quarta-feira, 4 de outubro de 2017

terça-feira, 3 de outubro de 2017

What She Left (Rosie Fiore)

Helen é a esposa perfeita… até ao dia em que desaparece sem deixar rasto, deixando para trás um marido preocupado, as duas filhas dele, que Helen ama como se fossem suas, e o que parecia ser uma vida tranquila e perfeita. Para onde foi? Primeiro, todos temem o pior, mas, pouco tempo depois do seu desaparecimento, a polícia é informada de que este foi voluntário e que ela não quer ser encontrada. Sam, o marido, não sabe o que pensar. E, incapaz de lidar com esses sentimentos e com as duas filhas sozinho, a sua vida começa a afundar. Principalmente porque, de cada vez que parece encaminhar-se para uma recuperação, Sam vê o resto de Helen no de mulheres desconhecidas. E não pode esquecê-la sem saber o porquê.
Uma das muitas surpresas deste livro, e talvez a maior, é que, embora comece com um desaparecimento, não se trata propriamente de um policial. Há um grande mistério em volta de todo o enredo, e isso é parte do que o torna tão cativante, mas a verdade é que a história não tem tanto a ver com uma pessoa em perigo e um caso a resolver, mas mais com uma vida familiar conturbada e o tipo de coisas que levaria uma mulher a deixar para trás a sua família.
Ao contar esta história através de várias perspectivas, a autora realça todas estas questões, prolongando, ao mesmo tempo, o grande enigma que é a razão do desaparecimento de Helen. Além disso, também permite ficar a conhecer melhor cada personagem: a confusão de Miranda, a boa vontade de Lara, a gradual decadência de Sam. E não só isto confere um muito maior impacto a cada revelação, como tem também um efeito mais interessante. Sam começa a história como o marido perfeito, mas esta imagem muda pelo caminho, o que levanta suspeitas e possibilidades. O que ele parece ter de encantador não tarda a revelar-se como algo mais. E então, quando a suspeita surge, eis que aparece uma nova revelação a mudar tudo isso. O que se passa é que tudo pode mudar de uma página para a outra, e esta imprevisibilidade que surge quando começamos a achar que sabemos o que realmente se passa torna este livro estranhamente viciante.
Quanto ao desaparecimento de Helen, há também muitas questões relevantes nesta história. Quando reveladas, as razões da sua fuga, tal como as do corte com a sua vida anterior, fazem surgir uma história muito complexa e um caminho de escolhas difíceis, mas muito ponderadas. E é por isso que faz todo o sentido a forma como tudo termina: deixando algumas perguntas sem resposta… porque há portas abertas e o caminho futuro ainda está por decidir.
História de mistério, mas não de um crime – de um desaparecimento, mas voluntário. No fim, tudo se resume a isto: um romance intenso e intrigante, em que ninguém é exactamente o que parece e tudo tem um motivo, ainda que este nem sempre seja o mais expectável. Muito bom, em suma.

Título: What She Left
Autora: Rosie Fiore
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Um bom jornalista é também um bom contador de histórias. E se Roby Amorim contou com mestria as histórias dos outros, também o fez com a que lhe era mais próxima, até hoje inédita.
Este é o registo de um mundo que terminou com a morte da própria avó. Maria Inácia da Conceição de Faria Machado Pinto Roby de Miranda Pereira da Rocha Tinoco, a personagem central desta narrativa, nasceu quando Portugal se digladiava entre facções ultraconservadoras e progressistas, em plena revolta da Maria da Fonte, e morreu durante a Guerra Civil espanhola.
Como refere António Lobo Antunes, «Roby Amorim consegue transformar uma Mulher na saga de uma família e de um tempo, com um bom gosto e um poder evocativo de alto calibre. [...] quero apenas pedir LEIAM ISTO, uma vez que o engenho do Autor nos retrata também a nós mesmos, nos diversos tempos de que somos feitos.»

José de ROBY AMORIM. (Braga, 1927 – Lisboa, 2013) foi um dos nomes mais respeitados do jornalismo português. Iniciou a sua carreira no Correio do Minho, tendo passado pelo Diário Ilustrado, ABC, O Século (onde chegou a director por nomeação da redacção), Diário de Lisboa e as agências de notícias ANOP e Lusa. Desde sempre focado na temática histórico-cultural portuguesa, recebeu ao longo da carreira dezenas de prémios.
Publicou Elucidário de Conhecimentos Quase Inúteis, Da Mão à Boca – Para uma História da Alimentação em Portugal e ABC dos Sabores Portugueses e Mais Alguns.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Senhor Ibrahim e as Flores do Alcorão (Eric-Emmanuel Schmitt)

Moisés está por sua conta. Isolado no seu mundo, o pai trata-o com frieza e não parece ter nada de bom a transmitir-lhe. Mas, em plena adolescência e com vontade de descobrir a vida, Momo encontra as alegrias de que precisa nos lugares mais inesperados: na companhia das prostitutas da Rua do Paraíso, e na improvável amizade que estabelece com o senhor Ibrahim, um merceeiro estranhamente sábio. Tudo começa com alguns pequenos roubos - mas a sabedoria partilhada faz nascer uma grande amizade. E quando o pai de Moisés o abandona em definitivo, o senhor Ibrahim abre-lhe as portas do seu coração - convidando-o a partilhar consigo a maior das aventuras.
História de uma amizade improvável, e também das dores de um crescimento solitário, este é um livro que cativa, acima de tudo, pela simplicidade. É uma história breve, em que tudo se cinge ao essencial e em que os grandes afectos e as grandes perdas surgem com a mesma facilidade. E claro que isto deixa sentimentos ambíguos, pois seria interessante saber mais: sobre a história do pai de Momo, sobre a viagem com o senhor Ibrahim, sobre o próprio senhor Ibrahim antes de se tornar no merceeiro do bairro. Mas a verdade é que o essencial está lá e a inocência com que a história é contada compensa amplamente o que é deixado por dizer.
É de Momo a voz que conta esta história, o que faz com que tudo se torne mais pessoal. Além disso, Momo é uma mente em crescimento, alguém em plena aprendizagem face às suas experiências, e acompanhar este percurso não só em actos, mas também na evolução do pensamento, torna tudo muito mais próximo e cativante. Momo dá-se a conhecer em pleno - bons e maus pensamentos, forças e vulnerabilidades, qualidades e defeitos. E é talvez esta humanidade, associada à inocência de quem ainda tem tanto por aprender, que faz dele uma personagem tão forte.
Há ainda um outro aspecto curioso. Apesar da simplicidade da narrativa, quer em termos de história, quer de escrita, há um evidente cuidado em não simplificar nada em demasia. Isto é particularmente evidente na forma como a família de Momo é caracterizada e nas relações delicadas que entre eles parecem existir: o pai de Momo é um homem frio e aparentemente desinteressado, mas há verdades que apontam que há algo mais subjacente a isso. A mãe surge acompanhada de muitas verdades, mas representa também algo difícil de superar, pelo que a forma como a relação fica entre ambos acaba por fazer bastante sentido. E quanto ao irmão... bem, aí fica uma certa curiosidade insatisfeita, mas também esse mistério - esse porquê - acaba por ter uma razão de ser.
Tudo somado, a impressão que fica é a de uma leitura simples e breve, mas com uma história sempre envolvente e uma muito relevante mensagem de afecto sem barreiras. Cativante, enternecedor e surpreendente, um bom livro.

Autor: Eric-Emmanuel Schmitt
Origem: Recebido para crítica

domingo, 1 de outubro de 2017

A Última Viúva de África (Carlos Vale Ferraz)

Recusados os apoios ao filme que tinham planeado, e para salvar a produtora da falência, Miguel Barros vê-se obrigado a seguir uma estranha inspiração: a notícia de um emigrante rico que deseja sepultar a mãe numa igreja transformada em panteão particular desperta a curiosidade do seu realizador e, sem ideias melhores, Miguel Barros vê-se também arrastado para essa estranha possibilidade. Mas o que o espera em Vilar é uma verdade bastante mais dura: a morta é Alice Oliveira e Miguel Barros tem com ela um passado em comum. Em tempos, quando em África se travavam guerras e se lutava por uma independência diferente, Alice foi Madame X, informadora de governos e de mercenários. E Miguel, que também por lá passou, lembra-se dela e da sua história - do passado que agora, passado tanto tempo, quer finalmente contar...
Tendo como cerne a figura de Alice Oliveira, mas contando a história de uma perspectiva já um pouco distante, uma das primeiras coisas a surpreender neste livro é precisamente a estrutura da narrativa, pois, sendo embora Alice a raiz de todo o enredo, é talvez ela quem menos se dá a conhecer. De certa forma, é Miguel Barros o protagonista, pelo menos no sentido em que é o percurso dele que a narrativa acompanha. E é através das suas memórias que tudo o resto vem a superfície, primeiro nas evasivas, enquanto ele e a sua equipa seguem a pista da notícia, depois no desvelar da verdade quando já mais nada resta para contar. 
Ora, esta forma de contar a história deixa alguns sentimentos ambíguos, já que a perspectiva de Miguel acaba por ser um pouco limitativa: o que viu da guerra e quis contar, bem como a forma sintética como conta algumas das coisas, acabam por deixar uma sensação de distância que nunca se esbate por completo. Ainda assim, faz um certo sentido que assim seja, pois a história de Miguel é a de um passado guardado em silêncio e, visto desta forma, é apenas natural que a derradeira narração das memórias seja tão sucinta quanto possível.
E, ainda que o impacto emocional seja, em parte, atenuado por essa mesma distância, a verdade é que há muito de relevante para descobrir neste livro. Desde a história de Alice à de Jean Scrame, passando pelo que o próprio Miguel viveu em África e, curiosamente, também pelo percurso final da criação do filme, há em todos os elementos algo de pertinente a ponderar, uma certa surpresa ante o percurso pessoal de cada personagem e, principalmente, uma muito certeira visão da forma como a influência molda os caminhos dos homens. No fundo, mais até que a história das personagens, são as verdades desagradáveis que ficam na memória - e, se são incómodas, é porque precisam de ser ditas.
A imagem que fica é, portanto, a de um romance que leva o seu tempo a assimilar, com o seu ritmo pausado e as impressões que parecem marcar aos poucos, mas também um livro interessante e pertinente, em que cada personagem parece representar mais que a sua própria jornada. Uma boa história, em suma. E uma boa leitura. 

Autor: Carlos Vale Ferraz
Origem: Recebido para crítica

sábado, 30 de setembro de 2017

Milarepa (Eric-Emmanuel Schmitt)

Uma mulher misteriosa num café de Paris, diz, com palavras enigmáticas, que Simão viveu mil vidas - e que o ódio do passado o obriga a contar repetidamente a mesma história até que o ciclo se quebre. Pois, em tempos, ele foi Svastika e combateu um iluminado - e foi o seu ódio pelo sobrinho, Milarepa, que o levou a grandes crimes e, depois, à iluminação. Esta é a história cem mil vezes repetida - e a mensagem de um caminho maior que o ódio.
Bastante breve e narrado de forma muito simples, este é um livro em que tudo se resume em poucas palavras. Poucas, mas talvez as suficientes, pois a ideia do caminho de Milarepa - do desejo de vingança ao desprendimento total - está bem patente na sua história, por mais sucintamente que esta seja contada. É certo que esta brevidade deixa sentimentos ambíguos, pois, por um lado, fica a sensação de que muito mais haveria a dizer sobre cada um dos acontecimentos narrados. Mas, por outro, ao cingir-se ao essencial, sobressai a mensagem - e talvez seja precisamente esse o objectivo.
É curioso também como, em apenas setenta páginas, há tantas vidas cruzadas. Tantas, de facto, que ficam umas quantas perguntas sem resposta, a começar pela identidade da mulher misteriosa. Mas a verdade é que todas as figuras servem o seu objectivo: a mulher misteriosa é um despertar para o passado. E, no passado, os caminhos de Svastika e de Milarepa, com todas as escolhas erradas e posteriores arrependimentos, traçam um caminho mais amplo do que apenas o das suas histórias individuais.
No fundo, a história cede protagonismo à mensagem, daí que o registo simples e sucinto faça sentido. Mais que as vivências, conta a aprendizagem e, no que a essa diz respeito, o percurso de Milarepa dificilmente poderia ser mais claro. Fica, é verdade, a curiosidade insatisfeita - a vontade de ver mais de perto, de sentir ao pormenor. Mas o essencial está lá, e é isso o mais importante.
E assim, a impressão que fica é a de uma leitura breve, mas em que as perguntas sem resposta perdem importância face à mensagem subjacente a toda a história. História de conhecimento e iluminação, um conto simples, mas cativante. Uma boa leitura. 

Título: Milarepa
Autor: Eric-Emmanuel Schmitt
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Quincas Borba (Machado de Assis)

Eminente filósofo e figura em todos os aspectos peculiar, Quincas Borba decidiu, nos seus últimos dias, fazer amizade com Rubião, um simples professor. E tão forte foi essa amizade que, chegada a hora da morte, decidiu fazer do amigo seu herdeiro universal. Eis, pois, Rubião convertido em homem rico. Rico, mas não necessariamente mais sensato. A ambição fá-lo mudar-se para o Rio de Janeiro, onde desenvolve novas amizades, contactos e paixões pouco correspondidas. E, pelo caminho, a fortuna vai-se dissipando, pois entre os mais ou menos leais e os puramente oportunistas, Rubião a todos pretende agradar. Alimentam-no o amor e a ambição de reconhecimento - sem saber que a loucura espreita ao virar da esquina...
Para quem tiver lido as Memórias Póstumas de Brás Cubas, o nome de Quincas Borba não será certamente desconhecido, e talvez o título leve a pensar num regresso ao protagonismo dessa tão estranha figura. Não. Pese embora o nome do livro, Quincas Borba (aliás, ambos os Quincas Borba) não são tanto figuras centrais da narrativa, mas antes força motriz de uma história bem diferente. Por um lado, é a fortuna de Quincas Borba homem que leva Rubião ao seu longo - e por vezes penoso - caminho. Por outro, Quincas Borba, canídeo, leal como nenhum outro, mesmo quando vítima de maus tratos, é para Rubião a fonte do que lhe falta em todas as suas outras relações: afecto desinteressado. E assim, sendo ambos presenças relativamente discretas, são, ainda assim, a força na origem de tudo o resto - justificando pois plenamente o destaque que o título lhes dá.
Mas passando à narrativa. A figura central é evidentemente Rubião, e é-o em contraste com os muitos que dele se aproximam. A história é a de um amor não correspondido, a de amizades que se transformam segundo o estatuto e, principalmente, a de um percurso de ascensão e queda moldado por riquezas, ambição e loucura. Acompanhar Rubião desde os últimos dias de Quincas Borba até aos seus próprios últimos dias é vê-lo percorrer uma longa jornada, onde há espaço para actos de todo o tipo: demonstrações de afectos proibidos, actos de heroísmo desinteressado, mal-entendidos alimentados pelas aparências e demonstrações de inexplicável generosidade. E no caminho de Rubião cruzam-se muitos outros, de tal modo que a sua história se torna também na de Sofia, do Palha, de Maria Benedita e de tantos outros que, mais ou menos ao de leve, o conheceram. Histórias que se entrecruzam, mas que divergem também em certos pontos, formando um todo mais amplo, mais complexo - e muito mais interessante pela diversidade de personagens.
E é curioso como, com tantas personagens e um caminho que, por vezes, se revela tão difícil, tudo é narrado com tão grande leveza. Talvez se deva aos muitos traços caricatos das personagens, talvez à simplicidade com que os factos são contados. Ou talvez, ainda, a uma mistura destes dois aspectos, aliada a um equilíbrio bastante eficaz entre os percursos pessoais das diferentes personagens. Certo é que tudo flui com perfeita naturalidade e que os muitos elos tocados pela passagem de Rubião acabam por se juntar numa visão bastante clara: a de que nada dura para sempre e que é na queda que se reconhecem os verdadeiramente leais.
História de uma fortuna feita e dissipada, eis, pois, um livro tão caricato como fascinante, um livro onde a verdade se esconde nos pequenos gestos e em que até o mais pequeno dos episódios tem significado. Cativante, surpreendente e com um leque de personagens fascinante, vale muito a pena conhecer esta história - e seguir até ao fim os passos de Quincas Borba. 

Título: Quincas Borba
Autor: Machado de Assis
Origem: Recebido para crítica