segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Bug - Livro 2 (Enki Bilal)

Na sequência do bug que aniquilou todos os sistemas digitais da Terra, transpondo-os misteriosamente para o seu cérebro, Kameron Obb tornou-se o homem mais cobiçado à face do planeta. E, quando é a sobrevivência que está em jogo, os escrúpulos morais passam para segundo plano. Máfias, multimilionários, organizações pouco transparentes e, claro, os governos de vários países estão dispostos a fazer o que for preciso para deitar as mãos ao único detentor de toda a informação que se perdeu. Mas não é essa a maior preocupação de Kameron Obb. É que o bug não é apenas digital - tem uma criatura alienígena no seu corpo. Uma criatura que o está a deixar doente e que pode muito bem ser contagiosa. Acima de tudo, Kameron quer voltar a ver a filha. Mas não a qualquer preço...
Sendo fundamentalmente uma sucessão de novos desenvolvimentos no que respeita às consequências do bug e à perseguição e fuga que envolvem o protagonista, é difícil dizer muito sobre o desenrolar específico da história sem estragar as muitas surpresas do percurso. O que é, desde logo, uma qualidade, pois a sucessão de revelações e reviravoltas é um dos principais elementos a contribuir para tornar esta leitura tão empolgante. As certezas são muito poucas: Kameron tem um alienígena no corpo e todos os dados do mundo no cérebro. Há muita gente disposta a tudo para os obter. E ele não está disposto a entregar-se assim sem mais nem menos nas mãos do primeiro que lhe acontecer. Tudo o resto é uma sucessão de intrigas e movimentações, em que cada passo abre caminho a novas e inesperadas possibilidades, culminando num final que, mais uma vez, deixa tudo em aberto, prometendo, ao mesmo tempo, o início de uma nova fase para o que se poderá seguir.
Outro aspecto a sobressair é o cenário de devastação, como que de um apocalipse em câmara lenta. Sim, o caos foi quase imediato, mas a verdadeira dimensão das consequências manifesta-se de forma gradual e há algo de verdadeiramente impressionante na forma como a arte, com os seus tons sombrios e o contraste entre a estagnação dos planos afastados e o movimento dos confrontos e perseguições, reflecte este desvanecimento da vida normal. Além disso, tanto a arte como o texto propriamente dito conseguem, no meio de toda a acção e das fugas constantes, traçar os contornos de uma reflexão interessante: com o aumento da dependência tecnológica, se um dia ela se apagar, como acontece nessa história, quais serão as repercussões? Claro que o mundo actual não é, de todo, tão digital como o desta história. Mas e se fosse?
Ainda um último ponto a salientar, e um particularmente notável, é a forma como, num cenário de intrigas e perseguições globais, há, ainda assim, espaço para explorar emoções e laços pessoais. Principalmente os do protagonista, claro, com o seu apego à filha, as preocupações do mundo (literalmente) na cabeça e uma certa tristeza que se vê mais nas expressões do que propriamente nos diálogos. Mas também as obsessões dos que se viram privados de tudo o que conheciam, a incerteza de não saber o que acontece a seguir e o impacto emocional dos sucessivos encontros e separações. Cria-se uma certa proximidade, e também isso contribui para reforçar a vontade de descobrir o que mais o destino reserva para estas personagens.
Visualmente marcante, impressionante nos cenários e na visão do futuro e cheio de reviravoltas surpreendentes, trata-se, pois, de uma leitura intensa e empolgante sobre um futuro não muito impossível e em que o mais próximo são, ainda e sempre as personagens. Viciante, intrigante e muito surpreendente, um livro que não posso deixar de recomendar.

Título: Bug - Livro 2
Autor: Enki Bilal
Origem: Recebido para crítica

domingo, 19 de janeiro de 2020

Kitty e o Resgate ao Luar (Paula Harrison e Jenny Løvlie)

Todas as noites, a mãe da Kitty sai para viver grandes aventuras com os seus poderes felinos de super-heroína. Mas, embora tenha os mesmos poderes, a Kitty não sente o mesmo entusiasmo, pois a noite escura lá fora desperta-lhe um certo receio. Mas eis que, um dia, aparece um gato à sua janela a pedir ajuda e a mãe da Kitty está ausente. Cabe então à Kitty segui-lo e tentar ajudar a resolver o problema do barulho horrível que vem da torre do relógio. Será um monstro? Um fantasma? Uma coisa é certa: é a promessa de uma aventura.
É difícil falar deste livro sem destacar, antes de tudo o resto, as ilustrações. É que, embora complementem um texto também muito interessante, são mesmo elas o primeiro elemento a chamar a atenção. O contraste entre os laranjas dos felinos, o negro da noite e o branco do luar, bem como a mistura de mistério e de ternura que parece sobressair dos cenários, despertam uma curiosidade praticamente imediata para o mundo da Kitty e dos seus amigos felinos. E, sendo um aspecto tão presente ao longo de todo o livro, é difícil não ver como texto e imagem se complementam para dar forma a um todo maior.
Isto torna-se ainda mais interessante porque, sendo um livro pensado para os mais novos, é também uma história relativamente simples. A escrita é muito directa e a história segue um rumo relativamente linear, mas é tão eficaz o equilíbrio entre a beleza das páginas e a ternura simples da história da Kitty que até aos olhos de um leitor adulto a sensação que fica é a de ter vivido uma aventura. Simples? Sim, mas empolgante também.
E há uma mensagem também: uma mensagem de superação dos medos, de ter coragem porque é preciso e de descoberta de que nem tudo o que se esconde para lá do desconhecido é necessariamente mau - mesmo que seja um som aparentemente horripilante. Junte-se a isto a construção da amizade entre a Kitty e os seus amigos gatos e o resultado é uma lição em forma de aventura.
Cativante, enternecedor e principalmente muito bonito, trata-se, pois, de uma livro simples e muito envolvente, para miúdos e graúdos. E, claro, sendo o princípio de uma série, é inevitável também uma outra impressão: a enorme curiosidade em saber que aventuras irá a Kitty viver a seguir.

Autoras: Paula Harrison e Jenny Løvlie
Origem: Recebido para crítica

sábado, 18 de janeiro de 2020

A Morte do Papa (Nuno Nepomuceno)

Trinta e três dias após uma eleição que trouxe aos crentes novas esperanças, o Papa Mateus I é encontrado morto no seu quarto. Diz o Vaticano que de causas naturais, que foi encontrado com um livro nas mãos e com um sorriso nos lábios. Mas as incongruências não tardam a vir à tona e o que parecia uma explicação fácil torna-se numa certeza bem mais sombria: o Vaticano está a mentir. É este mesmo cenário que leva Diana Santos Silva a reatar o contacto com um misterioso pirata informático que parece ter informações vindas das mais altas instâncias. Só que Diana pode ser perspicaz em muitos aspectos, mas também comete erros. E eis que, mais uma vez, Afonso Catalão se vê arrastado para o meio de um cenário de crime e mistério. Mateus I não morreu de causas naturais e o enigmático Pedro parece ser quem tem as melhores informações. Informações de que Afonso precisa agora para limpar o seu nome...
Há algo de absurdamente irresistível no equilíbrio praticamente perfeito de surpresa e familiaridade que se sente ao começar a ler um novo livro deste autor. Surpresa porque cada novo enredo, cada nova reviravolta, nos leva por caminhos nunca imaginados, traçando teias de intrigas nos corredores do poder, conspirações pessoais e de âmbito global e deixando ainda espaço para os acasos, coincidências e ironias do destino. Familiaridade pelas personagens que estão já tão próximas (é impossível não sentir pelo menos um bocadinho face à irresistível inclinação do Afonso para se meter em sarilhos, mesmo sem saber), pelo impacto emocional dos momentos mais pessoais e pela forma como a história destas figuras se entrelaça num enredo de âmbito muito mais global. E, assim, há uma sensação que surge desde cedo e que nunca desaparece: a de regressar a um lugar onde já fomos felizes, mas onde há sempre novos e labirínticos caminhos para percorrer.
São tantas e tão poderosas as surpresas ao longo do percurso que é difícil abordar elementos específicos sem correr o risco de revelar demasiado, mas bastam as qualidades gerais para que a leitura valha a pena. A escrita directa, que enfatiza a acção e vai acrescentando a abundante informação de contexto ao ritmo que vai sendo necessária, torna o ritmo da leitura viciante, e o mesmo acontece com o misto de momentos de leveza, tensão, intriga e emoção. A mistura de novas personagens com outras já conhecidas, bem como a alternância entre diferentes percursos, aumenta a complexidade sem nunca perder a fluidez que tanto contribui para que seja extremamente difícil interromper a leitura. E os sentimentos fortes (positivos e negativos) gerados pelas diferentes personagens criam um vínculo emocional mais forte, não só pelo muito de marcante que contêm, mas pelas pequenas surpresas e referências pessoais espalhadas ao longo do texto.
E, claro, há um toquezinho discreto, mas que é particularmente agradável para quem já leu outros livros do autor - as referências passadas. Sendo a história totalmente independente, não deixam, ainda assim, de ser marcantes as referências a elementos do passado de Afonso. E não só, porque há umas quantas menções a um autor português de policiais (com quem uma das personagens parece não simpatizar lá muito) que transportam esta história para um mundo mais perto de nós. Afinal, é possível que conheçamos também este autor...
Com um equilíbrio notável entre intrigas globais e percursos pessoais e uma sucessão de surpresas e reviravoltas que nos conduz sempre a novas e impressionantes revelações, eis, pois, mais um livro que corresponde inteiramente às expectativas. Intenso e viciante, emotivo quanto baste e empolgante em todos os momentos, cativa desde as primeiras frases e fica na memória bem depois de atingido o muito impressionante fim. Se recomendo? Mas claro que recomendo. É imperdível.

Título: A Morte do Papa
Autor: Nuno Nepomuceno
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

One Winter Morning (Isabelle Broom)

Está a chegar o Natal, mas Genie sente-se tudo menos alegre. Há quase um ano, a mãe adoptiva morreu num acidente estúpido e Genie está convencida de que a culpa é sua. Agora, numa tentativa de a arrancar ao seu isolamento, o pai tenta convê-la a ir em busca da mãe biológica. Relutamente, Genie aceita, embora isso signifique que terá de viajar para o outro lado do mundo. Mas, quando chega à Nova Zelândia, a mãe não está lá. E a espera pelo seu regresso trará muitas revelações inesperadas - e alegres.
Provavelmente um dos aspectos mais impressionantes neste livro é a facilidade com que nos faz sentir com e pelas personagens. Genie está num estado sombrio quando a história começa, e basta isso para simpatizar com a sua dor e para gerar um certo vínculo emocional com ela. E, expandindo-se a partir destas trevas iniciais e do isolamento da protagonista, tudo se torna muito mais vasto e emocionalmente devastador. A viagem à Nova Zelândia leva Genie a entrar em contacto com as coisas que a assombraram durante todo o ano, mas abre também novas portas e possibilidades. E este delicado equilíbrio de dor e ternura, amargura e amor, escuridão e esperança, facilmente nos transporta para os recantos mais íntimos da história - e às personagens para os recantos mais íntimos do nosso coração.
Há também um ligeiro toque de mistério, e muitas questões como ponto de partida. Porque é que a protagonista foi deixada para trás, o que aconteceu ao certo para fazer com que ela se sinta tão culpada relativamente ao acidente, o que levou Bonnie a regressar a Inglaterra e que razões a levaram a deixar a filha para trás. Todas estas perguntas precisam de respostas, e encontram-nas, de facto. E mais! Pois as respostas trazem novos laços: familiares, de amizade e de amor.
Também a escrita está cheia de beleza. Emotiva, embora simples quanto baste; espantosa nos contrastes entre os diferentes cenários; envolvente e intrigante e cheia de ternura na voz; e divertida também, pois há um sentido de oportunidade perfeito na aparição dos momentos mais divertidos, que os torna ainda mais adequados numa história tão cheia de dor e perda. E esperança. Esperança também.
Emotivo e intrigante, triste, mas cheio de esperança, trata-se, pois, do tipo de história que se grava no coração. E é também essa a sua beleza: pois, durante toda a história, viajamos com Evangeline e as suas memórias - não no tempo, mas na vida. E sobretudo no amor.

Título: One Winter Morning
Autor: Isabelle Broom
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Harrow County 6 - Magia de Raízes (Cullen Bunn e Tyler Crook)

Emmy pode julgar que a sua presença foi finalmente aceite em Harrow County, mas a verdade é bastante mais desagradável. E, quando uma assombração a avisa de que anda alguém à solta a caçar assombrações, a última coisa que Emmy espera é que a a sua amiga de sempre esteja envolvida. Mas, por mais que Emmy repita que não é Hester, Bernice não está convencida. E há forças maiores a orientá-la - forças cujo maior interesse está bem longe de ser o bem-estar das gentes de Harrow County.
Há sempre algo de novo a vir à tona quando se pega num novo volume de Harrow County. É, aliás, esse o maior encanto desta série calmamente sinistra. Soa estranho? Mas é uma boa expressão para descrever esta história. Calma, porque, apesar dos muitos e perturbadores desenvolvimentos, Harrow County mantém sempre a fachada de pacatez aparente. Sinistra... bem, por causa de todas as criaturas sombrias e horripilantes - ainda que, nalguns casos, razoavelmente inofensivas - que povoam as sombras desse mesmo pacato local. E, sim, há sempre algo de novo, o que faz com que o contraste entre estes dois aspectos vá ficando cada vez mais vincado, até porque mesmo a gente "normal" consegue ver-se envolvida em situações... sinuosas.
É mais na história do que nos pormenores dos elementos visuais que as surpresas se sucedem, pois o estilo de contrastes e aparente simplicidade - os tons claros do mundo "normal" em contraposição aos rasgos de fogo e sangue do sobrenatural; a serenidade do insinuar do mistério em oposição ao movimento frenético das fugas e dos confrontos - mantém-se essencialmente igual, embora expandido pela aparição de novos elementos. Mas em tudo há novas forças, pois cada novo conflito acrescenta receios e possibilidades e a forma como esses se manifestam - na presença inesperada que surge estrategicamente no momento mais tenso, no reerguer das raízes de ligações e inimizades antigas - vem tanto dos diálogos certeiros como da impressão de uma cena cuidadosamente retratada.
E há ainda um novo elemento, que vem expandir o impacto emocional: Bernice. Bernice, a amiga de sempre que se volta implacavelmente contra Emmy, dando assim origem a um crescendo de intensidade que não vive apenas da sensação de perigo, mas sobretudo da marca emocional deixada pela amizade construída, rejeitada e depois... bem, só lendo para ver. Junte-se a isto a posição cada vez mais delicada da protagonista, com os inimigos a multiplicar-se e as suas convicções a serem postas à prova, e o resultado é uma proximidade que cresce a cada novo desenvolvimento.
Sexto volume, e em nada desilude. Muito pelo contrário, já que cada nova surpresa promete ainda mais força para o impacto final do fim que se aproxima. E recuo, por isso, alguns parágrafos para realçar a ideia de sinistra tranquilidade - poderoso contraste e fonte de tão grande empatia - que faz de Harrow County um lugar tão temível... quanto digno de uma atenta visita. Escusado será dizer, por esta altura, que recomendo esta série. Sem hesitações.

Autores: Cullen Bunn e Tyler Crook
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Alpendre a Cinco Vozes (Antero Barbosa)

Com vista para um legado antigo, para um extenso (e prontamente delapidado) património e para as memórias de uma família antiga, o Alpendre tornou-se o trono do reino do Menino QuiNando, que, fruto da fortuna e da educação, ficou menino até aos setenta anos. Mas a mesma fortuna que leva décadas a construir só precisa de alguns anos para se ver reduzida a nada, e eis que os restos do privilégio do Menino QuiNando se esfumaram com o abandono da Terceira Mulher. Agora, o Alpendre tem outro dono, e só o Sol e o povo se lembram de como era. E até a amizade de um gesto aparentemente bondoso pode esconder intenções egoístas e rancores à espera de despontar.
Com as suas cinco vozes e uma história que é feita mais de impressões do que propriamente de uma linha temporal precisa, este é um livro que, apesar da relativa brevidade, se torna difícil de descrever. Por um lado, porque as oscilações na linha temporal fazem com que seja difícil referir acontecimentos sem revelar os segredos ambíguos que se escondem nesta história. Depois, porque alguns desses segredos permanecem exactamente assim: ambíguos, sem uma resposta definitiva. E, finalmente, porque a narrativa acaba por viver tanto das impressões interiores - memórias, sentimentos, meditações - como dos acontecimentos propriamente ditos.
É, pois, um livro difícil de explicar, mas que, ainda assim, proporciona uma leitura estranhamente fluida. Talvez devido aos laivos de poesia que, sem nunca caírem no excesso, conferem ao romance um tom de profunda introspecção. Ou talvez porque há em todo o percurso uma melancolia que, embora difícil de despertar uma identificação directa (afinal, o Menino QuiNando vinha de vasta fortuna), consegue, ainda assim, gerar reflexões notáveis: sobre como tudo é efémero, fortuna, juventude e amor. Sobre como as boas intenções escondem, por vezes, sentidos ocultos. E, acima de tudo - ou não tivesse esta história cinco vozes - sobre como as coisas mudam consoante a perspectiva de quem as narra.
Poderia talvez ser um pouco mais extenso, mas tendo em conta o enigma que parece estar no âmago desta história - e por enigma entenda-se o simples facto de muito do que aconteceu ser mais insinuado do que relatado com todo o pormenor - e a forma como a ambiguidade parece assumir quase um papel de personagem, a brevidade acaba por fazer um certo sentido. Além disso, se a história vive mais de impressões do que de factos - e das percepções divergentes de entes e personagens - então é apenas natural que as coisas fiquem em aberto. Ninguém sabe tudo. Nem o Sol.
Ambíguo, mas estranhamente cativante, introspectivo e surpreendentemente poético, eis, pois, um livro que, em pouco mais de cem páginas, conta a história de múltiplas gerações sob a forma de um legado desfeito. E é esta imagem da vida - que brota, constrói e desfaz - que faz com que esta breve leitura acabe por ficar na memória. Isso, e a excentricidade do eterno Menino QuiNando.

Autor: Antero Barbosa
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O Muro no Meio do Livro (Jon Agee)

Há um muro no meio do livro. Não importa de onde veio. O que é certo é que está lá para proteger o lado seguro do livro do outro lado onde existem criaturas perigosas. Só que o lado seguro não é assim tão seguro e as criaturas do outro lado talvez não sejam assim tão perigosas. Será o muro assim tão importante, afinal?
Sendo embora um livro infantil, é difícil não chegar ao fim deste pequeno livro com a sensação de que, nos tempos que vivemos, há muitos adultos que podiam beneficiar da reflexão que este livro evoca. Mais do que proteger, o muro que há no meio deste livro alimenta preconceitos - este lado é seguro, o outro não, a criatura do outro lado é um ogre mau que come criancinhas - e cria barreiras a uma convivência melhor. E não é exactamente isso que acontece com os muros reais? Daí que esta simples mas muito pertinente reflexão não sirva só para os leitores mais novos. Serve para todos e é mais importante do que nunca.
Também bastante notável é a forma como esta mensagem tão vasta passa tão bem a partir de um livro tão simples. O texto é resumido ao essencial. As ilustrações são também da máxima simplicidade. E, ainda assim, o livro parece ter a medida certa. Há perguntas sem resposta? Claro. A começar pela origem do muro e, principalmente, da ideia de que um lado é seguro e o outro não. Mas, em vez de curiosidade insatisfeita, o que esta falta de respostas consegue gerar é uma ideia que pode ser aplicada a todos os muros: o que há no meio deste livro e os que há no meio das vidas reais.
Mas importa não esquecer que é um livro infantil, e por isso há ainda outra faceta a acrescentar a estas características. O texto muito simples, o formato relativamente grande e a estranha ternura que as ilustrações parecem despertar fazem deste um belíssimo livro para ler aos mais pequenos. Acompanhar a história, absorver as ideias e, porque não? Discutir a tão evidente e bem conseguida metáfora dos muros que é a vasta mensagem no âmago desta tão breve história.
Muros físicos, muros mentais, muros de preconceitos - é também para derrubar todos estes muros que serve esta pequena história. Um livro simples, bonito e em que a simplicidade da forma abre espaço a um conteúdo tão vasto quanto pertinente. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, não é verdade? Bem, este é, sem dúvida, um desses casos.

Autor: Jon Agee
Origem: Recebido para crítica