terça-feira, 31 de outubro de 2017

Sou dos Anos 80 - Não Tenho Medo de Nada (Joana Emídio Marques)

Ah, os anos 80... O tempo em que tudo, desde os desenhos animados às brincadeiras de rua, a música, as séries, até as simples tropelias no recreio... tudo, mas mesmo tudo, falava de aventura. Um tempo em que nem tudo estava ao alcance e muito menos era fácil de obter - mas em que a liberdade se gritava aos quatro ventos e tudo era bem menos analisado. Crescer nos anos 80 podia implicar um ou outro braço partido de uma aventura mais perigosa - mas trazia também a certeza de não ter medo de nada (ou, pelo menos, não o admitir). E o que é certo é que as memórias desse tempo continuam a despertar nostalgia a quem o viveu.
Olhando para o mundo como o vemos hoje, e para todas as mudanças que ele trouxe, é difícil não pensar no passado com uma certa mistura de distância e nostalgia. Mas, para quem passou por experiências como a de tentar reanimar uma cassete com uma caneta ou de trautear ininterruptamente a música do genérico do Dartacão, esta viagem ao passado dificilmente poderia ser mais promissora. E, em jeito de contextualização, começo por dizer que eu cá sou do ano da graça de 1986, o que significa que vivi o suficiente desta era para lhe sentir a nostalgia, embora não conhecendo todas as referências citadas neste livro. O que me põe numa posição particularmente agradável: a de, por um lado, lembrar as coisas que, de alguma forma, marcaram a minha infância e, por outro, a de descobrir coisas que não cheguei a conhecer.
Ora, desta posição privilegiada, consigo ver o atractivo deste livro como tendo duas facetas. Por um lado, para quem viveu os anos 80, como uma fonte de nostalgia e de memórias agradáveis. Para quem não os viveu, como uma jornada de descoberta do passado - com todas as suas peculiaridades e bizarrias que foram precisamente o que o tornou tão único.
E isto leva-me ao que é, para mim, o grande ponto forte deste livro: o equilíbrio entre a experiência pessoal e as muitas referências que vão sendo faladas ao longo do livro. Mais que um enumerar de peculiaridades, este livro surge como um percurso pessoal, como que abrindo portas às memórias que a autora tem em comum com muitos outros filhos desta era. E este registo pessoal reforça a tal nostalgia, evocando os sentimentos que estas memórias provocam, sem nunca perder de vista o cuidado de de explicar os pontos marcantes a quem teve a infelicidade de nunca os conhecer.
Claro que o texto em si bastaria, com todas as suas referências conhecidas, para despertar essa tal estranha nostalgia. Mas há ainda todo um visual a complementar esta visão: o livro é, em si mesmo, um espelho das referências dos anos 80, com as imagens que acompanham o texto e os padrões cheios de cor de todo o livro a reforçar esse impacto na memória. E, com tanto para recordar e uma forma tão cativante para o fazer, difícil é não recuar no tempo, pelo menos por um bocadinho.
Eis, pois, um livro para recordar - ou para descobrir - uma era diferente de tudo o que veio depois. Um tempo de coisas mais simples, talvez, mas de que basta uma pequena memória para despertar todo um carrossel de nostalgia. Se são dos anos 80 - e também não têm medo de nada! - então este é o livro ideal para recordar. E se não são, mas querem saber como foi, então estas páginas são um belo ponto de partida. Recomendo.

Título: Sou dos Anos 80 - Não Tenho Medo de Nada
Autora: Joana Emídio Marques
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

MAL ME QUER
O corpo sem vida de uma mulher é encontrado no meio da estrada. À primeira vista parece tratar-se de um acidente trágico, mas quando a inspectora Helen Grace chega ao local do crime, torna-se claro para ela que a mulher foi vítima de um assassínio a sangue-frio sem razão aparente.
BEM ME QUER
Duas horas depois, do outro lado da cidade, um empregado de loja é morto, enquanto os seus clientes escapam ilesos.
MAL ME QUER
Ao longo do dia, a cidade de Southampton viverá um clima de terror às mãos de dois jovens assassinos, que parecem matar ao calhas.
BEM ME QUER
Para a inspectora Helen Grace, este dia vai tornar-se uma corrida contra o tempo. Quem vive? Quem morre? Quem será o próximo? O relógio não para…
Se Helen não conseguir resolver este quebra-cabeças mortal, mais sangue será derramado. E, se cometer algum erro, poderá muito bem ser o dela…

M. J. Arlidge trabalha em televisão há 15 anos, tendo-se especializado em produções dramáticas de alta qualidade. Nos últimos anos produziu um grande número de séries criminais passadas em horário nobre na ITV, rede de televisão do Reino Unido.
Escreveu uma nova série policial para a BBC, além de estar a criar novas séries para canais de televisão britânicos e americanos.
Os seus livros anteriores — Um, Dó, Li, Tá, À Morte Ninguém Escapa, A Casa de Bonecas, A Vingança Serve-se Quente, Na Boca do Lobo e O Anjo da Morte — também publicados pela Topseller, foram êxitos de vendas internacionais.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Os Sonetos Completos (Antero de Quental)

Procura o ideal e o absoluto - para encontrar apenas silêncio e escuridão. Fala com um deus que não sabe bem se existe. Contempla as trevas e a luz por entre o peso da vida. E sonha, ainda e sempre, com um amor que se afasta. Tudo isto e mais se poderia dizer sobre o sujeito destes sonetos - alguém que, embora fale como um eu, é uma voz mais ampla que a do indivíduo. E talvez seja precisamente isso que tanto fascínio exerce nestas páginas. O eu que poderia ser qualquer um de nós.
Em jeito de declaração de contexto, é preciso dizer, antes de mais, isto: Antero de Quental foi um dos autores que me cativou para a poesia, no tempo em que poesia eram os versos dos manuais escolares e análise era a contagem das sílabas métricas e a classificação da rima. Talvez por isso, voltar a este autor, ler os sonetos como um todo, deixar falar as impressões mais do que a forma, tem um efeito particularmente marcante. Aquilo que já antes criava empatia desperta agora sentimentos mais intensos. E a sombra dos poemas compreende-se agora melhor, porque mais viva, porque mais fácil de entender.
Porque é de sombras que falamos e, quiçá por defeito pessoal, são os poemas mais sombrios os que se me tornam mais memoráveis. Há algo de facilmente reconhecido no vulto que questiona, que duvida, que não sabe muito bem o que faz. Mas há mais, também. É que, ao ler de uma penada este conjunto, fica-se com a imagem de um percurso: das ilusões do amor ao mergulho inefável no abismo e depois à contemplação do que para lá dele se estende. É como se fosse uma jornada pela vida - e uma jornada tão diferente, nas imagens evocadas, mas contudo tão familiar. 
É como percorrer pessoalmente os caminhos do tal Palácio da Ventura de um destes sonetos - o tal que, depois de toda a glória, contém em si "silêncio e escuridão - e nada mais!" Porque há em tudo isto uma estranha harmonia, uma beleza que se projecta das palavras e que, contudo, canta trevas e sombra como se do mundo se tratasse. No fim, é isto mesmo que mais marca: a forma como, até do "mais pálido, mais triste e mais cansado" consegue brotar uma beleza avassaladora e impressionante.
E o que dizer, então, sobre este livro? Para mim, foi um regresso pessoal a um lugar muito amado, ao mundo onde a poesia é muito mais que sílabas contadas - é um coração que fala por tantos mais. Recomendo este livro? Oh, com certeza. E vale tanto a pena conhecê-lo...

Título: Os Sonetos Completos
Autor: Antero de Quental
Origem: Aquisição Pessoal

domingo, 29 de outubro de 2017

Shimmer & Shine: Pede um Desejo

As gémeas Shimmer e Shine têm um poder genial: podem conceder três desejos por dia à amiga que considerarem perfeita para os receber. Para isso, criaram um frasco que foi parar às mãos da Leah, a amiga escolhida. Mas, novas nisto de realizar desejos, nem sempre as gémeas concedem exactamente aquilo em que a Leah estava a pensar. E o resultado acaba por ser... inesperado.
Magia e diversão nas medidas certas, com uma história simples e descontraída e personagens cativantes: assim se poderia descrever este pequeno livro, evidentemente vocacionado para um público mais novo (e talvez seguidor da série de desenhos animados), mas igualmente cativante em si mesmo e para leitores... vá, menos jovens. E o primeiro aspecto a sobressair é, mais uma vez, o visual, que, não sendo surpresa para quem conhecer a série, não deixa de cativar pela cor e pela forma como completa o texto, dando mais vida à história.
Porque, claro, o essencial é a história, não é? E também neste aspecto a impressão que fica é positiva. Não é nada de particularmente surpreendente numa história de génios que a realização dos desejos nunca corra exactamente como seria de esperar. Ainda assim, a forma leve e divertida como tudo acontece proporciona um bela aventura e bons momentos de diversão. Que mais se pode pedir a um livro destes?
E depois há a mensagem, também ela simples, mas muito positiva: a de que a amizade prevalece sobre os mal-entendidos e os pequenos desastres. Shimmer e Shine podem ser génios inexperientes, mas são amigas fiéis - e, no fundo, é isso que importa. Os amigos têm defeitos, mas são amigos. 
A impressão que fica é, portanto, a de um livro simples e colorido, com uma história cativante e personagens cheias de potencial para grandes aventuras. Divertido, agradável e com uma bela mensagem, uma boa leitura para os mais novos.

Título: Shimmer & Shine: Pede um Desejo
Autor: Nickelodeon
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Imagina Que Não Estou Aqui (Adam Haslett)

No dia em que viu o noivo pela primeira vez, Margaret estava longe de imaginar tudo o que viria depois. Durante o noivado, John foi internado devido a uma depressão e, posta perante a possibilidade de desistir de tudo ou de continuar, aceitando os problemas que daí poderiam advir, Margaret decidiu escolher o amor e seguir em frente com os seus planos. Agora, com três filhos e uma vida nem sempre fácil de gerir, novos fantasmas começam a vir à superfície. O marido, longe do sucesso financeiro que almejava, nem sempre consegue lidar com as suas sombras interiores. E Michael, o filho mais velho, parece já partilhar da companhia do mesmo monstro. São uma família, os cinco - mas que tipo de relação pode perdurar quando se carrega aos ombros um fardo tão pesado? E que fim poderá haver quando as sombras de cada um são os fantasmas de todos?
Narrado na primeira pessoa pelos vários elementos da família e centrado, acima de tudo, nos demónios e provações pessoais que lhes definem os caminhos, este não poderá nunca deixar de ser uma leitura difícil. E não se entenda por difícil que seja maçadora ou cansativa - muito pelo contrário. Embora a complexidade das relações se revele aos poucos e a das personagens exija algum tempo para as conhecer realmente, a dificuldade na leitura tem a ver precisamente com a intensidade: a intensidade de um labirinto emocional que molda vidas inteiras, de um percurso onde todas as vulnerabilidades doem e em que as penas das personagens facilmente se tornam perceptíveis ao leitor. É duro o caminho e nenhum dos passos é fácil. E isso transparece até no mais simples dos momentos.
Mas é precisamente esta dureza que torna a leitura tão marcante. Não há - nunca - a tentação de reduzir aos traços mais simples ao que é, no fundo, um percurso de uma complexidade avassaladora. Seja a doença de Michael, com todos os momentos de estranheza e de agonia em que ela se manifesta, a vulnerabilidade de Margaret, decidida a tudo fazer pelo filho, custe isso o que custar, ou a dificuldade de Alec e Celia em lidar com a situação do irmão ao mesmo tempo que tentam construir para si mesmos uma vida diferente, em todos estes aspectos há um labirinto profundo: de mágoas, de vulnerabilidade, de esperanças feitas desespero, de possibilidades vividas ou deixadas por concretizar. E tudo é complexo. Tudo é profundo. Desde o início pausado onde as peculiaridades começam a revelar-se ao final de pura angústia que, ao mesmo tempo, se assume como tremendo e inevitável.
E há ainda um outro aspecto que torna a leitura mais pausada - mas também muito mais fascinante. Além da complexidade inerente ao tema da doença mental, há ainda outros elementos relevantes a pautar o curso da vida das personagens, começando desde logo pelos interesses de Michael, mas estendendo-se também às relações dos irmãos e à forma como estas lhes condicionam a vida. Em todos estes aspectos há muitos detalhes a assimilar e, no caso da relação de Michael com a música, um mundo de referências mais ou menos fáceis de reconhecer. Ainda assim, e embora o enredo avance por isso a um ritmo mais lento, há ainda um outro efeito interessante em tudo isto: a visão de uma mente (no caso de Michael em particular) capaz de abranger tanto com tanto pormenor torna o seu percurso ainda mais impressionante. E a forma como tudo termina ainda mais memorável. 
Não, não é uma leitura fácil. Mas não haja dúvidas de que justifica todo o tempo e concentração exigidos para acompanhar esta longa jornada. Pois, na intensidade das mais difíceis emoções e na complexidade com que a todos torna vulneráveis, percorrer as páginas deste livro é olhar de frente uma das mais duras - e inevitáveis - facetas da vida: a tortuosidade do caminho e a inevitabilidade do fim. E essa é uma verdade dura, mas que facilmente se grava na memória. 

Autor: Adam Haslett
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Imagina que Não Estou Aqui, clique aqui.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Quando as Girafas Baixam o Pescoço (Sandro William Junqueira)

No lote 19, vivem muitas vidas umas sobre as outras: a Mulher Gorda quer comprar jacintos e a filha, a Rapariga Magra, aceita tudo menos ficar igual à mãe. O Velho sabe que não pode deixar que a morte o apanhe a dormir, enquanto o Homem Desempregado não sabe como saciar a fome a não ser com a memória de refeições passadas. E, entre estes e outros, a vida passa: para uns, traz vinganças e ligações de amor e ódio; para outros, a apatia do que se deixou de sentir. Ao lado, o lote 17 é um buraco à espera de construção - buraco como o das vidas que o observam ao passar.
Não é propriamente fácil traçar uma linha geral para este livro - e, contudo, ela está lá. A história nasce de uma multiplicidade de fragmentos, de pequenos momentos das vidas das várias personagens, como que vistos pelo olhar de alguma entidade distante. E, ainda assim, é incrivelmente fácil entrar na vida destas pessoas, querer saber mais - sobre o que as move, sobre o que são, sobre o que perderam. Tornam-se próximas, talvez precisamente por serem vistas aos poucos - pois o que é a vida senão uma sucessão de fragmentos entrelaçados na memória?
Também fascinante é a forma como todos estes pequenos momentos estão escritos, com a brevidade sintética de quem se cinge ao estritamente essencial. Narram-se os factos, expressam-se os pensamentos e os sentimentos como eles são, sem grandes elaborações nem divagações extensas. E, no entanto, este estilo sintético e preciso abre portas a uma mais ampla complexidade: há frases que contém em si mesmas uma verdade tão vasta que é quase incrível que tenham mesmo tão poucas palavras. E essas frases que ficam na memória, associadas aos pedaços de vida que, no seu conjunto, moldam um todo maior que a soma das suas partes, são o que tornam este mundo de peculiaridades tão real - e tão estranhamente familiar.
E há tantas vidas neste livro... Talvez seja também isso que o torna tão marcante. É que, ao acompanhar tantas personagens num livro tão breve, o autor realça precisamente aquilo que as torna únicas - e, ao mesmo tempo, o que nelas mais desperta interesse e empatia e solidariedade. No fundo, todas estas personagens têm algo de estranho - mas do tipo de estranheza que existe nos recantos mais cruéis da realidade. E, sendo certo que a vida não acaba no fim de uma história, também a história destas personagens não acaba: ficam coisas por dizer, futuros possíveis, bons ou maus. E este ponto de equilíbrio onde tudo termina - pondo fim a algumas coisas, mas deixando tantas outras por dizer - faz um estranho sentido nesta história em que todas as vidas são, por natureza, incompletas.
No fim, fica uma imagem intrigante: a de um livro que marca tanto por acontecimentos específicos como pela teia de sensações e de impressões que tece em torno deles. E é isto, aliás, que torna esta leitura tão memorável: um percurso que se faz vida nas pequenas coisas - e que continua no pensamento depois do fim. 

Autor: Sandro William Junqueira
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Divulgação: Novidade Clube do Autor

Do inferno da Europa em 1945 à Nova Iorque hippie, neste romance premiado com o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, Adélaïde de Clermont-Tonnerre conta a história dos anos loucos vividos na pele por dois genuínos filhos do século XX: Werner Zilch, nascido na Alemanha no estertor da Segunda Guerra Mundial, e Rebecca Lynch, herdeira de um homem de negócios e de uma mulher que logrou escapar com vida ao campo de concentração de Auschwitz. Uma paixão louca e proibida num cenário histórico repleto de reviravoltas e suspense.
Werner Zilch é um jovem carismático e empreendedor. Adotado desde tenra idade, vê-se confrontado com a descoberta das suas origens, tudo menos gloriosas. Aos olhos dos outros, pode ser considerado responsável pelos erros cometidos pelos seus antepassados? Como aceitar que o seu progenitor estivesse ligado ao nazismo?
A par das personagens, surgem nomes que os leitores por certo reconhecerão, todos eles figuras marcantes do seu tempo. A saber: Andy Warhol, Truman Capote, Tom Wolfe, Joan Baez, Patti Smith, Bob Dylan…
Uma complexa história de amor que é, ao mesmo tempo, um capítulo ficcionado da nossa História. O leitor não conseguirá pousar o livro enquanto não descobrir quem é, na verdade, «O último dos nossos».

Adélaïde de Clermont-Tonnerre nasceu em Neuilly-sur- Seine, a 20 de Março de 1976. Educada num meio artístico, estudou na Escola Normal Superior de Paris. Fourrure, a primeira obra publicada em 2010, recebeu vários prémios literários, entre os quais o Maison de La Presse, Françoise Sagan e Bel Ami, e foi finalista dos conceituados prémios Renaudot e Goncourt (Primeiro Romance).
Jornalista e escritora, é actualmente chefe de redacção da revista Le Point e participa em vários programas de rádio e de televisão. O Último dos Nossos é o seu segundo romance, vencedor do Grande Prémio do Romance da Academia Francesa e finalista do Grande Prémio do Romance Elle.