segunda-feira, 3 de julho de 2017

O Caçador (Mason Cross)

Uma emboscada oportuna, da qual ele parece não ser o alvo, faz com que Caleb Wardell, conhecido como o Sniper de Chicago, fuja de uma carrinha de transporte de prisioneiros poucos dias antes da data da sua execução. E, inesperadamente devolvido à liberdade, Wardell só pensa em fazer o que melhor sabe: matar. É preciso que a alguém o trave antes que a contagem de mortos comece, uma vez mais, a subir. E, para isso, o FBI recorre, ainda que com alguma relutância, a Carter Blake, um indivíduo misterioso cuja profissão é encontrar pessoas que não querem ser encontradas. Integrado na equipa criada para dar caça a Wardell, Blake procura pistas no passado e no rasto que Wardell começa a construir, tentando adivinhar qual será a próxima jogada. Mas, à medida que se aproxima da sua presa, a caça ao homem começa a revelar-se como algo bem mais complexo. Há uma conspiração nas sombras - e Wardell, por mais mortífero que seja, é apenas um peão.
Com um enredo que decorre em poucos dias e um ritmo que, por ser a história de uma caça ao homem, não pode deixar de ser de acção constante, este é um livro que prende desde muito cedo e não larga mais até ao fim. E por várias razões, a primeira das quais é, desde logo, a forma como está escrito. Com capítulos curtos, centrados no essencial, e um conjunto de pontos de vista que permitem uma visão abrangente do que está a acontecer, é fácil entrar no ritmo deste livro, sentir o peso da corrida contra o tempo e acompanhar os raciocínios - e perplexidades - das várias personagens a cada nova revelação. O resultado é uma história intensa, sempre intrigante e cheia de surpresas.
É também o início de uma série, o que significa, inevitavelmente, perguntas sem resposta. Não sobre o caso Wardell, entenda-se. Este tem princípio, meio e fim (e que belo fim), o que significa que não fica nada de essencial em aberto para o que virá a seguir. Já quanto a Carter Blake, a história é bem diferente. Blake é um mistério - sendo, aliás, isso que o torna tão intrigante. E há várias pequenas pistas sobre um passado ainda por explorar, sobre uma história que o moldou na figura discreta e esquiva que surge para resolver um problema que está a criar dificuldades às mais altas autoridades. É aqui que fica a tal curiosidade insatisfeita. Blake é intrigante, Blake tem um potencial vastíssimo. Mas, no fim deste primeiro livro, ainda se sabe muito pouco sobre Blake. Claro que há uma contrapartida nestas respostas que ficam por dar: mais vontade fica de ler os livros seguintes.
Voltando ao caso - e às personagens centrais - deste livro. Claro que a acção é o elemento dominante, mas há ainda um outro aspecto que sobressai: a capacidade do autor de, ao entrar na mente das várias personagens, construir uma intriga que é, não só mais complexa do que parecia, mas também pontuada por picos de inesperada emoção. A história pessoal da Agente Banner, os motivos aparentemente inexplicáveis dos que se movem nas sombras e as inevitáveis consequências de cada escolha acrescentam às decisões e às descobertas um impacto que a simples exposição da acção não lhes poderia dar. E, assim, a história ganha mais vida e mais intensidade - reforçando o impacto das respostas que são dadas... e o potencial das que ficam ainda por dar.
Intenso, intrigante e cheio de revelações, trata-se, portanto, de um livro que cativa desde o início e nunca deixa de surpreender. Não, não dá todas as respostas e há muito potencial que fica em aberto para os próximos livros.  Mas, com um protagonista como Carter Blake, é inevitável a impressão de que o melhor ainda está para vir... 

Título: O Caçador
Autor: Mason Cross
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Vogais

Primeiro governada por reis, Roma tornar-se-ia uma república. Mas no fim, após conquistar o mundo, a república desmoronou-se. Roma afogou-se em sangue. As guerras civis foram tão terríveis, que o povo romano acolheu de bom grado o governo de um autocrata que lhes poderia dar a paz. «Augusto», o seu novo senhor, intitulava-se «O Divino Favorito».
O fantástico esplendor da dinastia fundada por Augusto nunca esmoreceu. Nenhuma outra família se compara em fascínio com a sua galeria de personagens: Tibério, o grande general que acabou os seus dias como um recluso amargurado, célebre pelas suas perversões; Calígula, o mestre da crueldade e humilhação; Agripina, a mãe de Nero, cujas manobras levaram o filho ao poder, e que acabaria por morrer por ordem dele; Nero, que pontapeou a mulher grávida até à morte, que se casou com um eunuco, e que ergueu um palácio de prazer no centro dos escombros de uma Roma destruída pelo fogo.

Tom Holland é autor de Rubicão, O Triunfo e a Tragédia da República Romana (ed. Aletheia, 2008), que ganhou o prémio Hessell-Tiltman for History e fez parte da shortlist do prémio Samuel Johnson. Persian Fire, a sua história das guerras Greco-Pérsicas, ganhou o Prémio Anglo-Hellenic League’s Runciman em 2006.
Já adaptou obras de Homero, Heródoto, Tucídides e Virgílio para a BBC. Em 2007, foi o vencedor do prémio Classical Association, atribuído ao «indivíduo que mais fez pela promoção do estudo da língua, literatura e civilização das antigas Grécia e Roma». É apresentador do programa Making History na BBC Radio 4.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Partidos e Sistemas Partidários (Carlos Jalali)

Imagine-se que, numa festa, um auto-proclamado vidente se afirma capaz de prever os resultados eleitorais de vários países - para depois os apresentar como um conjunto de probabilidades em que a vitória será de um entre dois partidos dominantes. Bem, não é grande previsão, pois não? É precisamente este cenário o ponto de partida deste livro, pois, na verdade, há bem mais que os dois partidos dominantes em vários países. Porque são estes, então, os que mais facilmente alcançam maiorias? De onde vem esta previsibilidade? É a estas perguntas - e mais algumas - que este pequeno ensaio pretende responder.
Com pouco mais de cem páginas e escrito na linguagem clara e acessível que parece ser característica dos livros desta colecção, este é um livro que se pretende claro e completo quanto baste - e é exactamente isso que ele é. Aliás, o primeiro dos seus vários pontos fortes é precisamente o facto de começar com aquela pequena história com que abri este texto. É que, ao estabelecer esta comparação, o autor consegue desde logo criar um paralelismo muito fácil de entender, ao mesmo tempo que desperta curiosidade para os mecanismos subjacentes à tal previsibilidade. A vontade de saber mais surge quase de imediato o que cria logo interesse para prosseguir com a leitura.
Mas, passando da forma como introduz o tema ao tema propriamente dito. Sendo a política palco inevitável de confrontos ideológicos (e não só) poderia, talvez, ser tentador veicular uma posição própria no espectro político. Mas não é isso que acontece. E, ainda bem. Ao cingir-se aos factos, aos mecanismos que regem o sistema e às mudanças que o moldaram ao longo do tempo, o autor transmite uma versão muito mais ampla - e muito mais esclarecedora - sobre os sistemas partidários, das origens ao que os pode abalar. 
Poder-se-á resumir um tema tão complexo a cento e poucas páginas? Bem, se a ideia for transmitir o essencial, eu diria que sim. Claro que fica alguma curiosidade em saber mais, em aprofundar casos específicos ou, simplesmente, em conhecer mais a fundo os mecanismos que fazem mover os meandros da vida política. Mas, se o objectivo for ficar com uma ideia geral ou ficar a conhecer um pouco melhor as bases do mundo da política, então este livro é, sem dúvida, um bom ponto de partida. 
Somadas estas considerações, fica a impressão de um livro claro, agradável e de fácil compreensão. Uma boa forma de ficar a conhecer melhor o mundo partidário e as bases e normas que lhe conferem a sua (im)previsibilidade. Muito interessante.

Título: Partidos e Sistemas Partidários
Autor: Carlos Jalali
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Entre Mortos e Feridos Não Escapa Ninguém (Peter Brooklyn)

Quando o presidente de um grande clube de futebol do norte e o número dois de uma presidente de Câmara acusada de corrupção são encontrados mortos da mesma maneira, não é preciso pensar muito para perceber que há uma relação entre os dois casos. Ainda assim, o inspector Pereira tem um grande problema em mãos. É que tanto o Presidente Castro como o Arquitecto Coentro tinham muitos inimigos interessados em fazê-los desaparecer - e ainda mais segredos que era conveniente abafar. A necessidade de seguir as pistas dos dois casos obriga Pereira a delegar em alguns dos seus agentes de maior confiança e a rumar ao norte para tentar perceber o que se passa. Mas nenhum dos agentes está preparado para os segredos que os esperam... e muito menos para o inesperado de algumas das descobertas.
Relativamente breve e escrito num tom surpreendentemente leve para um policial, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, por umas quantas observações certeiras que contém. Sim, é uma obra de ficção e qualquer semelhança com personagens reais pode muito bem ser pura coincidência. Mas o que é certo é que as semelhanças estão lá e não é difícil olhar para esta história e ver nela alguns reflexos de uma realidade conhecida. Assim, e apesar da tal leveza que parece pautar todo o enredo, ficam ainda assim algumas questões para ponderar, o que acaba por contribuir também para tornar a história mais interessante.
Claro que parte desta leveza deriva também do facto de tudo ser narrado de forma muito sucinta e isto por vezes deixa a sensação de alguma pressa na forma como certas partes do enredo são contadas. Há muitos segredos na vida das vítimas e a forma como são revelados deixa, por vezes, a impressão de que o mistério podia talvez ter-se alongado um pouco mais. Ainda assim, não deixa de surpreender o impacto das revelações, bem como a forma como tudo se encaminha para um final que, mesmo não sendo o mais surpreendente, não deixa ainda assim de ser estranhamente adequado.
E depois há como que um toque suplementar na forma como o inspector Pereira se dedica também a investigar um possível crime do passado. Mais uma vez, fica a sensação de que mais haveria a dizer, até porque este ramo da história surge de forma muito, muito discreta. Mas dá-lhe, ainda assim, um novo toque de mistério que torna tudo ainda um pouco mais interessante.
Breve, intrigante e de leitura agradável, trata-se, portanto, de um policial leve e descontraído, capaz de cativar do início ao fim. Podia ser mais longo? Provavelmente. Mas não deixa de ser uma boa leitura.

Título: Entre Mortos e Feridos Não Escapa Ninguém
Autor: Peter Brooklyn
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Divulgação: Novidade Bertrand

Estamos em 2016 e no mundo de Tom Barren a tecnologia solucionou os grandes problemas da humanidade: não há guerra, nem pobreza, nem abacates pouco maduros. Infelizmente, Tom não é um homem feliz. Perdeu a rapariga dos seus sonhos. E o que é que uma pessoa faz quando está de coração partido e depara com uma máquina do tempo? Faz uma estupidez.
Agora Tom dá por si numa realidade paralela aterradora (que nós reconhecemos logo como sendo o nosso 2016) e só pensa em corrigir o erro e voltar para casa. Mas é então que descobre uma versão encantadora da sua família, da sua carreira e de uma mulher que pode muito bem ser a mulher da sua vida.
Tem agora de enfrentar uma escolha impossível. Regressar para a sua vida perfeita, mas pouco emocionante, ou permanecer na nossa realidade, um mundo caótico, mas onde terá ao seu lado a sua alma gémea. À procura da resposta, Tom é levado numa viagem pelo tempo e pelo espaço, tentando perceber quem é de facto e qual será o seu futuro.
Cheio de humor e emoção, um livro inteligente e caloroso que é uma poderosa história de vida, de perdas e de amor.

Elan Mastai nasceu em Vancouver e vive em Toronto com a mulher e os filhos. É um premiado guionista e este é o seu primeiro romance.

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Nos primeiros segundos de 2017, com o fogo-de- artifício ainda a explodir no céu e a namorada ao seu lado, Duarte recebe um telefonema e fica a saber que tem uma herança à sua espera: um velho envelope com uma chave e um mapa. O nosso herói não resiste e parte à aventura — no entanto, quando, horas depois, abre o baú que o seu avô escondera numa gruta, não consegue evitar um grito de terror.
É o ponto de partida para um remoinho de aventuras, entre aviões da II Guerra Mundial, tesouros da Antiguidade e histórias de piratas, reis e princesas à nora nas praias portuguesas.
Deixe-se levar por este enredo de beijos, espadas, morangos e perseguições e parta em busca do tesouro que um romano escondeu, há muitos séculos, na Ilha de Peniche. São histórias inesquecíveis — e, no meio de mouros, espanhóis, ingleses e portugueses, lá aparece uma baleia a dar uma ajudinha à Padeira de Aljubarrota.

Marco Neves. Nasceu em Peniche e vive em Lisboa. Tem sete ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor. Não são sete? Falta este: é também pai, com o ofício de contar histórias.
É professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e director do escritório de Lisboa da Eurologos. Escreve regularmente no blogue Certas Palavras.
Já publicou os livros Doze Segredos da Língua Portuguesa e A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. A Baleia Que Engoliu Um Espanhol é o seu primeiro romance.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O Grito do Corvo (Sandra Carvalho)

O segredo de Leonor foi revelado e, tendo traído a confiança de Corvo, a sua vida a bordo ficou ainda mais complicada. Mas alimentar ressentimentos pode ser perigoso, pois a Niña del Mar pode aparecer a qualquer momento e os piratas do Rouxinol precisam de estar preparados. Por isso, Leonor precisa de reconquistar a confiança dos piratas e, principalmente, do seu capitão, para poder recuperar o seu lugar enquanto um deles e provar a Corvo a sua lealdade. Até porque a Niña del Mar é apenas um passo e Corvo e Leonor têm outras batalhas pela frente... e inimigos bem mais poderosos à sua espera.
Último volume das Crónicas da Terra e do Mar, e portanto aquele que contém todas as respostas... bem, ou quase... este é um livro em que há sempre algo de empolgante a acontecer, seja nos desafios e nas batalhas que aguardam as personagens, seja na igualmente desafiadora vida sentimental dos protagonistas. Lá porque a verdade veio ao de cima, isso não quer dizer que as coisas se tenham tornado mais fáceis. Muito pelo contrário. Continua a haver muitos desafios e provações no caminho deste grupo de personagens. E a forma como a autora traça este caminho, fazendo de cada momento, seja ele um grande ponto de viragem ou um pequeno instante de paz, um episódio memorável, faz com que não seja fácil largar este livro. Quer-se sempre saber mais, o que acontece a seguir, como é que Leo, ou Corvo, ou Gui, ou seja quem for, vai sair da situação em que se encontra, se se entendem, se se enfrentam, de que forma é que tudo termina. Há sempre uma pergunta que precisa de resposta. E eis que as páginas vão passando, quase sem se dar por isso.
E isto deve-se tanto às histórias como às próprias personagens. Um dos aspectos mais intrigantes desta trilogia é a forma como ninguém é exactamente o que parece ao início, mas, mais do que isso, o percurso de crescimento e de aprendizagem que guia o caminho das personagens. Claro que Leonor é o exemplo máximo de isso, com a sua passagem de menina mimada a mulher forte. Mas todos aprendem algo pelo caminho e aquela personagem que num momento não consegue mais que mexer com os nervos de companheiros e leitor pode, passadas umas quantas páginas, vir a revelar um lado bom que surpreende. Quem são os heróis e quem são os vilões pode ser bastante claro desde o início - mas não há gente perfeita nesta história.
E depois há a escrita - ainda e sempre - e a forma quase mágica com que a autora consegue dar vida às mais pequenas coisas, fazendo-as ganhar intensidade e reforçando-lhes o impacto. Seja na descrição de uma batalha ou num momento de intimidade, tudo parece fluir com total naturalidade, sem momentos forçados nem explicações confusas. A história cresce ao ritmo de que precisa e a voz que a autora lhe dá nunca deixa de cativar.
Fecha-se mais um ciclo com este último livro e parte da magia que ele contém não se consegue descrever em palavras. Por isso, direi apenas o essencial: vale muito a pena acompanhar esta aventura, conhecer Corvo e Leonor e os seus piratas. E descobrir todo o encanto desta história que não posso deixar de recomendar. 

Autora: Sandra Carvalho
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro O Grito do Corvo, clique aqui.