segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A Sombra da Noite (Robert Bryndza)

Tudo naquele caso é estranho e Erika sabe-o. Mas algo lhe diz que aquele homem encontrado amarrado à cama com um saco de plástico enfiado na cabeça não é apenas mais uma vítima de um crime de ódio. As pistas são poucas, o assassino parece ser extremamente cuidadoso e os recursos da polícia são mais limitados do que seria desejável. Mas Erika não está disposta a ignorar os seus instintos. E, quando a segunda vítima é encontrada da mesma forma e todas as atenções mediáticas se voltam para o caso, Erika começa a perceber a verdadeira complexidade da situação. O assassino é uma verdadeira sombra e as pistas que deixa são ambíguas, na melhor das hipóteses. Mas a sua lista de vítimas ainda não acabou... e, ao meter-se-lhe no caminho, Erika pode muito bem estar a arriscar a própria vida. 
Mais uma vez centrado num caso que começa e termina neste volume, mas com ramificações pessoais e profissionais que se estendem para o passado e muito provavelmente para o futuro, este é um livro que, à semelhança do primeiro volume da série, prende desde as primeiras páginas e não deixa de surpreender até ao fim. E, se A Rapariga no Gelo tinha mais do que forças suficientes para definir esta série como imperdível para os fãs de um bom policial, então A Sombra da Noite eleva tudo a um novo nível.
Claro que as qualidades são essencialmente as mesmas do livro anterior, sendo uma das principais a forma como o caso se vai interligando com os restantes elementos do enredo: as experiências passadas das personagens, a política e burocracia associadas às forças policiais, as próprias ligações pessoais entre as diferentes personagens. Tudo isto se conjuga num equilíbrio intenso e eficaz, pois, se a existência de um assassino à solta e a necessidade de o travar bastam para dar forma a uma história intensa e cativante, o facto de também os investigadores terem em si muito de fascinante torna toda a narrativa mais interessante. Além disso, este equilíbrio entre o pessoal e o profissional torna as personagens muito mais humanas - e isto aplica-se tanto a Erika, com o peso do seu passado, como a outras personagens que começam a afirmar-se, como Isaac. E até mesmo a tal Sombra tem as suas complexidades...
Depois há a escrita, claro, que, com os seus capítulos relativamente curtos e um equilíbrio praticamente perfeito entre os momentos de tensão, de mistério, de emoção e até de humor, torna quase irresistível a necessidade de saber o que acontece a seguir. E, quando o que acontece é tão intenso, tão forte e, às vezes, tão inesperado... bem, torna-se difícil parar a leitura.
Mas volto ainda outra vez às personagens, para realçar uma faceta que, embora aparentemente secundária, acaba por ser o aspecto que mais contribui para elevar este segundo volume a um nível em tudo superior. Já conhecemos Erika, Peterson, Moss, Isaac. Mas a passagem do tempo e as experiências vividas parecem estar a criar uma ligação mais duradoura, que não só torna mais intensas as situações mais difíceis, como realça as vulnerabilidades destas e doutras personagens. Ora, vulnerabilidade significa empatia, o que aumenta em muito o impacto emocional de alguns discretos - mas muito marcantes - episódios do enredo. 
Com um núcleo de personagens fortes e um enredo cheio de surpresas, eis, pois, um livro que não só não desilude, como gera também expectativas elevadíssimas para o próximo livro - que, deixem-me que vos diga, mal posso esperar para ler. Intenso, viciante e sempre surpreendente, um livro a não perder. Genial.

Título: A Sombra da Noite
Autor: Robert Bryndza
Origem: Recebido para crítica

Passatempo O Livro do Pó

O blogue As Leituras do Corvo, em parceria com a Editorial Presença, tem para oferecer um exemplar do livro O Livro do Pó - La Belle Sauvage, de Philip Pullman. Para participar basta responder às seguintes questões:

1. Como se chama o protagonista deste livro?
2. Este livro pertence ao mesmo universo da trilogia Mundos Paralelos. Como se chamam os livros desta trilogia?
3. Em que país nasceu Philip Pullman?


Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 14 de Janeiro. Respostas posteriores não serão consideradas.
- Para participar deverão enviar as respostas para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- Os vencedores serão contactados por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Nove anos


Sim, já são nove anos... e o tempo foge...

E não sei bem se tenho as palavras certas para dizer o que me vai na cabeça. Porque fazê-lo talvez signifique fazer balanços, recordar, talvez, obstáculos e barreiras, e hoje quero só lembrar-me do bom.

E o bom é tanto! São todas as histórias onde me perdi, onde me encontrei, onde deixei bocadinhos de um coração mais ou menos partido, onde fiz magia e descobri que, na verdade, ela existe. São as escolhas e as personagens que fizeram sentir compreendida e saber que até os heróis têm dúvidas... até os heróis têm vulnerabilidades. E são também as pessoas, as que este mundo dos livros me deu a conhecer: as que partilham da mesma paixão e, por isso, entendem também as minhas particularidades.

São nove anos, sim. E vocês continuam por aí a ler-me. Por isso, a verdade é que só há uma coisa que importa dizer... e é tão simples afinal...

Obrigada por continuarem a visitar-me. Serão sempre bem-vindos.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Ferals - A Mãe das Moscas (Jacob Grey)

Crau conseguiu salvar Blackstone do Tecedor, mas o mal nunca desaparece verdadeiramente. E, quando pensa ter finalmente algum tempo para se adaptar e desenvolver as suas capacidades, o seu caminho cruza-se com um novo inimigo - e um legado que a mãe lhe deixou e que tem de proteger a todo o custo. Há uma nova feral maléfica em Blackstone e os seus planos para a cidade são tão ou mais terríveis que os do Tecedor. Para a combater, Crau precisará de toda a ajuda que conseguir e também de renunciar a alguns dos seus segredos. Mas, quando o perigo se adensa e uma verdade dura vem à tona, Crau sabe que, no fim, dependerá de si estar à altura da sua linhagem e salvar os seus amigos de um destino terrível. 
Mantendo o mesmo registo directo e de acção constante, mas acrescentando-lhe um novo peso com mais descobertas do passado e um conjunto de relações mais próximas entre as personagens, este livro que, embora dando continuidade a O Rapaz que Falava com os Corvos, põe Crau e os seus amigos numa aventura essencialmente nova, cativa, em primeiro lugar, pelo delicado equilíbrio entre a simplicidade da história, a intensidade de acção e a inesperada força das emoções que desperta. Continua, é claro, a ser uma história pensada para um público jovem, mas este elevar do impacto de todos os elementos torna a história consideravelmente mais marcante, deixando uma impressão bastante mais duradoura - e uma vontade quase irresistível de ler o final da trilogia.
Também há uma evolução considerável em termos de complexidade, não propriamente do enredo, que continua a seguir a já esperada linha da acção quase constante, em que o contexto vai surgindo à medida que é necessário, mas pelo contexto em si e pelo desenvolvimento das personagens. O contexto é agora mais amplo, pois novos elementos como a situação da Mãe das Moscas e o segredo da pedra permitem uma percepção mais ampla da situação, levantando também algumas questões pertinentes sobre a alegada superioridade moral de alguns ferals. E as personagens acabam também por se tornar mais complexas, seja pelas escolhas que têm de fazer, seja pelo reconhecimento dos erros que traz consigo novas decisões.
Ah, e claro. Continua a não haver gente perfeita neste livro - muito menos o próprio Crau. Agora mais consciente dos seus poderes, não deixa, ainda assim, de ser uma figura com fraquezas, com dúvidas, com medos. E isso torna tudo muito mais empolgante, pois é possível sentir essas mesmas dúvidas e medos ao longo de toda a aventura, o que reforça ainda mais o impacto dos momentos mais emotivos.
Simples quanto baste, mas inesperadamente intenso, eis, pois, um segundo volume que eleva a um novo nível as qualidades do livro anterior. Cativante, sempre agradável, e com a mistura certa de acção, emoção, magia e um toque de humor, um livro que superou amplamente todas as expectativas. Muito bom.

Título: Ferals - A Mãe das Moscas
Autor: Jacob Grey
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Um Dia (Morris Gleitzman)

No dia em que encontra uma cenoura inteira na sua sopa, Felix Salinger julga ter recebido finalmente o sinal que tanto esperava: os pais vêm aí e vão finalmente tirá-lo do orfanato. Mas, apesar da sua imaginação tão fértil, a realidade é muito mais complexa do que Felix alguma vez pensou. E, quando vê um grupo de soldados a queimar livros no orfanato, Felix sabe que tem de fugir e de esconder os livros que os pais deixaram na livraria. Mal imagina ele que os livros estão longe de ser o último problema - e que, na sua inocência, mal consegue conceber a verdadeira dimensão das sombras que se avolumam sobre o mundo...
Relativamente breve e visto essencialmente pelos olhos do protagonista, este é um livro em que o primeiro aspecto a sobressair não podia ser outro que não a inocência de Felix. E é uma inocência quase que ilimitada, que, desde logo, desperta sentimentos fortes. Primeiro, porque é difícil não admirar a imaginação do protagonista e a forma como, a partir do muito que não sabe, consegue sempre construir a melhor explicação possível - mesmo num cenário que não é muito agradável. Depois, porque esta tão grande inocência no contexto em que tudo decorrer afirma desde logo uma grande e dolorosa certeza: Felix tem muitas desilusões à sua frente.
Não é, nem pretende ser, uma história exaustiva sobre a vida das crianças judias durante o domínio nazi. E, tendo em conta que há vários outros livros na sequência deste, nem sequer é a história completa de Felix. Mas é interessante reparar que, apesar da relativa brevidade e da forma como a história é construída, centrando-se no percurso das personagens e revelando a informação à medida que vai sendo necessária, nada retira à envolvência da leitura. E até o que é deixado por dizer acaba por deixar sobretudo uma grande vontade de ler os próximos livros.
E quanto à inocência... bem, a inocência inicial é o que torna toda a história tão marcante, pois é difícil não se ficar comovido quando se vê uma criança a tentar contar histórias positivas para apagar da mente - da sua, ou da dos que com ele se cruzam - as verdades dolorosas de um mundo cada vez mais sombrio.
No fim, fica a vontade de ler mais, aquele rasgo de emoção que nos faz pensar que partilhámos um bocadinho de vida com as personagens que estivemos a acompanhar e a certeza de que a história de Felix pode ser imaginária - mas há muita verdade contida no seu interior. Uma boa história, uma boa leitura... e uma série de livros para continuar a descobrir.

Título: Um Dia
Autor: Morris Gleitzman
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Divulgação: Novidade Presença

Volume 1 - La Belle Sauvage
Philip Pullman
Colecção: Via Láctea n.º 140
Tema: Ficção e Literatura
Título Original: La Belle Sauvage (The Book of Dust Volume 1)
Tradução: Maria do Rosário Monteiro
ISBN: 978-972-23-6153-8 
Páginas: 392

Philip Pullman regressa ao universo de MUNDOS PARALELOS. 

Malcolm Polstead tem onze anos. Os pais gerem A Truta, uma estalagem muito frequentada nas margens do rio Tamisa, perto de Oxford. Malcolm é muito atento a tudo o que o rodeia, mas sem chamar a atenção dos outros . Talvez por isso, fosse inevitável vir a tornar-se num espião. É na estalagem que ele, juntamente com o seu génio Asta, descobre uma intrigante mensagem secreta sobre uma substância perigosa chamada Pó. Quando o espião, a quem a mensagem era dirigida, lhe pede que preste redobrada atenção ao que por ali se passa, o rapaz começa a ver suspeitos em todo o lado: o explorador Lorde Asriel; os agentes do Magisterium; Coram, o cigano; a bela mulher cujo génio é um macaco malicioso... Todos querem descobrir o paradeiro de Lyra, uma menina, ainda bebé, que parece atrair toda a gente como se fosse um íman. Malcolm está disposto a enfrentar todos os perigos para a encontrar...

Philip Pullman nasceu em Norwich, Inglaterra, em 1947. Ainda criança, viveu no seu país, no Zimbabué e na Austrália. Quando tinha onze anos, a família regressou definitivamente a Inglaterra. Frequentou a Faculdade de Exeter, onde descobriu o seu interesse pela literatura do género fantástico. Teve diversas profissões antes de se tornar professor em Oxford. Dedicou-se então à criação literária, começando por escrever textos de teatro e contos. A partir de 1985 passou a produzir romances, mas foi em 1995 que alcançou o sucesso à escala internacional com a trilogia MUNDOS PARALELOS, constituída pelos volumes Os Reinos do Norte, A Torre dos Anjos e O Telescópio de Âmbar, todos publicados pela Editorial Presença. Esta trilogia, traduzida em mais de 40 línguas e com vendas superiores a 18 milhões de exemplares, foi seleccionada como uma das 100 melhores obras de todos os tempos pela revista Newsweek, tendo uma adaptação cinematográfica de êxito mundial com o título A Bússola Dourada. 
Philip Pullman, um dos escritores mais aclamados da actualidade, foi distinguido com vários prémios literários de grande prestígio, incluindo o Carnegie Medal; o Guardian Children's Book Award; o Whitbread Prize, concedido pela primeira vez a um autor de obras infantojuvenis, e o Memorial Astrid Lindgren Prize, pelo conjunto da sua obra.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

As Falsas Memórias de Manoel Luz (Marlene Ferraz)

Quando criança, viu-se inesperadamente protegido por um homem de ilustre fama enquanto livreiro - e o seu coração dividiu-se entre o pai simples e a ânsia de ser alguém mais importante. Cresceu entre dois mundos e de coração dividido, sem saber que segredos levavam a essa tão estranha situação. Já adulto, e mais em paz com as duas facetas da sua existência, Manoel vê-se num ponto de viragem. O editor morreu. O futuro da livraria está em aberto. E também o pai há muito que partiu. A Manoel, restam apenas as memórias e o súbito fascínio por umas quantas pessoas perdidas e um amor que, do passado, lhe traz um amor diferente. Mas o que julga saber e a verdade são duas coisas diferentes. E o que é a verdade, afinal?
Longe de ser uma leitura compulsiva, apesar dos capítulos bastante curtos, este é um livro que leva o seu tempo a assimilar, principalmente pela estranheza inicial. Isto deve-se em grande medida à escrita, que, bastante elaborada e com um estilo onde as palavras inesperadas se sucedem, dá forma a uma voz própria e onde são muitas as peculiaridades que é preciso absorver. E esta sensação de estranheza nunca se desvanece por completo, mas, uma vez entendidas as suas particularidades, tudo se torna bastante mais natural e, à medida que Manoel cresce e se revela, também a fluidez da narrativa aumenta, culminando num final onde todas as respostas dadas têm algo de tão próximo que a distância inicial acaba por se desvanecer. 
Abrem-se então as portas do mundo de Manoel Luz. E há tanto na sua história a ponderar. Desde a criança dividida entre o pai simples e o editor que o seduz com importâncias futuras ao adulto desencantado que começa a descobrir o que sempre esteve lá, há no caminho da vida de Manoel toda uma sucessão de descobertas e de revelações que, não sendo propriamente momentos de grande impacto na história, marcam, contudo, várias verdades fundamentais. E, da criança cheia de sonhos ao adulto desencantado, vai um crescimento muito único, mas onde é fácil descobrir pontos em comum - até porque todas as vidas os têm, e a de Manoel é bastante completa.
Mas há ainda um outro ponto marcante - talvez até o mais marcante em todo o livro. É que, crescendo em tempos de convulsão e de mudança, Manoel vive a mudança de regime, de percepções e de (algumas) mentalidades. E, do seu caminho, é possível retirar muitos pensamentos pertinentes - sobre influências, sobre razão e emotividade, sobre os diferentes papéis dos homens na máquina do mundo, sobre a vida e a liberdade, em suma. Claro que nem tudo é simples. Nada é simples, aliás, e ficam, muitas vezes, sentimentos ambíguos sobre escolhas e comportamentos. Ainda assim, também isso contribui para tornar a jornada mais realista - pois, num mundo tão complicado, dificilmente se encontra alguém absolutamente bom. 
Tudo somado,fica a impressão de uma leitura feita de estranheza e de mistério, em que a verdade se esconde nas pequenas coisas e tudo parece ser relativo consoante os olhos de quem observa. Cativante e surpreendente, na forma como no conteúdo, um livro que pode exigir algum tempo... mas que merece todos os minutos.

Título: As Falsas Memórias de Manoel Luz
Autora: Marlene Ferraz
Origem: Recebido para crítica