sexta-feira, 26 de maio de 2017

Damião, a Toupeira Furacão (Anna Llenas)

O Damião é uma toupeira com energia para dar e vender - tanta que, às vezes, os professores e os colegas não sabem bem como lidar com ele e acabam por o deixar de parte. De tantas coisas que dizem sobre ele, o Damião já não sabe muito bem o que pensar e isso entristece-o. A energia, essa, é algo que não consegue controlar. Ou será que não é bem assim? A verdade é que o Damião só precisa de um empurrãozinho para descobrir a melhor forma de aplicar a sua inesgotável energia. E, quando isso acontecer, tudo pode ficar diferente.
Muito simples, cheio de cor, com uma história cativante e uma mensagem muito positiva, este é um livro cheio de qualidades e um bom ponto de partida para ensinar a diferença aos mais novos. Diferença que pode assumir muitas formas, mas que, quando se é criança, se vê até nas mais pequenas coisas. A história do Damião, com toda a sua energia transbordante, é apenas um exemplo disso: uma figura cheia de entusiasmo, mas que, em vez de o aplicar em algo que o apaixone, se vê isolado pelos rótulos que lhe atribuem. E, no fundo, é esta a mensagem que torna memorável este pequeno grande livro: diferenças à parte, cada ser é maravilhoso tal como é. 
Mas, se é a mensagem que faz com que este livro fique na memória, também em tudo o resto há muito de bom para descobrir. Na história, que é muito simples, mas muito cativante na forma como acompanha o irrequieto Damião. Na escrita, que, cingindo-se ao essencial, deixa que os acontecimentos falem por si. E na imagem, que se ajusta perfeitamente à história, unindo-se-lhe num equilíbrio muito, muito cativante. 
Todas estas facetas se conjugam num equilíbrio delicado, em que todos os aspectos são igualmente importantes e em que tudo converge para dar à história - e à sua mensagem - a mais forte expressão possível. E, se é esse o objectivo, então a missão cumpre-se em pleno, pois as ideias não podiam ser mais claras e a forma como ganham vida na história dificilmente poderia cativar mais. O que me leva a um ponto que nunca deixa de ser importante referir: como já devem ter reparado, não faço propriamente parte do público a que este livro se destina, mas isso não me impediu de apreciar plenamente a sua leitura.
Bonito, envolvente e muito bem construído, trata-se, portanto, de um livro pensado para os mais novos, mas capaz de cativar leitores de todas as idades. E, com a sua história terna e a mensagem memorável, fica uma certeza depois desta breve leitura: vale muito a pena conhecer o Damião.

Título: Damião, a Toupeira Furacão
Autora: Anna Llenas
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Porto Editora

Henry Page não esperava apaixonar-se. Considera-se um romântico, mas nunca viveu aquele momento em que o tempo para, a barriga se enche de borboletas e a música começa a tocar, sabe-se lá onde. Pelo menos, até ao momento.
Então, conhece Grace Town, a esquiva nova colega de escola, que se veste com roupa de rapaz demasiado grande, apoia-se numa bengala, parece tomar banho poucas vezes e esconde segredos desconcertantes. Não é bem a rapariga de sonho que Henry esperava, mas quando os dois são escolhidos para coordenar o jornal da escola, a química acontece. Depois de tantos anos a salvo do amor, Henry está prestes a descobrir como a vida pode seguir um caminho tortuoso e como, por vezes, os desvios são a parte mais interessante desse mesmo caminho.
Uma estreia brilhante que equilibra humor e corações partidos, lembrando-nos de como o primeiro amor pode ser agridoce.

Krystal Sutherland nasceu em Townsville, Austrália, um lugar que não conhece o inverno. Já adulta, passou por Sydney onde coordenou a revista da universidade que frequentava; por Amesterdão, onde trabalhou como correspondente de um jornal; e Hong Kong. Krystal estagiou na Bloomsbury Publishing e foi nomeada para o Queensland Young Writers Award. Não tem animais de estimação, nem filhos, mas adora dar nomes a objectos inanimados: por exemplo, teve uma bicicleta holandesa chamada Kim Kardashian e um dinossauro pequeno e insuflável chamado Herbert. A química dos nossos corações é o seu primeiro romance.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

E Ficou a Terra (Carla Ramalho)

Filha do senhor da terra, Verónica conhece aquele que virá a ser o seu homem num bar e, em menos de nada, dá por si casada, fruto de terem sido apanhados em flagrante no mais delicado dos momentos. A união, ainda assim, não desagrada a nenhum deles e a relação parece fluir com naturalidade. Mas o marido de Verónica guarda grandes segredos e os tempos que se vivem são de revolução. E as escolhas, os actos e os planos traçados na noite terão duras consequências para a vida que ela sempre conheceu.
Narrada pela voz dos protagonistas e centrada essencialmente nos acontecimentos e percepções de ambos, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pelo registo que adopta, pois, sendo, no fundo, a história de um casal, o romance é, talvez, o mais secundário de todos os elementos que a constituem. Sim, há o encontro, a descoberta, o casamento e a vida depois dele. Mas tudo parece convergir para a revolução em curso, para os planos e para as mudanças e a nova ordem que se instala. E assim, apesar da proximidade das personagens, o enredo acaba por se distanciar um pouco da faceta emocional - realçando antes as diferenças entre os dois mundos em colisão.
Trata-se de um livro relativamente breve e, apesar disso, com um ritmo relativamente pausado. Isto porque, tanto como as experiências e pensamentos dos protagonistas, importa o contexto mais vasto em que estes se movem. As visões diferentes de Verónica e do marido, a forma como entendem a revolução em curso, as ideias que têm a contrapor às dos latifundiários... tudo isto leva o seu tempo a ponderar e, assim sendo, o ritmo da leitura acaba por ser um pouco mais lento. Mas não menos envolvente, já que de tudo isto se retira muito de interessante, não só no que diz respeito ao contexto histórico, mas principalmente na forma como estas percepções moldam a evolução dos próprios protagonistas.
O que me leva ao fim da história, que culmina no que parece ser um ponto de viragem, mas que deixa em aberto várias possibilidades. Deixando alguma curiosidade insatisfeita, mas também a sensação de ser o ponto certo para encerrar a narrativa. De Verónica e do marido, ficam alguns segredos por revelar - não só ao leitor, mas principalmente um ao outro. Mas fica, principalmente, a ideia de um futuro novo, o que, tendo em conta o clima de mudança em que toda a história parece assentar, dificilmente podia ser mais adequado.
A impressão que fica é, em suma, a de uma história simples e cativante, com um olhar bastante preciso sobre as mudanças trazidas pela revolução e uma forma bastante interessante de salientar o choque de mentalidades em tempos de mudança total. Uma boa leitura, portanto. Gostei.

Título: E Ficou a Terra
Autora: Carla Ramalho
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Desaparecida (Elizabeth Adler)

Atingida por uma garrafa de champanhe, uma mulher ruiva cai de um iate e desaparece nas águas do Egeu, no que parece ser um crime sem testemunhas. Mas não, pois, em terra, um pintor assiste à queda e tenta salvá-la. Não a consegue encontrar, é certo, mas Marco está bem ciente do que viu e não está disposto a desistir de tentar ajudá-la da maneira que puder. Principalmente quando as pistas parecem vir ao seu encontro, na forma de um misterioso multimilionário que quer que Marco pinte o seu retrato. Marco vê-se assim dividido entre a sua busca pela verdade e um trabalho que lhe pode trazer grandes vantagens. E, à medida que as ligações começam a tornar-se evidentes, também as suspeitas crescem no seu pensamento.
Com um crime como ponto de partida e vários perigos à espreita a cada momento, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo potencial da história. Primeiro, é claro, pelas circunstâncias de Angie, a rapariga que cai ao mar, e a partir daí, pela forma como planos, buscas e revelações se entrelaçam de uma forma nem sempre expectável. Além disso, dadas as circunstâncias de Angie e os planos de Ahmet há uma constante sensação de algo perigoso prestes a acontecer, o que mantém sempre acesa a curiosidade em saber o que se segue.
Também nas personagens há bastantes pontos de interesse. Angie, vulnerável, mas com uma capacidade de persistir bastante forte, o que torna todos os seus momentos bastante intensos. Ahmet e Mehitabel, em aparência completamente opostos, mas com um fundo comum e uma natureza igualmente capaz de os tornar odiosos e intrigantes. E depois Marco, Martha e Lucy, divididos entre os projectos das suas vidas e o mistério em que entraram sem saber bem como. Todos protagonizam bons momentos. Todos despertam curiosidade. E, nos momentos certos, todos têm um impacto no rumo da narrativa.
Nem sempre é fácil acompanhar o rumo da história, já que a linha temporal dos acontecimentos nem sempre é clara. Além disso, a posição das personagens perante as várias partes do mistério acaba por ser, por vezes, um pouco contraditória, perdendo-se nas suas diferentes componentes - o trabalho para Ahmet, a rapariga desaparecida, os avanços e recuos nos planos e viagens das personagens. Ora, isto torna o enredo um pouco disperso e confuso, o que, não lhe retirando por completo a envolvência, o torna um pouco mais difícil de seguir.
A ideia que fica é, portanto, a de uma história um pouco confusa, mas que, apesar do ritmo ligeiramente errático, consegue cativar pelo lado misterioso da história e das personagens. E isso basta para fazer deste Desaparecida uma leitura agradável e cativante. 

Título: Desaparecida
Autora: Elizabeth Adler
Origem: Recebido para crítica

Passatempo A História Secreta de Twin Peaks

A propósito da estreia da série Twin Peaks, o blogue As Leituras do Corvo, em parceria com a Suma de Letras, tem para oferecer um exemplar do livro A História Secreta de Twin Peaks, de Mark Frost. Para participar basta responder à seguinte questão:

1. Em que dia estreia a nova temporada de Twin Peaks?

Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 31 de Maio. Respostas posteriores não serão consideradas.
- Para participar deverão enviar as respostas para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- Os vencedores serão contactados por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Rio das Pérolas (Isabel Valadão)

Abandonada à porta de uma igreja numa noite de tempestade, a vida de Mei Lin podia ter acabado logo nos seus primeiros dias. Mas quis a sorte que fosse encontrada e que o padre da paróquia a tomasse como protegida. E assim, Mei Lin, ou Maria, vive uma infância normal num colégio de freiras - até ao dia em que, abalada pelo plano que a madre superiora tem para si, decide fugir. Começa assim um longo e penoso trajecto pelos recantos mais negros de Macau: primeiro, numa casa de ópio, depois na prostituição. E, quando finalmente parece encontrar uma vida estável, o passado insiste em vir atrás de si. Manuel ama-a - mas a família dele não parece muito disposta a aceitá-la. E, mesmo que o faça, Mei Lin estabeleceu ligações perigosas. Ligações essas que podem muito bem assombrar-lhe a vida familiar.
Um dos aspectos mais cativantes neste livro e também o que torna a história tão fácil de imaginar é a forma como a autora descreve a vida e o modo de estar das gentes de Macau, não só nas rotinas quotidianas, mas também no que diz respeito à mentalidade. E isso é interessante não só pelo retrato bastante completo que traça do cenário, mas também pela evolução que é possível sentir ao longo do tempo - as mudanças políticas e os pontos de viragem históricos podem ter uma presença discreta na narrativa, mas não deixam de ser relevantes. Além disso, este desenvolvimento do contexto permite entender melhor as circunstâncias das diferentes personagens - e, em particular, as de Mei Lin.
Também muito interessante é que, apesar de bastante completo na caracterização do cenário, o ritmo da narrativa nunca se torna demasiado lento e muito menos maçador. Talvez porque há sempre algo de relevante a acontecer na vida das várias personagens, ou talvez pela forma gradual como os elementos descritivos vão sendo apresentados, o texto flui com toda a naturalidade, proporcionando uma leitura sempre cativante e em que nunca se esbate a curiosidade de saber o que se segue. Claro que para isso contribui também a fluidez da escrita, bem como as personagens em si, que, muito diferentes, mas todas muito misteriosas, mantêm sempre acesa a curiosidade.
E, ainda que Mei Lin seja o centro da narrativa, há muito mais na história para além dela. Sim, é certo que é ela a protagonizar alguns dos momentos mais impressionantes e todas as relações parecem convergir para ela, mas há também muito a descobrir nos que a rodeiam, seja no mistério da origem de Luísa ou nas movimentações das Tríades e da sua enigmática líder. E a forma como tudo se conjuga, numa história repleta de revelações - e também de mistérios que se prolongam para lá do enredo - torna tudo mais intrigante e mais intenso. Mesmo no que é deixado por dizer, já que, apesar da grande pergunta que fica sem resposta, a conclusão parece dar-se precisamente no ponto certo.
Cativante, surpreendente e equilibrado, este é, pois, um livro que surpreende em muitos aspectos, desde a força das personagens à fluidez com que o cenário se funde na narração das suas histórias. E é esse equilíbrio delicado, com a aura de mistério que sempre o parece envolver, que torna toda a leitura memorável - e faz com que este livro seja tão bom. 

Título: O Rio das Pérolas
Autora: Isabel Valadão
Origem: Recebido para crítica

domingo, 21 de maio de 2017

Desaparecidos (Caroline Eriksson)

Greta saiu com o marido e a filha para um passeio no lago e, enquanto ela ficava no barco, Alex e Smilla foram explorar a ilha. Mas o tempo passou e eles não voltaram. Agora, sozinha no barco, Greta sabe que tem de os procurar, ainda que um pressentimento lhe diga que eles não vão voltar tão cedo. Procura por toda a ilha, volta a casa para ver se estão lá, mas não encontra ninguém. A única solução é ir à polícia e comunicar o desaparecimento, mas, quando o faz, a resposta que obtém é surpreendente: Greta não é casada nem tem filhos. O que tem são muitos segredos e um passado capaz de lhe toldar o pensamento. E a verdade, essa, pode trazer consequências terríveis.
Narrado essencialmente pela voz da protagonista e com um enredo onde nada (nem ninguém) é o que parece, este é um livro que tem como ponto forte a capacidade de manipular a percepção do leitor. Greta está muito longe de ser uma narradora fiável e a forma como conta a sua história, mudando-a segundo as percepções que tem a cada momento, faz com que tudo na narrativa seja uma grande incógnita, desde quem são realmente os desaparecidos ao verdadeiro papel de Greta em toda a situação. Ora, isto confere ao enredo uma muito intrigante aura de mistério, que cresce em intensidade à medida que a verdadeira complexidade do estado mental de Greta se vai revelando e que, de suspeita em suspeita e de possibilidade em possibilidade, prende desde muito cedo e não larga até ao fim. 
Se o grande ponto forte é o percurso, o ponto fraco é provavelmente a conclusão, já que, tendo em conta a teia traçada pelos pensamentos e percepções de Greta, a fase final acaba por ser um pouco abrupta. E, ainda que a resolução faça sentido e que o que fica em aberto aponte para as possibilidades certas, fica a sensação de que mais haveria a explorar sobre a tal componente psicológica que tão impressionante foi ao longo do caminho - até porque, para além de Greta, há algumas figuras secundárias bastante relevantes para o enredo, e das quais teria sido interessante saber mais.
Há, ainda assim, outro aspecto que importa destacar: a construção das personagens. Ainda que o que fica por dizer deixe a impressão de que haveria ainda mais a desenvolver (principalmente no que a Alex diz respeito), há algo de impressionante na forma como a autora tece a teia das relações entre os vários intervenientes, realçando-lhes as vulnerabilidades que tornam tolerável o inadmissível. Há na história de Greta e de Alex uma grande e relevante questão a ponderar sobre as relações de poder e as consequências da submissão. E é essa faceta do enredo o que realmente marca nesta história.
Intenso, intrigante e misterioso, trata-se, pois, de um livro que cativa desde muito cedo. E que, apesar de um final que sabe a pouco, consegue, com as suas muitas revelações, ficar na memória de uma forma inesperada. Basta isso para fazer desta história uma leitura interessante. Basta isso para que a leitura valha a pena. 

Título: Desaparecidos
Autora: Caroline Eriksson
Origem: Recebido para crítica