quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Não se Brinca com Coisas Sérias (Amílcar Monteiro)

Não se brinca com coisas sérias. Ou brinca? E, se não, então onde é que se definem os limites daquilo com que se pode ou não brincar? É esta a pergunta que surge, desde logo, ao ler o título deste livro que, composto por um conjunto de textos humorísticos sobre vários temas, reforça, a cada novo texto, essa mesma questão. É que cada leitor tem os seus pontos sensíveis e as suas particularidades em termos de sentido de humor. E, dada a diversidade de temas e de abordagens que surgem neste livro, haverá sempre sentimentos e reacções diferentes dependendo de cada leitor e de qual dos textos está este a ler.
Esta leitora em particular tem sentimentos ambíguos. Há alguns textos que roçam a genialidade na forma como reflectem certos pensamentos, atitudes e até mesmo fórmulas. Outros, parecem ir longe demais - ou, pelo menos, longe demais para o meu sentido de humor. E o resultado são esses tais sentimentos ambíguos: adorando alguns textos, reconhecendo noutros a criatividade e de outros ainda não retirando grande coisa. Ora, também isto reforça a tal questão: quão longe é longe demais? E haverá resposta. Se há, não deve ser assim tão simples.
Temáticas e preferências pessoais à parte, há ainda um outro aspecto que importa mencionar: a escrita. Apesar de um ou outro descuido de revisão (felizmente, pouco frequentes) o estilo de escrita é, no geral, bastante fluido e cativante. É possível imaginar a voz do autor (ou do protagonista de um determinado texto) a contar a sua história, e acompanhar essa mesma história sem grandes quebras. Além disso, sendo todos os textos bastante curtos, sobressai também a capacidade do autor de se cingir ao essencial, o que não deixa de ser também uma qualidade importante.
É um livro divertido? Sim. É uma leitura confortável? Nem sempre. Mas, acima de tudo, a impressão que fica é a de um conjunto de textos bastante interessantes e diversos, capazes de agradar a diferentes predilecções humorísticas e, portanto, a diferentes leitores. Uma boa leitura, pois.

Título: Não se Brinca com Coisas Sérias
Autor: Amílcar Monteiro
Origem: Ganho num passatempo

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A Noite que Fora de Natal / Carta do Pai Natal / Os Mortos (Jorge de Sena / Mark Twain / James Joyce)

Um Livro Amarelo de Natal: será possível? Se tivermos em conta que esta colecção parece viver de contrastes e relações entre as obras que a conformam, será possível encontrar, para este tema, histórias que sejam ao mesmo tempo comuns e contrastantes? É um desafio, claro. Mas e se... a premissa se ajustar um pouco à época? Do amarelo, passa-se a um vermelho mais natalício. E quanto ao conteúdo? Bem, se semelhança e contraste são os requisitos... então missão cumprida.
Sendo umas das coisas mais curiosas e interessantes nestes Livros Amarelos a capacidade de projetar a uma luz diferente obras e conceitos aparentemente muito distintos, surge, ao embarcar nesta leitura, desde logo, uma dúvida. Contos de Natal: bem, o elo comum é óbvio. Mas e a diferença? Acontece, porém, que lidas as três histórias essa diferença torna-se clara, não só entre os diferentes contos, mas também na diferença intrínseca entre o que cada um destes contos é e o que à partida se espera de uma história natalícia. Mas lá voltaremos.
Antes disso, queria referir mais uma vez o aspecto. Seguindo as linhas visuais dos outros livros da colecção, a temática natalícia dá-lhe, ainda assim, alguns laivos de diferença. De cor, desde logo, mas também, ainda que discretamente, no conteúdo. Não há imagens, como nos anteriores, mas há uma certa - à falta de melhor palavra - cintilação que evoca na perfeição o espírito da época. E, assim, o livro é diferente, mas não demasiado, encaixando perfeitamente no conceito dos Livros Amarelos.
E, agora sim, passemos às histórias, pois é a partir delas que se torna visível a tal diferença no "espírito Natalício." A primeira, A Noite que Fora de Natal, de Jorge de Sena, leva-nos à Roma dos Imperadores, à noite da morte do deus Pã e ao (possível) nascimento de um outro deus. Não é propriamente uma história sobre o Natal - ou, pelo menos, sobre o nascimento efectivo de Cristo - mas antes uma visão sobre outro tipo de nascimento. E isso, essa visão invulgar, associada a uma escrita sempre cativante e à naturalidade com que descreve até os acontecimentos mais negros do conto, tornam a leitura cativante e surpreendente.
Já quanto à Carta do Pai Natal, de Mark Twain, bem, é o que se esperaria de uma carta do Pai Natal. Mas, além da escrita leve e sempre cativante, há um outro aspecto a sobressair: a possibilidade de imaginar a filha do autor a ler esta carta, a seguir as instruções, a ver concretizadas as tão invulgares ideias que surgem no papel. São poucas páginas, mas, se as imaginarmos concretizadas, são fascinantes. E é esse o grande ponto forte desta pequena carta.
Por fim, o texto mais longo: Os Mortos, de James Joyce. Não é propriamente no Natal, mas numa festa de Ano Novo que as coisas acontecem. E as coisas que acontecem são bastantes e difíceis de descrever: danças, conversas políticas, melodias inesperadas, descobertas e redescobertas, recordações. O texto é extenso (para um conto) e nem sempre é fácil perceber o rumo da história, mas a verdade é que nunca deixa de ser cativante. E a fase final, com a sua pequena grande revelação, de passado e de percepção do presente, acaba por se entranhar na memória bem depois de terminada à leitura.
São histórias muito diferentes, portanto. E, porém, o conjunto faz sentido. E é por isso, pelo sempre presente equilíbrio entre o comum e o contrastante, bem como pela forma como tudo se conjuga num livro bonito em forma e conteúdo, que vale bem a pena descobrir esta leitura natalícia. (Ainda que natalícia de uma forma um tanto inesperada). Muito interessante. 

Título: A Noite que Fora de Natal / Carta do Pai Natal / Os Mortos
Autores: Jorge de Sena / Mark Twain / James Joyce
Origem: Recebido para crítica

sábado, 10 de dezembro de 2016

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August (Claire North)

Harry August não é como as outras pessoas. Nasce, vive, morre... e volta a nascer como a mesma pessoa, no mesmo sítio e na mesma época. E não é o único. Há, aliás, uma sociedade na qual se movem os que são como ele, acumulando sabedoria ao longo de várias vidas e vivendo, da melhor forma possível, sem interferir com o rumo natural dos acontecimentos. Mas algo mudou. Uma mensagem vinda do futuro indica que o mundo está a acabar. Harry tem as suas suspeitas quanto ao responsável, pois julga tê-lo conhecido de perto. Mas partir em busca de respostas, consegui-las e, principalmente, impedir o cataclismo, não é coisa que se consiga fazer numa única vida. Principalmente, com um inimigo tão poderoso como o seu.
Viagens no tempo... Não é propriamente um tema novo, pois não? Mas e se fosse possível seguir por um caminho completamente diferente? Difícil... mas promissor. E, porém, é exactamente isso que Claire North faz neste As Primeiras Quinze Vidas de Harry August - constrói uma nova abordagem a uma temática conhecida, com resultados impressionantes em todos os aspectos. Intenso, cativante, surpreendente - e comovente, até! - tudo neste livro atinge um equilíbrio perfeito. E a soma de tudo isto nunca poderia ser menos do que memorável.
Ora, tendo isto como ponto de partida, escusado será dizer que tudo é bom. Há, ainda assim, alguns aspectos que, pelo impacto que têm na leitura, importa destacar. E o primeiro é, desde logo, a escrita. É pela voz do seu protagonista que a autora conta a história e, enquanto narrador, Harry August é brilhante. Conduz-nos pelas suas memórias, dando a entender possibilidades que ora confirma, ora descarta, criando assim grandes surpresas e um maior impacto nas pequenas revelações. Parece ter uma memória perfeita, mas isso não significa que partilhe tudo de forma imediata. E o resultado é uma narrativa sempre cativante, mesmo nos momentos mais descritivos.
Mas não é só como narrador que Harry é brilhante. Enquanto protagonista, é o tipo de personagem que facilmente desperta empatia, abrindo caminho a partir daí para um leque mais vasto de emoções. Cativa pela história da infância, pelas diferentes relações vividas nas suas várias vidas, pelos momentos difíceis que atravessa, em relação com o seu inimigo, mas não só. Surpreende pela forma como vive as coisas, mas, mais do que isso, pelo carácter subjacente a essa forma de viver. Tudo em Harry é fascinante e memorável. E isso basta para querer sempre saber mais sobre a sua história.
E quanto à história... bem, essa é toda ela um poço de boas surpresas. Intensa, intrigante, cheia de momentos marcantes e com um equilíbrio perfeito entre as suas múltiplas facetas, cativa tanto pelas grandes revelações como pelos pequenos momentos. É como um longo caminho em que tudo ganhasse vida, gravando-se nas memórias de quem a segue com a mesma nitidez com que se traça na mente do protagonista. Tudo é relevante, mesmo as mais pequenas coisas. E a forma como tudo se equilibra - intriga, contexto, acção, emoção - é simplesmente brilhante. 
Que mais dizer, então, sobre este livro? Que vale a pena, da primeira à última página. Que é tão capaz de intrigar como de fazer sorrir como de levar às lágrimas. E que tem tudo aquilo de que um bom livro precisa - uma boa história, personagens fortes, um enredo em que há, de facto, heróis e vilões, mas em que a linha entre o bem e o mal não é assim tão precisa - em todas as medidas certas. Vale a pena? É claro que vale a pena. E é um livro para lembrar por muito tempo. Maravilhoso. 

Autora: Claire North
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Deus Também Tinha Animais (Nuno Sobral)

Vinte e quatro de Setembro de mil novecentos e oitenta e quatro. No escritório de um solicitador na Avenida da República, há uma tragédia prestes a acontecer. Tudo porque, sem o conhecimento do dito solicitador, a irmã deste e alguns seus conhecidos decidiram investir as provisões dos clientes nas promessas da Banqueira do Povo. E tudo correu bem... até ao dia em que deixou de correr. Agora, grandes mudanças se avizinham. Desesperado, o doutor Alves dos Anjos acaba, na tentativa de se defender, por causar a morte de quem menos queria. A irmã e secretária, essa, tem outros planos para o futuro. E dessa primeira tragédia nascem outros ganhos... e outras perdas. Porque tudo é um ciclo de ambições e de enganos.
Um dos aspectos mais curiosos deste livro é que, apesar de se poder apontar a tal questão do solicitador como elemento agregador de toda esta história, não há propriamente um protagonista ou uma linha central nesta história, mas antes um conjunto de peripécias que, no seu conjunto, foram a crónica de toda uma (má?) vizinhança. E, sendo certo que esta multiplicidade de histórias e de personagens faz com que fiquem algumas perguntas sem resposta, também o é que todos os elos desta cadeia têm algo de fascinante.
Talvez por isso, é nas diferentes perspectivas com que as várias partes da história são contadas que reside o grande ponto forte deste livro, já que cada narrador acrescenta algo de novo, lança um novo olhar sobre o sucedido, chega inclusive a contradizer o anterior. Há sempre dois (ou mais lados) para a mesma história e a existência de diferentes versões dos factos torna mais realistas os aspectos mais caricatos, pois cada um vê o sucedido da forma que mais lhe convém. Como tantas vezes acontece na vida real.
Isto leva-me, inevitavelmente, aos acontecimentos propriamente ditos. É que, sim, há tragédias, há perdas, há grandes prejuízos na vida destas personagens. Mas o que há mais é bizarria. E esta bizarria, seja nos comportamentos inesperados, seja na forma como a própria estruturação dos planos de algumas personagens ganha forma, tem muito de inesperadamente divertido. E acaba por ser também isso a cativar para esta leitura.
A soma de todas estas partes não podia ser outra coisa que não um livro peculiar. Mas, intrigante em toda a sua estranheza, inesperadamente divertido e com uma escrita que parece ajustar-se na perfeição à história (ou histórias) que tem para narrar, é também um livro que acaba por ficar na memória. Por tudo o que tem de diferente e também por tudo o que tem de bom. Gostei. 

Título: Deus Também Tinha Animais
Autor: Nuno Sobral
Origem: Recebido para crítica

domingo, 4 de dezembro de 2016

As Raparigas (Emma Cline)

Tudo começa quando Evie vê as raparigas. Tão soltas, tão diferentes, tão despreocupadas. A curiosidade é imediata e as limitações do seu próprio mundo adolescente só ajudam à atracção. Depois, o seu caminho volta a cruzar-se com o de Suzanne - e a atracção torna-se fascínio. Evie vê-se atraída para o rancho, onde uma estranha comunidade parece ter-se formado em torno de Russell, o seu estranho e carismático líder. Aí, tudo é novo e as regras são poucas. Quase tudo é permitido. Mas, quando as aspirações do líder são contrariadas, as consequências podem ser imprevisíveis. E Evie, ainda e sempre fascinada por Suzanne, não vê - ou escolhe ignorar - os sinais de alerta.
Não é propriamente fácil encontrar palavras para descrever este livro sem revelar demasiado. Há um crime no cerne do enredo, mas a história não é a do crime, mas da vida antes e depois desse ponto de viragem. Há um grupo, uma espécie de seita, mas a protagonista ocupa um papel como que no limiar entre o seu núcleo e o mundo exterior. E, assim sendo, tudo se constrói num equilíbrio delicado, em que a história que a protagonista conta surge, por vezes, como testemunho e, noutras, como fruto da sua imaginação.
Ora, isto confere à história um ritmo algo peculiar. A narradora, uma Evie adulta, vive um presente enquanto recorda o passado - e é possível ver as marcas desse passado no presente. Mas a história central é precisamente a do passado e a forma como Evie a conta, entre introspecções e visões de si mesma no que poderia ter sido, faz com que algumas partes do enredo pareçam ser contadas de forma algo vaga. Não é que fique algo de essencial por dizer, mas antes a impressão que fica de que os grandes acontecimentos são deixados para bastante tarde, surgindo como que na senda de uma viagem interior que - para Evie, pelo menos - é mais importante do que o crime em si.
O resultado é a sensação de que, ainda que a história de Evie seja completa, haveria mais a dizer sobre a comunidade e os seus outros elementos. Pequenas coisas que, não sendo essenciais ao enredo, poderiam, talvez acrescentar-lhe uma perspectiva mais ampla. Ainda assim, sendo a história narrada na primeira pessoa por alguém que chegou a meio e que estava ausente em alguns dos acontecimentos mais relevantes, não deixam de fazer sentido essas perguntas sem resposta. Pois talvez a própria Evie nunca as tenha descoberto.
Não é propriamente uma leitura compulsiva. Tanto o estilo de escrita como o tom do próprio enredo conferem à narrativa um ritmo relativamente pausado. Mas é interessante, ainda assim, notar como, aos poucos, o fluxo dos pensamentos de Evie se vão tornando mais próximo, conferindo à história que conta uma maior intensidade. E assim, da estranheza inicial surge uma envolvência crescente - que culmina na impressão final de uma boa história... e de um livro que vale a pena descobrir.

Título: As Raparigas
Autora: Emma Cline
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Masha e o Urso: O Dia da Compota (O. Kuzovkov)

Desde que deixou de ser um artista de circo, o Urso passou a levar uma vida mais tranquila. Pelo menos, até ao dia em que a Masha entrou na sua vida! Agora, uma das suas ocupações preferidas é fazer compota, mas também aí a irrequieta Masha não está disposta a dar-lhe descanso. Quer brincar, seja com a fruta que o Urso apanhou, seja com os frascos da compota... enfim, com o que estiver mais à mão. Mas, quando a traquinice causa estragos, é inevitável que o Urso fique zangado... e a pequena Masha vai ter de arranjar uma maneira de o compensar. 
Masha e o Urso... duas personagens curiosas e cativantes. Tão cativantes que, ainda que, depois de lidas umas quantas das suas aventuras, não haja, na verdade, muito de novo a acrescentar, continua a ser um prazer voltar a uma destas histórias. Simples, divertidas, com ilustrações muito bonitas e uma história sempre cheia de peripécias, são sempre uma pequena delícia estas pequenas e atribuladas aventuras. 
São também histórias bastante breves e, por isso, é difícil falar da história sem contar demasiado. Desta vez, é a compota o centro dos acontecimentos e basta dizer que o resultado é bastante... doce. O resto é a viagem do costume: um regresso simpático e agradável a uma visão mais inocente do mundo, em que todos os que podem ajudam e a traquinice também serve para aprender uma ou outra lição. E, claro, importa sempre mencionar o facto de ser um livro bonito, em que as imagens dão mais vida o texto, complementando-o e tornando a leitura mais apelativa.
Mais uma vez, e sem surpresas, a impressão que fica deste livro é a de uma história divertida para os mais novos - e de um agradável regresso à infância para quem, como eu, já a deixou para trás há algum tempo. Uma boa história, portanto, e uma boa leitura.

Título: Masha e o Urso - O Dia da Compota
Autor: O. Kuzovkov
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sangue Infernal (James Rollins e Rebecca Cantrell)

Algo se passa no mundo. Os strigoi, criaturas poderosas, mas habituadas a mover-se nas sombras, tornaram-se mais fortes, mais ousados, e os ataques sucedem-se. Não parece haver uma explicação evidente para isso, mas há pessoas a morrer às mãos dele - inclusive sanguinistas. E o tempo aproxima-se de realizar o que falta da profecia, mas por onde deve o trio começar? Erin procura respostas em lugares proibidos. Jordan e Rhun regressam a campos de batalha do passado. Mas a resposta vem de uma fonte inesperada. E, lançados uma vez mais numa demanda, o Homem Guerreiro, a Mulher Sábia e o Cavaleiro de Cristo precisam de impedir que Lúcifer seja libertado. Ou o reinado do homem chegará ao fim.
Último volume da trilogia e sequência quase directa dos acontecimentos do livro anterior, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pela mudança de ritmo. Continua a haver acção em abundância, perigos a enfrentar e inimigos poderosos a combater, o que significa que há sempre algo de interessante a acontecer na narrativa, mas há também um maior desenvolvimento em termos de explicações e contexto, talvez pelo papel de destaque de Erin. Isto torna o enredo um pouco mais pausado, até porque há novas pistas a assimilar. Mas é interessante reparar que este fluxo mais lento nada retira à envolvência da história.
E não posso falar desta história sem referir as personagens, também elas em constante evolução e revelando novas facetas que as tornam mais complexas e fascinantes. Mais uma vez, o maior impacto vem de Rhun Korza, cada vez mais intrigante na sua natureza atormentada, mas também num novo lado de si que vem à tona com a presença de um certo (e muito relevante) felino que surge pela primeira vez neste livro. Mas também Erin e Jordan crescem, à sua maneira, bem como, inesperadamente, Bathory, protagonista de uma das maiores mudanças desta história. 
Quanto ao enredo, tem basicamente as características (se bem que nem sempre o rumo) que seria de esperar de uma conclusão para este tipo de história: intenso, cheio de acção, com muitas reviravoltas. Tem também algumas perguntas sem resposta, sendo que, no caso concreto de Bernard, fica alguma curiosidade insatisfeita quanto ao seu futuro e o que lhe deveria acontecer. Ainda assim, no que diz respeito à linha central da narrativa, tudo se resolve da forma mais adequada: com muitos enigmas, sacrifícios e descobertas, como compete a uma decisão capaz de salvar - ou destruir - o mundo.
A impressão que fica é, por isso, a de um livro que, inesperado em muitos aspectos, mas coerente com os acontecimentos anteriores, encerra da melhor maneira uma grande e fascinante aventura. Intenso, intrigante, surpreendente, um final à altura das expectativas. Muito bom. 

Título: Sangue Infernal
Autores: James Rollins e Rebecca Cantrell
Origem: Recebido para crítica