terça-feira, 7 de outubro de 2014

Novidade Casa das Letras

A implacável ascensão de Catarina, a Grande, vista através dos olhos da jovem espia da imperatriz na Rússia do século XVIII.
Quando Vavara, uma jovem órfã polaca, chega à ofuscante e perigosa corte da imperatriz Isabel em Sampetersburgo, é iniciada em tarefas que vão desde o espreitar pela fechadura até à arte de seduzir, aprendendo, acima de tudo, a ser silenciosa – e a escutar.
Chega, então, da Prússia Sofia, uma frágil princesa herdeira, a potencial noiva do herdeiro da imperatriz. Incumbida de a vigiar, Vavara em breve se torna sua amiga e confidente e ajuda-a a mover-se por entre as ligações ilícitas e as volúveis e traiçoeiras alianças que dominam a corte.
Mas o destino de Sofia é tornar-se a ilustre Catarina, a Grande. Serão as suas ambições mais elevadas e de longo alcance? Será que nada a deterá para conquistar o poder absoluto? 

Eva Stachniak nasceu em Wroclaw, na Polónia, e vive atualmente no Canadá, onde trabalhou na rádio e foi assistente universitária de Inglês e Humanidades. O seu primeiro romance, Necessary Lies, ganhou o Prémio de Primeiro Romance da Amazon.com no Canadá, e o seu segundo romance, Dancing with Kings, foi traduzido para sete línguas. Vive em Toronto, estando a trabalhar no seu segundo romance sobre Catarina, a Grande.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Fome de Fogo (Erik Axl Sund)

Apesar do arquivamento do caso, Jeanette Kihlberg não está disposta a deixar cair o caso dos rapazes assassinados. Mas a vida não pára e, aparentemente, os crimes também não. A morte invulgarmente macabra de um homem de negócios cuja vida parece ter alguma relação com casos passados lança Jeanette numa busca por novas pistas. E, apesar de cada pergunta dar origem a apenas mais perguntas, tudo parece convergir para uma mesma pessoa: Victoria Bergman. O problema é que, por mais esclarecedor que seja a descoberta do passado de Victoria, Jeanette está muito longe de suspeitar do lugar onde esta se encontra no presente...
Dando sequência aos acontecimentos narrados em A Rapariga-Corvo, este livro tem também muitos pontos em comum com o anterior. Desde logo, a multiplicidade de perspectivas e a oscilação entre diferentes pontos no tempo, que, associados aos acontecimentos propriamente ditos, contribuem em muito para manter a tão intrigante aura de mistério que continua a ser um dos grandes pontos fortes. Mas também a complexidade das personagens, da forma como as suas experiências as moldaram e do muito de disfuncional que os seus traumas lançaram sobre as suas vidas. 
Tendo em conta a natureza dos crimes e a sua íntima relação com o passado, há, necessariamente, um lado muito sombrio em toda esta história, lado este que era já evidente no livro anterior. O que acontece é que, com a evolução dos acontecimentos, a história torna-se bastante mais complexa, quer a nível dos crimes propriamente ditos, quer do que é feito para os desvendar ou ocultar, quer ainda das consequências do sucedido na mente das vítimas e daquilo em que estas se poderão tornar. E se o tema é, por si só, bastante complexo, com a questão dos abusos sexuais a ser, nos casos que Jeanette tem em mãos, a vertente dominante, há, ainda, uma série de elos complementares que levam a que, cada vez que a resolução parece estar mais próxima, novas revelações surgem para abalar todas as teorias.
Esta capacidade de dar a volta aos acontecimentos, apresentando novas possibilidades sem eliminar inteiramente as anteriores, contribui em muito para que a leitura se torne viciante. Mas também o desenvolvimento das personagens é relevante, com as suas personalidades complexas e, no caso de Jeanette, as suas circunstâncias pessoais a reforçar a vontade de compreender e de descobrir o que realmente se passa. E, claro, também a própria estrutura narrativa, que, com capítulos curtos, mas num estilo de escrita que, sem se tornar demasiado divagativo, abre ao leitor os pensamentos das personagens, se adequa na perfeição à intensidade dos acontecimentos narrados.
Intenso e viciante, com personagens tão complexas como a teia de acontecimentos em que se movem, Fome de Fogo expande a intriga e o mistério do volume anterior ao mesmo tempo que abre caminho para uma conclusão da qual tudo se pode esperar. Surpreendente e com um lado sombrio estranhamente fascinante, este é, sem dúvida, um livro que vale a pena ler. Muito bom.

domingo, 5 de outubro de 2014

Os Quatro Pontos Corporais (João Reis)

Uma prostituta, um contabilista, um chulo e um polícia. À primeira vista, as suas histórias não têm lá muito em comum, a não ser o facto de, à sua maneira, todos tentarem fazer pela vida. Mas alguns encontros mais ou menos acidentais e umas quantas ligações mais ou menos desconhecidas fazem com que os caminhos dos quatro protagonistas se cruzem numa mesma noite de irreversível mudança. É nessa direcção que os seus percursos se encontram, tendo como elo comum um muito peculiar oponente. Mas, na história, como na vida, nem sempre as pessoas são o que parecem. E o fim do caminho pode bem ser a prova disso...
De todos os aspectos surpreendentes neste livro, e são vários, um dos que mais se destaca é o equilíbrio na forma como as histórias e as vidas dos quatro protagonistas se cruzam. À primeira vista, as diferenças são mais que evidentes e, por isso, quase tudo na forma como os seus percursos se cruzam é inesperado. Ainda assim, tudo parece natural - ou tão natural quanto possível, tendo em conta as circunstâncias - e nada parece forçado. As coisas acontecem, simplesmente, e é incrivelmente fácil imaginá-las.
Este é um ponto surpreendente precisamente porque tudo - ou quase tudo - na história é peculiar, desde o desajeitado contabilista que procura uma prostituta, mas que estabelece com ela uma relação bem diferente da esperada, ao muito peculiar mafioso que aplica à mesma dedicação à cobrança de dívidas ou à aquisição de um saco de nabiças. E, deste cenário quase caricato, mas, ao mesmo tempo, estranhamente credível, surge um olhar inesperadamente sério - ainda que retratado através das mais caricatas situações - sobre a realidade da vida das pessoas, sejam elas mais ambiciosas, mais ingénuas ou, simplesmente, mais estranhas. O resultado é, como não podia deixar de ser, inesperado, já que a narrativa nunca perde a leveza e, por isso, facilmente se torna viciante, mas não deixa por isso de dar voz - e uma voz muito expressiva - a umas quantas grandes verdades.
E de um livro em que tudo é surpreendente não se espera senão que o final também o seja. E é-o, de facto, já que, peculiares em todos os aspectos, as personagens deste livro têm ainda uma última faceta a revelar. Também inesperada, como já se esperava, mas, ao mesmo tempo, de uma intensidade marcante, já que, nos objectivos concretizados ou por concretizar, a situação final dos protagonistas acaba por evocar também a falibilidade de todos os planos.
Intrigante desde as primeiras linhas e surpreendente ao longo de todo o percurso, este é um livro que cativa tanto pela aparente leveza e pelas peculiaridades das personagens como pelo lado sério que, sem elaborações, mas de forma certeira e eficaz, se vai revelando ao longo da narrativa. Muitíssimo bem escrito, com uma história envolvente e tão capaz de divertir como de fazer pensar, fica, sem dúvida alguma, na memória. Recomendo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A Casa Azul (Claudia Clemente)

Para a casa azul convergem todas as memórias, as de uma vida que se tornou de sombras e que as mudanças lançaram em fugas sucessivas. Memórias de uma mulher que viveu momentos de amor, para depois se perder. De duas irmãs que nunca se conheceram, mas que sempre tiveram demasiado em comum. De um agente que seguia uma suspeita e encontrou mais do que procurava. Memórias de onde nasce uma história que converge, ela também, para a casa azul. E em que os pedaços das vidas fragmentadas encontram o caminho de volta ao sentido.
Invulgar na estrutura e na escrita, este é um livro difícil de caracterizar. Feito, em grande parte, de episódios curtos, fragmentos de memórias ou pedaços de introspecção, começa por ser um enigma, em que cada impressão é uma pista para a totalidade, para depois se tornar num cruzamento de vidas, em que a verdade começa a surgir tanto dos episódios contados como do que é deixado por dizer. Introspectivo, apresenta, em cada fragmento, as memórias das personagens como o registo pessoal que são, como que na voz dos seus pensamentos. E, assim, da estranheza de um início em que são poucas as respostas e infinitas as perguntas, tudo evolui para um desvelar de segredos que, no fim da viagem, fará sentido.
Além do registo enigmático, presença constante do início ao fim do livro (até porque nem todas as perguntas têm resposta), sente-se também uma aura de melancolia, um quase pressentimento de tragédias passadas ou por vir. Esta impressão é reforçada pela voz particular de cada um dos protagonistas, já que, em cada pensamento, em cada memória revisitada, há um pedaço da alma que se abre e uma emoção profunda contida em poucas palavras. 
O que me leva ao mais marcante de todos os aspectos deste livro. É que, apesar da brevidade, da forma sucinta com que cada um dos fragmentos é construído, há, espelhada nas palavras, toda uma complexidade de sentimentos e de reflexões. Sem elaborações desnecessárias, mas com um registo, por vezes, quase poético, a voz (ou as vozes) da narrativa impressiona a cada frase e a cada momento. E isso, mais ainda que tudo o resto, fica na memória.
Melancólico e introspectivo, feito de fragmentos de memória (como a própria vida, aliás), este é, portanto, um livro que, partindo da estranheza inicial, constrói uma história complexa e marcante a partir dos mais simples pensamentos. O resultado é uma leitura marcante e surpreendente. Memorável, em suma.

Novidades Planeta

O que faria Salazar hoje? 
O autor do presente conto, que não o assina, pois não deseja que, à semelhança do que aconteceu com o actor da história original, o confundam com o personagem principal, espera que não vejam este trabalho com o sentimento de alguém que faz a apologia do salazarismo e do Estado Novo. 
Deseja tão-somente que se faça hoje uma reflexão dos 40 anos de democracia que já temos, sem esquecer os 40 anos de poder que foi dado a Salazar. 
É nesta intersecção histórica em que nos encontramos que devemos imaginar como seria Portugal se, tal como aconteceu no caso real de Pedro Montoya, aparecesse por aí novamente o ditador Salazar. 
E as consequências deste rompante perdulário foram dramáticas para o povo daquele pequeno-grande país à beira do Atlântico, a braços com crises de vários tipos, atolado em dívidas e em dúvidas sobre o seu futuro, mas muito consciente das glórias do seu passado... 
O que poderia acontecer se, como tantas vezes se ouve nas conversas de café e não só, Salazar regressasse, hoje, a Portugal?

Numa altura em que a troca de ideias se espartilha em um ou dois modelos oficiais de debate, Gabriel Magalhães expõe ideias com uma clareza, um desassombro e uma serenidade que nos faz acreditar que a liberdade de pensamento e opinião ainda existe e é praticável. 
Este livro é um ensaio, no qual se reflecte sobre os actuais dramas da situação nacional, numa perspectiva que é, simultaneamente, crítica e optimista. Não estamos nem perante um doloroso hara-kiri português, nem diante de uma exaltação nacionalista acrítica. 
Também não se trata de um trabalho académico. Pelo contrário, o texto viverá numa certa leveza, que não impede uma intenção de profundidade. 
O ensaísta Gabriel Magalhães, que escreve normalmente sobre os portugueses para os estrangeiros, e que agora o faz directamente para os seus concidadãos, conversa e interpela directamente os leitores num tom directo, claro e conversável.
Partindo da noção de Confúcio de “Caminho do Meio”, explicar-se-á que Portugal foi uma grande nação do fim da Idade Média, porventura a mais brilhante que a Europa teve nesse período. 
Foi assim que o país abriu as rotas da Idade Moderna, no sentido histórico desta expressão. Contudo, esta nação, que rasgou os horizontes da modernidade, nunca achou um modo de se tornar, ela própria, moderna e contemporânea. 
Há um pacto que está por fazer, em Portugal, com a modernidade e com a contemporaneidade. Ao falarmos no “Caminho do Meio português”, referimo-nos precisamente a um esboço, por nós proposto, de como esse pacto se poderia finalmente assinar.

Os Apontamentos Pessoais são um registo de quarenta anos de uma jornada espiritual extraordinária. 
A partir da primeira afirmação decisiva «Estou muito nas mãos de Deus», até a reflexão de que «O tempo está cumprido», e o último Deo gratias (Graças a Deus), acompanhamos Karol Wojtyla – João Paulo II - em momentos-chave da sua vida e ministério.
Em dois cadernos modestos encontramos as suas questões pessoais mais importantes, as meditações e orações profundas e comoventes, que estabelecem o ritmo do dia-a-dia. Mas há também as entradas que são uma prova da preocupação com os próximos – amigos, colaboradores – e com a Igreja confiada a ele. 
Estes apontamentos, apesar de registarem os momentos particulares, vão mais além da vida de João Paulo II, transportando-nos para onde o humano e o divino se juntam numa dimensão da santidade. 
Estas notas pessoais de João Paulo II despertaram um enorme interesse desde o momento da sua morte. 
No seu testamento, o papa deixou instruções para que fossem queimadas pelo Pe. Stanisław Dziwisz, o seu secretário e pessoa mais próxima, que o acompanhou por mais de 40 anos no seu ministério episcopal e papal em Cracóvia e Roma. 
Devido ao seu respeito por João Paulo II, o actual metropólia de Cracóvia não destruiu todos os apontamentos, e apresentou-as à Congregação para as Causas dos Santos, para poderem ser examinadas no processo da beatificação. 
Uma breve leitura foi o suficiente para confirmar que o autor levou uma intensa vida interior que influenciou todas as dimensões da sua actividade.

Björn é um atraente advogado a quem a vida sempre sorriu. É um homem ardente, alérgico ao compromisso e agrada-lhe desfrutar da companhia feminina nos seus jogos sexuais. 
Melanie é uma mulher de acção. Como piloto do exército americano está acostumada a levar a vida ao limite, no entanto, a sua principal missão é a de lutar como mãe solteira pelo bem-estar da filha. 
Quando o destino os põe frente a frente, a tensão entre eles torna-se evidente. O que no começo foi um encontro hostil, pouco a pouco irá converter-se numa atracção irresistível. 
Conseguirão estes dois titãs entender-se?
Com este romance Megan Maxwell supera-se a ela própria. 
Surpreende-me é uma intensa história de amor, povoada de 
fantasias sexuais, tensão e erotismo, onde os protagonistas tratam por tu a paixão. 
Björn é uma personagem incrível, extremamente divertido e 
conquista o leitor a cada capítulo. 
Um romance que prende logo nas primeiras páginas pelas cenas altamente escaldantes.

Sempre quis destruir um livro e nunca teve coragem?
Destrói este Diário é para todos aqueles que sempre quiseram, mas não conseguiram começar, manter ou acabar um diário. 
Este livro foi lançado em 2007 pela ilustradora e autora de best-sellers, Keri Smith, e tornou-se logo um dos presentes de Natal mais procurados do ano. 
Pode ser «lido» sem uma ordem predeterminada. 
Abra uma página ao acaso e deixe-se surpreender. 
Cada página vem com uma proposta diferente e cabe ao leitor interpretar a melhor maneira de a executar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Rio Equilibrium (Ricardo Tomaz Alves)

Unidos pelo amor e por ele banidos, um anjo e um demónio descobrem que o equilíbrio entre o bem e o mal foi comprometido e que só eles, na força dos seus sentimentos, podem criar a semente que restaurará o equilíbrio perdido. A partir das suas essências, esculpem um híbrido a partir da pedra e enviam-no para o meio dos humanos, onde crescerá para se tornar no herói capaz de recuperar o equilíbrio. Mas Rio Equilibrium - assim se chama a nova criação - ganha, com a simples existência, um conjunto de inimigos poderosos. E, da sua aprendizagem até às grandes batalhas, muitos serão os obstáculos a superar.
Com base numa abordagem muito própria ao conjunto de elementos mitológicos que fazem parte deste sistema, este é um livro em que sobressaem principalmente dois aspectos: o potencial do sistema e o cruzamento entre a aprendizagem de métodos de combate e o elemento sobrenatural. O sistema, pela multiplicidade de elementos mitológicos, não só referentes a anjos e demónios, que vão surgindo com o enredo, e pela forma como estes se desenvolvem ao ritmo da jornada do protagonista. E o equilíbrio entre mortal e sobrenatural, na medida em que a essa mitologia se junta um vasto e interessante leque de informações sobre artes marciais, conhecimento que, por si só, já desperta curiosidade.
Dito isto, há uma evolução ao longo do enredo que deixa, por vezes, sentimentos ambíguos. Sente-se, principalmente na fase inicial, uma certa brusquidão na forma de contar a história, com conflitos e decisões a serem narradas de forma apressada. Por outro lado, no que diz respeito à aprendizagem de Rio, há, na exposição das diferentes artes marciais e das filosofias que lhe estão associadas, a impressão de que o objectivo central é perdido de vista. Assim, o que acontece é que a primeira impressão acaba por ser, ao mesmo tempo, de pressa e de confusão.
Ora, este é um aspecto que melhora consideravelmente com o evoluir da história, já que as batalhas e os testes passam de uma mera aprendizagem para algo com um objectivo mais global. Mais uma vez, fica a impressão de que há partes deixadas por explorar e de que mais haveria a dizer sobre as personagens. Ainda assim, com o intensificar da acção, a leitura torna-se mais cativante e os bons momentos - e há, de facto, alguns realmente surpreendentes - deixam antever ainda a promessa de algo muito bom.
A soma de tudo isto é uma história de início vacilante, em que o desenvolvimento das personagens e do sistema poderia ter sido mais explorado, mas que, com bastante potencial e uma evolução positiva, deixa, apesar de tudo, a vontade de ler mais sobre estas personagens. Interessante, portanto.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Sibila (Agustina Bessa-Luís)

Sábia nos conselhos e astuciosa nas decisões, Quina ganhou entre as gentes da terra a reputação de sibila. Mas nem dotes sobrenaturais nem o dom da profecia definem a sua longa e solitária vida. Cerne de uma história que recua aos seus antepassados e se estende para além da sua vida, para Quina convergem memórias e ambições, interesses pessoais e sentimentos intensos. E, no fim de tudo, enquanto o tempo passa, a história de Quina é a do lugar das suas raízes, da casa que manteve de pé apesar das dificuldades e das gentes que, entre amores e ódios, povoam o seu caminho. Sibila sem profecias, mas guia de muitos caminhos, Quina é a humanidade no que a particulariza. E é a sua complexidade que a torna memorável.
Narrada como que ao ritmo da memória, partindo da história de Quina para divagar rumo a outras figuras, passadas e futuras, esta é uma história que, complexa no tempo e nas personagens que a povoam, nunca será de leitura fácil. É necessária toda a atenção para assimilar os muitos pormenores, os cruzamentos entre vidas e os caminhos e escolhas nos rumos de cada personagem. E, assim, o ritmo da narrativa é, inevitavelmente pausado, dispersando-se entre os muitos ramos que constituem a totalidade da história.
A própria escrita contribui para este ritmo pausado, com o seu registo introspectivo e, por vezes, de divagação, mas em que há uma estranha poesia em cada frase e em cada momento narrado. É como se, das próprias palavras se construísse a aura enigmática que rodeia toda a vida da protagonista, uma vida que se constrói sem grandes dramatismos, mas através de pequenos momentos marcantes e de um caminho onde as poucas - mas marcantes - grandes mudanças são como um rasgo de intensidade na calma geral.
O que acontece, então, é que lugares e personagens se vão entranhando, aos poucos, na memória, sem nunca se tornarem completamente conhecidas. Há tanto de revoltante como de comovente nos seus comportamentos e ainda a insinuação de uma maior complexidade naquilo que é deixado por dizer. E, assim, a história deixa de ser apenas a das personagens, mas transforma-se em reflexo de algo de mais vasto. Os interesses e as quezílias que aproximam ou separam as personagens são parte de uma história comum a muitos. E, quanto à passagem do tempo, ou ao surgir de tempos de mudança, há toda uma série de questões que se reflectem no comportamento ou nas ponderações das personagens. Que são apresentadas como suas, mas que se estendem numa perspectiva mais ampla.
O que fica, pois, terminada a leitura, é a passagem de uma impressão de estranheza e de distância à percepção de uma vasta complexidade, onde o particular e o universal se confundem. E onde nada é fácil e tudo exige esforço, mas um esforço que acaba por compensar. Vale a pena, pois.