domingo, 30 de novembro de 2014

O Museu (Susan Verde e Peter H. Reynolds)

Entrar num museu e descobrir que reacções nos despertam as obras de arte que lá se encontram pode ser uma aventura. E é essa aventura, vivida pela protagonista deste livro, a história deste muito breve, mas muito belo livro. Dirigido aos mais novos, mas igualmente cativante a outros olhos, consegue, de forma simples, mas muito bem conseguida, realçar a forma como uma obra de arte pode influenciar as emoções de quem a observa.
Ora, sendo este um livro sobre arte e as emoções que esta desperta, é inevitável que o aspecto visual seja de especial importância. E, tendo isto em conta, importa, desde logo, realçar a forma como as ilustrações de Peter H. Reynolds se adaptam e complementam o texto, tornando mais completa uma história em que as imagens são tão ou mais importantes que as palavras. Além disso, há uma particularidade interessante, na forma como o ilustrador cria a sua própria versão de algumas obras de arte sobejamente conhecidas, acrescentando quadros concretos à viagem da protagonista através da arte.
Quanto ao texto, bastante breve, é tão simples e acessível quanto seria de esperar, sem cair no erro de se tornar demasiado simplista. Leve e divertido quanto baste, nunca se torna óbvio demais, sendo também esta uma das características que fazem com que este livro não seja apenas cativante para os mais novos.
Trata-se, portanto, de um livro bonito, com uma muito boa conjugação entre texto e imagem e com uma bela visão do que a arte desperta em quem a vê. E, por tudo isto, uma boa sugestão de leitura para crianças... e não só.

Para mais informações sobre o livro O Museu, clique aqui.

sábado, 29 de novembro de 2014

O Solar da Torre (Ana Margarida Valente)

Com uma suposta tragédia como base da sua lenda, o solar sempre despertou a curiosidade dos habitantes da vila. E agora, com a chegada dos seus novos habitantes, a vontade de saber mais é ainda maior. Andrash e Ashena, com as suas sobrinhas Maria-Luísa e Dolores, despertam a curiosidade de todos, em primeiro lugar, por serem caras novas num lugar pequeno, e depois pelo empenho que põem em trazer de volta a antiga glória do solar. Mas o que poucos sabem é que eles são uma família com um segredo. Vivos há bem mais tempo que o de uma normal vida humana, fazem parte de um mundo para lá do conhecimento da maioria dos humanos. Mas o que ninguém espera, nem eles, é que essa diferença não chegue para criar barreiras à amizade... ou a algo mais.
Bastante cativante e com uma história que pega nos elementos mais conhecidos do sobrenatural, para lhe acrescentar algo de diferente, este é um livro com bastantes pontos fortes e algumas fragilidades. Os pontos fortes estão na história e no contexto que lhe serve de base. Os fracos no que é deixado por dizer e nos problemas que sobressaem em termos de escrita. Mas vamos por partes.
Em termos de contexto, o mais interessante é que, tendo uma família de vampiros como ponto central, há uma interessante evolução na forma como a sua presença é desenvolvida. Primeiro, há o mistério, associado a uma certa impressão de perigo, mas cedo as personagens revelam uma natureza bastante diferente, já que as suas capacidades sobrenaturais estão associadas a uma consciência bastante definida. Assim, é interessante notar que, entre vampiros e outros sobrenaturais, simples humanos e até uns quantos animais da zona, as ligações que se estabelecem não se fundamentam na natureza das personagens, mas na sua individualidade.
Ora, tendo isto em conta, o outro ponto forte está nas relações que resultam deste equilíbrio. Há um lado sobrenatural bem definido, e disso é prova o desenvolvimento do passado de Maria-Luísa, mas as ligações e os acontecimentos prendem-se tanto com o real e o quotidiano como com os acontecimentos invulgares. E assim, mais que de poderes inexplicáveis ou mistérios a desvendar, a história faz-se da consolidação de afectos e de amizades e da resolução de um problema com origens bem mais mundanas.
Quanto às fragilidades, a primeira prende-se com alguns pontos que são deixados por explorar, nomeadamente no que diz respeito a Thomas, mas também relativamente às possibilidades deixadas pelas revelações finais. Não é que falte alguma informação essencial à linha central da história, mas ficam, ainda assim, muitas perguntas em aberto, para as quais teria sido interessante obter algumas respostas.
O outro ponto fraco - e mais difícil de ignorar -  prende-se com algumas evidentes falhas a nível ortográfico. Há um ritmo agradável na forma como as ideias são apresentadas, mas o que, normalmente, seria uma narrativa fluída, sofre, inevitavelmente, com os frequentes erros ortográficos. O que é pena, porque uma revisão atenta facilmente resolveria a questão.
O que fica, portanto, desta leitura, é a impressão de uma história cativante, com muitas e boas ideias e um bom equilíbrio entre humano e sobrenatural. Características que, felizmente, compensam a quebra de ritmo causada pelas fragilidades de escrita, e que deixam antever bastante potencial para futuras obras. Tudo somado, uma leitura interessante.

Vencedor do passatempo Gata Branca

Terminado mais um passatempo, desta vez com 98 participações, no total, é chegada a altura de anunciar quem vai receber um exemplar do livro Gata Branca.

E o vencedor é...

46. Elisabete Marques (Sintra)

Parabéns e boas leituras!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A Prova do Ferro (Holly Black e Cassandra Clare)

Passar na Prova do Ferro e entrar no Magisterium como aprendiz de mago é o sonho de quase todos os miúdos chamados a realizar o teste. Mas, para Callum Hunt, o objectivo a cumprir é precisamente o oposto. Desde sempre que o pai lhe ensinou os perigos da magia e a necessidade de se manter longe do Magisterium. E é por isso que Callum tudo faz para fracassar na prova, mas o facto é que, apesar disso, não consegue. Contra a vontade do pai - e contra a sua própria - Call vê-se obrigado a partir para o Magisterium, onde o espera um mundo completamente novo, a descoberta de um potencial que nunca julgou ter e o início de um caminho em direcção à verdade sobre quem é.
Com um ambiente a fazer lembrar, em certa medida, o mundo das séries Harry Potter, de J.K. Rowling ou Círculo de Magia, de Debra Doyle e James D. Macdonald, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela forma como equilibra a sensação de familiaridade (causada pelas semelhanças com este mundo) com a sua própria identidade, gradualmente afirmada com cada novo desenvolvimento. Em comum, surge o ambiente de escola de magia, bem como a forte amizade que se estabelece entre os protagonistas, e são precisamente estas características que primeiro cativam para a leitura. Mas cedo surgem também as diferenças, com especial destaque para a personagem de Call que, tudo menos heróico, mas com uma vulnerabilidade especialmente cativante, facilmente desperta empatia.
Mas nem só dessa empatia vive a personalidade de Call e o seu percurso virá a revelar novas e cativantes características. Além disso, há em seu redor todo um mistério, cujas primeiras pistas surgem logo no início, mas com contornos que estarão na base de muitas e boas surpresas. O primeiro ano de Call enquanto aprendiz de mago é uma viagem de descoberta da magia, mas também de conhecimento de si mesmo. E este percurso, cheio de surpresas e de bons momentos, é parte do que mantém viva a vontade de saber sempre mais.
Também muito interessante neste livro é o desenvolvimento do próprio ambiente. Da história e funcionamento do Magisterium às origens do Inimigo da Morte, há toda uma base que, desenvolvida de forma gradual e ainda com muitas possibilidades em aberto, faz deste primeiro volume um muito interessante início para uma história com muito potencial. Claro que ficam muitas perguntas no ar, tendo em conta a forma como tudo termina, mas sendo este apenas o início de uma história maior, é apenas natural que isso aconteça.
Por último, mas não menos importante, falta falar do ritmo da narrativa. Também neste aspecto o que sobressai é o equilíbrio, já que as autoras conseguem apresentar toda a informação relevante em termos de contextualização sem que nada se perca em termos de evolução do enredo. Há sempre alguma coisa a acontecer, seja uma grande revelação, seja um breve momento de humor, seja ainda um episódio mais emotivo. E assim, há sempre uma boa razão para continuar a ler um pouco mais.
O que fica, então, deste A Prova do Ferro é, acima de tudo, a ideia de um início muito promissor. Com personagens fortes, um sistema interessante e um bom equilíbrio entre acção, emoção e um muito agradável sentido de humor, cativa do início ao fim e promete muito de bom para o que se seguirá. Vale a pena ler, portanto. Sem dúvida.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Novidades Planeta

Guarde sempre uma linha para o amor: afinal todos os dias são dias para amar. Na correria dos dias, essa linha fará toda a diferença, a si e à pessoa amada. 
Não precisa de o marcar aqui – só na agenda do coração -, mas, pelo que ler nestas páginas, perceberá como o amor é indispensável aos 365 dias de cada ano. 
Em cada semana há uma citação literária sobre o amor. E no final de cada mês há um separador com uma ilustração e um pensamento. 
A fechar esta agenda um espaço para registar os aniversários, mês a mês, e um calendário até 2020.

Este é o livro que as verdadeiras fãs vão querer ler antes de assistir ao concerto da banda, a 4 de Maio do próximo ano, na maior sala de espectáculos do País, o Meo Arena, em Lisboa. 
Se ainda não ouviu falar deste quarteto australiano, prepare-se. Chegaram há pouco mais de um ano ao site de vídeos do YouTube e já somam mais de 88 milhões de visualizações.
O futuro parece risonho para Luke Hemmings, Michael Clifford, Calum Hood e Ashton Irwin, que vão fazer a sua primeira grande digressão pela Europa, e Portugal é a primeira paragem.
O homónimo e primeiro álbum da banda foi o n.o 1 do top iTunes em mais de 70 países, incluindo Portugal. 
O quarteto australiano já havia conquistado o mundo com o lançamento do único single editado She Looks so Perfect, o qual já tem mais de 1 milhão de unidades vendidas e as visualizações do vídeo no You Tube já ultrapassaram os 24 milhões.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Um Anjo da Guarda (James Patterson e Gabrielle Charbonnet)

Michael é um amigo imaginário e, como tal, deve ser um apoio para as crianças que precisam de ajuda. E dizem as regras que, quando a criança atinge os nove anos, o amigo imaginário deve desaparecer e ser esquecido, passando para uma nova missão. Mas não foi isso que aconteceu com Jane Margaux, a criança solitária e magoada que, além de permanecer nos pensamentos de Michael, o guardou também nos seus. E agora, vinte e três anos passados, quando os caminhos de ambos se voltam a cruzar, ambos sentem que algo de estranho pode estar para acontecer. Jane continua a não ser feliz, apesar do sucesso e do suposto namorado atraente. E Michael, numa pausa entre missões, dá por si perdido em memórias do que foi. Ambos parados num ponto em que nada é como deveria ser, Michael e Jane reencontram-se para que tudo mude. Mas será possível que, da imaginação, possa nascer um verdadeiro amor?
Num registo bastante diferente dos habituais policiais de ritmo intenso e acção constante, este é um livro que tem, ainda assim, alguns pontos em comum com outros de James Patterson. Mantêm-se os capítulos curtos, a escrita directa e pouco descritiva, o desenvolvimento do contexto à medida que a informação vai sendo necessária. Mas, bem distante das histórias de perigo e tensão que caracterizam muitas das séries de Patterson, este é também um livro que surpreende pelo que tem de diferente.
Também uma boa surpresa é a forma como as tais características familiares se adaptam também a este registo. Os capítulos curtos e a escrita directa mantêm a história focada nos acontecimentos principais, alimentando a vontade de saber um pouco mais sobre o que vem a seguir. Além disso, uma boa parte da história é narrada pela voz de Jane, o que cria uma sensação de proximidade, enquanto os restantes capítulos, narrados na terceira pessoa, permitem conhecer o ponto de vista de Michael, permitindo ver o outro lado da história. E claro, a simplicidade da escrita acrescenta uma certa leveza, algo que, tendo em conta o lado emocional da história, é também especialmente cativante.
Mas o lado mais interessante de toda esta história é precisamente a premissa invulgar e a forma como esta é desenvolvida. A ideia de uma relação real entre Jane e o seu amigo imaginário surpreende, em primeiro lugar, pelo que tem de improvável, mas rapidamente se torna cativante, na forma quase inocente como reflecte o afecto e a ternura que definem a relação entre os protagonistas. Além disso, tendo em conta as outras figuras centrais na vida de Jane, o papel de Michael enquanto refúgio na sua vida proporciona momentos especialmente marcantes.
Quanto a Michael e às suas circunstâncias peculiares, ficam algumas perguntas em aberto no que diz respeito àquilo que o humaniza. Neste aspecto, fica, talvez, a impressão de que mais poderia ser dito. Ainda assim, e tendo em conta o rumo da história, contam mais os sentimentos que as explicações e, nesse aspecto, não falta nada de essencial. Desde os primeiros momentos ao final comovente, não ficam na memória as coisas que ficam por contar, mas o afecto que é, no fundo, o cerne de toda esta história.
Enternecedora e envolvente, esta pode ser, no essencial, uma história simples. Mas, repleta de emoção e de afecto, com um casal protagonista que facilmente cativa e vários momentos de surpreendente ternura, é também uma viagem que fica na memória. Uma boa leitura, portanto.

sábado, 22 de novembro de 2014

O Meu Nome É... (Alastair Campbell)

Com uma infância conturbada e uma personalidade sempre menos empática que a da irmã, Hannah nunca se sentiu completamente feliz com a sua vida. Mas estava longe de imaginar que o álcool, o amigo que procurava para a fazer sentir-se bem, seria o caminho para uma infelicidade maior, para si e para todos o que tinha por próximos. É através dos olhos destes que a sua história é contada, desde os primeiros dias de vida e até ao ponto de viragem final, numa luta que nunca é fácil para nenhum dos intervenientes... mas que pode ser, a cada novo desenvolvimento, uma grande lição.
Um dos primeiros elementos a chamar a atenção para este livro é a forma como a narrativa está estruturada. Em termos de escrita, o registo é o habitual no autor, pausado e relativamente introspectivo, com tanta atenção ao que se passa na cabeça das personagens como ao que está a acontecer. Mas o elemento surpreendente é que, apesar de esta ser a história de Hannah, não é a sua voz que conta a história e, na verdade, só chegamos a ouvir Hannah no momento final. Tudo é narrado na primeira pessoa, sim, mas das perspectivas das diferentes pessoas que, de alguma forma, interagiram com a protagonista: pais, amigos, profissionais de saúde, autoridades... Todos têm algo a dizer sobre Hannah e é através dos olhos dele que a sua história toma forma. Uma forma que, curiosamente, em nada distancia a caracterização da protagonista, mas antes reforça a sua complexidade, já que é vista de todas as perspectivas possíveis.
Outro grande ponto forte dos vários que tornam esta leitura marcante é a forma como o autor transmite a sua mensagem - e é uma mensagem importantíssima - sem nunca cair num registo moralista ou em tons de dissertação. O problema do álcool, bem como mais umas quantas questões que, no caso de Hannah, lhe estão associadas, é sempre o grande tema no centro da narrativa, mas, e apesar da necessidade de desenvolver as grandes questões - o que alimenta o vício, as consequências, a necessidade de procurar ajuda - , a mensagem é sempre transmitida mais pelo exemplo do que por palavras. O percurso de Hannah fala, melhor que qualquer sermão, de todas as questões relevantes. E a forma como esta jornada afecta os vários narradores da história reforça bem a relevância de todo o assunto.
Ainda um outro aspecto que importa referir é que, das perspectivas das múltiplas personagens, surge uma percepção mais ampla, não só do carácter de Hannah, mas também das suas relações. Isto é particularmente interessante quando temos personagens em aparente desacordo, ou com ideias bastante diferentes, porque permite ver mudanças para lá de Hannah. No caso dos Harper, em particular, há toda uma série de ideias e alguns preconceitos que são abalados pela entrada de Hannah nas suas vidas. E, também por isso, mas, acima de tudo, pelos elos que se vão estabelecendo, há um lado emocional que surge de forma ténue, mas que se intensifica ao longo da narrativa, criando laços de proximidade que culminam num final impressionante.
Com um tema complexo e um lado muito sombrio, esta não é propriamente uma leitura fácil. Mas, sempre interessante, muito bem conseguido na sua abordagem à questão do alcoolismo e com uma protagonista complexa e empática, é, sim, um livro que chama a atenção, que marca sempre um pouco mais e que, no fim, fica na memória. Muito bom.