domingo, 15 de setembro de 2019

O Caçador (Lars Kepler)

As autoridades suecas têm um problema delicado em mãos: o ministro dos negócios estrangeiros foi encontrado em casa, brutalmente assassinado e com uma prostituta como única testemunha do crime. Inicialmente, tudo parece apontar para um ataque terrorista, o que deixa as autoridades em alerta máximo, mas há qualquer coisa que não bate certo. E, com as explicações a escassear e uma sensação de perigo iminente, a polícia vê-se obrigada a pedir ajuda a Joona Linna, que se encontra a cumprir pena numa prisão de alta segurança. Estão dispostos a prometer muito - e a cumprir apenas parte. Mas, quando as coisas começam a complicar-se, cedo percebem que Joona é a melhor opção que têm.
Parte do que torna este livro tão cativante é o facto de ser uma constante sucessão de surpresas. Começa com um momento de brutalidade, abrindo depois espaço a possibilidades mais amplas às quais se sucede uma sequência de pistas, erros e novas pistas. O resultado é uma ânsia quase irresistível de descobrir o que acontece a seguir, que segredos se escondem atrás desta envolvência de acção constante e quem é, afinal, o responsável por tudo o que está a acontecer.
Para este ritmo viciante contribui também o facto de a história se dividir entre a perspectiva de várias personagens. Além de realçar as características que as individualizam - principalmente nos casos de Saga e Joona, mas também no que diz respeito às potenciais vítimas e culpados -, constrói uma visão mais vasta da teia de interesses e movimentações. A questão do terrorismo lança uma nova luz sobre certos sectores da autoridade. E o mistério dos "coelhos" abre espaço a uma também intrincada teia de acções passadas - e consequências presentes.
Tudo parece convergir num equilíbrio eficaz, em que há novos desenvolvimentos para as personagens já conhecidas e um percurso intenso e surpreendente para os protagonistas deste caso específico. Fica, por isso, a sensação de que é perfeitamente possível ler este livro sem ter lido nenhum dos anteriores - mas que a história terá um impacto ainda maior para quem tiver acompanhado a série desde o início. E o mesmo se aplicará provavelmente ao seguinte, já que o caso central deste livro encontra uma conclusão satisfatória, mas as possibilidades para Joona Linna continuam a ser vastíssimas.
Com um enredo viciante, personagens fortes e uma constante sucessão de reviravoltas, eis um livro que prende desde as primeiras páginas e não deixa de surpreender até ao fim. Intenso, surpreendente e viciante, um livro capaz de cativar de novos leitores, mas que também não desiludirá os fãs de Joona Linna. Muito bom.

Título: O Caçador
Autor: Lars Kepler
Origem: Aquisição pessoal

sábado, 14 de setembro de 2019

A Aranha Ana (Joana Gonzalez, Lisa Maciel Toth e Raquel Santos)

A Ana é uma aranha muito atarefada, que está sempre a trabalhar. Por isso, quando deixa cair o seu pano das limpezas, fica ainda mais stressada, a pensar em como o há-de ir buscar. Felizmente, tem muitos amigos na floresta encantada, e estes vão ensiná-la a descontrair, a adoptar posições que a acalmam e sabem bem e a olhar para o mundo de forma mais tranquila. Afinal, a vida não é só trabalho, não é verdade?
À semelhança do que aconteceu com o anterior O Sapinho Green, uma das primeiras coisas a cativar nesta história - e na colecção em geral - é a premissa que lhe serve de base. O objectivo é dar a conhecer o yoga, não só em termos de posições, mas principalmente em termos de conceitos e ideias, aos mais pequenos, e é bastante cativante a forma como, construindo uma história envolvente e em que nada parece forçado, esses conceitos parecem ganhar vida.
Claro que sendo uma história tão curta, a exposição destes conceitos é inevitavelmente concisa. Mas se, para um leitor adulto, fica uma certa curiosidade em ver estes temas mais aprofundados, importa lembrar que não são os adultos o público-alvo destas pequenas histórias. E que, para os mais novos, é provavelmente mais fácil assimilar as ideias desta forma: com uma descrição simples e feita através do exemplo das personagens.
Importa ainda salientar o impacto das ilustrações, não só porque, sendo uma história que explica os conceitos pelo exemplo, é importante visualizar as posições através das suas engraçadas personagens, mas principalmente pelo mundo de cor que acrescentam à leitura. A história ganha outra vida através dos tons vivos da floresta e da surpreendente expressividade das personagens. E, sendo a protagonista uma aranha, não deixa de surpreender também a inesperada dose de fofura que esta apresenta.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura simples e breve, mas muito cativante e colorida. Uma boa história para transmitir aos mais novos os conceitos do yoga e - porque não? - para os descobrir também.

Título: A Aranha Ana
Autora: Joana Gonzalez, Lisa Maciel Toth e Raquel Santos
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Pequenos Truques, Grandes Ideias

Truques de beleza, de cuidado, remédios caseiros para pequenos desconfortos e até formas de tornar uma refeição mais apetecível: de tudo isto é feito este pequeno livro que, relembrando velhas e valiosas dicas, transporta para actualidade os truques e dicas de antigamente. Simples? Pois claro, e é simplicidade que se pretende: a mesma simplicidade que torna este breve livro tão útil.
Dificilmente um título podia ser mais claro do que o deste livro, pois descreve na perfeição o conteúdo: um conjunto de pequenos truques para lidar com certas dificuldades da rotina quotidiana. E, sendo muitos destes truques parte da sabedoria popular, é inevitável ficar com este sentimento ambíguo: talvez fosse interessante associar uma história a estas dicas. Não é, porém, esse o objectivo. O objectivo é reunir conselhos úteis. E isso é algo que não falta neste pequeno livro.
Importa também salientar a organização do livro. Dividido em três secções, cujo conteúdo surge, por sua vez, disposto por ordem alfabética, é um livro de fácil consulta caso se procure uma solução específica. Além disso, e uma vez que são dicas muito sucintas (afinal, é isso mesmo que se pretende) esta organização por temas permite uma mais fácil assimilação destas tão simples e curiosas ideias, pois as que se aplicam a uma mesma área são bastante fáceis de situar.
Mais do que um livro para ler de uma assentada (embora fazê-lo deixe uma interessante imagem da vastidão de truques e mezinhas que perduraram ao longo dos tempos), trata-se, pois, de um livro útil para consultar ante problemas específicos. É essa, aliás, a sua maior qualidade: o conjunto de soluções simples e úteis que apresenta para as dificuldades do dia-a-dia.

Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Ella Fitzgerald (Maria Isabel Sánchez Vegara e Bárbara Alca)

Foi na sequência de uma infância difícil que a atirou para as ruas de Nova Iorque que ela descobriu o seu talento e a sua vocação: o mesmo talento que faria dela uma lenda. Esta é a história de uma menina pequena com um grande sonho, uma enorme persistência e uma imensa voz. De uma lenda, em suma, cujas origens importa conhecer.
Parte do que torna os livros desta colecção tão interessantes é a forma como conseguem realçar o percurso essencial de toda uma vida em tão poucas páginas. Trata-se de um livro infantil, necessariamente breve, mas a verdade é que nada lhe falta para dar a conhecer a história da sua protagonista. E, entre a rima e o ritmo das palavras, a beleza das ilustrações e a força da história propriamente dita, consegue ensinar e inspirar leitores de todas as idades.
Também muito interessante é a forma como as ilustrações parecem ajustar-se na perfeição à história da sua figura central, com a relativa simplicidade que se espera de um livro infantil, mas transmitindo com precisão os ambientes e os pequenos elementos que definem o percurso. Além disso, há um delicado equilíbrio entre novidade e familiaridade: a arte parece pensada para reflectir a vida e o mundo da protagonista, mas há também uma semelhança palpável que faz com que seja fácil reconhecer o facto de este livro pertencer a uma colecção com muitos aspectos em comum.
E, claro, sendo uma história tão breve, tem ainda um interessante efeito secundário, principalmente sobre os leitores mais adultos: a vontade que deixa de aprofundar mais a história da vida de Ella Fitzgerald. Sendo um relato tão simples, mas tão inspirador, deixa uma grande curiosidade em conhecer melhor o seu percurso, em descobrir mais da sua história vida. E esta sede de conhecimento que inspira não pode senão ser uma qualidade.
Bonito, cativante e - à semelhança dos outros volumes desta colecção - completo, apesar da brevidade, trata-se, pois, de um belo livro para dar a conhecer aos mais pequenos uma das grandes lendas musicais. E a sempre repetida - e sempre relevante - mensagem de que um grande sonho pode dar origem a grandes feitos.

Título: Ella Fitzgerald
Autores: Maria Isabel Sánchez Vegara e Bárbara Alca
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Percy Jackson: A Batalha do Labirinto (Rick Riordan)

Prestes a iniciar um novo ano lectivo - numa escola nova, como habitual -, Percy já não está à espera de que as coisas sejam particularmente pacíficas, mas está longe de imaginar o que o espera. Novamente perseguido por monstros, vê-se obrigado a deixar uma vez mais um cenário de caos atrás de si. E esse episódio é apenas o início. Cronos está cada vez mais forte e prepara um ataque contra os heróis. Para o impedir, Percy e os amigos terão de encontrar o labirinto de Dédalo e impedir a passagem do exército de Cronos... antes que seja demasiado tarde.
Nunca deixa de impressionar a forma como, misturando mitologia e actualidade e grandes momentos de acção e emoção, o autor consegue construir uma história que, embora direccionada para os mais mais jovens, consegue cativar leitores de todas as idades. Talvez se deva à fluidez de uma escrita leve ou à precisão dos momentos mais emocionantes no seio de um enredo que é todo ele acção. O que é certo é que, uma vez iniciada a leitura, é difícil parar antes do fim, tal é a vontade de saber o que acontece a seguir a estes interessantes protagonistas.
Percy e companhia são adolescentes. Importa lembrar isto devido à forma como certos desenvolvimentos se processam, nomeadamente no que diz respeito à descoberta dos afectos. Mas também aqui é o equilíbrio a sobressair, já que todos os momentos ocupam o espaço certo: sejam eles os rasgos de humor, os momentos de ciúme ou de insegurança ou a simples necessidade de pertencer. Isto é particularmente notável tendo em conta o contexto em que se insere: num cenário de corrida contra o tempo e, principalmente, de um conflito envolvendo deuses e monstros, é interessante que não é só a intriga a ficar na memória, mas também aquilo que torna as personagens humanas.
E, claro, sendo o penúltimo volume desta primeira série, escusado será dizer que fica muita coisa em aberto. Mas, além de fazer todo o sentido que assim seja, pois gera uma curiosidade irresistível em saber o que sucederá no último volume, sobressai também o facto de esta parte da história parecer terminar no ponto certo. De certa forma, encerrou-se uma fase da aventura e o que se segue será um novo patamar. E, assim, as linhas essenciais deste volume ficaram resolvidas, abrindo caminho a novas revelações.
Cheio de magia e de aventura, prende desde as primeiras páginas e vai crescendo de intensidade à medida que salta de surpresa em surpresa, de revelação em revelação. Leve, empolgante e muito viciante, trata-se, pois, de uma envolvente aventura para leitores de todas as idades. Muito bom.

Autor: Rick Riordan
Origem: Aquisição pessoal

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Fundação (Isaac Asimov)

O Império Galáctico perdura há milénios, mas alguém ousou finalmente prever-lhe o fim. E fê-lo recorrendo a avançados métodos científicos, além de apresentar um plano para reduzir ao mínimo o período de barbárie. Hari Seldon tem uma visão: construir uma Fundação dedicada a coligir todo o conhecimento do Império e a lidar com as sucessivas crises que virão, preparando o caminho para um Segundo Império Galáctico. Mas há quem veja as suas profecias como traição e o seu ambicioso plano pode muito bem ver-se reduzido a uma escolha entre morte e exílio.
Um dos aspectos mais surpreendentes deste livro é que, embora seja composto por cinco histórias maioritariamente independentes, abrangendo diferentes protagonistas, períodos e crises, há entre elas uma ligação tão sólida que é difícil não o ler como um romance. Mais do que qualquer personagem, a verdadeira protagonista parece ser a Fundação e, nesse sentido, é apenas natural que cada história, surgindo embora como um todo completo, pareça mais um capítulo de uma história maior. E, sendo certo que este registo faz com que fique uma sensação de curiosidade insatisfeita relativamente ao percurso individual das personagens - afinal, cada uma das crises justificaria um romance completo -, também o é que o essencial está bem presente e que esta fusão de histórias cria uma visão mais vasta do futuro enquanto entidade (relativamente) previsível.
Também surpreendente é a forma como os grandes acontecimentos são abordados: há julgamentos, conspirações, guerras inteiras a serem travadas. No entanto, muitos destes grandes momentos parecem decorrer em segundo plano. E se o primeiro aspecto a surpreender é precisamente a ausência destes grandes picos de acção, surpreende também a forma como esta ausência parece encaixar estranhamente no registo da narrativa. Não é preciso ver as coisas em primeira mão para saber que aconteceram: estão lá as personagens para as relatar. Além do mais, esta forma de contar as coisas tem ainda o condão de realçar a perspectiva global, mostrando planos e movimentos como meras jogadas numa espécie de xadrez cósmico.
Claro que, sendo este livro apenas o início, não é propriamente uma surpresa que fiquem muitas perguntas sem resposta. O mais interessante, porém, e que, tal como cada uma das histórias parece encerrar uma fase do todo mais amplo, também este livro parece terminar no ponto mais adequado, onde mais um ciclo se encerra, abrindo passagem a novas mudanças... e a novos protagonistas.
O que fica é, pois, esta intrigante impressão de uma aventura intergaláctica, que, mais que de combates e intrigas, se faz dos ciclos e movimentos do tempo - e das armas dadas aos homens para combater a mudança. Cativante, intrigante e surpreendente, uma boa leitura.

Título: Fundação
Autor: Isaac Asimov
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Rumo aos Mares da Liberdade (Sarah Lark)

Irlanda. Apesar da fome e de todas as dificuldades, Kathleen e Michael amam-se e anseiam por casar. Mas as dificuldades financeiras forçam-nos a adiar constantemente o sonho de partir para a América e, quando Kathleen descobre que está grávida, Michael comete um erro na ânsia de conseguir dinheiro fácil. Condenado por roubo, é deportado para o outro lado do mundo, deixando Kathleen sem outra alternativa a não ser aceitar um casamento forçado. Com o seu novo marido, parte também, com destino à Nova Zelândia, onde espera poder criar o filho de Michael com dignidade. Mas Ian, o seu marido, é tudo menos um homem bondoso e as dificuldades não tardarão a surgir. Mais perto do que imaginam, mas separados pelas vicissitudes da vida, Kathleen e Michael terão de encontrar uma forma de se libertarem das suas circunstâncias. Mas o que os uniu pode estar já irremediavelmente perdido.
Parte do que torna os livros desta autora tão encantadores é a forma como consegue conjugar uma história repleta de emoção e de perigos com uma vastidão de paisagens fascinantes. Há sempre uma partida para um mundo novo na base da construção de uma nova vida, e esta mistura de sonho e sofrimento faz com que seja impossível não sentir quase de imediato uma grande proximidade com os protagonistas. É também esse o caso neste Rumo aos Mares da Liberdade, onde a ingenuidade e vulnerabilidade de Kathleen contrastam com a impetuosidade de Michael, servindo de ponto de partida a uma história repleta de momentos intensos e situações memoráveis.
É uma história extensa, não só em número de páginas, mas principalmente no que diz respeito ao período de tempo em que a narrativa decorre. São dezassete anos entre o momento da separação e a conclusão da história, o que significa que há muito a acontecer, tanto em termos de situação global como de crescimento pessoal. Para Kathleen, há as vicissitudes da separação, as provações do casamento e tudo o que virá depois no seu caminho de libertação. Para Michael, a deportação, os trabalhos forçados e depois todo o caminho de fuga e sobrevivência na companhia da impressionante Lizzie. E quanto a esta, há a coragem infindável e a dedicação a um sonho que parece sempre impossível de alcançar. E se isto parece já uma grande história... bem, todos estes pontos se ramificam em novas e intensas surpresas, em grandes momentos de emoção e também num choque cultural que se vai gradualmente harmonizando.
Há, em tudo isto, um fascinante enlevo. À proximidade quase imediata, segue-se a incessante vontade de descobrir o que virá depois. E, a cada novo desenvolvimento, surgem novas emoções, novas revelações e uma consciência cada vez mais clara das forças que movem estas personagens. Mas há ainda um outro aspecto: sendo o ponto de partida o amor entre Kathleen e Michael, há também uma expectativa constante de qual será a derradeira resolução. Mas desengane-se quem pensa que toda esta longa jornada se encaminha para um desfecho previsível. O final é como tudo o resto: intenso, emotivo e surpreendente.
Memorável em todas as suas facetas, trata-se, pois, de uma longa e fascinante jornada, que flui tanto ao ritmo das surpresas e dos perigos como das grandes emoções que movem os protagonistas. Emotivo, harmonioso e sempre fascinante, um livro que não desiludirá os fãs da autora... e uma viagem em que vale muito a pena embarcar.

Autora: Sarah Lark
Origem: Recebido para crítica

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