quarta-feira, 8 de julho de 2020

A Arte da Guerra (Sun Tzu e Pete Katz)

Considerado o mais antigo tratado filosófico sobre a guerra, e com uma visão facilmente adaptável a outros contextos que não o militar, não é propriamente uma surpresa que este livro tenha perdurado ao longo dos séculos e continuado a ser lido por gente de todos os meios. Mais surpreendente será esta nova visão, que, profundamente ilustrada e acrescentando às ideias uma história pessoal, torna as ideias mais acessíveis e a leitura muito mais envolvente.
E é precisamente pelo aspecto visual que importa começar, para dizer que se trata de um livro lindíssimo. A arte, repleta de pormenores e transbordante de cores, ajusta-se igualmente bem ao percurso mais pessoal do mestre e do seu discípulo, que inclui não só a partilha de lições, mas também momentos de conflito e de perigo, como à ilustração de forma visual das ideias e conceitos explorados ao longo de A Arte da Guerra. E já disse que é belíssimo? Mesmo antes de começar a ler, é um livro que dá gosto folhear, parar para contemplar as imagens e imaginar que histórias e ideias lhes estarão associadas. Antes mesmo da leitura, já cativa, o que só pode ser uma qualidade.
Quanto à guerra propriamente dita, há dois aspectos a destacar: o cuidado em tornar o texto mais acessível, complementando-o com imagens, mas sem grandes desvios à linha original, e a forma como a transposição deste texto para a história pessoal de um muito interessante duo de protagonistas permite uma visão das aplicações práticas deste tão breve - e tão abrangente - tratado.
Claro que, sendo acima de tudo uma adaptação, é A Arte da Guerra que domina, não a história que a complementa. Mas importa dizer que, apesar da brevidade, esta é uma história tão cativante que fica uma irresistível curiosidade em saber mais sobre os seus protagonistas. Servem, ainda assim, o seu objectivo. E é isso o mais importante.
É A Arte da Guerra em toda a sua abrangência original, mas... num formato novo. E, assim, é de certa forma um livro diferente: mais acessível, mais envolvente, mais facilmente cativante no seu equilíbrio entre teoria e história. E, além disso, é lindíssimo. Mas isso já disse, não já?

Autores: Sun Tzu e Pete Katz
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O Castelo dos Animais - 1. Miss Bengalore (Félix Delep e Xavier Dorison)

Quando os humanos abandonaram o castelo que haviam transformado em quinta, os animais julgaram ter conquistado algum tipo de liberdade. Fundaram uma república, mas não tardou muito até que percebessem que tinham trocado uma vida de trabalho árduo por outra ainda pior. É que também aqui todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros. E, sob a autoridade do presidente Sílvio e da sua milícia canina, os animais vêem-se obrigados a trabalhar constantemente para conseguir o mínimo essencial. Ou a sofrer as consequências...
Para quem já leu A Quinta dos Animais, está história poderá soar, talvez, um pouco familiar, até porque a premissa é relativamente semelhante. Mas há dois aspectos que a tornam única: primeiro, a construção propriamente dita, em que a arte, os diálogos e o carácter individual das personagens contribuem para formar uma identidade própria; e depois o tipo de rebelião, que, inspirada pela história de um homem que, sem recurso à violência, fez frente a todo um império, se afasta do conflito sangrento da fase inicial.
Claro que o próprio formato define a diferença, mas há muito mais a destacar além dos paralelismos entre estas duas histórias. Primeiro, há a arte, com o seu dom impressionante de conferir expressividade e sentimento às faces de figuras que são, afinal de contas, animais. Depois, o delicado equilíbrio entre a brutalidade do sistema e os rasgos de ternura e de solidariedade que vão surgindo de onde menos se espera. Além disso, há ainda a visão revolucionária de uma mudança isenta de violência. E, claro, a absurdamente brilhante visão de uma revolução feita sob a égide do humor e o símbolo tão eficaz de uma - ou bem, múltiplas - margaridas.
Sendo apenas o primeiro volume, escusado será dizer que tudo fica em aberto. Ainda assim, é interessante notar que a sensação que fica é, sobretudo, a de uma etapa completa, que vai da observação impassível (ou apavorada) da brutalidade das autoridades à percepção de que baixar a cabeça nada mudará e depois aos primórdios de uma mudança que jamais será fácil ou isenta de perdas, mas que é necessária e que já começou. O que se seguirá será inevitavelmente novo: um novo passo na longa batalha por uma verdadeira liberdade.
Visualmente belíssima, além de muito eficaz no seu equilíbrio entre a história individual das personagens e o percurso global da mudança em curso, pode ser, na sua essência, a reconstrução de uma história bastante conhecida, mas segue o seu próprio caminho, vale por si mesma e é, em todos os aspectos, notável. Eis, pois, um início poderoso para uma história que promete sê-lo ainda mais. Cheio de emoção, de intensidade e também de matéria para reflexão, um livro que não posso deixar de recomendar.

Autores: Félix Delep e Xavier Dorison
Origem: Recebido para crítica

sábado, 4 de julho de 2020

Na Farmácia do Evaristo (Fernando Pessoa)

Na sequência de uma tentativa falhada de golpe de estado, vários homens reúnem-se numa farmácia para discutir os acontecimentos e, tendo-os como ponto de partida, filosofar sobre política. Vêm de contextos e ideologias contrárias, pelo que a provocação inicial cedo se transforma numa elaborada discussão sobre questões como o que confere ou não validade a uma revolução, a credibilidade ou falta dela das eleições e até o valor de um juramento de fidelidade. Os ânimos vão-se, talvez, exaltando, mas os argumentos não se esgotam... e a discussão continua.
A primeira coisa que importa referir sobre este livro é que se trata de um conto inacabado, o que significa, naturalmente, que tudo é deixado em aberto no que respeita ao futuro e consequências da discussão. Ainda assim, é uma história interessante de se ler, não só pela sempre impressionante fluidez e complexidade da escrita de Pessoa, mas sobretudo porque é todo um exercício de debate e discussão de ideias diferentes - incluindo provocações, figuras de estilo, manobras mais ou menos filosóficas e até o intemporal papel de "advogado do diabo". Claro que, sendo sobretudo discussão, é um texto de ritmo relativamente pausado, até porque a complexidade da argumentação assim o exige.
Outro aspecto interessante é que este aceso debate tem o condão de pôr em dúvida todas as certezas. Sendo os seus intervenientes defensores de posturas muito distintas, é apenas natural que haja conflito e ambiguidade e o desenrolar da conversa faz com que as várias certezas das personagens vão sendo meticulosamente dissecadas. Mas há também uma outra ambiguidade associada, pois cada leitor terá os seus valores e dará, talvez, por si a tomar partido. Neste aspecto, importa também fazer uma menção à entrevista a Álvaro de Campos que surge no final do livro e que leva a todo um outro nível esta visão de ambiguidade moral. É que, sendo embora um "homem" fruto do seu tempo, Álvaro de Campos tem algumas perspectivas questionáveis, nomeadamente quando se refere à escravatura... com e sem aspas. Isto leva inevitavelmente à comparação e à reflexão sobre quanto do que é dito poderia ser aceitável nos dias de hoje - e quanto não será, talvez, também uma provocação.
É um livro muito breve, daí que surpreenda tanto a complexidade das discussões políticas e filosóficas. E é um livro ambíguo, que deixará, decerto, impressões diferentes consoante o posicionamento de cada leitor. Mas é, sobretudo, um conto bem escrito, com uma visão elaborada e alguns pontos de vista que importa dissecar. E tudo isto gera uma leitura que consegue ser, por vezes, bastante desconfortável, mas que tem também muito de interessante.

Autor: Fernando Pessoa
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Criminal - Livro Três (Ed Brubaker e Sean Phillips)

Tracy Lawless regressou à cidade para descobrir o que acontecera ao irmão e acabou preso à mesma vida do pai. Agora, tem uma série de homicídios para resolver, um caso amoroso com a mulher do chefe e o exército à sua procura para o levar de volta. Noutro tempo, mas com o mesmo cenário e as mesmas ligações, Riley Richards começa a fartar-se da vida da cidade e anseia por regressar à tranquilidade, mas, para o fazer sem perder a fortuna, precisa de se livrar da mulher, nem que isso implique fazer favores. Cada um deles tem a sua história, os seus pecados e as suas sombras. Em comum, a mistura de ambição e de desolação que habita esta cidade e os seus habitantes. E a certeza de que, num submundo de crime, dificilmente haverá finais felizes. Sobretudo para os inocentes...
Algo que se vai tornando cada vez mais evidente de volume para volume, e um dos grandes pontos fortes desta série, é o delicado equilíbrio entre a construção de uma linha central independente para cada história e a teia de contactos, envolvimentos e relações que une os diferentes percursos. Novos elementos e personagens já conhecidas cruzam-se neste mundo completo onde a crueldade parece ser soberana, dando forma a percursos com tanto de desolador como de misterioso e personalidades complexas e ambíguas que nunca são apenas o que mostram ser.
Este jogo de sombras e de ambiguidades reflecte-se, naturalmente, a nível visual, com as sombras da noite, os tons esbatidos dos lugares mal frequentados e os rasgos rugros da brutalidade a contrastar com os tons vivos - e quase inocentes - da memória. Este contraste é particularmente vincado em O Último dos Inocentes, pois o passado é a força motriz de tudo o que acontece, mas está também presente, ainda que em menor grau, na história de Tracy. E há, além disso, a já habitual expressividade dos rostos, que, tendo em conta o tipo de acontecimentos que estas histórias envolvem, se revela um elemento particularmente eficaz.
Importa ainda destacar um elemento comum a ambas as histórias e que tem a ver com a destruição da inocência. Tracy Lawless e Riley Richards podem ser os protagonistas de tudo o que acontece, mas os momentos mais marcantes envolvem duas personagens bem distintas: Evan e Freakout. Afinal, é de pecado e de inocência que tratam estes dois episódios - e as consequências de ambos são simplesmente devastadoras. Evan, em particular, tem o tipo de final que se entranha na memória. Freakout... representa o pior tipo de destruição.
Cada volume desta série é um mergulho nas profundezas da desolação e, como tal, desperta inevitavelmente sentimentos fortes. Este mostra que a inocência não pode perdurar e, com a sua mistura de implacabilidade e inocência, intriga e desolação, fica na memória não só pelo muito que acontece, mas pelos pensamentos e sentimentos que desperta. Sombrio nos tons - e sobretudo nas almas - um livro memorável em todos os aspectos.

Autores: Ed Brubaker e Sean Phillips
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O Dia em que Perdemos o Amor (Javier Castillo)

Pensavam que tudo acabara com a morte de Laura. Estavam enganados. Vai começar tudo outra vez. E o início é uma mulher nua numa auto-estrada, com papéis que anunciam mortes iminentes, sendo uma delas a da desaparecida que assombra o inspector Bowring. Entretanto, Steven está na prisão. Amanda e Jacob estão finalmente juntos... mas não por muito tempo. A entrada de um intruso na casa que partilham deixa Amanda entre a vida e a morte... e a sua luta pela vida no hospital transforma-se em novo desaparecimento. Vai recomeçar a corrida. Bowring precisa de saber o que aconteceu a Katelyn Goldman. Jacob e Steven precisam de encontrar Amanda. E Carla... Carla vive no passado que a moldou em algo de... indescritível.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro é que, sendo a continuação de O Dia em que Perdemos a Cabeça, mantém todas as qualidades do volume anterior, para lhe acrescentar mais intensidade, mais mistério, mais acção e uma familiaridade tão irresistível que bastam algumas frases para nos transportar de volta para a vida destas personagens. Talvez porque os aspectos mais estranhos são já relativamente conhecidos - o que não quer dizer que não haja outros novos - é mais fácil entrar no ritmo da história. Talvez porque as personagens já nos parecem mais próximas, é quase impossível não ficar a torcer para que tudo acabe bem. E, entre estes dois pontos e o novo desenvolvimento do percurso de Carla, forma-se um fio de tensão forte e intenso, que culmina num final tão cheio de surpresas que é praticamente impossível de descrever.
Outro aspecto que já vinha do livro anterior, mas que atinge novos máximos neste segundo volume, é a teia de relações e ambiguidades. De relações, porque são múltiplos os caminhos que convergem para a casa onde tudo começou e os passos vão-se cruzando. De ambiguidades, porque ninguém é só aquilo que parece. Isto é particularmente marcante no caso de Carla, pois o seu percurso parte de uma genuína inocência colocada em ambiente de reclusão e as consequências que isto trará são, no mínimo, inesperadas. A Carla que vemos no início do livro é uma jovem à procura do amor. A Carla do fim... é algo diferente.
E importa ainda realçar a cadência e a fluidez da escrita, que, num livro com múltiplos pontos de vista e em que todos convergem com igual intensidade para um foco de surpresas e de revelações, cria um contraste poderoso ao contrapor à intensidade da acção e do drama da corrida contra o tempo a introspecção e a descoberta pessoal do percurso de Carla. Além de tornar a leitura mais viciante, esta forma de narrar a história vem adensar o mistério e reforçar relações. O que, mais uma vez, tendo em conta a forma como tudo termina, é algo de poderoso.
A mesma mistura de estranheza e de fascínio - elevada a novos níveis de intensidade. Assim é este segundo volume, que, intenso e viciante da primeira a última página, ultrapassa em muito as expectativas geradas e eleva enredo e personagens a todo um novo pico de intensidade. Cheio de surpresas, de mistério e de emoção, um livro empolgante, em suma. E muito bom.

Autor: Javier Castillo
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 30 de junho de 2020

Voar Depois de Cair (Isabel Baía Marques)

Entregar o coração a alguém pode ser uma das coisas mais assustadoras da vida, principalmente para quem já o fez algumas vezes e... correu mal. Mas há formas de mudar o caminho previsível, olhando um bocadinho mais para nós antes de mergulharmos de cabeça, aprendendo a dar e a receber com conta, peso e medida, a persistir - e a desistir quando a situação é um caso perdido - e a abrir novamente as asas depois de uma grande queda. É sobre todas estas coisas e sobre as relações - com os outros e com a nossa própria consciência - que este livro fala.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção para este livro é o impacto visual. Sendo escrito em forma poética, embora num registo muito simples, cedo se torna evidente que os desenhos simples das páginas vêm reforçar a impressão de proximidade emocional que vem das palavras. Não é nem pretende ser um diário, mas esta conjugação de texto e imagem dão-lhe, até certo ponto, um aspecto de um, o que contribui para a impressão de uma leitura intimista, algures entre o conselho e a confidência sobre os assuntos do coração.
Outro aspecto a salientar é que não se destina necessariamente a ser lido de forma sequencial. Pode fazer-se, é certo, e isso não retira nenhuma da relevância às ideias, ainda que uma leitura consecutiva possa deixar, por vezes, a sensação de uma ligeira repetição. Mas, lido da forma como a autora sugere, abrindo-o ao acaso e lendo as mensagens, pode funcionar como um pequeno conselheiro, como uma presença que desafia e - até certo ponto - orienta. Como um guia silencioso, mas muito eloquente, para as relações com os outros e connosco.
E é um livro muito próximo, pois a simplicidade das palavras, associada ao simples facto de terem como tema as relações, confere uma estranha afectuosidade. Funciona quase como a voz de uma amiga que ouve os desabafos e depois aconselha. Claro que cada um tem a sua história e o que é válido para alguns não o será para outros. Mas há coisas que são tão simples e que parecem tão evidentes que acabam por surgir como uma surpresa, ao estilo "como é que eu nunca pensei nisso?"
Visualmente encantador e com um registo que equilibra de forma eficaz a simplicidade das palavras e a precisão dos conselhos, trata-se, pois, de um livro que, mais do que de leitura única, apela a múltiplos regressos. Afinal, as grandes verdades escondem-se, por vezes, nas pequenas coisas. E material para reflexão é algo que não falta ao longo destas páginas...

Autora: Isabel Baía Marques
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 29 de junho de 2020

O Silêncio das Mulheres (Pat Barker)

Pode ter começado devido a uma mulher, mas os protagonistas das narrativas da guerra de Tróia sempre foram homens: Odisseu, Ájax, Príamo, Agamémnon... Aquiles. E a história é, ainda e sempre, a de Aquiles, mas não só. Briseida, a mulher que dá voz a este livro, começou como uma criança do seu tempo, ascendeu a rainha num casamento infeliz e viria a desabar com fúria ante a tomada da sua cidade, reduzida à condição de escrava e prémio de Aquiles. Mas, num tempo em que "o silêncio assenta bem às mulheres", as histórias para contar partilham-se nas sombras. E, da sua posição discreta, Briseida vê os conflitos dos homens, a crueldade dos homens, a brutalidade da guerra... e o seu coração cheio de ódio transforma-se também em algo diferente...
É difícil escolher um ponto para começar a falar sobre este livro, pois todo ele forma uma unidade perfeita. Mas talvez importe realçar, acima de tudo, a escrita e a forma como a autora confere à sua protagonista uma voz tão eficaz na melancolia poética como na descrição certeira dos acontecimentos mais brutais. Tudo parece ter o encadeamento certo: os grandes momentos de conflito, os rasgos de emotividade, a inevitável análise que Briseida faz das suas circunstâncias e daquilo que a rodeia e ainda as frases memoráveis que tornam a longínqua guerra de Tróia num acontecimento tão real como actual. É como estar lá com ela. É sentir tudo com ela. E que mais se pode pedir a um livro que tão facilmente nos transporta para o seu interior?
Outro aspecto que sobressai é que, embora grande parte das personagens deste livro sejam sobejamente conhecidas - ou não fosse esta uma reconstrução da Ilíada - a visão com que ficamos é, ao mesmo tempo, familiar e diferente. Familiar, pois os pontos essenciais continuam presentes em toda a sua força. Diferente, porque são vistos de outra perspectiva e complementados por toda uma história oculta das figuras invisíveis da história. É uma história conhecida... até certo ponto. Mas tem também muito de novo.
É, contudo, na complexidade das emoções que está a derradeira força desta história. É fácil, desde o início, sentir empatia pela mulher encurralada numa cidade em vias de cair, tendo pela frente apenas duas perspectivas: morte ou escravidão. Mas, com o desenrolar dos acontecimentos, tudo se aprofunda e expande para uma maior - e mais impressionante - ambiguidade. Troiana escrava de gregos, Briseida conhece bem o ódio e a impotência, mas as relações que vai estabelecendo envolvem esses sentimentos numa camada de outras emoções mais complexas. Além disso, é particularmente brilhante a forma como esta ambiguidade é transposta para a caracterização dos grandes heróis. Embora escrava de Aquiles, Briseida vê-o como mais do que o homem cruel que lhe matou a família e a escravizou - sendo certo, porém, que nunca deixa de ver essa faceta. E assim, tudo avança num equilíbrio delicado, onde ódio, afeição e algo de intangível algures no meio se entrelaçam numa teia comovente.
Maravilhosamente escrito, fortíssimo na construção dos cenários e da teia de ligações entre as personagens, surpreendentemente emotivo e repleto de pormenores deliciosos, eis, pois, uma narrativa à altura da história intemporal que lhe serviu de base. Intenso, fascinante e belíssimo em todos os aspectos, um livro que é simultaneamente uma visão nova da história da guerra de Tróia... e todo um tratado sobre a complexidade humana.

Autora: Pat Barker
Origem: Recebido para crítica