domingo, 23 de abril de 2017

A Maldição do Vencedor (Marie Rutkoski)

Enquanto filha do general, Kestrel sabe que só tem duas opções: alistar-se no exército, e manter a sua independência sob as ordens do pai, ou casar-se e renunciar-lhe por completo. Mas o destino tem outros planos para ela. Tudo começa quando, quase sem saber porquê, decide comprar um escravo por um preço exorbitante. De nome Arin, parece não se submeter de boa vontade ao seu destino, e contudo cumpre imaculadamente as ordens que lhe são dadas. E se a compra em si basta para fazer de Kestrel tema dos mexericos da sociedade, as coisas tornam-se ainda mais complexas à medida que ela começa a fazer-se acompanhar do seu novo escravo. Kestrel, porém, não consegue evitar o fascínio que sente por Arin - e por um passado que ele parece querer esconder o mais longe possível. Mas Arin tem um segredo. E, quando este se revelar, as consequências serão devastadoras... e o mundo de Kestrel poderá nunca mais ser o mesmo.
De todas as qualidades que este livro tem - e, permitam-me dizê-lo, é um livro cheio de qualidades - a que primeiro chama a atenção e também a que mais fica na memória é a capacidade de despertar emoções fortes. Bastam as circunstâncias em que tudo o começa para despertar uma certa empatia para com as personagens - e para sentir que o que se seguirá nunca, mas nunca será fácil. E, a partir deste ponto, a forma como a autora entretece segredos e revelações, aproximações e rupturas, perigos, conflitos e sacrifícios dá forma a um turbilhão de emoções em que, tanto nos grandes momentos como nas pequenas coisas, há toda uma base de sentimento que é muito difícil não admirar. 
Para isto, contribuem também as personagens. Claro que as mais marcantes são os protagonistas, Kestrel e Arin. Kestrel, reflexo da sua educação de filha de conquistador, e porém capaz de questionar, de ponderar, dividida entre lealdades e convicções do que está certo. E Arin, o mistério em forma humana, filho de um povo escravizado, mistura da matéria de que se fazem os heróis e os mártires e também ele dividido entre o que sente e a lealdade que deve ao povo a que pertence. São ambos intrigantes, ambos complexos. E, juntos, formam uma teia de momentos intensos, de verdades difíceis e de um potencial tão vasto que facilmente se quer conhecê-los, desvendá-los... admirá-los.
Mas há ainda um outro ponto a reforçar este equilíbrio delicado. Sim, a história centra-se em grande parte no que sucede com Arin e Kestrel. Mas, em torno deles, há um sistema com um imenso potencial, cheio de segredos e possibilidades. Sistema em que é fácil reconhecer as influências históricas, mas também uma identidade própria que desde muito cedo se afirma, conjugando assim da melhor maneira o novo e o familiar, numa narrativa em que contexto, personagens e enredo parecem conjugar-se num todo quase perfeito.
Trata-se do início de uma trilogia e, assim sendo, são inevitáveis as perguntas sem resposta, guardadas as explicações para o que virá a seguir. Mas é interessante a forma como a autora encerra este primeiro volume, deixando novos caminhos e novas possibilidades para o futuro das personagens (e uma grande declaração, que é também uma grande pergunta sobre o futuro, como conclusão do livro), mas como que encerrando uma fase da vida das personagens. O que vem a seguir será diferente: parece ser essa a promessa deste final. E também isso contribui em muito para despertar curiosidade acerca do que virá.
Com um leque de personagens fortes, um cenário complexo e um enredo à altura das figuras que o habitam, a impressão que fica deste A Maldição do Vencedor é a de um livro intenso, muito emotivo e cheio de surpresas. Enquanto início de série, dificilmente poderia ser mais promissor. E o resto... o resto define-se numa palavra: apaixonante. 

Título: A Maldição do Vencedor
Autora: Marie Rutkoski
Origem: Aquisição pessoal

sábado, 22 de abril de 2017

Hamsters de Biblioteca (Gonçalo Condeixa e Fernando Évora)

Avulsa é uma cidade invulgar. Em vez de dominada por um castelo ou por uma igreja, tem como edifício central uma biblioteca. Biblioteca essa que é também o cerne de toda a vida no local, severamente conduzida pela figura da Velha Bibliotecária, tão rígida e impressionante que até aos pássaros é capaz de impor silêncio. Mas Avulsa é também uma cidade de contrastes e estranhezas, tanto entre os diversos locais que nela existem como entre os próprios habitantes. Boémios, marinheiros que aspiram a ser heróis, filósofos com aspirações estranhas, uma condessa e uma cunicultora... Cada uma destas personagens tem a sua história e, através dela, uma mensagem a transmitir sobre os bons costumes da sociedade de Avulsa. Mas eis que um dia... a bibliotecária parte! Quem tomará o seu lugar? E ficará tudo na mesma... ou trará a nova bibliotecária novos hábitos para modernizar Avulsa?
Peculiar em todos os aspectos e por isso mesmo fascinante, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo aspecto visual. Profusamente ilustrado, apresenta para cada pequena história (ou, melhor dizendo, para cada fragmento da grande História de Avulsa) uma ilustração que não só corresponde ao que é narrado no texto, como lhe confere uma perspectiva mais vasta. E, assim, cria-se entre as duas partes um equilíbrio que cativa desde o primeiro olhar e que só sai reforçado após a leitura das histórias.
Também interessante é a tal dualidade das histórias individuais que moldam um todo maior. Cada um dos pequenos textos é, em si, uma unidade completa. Mas é da conjugação de todos e dos múltiplos passos que conformam que se traça o retrato global da história moderna de Avulsa. E essa história torna-se ainda mais fascinante por se construída a partir de uma sucessão de pequenas. No fim, fica-se com uma imagem de evolução - mas de uma evolução que tem o seu preço sobre a vida dos habitantes de Avulsa. Como na realidade, não é? Tudo tem o seu preço. E essa mensagem, tão clara, tão evidente, torna este tão estranho cenário de Avulsa muito mais realista do que à primeira vista poderia parecer.
E depois há a estranheza, a peculiaridade de tudo isto. Aquele tipo de estranheza que se reconhece à primeira vista, mas que porém se desenvolve com tal naturalidade que tudo parece lógico e simples e claro. Não há neste pequeno livro uma única figura que corresponda estritamente aos padrões da normalidade. Mas é precisamente isso que as torna tão intrigantes. E, quando a história se traça através de tão ilustres personagens, um leve toque de bizarria só torna tudo mais interessante. 
Breve, mas com uma complexidade muito sua. Directo, mas cheio de pequenas surpresas escondidas nos detalhes. Cativante, surpreendente e visualmente muito bonito. Tudo isto se aplica na perfeição a este Hamsters de Biblioteca. História de um estranho lugar e das suas estranhas gentes - num mundo que poderia estar bem distante, mas cuja verdade está aqui tão perto. Recomendo.

Título: Hamsters de Biblioteca
Autores: Gonçalo Condeixa e Fernando Évora
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Divulgação: Novidade Quinta Essência

As suas vidas eram perfeitas... até se conhecerem um ao outro. Lady Hero Batten, a bela irmã do duque de  Wakefield, pode gabar-se de ter tudo. Até está noiva do cobiçado marquês de Mandeville. Ele pode ser um nadinha enfadonho, e não ter qualquer sentido de humor, mas isso não é nada que a incomode... até ao dia em que conhece o irmão dele... Griffin Remmington, Lorde Reading, está longe de ser perfeito. Leva um estilo de vida debochado e entrega-se a actividades pouco recomendáveis, mas é divertido, e o seu sentido de humor não tem par. No momento em que o conhece – numa posição deveras comprometedora, por sinal  -  Hero percebe que um homem detestável como ele não pode ter lugar na sua vida. Mas a constante batalha de vontades entre os dois não tarda a atear as chamas do desejo....
À medida que se aproxima o dia do casamento de Hero, é preciso colocar tudo na balança. Existirá de facto algum futuro para o casal mais inesperado do mundo?

Elizabeth Hoyt nasceu em Nova Orleães, EUA, onde a família da mãe vive há várias gerações, mas foi criada nos invernos gélidos de St. Paul, no Minnesota. Tem uma licenciatura em Antropologia. Conheceu o marido, arqueólogo, numa escavação num campo de milho, e desde então ambos tentam passar férias que acabem invariavelmente em sítios arqueológicos. A família Hoyt vive no centro do Illinois, com os seus dois filhos, três cães e um jardim que Elizabeth cuida com entusiasmo.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Rapariga em Guerra (Sara Nović)

Ana tem dez anos e uma vida normal para o seu tempo. Até ao dia em que a guerra chega a Zagreb. A partir daí, as limitações começam a tornar-se maiores, o medo uma constante, a dúvida sobre o que poderá acontecer cada vez mais terrível. E, com uma irmã doente, Ana sabe que a família tem de correr riscos - riscos que podem implicar consequências fatais. Sobreviverá, porém. E, dez anos depois, em Nova Iorque, um reencontro com o medo fá-la questionar todo o passado que tão cuidadosamente escondeu. Sabe, então, que tem de regressar a casa, se é que tem uma casa a que voltar. E, em Zagreb, esperam-na todas as memórias e as verdades mais difíceis de aceitar. É que sobreviver é uma coisa. Viver com isso é outra completamente diferente.
Narrado do ponto de vista da protagonista e oscilando entre diferentes pontos no tempo, este é um livro que cria impressões divergentes. Por um lado, a Ana de dez anos traça o retrato da guerra vista por olhos inocentes - até que a inocência deixa de existir. Por outro, a Ana adulta sabe o que viveu, mas questiona a fiabilidade da memória e as escolhas que deixou para trás. E, assim, o mundo ganha perspectivas diferentes - o mundo em que Ana se move, as mudanças globais que a guerra (e o pós-guerra) despertam, a superação (ou não) dos traumas vividos. A ideia que fica é, pois, a de um enredo multifacetado: história de crescimento, memória de guerra, análise pessoal sobre o trauma e a culpa de sobrevivente.
E todas estas facetas se conjugam num equilíbrio delicado, que a autora vai tecendo ao que parece ser o ritmo das memórias da protagonista. O passado e o presente de Ana, diferentes como parecem ser, estão, apesar de tudo, muito próximos, pois não há como fugir das sombras. E a forma como a autora constrói e reforça esta impressão constante - a de uma personagem em busca de respostas e, ao mesmo tempo, em fuga de si mesma - cria uma estranha proximidade, mesmo quando as escolhas e os pensamentos são difíceis de assimilar.
Há também vários aspectos impressionantes na forma como a autora relata a guerra. Grandes momentos, como a situação da barricada, a Casa Segura, a fuga, e também coisas que se transformam em rotina, como a partilha da bicicleta do gerador. Memórias que se insinuam aos poucos ou que surgem quando menos se espera, com toda a dura crueldade que reflectem, e que impressionam pela sua própria natureza e também pelo duro contraste com a estranha normalidade relativa de tudo o resto.
No fim, fica uma grande questão: e os outros? O que lhes aconteceu? É que toda a história de Ana converge para um ponto de viragem, de maior compreensão, e esse ponto acaba por abrir novas perguntas. Perguntas que nem sempre são respondidas e, ainda que isso faça todo o sentido - pois toda a guerra deixa os seus desaparecidos - fica sempre aquela vaga vontade de saber mais. De ver o futuro das personagens que ficaram para trás, e também o da própria Ana para lá daquele ponto de entendimento.
Não é uma leitura fácil, mas impressiona. E, no seu estranho equilíbrio entre o cruel e o rotineiro, com linhas nem sempre claras, mas marcas que se propagam muito para lá do momento, é um livro cuja relevância parece ser inesgotável. Marcante, complexo, impressionante, talvez não deixe todas as respostas. Mas, neste caso, são mesmo as perguntas o que mais importa. 

Título: Rapariga em Guerra
Autora: Sara Nović
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 18 de abril de 2017

A Menina do Fato Amarelo (Ramona Tudosa)

A menina M. tem uma grande imaginação, muitas memórias e alguns medos. Da vida que conhece, guarda o destroçar da família, as carências, mas também os momentos de magia e as pequenas alegrias. E o tempo que lhe tirou o fato amarelo e a transformou simplesmente em M. Esta é a sua história - ou as suas histórias, contadas em pequenos fragmentos de pequenas memórias. O resto... fica à imaginação. Ou ao muito que se insinua nas emoções.
Basta um olhar a este muito pequeno livro para perceber qual será a sua provável falha: a brevidade. E é-o de facto, não porque o que é contado peca por essa mesma brevidade, mas porque, lidas as suas trinta e poucas páginas, fica a sensação de que muito mais haveria a dizer sobre esta história. Sensação essa que só sai reforçada pelo grande impacto do muito que é dito em tão poucas palavras.
Será, pois, a brevidade o ponto fraco. Mas vamos às forças. E a força maior é a capacidade de emocionar quando tudo o que é dito é tão simples e narrado de forma tão breve. Cada capítulo ou pequeno conto parece ser pouco mais do que um fragmento da memória da protagonista, ficando a impressão de todo um mundo de memórias deixadas por contar. E porém, cada um desses momentos deixa uma marca, pela inocência ou pela desolação, pela tristeza sentida ou pela esperança que o tempo não apagou por completo. E, da mesma forma como cada texto é um fragmento, o que fica são também fragmentos de emoção. Simples, curtos... mas tocantes.
E é curioso como, com tão pouco dito e tanto deixado por dizer, acaba por ficar uma impressão bastante sólida de quem é a menina M. - das suas memórias, da forma como o tempo a moldou, da sua vida depois de ter sido a tal menina do fato amarelo. Ficam perguntas - ficam tantas perguntas! Mas também fica, apesar de tudo, a sensação de que o essencial está lá. E às vezes é no mais simples que estão as coisas mais importantes.
Podia ser uma história muito maior, é certo, e o potencial era vastíssimo. Mas a alma da história, a protagonista, deixa uma imagem mais que clara do seu crescimento. E isso basta para fazer deste muito pequeno livro uma boa leitura.

Título: A Menina do Fato Amarelo
Autora: Ramona Tudosa
Origem: Ganho num passatempo

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O Coração de Simon Contra o Mundo (Becky Albertalli)

Simon tem um segredo, inofensivo e natural, mas muito importante para ele. E, sem saber como contar a verdade aos que lhe são mais próximos, encontrou refúgio e amizade na troca de emails com alguém da sua escola. Não sabe quem é o seu correspondente, mas é nas palavras que trocam que encontra a força de que precisa - e guardar esse segredo vale a pena, tendo em conta tudo o que retira da sua amizade virtual. Mas tudo muda no dia em que deixa o email aberto no computador da escola - e alguém descobre o seu segredo. Primeiro, vem a chantagem, depois a revelação. E, obrigado a assumir-se perante todos os que o rodeiam, Simon começa a querer desvendar também o outro segredo - quem é o misterioso Blue. Principalmente, porque o que começou por ser confiança e amizade parece estar a tornar-se algo mais forte...
Relativamente breve e bastante simples tanto na escrita como na história, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela mensagem positiva. A forma como Simon lida com o facto de ser gay, as dificuldades e as inesperadas reacções positivas que lhe chegam com a revelação da verdade, a forma como este seu grande segredo (ou, pelo menos, a forma reservada com que lida com ele, de início) se entrelaça numa vida muito mais ampla, realçando o facto de haver muito mais na vida e história de Simon além do facto de ser gay... tudo isto se conjuga numa história tão cativante quanto pertinente, em que todos os factores da vida se entrelaçam numa visão muito completa e realista. E este é um dos grandes pontos fortes deste livro - a descoberta dos emails pode ser o ponto de partida para uma grande viragem, mas há muito mais no seu percurso para lá desse segredo.
Também muito interessante é a forma como a autora consegue, apesar de centrar a história na figura de Simon, desenvolver um conjunto mais amplo de personalidades, todas elas com traços mais ou menos marcantes e com um percurso de aprendizagem a percorrer. Há romances a desabrochar, amizades questionadas e reforçadas, pequenas grandes discussões, mudanças de percepção a nível familiar. Ou seja, há sempre algo de interessante a acontecer, seja na relação de Simon com Blue, seja no seu grupo de amigos, seja em casa. E tudo isto é contado de uma forma simples, leve, divertida... mas precisamente com o toque de emoção que a história exige.
Sendo esta também uma história de crescimento, faz todo o sentido que fiquem perguntas em aberto. Aliás, o ponto onde tudo termina para o protagonista dificilmente poderia ser melhor. Há, ainda assim, partes da história que deixam alguma curiosidade insatisfeita - nomeadamente no que diz respeito a Martin. Ainda que talvez haja pequenas pistas para o que poderia ser o passo seguinte, fica sempre em aberto a resolução da situação. E, mesmo não sendo um elemento essencial para o desenrolar do enredo, fica sempre aquela vontade de saber o que poderia ter sido.
Cativante, divertido e positivo - são estes os principais pontos fortes deste O Coração de Simon Contra o Mundo. Uma história de jovens amores e amizades, sem limites nem convenções, em que nem tudo é fácil e muito menos perfeito, mas em que toda a beleza da descoberta está lá. Gostei.  

Autora: Becky Albertalli
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Ilha de Martim Vaz (Jonuel Gonçalves)

Séculos diferentes, vidas divergentes... as mesmas questões. Assim se traçam as linhas deste livro, em que, através das viagens de múltiplos protagonistas, percursos tão incompletos como a memória dos séculos e vivências terríveis ou inebriantes, se traça uma viagem entre tempos e lugares para contemplar a universalidade humana. As histórias são muitas: a da filha de escrava feita revolucionária; a do casal que viajava por terrenos perigosos para adquirir conhecimento; a do marinheiro que quer viver o seu amor. E a de um presente mais próximo, em que um casal quer transpor os registos do passado para a actualidade. Histórias que se entrelaçam, que convergem... e que cativam, acima de tudo, pelas pequenas coisas.
Não é fácil falar sobre este livro. Nem o tempo nem as viagens das várias personagens seguem um trajecto propriamente linear e as relações entre as várias histórias são mais intuitivas que efectivas. Assim, não é fácil traçar um rumo preciso que una todos estes elementos. E, porém, a unidade parece estar lá, não só pelas descobertas que põem em contacto as personagens dos diferentes tempos, mas principalmente pelas questões por elas representadas. A escravatura, o poder dos censores, as leis absurdas que só se contornam com subornos... talvez sejam elementos diferentes, cada um pertencente ao seu período temporal, mas todos representam uma mesma coisa - o poder dos mais fortes sobre os mais fracos.
E é esta a ideia que sobressai deste romance - a de uma viagem através do tempo em que há, afinal, tanto que fica igual. Ainda assim, nem tudo se cinge a esta questão. Há, no percurso das várias personagens uma série de momentos intensos - perigos, barreiras, dificuldades. E, havendo na própria natureza das personagens algo que desperta empatia, torna-se fácil querer saber o que se segue para elas, de que forma ultrapassarão esses obstáculos e que sorte os aguarda no fim do caminho.
O que me leva ao que é, para mim, o ponto talvez um pouco menos bom: a imensa curiosidade insatisfeita que este livro deixa, fruto não só de um final bastante aberto, mas também dos espaços em branco deixados pelo meio. Não deixa de fazer sentido esta forma de contar a história - tendo ela a forma de um congregar de escritos preservados pelo tempo, é inevitável que ficasse em aberto o espaço daqueles que o tempo perdeu. Ainda assim, fica aquela vontade de saber o que aconteceu às personagens no tempo perdido - e o que estaria para acontecer a seguir.
No fim, fica a impressão de uma história que podia, talvez, ter sido um pouco maior - mas que, apesar de tudo, resulta tal como está. Viagem através do tempo e das memórias preservadas, deixa à imaginação do leitor a parte que fica por contar. E o que conta... bem, nisso cativa desde o início e surpreende até ao fim. Gostei.  

Título: A Ilha de Martim Vaz
Autor: Jonuel Gonçalves
Origem: Recebido para crítica