quarta-feira, 31 de maio de 2017

Blacklist (Alyson Nöel)

Madison Brooks continua desaparecida e Aster é a principal - ou única - suspeita. Nunca se sentiu tão impotente e a verdade é que, apesar da ajuda que o patrão lhe ofereceu, Aster sabe que não há muitas pessoas em quem possa confiar. Mas, acusada de homicídio e prestes a enfrentar um julgamento por um crime que não cometeu, Aster precisa de ajuda para encontrar respostas - e os únicos aliados com quem pode realmente contar são os seus antigos rivais. Tommy, Layla e Aster, na inesperada companhia do ex-namorado de Madison, precisam de seguir as pistas em busca da verdadeira explicação para o desaparecimento de Madison. Mas há uma mão a conduzi-los e não é com as melhores intenções...
Dando continuidade aos acontecimentos de Sem Igual e abrindo caminho para o que promete ser um final cheio de surpresas, este é um livro que funciona, em grande medida, como volume de transição, no sentido em que as personagens conseguem grandes progressos, mas todas as respostas - ou as respostas às novas perguntas que o que descobrem levanta - ficam ainda por desvendar. E assim, é inevitável a grande sensação de curiosidade insatisfeita que acompanha um final onde só uma coisa é certa: a situação complicou-se ainda mais.
Ainda assim, há muito de cativante neste segundo livro, a começar, desde logo, pela evolução das várias personagens, que, a cada novo desenvolvimento, parecem revelar também novas facetas da sua personalidade. Aster, Layla e Tommy parecem crescer com a situação delicada em que, de repente se envolveram. Ryan está muito longe da celebridade egoísta que parecia ser. E quanto a Ira... bem, esse continua a ser um mistério, ainda que as suas poucas aparições pareçam reforçar a impressão de ter um grande papel a desempenhar no último acto.
E se, no que toca às grandes questões, tudo continua em aberto, os episódios vividos pelas personagens não deixam, ainda assim, de proporcionar uma  boa história. Desde a busca de Aster pela verdade ao perseguidor secreto de Layla, passando pelos avanços na possível carreira musical de Tommy e pela nova vida de algumas personagens secundárias, há muito de interessante a acontecer ao longo deste livro. E, apesar da tal curiosidade insatisfeita que fica face ao muito que é deixado sem resposta, as possibilidades são tantas que tudo neste livro promete um final explosivo. E isso aumenta ainda mais a vontade de descobrir o que falta saber.
Tudo somado, fica a impressão de uma história cativante e de leitura agradável, em que tudo fica em aberto para o que virá a seguir, mas em que momentos e personagens avançam, de facto, rumo ao que promete ser um final explosivo. Gostei e aguardo com expectativa o próximo volume.

Título: Blacklist
Autora: Alyson Noël
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Sistema Político Português (Manuel Braga da Cruz)

Vivem-se tempos de mudança na vida política nacional. Com os efeitos da crise e o afastamento cada vez maior entre os políticos e a sociedade, o sistema parece estar num ponto em que é preciso mudar, ou, pelo menos, parece ser essa a perspectiva do autor deste livro. E, para ponderar essa mudança, é preciso analisar a história, sendo desses dois factores - história e propostas de mudança - que é feito este pequeno, mas muito interessante, ensaio.
Um dos primeiros aspectos a sobressair neste pequeno livro é a acessibilidade da linguagem, que, num texto onde considerações, entidades e números abundam e facilmente poderiam tornar o texto maçador. Não é isso que acontece. O autor cinge-se ao essencial da sua perspectiva, fundamentando-a em factos históricos e partindo destes para apresentar a sua visão do que poderia ser a mudança desejada.
Claro que, sendo uma visão individual, há sempre espaço para a discordância e é talvez este o único aspecto em que fica uma certa vontade insatisfeita de saber um pouco mais. Mais sobre as possibilidades alternativas, sobre as mudanças possíveis além da que o autor sugere e também sobre outros sistemas que não os abordados neste livro. Ainda assim, não é esse o objectivo deste ensaio e, tendo esse objectivo em vista, a forma como o texto está estruturado, percorrendo principalmente os fundamentos históricos, para só depois tirar as suas conclusões, parece ser, de facto, bastante adequada.
O que me leva de volta ao ponto de partida: a história. História que parte da revolução e que percorre o percurso evolutivo da democracia, tecendo, é certo, algumas considerações pessoais, mas centrando-se, acima de tudo, nos factos. E é com estes que é possível aprender um pouco mais e, mesmo sem saber muito sobre os meandros da vida política, ficar com uma visão bastante mais clara do sistema e das suas possibilidades de mudança. É esse, parece-me, o ponto mais importante e, nesse aspecto, o livro é muito esclarecedor.
A impressão que fica é, pois, a de um texto relevante, interessante e acessível, com o qual é possível aprender bastante sobre as bases do sistema político nacional e, quiçá, ponderar um pouco mais sobre as suas forças e fraquezas. Vale a pena ler. 

Título: O Sistema Político Português
Autor: Manuel Braga da Cruz
Origem: Recebido para crítica

domingo, 28 de maio de 2017

Cem Maneiras de Melhorar a Escrita (Gary Provost)

Seja uma carta, um romance ou até mesmo uma lista de compras, escrever bem é sempre importante. E se, à primeira vista, as regras podem parecer bastante óbvias, a verdade é que nada é assim tão simples. Neste livro, Gary Provost sugere cem maneiras diferentes de melhorar a escrita. Maneiras essas que não se prendem apenas com o simples cumprimento das regras gramaticais e ortográficas, ainda que estas sejam obviamente importantes, mas que se expandem a aspectos bastante mais subjectivos. O resultado é um conjunto de sugestões pertinentes e cheias de bom senso.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro tem a ver, mais que com as muitas boas ideias que contém, com o tom em que está escrito. Leve, cativante, quase que pessoal e com um toque de humor particularmente certeiro, torna tudo muito mais claro do que se cingisse pura e simplesmente às regras. E isto é particularmente agradável tendo em conta que, como o autor diz, não se trata de imposições, mas de sugestões. Sugestões essas que, sendo bastante claras no que pretendem obter, deixam, ainda assim, muito espaço de manobra aos potenciais escritores que as decidam aplicar.
Outro aspecto curioso destas cem sugestões é que, se virmos bem, muitas delas dizem respeito a coisas que já sabiam - quanto mais não seja porque são conselhos de puro bom senso. Mas, vistas desta perspectiva, com muitos exemplos a realçar-lhes o impacto e uma abordagem tão simples quanto esclarecedora, a sua relevância torna-se muito mais clara. Bem como, por vezes, a inevitável sensação de "como é que eu nunca tinha pensado nisto?"
Depois, há a organização, que, além de inesperada na escolha dos tópicos, realça traços importantes que, à partida, não se analisariam daquela forma. Conceitos como fazer com que o leitor não odeie o escritor, construir um início forte, escrever quando não se está a escrever e outros tópicos igualmente surpreendentes fazem com que as várias sugestões ganhem uma nova perspectiva. E isso é importante não só porque o inesperado as torna mais fáceis de memorizar, mas também porque realça, de uma forma diferente, o impacto de coisas aparentemente tão simples como a aplicação das devidas regras gramaticais.
Não é, nem me parece que pretenda ser, um guia passo a passo para escrever "da forma certa" - até porque não penso que exista uma única forma certa. O que é, sim, é um belo conjunto de ideias e perspectivas úteis que, bastante precisas e com uma ampla margem de aplicação, se moldam, no todo, como um muito bom guia para escrever melhor. Seja um romance, um artigo ou uma simples mensagem escrita. Recomendo.

Título: Cem Maneiras de Melhorar a Escrita
Autor: Gary Provost
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Damião, a Toupeira Furacão (Anna Llenas)

O Damião é uma toupeira com energia para dar e vender - tanta que, às vezes, os professores e os colegas não sabem bem como lidar com ele e acabam por o deixar de parte. De tantas coisas que dizem sobre ele, o Damião já não sabe muito bem o que pensar e isso entristece-o. A energia, essa, é algo que não consegue controlar. Ou será que não é bem assim? A verdade é que o Damião só precisa de um empurrãozinho para descobrir a melhor forma de aplicar a sua inesgotável energia. E, quando isso acontecer, tudo pode ficar diferente.
Muito simples, cheio de cor, com uma história cativante e uma mensagem muito positiva, este é um livro cheio de qualidades e um bom ponto de partida para ensinar a diferença aos mais novos. Diferença que pode assumir muitas formas, mas que, quando se é criança, se vê até nas mais pequenas coisas. A história do Damião, com toda a sua energia transbordante, é apenas um exemplo disso: uma figura cheia de entusiasmo, mas que, em vez de o aplicar em algo que o apaixone, se vê isolado pelos rótulos que lhe atribuem. E, no fundo, é esta a mensagem que torna memorável este pequeno grande livro: diferenças à parte, cada ser é maravilhoso tal como é. 
Mas, se é a mensagem que faz com que este livro fique na memória, também em tudo o resto há muito de bom para descobrir. Na história, que é muito simples, mas muito cativante na forma como acompanha o irrequieto Damião. Na escrita, que, cingindo-se ao essencial, deixa que os acontecimentos falem por si. E na imagem, que se ajusta perfeitamente à história, unindo-se-lhe num equilíbrio muito, muito cativante. 
Todas estas facetas se conjugam num equilíbrio delicado, em que todos os aspectos são igualmente importantes e em que tudo converge para dar à história - e à sua mensagem - a mais forte expressão possível. E, se é esse o objectivo, então a missão cumpre-se em pleno, pois as ideias não podiam ser mais claras e a forma como ganham vida na história dificilmente poderia cativar mais. O que me leva a um ponto que nunca deixa de ser importante referir: como já devem ter reparado, não faço propriamente parte do público a que este livro se destina, mas isso não me impediu de apreciar plenamente a sua leitura.
Bonito, envolvente e muito bem construído, trata-se, portanto, de um livro pensado para os mais novos, mas capaz de cativar leitores de todas as idades. E, com a sua história terna e a mensagem memorável, fica uma certeza depois desta breve leitura: vale muito a pena conhecer o Damião.

Título: Damião, a Toupeira Furacão
Autora: Anna Llenas
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Porto Editora

Henry Page não esperava apaixonar-se. Considera-se um romântico, mas nunca viveu aquele momento em que o tempo para, a barriga se enche de borboletas e a música começa a tocar, sabe-se lá onde. Pelo menos, até ao momento.
Então, conhece Grace Town, a esquiva nova colega de escola, que se veste com roupa de rapaz demasiado grande, apoia-se numa bengala, parece tomar banho poucas vezes e esconde segredos desconcertantes. Não é bem a rapariga de sonho que Henry esperava, mas quando os dois são escolhidos para coordenar o jornal da escola, a química acontece. Depois de tantos anos a salvo do amor, Henry está prestes a descobrir como a vida pode seguir um caminho tortuoso e como, por vezes, os desvios são a parte mais interessante desse mesmo caminho.
Uma estreia brilhante que equilibra humor e corações partidos, lembrando-nos de como o primeiro amor pode ser agridoce.

Krystal Sutherland nasceu em Townsville, Austrália, um lugar que não conhece o inverno. Já adulta, passou por Sydney onde coordenou a revista da universidade que frequentava; por Amesterdão, onde trabalhou como correspondente de um jornal; e Hong Kong. Krystal estagiou na Bloomsbury Publishing e foi nomeada para o Queensland Young Writers Award. Não tem animais de estimação, nem filhos, mas adora dar nomes a objectos inanimados: por exemplo, teve uma bicicleta holandesa chamada Kim Kardashian e um dinossauro pequeno e insuflável chamado Herbert. A química dos nossos corações é o seu primeiro romance.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

E Ficou a Terra (Carla Ramalho)

Filha do senhor da terra, Verónica conhece aquele que virá a ser o seu homem num bar e, em menos de nada, dá por si casada, fruto de terem sido apanhados em flagrante no mais delicado dos momentos. A união, ainda assim, não desagrada a nenhum deles e a relação parece fluir com naturalidade. Mas o marido de Verónica guarda grandes segredos e os tempos que se vivem são de revolução. E as escolhas, os actos e os planos traçados na noite terão duras consequências para a vida que ela sempre conheceu.
Narrada pela voz dos protagonistas e centrada essencialmente nos acontecimentos e percepções de ambos, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pelo registo que adopta, pois, sendo, no fundo, a história de um casal, o romance é, talvez, o mais secundário de todos os elementos que a constituem. Sim, há o encontro, a descoberta, o casamento e a vida depois dele. Mas tudo parece convergir para a revolução em curso, para os planos e para as mudanças e a nova ordem que se instala. E assim, apesar da proximidade das personagens, o enredo acaba por se distanciar um pouco da faceta emocional - realçando antes as diferenças entre os dois mundos em colisão.
Trata-se de um livro relativamente breve e, apesar disso, com um ritmo relativamente pausado. Isto porque, tanto como as experiências e pensamentos dos protagonistas, importa o contexto mais vasto em que estes se movem. As visões diferentes de Verónica e do marido, a forma como entendem a revolução em curso, as ideias que têm a contrapor às dos latifundiários... tudo isto leva o seu tempo a ponderar e, assim sendo, o ritmo da leitura acaba por ser um pouco mais lento. Mas não menos envolvente, já que de tudo isto se retira muito de interessante, não só no que diz respeito ao contexto histórico, mas principalmente na forma como estas percepções moldam a evolução dos próprios protagonistas.
O que me leva ao fim da história, que culmina no que parece ser um ponto de viragem, mas que deixa em aberto várias possibilidades. Deixando alguma curiosidade insatisfeita, mas também a sensação de ser o ponto certo para encerrar a narrativa. De Verónica e do marido, ficam alguns segredos por revelar - não só ao leitor, mas principalmente um ao outro. Mas fica, principalmente, a ideia de um futuro novo, o que, tendo em conta o clima de mudança em que toda a história parece assentar, dificilmente podia ser mais adequado.
A impressão que fica é, em suma, a de uma história simples e cativante, com um olhar bastante preciso sobre as mudanças trazidas pela revolução e uma forma bastante interessante de salientar o choque de mentalidades em tempos de mudança total. Uma boa leitura, portanto. Gostei.

Título: E Ficou a Terra
Autora: Carla Ramalho
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Desaparecida (Elizabeth Adler)

Atingida por uma garrafa de champanhe, uma mulher ruiva cai de um iate e desaparece nas águas do Egeu, no que parece ser um crime sem testemunhas. Mas não, pois, em terra, um pintor assiste à queda e tenta salvá-la. Não a consegue encontrar, é certo, mas Marco está bem ciente do que viu e não está disposto a desistir de tentar ajudá-la da maneira que puder. Principalmente quando as pistas parecem vir ao seu encontro, na forma de um misterioso multimilionário que quer que Marco pinte o seu retrato. Marco vê-se assim dividido entre a sua busca pela verdade e um trabalho que lhe pode trazer grandes vantagens. E, à medida que as ligações começam a tornar-se evidentes, também as suspeitas crescem no seu pensamento.
Com um crime como ponto de partida e vários perigos à espreita a cada momento, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo potencial da história. Primeiro, é claro, pelas circunstâncias de Angie, a rapariga que cai ao mar, e a partir daí, pela forma como planos, buscas e revelações se entrelaçam de uma forma nem sempre expectável. Além disso, dadas as circunstâncias de Angie e os planos de Ahmet há uma constante sensação de algo perigoso prestes a acontecer, o que mantém sempre acesa a curiosidade em saber o que se segue.
Também nas personagens há bastantes pontos de interesse. Angie, vulnerável, mas com uma capacidade de persistir bastante forte, o que torna todos os seus momentos bastante intensos. Ahmet e Mehitabel, em aparência completamente opostos, mas com um fundo comum e uma natureza igualmente capaz de os tornar odiosos e intrigantes. E depois Marco, Martha e Lucy, divididos entre os projectos das suas vidas e o mistério em que entraram sem saber bem como. Todos protagonizam bons momentos. Todos despertam curiosidade. E, nos momentos certos, todos têm um impacto no rumo da narrativa.
Nem sempre é fácil acompanhar o rumo da história, já que a linha temporal dos acontecimentos nem sempre é clara. Além disso, a posição das personagens perante as várias partes do mistério acaba por ser, por vezes, um pouco contraditória, perdendo-se nas suas diferentes componentes - o trabalho para Ahmet, a rapariga desaparecida, os avanços e recuos nos planos e viagens das personagens. Ora, isto torna o enredo um pouco disperso e confuso, o que, não lhe retirando por completo a envolvência, o torna um pouco mais difícil de seguir.
A ideia que fica é, portanto, a de uma história um pouco confusa, mas que, apesar do ritmo ligeiramente errático, consegue cativar pelo lado misterioso da história e das personagens. E isso basta para fazer deste Desaparecida uma leitura agradável e cativante. 

Título: Desaparecida
Autora: Elizabeth Adler
Origem: Recebido para crítica