terça-feira, 23 de julho de 2019

Em Nome do Amor (Lesley Pearse)

Farta da vida excessivamente pacata de Bexhill, Katy Speed anseia por viver em Londres e, enquanto alimenta esse seu desejo secreto, vai-se entretendo a observar as movimentações da casa do outro lado da rua. Gloria, a proprietária, é uma senhora simpática e deslumbrante que despertou a admiração de Katy. Mas é no momento em que Katy começa finalmente a fazer planos para o seu futuro em Londres que uma tragédia se abate sobre a sua rua: a casa de Gloria ardeu, com ela e a filha lá dentro. E o principal suspeito é o pai de Katy. Vendo essa possibilidade como impossível, Katy começa a investigar outras possibilidades. Mas está longe de imaginar que, ao fazê-lo, acabará por atrair a atenção de um homem muito perigoso...
Parte do que torna os livros desta autora tão cativantes é a sua capacidade de gerar emoções fortes. Este livro não é excepção. Com um conjunto de personagens fortes, um tema sempre actual e pertinente e um enredo cheio de momentos intensos, é fácil entrar no ritmo da narrativa, criar proximidade com as personagens e seguir os seus passos com interesse e emoção constante. E abrir espaço para um romance num cenário tão delicado como aquele em que Katy se move, partindo de um crime para a revelação de muitos outros tidos como aceitáveis na época em que o enredo decorre, é algo de verdadeiramente notável.
Outro aspecto bastante marcante é a forma como a autora constrói as suas personagens num equilíbrio de forças e de vulnerabilidades. Curiosamente, isto não se aplica apenas às protagonistas, já que a imagem inicial de Gloria, glamorosa e demasiado independente aos olhos da sociedade da época, faz com que seja vista como alguém no mínimo duvidoso. E afinal Gloria é um farol nas trevas, apontando novas oportunidades a mulheres vítimas de violência doméstica. Ora, isto definirá o fio condutor de todo o romance, colocando as personagens perante este duro tema e realçando qualidades e falhas na forma como lidam com ele. E, claro, isto abre caminho a uma imensa intensidade emocional, que, associada ao mistério, torna a leitura muito cativante.
Nem sempre esta ambiguidade das personagens impressiona pela positiva, já que a forma como Katy lida com Reilly abre espaço a alguns momentos difíceis de entender. Ainda assim, não deixa de fazer sentido no contexto da narrativa, não só devido à mentalidade da época, mas também porque reforça uma grande verdade: nem todos os monstros se identificam ao primeiro olhar. Alguns são os que parecem mais encantadores. E a capacidade da autora de conjugar este lado mais negro da natureza humana com uma história onde há, apesar de tudo, espaço para a esperança e para o amor é algo de bastante notável.
Emocionante e cheio de surpresas, trata-se, em suma, de uma história cativante, com várias personagens fortes e humanas e um enredo repleto de mistério e de emoção. Uma boa história, em suma, com um tema muito actual e relevante e cheia de beleza e de amor... mesmo em plena escuridão.

Título: Em Nome do Amor
Autora: Lesley Pearse
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Diário de uma Miúda Como Tu - Férias! (Maria Inês Almeida e Catarina Bakker)

A Francisca é uma rapariga perfeitamente normal com uma consciência ambiental acima da média. E o seu plano para as férias pode ser igual ao de tantas outras crianças da sua idade - praia, doces, diversão - mas envolve também outras actividades como apanhar lixo e ensinar os primos a serem mais ecológicos. Parece chato? Pois não é. E, na companhia dos amigos e da família, a Francisca vai ter o aniversário e as férias mais fixes de sempre!
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste segundo livro de aventuras da Francisca é a agradável sensação de familiaridade, que significa que já no primeiro volume ela se tornou uma personagem memorável. Reencontrar a Francisca é reencontrar uma personagem cativante, divertida, com muito de relevante para ensinar e, ainda assim, com todas as peculiaridades de uma criança de dez anos. Ou seja, capaz de cativar tanto crianças como adultos.
Outro aspecto interessante é que, uma vez que grande parte da história deste segundo livro decorre em tempo de férias, o percurso da Francisca tem muito mais espaço para a diversão, não esquecendo, contudo, a importância do trabalho (por mais relutância que este possa envolver) e também da protecção do ambiente, causa de vida desta notável protagonista. O resultado é, pois, uma história que consegue ser muito divertida (particularmente no que toca à relação da Francisca com: 1. o irmão; 2. as verduras; 3. o acordar cedo) ao mesmo tempo que aborda várias questões pertinentes, que vão desde as múltiplas questões ambientais à importância de poder contar com os amigos e a companhia das pessoas de quem gostamos.
Ora, as férias da Francisca passam por três locais diferentes, o que poderá ter o efeito secundário de gerar uma ligeiríssima inveja em quem lê as suas aventuras - e, sim, adultos incluídos. Mas há um lado positivo nesta dispersão de cenários: é que cada local - e correspondentes pessoas - tem rotinas, hábitos e personagens diferentes, o que, além de permitir à Francisca espalhar a sua mensagem ecológica por mais pessoas, permite uma maior diversidade de interacções, que vão desde a companhia dos avós a uma multiplicidade de primos e depois apenas os pais.
No fim, a impressão que fica é bastante semelhante à do primeiro: a de um livro leve e divertido, cheio de ilustrações engraçadas e com um enredo que mistura o humor de umas quantas peripécias peculiares com uma mensagem muito importante. Uma boa história, em suma, com uma protagonista muito especial.

Autoras: Maria Inês Almeida e Catarina Bakker
Origem: Recebido para crítica

domingo, 21 de julho de 2019

Os Jogos da Minha Infância

Saltar à corda, jogar à macaca, juntar os amigos para um jogo do stop ou do mata... Todos temos em comum a memória destes jogos de infância. Preparem-se, pois, para uma viagem ao mundo da nostalgia, através desta breve, mas muito abrangente, recolha dos jogos que todos partilhámos em tempos mais inocentes. Alguns mais conhecidos do que outros, mas formando no todo uma encantadora viagem pela memória dos jogos infantis.
Muito breve e muito simples, este é um jogo que, sem grandes contextualizações, apresenta essencialmente uma recolha dos jogos tradicionais que muitos de nós praticámos em pequenos. E a apresentação é simples: as regras, acompanhadas de um esquema ou ilustração, e do número de jogadores e material necessário. São maioritariamente jogos simples e esta descrição sucinta consegue, além claro, de apelar à nostalgia, apresentar também alguns jogos específicos a quem nunca antes os conheceu. O resultado é uma mistura de diversão e nostalgia - um regresso ao passado, bem como um conjunto de actividades interessantes. Para miúdos... e não só.
Outro aspecto que sobressai é que, funcionando essencialmente como livro de instruções, sem nada mais além das simples regras, deixa a quem o lê a evocação das memórias que lhe forem mais próximas, transformando a leitura numa experiência mais pessoal. Ao mesmo tempo, funciona como livro de actividades, permitindo, talvez, a passagem destes jogos a uma nova geração. Seja como for, o efeito da leitura é bastante interessante, até porque pelo menos alguns destes jogos são intemporais.
Talvez houvesse mais a dizer sobre estes jogos tradicionais, até porque tempos houve em que foram quase omnipresentes. Mas faz sentido deixar isso à memória de cada um. Além disso, contextos e exemplos - reais ou literários - são secundários face à prática e à memória. Lembramo-nos do jogo? Então sabemos o que precisamos de saber. Não nos lembramos? Então vamos sempre a tempo de descobrir.
Termino, por isso, como comecei: realçando a deliciosa viagem à nostalgia contida nas páginas deste livro. Simples, curto, mas cheio das bases de boas memórias, um bom livro para recordar a infância ou para transmitir muitas dessas brincadeiras que tanto nos divertiram em tempos.

Origem: Recebido para crítica

sábado, 20 de julho de 2019

A Deusa da Vingança (Sara Blædel)

Quando, poucas horas após tê-lo deixado numa festa com os amigos, o filho adoptivo lhe liga a dizer que a festa foi invadida por um grupo de jovens violentos, Louise percebe imediatamente que algo de grave se passa, mas está longe de imaginar as ramificações da situação. Além da violência dos rapazes, que deixaram a mãe da aniversariante em muito mau estado, o caos da perseguição fez com que a pequena Signe acabasse por ser mortalmente atropelada. A polícia está a investigar o caso, mas dois dos agressores acabam por encontrar um fim prematuro no incêndio da arrecadação onde costumavam reunir-se. É então que, de vítima, Britt Fasting-Thomsen passa a principal suspeita. E caberá a Louise seguir as pistas e provar a sua inocência. Se puder.
Misturando o choque de um caso central onde dominam violência e morte com uma outra linha mais ambígua e intrincada, envolvendo negócios obscuros, manipulações fiscais e, claro, a ameaça de grupos organizados, este é um livro que cativa principalmente pela forma como consegue conjugar múltiplas facetas sem tornar o enredo demasiado confuso. Além dos dois casos principais, e dos pontos de convergência que vão sendo revelados, há também espaço para desenvolvimentos pessoais, tanto no percurso de Louise como também no de Camilla. Será, por isso, importante ter lido o volume anterior, já que, embora essencialmente independente, a história ganha outro impacto conhecendo a história pessoal das personagens.
Também nos casos em investigação há duas facetas aparentemente distintas: uma coisa é o caso do ataque à festa, com tudo o que veio depois; outra é o da morte de Nick Hartmann, com os seus negócios obscuros e ligações a grupos motards. Um rapidamente ganha contornos pessoais, o outro parece abranger uma organização mais vasta. Mas há, embora inicialmente não pareça, vários pontos em comum e a forma como estas duas histórias começam a entrelaçar-se confere à leitura um crescendo de intensidade que faz com que o início pausado evolua para algo bastante mais viciante.
Mas é nas personagens que estão os aspectos mais marcantes, principalmente para quem já leu o volume anterior. A relação de Louise com Jonas, e a situação delicada em que se encontram, serve de base a um dos momentos mais marcantes do percurso pessoal de Louise. E quanto a Camilla, além de acabar involuntariamente na pista de um intrigante mistério - promessa já, talvez, do que se seguirá - o seu percurso é todo um tratado sobre regeneração. Gradual, discreto, talvez ainda um pouco ambíguo, mas particularmente notável tendo em conta a forma como este livro termina.
Trata-se, pois, de uma história que arranca de forma um pouco lenta, para depois surpreender com o crescendo de intensidade e a sucessão de revelações que apresenta a cada novo desenvolvimento. Cativante, surpreendente e com um núcleo de personagens sempre notável, uma boa leitura... e uma autora para continuar a acompanhar.

Autora: Sara Blædel
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Worst Case Scenario (Helen Fitzgerald)

Na sua profissão, Mary Shields está habituada a lidar com uma boa medida de casos desagradáveis, gerindo o regresso à liberdade de agressores, pedófilos e violadores. Mas agora, quase a chegar à reforma, Mary está farta de tudo isso. Com apenas um mês até à reforma, só quer acabar com tudo. Mas as coisas estão prestes a ficar perigosas. O seu mais recente "cliente", que assassinou a mulher e está prestes a sair em liberdade, escreveu um livro que fez dele um herói para os chamados "defensores dos direitos dos homens". E, ao tentar gerir as consequências dessa fama, Mary vê-se arrastada para o mundo de Liam, comprometendo o seu emprego, a sua família e tudo o que alguma vez amou.
Com um equilíbrio delicado entre o humor e a tragédia, este é um livro que se torna memorável através das suas imperfeições. Deliberadas, claro. Mary pode ser muitas coisas, mas está bem longe de ser um ser humano perfeito e imaculado. E é isso que torna tudo tão empolgante: tendo em conta a sua profissão, é apenas natural que Mary se sinta saturada de todos os males que encontrou pelo caminho. Mas não é heroína nem mártir. Há algo de deliciosamente engraçado na forma como Mary interage com os seus "clientes" e que vicia desde as primeiras páginas.
Mas falei em tragédia, não foi? Bem, é outra das forças deste livro. Tudo começa com uma certa leveza, misturada com a inevitável repulsa gerada por certos comportamentos dos "clientes" de Mary, mas divertida, ainda assim. Com o evoluir da história, porém, há uma certa escuridão que começa a pairar sobre tudo, não só devido aos muitos inimigos que Mary foi fazendo ao longo da vida, mas principalmente devido às suas próprias más decisões. É maioritariamente "uma maluca das boas", mas as más decisões trazem consigo consequências terríveis. E a sensação de mau presságio que gradualmente se vai formando abre caminho a um final impressionante e inesperadamente devastador, em que algumas perguntas ficam em aberto, mas uma coisa é clara: há coisas que já não têm salvação.
Ainda um outro aspecto a ter em conta é o tema global. Liam Macdowall está no cerne de uma guerra entre feministas e defensores dos direitos dos homens e esta aparente guerra parecer ser um factor dominante ao longo de todo o livro. Ainda assim, e embora Mary seja uma mulher de convicções firmes, há uma visão que se centra, acima de tudo, nas zonas cinzentas. Não é difícil distinguir o certo do errado, mas, ao reflectir a natureza das personagens através das suas acções, este livro permite ao leitor pensar e decidir por si mesmo qual dos lados está certo. Além disso, a história de Mary é um exemplo claro de como as boas intenções podem gerar consequências terríveis. Ter razão e agir de forma correcta nem sempre são a mesma coisa.
Humor e tragédia, então, e um delicado equilíbrio entre a leveza dos elementos mais provocadores e a profunda e importante mensagem escondida nos pensamentos das personagens. Tudo numa história intensa, viciante e memorável, cheia de momentos notáveis e personagens fáceis de adorar - ou de adorar odiar.

Título: Worst Case Scenario
Autora: Helen Fitzgerald
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Marcador

Irlanda, 1846. Kathleen e Michael amam-se e planeiam em segredo abandonar a terra natal, a humilde e faminta Irlanda, em busca de uma vida melhor no Novo Mundo. Mas todos os seus sonhos são truncados quando Michael é condenado como rebelde e desterrado para a Austrália.
Kathleen, grávida, será forçada a casar com um negociante de gado e emigrar com ele para a Nova Zelândia. Enquanto isso, Michael, com a ajuda da audaciosa Lizzie, tentará escapar da colónia penal para se reunir ao seu primeiro amor.

Sarah Lark seduziu sete milhões de leitores em todo o mundo com as suas grandes sagas familiares em lugares exóticos.
Amplamente imitada, Lark conseguiu criar e consolidar um novo género narrativo, o landscape, em que as suas heroínas vivem destinos marcados pela aventura, as viagens, o romance e a história.

Sarah Lark é um pseudónimo de Christiane Gohl. Nascida na Alemanha, vive actualmente em Almería, Espanha. Formou-se em Educação e trabalhou como guia turística, redactora publicitária e jornalista. A inclinação para a escrita marcou todos os empregos por onde passou.
Com uma produção literária vastíssima, alcançou o sucesso de vendas e o reconhecimento literário graças à saga maori. A sua Trilogia da Nuvem Branca (No País da Nuvem Branca, A Canção dos Maoris e O Grito da Terra) atingiu a categoria de bestseller internacional, com um impressionante acolhimento por parte de milhões de leitores, num fenómeno de «passa a palavra» sem precedentes. Seguiu-se a Saga das Caraíbas, com A Ilha das Mil Fontes e As Ondas do Destino, que nos transportam para a beleza destas ilhas afrodisíacas.
Este livro, Rumo aos Mares da Liberdade, é o primeiro da Trilogia Mar da Liberdade
Com mais de sete milhões de leitores em todo o mundo, para Sarah Lark «escrever romances não é muito mais do que sonhar acordada».

Para mais informações, consulte o site da Marcador Editora aqui.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Kick-Ass (Mark Millar e John Romita Jr.)

Dave Lizewski sempre se perguntou porque é que, apesar de tantas histórias de super-herói, nunca houvera ninguém a tornar-se num super-herói do mundo real. Decidiu, por isso, deixar de se questionar e dar ele mesmo esse passo. Mas não basta um fato invulgar e uma certa disposição para patrulhas nocturnas para ser um super-herói, até porque, na vida real, os espancamentos magoam. Dividido entre a ambição e a falta de jeito, entre as aspirações à fama e as dores das sovas, Dave vê-se, por isso, tentado a desistir. Mas é então que a Hit-Girl entra na sua vida - e Dave, mais conhecido como Kick-Ass, vê-se arrastado para uma situação maior do que as suas (não muitas) forças.
Super-heróis: fato catita, patrulhas nocturnas, fazer o bem e salvar os que estão em perigo, alcançando fama e admiração pelo caminho. Parece apelativo, não é? Pois é isso que pensa o protagonista desta história. Mas a realidade nunca é assim tão simples e é precisamente este facto doloroso que torna esta história tão cativante. É um super-herói no mundo real, e um super-herói que nem é assim tão talentoso. O que significa que, mais do que glamour, fama e grandes cenas de acção, temos dúvidas, hesitações, grandes cenas de acção, mas que não acabam assim tão bem para o protagonista e uma visão bastante menos cor-de-rosa das realidades da vida. Não é um livro cheio de combates intrépidos e teatrais (embora eles apareçam quando de facto importa), mas sim a história de um rapaz que descobre que há uma linha a separar o sonho da realidade. E que atravessá-la tem um preço.
Verdades duras à parte, não deixa, ainda assim, de ser uma história de super-heróis, com tudo o que isso acarreta. As cenas de acção podem não correr espectacularmente bem para Dave, mas estão lá e são fascinantes. Não faltam lutas, sangue, momentos de perigo e cenas de porrada em geral. E há ainda espaço em abundância para um sentido de humor ligeiramente negro, mas sempre delicioso, e para uns quantos rasgos de emoção particularmente fortes (principalmente na fase final). Parece haver como que um equilíbrio entre os aspectos comuns - a cor, os fatos bizarros, a abundância de sangue e de movimento - e os que se afastam das histórias de super-heróis (as cenas de Dave na escola, a escuridão do quarto, o rescaldo das múltiplas sovas - e principalmente da primeira).
E eis que, quase sem querer, surge uma reflexão, já que é voltando uma vez mais às verdades duras que surge ainda um último, mas especialmente marcante, equilíbrio: para ser um super-herói, Dave torna-se vulnerável à dor, mas também a sua sensação de não pertencer é já uma vulnerabilidade. O mesmo parece acontecer na história da Hit-Girl, cujo pai, na esperança de lhe dar algo de especial, acaba por abrir caminho a grandes feitos e a grande sofrimento. E da pergunta de Dave sobre o porquê de não haver mais super-heróis na vida real surge uma outra pergunta: será que vestir um fato e andar à porrada é o que realmente faz um herói? Ou será a vida em si - com tudo o que tem de diversão e de sofrimento, tal como a história contida neste livro - o derradeiro acto de heroísmo?
Fica, pois, esta impressão deliciosamente contraditória: a de uma história de super-heróis feita de vulnerabilidades. Intensa, viciante, emotiva, dramática, cheia de acção, de cor e de movimento... mas, acima de tudo, de humanidade. No fim, é isso que realmente marca: a fascinante surpresa de ver algo de tão profundo nascer de uma história aparentemente simples. Afinal, as aparências iludem, não é? Que o digam estes heróis mascarados...

Título: Kick-Ass
Autores: Mark Millar e John Romita Jr.
Origem: Recebido para crítica