quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A Ilha das Mil Fontes (Sarah Lark)

Depois de ver o seu primeiro amor morrer-lhe nos braços, Nora Reed, filha de um influente comerciante, aceita um casamento de conveniência com Elias Fortnam, proprietário de uma plantação de açúcar na Jamaica, na esperança de aí realizar o sonho que nunca viveu com Simon. Mas a realidade é muito mais complexa do que os seus sonhos de juventude. A vida nas plantações implica o recurso a trabalhadores escravos, algo que, embora contrário às suas convicções, Nora tem de aprender a aceitar. E, quando seres humanos se tornam propriedade, seguem-se as crueldades e a revolta. Nora tem de aprender a viver naquele novo mundo, com um marido que não ama e que, a cada novo dia, se revela um pouco mais repulsivo. Mas o amor continua à espreita, mesmo por entre as provações. E talvez seja ali que Nora irá finalmente superar a perda...
Começar a destacar qualidades num livro em que tudo é mágico e todas as suas facetas se conjugam num equilíbrio perfeito não é propriamente fácil, mas, no caso deste livro, há desde logo um ponto que é preciso destacar: a escrita. Sarah Lark escreve sobre tempos e locais longínquos e fá-lo descrevendo tudo ao pormenor. E, todavia, nunca a história se torna demasiado descritiva e muito menos maçadora. É que há na escrita desta autora uma tão maravilhosa fluidez que é fácil visualizar o cenário, imaginarmo-nos lado a lado com Nora Reed ante tudo aquilo que precisa de enfrentar e sentir com as personagens - não só com Nora, mas também com as outras figuras centrais - o impacto daquilo que estão a viver.
É uma magia que começa na escrita - mas que se estende a todos os outros aspectos. O percurso é longo e cheio de tribulações, e a forma como a autora constrói as suas personagens torna praticamente irresistível a vontade de querer continuar a acompanhar esse percurso. Além disso, nunca nada é fácil, mesmo quando as possibilidades são muitas. E este caminho de escolhas difíceis, de duras perdas, de crueldade, de sofrimento e, enfim, talvez de superação está de tal modo repleto de momentos comoventes, angustiantes, ternos e surpreendentes que é impossível evitar que a viagem e seus protagonistas fiquem gravados no coração.
Há, além disso, todo um mundo de questões relevantes neste livro, ou não se passasse grande parte da história numa plantação. A forma como os senhores das plantações vêem os escravos, com toda uma série de argumentos rebuscados para justificar que tudo fique na mesma, e a crueldade que gera novas crueldades, evocam na perfeição o lado mais sombrio da época em que o enredo decorre. E a este cenário global, caracterizado com precisão e sem perder de vista as suas complexidades, a autora vem acrescentar ódios e vinganças pessoais das personagens, numa teia intrincada, mas fascinante, de percursos individuais num todo mais vasto. É uma história de escravos e de senhores - e é a história de Doug, Nora e Akwasi. Uma história feita de crueldades injustificadas, de amor em lugares insuspeitos e, principalmente, de personagens complexas, nenhuma delas perfeita, mas todas profundamente humanas.
É uma estranha magia, pois, a que vive nas páginas deste livro. Um livro relativamente extenso, mas em que mal se dá pelas páginas a passar, tal é o impacto da história, a força dos sentimentos que as personagens despertam e a poderosa vastidão de um cenário onde tudo marca, tudo surpreende... e tudo comove. Maravilhoso.

Autora: Sarah Lark
Origem: Recebido para crítica

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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Pollyanna (Eleanor H. Porter)

Enviada para viver com a tia após ter perdido os pais, Pollyanna não teria à partida muitas razões para ficar contente - até porque a sua tia Polly é uma mulher amarga e obcecada pelo dever. Mas, em tempos, o pai ensinou-lhe um jogo e isso fez com que Pollyanna começasse a procurar em toda a parte razões para ficar contente. Agora, chegada à sua nova casa, Pollyanna começa a espalhar alegria por todos aqueles que encontra. E, se todos começam por a ver como uma criança invulgar, a sua persistência na alegria cedo começa a influenciar os outros. E a vida das pessoas começa a mudar...
É provavelmente na inocência que está o aspecto mais cativante deste livro. Na inocência de uma criança que, tendo perdido quase tudo, se agarra a um optimismo quase absurdo que não só a ajuda a lidar com os obstáculos como a leva a querer espalhar alegria por todos. O Jogo do Contente, tão essencial à linha desta história, pode parecer, pelo menos a um olhar adulto, um exagero, pois, por mais motivos que se possam procurar, não basta ficar contente para que os problemas se desvaneçam. Mas há em tudo isto uma inocência enternecedora e uma mensagem muito positiva de optimismo e determinação, pois é certo que também na vida de Pollyanna os problemas não desaparecem pela simples força do pensamento - mas tornam-se decerto mais fáceis de suportar.
É uma história muito simples, tanto nos acontecimentos como na forma como são contados. O problema de Jimmy Bean, o misterioso passado da tia Polly e até o mau feitio do senhor Pendleton - tudo isto contém enigmas que desvendar ou situações para desenredar, mas tudo acontece com a máxima simplicidade. E sim, claro que isto pode deixar, por vezes, a sensação de algumas coisas parecerem demasiado fáceis, mas também faz um certo sentido. Ou não fosse esta a história de uma menina capaz de mudar o mundo com a sua simples alegria.
Talvez não seja uma visão particularmente precisa do mundo, já que o optimismo inabalável de Pollyanna colide com um mundo onde, por vezes, procurar a alegria não chega. Ainda assim, importa lembrar que este é um livro juvenil e, assim sendo, falar de optimismo, de inocência e de procurar forças mesmo nos momentos difíceis não pode senão ser uma boa premissa. Além disso, quando a alegria feroz de Pollyanna colide com a amargura da tia, com o mau humor de John Pendleton ou com a simples confusão das outras personagens, o resultado é também uma série de momentos divertidos, o que acrescenta a toda a ternura e inocência da história o potencial para umas boas gargalhadas.
Percebe-se, pois, o porquê de esta história simples e enternecedora ser considerada um clássico. É que, com a sua mistura eficaz de leveza e inocência, humor e ternura, simplicidade e optimismo, contém em si uma base essencial de valores que tem tudo para cativar leitores de todos os tempos e idades. Basta isso, pois, para que a leitura valha a pena. E já é muito.

Título: Pollyanna
Autora: Eleanor H. Porter
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Destemidas - Mulheres que Só Fazem o que Querem (Pénélope Bagieu)

Já todos ouvimos falar na história de alguma mulher que mudou o mundo à sua volta - e até mesmo a história do mundo em geral. Mas a verdade é que há muitas mais além dessas figuras mais conhecidas. É dessas que fala este livro: mulheres que viveram a sua vida confrontando todas as barreiras para alcançar um objectivo e que não deixaram que nada as impedisse.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro é, inevitavelmente, a premissa. A fazer lembrar um formato diferente das Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes, conta as histórias de um conjunto de mulheres notáveis, e fá-lo de forma simples, cativante e esclarecedora. E basta isto - a importância destas histórias e a clareza com que nos são contadas - para fazer com que a leitura valha a pena.
Mas, naturalmente, há mais. Há um estilo muito próprio, em que tanto a imagem como a própria forma como a história é exposta parecem querer lembrar uma história contada em voz alta. Há a diversidade de épocas, de âmbitos, de percursos, que fazem com que este livro englobe diversas áreas e mentalidades, sem nunca perder de vista a linha central - a da igualdade. E há um contraste surpreendente entre a simplicidade da história e o impacto das imagens que encerram cada uma delas, que, mais do que traçar uma divisão entre as diferentes histórias, eleva a sua beleza ao máximo impacto.
Ao abranger várias pequenas histórias, é também o livro ideal para um regresso ocasional às partes mais marcantes. Além, é claro, de se devorar de uma assentada numa primeira leitura. É que todas estas histórias são notáveis - principalmente pelo facto de serem reais, mas também pela forma cativante como são contadas. E a forma como a autora as constrói, dando a cada uma o ambiente e a cor adequados à época e local em que decorrem, torna tudo mais nítido e marcante.
O título ajusta-se, pois, na perfeição. Pois é de mulheres destemidas que se trata. E de um retrato notável de algumas mulheres que, não sendo talvez as mais conhecidas da História, têm, ainda assim, todas elas um percurso admirável - e que importa, sem dúvida, conhecer. Recomendo.

Título: Destemidas - Mulheres que Só Fazem o que Querem
Autora: Pénélope Bagieu
Origem: Recebido para crítica

domingo, 12 de agosto de 2018

Jessica Jones: Pulsar (Brian Michael Bendis e Mark Bagley)

Grávida e a precisar de dinheiro, Jessica Jones está pronta para iniciar uma nova fase na sua vida: a trabalhar para o Clarim Diário, num novo suplemento surpreendentemente dedicado às histórias dos super-heróis. Só que não importa assim tanto que Jessica tenha deixado de ser super-heroína - as suas ligações continuam presentes, tal como a inevitável tendência a meter-se em sarilhos. Primeiro, a morte de uma jornalista põe-na no caminho do poderoso Norman Osborn. Depois, uma guerra secreta lança-a numa busca frenética pelo namorado. E, por fim, mesmo quando se prepara para ter o seu filho e casar, novos problemas vêm bater à porta dos Vingadores - mesmo quando Jessica mais precisa deles... É que a vida de um super-herói nunca pára. E namorar com um Vingador tem destas coisas.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste volume é a diferença de registo. Se, em Alias, o ambiente era mais negro e havia uma maior abundância de cenas pesadas, aqui, há uma maior leveza, que transparece não só nos acontecimentos como também visualmente. Além disso, há mais super-heróis - muito mais super-heróis - e menos investigação, o que, por si só, bastaria para justificar a mudança de registo. Mas há também um equilíbrio entre esta evidente mudança e as ligações vindas do passado. O ambiente pode ser menos sombrio, mas Jessica Jones continua a ser a mesma pessoa, com o seu temperamento peculiar, a sua persistência incessante e a sua visão algo parcial - e menos segura do que deveria ser - de si mesma. O que, claro, apenas reforça a sensação que ficou após o último volume de Alias: que se fechou um ciclo e que esta é uma nova fase.
Também a nível de imagem se notam mudanças evidentes, inclusive entre números. Se a Jessica Jones de Alias mantinha sempre essencialmente os mesmos traços, aqui há uma visão algo distinta - ainda que seja sempre fácil reconhecê-la. E é interessante a forma como, por vezes, quase parece vislumbrar-se a Jessica Jones do passado, enquanto noutras - principalmente quando assume um papel mais discreto, ou uma postura diferente - a imagem se altera, como que ajustando-se às circunstâncias em que se encontra.
Mas voltando aos muitos super-heróis. Já não é novidade para ninguém que super-heróis é coisa que não falta no universo Marvel e muitos deles marcam presença neste livro. Ora, sendo Jessica a figura central, também não é propriamente uma surpresa que muitas destas aparições sejam fugazes - ainda que nunca discretas. Mas o mais interessante nisto tudo é que todos têm algo de fundamental a acrescentar ao enredo, além do muito agradável efeito secundário que é a curiosidade irresistível em conhecer as suas próprias histórias. Até porque, ao longo da leitura, surgem várias referências intrigantes a algumas dessas outras histórias. 
E claro, há outra figura importante nesta história - ou não tivesse Jessica ido trabalhar para o Clarim Diário. A história de Ben Urich, com a sua dedicação ao trabalho e os seus invulgares princípios, está na base de alguns dos momentos mais marcantes do livro, além de acrescentar a uma história repleta de super-heróis um outro tipo de heroísmo: o de fazer o que está certo mesmo quando é difícil.
O que fica então de tudo isto? Uma leitura viciante e cheia de surpresas, e uma janela aberta para um mundo tão vasto que difícil é saber para onde ir a seguir. Intenso, cativante e com um sempre fascinante núcleo de personagens, um livro a não perder. 

Autores: Brian Michael Bendis e Mark Bagley
Origem: Recebido para crítica

sábado, 11 de agosto de 2018

Felizes para Sempre (Kiera Cass)

Vista pelo olhar da protagonista, a história da Selecção deixou para várias das suas personagens muitas questões em aberto. Mas nem só de America vivia a história e, tanto no passado como durante a Selecção, houve momentos que foram narrados de uma perspectiva inevitavelmente parcial. As respostas que faltavam estão aqui, neste livro, onde Amberly, Maxon, Aspen, Marlee e mais algumas personagens assumem a sua própria voz, revivendo momentos já conhecidos - e acrescentando-lhes algo de novo.
A Rainha abre este livro com a história da selecção da rainha Amberly, revelando não só um lado diferente do rei Clarkson, mas também uma história cheia de ternura, esperanças e amor. Leve e cativante, evoca o mesmo ambiente dos outros livros da série, transportando-o para um passado mais distante, ao mesmo tempo que revela facetas diferentes dos protagonistas. Mas há também pistas evidentes para o que virá depois na história de ambos, o que cria também uma certa - e adequada - sensação de melancolia.
Segue-se O Príncipe, que, do ponto de vista de Maxon, acompanha o início da Selecção. Embora não acrescentando muito de novo à história já conhecida, excepto na fase inicial, ver as coisas a acontecer da perspectiva do príncipe confere a alguns momentos um novo impacto, além de realçar a complicada relação de Maxon com o pai. Ah, e claro, o sentido de humor de Maxon e America nunca deixa de cativar.
Depois vem Aspen, em O Guarda, um Aspen ainda apaixonado por America e a tentar encontrar uma forma de remediar o que perdeu. Mais extenso, mais detalhado e com vários momentos de grande intensidade, é este o conto que segue mais de perto a linha dos outros livros, mas também o que, ao abrir a mente do protagonista, mais o complementa.
E a seguir vem A Favorita, provavelmente a mais intensa e comovente das histórias deste livro. A protagonista é Marlee e, embora o essencial da sua história seja já conhecido de quem leu os outros livros, vê-lo da sua perspectiva dá-lhe todo um novo impacto. Além de, como parece ser característica deste livro, revelar também novas e cativantes facetas do comportamento das outras personagens.
Parte do que torna este livro tão interessante é o facto de complementar algumas facetas dos outros livros da série, acrescentando-lhes novas perspectivas, bem como detalhes interessantes. É o que acontece nas Cenas de Celeste, que, apesar de bastante breves, permitem ver a Celeste que, no início da história, parecia não poder existir. Momentos simples, mas surpreendentemente emotivos, que acrescentam à história um pouco mais de emoção.
A Aia conta a história do ponto de viragem na relação de Lucy e Aspen. Um momento relativamente breve, mas repleto de emoção, e que acrescenta uma perspectiva diferente a alguns acontecimentos dos outros livros. 
Continuando a complementar a história principal, vem o que aconteceu Depois de A Escolha. Trata-se de uma cena da vida de America e Maxon enquanto casal, que, além de especialmente enternecedora, permite ver também um pouco mais das relações entre personagens depois do processo de Selecção. Um momento simples, mas muito bonito, e um belíssimo complemento ao enredo central.
E, por fim, uma breve resposta acerca das outras Seleccionadas. Onde Estão Agora? As respostas são sucintas e não propriamente essenciais para o todo, mas reforçam a sensação de fim de ciclo e a ideia de a Selecção ser apenas uma passagem - e não um destino fatal - para as preteridas na escolha do príncipe. Também um interessante complemento.
Chegado o fim, fica a mais simples das impressões: a de um livro que vem dar as respostas que faltaram nos outros volumes da série e apresentar novas perspectivas para alguns dos grandes acontecimentos. Leve, cativante e com vários momentos intensos, um belíssimo complemento e uma leitura a não perder para os fãs da série. 

Autora: Kiera Cass
Origem: Recebido para crítica

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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Portugal - Os Grandes Momentos da História (João da Cunha Carvalho Portugal)

Contar em poucas centenas de páginas uma história de séculos nunca poderá ser tarefa fácil. São muitos os nomes, as datas e os acontecimentos notáveis - sejam eles batalhas, acordos, alianças ou revoluções. Mas talvez bastem essas poucas centenas para conter o essencial, as linhas básicas de uma história que é, inevitavelmente, mais vasta, mas da qual é possível ficar com uma ideia bastante clara. É nisso que consiste este livro: um conjunto de relatos sucintos que, no seu todo, formam um retrato das linhas essenciais da História de Portugal.
Abrangendo um amplo período histórico e, contudo, resumindo cada acontecimento a um reduzido número de páginas, uma das primeiras características a sobressair neste livro é o registo invulgar. Mais do que narrar factos e enunciar listas de nomes - embora estas sejam, de facto, inevitáveis - parece querer transpor para o momento da leitura o impacto e intensidade dos momentos que descreve. E sendo muitos deles grandes batalhas, esta descrição como que exaltada de vigor patriótico resulta estranhamente adequada, pois como que transpõe para o texto a bravura e o perigo do momento.
Também interessante é a forma como, ao seguir os acontecimentos por ordem cronológica, se fica com a impressão de estar a ler algo mais que um conjunto de episódios. Sim, cada capítulo descreve um momento distinto, mas, ao acompanhar a linha temporal, fica-se com uma visão mais abrangente do todo de que os fragmentos fazem parte e, principalmente, da imensa vastidão desse todo.
Não é, como é óbvio, um livro exaustivo, até porque muitos destes momentos justificariam um livro só a eles dedicado. Mas o essencial está lá, seja no que toca aos intervenientes, às estratégias de batalha, às intrigas, alianças e revoluções e até mesmo às conquistas alcançadas em tempos de paz. Fica a curiosidade em saber mais? Bem, para isso haverá certamente outros livros. Mas, enquanto ponto de partida para uma visão global da História e dos feitos pátrios, o equilíbrio entre brevidade e informação parece ser o adequado.
É esta, pois, a imagem que fica desta leitura: a de um resumo relativamente sucinto, mas bastante abrangente e equilibrado da História de Portugal, realçando essencialmente os seus grandes feitos e grandes figuras de uma forma clara e cativante. Um bom livro, em suma.

Autor: João da Cunha Carvalho Portugal
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O Homem nas Sombras (Phoebe Locke)

Diz a lenda que o Tall Man matou a filha por ela ser desobediente - mas que, às raparigas que lhe derem presentes e subserviência, ele pode torná-las especiais. E foi esta lenda a origem de um crime cujas ramificações se estenderiam pelo futuro. Na infância, Sadie e as amigas fizeram um sacrifício ao Tall Man. E, anos depois, quando teve a sua própria filha, a noção de que Amber poderia estar amaldiçoada fê-la fugir para a proteger. Só que as sombras nunca partem verdadeiramente. E, ao regressar a casa, julgando ter deixado o pior para trás, Sadie traz consigo o fardo do seu passado. Porque o Tall Man leva filhas. Mas às vezes precisa de um pouco de ajuda...
Oscilando entre diferentes períodos e também diferentes perspectivas, este é um livro que leva o seu tempo a assimilar. Talvez por os verdadeiros contornos do crime só serem revelados numa fase já muito avançada do enredo, muitas das referências feitas pelas personagens assumem uma certa ambiguidade, o que torna o início um pouco confuso. Além disso, se há coisa que não há neste livro é personagens que despertem simpatia. Todas são contraditórias, imperfeitas. Todas têm segredos e sombras a esconder. E, se é verdade que isso cria uma maior distância - e, no caso de Federica, uma ligeira irritação - também o é que confere à história uma perspectiva um pouco mais realista.
Quanto ao Tall Man, é também um mistério em si. Em parte lenda, em parte superstição e - por vezes - em parte real (pelo menos na mente de algumas das personagens), nunca se chega a saber sobre ele uma verdade absoluta, o que deixa, é claro, uma certa curiosidade insatisfeita. Mas também isto faz sentido, pois, sendo ele um homem de sombras, é apenas natural que a sua verdadeira natureza (real ou imaginária) seja também deixada às sombras da imaginação.
Mas voltando ao enredo. O início é, realmente, bastante pausado, em parte pela sensação de se saber muito pouco e em parte pela distância sentida relativamente às personagens. Mas a história vai-se entranhando aos poucos, à medida que as surpresas vão surgindo, e, se o ritmo nunca chega a ser realmente compulsivo, há ainda assim um crescendo de intensidade que culmina num final bastante forte. E quanto à tal empatia? Nenhuma das personagens se torna subitamente adorável, não - mas tornam-se mais fáceis de entender.
A impressão que fica é, pois, a de um livro peculiar, ainda que não propriamente viciante, em que diferentes momentos e personagens se conjugam para dar forma a um mistério intrigante, surpreendente e com um final particularmente intenso. Gostei. 

Autora: Phoebe Locke
Origem: Recebido para crítica