quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O Livro dos Gatos (Cláudia Cabaço)

Não faltam histórias sobre cães que ficaram famosos, seja por gestos heróicos, pelo seu protagonismo em grandes aventuras ou pela mera presença na vida de um dono famoso. Então e os gatos? Não terão também muitas dessas mesmas histórias? A resposta é sim e a prova disso está neste livro, cujas histórias vão desde a primeira gata astronauta a um gato que sentia a morte, sem esquecer sucessos reais como a Grumpy Cat e imaginários como o intemporal Garfield. Porque aquela ideia de que os gatos são bichos traiçoeiros e de pouca confiança... não podia estar mais longe da verdade.
Sendo certo que o mais importante de um livro é sempre o conteúdo, e ainda mais em casos como este em que os protagonistas são maioritariamente figuras reais (e não importa se, neste caso, não são humanos), importa, ainda assim, começar por destacar o aspecto visual, nomeadamente as secções coloridas dedicadas a gatos de figuras famosas. As histórias enquadram-se na perfeição com as restantes histórias do livro, mas acrescentam algo de novo, pois debruçam-se também mais a fundo sobre a história dos donos (ou dos criadores, no caso da última secção). E surge assim um contraste que, diferenciado por cor, realça o equilíbrio entre o protagonismo dos donos e o dos gatos, figuras maiores deste livro.
Não é difícil reconhecer alguns dos protagonistas deste livro, até porque muitos deles tiveram direito ao seu próprio livro. Ainda assim, há dois efeitos que se destacam desta leitura: primeiro, ver todas estas histórias juntas cria uma imagem global mais ampla, que desmente o já mencionado mito de que os gatos são "menos amigos" que os cães; segundo, conta o essencial da história de cada um destes gatos, o que significa não fica propriamente uma curiosidade insatisfeita, mas sim uma vontade de os conhecer mais a fundo. O que implica chegar ao fim com uma lista de livros para pesquisar - o que é sempre bom.
E há ainda a diversidade de temas em torno de um cerne comum. Todas as histórias são histórias de gatos, mas há espaço para um pouco de tudo: gatos heróicos, gatos sensitivos, gatos de biblioteca, gatos estrelas do palco, gatos da internet... Parece que estão em toda a parte, não é? E o maior elogio que se lhes pode fazer é esse: afinal, são mais companheiros do que se diz. 
Cativante, sucinto, mas bastante completo e divertido, cativa pela forma como conta estas surpreendentes histórias... e surpreende, acima de tudo, pelos seus protagonistas. Somados todos estes aspectos, a impressão que fica é, pois, inevitável: a de um livro imperdível para quem gosta de gatos. 

Autora: Cláudia Cabaço
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Quinas e Castelos (Miguel Metelo de Seixas)

As quinas, os castelos, a esfera armilar, a cruz de Cristo... todos conhecemos estes símbolos que, de uma forma ou de outra, se tornaram parte da identidade nacional. Mas do que falamos realmente quando falamos em brasões e, especificamente, do escudo de armas do rei? Este livro traça um retrato da evolução, em termos de heráldica, das armas reais e da forma como estas reflectem contextos, alianças e até mesmo mudanças de regime. Porque o símbolo pode ter-se tornado comum aos nossos olhos, mas isso não significa que não tenha uma história complexa.
Para quem, como eu, chega a este livro com escassos conhecimentos de heráldica, a leitura pode parecer inicialmente um pouco confusa, dada a abundância de regras e termos específicos. Para estes, a solução está no glossário final, que permite compreender melhor os elementos a que o autor se refere. Já as primeiras, vão-se captando aos poucos à medida que a leitura avança. Sim, a confusão inicial torna o arranque um pouco mais pausado e seria interessante ver uma explicação geral prévia. Mas tudo se torna claro no fim.
Há também vários aspectos interessantes além das normas e construções propriamente ditas. Destaca-se, por exemplo, o facto de o simbolismo dos vários elementos nem sempre ser tão linear como aprendemos na escola, havendo até casos em que o significado é múltiplo, alterando-se consoante o contexto e a época em que é visto. E também a evolução dos símbolos, com as respectivas justificações e contexto histórico a darem toda uma nova perspectiva ao que é, afinal, muito mais do que um simples elemento visual.
É um livro que, apesar da relativa brevidade, exige atenção constante para assimilar todos os pormenores. Entre símbolos, regras, intervenientes, mudanças de cenários, de estatuto, de regime, há todo um conjunto de variantes a surgir, trazendo consigo novas motivações e contextos. Assim sendo, é um livro que, apesar de breve, é bastante exigente.
Vale a pena o esforço? Vale, com certeza, até porque uma coisa é certa: chega-se ao fim com um conhecimento mais amplo sobre o tema, e com vontade de saber ainda mais. E, se a desorientação inicial dá lugar a um vasto conjunto de conhecimento, então a impressão que fica não pode ser outra que não a de uma boa leitura.

Autor: Miguel Metelo de Seixas
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Quando a Terra Era Plana (Graeme Donald)

A ciência está em constante evolução, o que significa que aquilo que há algum tempo era visto como uma certeza absoluta acabou por ser desmentido por descobertas posteriores. Além disso, há teorias "científicas" que se tornaram mitos e que, mesmo depois de desacreditadas, perduraram na mente de muitas pessoas. O que dizer dos ainda existentes devotos da teoria da terra plana? Ou do fenómeno dos tratamentos de irrigação do cólon? Este livro, simples e divertido, debruça-se sobre algumas célebres teorias que se revelaram erradas, mas cujas ramificações se prolongaram ao longo do tempo - com resultados por vezes dramáticos.
Sendo um livro relativamente breve, mas que se debruça sobre vários temas, uma das primeiras coisas que importa dizer é que não é, nem pretende ser, uma análise completa a cada uma destas teorias. O que apresenta é uma descrição em linhas simples destas ideias, origens e propagação, debruçando-se depois sobre as descobertas que desmentiram a sua validade e também sobre o impacto que tiveram na história. E, porque algumas delas são hoje bastante óbvias, o que este livro consegue, além de traçar um retrato bastante interessante sobre a evolução da ciência, é proporcionar também uma leitura divertida. Até porque, além das teorias mais rebuscadas, o próprio registo leve e cativante - com algumas observações deliciosamente certeiras - contribui também para lhe conferir esse tom.
Importa também destacar a estrutura do livro, em que cada capítulo é acompanhado por várias ilustrações e caixas com informações complementares. As ilustrações permitem uma imagem mais clara de algumas explicações mais bizarras - nomeadamente no que toca a... aparelhos. A informação extra, além de acrescentar pequenos detalhes a alguns dos temas expostos, traz também uma secção de mitos "científicos" que ainda perduram actualmente e que esta leitura vem desmentir.
Podia ser um livro mais extenso? Provavelmente não faltariam teorias para acrescentar a este conjunto ou até mais a dizer sobre as que são, de facto, abordadas. Ainda assim, parece ter a medida certa, dedicando-se a várias teorias sobejamente conhecidas e abordando-as e forma concisa quanto baste e sem deixar de fora nada de essencial. Para aprofundar cada tema, haverá certamente outros livros. Este forma um todo bastante eficaz tal como é.
Trata-se, pois, de uma bela leitura para descobrir os meandros mais bizarros da ciência passada - e também para desconstruir algumas teorias que, apesar de tudo, persistem em voltar a aparece. Cativante, divertido e muito, muito interessante, um livro que não posso deixar de recomendar.

Título: Quando a Terra Era Plana
Autor: Graeme Donald
Origem: Recebido para crítica

domingo, 11 de agosto de 2019

O Milagre Espinosa (Frédéric Lenoir)

Educado no seio da religião judaica, Baruch de Espinosa cedo começou a fazer perguntas desconfortáveis - perguntas essas que o levariam a ser primeiro visto com desconfiança e depois abertamente repudiado por diferentes religiões. Da religião, passou para a filosofia, e seria esta a gravar o seu nome na história. Este livro aborda de forma sucinta e esclarecedora não só os passos essenciais da sua vida e pensamento, mas principalmente a sua obra maior, transpondo-a para uma visão actual e realçando o que nela existe de intemporal.
Sendo o próprio autor quem descreve como "árida" a leitura da Ética de Espinosa, uma das primeiras coisas a destacar neste livro será necessariamente o registo. É um livro mais breve, pelo que será inevitável que conceitos e visões sejam necessariamente simplificados. Não é, porém, um livro simplista. A voz que confere ao texto - tanto nas descrições biográficas como nas explicações filosóficas - é clara e concisa, mas não deixa nada de essencial de fora. E a divisão entre os diferentes de aspecto consegue também dividir a muita informação em fracções mais fáceis de assimilar.
Outro aspecto a destacar é, claro, a actualidade das ideias e o contraste que existe entre este todo intemporal e certos conceitos desfasados do nosso tempo. Não deixa, aliás, de ser particularmente interessante ver a admiração e o fascínio que o autor professa por Espinosa e reparar que, ainda assim, assume claramente os pontos de discordância, nomeadamente no que toca à opinião do filósofo sobre as mulheres e os animais. É estranhamente fascinante ver como alguém cujo pensamento foi tão inovador para o seu tempo - ao ponto de fazer inimigos de religiões inteiras - acaba por se cingir, em certos aspectos, aos limites do pensamento da época.
E, se este pensamento diverge da obra, já no que diz respeito à vida deixa marcas profundas. Se a filosofia em si tem muito de interessante, já a história do filósofo, nas partes abordadas neste livro, tem também muito de surpreendente, desde as cartas dos amigos católicos apelando ao arrependimento a uma expulsão que, séculos depois, se manteve por... falta de arrependimento. E é notável a forma como os laços entre vida e obra ganham forma neste livro: a visão de Espinosa sobre Deus e a Bíblia é indissociável da forma como as religiões reagiram a este pensamento. A ideia é inseparável do homem.
Fica, pois, esta surpreendente imagem: a de um livro em que a história das ideias é também a história do seu autor. E a de uma revitalização para novos tempos de um pensamento com muito de intemporal. Completo, esclarecedor e também muito acessível, um belo livro para conhecer ou recordar a vida e o pensamento de Baruch de Espinosa.

Autor: Frédéric Lenoir
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Há Algo Estranho na Água (Catherine Steadman)

Erin e Mark têm tudo para ser felizes. Prestes a casar, decidem que está também na altura de começarem a pensar em ter um filho. Mas eis que tudo começa a mudar. Primeiro, Mark perde o emprego, o que obriga a uma alteração dramática nos planos para o casamento. E a lua de mel, o único luxo que decidiram manter, leva-os a uma decisão irreparável. Durante a sua estadia em Bora Bora, descobrem algo estranho na água. Algo capaz de mudar as suas vidas, desde que consigam guardar em segredo aquilo com que se depararam. Mas decidir manter esse segredo abre também caminho a uma sucessão de perigos, capazes de comprometer não só a sua já frágil união enquanto casal, mas também as suas vidas...
Provavelmente o aspecto mais notável deste livro é que, embora não sendo particularmente emotivo, até porque as personagens são bastante ambíguas no que toca à empatia, há, ainda assim, uma sensação de perigo quase palpável. Cedo se torna evidente que a relação entre os protagonistas está longe de ser perfeita, mas há, ao longo de todo o enredo, um ténue fio entre proximidade e diferença, e isso faz com que seja impossível prever que resolução haverá para cada um dos vários problemas que Erin e Mark têm em mãos.
Esta aura de risco e de mistério torna a leitura estranhamente viciante. Não é propriamente um livro de ritmo compulsivo. O registo é relativamente pausado, havendo amplo espaço para análises pessoais, para as questões com que Erin se confronta na realização do seu documentário e para a visão dos múltiplos problemas de uma vida a dois. E, no entanto, há uma sombra que paira constantemente sobre as personagens. Primeiro, o desemprego de Mark cria uma situação de tensão. Depois, a descoberta em Bora Bora acrescenta um novo elemento de risco, parecendo unir os protagonistas nos seus planos e decisões. E a partir daí... Bem, a partir daí a intensidade vai crescendo, as reviravoltas sucedem-se e o que inicialmente era um avanço gradual abre caminho a um pico de intensidade e a um final particularmente marcante.
Tendo isto em vista, a ambiguidade das personagens acaba por fazer todo o sentido, pois, além de brincar com as emoções do leitor, deixando em aberto o verdadeiro papel de cada uma delas, ajusta-se na perfeição a uma situação de perigo e de consequente adaptação. Erin é apenas uma pessoa normal - até que se vê perante a necessidade de tomar decisões impossíveis. Mark... bem, Mark é cheio de surpresas. E se os desenvolvimentos - bem como as decisões tomadas - fazem com que este casal seja tudo menos um duo de personagens modelo, também é certo que o facto de não o serem torna tudo muito mais interessante.
Intrigante desde o início e sempre cativante, apesar do início um pouco mais pausado, trata-se, pois, de um livro que se vai entranhando aos poucos, à medida que história e personagens revelam gradualmente o seu verdadeiro potencial. Misterioso e surpreendente, um livro que vale a pena descobrir.

Autora: Catherine Steadman
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Há Algo Estranho na Água, clique aqui.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Koiza (David Walliams)

A Magda sempre conseguiu que os pais acedessem a todos os seus pedidos. Mas, para alguém tão mimado como ela, tudo não chega. Quer sempre mais. E que mais pode querer uma criança a quem é dado tudo? Bem, a Magda quer mais uma Koiza. E o que é uma Koiza? Segundo a Monstropédia, é uma criatura terrível que vive na floresta mais escura, mais profunda e mais selvagem. E, para fazer a vontade à filha, é aí que o Sr. Manso vai ter de se aventurar em busca de Koiza. E se pensa que encontrá-la será a solução para todos os seus problemas... está redondamente enganado.
Sendo um livro pensado para os mais novos - e especificamente voltado para o espírito de aventura e de rebeldia - , uma das primeiras coisas a destacar-se neste livro será necessariamente o equilíbrio entre o texto e a ilustração. As abundantes ilustrações, as variações que o texto apresenta e até a mudança de cor das páginas (afinal, há coisas que acontecem numa selva muito escura) fazem com que, apesar de tudo o que tem de peculiar e de estranho, seja surpreendentemente fácil entrar no ritmo desta aventura. E se não é propriamente fácil simpatizar com a autoritária Magda... bem, digamos que o evoluir dos acontecimentos lhe faz a devida justiça.
Outro aspecto interessante é que não há praticamente nada nesta história que não seja estranho, a começar pela própria Koiza, mas tudo parece fluir com uma igualmente estranha naturalidade. Tanto a Koiza como os outros animais da Monstropédia são do mais improvável que se pode imaginar, mas encaixam perfeitamente nesta peculiar história - até porque é a Magda a criatura mais difícil de conter. Além disso, a improbabilidade de tudo torna também a leitura mais divertida e cativante, pois é impossível não sentir curiosidade ante que bizarrias e aventuras (ou desventuras, no caso do Sr. Manso) surgirão a seguir.
Claro que, de uma perspectiva adulta, surgirão também outras questões, que acabam por ter também o seu impacto. Ou que melhor forma de abordar a necessidade de regras e de saber dizer não do que o monstro criado pela... bem, mansidão do Sr. e da Sra. Manso? É impossível não ter isto em mente, pois, embora a história siga por outros rumos (e também esta situação tenha uma resolução surpreendente), são as exigências de Magda a base de toda esta aventura.
O que fica é, pois, a impressão de uma história cheia de estranheza e de bizarria, mas também estranhamente cativante e divertida. Viciante, cheia de surpresas e com uma imaginação vastíssima, uma boa aventura para cativar os mais novos... e não só.

Título: Koiza
Autor: David Walliams
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Se Sentes, Não Hesites (Manuel Clemente)

Às vezes, parece que a vida é uma correria constante. Da agitação do trabalho a uma vida pessoal que parece ter de corresponder cada vez mais a uma expectativa idealizada, não necessariamente por nós. E o que devia ser um milagre quotidiano torna-se um fardo a carregar. Talvez nem todos os problemas se resolvam internamente, mas olhar para o interior, para o que realmente queremos, para os sonhos, para o caminho a percorrer, pode abrir caminho a uma visão mais simples e fortalecedora. É essa a visão deste livro, que, através dos seus pequenos textos, não aponta caminhos infalíveis, mas sim a via da auto-reflexão.
Surge, por vezes, neste género de livros, a tendência para uma de duas coisas: ou uma visão demasiado fácil, de basta querer para conseguir e só não consegue quem não quer; ou um caminho demasiado estrito, de regras invioláveis cujo incumprimento resultará em desastre. Felizmente, este livro não segue nenhuma destas vias. A linha fulcral é uma e uma só: olhar mais para o que somos, para o que queremos, para o que nos torna melhores, e agir em função disso. O resto é uma visão pessoal, da qual podemos tirar muito material para reflexão, tomando depois as nossas próprias decisões.
É também um livro que não se cinge a uma crença específica, centrando-se mais na percepção da própria natureza de cada um e partindo daí para a transmissão das várias mensagens positivas. Claro que há aspectos que, à primeira vista, poderão evocar a tal sensação de que a realidade não é assim tão simples: afinal, nem todos os problemas dependem apenas de nós. Não deixa, ainda assim, de haver muito de bom a retirar desta visão optimista e empenhada. Talvez não seja a solução para todos os problemas - nem pretende sê-lo, diga-se - mas é certamente um belo motivador para os enfrentar com mais coragem.  
E importa ainda referir a que acaba por ser a qualidade mais marcante desta leitura: a escrita. Num registo intimista, pessoal, de quem conta a sua própria experiência, partindo dela para transpor potenciais conselhos e possibilidades, abre portas ao delicado equilíbrio entre a sua visão específica e pessoal e a visão que cada leitor poderá construir a partir destes temas. Há, além disso, um ritmo nas palavras - e na própria estrutura do livro - que torna a leitura mais fluida, mais cativante, conferindo a cada texto um toque de quase poesia que o torna mais memorável.
Não é um daqueles livros de auto-ajuda que prometem milagres - e ainda bem. Pois, com a sua visão pessoal, a abundância de material para reflexão e a escrita cativante e harmoniosa a remeter para a simplicidade ideal, é mais um caminho do que um destino. E principalmente uma inspiração.

Autor: Manuel Clemente
Origem: Recebido para crítica