segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Mulher do Camarote 10 (Ruth Ware)

Recentemente assaltada no seu apartamento, Laura Blacklock está bastante fragilizada, mas sabe que não pode deixar passar o que pode muito bem ser a grande oportunidade da sua carreira. A sua chefe está doente e, por isso, Lo foi convidada a ocupar o seu lugar na viagem inaugural de um cruzeiro de luxo. O que ela não sabe é que essa viagem lhe vai mudar a vida - e não da forma que imagina. Pois, quando, durante a noite, ouve o som de um corpo a ser deitado borda fora, Lo lembra-se do medo que sentiu durante o assalto e sabe que não pode simplesmente largar o assunto. Mesmo quando todos lhe dizem que não desapareceu ninguém e as pistas que tem são muito escassas...
Um pouco à semelhança do que acontece em Numa Floresta Muito Escura, uma das primeiras coisas a despertar curiosidade para este livro é a forma como a autora constrói para a sua protagonista um estado mental capaz de suscitar dúvidas. Dúvidas que se estendem não só às personagens que a rodeiam, mas ao próprio leitor, já que as circunstâncias de Laura, e a forma como são narradas, faz, por vezes, questionar a fiabilidade da sua história. E, claro, a explicação nunca é tão simples como o facto de a protagonista ter enlouquecido. Há sempre realmente algum mistério, ainda que nunca seja o que a protagonista imaginou inicialmente. E no caso de Lo, e da situação em que voluntariamente se envolveu, nunca nada é o que parece: nem os aliados, nem os inimigos, nem a própria vítima, o que faz com que cada revelação tenha mais impacto.
Claro que toda esta aura de mistério tem o efeito inevitável de querer saber mais: se houve ou não houve um corpo deitado borda fora; se sim, quem foi o responsável e quem são os possíveis cúmplices; quem é a misteriosa rapariga do camarote 10; e será que as teorias de Lo fazem, afinal, algum sentido? Há sempre uma pergunta em aberto e, quando a resposta surge, além de nunca ser a que se esperava, surge também uma nova pergunta na sequência da revelação. O resultado é uma leitura intensa, viciante e cheia de surpresas, do início ao fim.
Mas há ainda um outro aspecto a sobressair nesta história. Ainda que o enredo se centre, naturalmente, no que se passa a bordo do Aurora, há mais na história do que o mistério a responder. Por um lado, há a história pessoal de Lo, com o trauma do assalto e as relações passadas a moldar a sua forma de agir. E por outro, há o facto de a história se expandir para lá da simples revelação do culpado: as coisas não acabam por se saber quem matou... principalmente se essa pessoa puder voltar a matar. E, mais ainda que a surpresa de conhecer a identidade dos responsáveis, é a luta final pela sobrevivência que confere à fase final do enredo um ritmo simplesmente viciante.
Somadas todas as partes, fica a imagem de um livro empolgante, intenso, com personagens fortes e um enredo cheio de surpresas. Uma viagem misteriosa e fascinante que prende desde a primeira à última página. Recomendo. 

Título: A Mulher do Camarote 10
Autora: Ruth Ware
Origem: Recebido para crítica

Vencedor do passatempo Maresia e Fortuna

E terminou mais um passatempo. Agora, como sempre, é tempo de anunciar quem vai receber um exemplar do livro Maresia e Fortuna.

E o vencedor é...

22. Dália Antunes (Algueirão)

Parabéns e boas leituras!

sábado, 29 de julho de 2017

A Baleia que Engoliu um Espanhol (Marco Neves)

Acaba de começar o novo ano e ainda se ouve o barulho das comemorações quando Duarte recebe a chamada de um amigo do seu avô. O motivo da chamada é um misterioso envelope que o avô lhe deixou, a ser entregue apenas no ano de 2017. E, com tanta curiosidade como o portador da estranha mensagem, Duarte não hesita em deixar tudo para trás e rumar ao Baleal, onde o aguarda o misterioso envelope, com uma chave e um mapa no seu interior. Ora, chave e mapa são apenas a primeira pista para o que consta ser a localização de um tesouro que motivou muitas histórias. E é nessas histórias que estão as pistas para a verdade do estranho tesouro: histórias de amores proibidos, de nazis em fuga, de piratas e romanos e de uma baleia que engoliu um espanhol - que afinal era castelhano e não se sabe bem se foi ou não engolido.
Basta uma olhadela à sinopse deste livro para perceber que há muitas e estranhas histórias no seu interior. E, porém, o livro não chega às duzentas páginas. Estranho? Talvez um bocadinho e, por isso, talvez se espere encontrar histórias contadas à pressa, talvez com muitos aspectos deixados por explorar. Será? Não. Não é. E este é um dos grandes pontos fortes deste (relativamente) pequeno livro: é que, apesar da brevidade, tudo tem precisamente a medida certa. Não, não ficamos a conhecer a fundo a vida e os dilemas interiores das personagens, mas também não é propriamente esse o objectivo. É de uma aventura que se trata, afinal. Ah, e que aventura...
Continuando nos pontos fortes e nas muitas histórias que se entrelaçam nesta aventura, há um aspecto curioso que importa destacar. Num dos vários enredos construídos em torno do misterioso tesouro, um dos protagonistas é um monge que, qual Sherazade, utiliza as suas histórias para prender a atenção da sua amada, deixando sempre uma ponta para contar no dia seguinte. E, curiosamente, o autor faz várias vezes o mesmo neste livro, saltando entre os vários enredos para expandir a história do tesouro, ao mesmo tempo que deixa o leitor suspenso do que poderá ter acontecido àquela personagem em específico. Claro que a curiosidade é irresistível e as páginas vão passando quase sem se dar por elas, pois é preciso saber logo o que se segue. E assim a história flui ao ritmo do vício de se saber mais.
Mas ainda há mais a dizer. É que, além da forma de contar as histórias, também as próprias histórias têm muito de intrigante... e de peculiar... e, acima de tudo, de divertido! E, vistas como um todo, ao ritmo do percurso de Duarte na sua busca pelo tesouro, ganham ainda uma maior dimensão, pois criam uma teia de memórias que é, além de uma aventura muito intensa, uma viagem ao mundo da nostalgia. Quem não gostava de ouvir histórias em pequeno, afinal? Histórias como estas - tesouros, piratas, reis e as suas batalhas... - e outras que este livro acaba por fazer lembrar.
Ah, e quanto à história do tesouro? Bem, essa não posso contar, não é? Mas importa dizer isto: numa aventura onde tudo é, de alguma forma, surpreendente, também o final não podia deixar de o ser. E, mais do que isso, é também a conclusão mais adequada para esta história toda ela feita de histórias dentro de mais histórias.
Leve, breve, intenso e muito divertido: é este, portanto, o retrato que fica deste livro. Uma aventura que salta de história em história para nos lembrar que o maior dos tesouros nem sempre é aquele que mais brilha. Muito bom.

Título: A Baleia que Engoliu um Espanhol
Autor: Marco Neves
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O Prodígio (Emma Donoghue)

Treinada por Florence Nightingale num tempo em que as boas práticas da enfermagem estavam muito longe de estar bem definidas, Lib Wright conquistou a reputação de enfermeira competente. É essa reputação, aliás, que faz com que lhe seja oferecido um trabalho no chamado centro morto da Irlanda. Mas basta-lhe chegar ao destino para perceber que o serviço a prestar não é nada do que Lib imaginava. Ao longo dos quinze dias seguintes, deverá, alternando turnos com uma freira, vigiar a pequena Anna, que afirma viver há quatro meses sem qualquer alimento. Todos ali parecem julgá-la um milagre, mas, céptica perante o que lhe é contado, Lib tem uma opinião bem diferente. Só pode tratar-se de uma fraude. E, decidida a desvendar a verdade, Lib observa a criança com olhos de águia, tomando notas da sua condição e assimilando o seu estranho fervor religioso - ao mesmo tempo que a dolorosa verdade começa a afirmar-se por si mesma: Anna começa a definhar. Mas, se assim é, o que aconteceu durante os outros quatro meses? O que se passa, afinal?
Centrado no que parece ser um facto prodigioso e dividido entre graus de crença e cepticismo, este é um livro em que, inevitavelmente, as complexidades da fé são um elemento crucial. À fé profunda e quase fanática dos O'Donnell opõe-se a visão muito mais prática de Lib. Mas a distância entre a fé e a descrença não é algo assim tão simples como escolher entre um pólo ou outro e entre Anna, a máxima crente, e Lib, a perfeita céptica, há vários graus de afirmação ou negação da fé. E este é, sem dúvida alguma, um dos pontos mais marcantes deste livro, já que o elevadíssimo fervor religioso de Anna, que, de início, parece ser a base de todas as coisas, acaba por revelar outras perspectivas - fazendo sobressair as diferenças entre uma fé ponderada e o fervor excessivo de uma interpretação literal dos ditames religiosos.
E este é apenas um dos vários temas complexos presentes nesta história. Há também o papel da mulher na sociedade da época, retratado na forma como Lib, enfermeira, é muitas vezes vista como inferior aos homens que a contrataram, bem como nas estranhas posições de algumas personagens face a certas revelações sombrias. E há ainda a pobreza geral em que todos os da região parecem viver e que os torna vulneráveis a influências externas, nem todas bem intencionadas. Tudo isto cria um ambiente complexo, delicado, cheio de questões pertinentes, e a mestria com que a autora entrelaça todos estes aspectos é algo de simplesmente fascinante.
O que me leva ao que é talvez o grande ponto forte num livro todo ele cheio de forças: o tom da narrativa. Escrita num registo bastante directo, em que grande parte do impacto das coisas é enfatizado pela acção ou pela descoberta, a história adquire um ritmo inesperadamente intenso e fá-lo desde muito cedo. Primeiro, o mistério do que se poderá passar com Anna prende a atenção. Depois, as sucessivas descobertas e possibilidades alimentam a necessidade de descobrir o que realmente se passa. E, a partir daqui, o impacto de cada revelação, não só na percepção dos factos, mas principalmente a nível emocional, faz com que tudo se torne memorável, desde a determinação de Lib em descobrir o método do que só pode ser uma fraude à tentativa desesperada de salvar alguém que parece não querer ser salvo.
E, claro, tudo culmina num final ainda mais intenso e impressionante, não só pelo impacto dos acontecimentos em si, mas também porque, ao longo do percurso, todas as personagens foram despertando algum tipo de emoção. E, no fim, ficam na memória as dificuldades do caminho, mas também a força de quem o percorreu, rumo a uma conclusão intensa, dura... e inesperadamente adequada.
Complexo, mas inesperadamente viciante e tão marcante nos grandes momentos como nas pequenas coisas, pode-se muito bem dizer que se trata de um prodígio em todos os aspectos, da escrita aos temas que aborda, passando pela construção de um conjunto de personagens tão marcante como a história que têm de percorrer. Um livro que prende desde as primeiras linhas e que não deixa de fascinar até ao fim. Maravilhoso.

Título: O Prodígio
Autora: Emma Donoghue
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Poder da Lady Wifi (ZAG)

Alya cometeu um erro. Na sua ânsia de descobrir a identidade da Ladybug, meteu-se em problemas na escola e agora foi suspensa injustamente durante uma semana. E claro que isso a deixa revoltada. O problema é que essa revolta a torna vulnerável à influência do Falcão-Traça, que, em troca de um favor, a transforma em Lady Wifi. Mais uma vez, a Ladybug e o Gato Noir têm de a travar antes que seja demasiado tarde - até porque um dos planos da Lady Wifi é desvendar a identidade da Ladybug. E parece não querer parar enquanto não conseguir o que quer. Ou, claro, a não ser que fique sem sinal.
Centrado numa aventura independente, ainda que com personagens que transcendem este livro (e, claro, protagonistas também de uma série de desenhos animados), este é um livro que, à semelhança do que acontece com A Fúria da Tempestuosa, cativa, em primeiro lugar, por ser igualmente acessível e cativante independentemente de se conhecerem ou não as outras histórias. Sim, há provavelmente muito mais a saber sobre as personagens além do que é contado neste livro, mas o essencial está lá e é muito fácil captar as relações - amizades, rivalidades, paixonetas - que existem entre as várias personagens. E assim, é fácil entrar nesse mundo, conheça-se já muito, pouco ou nada.
Além disso, o aspecto visual é também muito apelativo, cheio de cor e capaz de acrescentar mais contexto e complexidade aos diálogos, o que, tendo em conta que se trata de uma história cheia de acção, não deixa de ser particularmente relevante. Cada personagem tem traços e poderes muito distintos e isto sobressai também a nível da imagem. E, claro, acção significa movimento e é precisamente a parte visual que melhor transmite esse movimento.
Quanto à história em si, destacam-se dois aspectos. Primeiro, o facto de ser simples e de fácil compreensão para os mais novos, mas suficientemente intrigante para prender a atenção de um leitor mais adulto. E, segundo, a forma como, apesar da relativa previsibilidade do final, não deixa ainda assim de cativar em todos os momentos, proporcionando uma leitura leve e agradável.
Leve, cativante e divertido: assim se pode, pois, descrever esta nova aventura, que, com as suas personagens intrigantes e os seus pequenos mistérios, proporciona uma boa leitura independentemente da idade de quem o lê. Muito interessante.

Título: O Poder da Lady Wifi
Autores: ZAG
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Porto das Almas (Lars Kepler)

Na sequência de uma missão que correu mal no Kosovo, Jasmin ficou entre a vida e a morte e, quando regressou, trouxe consigo marcas difíceis de superar. Ou, pelo menos, foi isso que todos pensaram quando começou a falar numa cidade portuária no além, onde o crime organizado parecia sobrepor-se a uma burocracia complexa. Mas talvez Jasmin não estivesse assim tão louca como todos julgaram, pois, quando um acidente de viação a faz regressar àquele estranho local, o que podia ter sido um sonho perturbado transforma-se numa certeza. Só que Jasmin não estava sozinha nesse acidente e o seu filho, razão da sua vida, corre também perigo. É que, naquele local controlado por poderes ocultos, até a capacidade de voltar à vida pode ser comprada. E, por isso, Jasmin precisa de regressar ao mundo dos mortos para salvar o filho.
Completamente diferente da série protagonizada por Joona Linna, e contudo igualmente cativante, este é um livro em que o primeiro aspecto a sobressair é a estranheza. Estranheza primeiro porque, numa fase inicial, tudo parece progredir muito depressa, o que realça, de certo modo, o choque do contacto de Jasmin com aquele mundo para além da vida. E depois porque, à medida que os pormenores vão surgindo, a verdadeira complexidade desse mundo começa a revelar-se e a intriga começa a ganhar intensidade, num crescendo cada vez mais intrigante e surpreendente que culmina num final cheio de acção.
E estranha seria uma boa palavra para descrever a cidade portuária, com todos os seus mistérios e burocracias inesperadas. Não é propriamente a primeira imagem a vir a cabeça quando se pensa na vida depois da morte e, porém, há neste sistema invulgar e interessante um estranho e muito agradável fascínio. Fascínio, que, associado às circunstâncias peculiares dos que os habitam, abre caminho à tal escalada de intensidade que, a cada nova revelação, parece subir um novo degrau.
Mas, se o cenário é em si mesmo bastante impressionante, com a sua aura sombria e inesperadas complexidades, as personagens não lhe ficam muito atrás. Postas perante circunstâncias difíceis de igualar, reagem de forma inesperada, por vezes, contraditória, mas sempre forte. E, ao fazê-lo, revelam todas as suas forças e também umas quantas vulnerabilidades. Tal como o além não é propriamente o esperado, também as pessoas não são só o que parecem. E isto aplica-se tanto aos aliados improváveis de Jasmin no outro mundo como a algumas das personagens com que interage no mundo "real" - bem como, é claro, à própria Jasmin. O que constrói uma teia de sentimentos ambíguos que faz com que cada assumir de posição acabe por surgir também como uma nova surpresa.
E depois há a escrita, claro. Capítulos curtos, centrados, em grande medida, na acção, mas com descrições eficazes e muito fáceis de visualizar dão a esta leitura um ritmo sempre envolvente, que se destaca nos momentos de maior intensidade, mas que não deixa de cativar em momento algum. Além disso, e apesar de toda a intensidade da acção, há também espaço para uma ou outra pequena reflexão que, sem quebrar o ritmo do livro, conseguem tornar mais próxima do leitor a posição das personagens. Posição que, note-se, nem sempre é fácil de compreender - mas que, no fim, acaba sempre por fazer algum sentido.
Estranha, portanto - e estranhamente fascinante. Assim se poderia descrever esta aventura pelo mundo dos mortos. Sempre envolvente, com personagens fortes e uma história que prende do início ao fim, um bom livro, em suma. 

Autor: Lars Kepler
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 25 de julho de 2017

A Rapariga no Gelo (Robert Bryndza)

Quando o corpo de uma mulher é descoberto debaixo de uma camada de gelo, com evidentes sinais de violência, todos os meios policiais são mobilizados. Principalmente porque Andrea Douglas-Brown, filha de uma figura social de relevo, está desaparecida há algum tempo e tudo indica que possa ser ela a mulher debaixo do gelo. Para chefiar a investigação, Erika Foster é chamada a regressar de um longo retiro - consequência de erros passados - e a retomar o seu papel enquanto inspectora-chefe. Mas Erika não prima pelas sensibilidades políticas e, quando todos esperam que ela aja com todo o tacto perante os poderosos, Erika decide enfrentar os problemas da investigação de frente. Há uma rapariga morta e é preciso descobrir o assassino. Mas Erika ainda não sabe que o caso é mais complexo do que imagina - e que pisar os calos aos poderosos tem sempre consequências.
Centrado essencialmente num caso com princípio, meio e fim, mas com um núcleo de personagens cujas histórias irão para além deste primeiro livro da série, um dos primeiros aspectos a sobressair nesta leitura é o equilíbrio entre o caso central e os pequenos aspectos que definem o passado e as relações entre personagens. Claro que isto é particularmente evidente no que toca à detective Erika Foster, cujo passado é a razão das suas circunstâncias e, como tal, começa aqui a ser desvendado de uma forma muito intrigante. Além disso, este passado acaba por desempenhar um papel importante na evolução da investigação, já que move várias das decisões tomadas. O resultado é um equilíbrio bastante intrigante entre o caso principal, aquilo que já é dito sobre a história prévia de Erika (e não só) e as possibilidades que parecem insinuar-se sobre os volumes seguintes da série.
É claro que grande parte da narrativa gira em torno do caso e também este tem muito de cativante. Desde as tentativas de influenciar a investigação por parte dos poderosos (e as motivações por detrás destas tentativas) à sequência de passos, erros e novas pistas que definem o rumo da investigação, há sempre algo de interessante a acontecer e a forma como o autor conta a sua história, em capítulos curtos e em que a informação vai surgindo à medida que é necessária, realça a intensidade dos acontecimentos. Além disso, as reviravoltas no enredo levam a novos momentos de tensão e de perigo, criando um crescendo de intensidade que culmina num final particularmente forte - o que, num livro como este, é crucial para o tornar memorável.
Mas, voltando às personagens. Ainda que o ritmo intenso da investigação faça com que quase tudo se centre no objectivo comum de resolver o caso, há, ainda assim, muito de intrigante nas relações entre personagens. Erika, recém-chegada, desperta sentimentos contraditórios. E a forma como a sua presença influencia aqueles que a rodeiam, criando reacções intensas e, por vezes, também contraditórias, parece começar a construir uma teia de relações que se prolongará para lá deste primeiro livro. Para já, estabeleceram-se lealdades, amizades e rivalidades. E, a partir deste ponto, o que vem a seguir não pode senão despertar muita curiosidade.
Intenso, intrigante e com um núcleo de personagens bastante coeso, trata-se, portanto, de um livro forte que é também um início de série muito promissor. Envolvente do início ao fim, surpreendente em todos os momentos certos e com uma história sempre cativante, uma leitura a não perder para quem gosta de um bom policial. Recomendo.

Título: A Rapariga no Gelo
Autor: Robert Bryndza
Origem: Recebido para crítica