terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Balanço de 2014

E lá passou mais um ano. Foi rápido, não foi? Mas foi também um ano muito bom. De menos leituras que 2013 - um total de 237 este ano - mas de muito boas leituras, também 2014 trouxe algumas boas descobertas, uns quantos reencontros e uma ou outra surpresa. De todos os livros que me passaram pelas mãos este ano, não é fácil - nunca é - escolher os melhores. Mas a escolha deste ano é:


Muito bem escrito, com um vasto leque de personagens fortes, um cuidado desenvolvimento do contexto e o melhor dos equilíbrios entre todos os elementos que lhe dão forma, este é um livro que cativa desde as primeiras páginas e nunca deixa de surpreender, marcando tanto pelos momentos de tensão e emoção vividos pelas personagens como pelo contexto em que estas se movem. Sem dúvida alguma, a melhor leitura do ano.


Também um livro belíssimo, com os seus muito vincados contrastes. Da inocência da infância à crueldade justificada pelo preconceito, todo este livro é uma grande lição de humanidade. Uma lição envolvente, muitíssimo bem escrita e cheia de emoção.


Um final de trilogia que talvez não seja o mais desejado para as personagens, mas que é o mais adequado para uma aventura repleta de acção e de emoção, cativante e surpreendente, e com o espírito de sacrifício e a definição daquilo por que vale a pena lutar a surgirem como uma grande mensagem.


Sendo de uma autora que nunca falta nas minhas escolhas de favoritos, este livro é tudo o que seria de esperar. Envolvente, emotivo, com um mundo maravilhoso e um belíssimo equilíbrio entre todas as partes que o compõem. Um delicioso reencontro com personagens já conhecidas e a descoberta de novos caminhos num mundo repleto de potencial.


Supreendente no brilhante equilíbrio entre os aspectos técnicos e a tensão emocional da situação do protagonista, este é um livro que cativa desde cedo e que nunca perde a envolvência. Cativante, intenso e com um protagonista fortíssimo, também este é um livro que fica na memória.


Particularmente brilhante dentro do género, Julia Quinn consegue equilibrar humor e diversão com um lado emotivo muito cativante e um romance que, apesar dos momentos caricatos, nunca deixa de ser credível. São estes os elementos que tornam viciantes os livros da autora e este em particular tem uma história deliciosa.


Cheio de surpresas, com um enredo intenso e personagens muito fortes, este é o início de uma série que promete muito de bom. Com uma história em que, de um momento para o outro, tudo muda, este livro consegue também surpreender com a natureza das personagens que o povoam. Em particular Will Trent, cujo potencial apenas começou a ser desvendado.


Menos surpreendente que o anterior, mas, apesar disso, com muitas qualidades, este é um livro que marca, acima de tudo, pelas emoções que desperta e pela força do protagonista que lhe dá nome. Gabriel é um indivíduo fascinante e isso é razão mais que suficiente para tornar esta leitura memorável.


E mais Julia Quinn. As razões para que este livro esteja nesta lista são sensivelmente as mesmas que para o anterior. Mas importa acrescentar, no que diz respeito a esta história em especial, a forma como a autora desenvolve os fantasmas do passado dos protagonistas sem perder a leveza e o humor que tornam esta série tão cativante.


De ambiente sóbrio e misterioso, com uma história em que o tempo acaba por ser uma personagem por direito próprio, este é um livro que fica na memória por, apesar da distância sentida para com o protagonista, proporcionar uma leitura intrigante ao mesmo tempo que tece considerações sobre o valor do tempo - e do que fazemos dele. 

Planos para o que se segue? Nada de muito específico. Numa palavra, continuar. Continuar a perder-me entre as páginas de tantas e boas histórias que estão por aí à minha espera e continuar a vir aqui partilhar com quem me lê o que achei de todas essas histórias. É essencialmente isso.

E desejos para 2014? Também os de sempre. Por isso, para quem por aqui passa, ficam os votos de um 2015 sempre melhor do que os dias que já passaram. E com muitas e boas leituras, pois claro!

Até para o ano! ;)

A Vida Privada de Ilda Gomes e Outras Histórias (Pedro Freire Costa)

Histórias de vidas normais, traçadas entre o quotidiano e o peculiar. Momentos de percursos distintos, por vezes um pouco improváveis, mas contados com uma familiaridade que os torna próximos. Assim são os contos que compõem este livro, simples, na maioria, mas, de alguma forma, surpreendentes.
A Vida Privada de Ilda Gomes narra os últimos dias da vida de uma mulher reservada. Interessante e escrito de forma envolvente, leva à reflexão sobre as escolhas que fazemos (ou deixamos de fazer) na vida, mas perde um pouco pela forma muito breve como a história é narrada, ficando a impressão de abreviar demasiado a narrativa do que podia ser uma história maior.
Segue-se Amor de Cão, a história de um touro que, como um cão, segue o seu dono. Cativante, ainda que, mais uma vez, sucinto no desenvolvimento, compensa a distância que se sente para com as personagens humanas através da emoção nas acções do touro.
Uma Fina Camada de Pó de Giz fala da morte de um pai e de como as memórias ficam enquanto a vida continua. Um pouco disperso, o que acaba por reflectir de forma adequada a passagem do tempo, cativa pelo registo pessoal e pela forma como as pontuais referências a acontecimentos históricos se cruzam com a história pessoal do protagonista. Mais introspectivo que emotivo, consegue, ainda assim, comover nos momentos certos. E é isso, acima de tudo, que torna este conto memorável.
Marília, pelo Natal retrata alguns momentos de uma família pouco feliz, numa história que, apesar de cativante, parece ter demasiado de improvável em termos de comportamentos. Ainda assim, surpreende a vaga melancolia que consegue transmitir.
Segue-se A Proposta de Óscar, história de uma oferta desagradável, mas talvez irrecusável. Sucinto e sem grandes elaborações, também este é um conto que deixa uma impressão de pressa, mas que, apesar disso, cativa pelo tema e pela intensidade de alguns momentos, bem como pelo final surpreendente.
Noite Estrelada apresenta um homem vulnerável e a forma como as pessoas lidam com ele no lugar por onde deambula. Bastante triste e, talvez por isso mesmo, cativante, pode traçar um retrato muito pouco abonatório das pessoas, mas é precisamente isso que torna esta história tão comovente. De longe, o melhor conto do livro.
Por último, Honra de Jogadores conta a história de uma aposta improvável e das dificuldades em cumprir com o compromisso assumido. Muito peculiar, mas também bastante interessante, este conto surpreende principalmente pela situação improvável que apresenta, mas também pela dedicação das personagens ao plano. Caricato e divertido, conta, acima de tudo, uma boa história.
O que fica da leitura destes contos é, em suma, a impressão de um conjunto cativante, com várias ideias interessantes e algumas histórias especialmente memoráveis. De leitura agradável, com uma escrita envolvente e algumas surpresas muito boas, uma boa leitura.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Valquíria (Kate O'Hearn)

Ao contrário das outras Valquírias, Freya não se sente bem com o seu papel no mundo. Prestes a juntar-se às suas iguais na recolha dos mortos valorosos no campo de batalha, Freya questiona o valor de uma vida medida apenas pelos parâmetros da coragem guerreira. Ainda assim, é o destino que lhe cabe e Freya não tem alternativa a não ser assumir aquilo que é. Mas tudo muda quando o soldado que vai recolher lhe pede pela protecção da família. Nesse momento, Freya começa a ponderar se não haverá mais na vida dos humanos para além da guerra e do ódio. E, para encontrar respostas, sabe que terá de quebrar todas as regras e deixar Asgard para cumprir a promessa que fez ao seu soldado. Mesmo que as consequências sejam terríveis.
Um dos aspectos mais interessantes neste livro é a forma como a autora equilibra os elementos mitológicos com a realidade dos tempos actuais. Asgard corresponde em tudo ao que seria de esperar do território governado por Odin, com a magia e a beleza a contrastar com o constante combate dos guerreiros do Valhalla. O mesmo acontece no mundo dos humanos, com a normalidade a sobressair, apesar de um lado sombrio também bastante presente. O interessante em tudo isto é a forma como os dois cenários se completam, ligando-se com agradável fluidez, mesmo quando a assimilação dos elementos estranhos parece, talvez, demasiado fácil.
Também um ponto central no que torna esta leitura envolvente é a escrita agradável, bastante directa e sem descrições desnecessárias, mas com uma fluidez cativante. A autora não se demora em detalhes, e é certo que haveria mais a dizer sobre o mundo de Freya, mas toda a informação essencial é apresentada, ao ritmo de um enredo em que é a acção - complementada pela medida certa de emoção - o ponto central.
Quanto às personagens, é apenas expectável que Freya se destaque, sendo ela a figura central da história, mas surpreendem, acima de tudo, algumas figuras de papel mais discreto, mas que estão na base de alguns dos momentos mais marcantes. Maya, por um lado, com a sua capacidade de apoiar a irmã mesmo nas escolhas menos sensatas, mas principalmente Azrael, com o papel que tem a desempenhar na atribuição das derradeiras consequências para todo o percurso da protagonista.
De ritmo intenso e com uma boa história, este é, portanto, um livro cativante, com uma protagonista determinada e personagens fortes a dar forma a um enredo em que a percepção do que é certo é tão importante como as regras e as consequências de as quebrar. Uma boa leitura, em suma, e um bom início.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Um Capuccino Vermelho (Joel G. Gomes)

Escritor emergente e assassino profissional, Ricardo sempre teve o cuidado de garantir que as suas duas vidas se mantinham bem distintas. Mas, no momento em que a sua nova lista de alvos lhe chega as mãos, tudo indica que essa sua postura está prestes a ser abalada. As suas cinco vítimas têm óbvios pontos em comum, entre si e também com o próprio Ricardo. Claro que isso não é razão suficiente para o deter, até porque não é o dinheiro que move a dedicação de Ricardo à sua actividade. Mas, no momento em que a sua realidade se começa a confundir com a ficção de uma outra mente criativa, a situação assume contornos inesperados. Afinal de contas, a distância não é assim tanta entre a história de um escritor e a história que um outro tem para contar.
Com uma muito agradável aura de mistério e um percurso de revelações que vai surgindo de forma gradual, mas sempre envolvente, este livro tem como grande ponto forte a forma como molda as barreiras entre a realidade e a ficção. O percurso de Ricardo e a história do seu livro - e, por outro lado, o percurso e a história de João - começa por evocar um ambiente de policial, para depois dar lugar a algo de diferente. E, se é certo que a ideia de uma ficção que se torna real não é propriamente algo de novo, também o é que esta história tem uma voz suficientemente definida para se valer a si mesma. Há semelhanças facilmente reconhecíveis com outras histórias do género, mas há também um percurso individual que a diferencia.
Em termos de escrita, sobressai o registo bastante directo e centrado nos diálogos e a forma como contrasta com os ocasionais momentos de introspecção das personagens. Não há grandes descrições e há, inclusive, momentos que talvez pudessem ter sido mais desenvolvidos, mas o ritmo do enredo nunca deixa de ser cativante, o que, associado às muitas possibilidades que a história apresenta, mantém sempre viva a vontade de saber um pouco mais.
Fica, nalguns aspectos, a impressão de alguns pontos que poderiam ter sido um pouco mais elaborados, nomeadamente no que diz respeito às situações com a polícia (em que alguns dos intervenientes nunca se chegam a definir como personalidades individuais), mas, principalmente, relativamente aos crimes. A descrição bastante sucinta desses momentos acaba por funcionar bem no reforço da dúvida entre o que é real e o que é fruto da imaginação das personagens, mas parte do impacto emocional do momento acaba por se perder.
Considerando tudo isto, o que fica deste livro é uma boa história, com personagens cativantes e um enredo bastante interessante. Uma boa leitura, em suma.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Feliz Natal!


Tempos de festa, de sonho e de luz, estes são os dias de partilhar com a família, mas também com os amigos e com aqueles que nos rodeiam, a melhor parte do muito que temos para dar. Que sejam, por isso, dias de partilha e de afecto, de esperança e fraternidade, para que os tempos que virão depois possam ser - e nós com eles - sempre um pouco melhores.

Feliz Natal a todos os que aqui me visitam e que 2015 seja um ano para muitas promessas e todas as realizações.

Celebrar (Vasco d'Avillez)

O vinho certo para aquela data especial: é esta a premissa para este que, mais que um livro sobre os diferentes vinhos produzidos no país, pretende ser um livro diferente, ainda que seguindo o mesmo tema. Para isso, o autor escolhe as datas mais relevantes do ano, ou os acontecimentos mais importantes, e associa-lhes uma história e uma escolha de vinhos. Tudo isto numa edição organizada, bonita e com uma ideia bastante cativante.
Devo começar por reconhecer que estou muito longe de me enquadrar no público alvo deste livro. Não sendo apreciadora de vinhos (muito pelo contrário), as expectáveis referências a aromas, tonalidades, castas, enfim, todo um conjunto de termos específicos, dificilmente me chamariam a atenção. Por isso, o primeiro aspecto que, para mim, sobressai deste livro é a forma como apresenta algo de cativante mesmo para quem não é um interessado no tema. Quer pelas histórias e lendas que vão sendo referidas, quer pela perspectiva pessoal do autor, este acaba por ser bastante mais que um livro sobre vinhos. E, por isso, mesmo para aqueles a quem o vinho não interessa muito, acaba por haver sempre algo de interessante a retirar da leitura.
Também interessante é a ideia na base da organização do livro, já que as datas e os acontecimentos marcantes acabam por estar na base da escolha não só dos tais vinhos, mas também das referidas histórias. Além disso, há, para lá da escolha e da recomendação de vinhos, um breve, mas esclarecedor, desenvolvimento do contexto de produção e da sua evolução através dos tempos, que - mais uma vez, independentemente de apreciar ou não o produto final - resulta bastante interessante.
E, claro, importa destacar a edição, com um aspecto bonito e equilibrado, imagens que se adequam e complementam o texto e que tornam o livro, além de interessante, bonito enquanto objecto.
O que fica, por tudo isto, desta leitura, é a ideia de um livro que será, seguramente, melhor apreciado por aqueles mais ligados ao mundo do vinho, mas que, ainda assim, apresenta bastantes elementos cativantes para leigos ou desinteressados no tema. Uma leitura interessante, portanto.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Diário de Uma Obsessão (Claire Kendal)

Vigiada a todo o instante pela atenção indesejada de Rafe, um colega de trabalho, Clarissa sabe que tem de tomar uma atitude para acabar com a situação. Mas, apesar de todos os incidentes - presentes indesejados, mensagens perturbadoras, perseguição constante - Clarissa receia não ter ainda provas suficientes. É por isso que vê as sete semanas do julgamento em que terá de servir como jurada como um refúgio para si. Porém, a solução não é assim tão simples e, à medida que acompanha o caso de Carlotta Lockyer, Clarissa começa a ver as fragilidades na sua própria história, ao mesmo tempo que, sem saber o que fazer, vê os comportamentos de Rafe tornarem-se cada vez mais ameaçadores...
Perturbador seria um bom adjectivo para caracterizar este livro. E por duas razões. A primeira é a história propriamente dita, com o comportamento assustador de Rafe e a situação cada vez mais difícil de Clarissa a reflectir um cenário verdadeiramente terrível. A outra razão prende-se com as questões evocadas por essa mesma história. O enredo abre com a perseguição já a acontecer e com Clarissa tendo perfeito conhecimento da situação. Ainda assim, todas as acções parecem insuficientes e mesmo a reacção do sistema - reflectida tanto no caso de Clarissa, como no de Carlotta - leva a questionar a eficácia dos conselhos e das medidas possíveis. Assim, o que acontece é que não só a história propriamente dita perturba, como o mesmo acontece com as possibilidades e as questões que desperta.
Tendo isto em conta, é especialmente interessante notar que, apesar de todo este lado muito sombrio, a leitura nunca deixa de ser cativante. Também isto se deve a duas razões, sendo a primeira a empatia que facilmente se sente relativamente às circunstâncias de Clarissa, o que mantém viva a vontade de saber de que forma se resolverá a situação, e a outra os sucessivos pequenos mistérios que vão sendo acrescentados ao enredo. O estranho comportamento de Robert, o que aconteceu a Laura e que decisão será tomada no julgamento de Carlotta acrescentam à história de Clarissa uma maior complexidade.
Talvez devido a esta convergência de múltiplos elementos, fica a sensação de que algumas perguntas são deixadas sem resposta, principalmente no que diz respeito a Robert. Ainda assim, na linha principal do enredo, que é a história de Clarissa e do seu perseguidor, nada de essencial é deixado por dizer. E, se o final não é exactamente o mais desejado, não deixa, ainda assim, de ser satisfatório.
Intenso e perturbador, este é, pois, um livro sombrio, mas cativante, com uma história que levanta muitas e importantes questões e que, na forma como é contada, mas, principalmente, na realidade que reflecte, se entranha na memória do leitor. Uma boa leitura, portanto.