terça-feira, 21 de maio de 2019

O Silêncio das Águas (Brittainy C. Cherry)

Na vida, basta um momento e tudo muda. O que costumava ser uma voz corajosa e sem barreiras transforma-se num silêncio tão profundo como as águas mais insondáveis. E o tempo passa e, ainda que a vida continue, cada momento é passado no limiar do afogamento. É assim para Maggie May, que, quando era criança, assistiu a um crime e, em resultado, perdeu a voz e a capacidade de sair de casa. A sua única âncora é Brooks, o amigo do irmão que se tornou também o seu melhor amigo. Agora, porém, ambos cresceram e a amizade ameaça tornar-se em algo mais. Mas Maggie não fala nem sai de casa e Brooks tem um futuro de sucessos musicais à sua espera. Como poderão continuar juntos, se fazê-lo significa puxar o outro para baixo? E se os papéis se inverterem, será Maggie capaz de fazer o mesmo que Brooks fez ao longo de vinte longos anos?
História de amor jovem e de crescimento para lá das dificuldades, uma das primeiras coisas a marcar neste livro é o facto de se estender muito para lá da história de amor entre os protagonistas. Sim, há amor, um amor sem reservas, e ver este amor crescer por entre tribulações é algo de mágico. Mas há também algo muito mais profundo do que a descoberta de um primeiro amor. Brooks e Maggie descobrem-se a si mesmos, nos bons momentos e nos maus, no trauma e na superação. E, ao fazê-lo, tornam-se força e exemplo para os que os rodeiam e que, às vezes, também não sabem muito bem como lidar com eles.
A história começa com os protagonistas ainda muito jovens e abrange um longo período de tempo. Ainda assim, consegue um equilíbrio surpreendentemente eficaz: há partes das vidas das personagens que são percorridas de forma mais sucinta, mas nunca fica a impressão de uma história demasiado apressada. Muito pelo contrário. Esta passagem do tempo permite realçar o melhor do seu crescimento: Maggie, parada no tempo do seu trauma, descobre o amor, aprende a perdoar, torna-se ela mesma salvadora e acaba por ter de confrontar aquilo que a moldou; Brooks, que podia ter ficado de fora a assistir, torna-se amigo, amado, confidente... e depois aprende com Maggie a lidar com as suas próprias sombras. E o amor entre ambos torna-se também uma voz - uma voz capaz de abalar todos aqueles que acompanharam o percurso de ambos.
Tendo tudo isto em conta, não é propriamente uma surpresa que a grande marca deste livro seja a emoção. Há sentimentos fortes à espreita ao virar de cada página, momentos comoventes, rasgos de pura emotividade. É possível sofrer com os protagonistas, sentir com eles, partilhar do seu crescimento. E, claro, o resultado é que se torna impossível largar a leitura, tal é a força com que estamos a torcer para que tudo acabe bem. Além disso, a estes rasgos de emoção acrescenta-se ainda um muito agradável sentido de humor, que, além de acrescentar leveza nos momentos em que esta é mais necessária, realça uma característica particularmente marcante das personagens: a capacidade de rir por entre as sombras.
Amor, crescimento e superação: são estes, em suma, os ingredientes que tornam esta leitura tão marcante. O amor paciente que tudo supera, o crescimento da passagem à idade adulta e a superação das sombras que, durante muito tempo, impuseram a sua autoridade. O resultado é um livro cativante, comovente e repleto de momentos memoráveis. Muito bom, em suma.

Autora: Brittainy C. Cherry
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro O Silêncio das Águas, clique aqui.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A Rapariga sem Pele (Mads Peder Nordbo)

Quando a primeira múmia viquinge - e o que pode muito bem ser a resposta para uma lacuna da História - é encontrada na Gronelândia, o jornalista Matthew Cave é destacado para seguir o caso. Mas a história está prestes a tornar-se em algo muito mais sombrio. Primeiro, a múmia desaparece, sendo encontrado no seu lugar o corpo esventrado do polícia que ficara a guardar o local. Depois, a mesma múmia é encontrada - com os órgãos do morto dentro e a certeza de que afinal é muito posterior ao dos homens do norte. E eis que Matthew se vê sem a sua história, mas com um outro caso para acompanhar. É que tudo parece estar ligado a uma série de homicídios macabros nos anos 70. Crimes esses que serviram para esconder outros segredos igualmente sombrios.
Viciante seria uma boa palavra para começar a descrever este livro, já que, mergulhando de cabeça na intensidade que definirá todo o enredo, consegue, desde as primeiras páginas, captar a atenção para nunca mais alargar. Primeiro são as circunstâncias da descoberta, associadas à história pessoal de Matthew, que basta, por si só, para gerar empatia. E depois, à medida que a trama se desenrola e os segredos e intrigas começam a vir à tona, é praticamente impossível parar de ler antes de saber o que acontece a seguir. O resultado é um livro que se lê quase de uma assentada e que fica na memória tanto pelos aspectos mais negros como pela intensidade constante que pauta toda a narrativa.
Matthew é um protagonista carismático e basta a sua história - e a sua incapacidade de obedecer quando lhe dizem para parar - para fazer com que a leitura valha a pena. Mas há mais. Ao intercalar a sua história com a de Jakob, o autor consegue construir uma visão mais próxima - e mais empolgante - dos crimes do passado, o que, além de adensar o mistério, faz com as grandes revelações ganhem outra força. Além disso, a presença da misteriosa Tupaarnaq, também ela com o seu passado sombrio, acrescenta ainda um outro toque de perigo, além de reforçar também o impacto das revelações. Afinal, também ela está no centro de um crime.
Há ainda um outro ponto a realçar: não são só as mortes em si que têm uma vincada faceta macabra. As razões que as provocaram são igualmente perturbadoras, com questões como o abuso de menores, a influência política como forma de encobrir o inimaginável e até mesmo a facilidade com que o sistema olha para o outro lado se confrontado com os motivos certos acrescentam a uma história cuja premissa é já bastante negra uma faceta ainda mais sombria. E é aqui que o equilíbrio se torna excepcional: na forma séria como o autor aborda estas questões sem nunca perder de vista o ritmo intenso de uma história que se quer viciante.
Fica, pois, um impacto poderoso e a impressão de uma leitura que, embora de ritmo acelerado e em que há sempre algo de importante a acontecer, as grandes questões estão sempre presentes e nunca são subestimadas. Notável na construção das personagens e extraordinário no equilíbrio entre as várias facetas e momentos da história, um livro intenso, intrigante e que recomendo sem reservas.

Autor: Mads Peder Nordbo
Origem: Recebido para crítica

domingo, 19 de maio de 2019

Descender, Vol. 3: Singularidades (Jeff Lemire e Dustin Nguyen)

TIM-21 pensava ter encontrado um refúgio temporário, mas, mais uma vez, as coisas acabaram por seguir um rumo inesperado. Agora, tudo pende num equilíbrio delicado. E é neste ponto de viragem que o tempo pára e todos os pensamentos se voltam para o passado. Afinal, pode haver relações desconhecidas que as personagens desconhecem e o passado que os une talvez seja a chave para o que virá depois. TIM-22, Telsa, Bandit, Andy, Effie e até mesmo o Broca: todos têm uma história antes do momento em que os seus caminhos voltaram a cruzar-se. E, nessa história, estão as pistas para o futuro.
Poder-se-á, talvez, dizer que este terceiro livro funciona, em certa medida, como um volume de transição: afinal, em termos da linha principal da história, as coisas não evoluem muito. Ainda assim, uma das primeiras coisas a sobressair é que, pese embora esse facto, há muito de novo - e muito de marcante - a descobrir neste livro. Afinal, o passado faz parte do que nos define. E o passado destas personagens é, em muitos aspectos, assombroso.
Sendo um olhar aos diferentes passados, há dois elementos que se destacam. O primeiro é o conjunto de revelações pertinentes - e uma ou outra reviravolta - que irão seguramente influenciar os acontecimentos futuros. O segundo, e talvez o mais importante, é a intensa carga emocional associada a todas estas memórias. Da antiga vida de TIM-22 ao passado comum de Andy e Effie, passando pelas dilacerantes cenas de Bandit sozinho e à procura na colónia mineira e pela posição de Broca ante a forma como foi tratado pelos humanos (ou por um humano em particular), há toda uma vastidão de momentos memoráveis, capazes de despertar emoções fortes e de potenciar ainda mais a já forte empatia que estas personagens despertam. Estendendo-a, aliás, a personagens que anteriormente não pareciam merecê-la.
E eis que, mais uma vez, entra a questão da expressividade e a forma como as personagens são retratadas. As expressões das personagens ao longo dos acontecimentos são uma porta aberta para todas estas emoções. E, além disso, há ainda uma outra faceta: Bandit e Broca são robôs sem aspecto humano e, ainda assim, esta expressividade estende-se também a eles. A parte dedicada a Bandit é, aliás, particularmente marcante, porque, sendo embora um robô, é praticamente impossível não o ver como um cão como qualquer outro - sozinho, perdido, à procura de afecto.
Pode parecer uma pausa na história principal, mas tudo o que contém é relevante. E, com a sua vastíssima força emotiva e os muitos desenvolvimentos interessantes, tudo aquilo que acrescenta à história é bom, tudo é belo e tudo fica na memória. Acabando, por isso, por surpreender, ao mesmo tempo que corresponde e supera as expectativas. Muito bom.

Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Origem: Recebido para crítica

sábado, 18 de maio de 2019

Hotel Silêncio (Auður Ava Ólafsdóttir)

Jónas Ebeneser sente que já não tem nada a perder. Divorciado, sozinho, com uma vida que lhe parece não ter qualquer importância, acaba de descobrir que não é o pai biológico da que julgava ser sua filha e, por isso, decide acabar com a vida. Mas o suicídio não é um acto assim tão simples, e muito menos para alguém que sente a necessidade de consertar tudo o que precisa de conserto. Decide então viajar para o país menos seguro do mundo, onde a guerra fará com que a sua morte rapidamente caia no esquecimento. No Hotel Silêncio, porém, aguarda-o uma outra vida: uma vida onde ele é necessário, ainda que apenas para as pequenas coisas que consegue consertar num país devastado.
Narrado essencialmente da perspectiva do protagonista, e de um protagonista cuja mente está perturbada, este é um livro que vive tanto das impressões como dos acontecimentos. É também um percurso em duas fases: o mergulho no abismo e a recuperação possível. É, por isso, difícil descrever este livro de forma concreta, já que as marcas que deixa devem-se mais às profundezas da alma do protagonista do que propriamente a gestos e actos - ainda que também estes tenham a sua importância.
Há também como que um choque de sentimentos que se reflecte acima de tudo na escrita e que, através dela, é transposto para a narrativa. Tudo é descrito como que de uma certa distância, o que faz com que a situação de Jónas acabe por não despertar uma proximidade imediata, mas essa distância é também reflexo da apatia que parece ter tomado conta do protagonista. Vai-se, por isso, desvanecendo com a mudança de cenário e de interlocutores, sem nunca perder de vista a profunda introspecção que tanto marca a natureza do protagonista, mas mostrando também como que um ténue - mas notável - desabrochar.
No fim, é como se nada terminasse verdadeiramente - excepto aquilo que menos se esperava. O futuro de Jónas, se o tiver, fica à imaginação do leitor. E as possibilidades são surpreendentemente vastas, já que a estadia no Hotel Silêncio fez, involuntariamente, dele uma pessoa diferente. Fica, por isso, uma agradável ambiguidade, onde não há princípio e quase não há fim e onde a derradeira surpresa vem, ainda assim, de onde menos se espera.
Relativamente breve, leva, ainda assim, o seu tempo para assimilar a inesperadamente complexa teia de impressões e de emoções. Mas, cativante desde a primeira página e repleto de momentos e frases memoráveis, acaba, ainda assim, por marcar em todas as suas facetas e por surpreender tanto no que conta como no que deixa por dizer. Uma boa surpresa, em suma, e um livro que vale a pena descobrir.

Título: Hotel Silêncio
Autora: Auður Ava Ólafsdóttir
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 17 de maio de 2019

História de uma Baleia Branca (Luis Sepúlveda)

Era uma vez uma baleia da cor da lua. Habitava as profundezas do oceano, vindo à tona apenas para respirar e para aprender sobre os estranhos seres que, em barcos, se aventuravam cada vez mais longe. Até que recebeu uma missão: proteger o Povo do Mar e as baleias que os protegiam até ao momento da última viagem. Protegê-los dos homens que, avançando cada vez mais, vinham à caça das baleias para lhes retirar o óleo e a gordura. Uma baleia que se tornou protector, e que, na sua luta contra a cobiça dos homens, viria a adquirir um nome e uma reputação terríveis: Mocha Dick.
Basta um primeiro olhar a este livro para se ficar encantado. Porquê? Bem, porque sendo certo que a alma de um livro é, muitas vezes, a sua história, neste caso são as ilustrações o primeiro aspecto a marcar. Basta um breve folhear para despertar a curiosidade para a história associada a estas imagens que são pura magia - e, à medida que a história é desvendada, adquirem também um novo sentido, pois complementam na perfeição a história desta baleia branca.
É uma história relativamente breve e essencialmente bastante simples. Fica, aliás, uma certa curiosidade insatisfeita acerca de partes da história da baleia (embora talvez o nome possa ser uma boa pista de onde procurar mais respostas). Ainda assim, a história parece ter o equilíbrio certo. Ao ser maioritariamente narrada do ponto de vista da baleia, confere uma perspectiva diferente à visão quase romantizada da vida nos baleeiros. Ao cingir-se ao essencial, faz com que os grandes momentos tenham outro impacto. E ao dar conferir à baleia voz e missão ao protagonista, permite uma visão mais emotiva dos acontecimentos: expectativa, missão, fracasso, vingança e um ambíguo depois que formam um todo marcante.
No fundo, tudo gira em torno de um mesmo equilíbrio, em que a simplicidade da escrita se alia ao impacto das imagens para construir uma história capaz de marcar leitores de todas as idades. Não é, aliás, preciso conhecer Moby Dick para apreciar a história desta baleia branca, pois o seu percurso é um todo completo, cheio de aventuras, de descobertas e de emoções fortes, culminando num final que, não sendo propriamente inesperado, é ainda assim também muito marcante.
Marcante será, pois, uma boa palavra para definir este livro que, com o seu eficaz equilíbrio entre texto e ilustração, dá vida a uma história breve, mas notável em tudo o que realmente importa. Simples, cativante e muito bonita, uma boa história, em suma.

Autor: Luis Sepúlveda
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Uma Pedra Sobre a Boca (João Moita)

De sombras, de sangue, de fome e até de uma incerta fé: de tudo isto são feitos os poemas deste livro. Poemas onde a brevidade se une a uma construção de imagens tão precisa quanto perturbadora para dar forma a uma visão que é mundo e crença e sentimento sempre de uma forma muito interior. Em poucos versos, parece conter um quadro inteiro. Um quadro tão sombrio quanto eficaz na sua (aparente) simplicidade.
Abrangendo vários anos da poesia do autor, uma das coisas que importa começar por destacar é que, ao longo da leitura, sente-se não só uma viagem pessoal, mas acima de tudo uma evolução estrutural. Aos muito breves e muito sombrios poemas das primeiras páginas sucede-se como que um crescendo que, sem perder de vista os seus matizes mais obscuros, se vai tornando mais descritivo, um pouco mais distante. Início e fim são quase vozes diferentes, ainda que unidas pelo mesmo fio condutor.
Outro aspecto que cedo se torna evidente, e talvez também devido a esta evolução gradual, é a coesão do todo. Cada poema é um todo completo e, se fizermos o exercício de ler o primeiro e o último, as relações não serão lá muito evidentes. Mas, lido de forma sequencial, há neste livro como que uma união, quase como uma via sacra interior que se aproxima de um estranho clímax. Da sombra da introspecção à fome da própria terra, há espaço para imagens pessoais e imagens do mundo. E este contraste entre as duas facetas confere ao todo um sentimento de pertença.
São maioritariamente poemas muito breves, daí que esta sensação de vastidão acabe por resultar também especialmente surpreendente. E, embora não deixe de ficar também a pairar como que uma curiosidade em ver mais a fundo este mundo, o facto de cingir o traçado da imagem a poucos versos torna mais memoráveis as grandes frases - e mais peculiar o estilo global.
Finda a leitura, fica a sensação de uma estranha viagem ao interior, a um interior que tanto consegue roçar os contornos da devoção como a simples aridez da paisagem. Um interior aparentemente simples, mas de complexidade insuspeita, e em que cada poema é um passo rumo a um destino maior. Difícil de descrever, sim, mas bastante memorável.

Autor: João Moita
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Indeh (Ethan Hawke e Greg Ruth)

A guerra é uma velha inimiga da nação Apache, e ainda mais agora que os Olhos Brancos, determinados a tomar posse da terra e de todas as suas riquezas, querem confiná-los a reservas. Mas, embora sejam mais que os gafanhotos, a confiança dos soldados americanos não chega. Não contra Cochise, um chefe destemido e sábio, que tem ao seu lado guerreiros fortes, um dos quais deixaria a sua alcunha gravada na história: Gerónimo. O que começa por ser um massacre transforma-se numa guerra sem tréguas. E, muitas mortes depois, a esperança torna-se cada vez mais ténue: será possível alcançar a paz? A que preço? E por quanto tempo?
Parte do que torna um livro de banda desenhada memorável será sempre e necessariamente o equilíbrio entre a arte e a história, entre diálogos e movimento, por assim dizer. Neste livro específico, este equilíbrio atinge um novo auge. Os diálogos, sucintos, cingindo-se ao essencial, mas sempre com algo de memorável a acrescentar, aliam-se a uma arte tão avassaladoramente expressiva que se torna difícil desviar o olhar, seja no retrato das personagens, nas sequências de guerra, cheias de movimento e morte, ou até na estranha desolação das paisagens de um mundo perdido - pelo menos para os protagonistas.
Isto torna-se especialmente notável se tivermos em conta que se trata de um livro a preto e branco. Às vezes, a cor ajuda a dar vida à história, não é? Bem, neste caso, diga-se que a cor não faz falta nenhuma. Há todo um equilíbrio de tons, mais esbatidos para as memórias, mais intensos para os momentos mais próximos, sempre precisos no traçado de rostos, expressões e movimentos. E isto, além do previsível facto de tornar o livro lindíssimo, tem também o condão de tornar a leitura ainda mais memorável: ver o sofrimento nos rostos das personagens torna a sua dor mais próxima. Ver a firmeza torna mais admirável a sua coragem.
E, claro, há a história em si e toda a visão que implica. Afinal, todos nós vimos uns quantos filmes de índios - aqueles em que os índios são sempre os vilões que é preciso perseguir e abater. Pois bem, este livro inverte por completo essa perspectiva, traçando o percurso de um povo perseguido até aos limites e, como tal, forçado a quebrar também limites para sobreviver. A história de Cochise e do seu povo é memorável em si mesma e também pelo que representa: a visão de que a tantas vezes branqueada história do triunfo da civilização foi tudo... menos civilizada.
Belíssimo, intenso e marcante em todas as suas facetas, cativa desde o primeiro contacto e não deixa de surpreender até ao fim. Basta, pois, um olhar para tornar este livro memorável - e a leitura só reforça esta impressão. 

Título: Indeh
Autores: Ethan Hawke e Greg Ruth
Origem: Recebido para crítica