negativo da brevidade é que, por vezes, a explicação acaba por ser tão curta que fica a impressão de algo por desenvolver. Há elementos lógicos que são explicados de uma forma muito abreviada, e dos quais fica a ideia de que muito mais poderia ser dito. Claro que o objectivo não é uma explicação exaustiva. Ainda assim, há casos em que teria sido interessante saber mais.
Por último, ainda uma nota sobre a conjugação entre o texto e as ilustrações. Ainda que não sejam absolutamente necessárias à compreensão das ideias, as imagens acabam por funcionar como um complemento ao texto, acrescentando à ideia uma percepção visual. Isto acaba por contribuir, também, para a impressão de acessibilidade - e de quase leveza - que fica ao longo de toda a leitura.
Simples e sucinto, com ideias interessantes e de leitura agradável, este é, pois, um bom livro para considerar os erros mais comuns na tomada de algumas decisões relevantes. Uma leitura interessante, portanto.

domingo, 3 de agosto de 2014

A Lista da Morte (Frederick Forsyth)

O alvo é conhecido simplesmente como um Pregador e, através das ideias extremistas propagadas nos seus sermões, foi a causa de várias mortes, nos Estados Unidos e em solo Britânico. As suas acções fizeram dele um alvo a abater. Mas, sem conhecimento do seu rosto ou do nome verdadeiro, é preciso partir das muito escassas pistas que o Pregador deixou no seu rasto. A missão pode bem revelar-se impossível, mesmo que o responsável por ela tenha todos os melhores meios ao seu dispor. Mas o Batedor não desiste facilmente... e muito menos o fará a partir do momento em que a questão se torna pessoal.
De ritmo relativamente pausado e sem grande desenvolvimento emocional, este livro tem como grande ponto forte a forma como desenvolve o complexo plano de acção em torno da busca pelo Pregador. Envolvendo diferentes agências de informação e formas militares, o autor constrói uma teia em que cada pequeno desenvolvimento é relevante para a conclusão da missão. E isto é desenvolvido de forma gradual, como que ao ritmo da formação dos planos do próprio Batedor. Assim, o que começa por ser uma impressão de dispersão, percorrendo o passado dos protagonistas, mas também acontecimentos que, à primeira vista, parecem ter pouca relevância para o plano central, acaba por dar origem a uma rede de planos e de acontecimentos em que todos os elementos se cruzam para dar forma a uma conclusão em que tudo faz sentido.
Também interessante é que, apesar da distância emocional com que a maioria dos acontecimentos são narrados, o Batedor acaba por ser, ainda assim, um protagonista cativante, em grande medida devido ao carisma e determinação que transparecem das suas acções. Além disso, há um muito bem desenvolvido contraste de mentalidades, evidente no contexto geral, mas tornado mais claro nos traços que diferenciam o Batedor do Pregador. O extremismo de um põe em evidência a tolerância do outro, o que, associado a um acontecimento pessoal, acaba por tornar mais fortes as motivações do protagonista.
Também a forte componente descritiva acaba por reforçar a impressão de distância relativamente ao impacto dos acontecimentos. Ainda assim, a muita informação apresentada pelo autor torna mais fácil a compreensão das complexidades do enredo, ao mesmo tempo que levanta algumas questões relevantes, principalmente a partir do momento em que há elementos externos envolvidos no plano.
Sem nunca chegar a ser uma leitura compulsiva, mas também sem nunca perder a envolvência, este é, pois, um livro que, com um enredo interessante e um protagonista forte, proporciona uma interessante viagem aos meandros da espionagem internacional. Gostei.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Epidemia (Sebastian Rook)

Ainda mal recompostos do confronto com os lampiros, Ben, Jack e Emily pouco tempo têm de tranquilidade, antes da descoberta de uma notícia devastadora. Ben foi infectado com a praga e, dadas as circunstâncias invulgares, a expectável solução de eliminar a fonte da infecção não é suficiente para o curar. Resta-lhes, pois, a esperança de encontrar uma cura em Varsóvia, junto do irmão de Filip, o homem que já antes os ajudou no combate aos lampiros. O problema é que também na cidade os lampiros despertaram. E a cura de Ben pode significar também uma alteração drástica no rumo dos acontecimentos...
Dando continuidade aos acontecimentos narrados em A Praga, mas transpondo grande parte da aventura para um cenário diferente, este é um livro que tem, essencialmente, os mesmos pontos fortes dos anteriores. Cativante, com personagens empáticas, perigo e acção em abundância e os toques ideais de emoção e de humor, também esta é uma história que, sem ser particularmente complexa, consegue manter sempre viva a curiosidade em saber mais. E, ocasionalmente, de surpreender.
Ben, Jack e Emily são personagens que já estão habituados a enfrentar o sobrenatural e, por isso, é expectável uma certa capacidade de reacção. Mas, aqui, é introduzida uma nova circunstância que torna as coisas mais interessantes. O facto de Ben ser infectado com a praga dos lampiros, além de fragilizar os protagonistas, coloca-os numa corrida contra o tempo, o que confere ao enredo uma nova intensidade.
Ainda um outro ponto interessante diz respeito aos novos desenvolvimentos acerca dos lampiros, com as mudanças relativamente à praga a criarem situações cada vez mais difíceis, ao mesmo tempo que justificam uma leve, mas interessante, aproximação ao debate entre ciência e superstição.
Há alguns momentos em que fica a impressão de que mais poderia ser dito, principalmente no que toca aos episódios de maior intensidade emocional. Ainda assim, simples e sucintos no seu desenvolvimento, todos os momentos se conjugam numa história envolvente, com alguns momentos especialmente marcantes e que, ao deixar algumas perguntas sem resposta, cria boas expectativas para o volume final da história.
Leve quanto baste, mas com um surpreendente lado sombrio, este é, pois, um livro à medida das expectativas criadas pelos anteriores. Uma boa história, com personagens cativantes, um toque de humor e um bom equilíbrio entre acção, mistério e emoção. Tudo somado, uma boa leitura.