domingo, 22 de julho de 2018

Insustentável Saudade (Jorge Afonso)

Filho de emigrantes portugueses, José nunca se sentiu totalmente enquadrado em Bordéus. E, apesar dos laços de afecto que o unem à sua namorada, a vida do adolescente é tudo menos tranquila e harmoniosa. Em casa, a mais pequena transgressão é recebida com violência. Na escola, José não vê motivos para se esforçar e, do preconceito de alguns professores, faz causa de toda a sua desgraça. A sua única esperança é o planeado regresso da família a Portugal no espaço de um ano. E, até lá, sobreviver aos maus momentos e desfrutar dos bons, procurando alcançar a tranquilidade possível. Mas, entretanto, o mundo move-se... e o tempo não pára para ninguém...
Retrato das dificuldades da emigração e de uma mentalidade bastante distinta da actual (ainda que com pontos ainda bem presentes), este é um livro que desperta sentimentos contraditórios. Por um lado, as circunstâncias difíceis do protagonista e os paralelismos com tantas outras vidas do mesmo tempo, despertam uma imediata empatia, ao mesmo tempo que levantam várias questões relevantes. Por outro, há pontos e temas que, por falta de uma conclusão vincada ou pela simples aceitação, parecem, talvez, demasiado normalizados. Mas vamos por partes.
A história gira essencialmente em torno da figura de José, adolescente dividido entre dois mundos e a lidar com pequenas e grandes dificuldades no seu caminho. E, sendo ele o cerne de toda a história, é apenas natural que o registo se torne bastante pessoal, no que aos seus sentimentos e dilemas diz respeito. Assim, a escrita cativa principalmente por expor claramente as emoções do protagonista, ainda que por vezes se disperse em descrições de locais e contextos que, embora tornando o texto mais pausado, permitem também uma visão mais clara do cenário global.
É deste cenário global que emergem as questões relevantes: a vida dos emigrantes em França nos anos 80, com as dificuldades, o preconceito e a eterna saudade da terra natal. Mas o mais curioso é a posição de José, nascido em França, mas sentindo-se sempre português, que põe no regresso todas as esperanças de superação das barreiras, barreiras essas em parte erguidas por ele mesmo e em parte pelo mundo que o rodeia. E é aqui que começam os sentimentos contraditórios, pois, se é verdade que José é, em alguns aspectos, vítima, noutros são as suas escolhas a colocá-lo na posição em que se encontra.
A dúvida essencial vem, todavia, de outro aspecto. A vida familiar de José implica castigos pesados, humilhação e violência injustificada. Este é um elemento presente ao longo de toda a história, sendo aliás a base de alguns dos momentos mais angustiantes. E é precisamente por isso que o final deixa tantos sentimentos ambíguos, pois, se faz um certo sentido um final aberto, fim de um ciclo e início de uma nova fase, o facto de deixar em aberto todas estas questões - a violência familiar, o futuro possível, a relação disfuncional de uma família onde a desvalorização do outro é algo de normal e onde parece haver tudo menos amor - parece quase normalizá-las, deixando sem resposta a razão que mais empatia despertou durante todo o percurso.
E assim, ficam portanto sentimentos contraditórios, de uma leitura essencialmente cativante e com vários momentos marcantes, onde por vezes fica demasiado por resolver. Valeu a pena a viagem, ainda assim, a este retrato de um passado não muito distante e de uma saudade ainda e sempre intemporal. 

Autor: Jorge Afonso
Origem: Recebido para crítica

sábado, 21 de julho de 2018

Sonho, Fé e Coragem (José Canita)

Vivemos num mundo em constante correria. As obrigações profissionais, os problemas pessoais e o ritmo acelerado do mundo fazem com que, muitas vezes, falte o tempo para pensarmos no nosso próprio bem-estar. E é esse bem-estar a missão do autor deste livro, resultado de um projecto envolvendo palestras em diferentes pontos do país e uma experiência que é, acima de tudo, algo de pessoal e intransmissível.
Uma das primeiras impressões a emergir desta leitura é a de que, provavelmente, terá um maior impacto para quem tiver lido o livro anterior ou então assistido a alguma dessas palestras. Porquê? Porque os temas são bastante vastos e, apesar disso, cada uma das 75 "inspirações" deste livro não ocupa mais de três páginas. Fica, por isso, a impressão de se ter apenas um vislumbre de algo que possivelmente terá sido mais desenvolvido noutros meios. E, abrangendo questões tão vastas e complexas como os principais problemas de saúde, as relações interpessoais e o próprio bem-estar interior, é inevitável a sensação de que qualquer um destes textos poderia ter sido bastante mais aprofundado.
Olhando para a perspectiva global, é fácil reconhecer uma mensagem positiva: de força para enfrentar os obstáculos, de coragem para lutar pelos sonhos e de cuidado pessoal, para uma melhor qualidade de vida. E bastaria esta mensagem enquanto chamada de atenção para tornar válida esta leitura. Ainda assim, há aspectos que deixam sentimentos ambíguos: desde logo, a já referida brevidade faz com que tudo pareça demasiado "fácil", já que, muitas vezes, o texto se cinge a algumas informações essenciais sobre o tema e um breve reforço positivo. Além disso, vários textos vivem da experiência pessoal do autor na realização do seu percurso, o que acaba por criar uma certa distância face a outras experiências e decisões. É difícil ignorar, nalguns casos, uma certa impressão de julgamento, ainda que a mensagem global seja mais ampla e mais aberta do que esses casos particulares.
Há, ainda assim, algo de muito bom a retirar desta leitura: o exemplo de determinação que moveu o autor a realizar o seu percurso. Além, é claro, da curiosidade em ver mais desenvolvimentos sobre os temas aqui abordados. Pois haverá certamente muito mais a dizer e muitas mais experiências a partilhar - em livro ou nas já referidas palestras.
Fica, pois, a impressão de uma leitura que peca um pouco pela brevidade excessiva com que aborda as várias questões. Mas também de um livro com uma mensagem positiva, alguns exemplos notáveis e um percurso pessoal que, ainda que apenas vislumbrado, denota já algo de admirável. Haveria mais a dizer? Sem dúvida alguma. Mas o que diz tem muito de interessante.

Autor: José Canita
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Deixar Ir (David R. Hawkins)

Às vezes, a vida parece estar dominada por sentimentos negativos: ira, medo, culpa... E superar o peso desses sentimentos parece algo inatingível - ou, pelo menos, só ao alcance de uns poucos iluminados. Mas, segundo este livro, não será bem assim. O primeiro passo para lidar com a negatividade é deixar ir os sentimentos negativos. E os resultados podem ser espantosos, na estabilidade mental... e talvez até para além dela.
Fundindo espiritualidade e auto-ajuda, este é um livro capaz de despertar impressões bastante distintas. Por um lado, abrange muitas possibilidades, não seguindo um método de normas e passos estritos, mas antes uma possível evolução a um ritmo pessoal. Por outro, como todos os métodos, parece abranger possibilidades fáceis de vislumbrar e outras que implicam provavelmente uma certa medida de crença. Ainda assim, o primeiro aspecto a destacar-se é que, apesar de abranger um método vasto e complexo, é possível retirar pontos positivos quer se sigam todas as orientações, quer se escolha apenas aquilo que mais parece encaixar com as crenças e experiências de cada uma. Até porque a escolha é um dos elementos essenciais deste livro.
Outro aspecto que surpreende é o contraste entre a simplicidade da base - deixar simplesmente ir os sentimentos negativos - e a abrangência e complexidade da obra construída à sua volta. Há uma análise aprofundada de todos os elementos, o que torna a leitura mais pausada e exige mais tempo de assimilação, mas permite também ver um todo mais vasto. Além disso, ao abordar diferentes áreas e possibilidades, sai reforçada a possibilidade de retirar partes do todo, beneficiando do que faz sentido durante a leitura independentemente dos sentimentos ambíguos que outros elementos possam despertar.
E esses sentimentos prendem-se essencialmente com o limite das possibilidades: se é fácil entender que uma forma de estar menos negativa resultará num maior bem-estar mental e emocional, a transposição para elementos da saúde física acaba por deixar algumas questões. O conceito de autocura, ou de cura pela fé, implica necessariamente uma dose de crença, o que deixa algumas dúvidas acerca dos reais riscos e possibilidades desse tipo de abordagem. Trata-se, ainda assim, de apenas uma das facetas de um todo bastante mais vasto. E, mesmo de um ponto de vista algo céptico, são mais as coisas positivas a retirar da leitura.
Fica, por isso, essencialmente a impressão de uma leitura interessante e com uma visão bastante abrangente das possíveis consequências de olhar a vida de uma forma menos negativa. Uma obra vasta, mas de leitura agradável, que talvez não apresente todas as respostas, mas de onde é possível, ainda assim, tirar muitos pontos positivos. E uma nova perspectiva, claro. 

Título: Deixar Ir
Autor: David R. Hawkins
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Fugitivo (Mason Cross)

Carter Blake é um homem peculiar. O passado que deixou para trás dotou-o de um talento especial para encontrar pessoas que não querem ser encontradas. Mas, embora o caso que tenha em mãos não seja particularmente complexo, há algo no seu caminho que está prestes a mudar drasticamente. Em tempos, deixou a Winterlong, a organização a que em tempos pertenceu, com uma espécie de pacto de não agressão. Mas a estrutura organizacional alterou-se e o passado está de volta para atar, enfim, todas as pontas soltas. E eis que, habituado a seguir e localizar, é agora Blake quem está em fuga e à procura de uma solução para o problema que não acabe com o seu cadáver largado algures.
Sendo um dos grandes pontos fortes desta série a construção do seu protagonista, não é propriamente uma surpresa que seja este livro, com toda a sua exposição do passado de Carter Blake, o que revela a personagem no seu máximo potencial. Já nos volumes anteriores era uma figura intrigante, com o seu passado tortuoso, a sua postura enigmática e a impressão, apesar de tudo, de um coração no sítio certo. Mas é aqui que tudo é finalmente explicado: a vida de Blake antes da sua estranha profissão, o que levou à partida e de que forma conseguiu garantir alguns anos de relativa paz. Além, é claro, de toda uma sucessão de relações e inimizades passadas que ganham agora toda uma nova dimensão.
E, sendo certo que bastava Carter Blake para tornar a leitura memorável, há ainda muito mais a acrescentar às impressões desta leitura. O enredo, dividido entre o estranho caso de Bryant e a inevitável perseguição a Blake, está todo ele repleto de momentos de tensão e de perigo. Há sempre algo a acontecer, o que torna a leitura viciante, mas há também laivos de emoção e de humor que tornam o todo mais abrangente, além de criarem uma maior proximidade entre leitor e personagens. E a forma como o autor desenvolve a narrativa, num equilíbrio perfeito entre todas as suas facetas, faz com que todos os momentos, grandes e pequenos, tenham o máximo impacto possível.
Mas há ainda um outro aspecto que, presente já nos volumes anteriores, ganha também aqui nova relevância. Enquanto organização secreta e com ampla liberdade de acção, a Winterlong cruza barreiras injustificáveis. E a forma como esse aspecto é abordado, com as consequências que teve na vida de Blake, mas não só, desperta a sempre pertinente questão do que é ou não aceitável em nome de uma suposta segurança.
De tudo isto resulta uma leitura viciante, cheia de surpresas e com um protagonista que nunca deixa de cativar. Intenso, poderoso e com um equilíbrio deveras eficaz entre acção, humor e questões de consciência, um livro que eleva ainda mais as expectativas para o que poderá ser o futuro do enigmático Carter Blake. Muito bom. 

Título: O Fugitivo
Autor: Mason Cross
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 17 de julho de 2018

Jessica Jones: Alias - Volume 3 (Brian Michael Bendis e Michael Gaydos)

Longe vão os tempos em que Jessica Jones era uma super-heroína... mas isso não significa que tenham deixado de lhe acontecer coisas estranhas. E, quando encontra uma desconhecida em casa, com um fato de Homem-Aranha e num estado bastante deplorável, Jessica não pode deixar de procurar respostas. Para as primeiras, bastam alguns contactos. Trata-se de Mattie Franklin, uma adolescente que assumiu o papel de Mulher-Aranha. Mas o que lhe aconteceu - e porquê - já é uma questão mais complexa. E, sem que tenha sido propriamente contratada para resolver o caso, Jessica dá por si a seguir as pistas - e a envolver-se em situações delicadas - para devolver Mattie à sua antiga vida.
Um dos aspectos mais intrigantes desta série é o facto de, mesmo ao terceiro volume, continuar a haver espaço para muitas - e impressionantes - surpresas. Chegados a este ponto, é fácil sentir que se conhece (pelo menos tão bem quanto possível) a protagonista e aquilo que a move, mas as circunstâncias e a forma como Jessica lida com elas nunca deixam de surpreender. Além disso, bastariam os elos comuns a todos os livros desta série - equilíbrio de géneros, enredo intenso, arte e texto simplesmente viciantes e personagens fortíssimas num universo vasto - para fazer deste terceiro volume uma leitura imperdível.
Mas há mais. Há sempre mais a cada novo livro. E, tal como aconteceu com o anterior, também aqui o enredo central é perfeitamente independente dos anteriores, mas há ligações que ganham outro impacto com o conhecimento prévio do que aconteceu antes. Presenças discretas, mas relevantes, como as de J. Jonah Jameson e, claro, do enigmático Matt Murdock, adquirem outro significado se soubermos a que "coisas do passado" se está Jessica a referir. E, tal como toda a base é independente, também o final é bastante conclusivo... mas há pequenas coisas. Pequenas coisas que deixam uma enorme curiosidade em descobrir o que se segue. 
Ainda uma última nota para o contraste entre a vastidão do universo em que estes livros se enquadram - ao ponto de, por vezes, ser difícil decidir por onde começar a explorar o imenso universo Marvel - e a facilidade com que se entra neste ambiente e na vida destas personagens. Sim, há figuras sobejamente conhecidas - seja de outros livros ou da televisão - que surgem apenas de forma algo secundária. Mas todo o essencial está contido nesta série. E, claro, fica a vontade de descobrir mais - sobre Jessica e sobre os outros - mas nada de fundamental fica por dizer. Para o resto, haverá outros livros. Outras histórias. E esta tem tudo aquilo de que precisa. 
Visualmente fascinante e com um enredo cheio de surpresas e de momentos notáveis, fica, mais uma vez, a impressão de uma leitura intensa e viciante, com personagens tão misteriosas quanto a imensidão do universo a que pertencem. Mais que à altura das expectativas, um livro a não perder numa série toda ela memorável. Recomendo. 

Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 16 de julho de 2018

1001 Coisas que Nunca te Disse (Catarina Rodrigues)

Era um amor que devia durar para sempre... até ao dia em que acabou. E Sara pode ter sido enganada, mas o amor ficou, ainda assim, para lá da revolta e do ultraje. Por isso, movida pelo desgosto, começa a escrever cartas. Cartas a David, que nunca as lerá. E, nessas cartas, revisita a sua história, não só do amor que partilharam, mas também da infância e da vida que a moldou tal como é e da vida que veio depois de David. Porque em tudo pode haver uma aprendizagem e, teimosa e determinada, Sara não está disposta a deixar-se derrubar. Muito menos pelos seus próprios sentimentos.
Parte romance e parte introspecção, este é um livro feito de uma mistura de normalidade e de surpresas. Normalidade, porque grande parte da história é feita das coisas normais da vida: paixões, vida profissional, saídas com amigos, pequenas e grandes perdas, desgostos e superações. Surpresas, porque há todo um passado difícil na sombra da protagonista e um conjunto de revelações que, pelo impacto com que surgem, não deixam de ter um efeito de choque.
Não é uma história linear. Escrita maioritariamente na forma de cartas da protagonista, oscila entre diferentes pontos das suas memórias, percorrendo ainda longas reflexões e perspectivas. É, por isso, uma história pessoal e, às vezes, contraditória, pois a forma como Sara vê o mundo é imperfeita - como o são todas. Tem uma visão única e só sua - mas cai, por vezes, nas inevitáveis generalizações. Percorre um caminho de superação, mas acaba por cair nas inevitáveis repetições. E o resultado são sentimentos contraditórios, pois nem sempre é fácil entender as suas escolhas e a sua visão do mundo. Mas também uma certa impressão de realismo - pois, na história como na vida, opiniões e perspectivas são algo em constante mutação.
Fica também muito em aberto, não só sobre a vida de Sara depois desta longa relação interna com o seu próprio desgosto de amor, mas também sobre certas partes do passado, principalmente a vida familiar. E, claro, é inevitável a curiosidade insatisfeita, pois há muito nessa parte da história a gerar tensão e possibilidade. Mas também faz um certo sentido que assim seja, não só porque a Sara que escreve as cartas está a lidar com dificuldades mais recentes, mas principalmente porque a intenção da própria protagonista é afirmar-se como mais do que o seu passado.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura cativante e surpreendente, apesar das suas voltas e contradições. Com uma escrita envolvente e um registo pessoal, uma história única, mas que permite vários pontos de identificação, e por isso mesmo mais viva e equilibrada. Interessante e bem escrita, uma boa leitura, em suma.

Autora: Catarina Rodrigues
Origem: Recebido para crítica

domingo, 15 de julho de 2018

A Mulher de Einstein (Marie Benedict)

Mileva Maric sabe que as suas origens e a condição de mulher serão sempre um obstáculo ao seu sonho de uma vida de sucesso no mundo da ciência, mas não está disposta a deixar-se travar por qualquer barreira. É por isso que, quando chega a Zurique para frequentar o curso de física, leva também consigo a determinação necessária para enfrentar todos os problemas e humilhações. Não está à espera é de se apaixonar pelo seu pouco convencional, mas estranhamente encantador, colega. Albert Einstein não é como os outros homens e promete-lhe, além do seu afecto, uma vida de companheirismo e de colaboração científica. E, apesar da resistência inicial, Mileva acaba por deixar-se encantar. Só que o sonho começa a tornar-se cada vez mais difícil e Albert está muito longe de ser o cavalheiro por quem Mileva se apaixonou...
Basta a premissa deste livro para despertar uma certa curiosidade para a história: afinal, é sabido que há muitas mulheres cujo papel nos avanços científicos do seu tempo foi passado para segundo plano ou deixado no anonimato. E, ao acompanhar a história de uma dessas figuras, a autora constrói, logo à partida, um enredo cativante e cheio de potencial. Criam-se expectativas e, embora nem tudo seja fácil de assimilar, essas expectativas são totalmente atingidas, no que é uma leitura envolvente, surpreendente e repleta de momentos emotivos.
Era apenas de esperar uma visão diferente da que normalmente vem à cabeça ao pensar em Einstein. Mas não é apenas diferente: é perturbadora. O Albert Einstein deste livro está longe de ser apenas o académico brilhante, embora tenha ainda também a natural medida de brilhantismo. O que fica deste retrato é um homem que começa por ser encantador, mas que se transforma em alguém cruel, indiferente e centrado apenas nos seus próprios feitos. O que cria, é certo, uma certa distância, pois a história passa do companheirismo científico para um percurso familiar condenado ao fracasso. Mas também uma história emocionalmente intensa, pois torna-se assustadoramente fácil sentir com Mileva - e por Mileva.
E, sendo verdade que nem sempre é fácil gostar das personagens, ou entender as decisões que tomam, esta visão tudo menos simples e alegre de uma relação que se transforma em pesadelo ganha outro impacto por ser protagonizada por um dos grandes da ciência. Além, é claro, da forma sempre intensa e surpreendente que a autora tem de dar aos momentos mais emotivos o máximo impacto possível. Mais que uma história de ciência, é também uma história de descoberta pessoal e de desencanto, de amor e desilusão, de perda e de reconstrução. E no fim é isso que fica na memória - a intensidade das emoções e as sombras que se escondem sob uma aparente harmonia.
Cativante, com momentos belíssimos e um enredo capaz de construir para uma das grandes descobertas científicas toda uma nova possível perspectiva, trata-se, pois, de uma leitura surpreendente, com personagens que, nem sempre fáceis de compreender, se entranham, apesar de tudo, da memória. Uma boa história, portanto, e uma que vale a pena ler.

Autora: Marie Benedict
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Rimas (Francesco Petrarca)

Há nomes que dispensam apresentações. E, com a sua poesia e a sua eterna e misteriosa Laura, Petrarca será, sem dúvida alguma, um deles. Primeiro, pela influência da sua obra em muitos outros poetas. Mas principalmente pela obra em si e pela forma como Laura, o mundo, os homens e a inspiração ganham vida em cada um destes poemas.
Não há propriamente nada de muito revelador para dizer quando se fala de um nome de tão grande fama como o de Francesco Petrarca. E, talvez por isso, dispensam-se as análises e as interpretações. Não é um autor que se estude na escola - ainda que o nome surja enquanto influência de alguns dos que, de facto, se aprendem - e, assim sendo, uma das primeiras coisas a destacar neste livro é, naturalmente, a introdução completa e esclarecedora, que permite conhecer melhor o contexto histórico e a vida e obra do poeta. Mas, mais do que isso, impressiona a forma como, com conhecimento prévio ou sem ele, é possível mergulhar simplesmente na poesia e apreciar o génio, a fluidez, a harmonia: a beleza, em suma.
Cada poema vale por si mesmo, até porque não há nenhum que não deixe a sua marca. Há, ainda assim, duas perspectivas mais globais a ter em conta. Primeiro, a sensação de unidade que emerge de um conjunto onde, esquiva e enigmática como é, a misteriosa Laura é o elo dominante. E depois o reconhecimento de influências futuras, pois há versos que possivelmente soarão familiares, ao recordar certas obras da poesia portuguesa.
É, naturalmente, um livro que exige o seu tempo, não só pelos muitos elementos a descobrir e assimilar, mas principalmente porque cada poema merece ser lido com a máxima atenção. Mas é, acima de tudo, uma obra admirável, que, lida ao ritmo da rima e da inspiração, cativa tanto numa leitura sequencial como num - inevitável - regresso posterior aos poemas mais marcantes. É um todo vasto e admirável - mas cada parte é também um todo. 
Há obras que, tanto pelo génio como pela influência exercida na História, se tornam simplesmente essenciais. Esta é uma delas. Um livro feito de amor e de inspiração e uma obra poética a recordar para sempre. Deveras impressionante. 

Título: Rimas
Autor: Francesco Petrarca
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Bizâncio

«Permitam que me apresente. Chamo-me Carlos Magdalena e sou apaixonado por plantas.
Em 2010 fui apelidado de «El Mesías de las Plantas» por Pablo Tuñón, um jornalista que escreveu sobre o meu trabalho no jornal espanhol La Nueva España. Suspeito de que o nome se inspirou em parte na minha barba e cabelo compridos pós-bíblicos, bem como no facto de eu dedicar uma grande parte do meu tempo a salvar plantas que se encontram à beira da extinção.» O Messias das Plantas - Introdução

O Messias das Plantas é a história inspiradora de um homem que dedicou a sua vida – e a arriscou – em prol da salvação de espécies ameaçadas, sempre com o desígnio de fazer do planeta Terra um sítio mais verde e feliz.

Em 2016, Jay, o filho de Yuki, torna-se pai, convicto de que tem um casamento feliz. É o ano em que confrontará a sua mãe, que o abandonou quando tinha apenas dois anos.
Escrito com inquietante beleza, Inofensivas, Como Tu, é um romance pleno de suspense acerca das complexidades da identidade, da arte, das amizades da adolescência e dos laços de família que, em última instância, nos coloca perante a questão: Como abandona uma mãe o seu filho? 
Uma narrativa brilhante de amor, solidão e reconciliação.

«Um romance elegante e comovente, cuja intensidade cresce à medida que a narrativa evolui, explorando as questões da pertença, alienação e desejo.» Daily Mail

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Pranto de Maria Parda e Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente)

Dispensa apresentações o Auto da Barca do Inferno, com o seu anjo, o seu diabo e os passageiros com os seus pecados (mais ou menos) secretos. Maria Parda, essa, talvez seja um pouco menos conhecida, com os seus lamentos pelo preço do vinho. Mas há algo que todos aprendemos na escola: o papel fundamental de Gil Vicente no teatro português. E é por isso que, seja esta leitura um regresso ou simples primeiro contacto, a relevância é ainda e sempre a mesma. Até porque há aspectos que não podiam ser mais actuais.
Antes de falar da obra propriamente dita - e escusado será dizer que há nelas motivos mais que suficientes para fazer com que a leitura valha a pena - importa falar um pouco desta edição. Além de ser um livro bonito, como é, aliás, característica desta colecção de clássicos, é também um livro bastante completo, pois ao texto propriamente dito acrescenta uma introdução bastante útil para compreender o percurso do autor e o contexto do seu tempo e todas as notas e explicações necessárias para apreciar o sentido da peça. É, pois, um livro em que é a obra central que domina, mas a que as explicações sucintas, mas esclarecedoras, dão uma maior abrangência.
Quanto aos textos em si, não haverá muito a dizer que vá além da análise exaustiva feita, em tempos, na escola, pelo menos no que ao Auto da Barca do Inferno diz respeito. Mas, primeiro, é sempre um prazer reencontrar estas tão caricatas e certeiras personagens. Além disso, as características da sociedade que representam podem ter ganhado formas um pouco distintas, mas continuam, na maioria, a estar bem presentes. E quanto a Maria Parda... bem, também a sua relação com o vício continua a ter muito de actual, ainda que a forma possa ter também mudado.
Ainda um último aspecto que é especialmente agradável redescobrir é a estrutura do texto. A rima, com toda a sua naturalidade, as expressões bizarras, a forma como a própria linguagem parece adaptar-se à forma de expressão das personagens... há em tudo isto uma fascinante mestria, que não perdeu nenhuma força com a passagem dos séculos. Aliás, há pequenas coisas que ganham outro sentido nesta nova leitura mais tardia, o que faz deste livro uma obra a que vale sempre a pena regressar.
Dispensa apresentações - e também não é que precise de elogios, sendo, como é, uma parte essencial da história da literatura portuguesa. Mas não deixa de ser especialmente marcante este regresso a uma tão conhecida história - e a percepção de que muito do que foi escrito então poderia muito bem dizer-se também agora. Vale a pena ler? Claro. E reler também. Várias vezes.

Autor: Gil Vicente
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Bertrand

Bill Hodges, que agora gere uma agência com a colega Holly Gibney, fica intrigado com a letra Z escrita a marcador na cena de um crime para que são chamados. À medida que se vão acumulando casos idênticos, Hodges fica espantado ao perceber que as pistas apontam para Brady Hartsfield, o célebre «assassino do Mercedes» que eles ajudaram a condenar.
Devia ser impossível: Brady está confinado a um quarto de hospital num estado aparentemente vegetativo. Mas Brady Hartsfield tem novos poderes letais. E planeia uma vingança, não só contra Hodges e os seus amigos, mas contra a cidade inteira.

Stephen King é um dos mais populares autores contemporâneos. Escreveu mais de quarenta livros, incluindo A Cúpula e 22/11/63.
Recebeu diversos prémios literários ao longo da sua carreira, incluindo o Bram Stoker Award, o World Fantasy Award, o Nebula Award e o prestigiado National Book Award. Conta hoje com mais de trezentos milhões de exemplares vendidos em cerca de trinta e cinco países.
Números e um currículo impressionantes a fazerem jus ao seu estatuto de escritor mais bem pago do mundo.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Mulheres da Noite (Sara Blædel)

Quando uma mulher é encontrada degolada numa zona de reputação duvidosa, não é difícil chegar à conclusão de que, muito provavelmente, a vítima seria prostituta. Mas há algo de estranho em todo o cenário e Louise Rick cedo percebe que se trata de muito mais do que um cliente que se tornou demasiado agressivo. Afinal, há todo um submundo a operar naquela zona e a violência não é ali algo de novo. Entretanto, no que parece ser um incidente sem qualquer relação com o caso, um bebé é abandonado na igreja e encontrado pelo filho de Camilla, a melhor amiga de Louise. E também esse mistério precisa de respostas - que, tal como no outro caso, serão muito mais complexas do que, à primeira vista, seria de esperar.
Um dos primeiros aspectos que importa referir sobre este livro é que é cronologicamente anterior  a As Raparigas Esquecidas. Aqui, vemos Louise Rick num departamento diferente, com colegas diferentes e uma vida ainda bastante distinta da que nos é apresentada nos outros livros da autora. E isso é interessante não só porque permite conhecer um pouco melhor o que conduziu a protagonista ao que já conhecemos dela, mas também porque é aqui que se encontra a história de como nasceu a relação entre Louise e Jonas. 
Bastaria isto para fazer com que a leitura valesse a pena, até porque também para Camilla se verifica a mesma situação - há uma Camilla diferente da que nos é apresentada nos outros livros. Mas também esta história tem muito de fascinante, independentemente da relação com acontecimentos futuros. A começar, desde logo, pelo desenvolvimento dos dois casos, que, além de vários momentos de tensão, de uma aura de mistério irresistível e de várias descobertas impressionantes, aborda um cenário global tão perturbador quanto relevante. O mundo da prostituição, do tráfico humano, o aproveitamento dos mais vulneráveis por dinheiro - tudo isto está bem presente nesta história e, ao afectar as personagens, deixa também uma marca mais intensa no leitor.
E há um equilíbrio estranhamente delicado na forma como a autora entretece todas as facetas da sua narrativa, num enredo que é ao mesmo tempo complexo e viciante. O caso é complicado. Os meandros em que os criminosos se movem são-no ainda mais, principalmente tendo em conta o tipo de influências que conseguem conquistar. E as consequências são sempre terríveis quando se põe em causa um sistema estabelecido. A forma como a autora relaciona todos estes elementos, construindo um caso sólido e em que se obtêm todas as respostas essenciais, mas em que para nada há uma solução simples torna tudo mais marcante e realista. As mortes, as revelações, os fracassos - e o final que, longe da conclusão limpa e perfeita, é ainda mais marcante pelo facto de corresponder à complexidade real das coisas. 
Intenso, cativante e cheio de revelações, bastam as primeiras páginas para prender a curiosidade em relação a este livro. E uma vez lá dentro, é impossível sair antes do fim. Vale a pena, então, conhecer esta parte do passado de Louise Rick? Sem dúvida alguma. 

Autora: Sara Blædel
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Marcador

Quando Ruby acorda no seu décimo aniversário, algo nela mudou. Algo suficientemente alarmante para os pais a trancarem na garagem e chamarem de imediato a polícia. Um fenómeno inexplicável arrancou-a à vida que sempre conheceu e mandou-a para Thurmond, o assustador campo de reabilitação do governo destinado aos sobreviventes. Ruby não sucumbiu à doença misteriosa que aniquilou a maioria das crianças nos Estados Unidos, mas ela e os outros prisioneiros tornaram-se algo muito pior, porque desenvolveram habilidades mentais poderosas que não conseguem controlar.

Alexandra Bracken nasceu e cresceu no Arizona, Estados Unidos. Depois de terminar o ensino secundário, frequentou a Universidade William & Mary, na Virgínia, onde se formou em Inglês e História. Escreveu o seu primeiro romance no último ano de faculdade e depois mudou-se para Nova Iorque, onde trabalhou numa editora de livros infantis. Após seis anos, arriscou e decidiu passar a escrever a tempo inteiro.
Actualmente, vive no Arizona, com o seu cão, Tennyson, numa casa cheia de livros.

Antes de encontrarem os seus felizes para sempre, Amberly, Maxon, Aspen e Marlee tinham outras histórias para contar...
Esta coletânea traz os contos «A Rainha», «O Príncipe», «O Guarda» e «A Favorita», ilustrados e com introduções inéditas de Kiera Cass. Conheça o príncipe Maxon antes de ele se apaixonar por America, e a rainha Amberly antes de ser escolhida por Clarkson. Veja a Seleção através dos olhos de um guarda que perdeu o seu primeiro amor e de uma Selecionada que se apaixonou pelo rapaz errado. Encontrará, ainda, cenas inéditas da série narradas pelos pontos de vista de Celeste e Lucy, um texto a contar o que aconteceu às outras Selecionadas depois do fim da competição.
Um livro essencial para os fãs de A Seleção, que poderão mergulhar mais nesse universo tão apaixonante.

Kiera Cass é a autora da série «A Seleção», um bestseller No 1 da lista do New York Times.
Formou-se na Universidade de Radford e vive actualmente em Blacksburg, na Virginia, com a sua família. Kiera passou os primeiros dezanove anos da sua vida junto do mar, que nunca tentou devorá-la.

Para mais informações, consulte o site da Marcador Editora aqui.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Jessica Jones: Alias - Volume 2 (Brian Michael Bendis e Michael Gaydos)

O seu passado de super-heroína deu a Jessica Jones uma reputação especial no que toca a investigar casos que envolvam mutantes e gente com super-poderes. Mas aquele caso é diferente. Numa aldeia do interior que parece ter parado no tempo, pelo menos em termos de mentalidade, uma rapariga desapareceu. E, embora estejam a ser feitos esforços no sentido de a encontrar, as coisas parecem emaranhar-se num nó de ressentimentos pessoais e racismo mal disfarçado. Mas Jessica tem um talento natural para fazer as perguntas em que ninguém pensou e há algo na jovem desaparecida que lhe desperta especial curiosidade. Talvez resolver o caso não seja afinal o mais difícil, mas antes lidar com os envolvidos e com o que poderá vir depois.
À semelhança do que acontece com o primeiro volume, um dos aspectos mais cativantes neste livro é a fusão equilibrada entre o mundo da investigação privada e o dos super-heróis. Há, aliás, uma presença bastante pertinente, ainda que sempre discreta, destes ao longo da história que, sem perder de vista a linha central do enredo, insinua várias ligações interessantes. E, sendo uma simples investigação de pessoa desaparecida num mundo onde há muito fora do "normal", este cruzamento de aspectos abre caminho também a várias questões pertinentes: nomeadamente o preconceito face à diferença e a mentalidade fechada que prevalece, por vezes, nos meios mais pequenos.
Outro aspecto que importa destacar é que, seguindo um caso principal - e um segundo mais breve, mas igualmente intrigante - com princípio e fim, este livro pode ler-se independentemente do anterior. Há, ainda assim, pequenas referências e reencontros, além de uma certa evolução da própria protagonista, que fazem com que valha especialmente a pena seguir a história de Jessica desde o início. Até porque reviravoltas, surpresas e revelações são coisa que nunca falta na vida de Jessica Jones.
Também aqui este equilíbrio entre mundos se reflecte também no aspecto visual, não só pelo ambiente típico de uma história de detectives e pelo vincado contraste com a cor do mundo dos super-heróis (ou, bem, de alguns), mas principalmente pelos contrastes que emergem da própria história. O enredo central, os esboços de Jessica e, depois, a história da identidade secreta do Homem-Aranha têm, cada um, um traçado específico que, além de criar uma distinção entre as diferentes facetas do livro, reforça o equilíbrio entre estas mesmas facetas.
E há Jessica, claro, e importa sempre falar de Jessica, uma personagem de moral aparentemente ambígua, mas que, nos momentos realmente importantes, revela ter a consciência no sítio certo. E, além disso, dotada de um sentido de humor tão bizarro como fascinante e de um potencial de crescimento que nunca deixa de surpreender.
Eis, pois, um segundo volume que corresponde inteiramente às expectativas, elevando-as ainda mais para o que virá a seguir. Intenso, enigmático e surpreendente, tanto nos temas como nos acontecimentos, um livro para devorar de uma assentada. E para recordar, depois.

Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Chama-me pelo Teu Nome (André Aciman)

Todos os anos no Verão, os pais de Elio recebem um hóspede na sua casa em Itália. As poucas semanas que ele ali passa pretendem ser intelectualmente enriquecedoras e, acima de tudo, uma experiência a recordar. Mas aquele ano será diferente e basta um primeiro olhar a Oliver para Elio ter a certeza disso. Mais velho, mais belo e com uma postura simultaneamente descontraída e distante, Oliver desperta em Elio os primeiros laivos de um desejo sem nome. E à medida que os dias passam e o sentimento se aprofunda, há algo de inevitável a crescer entre os dois - tão inevitável na intensidade do fogo como na despedida que terá de lhe suceder.
História de crescimento, de desejo e de descoberta, uma das primeiras coisas a surpreender neste livro é a mistura de estranheza e naturalidade com que tudo parece decorrer. Estranheza porque o próprio protagonista não sabe, muitas vezes, o que quer e o que deve fazer ou sentir. Naturalidade, porque também isso faz parte do seu processo de crescimento e, por isso, todas as revelações, pequenas e grandes, a ocorrer no seu interior fazem um certo sentido. 
Também bastante surpreendente é como, a esta naturalidade, surge associada uma certa ambiguidade sem regras. As leis do comportamento social e o julgamento dos outros passam para segundo plano face à força do desejo e ao sentimento progressivamente mais profundo que vai crescendo entre os protagonistas. Mas é também mais do que isso. Dividido entre o que quer e o que julga dever querer, Elio tem muitas vezes sentimentos contraditórios face ao que está acontecer consigo. Talvez por isso faça especial sentido a forma como tudo termina, com as respostas necessárias, mas também com muitas possibilidades em aberto. Pois fica uma certa sensação de insatisfação ante o que poderia ser - e nunca chega a ser contado - mas também a impressão de um fim estranhamente adequado: que deixa as personagens no fim de algo, que pode ser também o princípio de algo diferente.
E tudo isto emerge não só do comportamento das personagens, mas também dos próprios pensamentos e sentimentos de Elio. A ambiguidade das suas emoções, a intensidade dos momentos de mudança, o encanto e a sensualidade graduais que vão emergindo das suas relações, tudo isso ganha outro impacto pelo registo único que o autor confere à narrativa. Nem sempre é fácil compreender Elio, mas é muito fácil visualizar os seus dilemas. E isso é também uma espécie de magia estranha.
Feita tanto de revelações como de possibilidades, trata-se, pois, de uma história onde o pensado e o proferido são tão importantes como os actos em si. Um livro de fascinantes ambiguidades, mas que contém, no que conta e no que deixa por dizer, a sempre fascinante intemporalidade do amor. Basta isso para que a leitura valha a pena. E já é muito. 

Autor: André Aciman
Origem: Recebido para crítica

domingo, 8 de julho de 2018

O Poder da Música (Osseily Hanna)

A música tem o poder de romper todas as barreiras - mesmo em zonas de conflito, de pobreza ou de divisão. E é esta certeza a base do percurso do autor, que, visitando diferentes regiões do mundo, apresenta aqui vários grupos e pessoas que, através da música, encontraram uma forma de contribuir para um mundo melhor e para uma melhor convivência. Histórias de força e de beleza encontradas nos cenários mais difíceis - e que, por isso, é tão importante conhecer.
Sendo tão vasto o mundo e tão complexos os conflitos e divisões que nele existem, é apenas natural que uma das primeiras impressões a surgir desta leitura seja a de que qualquer das suas histórias bastaria para dar um livro. As complexidades do contexto, as dificuldades, os estigmas e preconceitos e a ameaça da violência são algo de tão presente na vida destas pessoas que, para compreender a fundo aquilo que fazem, seria provavelmente necessário dizer ainda muito mais. Ainda assim, o fundamental está lá e, destes capítulos relativamente breves, mas muitíssimo bem construídos e capazes de transmitir uma visão global bastante clara, fica-se com uma muito boa ideia da coragem e da magia que estas pessoas estão a operar no seu recanto do mundo.
Além disso, se cada percurso é um todo em si mesmo, há uma imagem global que emerge desta leitura do conjunto: a forma como a música pode influenciar para melhor todo o tipo de contextos e condições. As dificuldades existem, e não desaparecem por magia, mas a forma como a música molda a vida destas pessoas em algo de melhor é realmente um poder mágico, e o autor transmite este poder na perfeição.
Fica, claro, a vontade de saber mais sobre estas pessoas e os seus projectos, bem como o próprio ambiente em que se movem. Mas há uma precisão na forma como o autor conta as coisas que, associado a um registo pessoal, assente nas suas próprias experiências do local, que torna tudo muito nítido, realçando o que cada história tem de mais único e também o que tem de mais universal.
Tudo somado, fica a imagem de uma leitura cativante e, principalmente, de um livro capaz de realçar a união num mundo repleto de divisões. Uma união construída a partir da música, e que enfatiza, acima de tudo, o que as pessoas têm em comum, e não o que as separa. Interessante e pertinente, uma boa leitura, em suma. 

Autor: Osseily Hanna
Origem: Recebido para crítica

Passatempo Que Sombra te Acompanha

O blogue As Leituras do Corvo, em parceria com o autor Tiago Gonçalves, tem para oferecer um exemplar do livro Que Sombra te Acompanha. Para participar basta responder à seguinte questão:

1. Como se chama o protagonista deste livro?

E gostar da página do livro no Facebook.

Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 22 de Julho. Respostas posteriores não serão consideradas;
- Para participar deverão enviar as respostas para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- Os vencedores serão contactados por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

sábado, 7 de julho de 2018

Espero por Ti na Próxima Tempestade (Yves Robert)

No preciso momento em que se prepara para beijar a rapariga mais bonita da sua escola, Rafael é atingido por um relâmpago e fica cego. E, embora não haja explicações concretas, essa cegueira permanece, tal como o amor que sente por Clarrise. Clarisse, a rapariga que ia beijar, assume uma presença fulcral na sua vida - sempre presente, sempre afectuosa, sempre compreensiva. E a relação de ambos prospera, apesar de todas as dificuldades. Até ao dia em que Rafael descobre que ela não é quem diz ser. Então, uma ideia surge na sua mente: a verdadeira Clarisse foi levada pelo relâmpago. E ele tem de a encontrar, senão na próxima tempestade, então na seguinte... ou na seguinte.
Oscilando entre três personagens distintas e diferentes momentos da linha temporal, este é um livro em que o primeiro aspecto a cativar é o delicado equilíbrio de estranheza e mistério que parece envolver toda a narrativa. No cerne, está o relâmpago que atingiu Rafael e depois todas as tempestades que se seguirão. Mas, ao traçar a história a partir de três pontos distintos, cria-se a sensação de caminhar para uma convergência, que, quando alcançada, trará todas as respostas necessárias... e algumas surpresas também.
Basta esta sensação de expectativa para prender o leitor. Mas há também outros aspectos. É uma história que parece assente no mundo real, mas em que teorias, sinais e inexplicáveis têm também um papel preponderante. E, assim, é como se surgisse um mundo novo a partir das raízes da realidade. Rafael vive no mundo real, mas o seu mundo é diferente. Perpétua conhece bem a realidade, mas está presa ao mundo de Rafael. E Virgílio... bem, Virgílio descobre novas possibilidades ao cruzar-se com o misterioso e (aparentemente) silencioso Tobias.
É de Virgílio, aliás, que surge a que será, talvez, a única ponta solta deste livro - uma ponta solta que faz sentido, pois a história gira essencialmente em torno de um outro protagonista. Ainda assim, a história pessoal desta personagem tem também muito de notável, deixando por isso a sensação de que também o seu percurso poderia ter sido mais aprofundado.
Mas, claro, a linha essencial é outra. E esta surge com um equilíbrio bastante impressionante: a forma como as três linhas convergem para um final marcante e intenso, associada à escrita que evoca na perfeição a melancolia, o desespero e a escuridão que assola a mente das personagens, torna a leitura num caminho mágico e fascinante, rumo a um término que nunca pode ser perfeito - pois também as personagens o não são - mas, ainda assim, muitíssimo adequado. 
Qualquer destas três personagens bastaria para dar origem a uma história, mas as três juntas dão forma a um todo maior. E é esse todo enigmático, delicado e inexplicável que faz desta história intrigante e surpreendente uma tão boa leitura.

Autor: Yves Robert
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A Esposa Secreta (Gill Paul)

Após descobrir a infidelidade do marido, Kitty parte por impulso para o outro lado do Atlântico, onde a espera a cabana que herdou do bisavô e o isolamento de que precisa para lidar com a situação. Mas há também um grande mistério à espera que ela o descubra. Dmitri, o bisavô de Kitty, pertenceu em tempos à guarda imperial dos Romanov e viveu os dias da revolução russa. E mais: apaixonou-se pela grã-duquesa Tatiana. Em tempos de mudança e de terror, Dmitri tudo fez para fica com o seu amor - ainda que a vida tivesse outros planos para ele. E agora Kitty começa a descobrir uma parte da história familiar que nunca ninguém lhe contou.
Dividido entre a história de amor de Dmitri e Tatiana e o percurso de descoberta de Kitty, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo equilíbrio entre estas duas facetas. Kitty e Dmitri são personagens muito distintas, fruto de épocas e contextos diferentes. Mas a forma como as suas histórias parecem cruzar-se desde cedo, mesmo quando tudo é mistério e as ligações são apenas insinuadas, alimenta uma intensa curiosidade de saber mais. Além disso, apesar da relação entre ambos, e embora a história não se cinja aos seus pontos de vista, há como que uma voz diferente nos seus percursos, o que cria um contraste também muito interessante.
Outro aspecto que importa destacar é, naturalmente, o contexto. Tendo como personagem principal uma grã-duquesa e como época da acção os dias da revolução (mas não só), é apenas natural que este elemento seja particularmente importante. Mas sobressaem duas coisas: primeiro, o facto de a autora conseguir contar uma história que é, acima de tudo, pessoal, sem perder de vista o contexto mais vasto; e segundo, o facto de essa história se expandir para lá dos momentos cruciais. A história não termina com a revolução e o caminho leva as personagens a outros cenários e a outros pontos cruciais da história. E isso torna o enredo muito mais vasto e intrigante.
E depois, claro, há as personagens, também elas repletas de uma complexidade interior. Não há heróis perfeitos nem cavaleiros brancos neste livro. Dmitri pode surgir como o único salvador possível, a espaços, mas também as suas fragilidades e a complexidade da sua natureza vai-se revelando aos poucos. Tatiana cedo revela o seu carácter, mas é também muito mais do que "apenas" uma grã-duquesa. E Kitty precisa de tomar o controlo da sua vida, ciente de que está longe de ser uma pessoa implacavelmente determinada. Ninguém é perfeito neste livro. Todos têm falhas, e, para cada momento de empatia, há outros de estranheza e distanciamento. Mas é isso que torna a leitura tão interessante: é que na vida também não há pessoas perfeitas. E ver isso numa história torna tudo mais realista.
Complexo e cativante, com um contexto histórico muitíssimo bem descrito e um conjunto de personagens tão fascinantes quanto imperfeitas, trata-se, portanto, de uma verdadeira viagem ao passado. Uma história de amor intemporal, mas nunca simples nem previsível, e precisamente por isso memorável. 

Autora: Gill Paul
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Asa

Charlie tem 15 anos e ainda sonha com o primeiro beijo. Tímido, introvertido, não tem qualquer amigo. Acaba de entrar no décimo ano e já conta os dias que lhe faltam para acabar o secundário. Olha à sua volta e sabe que não pertence a nenhum grupo. É apenas um miúdo sensível, com uma inteligência superior à média, dividido entre viver a vida ou fugir dela. Na dúvida, prefere ser invisível, como uma flor no papel de parede, que está lá mas em quem ninguém repara. Não se vai manter invisível durante muito tempo. Sente a pressão do primeiro encontro, da primeira namorada. Em seu redor há festas, sexo, drogas e um suicídio que o marca para sempre. Mas há também Sam, uma finalista por quem se apaixona perdidamente. E o meio-irmão dela, Pat, que é homossexual mas ninguém sabe. Os dois vão acolher Charlie, iniciá-lo num mundo de descobertas, guiá-lo ao longo dos misteriosos anos da adolescência. As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky, é uma obra de enorme ternura, por vezes cruel, e sempre de uma sinceridade desarmante. Charlie abre-se ao leitor, revela os seus medos, angústias e o terrível segredo que o acompanha desde a infância. Várias vezes premiado, e também censurado em algumas escolas e bibliotecas dos Estados Unidos, foi adaptado ao cinema pelo próprio autor, num filme da MTV, com Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller nos principais papéis.

Stephen Chbosky é um romancista, argumentista e realizador de cinema, conhecido sobretudo por este As Vantagens de Ser Invisível, que o próprio autor adaptou ao cinema. Escreveu também os argumentos para os filmes Rent e A Bela e o Monstro (na versão de 2017, com Emma Watson). Foi ainda co-criador, argumentista e produtor da série de televisão Jericho, que passou na CBS entre 2006 e 2008. Mais recentemente realizou o filme Wonder - Encantador, com Julia Roberts no principal papel. 

Divulgação: Novidade Saída de Emergência

Fallon é a filha mais nova de um orgulhoso rei celta e sempre viveu na sombra da lendária reputação da guerreira Sorcha, a sua irmã mais velha, que morreu em combate quando os exércitos de Júlio César invadiram a ilha da Bretanha.
Na véspera do seu 17.º aniversário, Fallon está ansiosa por seguir os passos da irmã e conquistar o seu legítimo lugar entre os guerreiros reais. Mas ela nunca terá essa oportunidade, já que é capturada e vendida a uma escola de elite que treina mulheres gladiadoras —e cujo patrono é o próprio Júlio César. Numa cruel reviravolta do destino, o homem que destruiu a família da jovem poderá ser a sua única hipótese de sobrevivência. Agora, Fallon terá de ultrapassar rivalidades perversas e combates mortais — dentro e fora da arena. E talvez a maior ameaça de todas: os seus sentimentos proibidos, porém irresistíveis, por Cai, um jovem soldado romano.

Lesley Livingston é uma premiada autora de livros para jovens. Tem um mestrado em Inglês pela Universidade de Toronto, onde se especializou em Literatura Arturiana e Shakespeare. Actua frequentemente com o grupo de teatro Tempest, de que é cofundadora. Vive actualmente em Toronto, Canadá. 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Jessica Jones: Alias - Volume 1 (Brian Michael Bendis e Michael Gaydos)

Em tempos, Jessica Jones foi uma super-heroína, mas essa vida ficou para trás. Agora, trabalha como detective privada, debruçando-se principalmente sobre casos de maridos infiéis e situações relacionadas com gente que tem super-poderes. Não é uma vida deslumbrante, mas dá para pagar as contas. Até ao dia em que, contratada para encontrar uma pessoa, Jessica acaba por descobrir a identidade secreta de um importante super-herói. Identidade essa que muitos querem que seja revelada, mesmo que isso implique deixar Jessica em apuros...
Provavelmente o aspecto mais intrigante deste livro é a forma como conjuga um enredo quase que de filme noir com o mundo repleto de super-heróis da Marvel. À primeira vista, Jessica é o ideal do detective privado: solitária, esquiva, um pouco auto-destrutiva. Mas o seu passado de super-heroína, que se mistura com um presente onde os super-heróis são autênticas celebridades, confere a toda a história um tom diferente. E o mais surpreendente de tudo é que estes mundos aparentemente tão distintos encaixam com uma naturalidade quase perfeita.
Sendo este contraste entre o mundo sombrio da investigação e o deslumbramento dos super-heróis um elemento essencial neste livro, sobressai também, naturalmente, o elemento visual. Basta um primeiro folhear para identificar o tom sombrio e ligeiramente vago que tão bem caracteriza o romance noir. O que, além de conferir a todo o livro uma muito intrigante aura de mistério, faz com que a aparição de alguns super-heróis mais conhecidos pareça surgir também a uma luz diferente. Sai, assim, reforçado o equilíbrio que emerge da história em si.
E quanto às personagens... Bem, claro que é sempre agradável encontrar uma personagem conhecida num lugar inesperado, mas o mais importante aqui é que, independentemente das relações e da presença dos outros super-heróis, a história de Jessica Jones é um todo em si mesma. E, sendo este apenas o primeiro volume - ainda que as linhas essenciais de investigação tenham aqui princípio, meio e fim - só se pode esperar para os seguintes ainda muito mais de bom.
História de mistério num mundo de super-heróis, trata-se, pois, de um livro surpreendente em todos os aspectos. Personagens marcantes, um enredo cheio de surpresas e um notável equilíbrio em que todas as facetas - intriga e acção, imagem e diálogo, mistério e descoberta - parecem surgir precisamente nas medidas certas, fazem deste primeiro volume um início mais que satisfatório e que deixa as melhores expectativas para o que vem a seguir. Recomendo.

Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Bertrand

Um bando de ladrões realiza um ousado assalto a um cofre de alta segurança que fica sob a biblioteca da Universidade de Princeton. O espólio levado é de valor incalculável, se bem que a universidade o tenha segurado por vinte e cinco milhões de dólares. Bruce Cable é dono de uma livraria muito popular na povoação de Santa Rosa, em Camino Island, na Florida. Mas o dinheiro a sério vem da sua actividade como negociante de livros raros. Poucos são os que sabem que, de vez em quando, ele entra no mercado negro de livros e manuscritos roubados. Mercer Mann é uma jovem escritora que sofre de um caso sério de bloqueio criativo e que acaba de ser despedida da escola onde dava aulas. Quando uma mulher elegante e misteriosa lhe oferece uma generosa maquia para que ela se infiltre no círculo literário de Bruce Cable, ela aceita. Só que Mercer acaba por vir a saber demais e é aí que os problemas começam nessas paragens paradisíacas...

John Grisham nasceu no Arkansas a 8 de fevereiro de 1955. Antes de se tornar escritor a tempo inteiro, licenciou-se em Direito, exerceu advocacia e tornou-se profundo conhecedor do sistema jurídico americano. Inspirou-se na sua experiência profissional em toda a sua obra literária, que se inicia em 1989 com a publicação de Tempo de Matar.
Desde então, escreveu mais de vinte romances. Com cerca de 250 milhões de exemplares vendidos e traduzido para quase trinta línguas, é um autor que ocupa permanentemente os lugares cimeiros nas listas dos livros mais vendidos. A sua enorme popularidade e mestria da escrita fazem de John Grisham um autor com intensa actividade na redacção de guiões cinematográficos e de séries televisivas.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Boca de Trapo e Túpido (James Patterson e Chris Grabenstein)

Desde o jardim de infância que o Michael e o David são perseguidos pelas alcunhas maldosas de Boca de Trapo e Túpido - tudo porque o David às vezes tem algumas ideias um bocadinho parvas e o Michael gosta de inventar palavras estranhas. E o que é certo é que as alcunhas colaram, ao ponto de nem os colegas nem os professores lhes atribuírem já quaisquer qualidades. Só que, para o David e para o Michael, aquilo não tem graça nenhuma. Felizmente, a sua sorte está prestes a mudar. Alguém pegou nas suas aventuras e criou com elas um programa de televisão que os tornou famosos. Alguém que está mais perto do que eles julgam. E se, de início, isso só lhes traz mais sofrimento, as coisas mudam com a descoberta de quem é afinal o misterioso criador do programa... 
Pensado para os mais novos e seguindo o registo já habitual da escrita de James Patterson - capítulos curtos e uma escrita directa - este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela envolvência, mas principalmente pela forma como apresenta uma história leve e divertida sem perder de vista a seriedade do tema subjacente. Pois as alcunhas do Michael e do David são a base de muito bullying por parte de colegas e professores  e a forma como este tema domina o enredo levanta várias questões pertinentes.
É certo que a realidade é sempre bastante mais complexa do que a visão traçada nestas histórias. Mas a visão dos autores realça o essencial: a forma como um preconceito se cola à vítima, mesmo quando ninguém a conhece verdadeiramente, e a ideia mais abrangente - e, oh, tão verdadeira - de que, embora o conceito de fixe e de popular possa ser bastante estrito (principalmente na escola), a verdade é que as diferenças são importantes e diferente não significa mau nem inferior.
E, claro, o tema pode ser sério, mas a história, essa, é muito divertida. É delicioso acompanhar as aventuras e desventuras dos protagonistas, num livro onde há sempre algo de caricato a acontecer, seja no texto, seja nas ilustrações. Além disso, o David e o Michael podem não fazer parte dos miúdos fixes - mas, se virmos bem, até são bastante fixes! E se há coisas que parecem resolver-se de forma demasiado simples, é só porque os pormenores secundários (principalmente do que acontece no fim) não estão lá. Mas também não são assim tão necessários, na verdade.
De tudo isto, resulta uma história leve, divertida e invulgar, com um tema sério na base - e uma abordagem bastante precisa - e um enredo que enfatiza as questões pertinentes sem nunca perder de vista a aventura e a diversão. Cativante e surpreendente, um bom livro para leitores de todas as idades. 

Autores: James Patterson e Chris Grabenstein
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 3 de julho de 2018

À Beira do Colapso (B.A. Paris)

Desde a noite tempestuosa em que passou por um carro parado e decidiu não ajudar a mulher que viu no seu interior que a mente de Cass tem vindo a pregar-lhe partidas. E ainda mais a partir do momento em que descobre que não só essa mulher acabou por ser assassinada, como se trata de uma amizade recente. A culpa começa a assombrá-la e com ela vem o medo de que o assassino saiba que ela passou por lá. E, quando às falhas de memória que a fazem temer ter herdado a demência precoce da mãe, se juntam chamadas anónimas e avistamentos estranhos, Cass começa a ter dúvidas: é ela que está a ficar louca ou o assassino anda realmente atrás de si? A sua vida começa a desmoronar. Mas haverá alguma coisa que possa fazer para o impedir?
Um dos aspectos mais surpreendentes deste livro é que, apesar de ter um crime como catalisador de tudo o resto, não é na investigação e na descoberta do culpado que a narrativa se centra - ainda que, claro, a resposta a este mistério seja um elemento crucial. O enredo centra-se antes no percurso de Cass, em que a culpa inicial evolui para um crescendo de terror, tanto face a causas exteriores como ao que se poderá estar a passar com a sua cabeça. E este terror é palpável. A autora descreve-o com precisão, o que faz com que, embora haja desde muito cedo evidências a apontar para a resolução final, a história nunca se torne monótona nem demasiado previsível. Pois é fácil reconhecer alguns comportamentos, mas não o seria para a protagonista, e a forma como a autora explora este aspecto é algo de particularmente memorável.
Também bastante cativante é a forma como, ao caracterizar as outras personagens pelo olhar da protagonista, a autora constrói um equilíbrio delicado entre o que são pistas evidentes e o que poderão ser apenas impressões causadas pelo medo. Cass está, como o título indica, à beira do colapso e isto condiciona todas as percepções. É, por isso, particularmente notável a forma como a autora torna visível o sentimento de confusão que assola a protagonista, criando momentos de grande intensidade, mesmo quando não é muito difícil adivinhar o que acontece a seguir.
E há a escrita, naturalmente, a forma como parece representar na perfeição o estado de confusão interna que vai na mente da protagonista. As dúvidas, os receios, o torpor e depois a descoberta - tudo isso ganha mais vida pela forma como as coisas são narradas. E, se é verdade que há aspectos bastante fáceis de prever, também o é que o enredo tem uma fluidez tão cativante que o caminho importa tanto ou mais que o resultado. A leitura prende desde as primeiras páginas e não larga mais até ao fim. 
Trata-se, então, de uma leitura intensa e cativante, com um mistério na sua base, mas centrada, acima de tudo, nas complexidades e vulnerabilidades da mente humana. Nem sempre imprevisível, mas sempre intenso e intrigante, um livro cheio de momentos notáveis e com uma história que vale a pena conhecer. 

Autora: B.A. Paris
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro À Beira do Colapso, clique aqui.

Divulgação: Novidade Nuvem de Letras

Morrigan Crow nasceu na hora e no lugar errado. Com o seu nascimento a coincidir com o exacto momento em que tiveram lugar, na sua cidade, vários infortúnios, os seus conterrâneos culpam-na por tudo o que de mal lhes aconteceu, até mesmo pelos seus problemas privados.
Condenada a morrer à meia-noite do dia em que fizer 11 anos, Morrigan terá a oportunidade de mudar de vida - para pior ou melhor - quando um homem chamado Jupiter North a envia para a mágica cidade de Nevermoor.
Aí, Morrigan descobre que Jupiter a escolheu para se candidatar a um lugar na organização mais prestigiante da cidade: a Wundrous Society. Para entrar na organização, ela terá de competir em 4 perigosos campeonatos contra centenas de outras crianças, todas elas com um talento especial. Morrigan insiste que não tem qualquer talento que a distinga, mas, para poder permanecer em Nevermoor em segurança, terá de passar nesses testes. Caso contrario, terá de abandonar Nevermoor e enfrentar o seu trágico destino.

Este é o primeiro livro de Jessica Townsend, aficionada de transportes públicos, cidades antigas, hotéis, Natal, cantores de ópera, Noite das Bruxas, sociedades secretas e gatos gigantes – tendo conseguido incluir todos estes elementos em Nevermoor. Vive na Austrália, mas passou longos períodos em Londres ao longo dos últimos dez anos, cidade que desde sempre alimentou a sua imaginação. Nevermoor está publicado em mais de 40 países e será, em breve, adaptado para o grande ecrã pelos estúdios da Twentieth Century Fox.

Divulgação: Novidade Alfaguara

Na noite de 30 de Julho de 1994, a pacata vila de Orphea, na costa leste dos Estados Unidos, assiste ao grande espectáculo de abertura do festival de teatro. Mas o presidente da Câmara está atrasado para a cerimónia… Ao mesmo tempo, Samuel Paladin percorre as ruas desertas da vila à procura da mulher, que saiu para correr e não voltou. Só pára quando encontra o seu corpo em frente à casa do presidente da Câmara. Dentro da casa, toda a família do presidente está morta. A investigação é entregue a Jesse Rosenberg e Derek Scott, dois jovens polícias do estado de Nova Iorque. Ambiciosos e tenazes, conseguem cercar o assassino e são condecorados por isso. Vinte anos mais tarde, na cerimónia de despedida de Rosenberg da Polícia, a jornalista Stephanie Mailer confronta-o com uma revelação inesperada: o assassino não é quem eles pensavam, e a jornalista reclama ter informações-chave para encontrar o verdadeiro culpado. Dias depois, Stephanie desaparece. Assim começa este thriller colossal, de ritmo vertiginoso, entrelaçando tramas, personagens, surpresas e volte-faces, sacudindo o leitor e impelindo-o, sem possibilidade de parar, até ao inesperado e inesquecível desenlace.O que aconteceu a Stephanie Mailer? E o que aconteceu realmente no Verão de 1994?

Joël Dicker nasceu em Genève, Suíça, em 1985. Estreou-se na literatura com Os últimos dias dos nossos pais (Alfaguara, 2014). Mas foi a publicação do segundo romance que fez dele um fenómeno literário global: A verdade sobre o caso Harry Quebert (Alfaguara, 2013) foi publicado em trinta e três países, vendeu mais de três milhões de exemplares e venceu o prémio de melhor romance da Academia Francesa de Letras, o Prix Goncourt des Lycéens e o prémio da revista Lire para melhor romance em língua francesa. Seguiu-se, em 2016, O Livro dos Baltimore. O desaparecimento de Stephanie Mailer é o seu quarto romance e confirma a mestria de Dicker no género do mistério literário.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

O Quarto da Mãe (Sérgio Mendes)

O pai teve de fugir do país e ninguém sabe se volta ou se está bem. Os únicos sinais de vida surgem na forma dos ocasionais e imprevisíveis envelopes com algum dinheiro. A mãe, essa, vive entre melancolias e lembranças passadas, no quarto onde vivem todos os fantasmas e de onde nascem gritos, gemidos, melodias, nódoas negras. No meio de tudo isto, o filho procura o seu lugar nos afectos de uma família difícil de entender. E sobrevive, ciente de que a alternativa é simplesmente perder...
Não é propriamente fácil falar sobre este livro, já que é uma história que vive tanto de pensamentos e de impressões emocionais como dos acontecimentos ditos. Estes são, aliás, vistos de uma perspectiva algo ambígua, pelos olhos da criança que tenta entender o que ouve e vê, toldada pelas lentes de um amor difícil de explicar. E por isso ficam perguntas sem resposta, aspectos da vida apenas vistos de relance e um final que diz tanto como o que deixa por dizer. Uma imagem ambígua, tão disfuncional quanto a vida, mas talvez por isso mesmo particularmente adequada.
Esta impressão deve-se muito à história em si, com os seus enigmas apenas vislumbrados e a impressão sempre parcial de um filho que contempla a vida dos adultos. Mas também a escrita contribui para esta sensação de entrar num mundo estranho, mas muito próximo, com a sua profunda introspecção e a expressividade com que explora quer os momentos de grande tensão, quer os de simples análise da vida interior.
E há uma certa inevitável empatia face ao desencanto que parece envolver a vida do narrador. Uma vida de dedicação profunda, mas vivida num papel que não deveria ser o seu. Há um mundo em mudança, posições vincadas, escolhas de vida e lutas globais - mas a simples sobrevivência do mais frágil, essa, parece não importar a ninguém. E esta visão complexa, contraditória, de uma relação de mãe e filho que é tudo menos fácil e harmoniosa - como também não o é a música que tão presente está nesta história - torna todo o caminho mais marcante. 
No fim, fica o que parece ser uma ambiguidade propositada, pois também todas as facetas da vida destas personagens são ambíguas. E uma beleza sombria, mas estranhamente fascinante, que faz desta história enigmática e magnificamente escrita, uma leitura difícil de descrever - mas memorável, ainda assim. 

Autor: Sérgio Mendes
Origem: Recebido para crítica

domingo, 1 de julho de 2018

Porque Me Orgulho de Ser Português (Albino Forjaz de Sampaio)

Os feitos, os heróis, as belezas naturais e as artes e lavores característicos do país. A grandeza, em suma, louvada em toda a parte. É este o Portugal que motiva o orgulho tão eloquentemente descrito neste livro originalmente publicado em 1926. E, sendo certo que os tempos mudaram e. com eles, as mentalidades, não deixa, ainda assim, de ser muito pertinente este olhar ao orgulho pátrio de outros tempos. Porque, afinal, muitos destes motivos de orgulho permanecem.
Sendo certo que o mais importante de um livro é sempre o seu conteúdo, o que acontece com este peculiar pequeno volume é que o primeiro elemento a cativar é a componente visual. Trata-se, inegavelmente, de um livro bonito, e basta esta primeira impressão para despertar a curiosidade, pois bastam as várias ilustrações para trazer ao pensamento os vários elementos que, ao longo do texto, vão sendo louvados. 
E, sendo também verdade que, às vezes, uma imagem vale por mil palavras, neste caso as palavras são igualmente marcantes. A escrita é eloquente, entusiástica nos louvores, expressiva nas impressões causadas pelos vários feitos, lugares e figuras que vão sendo descritas em cada capítulo. É fácil imaginar este livro a ser lido como um discurso elogioso e a expressividade que lhe confere este tom peculiar torna as impressões ainda mais vincadas. Pois há toda uma espécie de vigor patriótico a definir este pequeno livro - e uma visão que, apesar de pertencente a um tempo distinto, contém, ainda assim, algo de intemporal.
Nem tudo, claro. Houve coisas que mudaram com a passagem das décadas e, por isso, é inevitável a sensação de estar a olhar para um país muito diferente daquele que conhecemos hoje. Mas, se tivermos em conta a época em que foi escrito, mais que a sensação de uma leitura datada, fica a de uma viagem a um passado que ainda não é assim tão distante - com divergências, sim, mas também com muito ainda bem presente.
Expressão de orgulho patriótico, mas, principalmente, louvor a um país que pode ter sofrido algumas mudanças, mas que mantém ainda muito do essencial, trata-se, pois, de um livro que, fruto do contexto do seu tempo, contém, ainda assim, uma paisagem intemporal. Bonito, cativante e com uma expressividade notável, uma boa leitura.

Autor: Albino Forjaz de Sampaio
Origem: Recebido para crítica