sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A Súbita Aparição de Hope Arden (Claire North)

Ninguém se consegue lembrar de Hope Arden. É uma condição que ela tem. Começou quando tinha dezasseis anos e, quando todos a esqueceram por completo, amigos e família incluídos, Hope percebeu que nunca poderia ter uma vida normal. Assim, decidiu escolher o único caminho possível e tornou-se ladra - pelo desafio, por revolta, por simples sobrevivência. Mas agora Hope está diante do maior desafio de sempre. Graças ao Perfection, uma aplicação de estilo de vida que leva todos a aspirar à vida perfeita - corpo perfeito, amigos perfeitos, fortuna perfeita - uma mulher de quem gostava e que considerava amiga (embora todos os dias se conhecessem pela primeira vez) morreu. E isso faz com que Hope anseie por algum tipo de justiça ou vingança. Mas o que começa como um simples roubo de diamantes não tarda a revelar-se uma batalha bem mais longa. A Prometheus, criadora do Perfection, sente-se afrontada com o roubo e quer que a ladra seja apanhada. E Hope...quer o Perfection destruído, seja de que forma for...
Partindo de um elemento estranho e construindo, a partir dele, toda uma aventura, este é um livro em que o primeiro elemento a destacar-se é, inevitavelmente, a forma como o improvável se torna natural. A condição de Hope, tal como é descrita, torna a sua vida difícil de conceber, à primeira vista - alguém que é visto e esquecido, quase de imediato. Mas a forma como a autora desenvolve este elemento, fazendo do percurso de Hope uma jornada de crescimento e, ao mesmo tempo, uma missão para lá de si mesma, faz com que o que começa por ser estranho rapidamente se torne um dado adquirido. Hope é esquecida - e isso não tarde a ser simplesmente um facto que a caracteriza. E, claro, o facto de a história ser narrada pela voz da protagonista contribui também para esta naturalidade, já que, a cada novo momento, as emoções e pensamentos de Hope estão lá para reforçar o impacto do sucedido. 
Há ainda dois outros aspectos a destacar neste livro todo ele cheio de qualidades. Primeiro, a escrita, com os seus traços peculiares a marcar a diferença, ao mesmo tempo que os acontecimentos, emoções e reflexões que expressam lhe conferem a devida fluidez. E, depois, a capacidade de entrelaçar numa história que é, afinal, profundamente pessoal - ou não fosse a condição de Hope a raiz central de toda a narrativa - um vasto conjunto de temas relevantes. Destes, sobressai, naturalmente, o ideal da perfeição, e a forma como esse ideal pode ser usado com intenções menos nobres, tendo em vista o lucro, a influência ou algum tipo de controlo, mas também a influência da sociedade enquanto formadora de carácter, a estratificação social entre pobres e ricos, belos e feios, homens e mulheres. E, mais uma vez, a narração na primeira pessoa intensifica a percepção, pois a forma como Hope analisa estas questões e as encaixa na situação que está a viver põe-nas num muito claro contraste em relação à visão dos que a rodeiam. 
Mas, mais interessante de tudo (e, acreditem, é tudo muito interessante) é a forma como todas estas questões se encaixam num enredo cheio de acção e de surpresas. Enquanto ladra, Hope enfrenta vários desafios complicados. E, a partir do momento em que o seu caminho se cruza com o Perfection, a situação torna-se ainda mais intensa. O que se segue é uma história cheia de aventuras, de momentos de perigo e de acção, de planos e intrigas, descobertas e revelações. Há sempre algo de importante a acontecer, outro passo a dar, um novo segredo a descobrir. E se, no meio de tudo isto, há crescimento e emoção, tanto melhor, pois Hope, protagonista complexa, humana, carismática, falível, tem uma alma maior do que ela própria se atreve a admitir. E também isso faz parte do que torna o seu caminho tão memorável.
Com uma protagonista fascinante e um enredo repleto de surpresas na sua complexidade, eis, pois, um livro que aborda a perfeição para chegar muito perto do tema que lhe serve de base. Intenso, viciante e cheio de momentos marcantes, um livro que surpreende até nos mais pequenos aspectos - e que, por todas as razões e mais algumas, dificilmente se esquecerá. Brilhante.  

Autora: Claire North
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Presença

Natal de 1558. O jovem Ned Willard regressa a Kingsbridge, e descobre que o seu mundo mudou.
As velhas pedras da catedral de Kingsbridge contemplam uma cidade dividida pelo ódio de cariz religioso. A Europa vive tempos tumultuosos, em que os princípios fundamentais colidem de forma sangrenta com a amizade, a lealdade e o amor. Ned em breve dá consigo do lado oposto ao da rapariga com quem deseja casar , Margery Fitzgerald.
Isabel Tudor sobe ao trono, e toda a Europa se vira contra a Inglaterra. A jovem rainha, perspicaz e determinada, cria desde logo o primeiro serviço secreto do reino, cuja missão é avisá -la de imediato de qualquer tentativa quer de conspiração para a assassinar, quer de revoltas e planos de invasão.
Isabel sabe que a encantadora e voluntariosa Maria, rainha da Escócia, aguarda pela sua oportunidade em Paris. Pertencendo a uma família francesa de uma ambição brutal, Maria foi proclamada herdeira legítima do trono de Inglaterra, e os seus apoiantes conspiram para se livrarem de Isabel.
Tendo como pano de fundo este período turbulento, o amor entre Ned e Margery parece condenado, à medida que o extremismo ateia a violência através da Europa, de Edimburgo a Genebra. Enquanto Isabel se esforça por se manter no trono e fazer prevalecer os seus princípios, protegida por um pequeno mas dedicado grupo de hábeis espiões e de corajosos agentes secretos, vai-se tornando claro que os verdadeiros inimigos, então como hoje, não são as religiões rivais.
A batalha propriamente dita trava-se entre aqueles que defendem a tolerância e a concórdia e os tiranos que querem impor as suas ideias a todos, a qualquer custo.

Ken Follett tinha 27 anos quando escreveu The Eye of the Needle, o premiado thriller que veio a tornar-se um aclamado bestseller internacional. Na década seguinte, em 1989, surpreendeu os leitores com Os Pilares da Terra, uma magnífica obra sobre a construção de uma catedral em plena Idade Média, que continua a cativar milhões de leitores em todo o mundo; em 2007, surgiu a muito aguardada sequela, Um Mundo Sem Fim, que chegou ao topo das listas dos livros mais vendidos nos EUA, no Reino Unido e em toda a Europa. Mais recentemente, escreveu a aclamada trilogia O Século, de que fazem parte os volumes A Queda dos Gigantes, O Inverno do Mundo e No Limiar da Eternidade. O seu romance mais recente, Uma Coluna de Fogo regressa à saga dedicada ao ciclo de Kingsbridge.



Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Divulgação: Novidades Topseller

Nesta nova aventura, Paris é o cenário de mais uma investigação da agência internacional Private.
Alguém anda a pintar um misterioso graffito nas paredes e muros de Paris. Quando este começa também a surgir ao lado dos corpos de várias figuras ilustres da cultura francesa, assassinados e expostos como que a pedir que a polícia os encontre, Jack Morgan e a Private são chamados a intervir.
Kim Kopchinski, neta de um dos mais antigos e estimados clientes de Jack, está em sarilhos. Ligou a pedir ajuda ao avô e o telefonema foi feito a partir de um dos bairros sociais mais perigosos da capital francesa.
Estes dois casos levarão a equipa da Private a todos os cantos da Cidade Luz, desde os ambientes luxuosos das altas esferas da cultura aos mais sórdidos recantos do Bosque de Bondy, enfrentando traficantes de droga, terroristas e assassinos, dispostos a tudo para conseguirem o que pretendem.
Um thriller emocionante, imprevisível e vertiginoso, com toda a acção imparável que caracteriza James Patterson.

James Patterson é desde há vários anos o autor n.º 1 absoluto em todo o mundo, segundo a revista Forbes. Patterson já criou mais personagens inesquecíveis do que qualquer outro escritor da actualidade. É o autor dos policiais Alex Cross, os mais populares dos últimos vinte e cinco anos dentro do género. Entre os seus maiores bestsellers estão também Invisível, O Clube das Investigadoras (ed. Quinta Essência), A Amante, Zoo, A Casa da Morte e Primeiro Amor. 
Patterson é o autor que teve mais livros até hoje no topo da lista de bestsellers do New York Times, segundo o Guinness World Records. Desde que o seu primeiro romance venceu o Edgar Award, em 1977, os seus livros já venderam mais de 350 milhões de exemplares.
Em Portugal, James Patterson é publicado pela Topseller (Alex Cross, Private, NYPD Red, Confissões, Maximum Ride, Primeiro Amor, Invisível, A Amante, Um Anjo da Guarda, Zoo e A Casa da Morte) e pela Booksmile (séries juvenis Escola, Eu Cómico, A Casa dos Robots e Jackie Ha-Ha).
James Patterson vive com a mulher e o filho em Palm Beach, na Flórida.

MARK SULLIVAN é autor de thrillers e co-autor de quatro outros livros com James Patterson. Vive com a mulher e os filhos no Montana, nos EUA.

Hart Mackenzie está preparado para conquistar o mundo.
Mas conseguirá ele conquistar Eleanor?
Depois da morte do pai, Hart Mackenzie, que é o filho primogénito, herda o título de Duque. A sua carreira política vai de vento em popa, e ele prepara-se para ganhar as eleições e assumir o cargo de primeiro-ministro. A única coisa que lhe falta é o amor da sua vida, Eleanor.
No passado, Hart não foi digno do seu amor. Eleanor atirou-lhe à cara o anel de noivado, afastando-o e cortando relações. Mas, agora, ela está de volta à sua vida, pois tem vindo a receber em casa correspondência estranha, com fotos de Hart em poses comprometedoras, e quer saber quem está por detrás deste assédio.
Será isto uma tentativa de chantagem? Poderá alguém querer boicotar a carreira política de Hart? Ou será antes uma provocação à própria Eleanor? Seja qual for a hipótese, Hart está decidido a usar esta oportunidade para se reaproximar daquela que nunca deixou de amar.

Jennifer Ashley é  uma autora norte-americana, bestseller do New York Times e do USA Today, que já conta com mais de 80 obras publicadas.
Os seus livros têm recebido vários elogios e prémios, incluindo o Prémio RITA para Melhor Romance, atribuído pela Associação Americana de Escritores de Romance, e o Prémio Romantic Times Reviewer’s Choice, entre muitos outros.
Os seus livros já venderam mais de cinco milhões de exemplares, tendo sido traduzidos para dez línguas.

Depois de encarar o abismo, poderá o amor voltar?
Enquanto procura entender o que terá acontecido a Rebecca, Sara envolve-se cada vez mais na sua vida. Onde estará ela? Quem será o amante descrito nos diários? Será que Chris é uma das pessoas referenciadas naquelas páginas?
Todas as pessoas relacionadas com a galeria de arte onde Rebecca trabalhava podem ser suspeitas, desde o dono, Mark, até aos seus clientes e artistas. Gente rica e entediada, desesperadamente à procura de alguma adrenalina na sua vida.
Com tanta coisa a acontecer, o seu romance com Chris vai se tornando cada vez mais complexo e excitante, enquanto Sara descobre todos os prazeres e segredos do seu pintor favorito. Agora é tarde demais para recuar. Sara já faz parte deste mundo de arte, sexo, dinheiro e segredos.
Conseguirá sobreviver-lhe?

Lisa Renee Jones é uma autora americana com vários livros publicados em géneros tão diferentes como o fantástico e o erótico. Perdida em Mim é o seu segundo romance na Topseller depois de Escondida em Ti.
Antes de se dedicar a tempo inteiro à escrita, dedicava-se ao empreendedorismo, chegando a dirigir uma empresa de recrutamento com sucursais em vários estados americanos. Com o seu marido, Diego, dedicou-se ainda à compra e venda de espaços de armazenamento, experiência essa que inspirou a história de Sara.

Quando uma estranha pede uma simples boleia a Jo Blackmore, esta concorda, mas rapidamente se arrepende de o ter feito. Afinal, a mulher sabe o nome de Jo, conhece o seu marido, Max, e tem em seu poder uma luva que pertence a Elise, a filha de 2 anos de Jo.
O que começa por ser uma ténue ameaça de uma desconhecida rapidamente se transforma num pesadelo, quando a polícia, os serviços sociais e até o próprio marido começam a duvidar das capacidades mentais de Jo.
Ninguém parece acreditar que Elise esteja em perigo, e a mulher estranha começa a apertar o cerco. Nesse momento, Jo sabe que só existe uma forma de manter a filha a salvo… FUGIR!

C. L. Taylor é autora bestseller de thrillers psicológicos. Os seus livros venderam mais de um milhão de exemplares, tendo já sido traduzidos para mais de 20 línguas.
Nasceu em Worcester, no Reino Unido, e formou-se em Psicologia pela Universidade de Northumbria. Dedica-se, desde 2014, à escrita a tempo inteiro.
Actualmente, vive em Bristol, com o companheiro e o filho.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Divulgação: Novidade Bertrand

Pierre Anthon acha que nada vale a pena, a vida não tem sentido. Desde o momento em que nascemos, começamos a morrer. A vida não vale a pena!
O rapaz deixa a sala de aula, sobe a uma ameixieira e lá fica. Os amigos tentam fazer de tudo para o tirar de lá, mas nada resulta. Decidem então pôr em prática um plano: fazer uma «pilha de significado». Cada um deve dar algo que tenha significado para si. Mas depressa se torna óbvio que a pessoa não pode dar aquilo que é mais importante para si, portanto começam a ser os outros a decidir. À medida que as exigências se tornam extremas, os acontecimentos precipitam-se para um final arrasador.
Um livro polémico e chocante, que convida à reflexão.

Janne Teller é uma conceituada autora dinamarquesa de origem germano-austríaca. Escreve ficção e não ficção. Autora de seis romances, entre os quais Nada, traduzido para mais de vinte línguas e um sucesso de vendas global. Inicialmente proibido na Dinamarca, Nada é hoje um best-seller internacional, com adaptações ao teatro e à ópera no Reino Unido e considerado por muitos como um clássico contemporâneo. É também autora de Guerra – e se fosse aqui, um livro em formato de passaporte sobre a vida de um refugiado, que a autora adapta e reescreve para cada país onde é publicado. 
A autora Janne Teller estudou macroeconomia e trabalhou nas Nações Unidas e na União Europeia nas áreas da resolução de conflitos e questões humanitárias em muitos países, especialmente em África. Durante vários anos, viveu em Moçambique, na Tanzânia e em Nova Iorque. Actualmente vive em Berlim.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Irmãs Secretas (Jayne Ann Krentz)

Há dezoito anos que Madeline Chase guarda um segredo. Quando era criança, um homem tentou atacá-la e, ainda que, graças à sua melhor amiga, a tentativa tenha saído gorada, aquela noite trouxe consigo grandes revelações e um segredo a preservar a todo o custo. Agora, Madeline herdou a cadeia de hotéis da avó e começa a instalar-se na sua nova posição, mas tudo muda quando recebe um telefonema do velho zelador do hotel de Cooper Island a dizer-lhe que precisa de falar com ela e que, por isso, Madeline tem de voltar ao lugar onde tudo aconteceu. Aí, espera-a uma certeza tenebrosa: o seu segredo foi descoberto. E, para sua segurança, Madeline, auxiliada por Jack Rayner, o seu implacável chefe de segurança, e por Daphne, a amiga que em tempos a salvou, precisa de descobrir as partes do mistério que ainda não sabe e que outros tentam esconder. Pois a verdade pode muito bem salvar-lhe a vida...
Assente, em grande medida, num mistério do passado, mas também na promessa de um romance entre protagonistas, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo equilíbrio entre os momentos mais sombrios e o toque de humor e de leveza que se manifesta nos momentos certos. Leveza essa que provém, em grande medida, da parte do romance, pois é na forma como os dois pares se conhecem que se encontram os momentos mais divertidos. Mas é aqui que as coisas se tornam interessantes: não é propriamente difícil prever de que forma vai acabar esta parte do enredo, mas a forma como a autora constrói esses momentos - sejam de intimidade, de descoberta ou de puro e simples afecto - faz com que esse percurso nunca deixe de cativar.
Para isso contribui em muito a caracterização das personagens, que, com os seus traumas passados e as barreiras que ergueram em consequência disso, justificam tudo o que se segue ao primeiro contacto. Mas este aspecto estende-se para lá do romance, pois o próprio mistério em causa tem como protagonistas várias figuras intrigantes, sendo que o mundo dos Webster, com o seu contraste entre a aparência perfeita e a disfuncionalidade latente, acrescenta à história um lado bem mais sombrio.
O que me leva ao mistério. Não é propriamente difícil prever que o suspeito inicial poderá não ser o culpado de todos os acontecimentos - as insinuações são demasiado evidentes. Ainda assim, e embora também não sendo difícil adivinhar quem poderão ser os outros responsáveis, há na forma como a história é construída, revelando novos segredos a cada um que se desvenda, que faz com que o enredo nunca deixe de prender. Além disso, e por entre todos os perigos, armadilhas e percursos em direção à pista certa, começa a construir-se um cenário diferente em torno das grandes revelações. Sim, pode ser fácil adivinhar os possíveis culpados - mas a forma como lá se chega não deixa de ser surpreendente. 
Tudo somado, fica a impressão de uma história que, apesar de um pouco previsível na linha geral do enredo, não deixa de surpreender nas pequenas coisas. Cativante, agradável e com um muito bom equilíbrio entre todos os elementos, um bom livro para quem aprecia um pouco de romantismo nos seus policiais. Gostei.

Título: Irmãs Secretas
Autora: Jayne Ann Krentz
Origem: Recebido para crítica

sábado, 2 de setembro de 2017

Guarda-me para Sempre (Brigid Kemmerer)

Juliet ainda não conseguiu superar a morte da mãe e a única forma que encontrou de lidar com a situação foi continuar a escrever-lhe cartas, que deixa agora no cemitério. Cartas que não deveriam ser lidas por ninguém. Mas, um dia, alguém lhe responde e, obviamente, não é a mãe. De início, Juliet fica furiosa, mas a percepção de uma dor comum com o desconhecido faz com que comecem a corresponder-se. O problema é que o estranho não é propriamente um desconhecido para ela. Declan Murphy é um rapaz com uma reputação, temido por todos e constantemente metido em sarilhos, mas o que revela nas cartas é algo muito diferente do que o mundo vê. A verdade é que Juliet e Declan têm muito em comum. Mas o mesmo acaso que os ligou traz à superfície coincidências estranhas. E, quando já têm tantas batalhas no caminho, a possibilidade que surge pode ser demasiado para suportar. 
História de jovens à descoberta de si mesmos, ao mesmo tempo que tentam superar (ou sobreviver com) circunstâncias difíceis, este é um livro que promete, à partida, bastante emoção. Mas o grau que essa emoção atinge é toda uma surpresa, que começa para se insinuar aos poucos, para depois se erguer num crescendo devastador. Ambos os protagonistas estão em situações difíceis logo no início do livro, mas, à medida que a armadura cai e as revelações vão ganhando voz, o impacto de cada golpe é poderosíssimo, ao ponto de ser quase impossível não sentir as dores dos protagonistas. 
Isto é particularmente marcante, não só pelo simples facto das emoções que desperta, mas pelo estranho equilíbrio que se sente ao longo de toda a história: momentos devastadores, uma história cheia de sombras e sofrimento... e, porém, com uma estranha leveza na voz que insinua esperanças futuras. Ora, tendo em conta a história de Declan e de Juliet, este equilíbrio de esperança e desespero é crucial para o impacto da história. Juliet, a lidar com a morte da mãe e com o fantasma de culpa que sente. Declan, carregando nos ombros o fardo de um momento que tudo destruiu. E, ambos, perdidos dentro de si mesmos, a encontrar a força de que precisavam no mais inesperado dos lugares.
Talvez seja isto o mais impressionante de tudo: a forma como a autora constrói as personagens, dando-lhes histórias dolorosas, mas, acima de tudo, emoções reais. Ninguém é perfeito nesta história, até porque os traços mais cativantes das personagens emergem das suas vulnerabilidades. Mas todos são capazes de crescimento e redenção. E isto não se aplica só aos protagonistas, mas também àqueles que os rodeiam, sejam os amigos que estão lá para os apoiar, sejam os que, talvez inconscientemente, contribuíram para o seu sofrimento. Há esperança, em suma, e é isso o mais marcante nesta história cheia de momentos comoventes.
No fim, é isto que fica: a imagem de uma história feita de sofrimento e de esperança, de superação e de descoberta, de afecto e de redenção em todas as suas formas. Intenso, comovente, memorável, enternecedor. Extraordinário, em suma. 

Título: Guarda-me para Sempre
Autora: Brigid Kemmerer
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O Homem que Preferiu não Sentir (Gonçalo Alves da Cunha)

Sebastião é um jovem pintor em luta consigo mesmo. Sente intensamente, mas não sabe porquê. E, levado pelos sentimentos, deixa-se contagiar pelos entusiasmos dos amigos e pelo fogo da paixão, para depois olhar para si mesmo e questionar a pertinência de tudo isso. Dividido entre o que sente e o que pensa, vê-se perdido na vida real. Recém-licenciado, não consegue escolher entre um emprego que o sustente e a dedicação exclusiva a uma arte de que duvida. Fascinado por uma mulher, vê-se resvalar aos poucos para a repulsa perante aquilo que sente. E, cada vez mais afastado do mundo em que se move, questiona os sentimentos, sem saber como os tolerar ou de que forma se livrar deles. 
Focado mais no interior do protagonista do que na sua vida interior, este é um livro essencialmente introspectivo. Sim, há coisas a acontecer - e coisas bastante relevantes - mas tudo é visto do ponto de vista de um jovem que se analisa a si mesmo. Ora, isto parece ter efeitos contraditórios. Por um lado, aproxima o leitor da complexidade dos sentimentos do protagonista, já que, seja no delírio da criação artística, seja perante uma manifestação que correu mal, seja ainda na descoberta do amor e da forma como este se desvanece, tudo é narrado do ponto de vista de uma mente em permanente análise. Por outro lado, este registo confere à narrativa um tom consideravelmente mais pausado, em que os pensamentos e devaneios de Sebastião se sobrepõem, muitas vezes, aos acontecimentos que efectivamente vive.
Ora, isto tem um efeito curioso, já que, embora o protagonista pareça assumir-se quase como sendo o centro do seu universo, há no seu caminho um olhar bastante interessante sobre o mundo em que efectivamente se move. E daqui emergem questões muito pertinentes, como as dificuldades de um jovem perante a entrada no mercado de trabalho, a defesa dos ideias em oposição à realidade, a visão da arte como disruptiva, ou simplesmente expressiva e, num âmbito mais geral, a efemeridade de todas as coisas e sentimentos. Há muito bom material para reflexão nesta jornada e um muito intrigante contraste que dela emerge: Sebastião é um indivíduo peculiar, mas no qual é fácil reconhecer pontos comuns. 
Também a escrita contribui para o ritmo pausado da narrativa, já que, no seu estilo elaborado e em tom de registo de pensamentos, torna o avanço do enredo bastante mais lento. Mas, se tivermos em conta que o cerne da história está, não nas experiências exteriores, mas na revolução interior do protagonista, faz sentido que assim seja. Principalmente considerando a forma como tudo termina, as longas introspecções de Sebastião revelam-se essenciais para a compreensão do que o move. 
Não é propriamente uma leitura compulsiva, pois a extensa componente introspectiva e o facto de as grandes mudanças serem interiores impede que assim seja. Ainda assim, há na história de Sebastião muito de cativante, quer nas vivências exteriores, quer nos labirintos do seu pensamento. No fim, é isso que fica na memória - um retrato das complexidades humanas. E isso é mais do que suficiente para fazer deste livro uma boa leitura. 

Título: O Homem que Preferiu não Sentir
Autor: Gonçalo Alves da Cunha
Origem: Recebido para crítica