quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Fugitivo (Mason Cross)

Carter Blake é um homem peculiar. O passado que deixou para trás dotou-o de um talento especial para encontrar pessoas que não querem ser encontradas. Mas, embora o caso que tenha em mãos não seja particularmente complexo, há algo no seu caminho que está prestes a mudar drasticamente. Em tempos, deixou a Winterlong, a organização a que em tempos pertenceu, com uma espécie de pacto de não agressão. Mas a estrutura organizacional alterou-se e o passado está de volta para atar, enfim, todas as pontas soltas. E eis que, habituado a seguir e localizar, é agora Blake quem está em fuga e à procura de uma solução para o problema que não acabe com o seu cadáver largado algures.
Sendo um dos grandes pontos fortes desta série a construção do seu protagonista, não é propriamente uma surpresa que seja este livro, com toda a sua exposição do passado de Carter Blake, o que revela a personagem no seu máximo potencial. Já nos volumes anteriores era uma figura intrigante, com o seu passado tortuoso, a sua postura enigmática e a impressão, apesar de tudo, de um coração no sítio certo. Mas é aqui que tudo é finalmente explicado: a vida de Blake antes da sua estranha profissão, o que levou à partida e de que forma conseguiu garantir alguns anos de relativa paz. Além, é claro, de toda uma sucessão de relações e inimizades passadas que ganham agora toda uma nova dimensão.
E, sendo certo que bastava Carter Blake para tornar a leitura memorável, há ainda muito mais a acrescentar às impressões desta leitura. O enredo, dividido entre o estranho caso de Bryant e a inevitável perseguição a Blake, está todo ele repleto de momentos de tensão e de perigo. Há sempre algo a acontecer, o que torna a leitura viciante, mas há também laivos de emoção e de humor que tornam o todo mais abrangente, além de criarem uma maior proximidade entre leitor e personagens. E a forma como o autor desenvolve a narrativa, num equilíbrio perfeito entre todas as suas facetas, faz com que todos os momentos, grandes e pequenos, tenham o máximo impacto possível.
Mas há ainda um outro aspecto que, presente já nos volumes anteriores, ganha também aqui nova relevância. Enquanto organização secreta e com ampla liberdade de acção, a Winterlong cruza barreiras injustificáveis. E a forma como esse aspecto é abordado, com as consequências que teve na vida de Blake, mas não só, desperta a sempre pertinente questão do que é ou não aceitável em nome de uma suposta segurança.
De tudo isto resulta uma leitura viciante, cheia de surpresas e com um protagonista que nunca deixa de cativar. Intenso, poderoso e com um equilíbrio deveras eficaz entre acção, humor e questões de consciência, um livro que eleva ainda mais as expectativas para o que poderá ser o futuro do enigmático Carter Blake. Muito bom. 

Título: O Fugitivo
Autor: Mason Cross
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 17 de julho de 2018

Jessica Jones: Alias - Volume 3 (Brian Michael Bendis e Michael Gaydos)

Longe vão os tempos em que Jessica Jones era uma super-heroína... mas isso não significa que tenham deixado de lhe acontecer coisas estranhas. E, quando encontra uma desconhecida em casa, com um fato de Homem-Aranha e num estado bastante deplorável, Jessica não pode deixar de procurar respostas. Para as primeiras, bastam alguns contactos. Trata-se de Mattie Franklin, uma adolescente que assumiu o papel de Mulher-Aranha. Mas o que lhe aconteceu - e porquê - já é uma questão mais complexa. E, sem que tenha sido propriamente contratada para resolver o caso, Jessica dá por si a seguir as pistas - e a envolver-se em situações delicadas - para devolver Mattie à sua antiga vida.
Um dos aspectos mais intrigantes desta série é o facto de, mesmo ao terceiro volume, continuar a haver espaço para muitas - e impressionantes - surpresas. Chegados a este ponto, é fácil sentir que se conhece (pelo menos tão bem quanto possível) a protagonista e aquilo que a move, mas as circunstâncias e a forma como Jessica lida com elas nunca deixam de surpreender. Além disso, bastariam os elos comuns a todos os livros desta série - equilíbrio de géneros, enredo intenso, arte e texto simplesmente viciantes e personagens fortíssimas num universo vasto - para fazer deste terceiro volume uma leitura imperdível.
Mas há mais. Há sempre mais a cada novo livro. E, tal como aconteceu com o anterior, também aqui o enredo central é perfeitamente independente dos anteriores, mas há ligações que ganham outro impacto com o conhecimento prévio do que aconteceu antes. Presenças discretas, mas relevantes, como as de J. Jonah Jameson e, claro, do enigmático Matt Murdock, adquirem outro significado se soubermos a que "coisas do passado" se está Jessica a referir. E, tal como toda a base é independente, também o final é bastante conclusivo... mas há pequenas coisas. Pequenas coisas que deixam uma enorme curiosidade em descobrir o que se segue. 
Ainda uma última nota para o contraste entre a vastidão do universo em que estes livros se enquadram - ao ponto de, por vezes, ser difícil decidir por onde começar a explorar o imenso universo Marvel - e a facilidade com que se entra neste ambiente e na vida destas personagens. Sim, há figuras sobejamente conhecidas - seja de outros livros ou da televisão - que surgem apenas de forma algo secundária. Mas todo o essencial está contido nesta série. E, claro, fica a vontade de descobrir mais - sobre Jessica e sobre os outros - mas nada de fundamental fica por dizer. Para o resto, haverá outros livros. Outras histórias. E esta tem tudo aquilo de que precisa. 
Visualmente fascinante e com um enredo cheio de surpresas e de momentos notáveis, fica, mais uma vez, a impressão de uma leitura intensa e viciante, com personagens tão misteriosas quanto a imensidão do universo a que pertencem. Mais que à altura das expectativas, um livro a não perder numa série toda ela memorável. Recomendo. 

Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 16 de julho de 2018

1001 Coisas que Nunca te Disse (Catarina Rodrigues)

Era um amor que devia durar para sempre... até ao dia em que acabou. E Sara pode ter sido enganada, mas o amor ficou, ainda assim, para lá da revolta e do ultraje. Por isso, movida pelo desgosto, começa a escrever cartas. Cartas a David, que nunca as lerá. E, nessas cartas, revisita a sua história, não só do amor que partilharam, mas também da infância e da vida que a moldou tal como é e da vida que veio depois de David. Porque em tudo pode haver uma aprendizagem e, teimosa e determinada, Sara não está disposta a deixar-se derrubar. Muito menos pelos seus próprios sentimentos.
Parte romance e parte introspecção, este é um livro feito de uma mistura de normalidade e de surpresas. Normalidade, porque grande parte da história é feita das coisas normais da vida: paixões, vida profissional, saídas com amigos, pequenas e grandes perdas, desgostos e superações. Surpresas, porque há todo um passado difícil na sombra da protagonista e um conjunto de revelações que, pelo impacto com que surgem, não deixam de ter um efeito de choque.
Não é uma história linear. Escrita maioritariamente na forma de cartas da protagonista, oscila entre diferentes pontos das suas memórias, percorrendo ainda longas reflexões e perspectivas. É, por isso, uma história pessoal e, às vezes, contraditória, pois a forma como Sara vê o mundo é imperfeita - como o são todas. Tem uma visão única e só sua - mas cai, por vezes, nas inevitáveis generalizações. Percorre um caminho de superação, mas acaba por cair nas inevitáveis repetições. E o resultado são sentimentos contraditórios, pois nem sempre é fácil entender as suas escolhas e a sua visão do mundo. Mas também uma certa impressão de realismo - pois, na história como na vida, opiniões e perspectivas são algo em constante mutação.
Fica também muito em aberto, não só sobre a vida de Sara depois desta longa relação interna com o seu próprio desgosto de amor, mas também sobre certas partes do passado, principalmente a vida familiar. E, claro, é inevitável a curiosidade insatisfeita, pois há muito nessa parte da história a gerar tensão e possibilidade. Mas também faz um certo sentido que assim seja, não só porque a Sara que escreve as cartas está a lidar com dificuldades mais recentes, mas principalmente porque a intenção da própria protagonista é afirmar-se como mais do que o seu passado.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura cativante e surpreendente, apesar das suas voltas e contradições. Com uma escrita envolvente e um registo pessoal, uma história única, mas que permite vários pontos de identificação, e por isso mesmo mais viva e equilibrada. Interessante e bem escrita, uma boa leitura, em suma.

Autora: Catarina Rodrigues
Origem: Recebido para crítica

domingo, 15 de julho de 2018

A Mulher de Einstein (Marie Benedict)

Mileva Maric sabe que as suas origens e a condição de mulher serão sempre um obstáculo ao seu sonho de uma vida de sucesso no mundo da ciência, mas não está disposta a deixar-se travar por qualquer barreira. É por isso que, quando chega a Zurique para frequentar o curso de física, leva também consigo a determinação necessária para enfrentar todos os problemas e humilhações. Não está à espera é de se apaixonar pelo seu pouco convencional, mas estranhamente encantador, colega. Albert Einstein não é como os outros homens e promete-lhe, além do seu afecto, uma vida de companheirismo e de colaboração científica. E, apesar da resistência inicial, Mileva acaba por deixar-se encantar. Só que o sonho começa a tornar-se cada vez mais difícil e Albert está muito longe de ser o cavalheiro por quem Mileva se apaixonou...
Basta a premissa deste livro para despertar uma certa curiosidade para a história: afinal, é sabido que há muitas mulheres cujo papel nos avanços científicos do seu tempo foi passado para segundo plano ou deixado no anonimato. E, ao acompanhar a história de uma dessas figuras, a autora constrói, logo à partida, um enredo cativante e cheio de potencial. Criam-se expectativas e, embora nem tudo seja fácil de assimilar, essas expectativas são totalmente atingidas, no que é uma leitura envolvente, surpreendente e repleta de momentos emotivos.
Era apenas de esperar uma visão diferente da que normalmente vem à cabeça ao pensar em Einstein. Mas não é apenas diferente: é perturbadora. O Albert Einstein deste livro está longe de ser apenas o académico brilhante, embora tenha ainda também a natural medida de brilhantismo. O que fica deste retrato é um homem que começa por ser encantador, mas que se transforma em alguém cruel, indiferente e centrado apenas nos seus próprios feitos. O que cria, é certo, uma certa distância, pois a história passa do companheirismo científico para um percurso familiar condenado ao fracasso. Mas também uma história emocionalmente intensa, pois torna-se assustadoramente fácil sentir com Mileva - e por Mileva.
E, sendo verdade que nem sempre é fácil gostar das personagens, ou entender as decisões que tomam, esta visão tudo menos simples e alegre de uma relação que se transforma em pesadelo ganha outro impacto por ser protagonizada por um dos grandes da ciência. Além, é claro, da forma sempre intensa e surpreendente que a autora tem de dar aos momentos mais emotivos o máximo impacto possível. Mais que uma história de ciência, é também uma história de descoberta pessoal e de desencanto, de amor e desilusão, de perda e de reconstrução. E no fim é isso que fica na memória - a intensidade das emoções e as sombras que se escondem sob uma aparente harmonia.
Cativante, com momentos belíssimos e um enredo capaz de construir para uma das grandes descobertas científicas toda uma nova possível perspectiva, trata-se, pois, de uma leitura surpreendente, com personagens que, nem sempre fáceis de compreender, se entranham, apesar de tudo, da memória. Uma boa história, portanto, e uma que vale a pena ler.

Autora: Marie Benedict
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Rimas (Francesco Petrarca)

Há nomes que dispensam apresentações. E, com a sua poesia e a sua eterna e misteriosa Laura, Petrarca será, sem dúvida alguma, um deles. Primeiro, pela influência da sua obra em muitos outros poetas. Mas principalmente pela obra em si e pela forma como Laura, o mundo, os homens e a inspiração ganham vida em cada um destes poemas.
Não há propriamente nada de muito revelador para dizer quando se fala de um nome de tão grande fama como o de Francesco Petrarca. E, talvez por isso, dispensam-se as análises e as interpretações. Não é um autor que se estude na escola - ainda que o nome surja enquanto influência de alguns dos que, de facto, se aprendem - e, assim sendo, uma das primeiras coisas a destacar neste livro é, naturalmente, a introdução completa e esclarecedora, que permite conhecer melhor o contexto histórico e a vida e obra do poeta. Mas, mais do que isso, impressiona a forma como, com conhecimento prévio ou sem ele, é possível mergulhar simplesmente na poesia e apreciar o génio, a fluidez, a harmonia: a beleza, em suma.
Cada poema vale por si mesmo, até porque não há nenhum que não deixe a sua marca. Há, ainda assim, duas perspectivas mais globais a ter em conta. Primeiro, a sensação de unidade que emerge de um conjunto onde, esquiva e enigmática como é, a misteriosa Laura é o elo dominante. E depois o reconhecimento de influências futuras, pois há versos que possivelmente soarão familiares, ao recordar certas obras da poesia portuguesa.
É, naturalmente, um livro que exige o seu tempo, não só pelos muitos elementos a descobrir e assimilar, mas principalmente porque cada poema merece ser lido com a máxima atenção. Mas é, acima de tudo, uma obra admirável, que, lida ao ritmo da rima e da inspiração, cativa tanto numa leitura sequencial como num - inevitável - regresso posterior aos poemas mais marcantes. É um todo vasto e admirável - mas cada parte é também um todo. 
Há obras que, tanto pelo génio como pela influência exercida na História, se tornam simplesmente essenciais. Esta é uma delas. Um livro feito de amor e de inspiração e uma obra poética a recordar para sempre. Deveras impressionante. 

Título: Rimas
Autor: Francesco Petrarca
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Bizâncio

«Permitam que me apresente. Chamo-me Carlos Magdalena e sou apaixonado por plantas.
Em 2010 fui apelidado de «El Mesías de las Plantas» por Pablo Tuñón, um jornalista que escreveu sobre o meu trabalho no jornal espanhol La Nueva España. Suspeito de que o nome se inspirou em parte na minha barba e cabelo compridos pós-bíblicos, bem como no facto de eu dedicar uma grande parte do meu tempo a salvar plantas que se encontram à beira da extinção.» O Messias das Plantas - Introdução

O Messias das Plantas é a história inspiradora de um homem que dedicou a sua vida – e a arriscou – em prol da salvação de espécies ameaçadas, sempre com o desígnio de fazer do planeta Terra um sítio mais verde e feliz.

Em 2016, Jay, o filho de Yuki, torna-se pai, convicto de que tem um casamento feliz. É o ano em que confrontará a sua mãe, que o abandonou quando tinha apenas dois anos.
Escrito com inquietante beleza, Inofensivas, Como Tu, é um romance pleno de suspense acerca das complexidades da identidade, da arte, das amizades da adolescência e dos laços de família que, em última instância, nos coloca perante a questão: Como abandona uma mãe o seu filho? 
Uma narrativa brilhante de amor, solidão e reconciliação.

«Um romance elegante e comovente, cuja intensidade cresce à medida que a narrativa evolui, explorando as questões da pertença, alienação e desejo.» Daily Mail

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Pranto de Maria Parda e Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente)

Dispensa apresentações o Auto da Barca do Inferno, com o seu anjo, o seu diabo e os passageiros com os seus pecados (mais ou menos) secretos. Maria Parda, essa, talvez seja um pouco menos conhecida, com os seus lamentos pelo preço do vinho. Mas há algo que todos aprendemos na escola: o papel fundamental de Gil Vicente no teatro português. E é por isso que, seja esta leitura um regresso ou simples primeiro contacto, a relevância é ainda e sempre a mesma. Até porque há aspectos que não podiam ser mais actuais.
Antes de falar da obra propriamente dita - e escusado será dizer que há nelas motivos mais que suficientes para fazer com que a leitura valha a pena - importa falar um pouco desta edição. Além de ser um livro bonito, como é, aliás, característica desta colecção de clássicos, é também um livro bastante completo, pois ao texto propriamente dito acrescenta uma introdução bastante útil para compreender o percurso do autor e o contexto do seu tempo e todas as notas e explicações necessárias para apreciar o sentido da peça. É, pois, um livro em que é a obra central que domina, mas a que as explicações sucintas, mas esclarecedoras, dão uma maior abrangência.
Quanto aos textos em si, não haverá muito a dizer que vá além da análise exaustiva feita, em tempos, na escola, pelo menos no que ao Auto da Barca do Inferno diz respeito. Mas, primeiro, é sempre um prazer reencontrar estas tão caricatas e certeiras personagens. Além disso, as características da sociedade que representam podem ter ganhado formas um pouco distintas, mas continuam, na maioria, a estar bem presentes. E quanto a Maria Parda... bem, também a sua relação com o vício continua a ter muito de actual, ainda que a forma possa ter também mudado.
Ainda um último aspecto que é especialmente agradável redescobrir é a estrutura do texto. A rima, com toda a sua naturalidade, as expressões bizarras, a forma como a própria linguagem parece adaptar-se à forma de expressão das personagens... há em tudo isto uma fascinante mestria, que não perdeu nenhuma força com a passagem dos séculos. Aliás, há pequenas coisas que ganham outro sentido nesta nova leitura mais tardia, o que faz deste livro uma obra a que vale sempre a pena regressar.
Dispensa apresentações - e também não é que precise de elogios, sendo, como é, uma parte essencial da história da literatura portuguesa. Mas não deixa de ser especialmente marcante este regresso a uma tão conhecida história - e a percepção de que muito do que foi escrito então poderia muito bem dizer-se também agora. Vale a pena ler? Claro. E reler também. Várias vezes.

Autor: Gil Vicente
Origem: Recebido para crítica