terça-feira, 19 de junho de 2018

A Célula Adormecida (Nuno Nepomuceno)

É noite eleitoral e, inexplicavelmente, o vencedor das eleições parece ter acabado de se suicidar. Entretanto, no centro de Lisboa, um bombista suicida faz explodir um autocarro e a bandeira do Estado Islâmico é içada num monumento nacional. E eis que, na iminência de um grande evento internacional, o país se vê mergulhado nas sombras do terror. De início, não parece haver grande relação entre os dois casos. Afinal, o candidato suicidou-se. Quanto ao bombista, o caso é bastante mais complexo e as suspeitas recaem sobre o seu antigo professor, Afonso Catalão. Só que nem as duas situações são casos isolados nem Afonso é apenas o que parece ser. Não é inocente, mas também não é um suspeito óbvio. E, para provar a sua inocência e, de certa forma, redimir o que fez em tempos, Afonso terá de regressar ao passado que rejeitou - e descobrir as complexas verdades que se escondem sob os acontecimentos dessa noite.
Uma das qualidades mais intrigantes deste livro, e diga-se desde já que não lhe faltam qualidades, é a forma como o autor consegue tecer um enredo intrigante e cheio de momentos de acção, sem nunca perder de vista o contexto mais vasto e os elementos pessoais que tornam o todo muito mais do que a simples soma das partes. E fá-lo sem sacrificar em nada a intensidade do enredo, pois as descrições e os elementos de contextualização enquadram-se com toda a naturalidade no ritmo a que a narrativa evolui.
Também particularmente impressionante é o desenvolvimento das personagens e o tipo de ligação que estas estabelecem com o leitor. Afonso, com o seu passado misterioso e a evidente necessidade de redenção, desperta de imediato a curiosidade e cada nova revelação só torna o seu percurso mais interessante. Mas, curiosamente, muitos dos momentos mais marcantes vêm de personagens mais secundárias - Sarita, Yusef, até mesmo Ibrahim - e a marca que deixam acaba por ser ainda mais forte pelo facto de não terem realmente grande influência no mundo em que se movem. Afinal, o terror faz-se do sacrifício de inocentes. São sempre os inocentes que sofrem.
E isto leva-me à que é, provavelmente, a maior qualidade de todas. Acontece, por vezes, neste género de livros, que o perigo e acção acabam por conduzir a um final demasiado limpo. Não é esse o caso aqui. Aqui, todos os acontecimentos têm consequências. Talvez se escape ao perigo, mas nunca se escapará inteiramente incólume. E, em vez de um fim limpo, feliz e sem pontas soltas, o que o autor apresenta aqui é algo de bastante mais complexo, mas também bastante mais realista na forma como aborda as muitas questões pertinentes evocadas ao longo do enredo.
Mas voltando ainda às personagens. É certo que há um pouco de tudo, desde os que despertam empatia imediata aos que comovem pela inocência, passando também pelos que não podem inspirar senão repulsa. Mas o mais interessante está nas relações e na forma como personagens que, de início, parece sumamente irritante na forma como lidam umas com as outras, acabam por surpreender ao revelar as suas melhores qualidades. Também daqui há algo a retirar: nada é perfeito. Ninguém é perfeito. E há profundidades insuspeitas no carácter de um ser humano.
Retrato actual de um mundo em que o medo parece ser uma presença cada vez mais constante, eis, pois, uma leitura viciante, mas também repleta de temas pertinentes e com um núcleo de personagens tão marcantes quanto as situações que protagonizam. Intenso, intrigante e cheio de surpresas, um livro memorável. E muito, muito, muito bom. 

Autor: Nuno Nepomuceno
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Afirma Pereira (Pierre-Henry Gomont)

Responsável pela folha cultural de um jornal "independente" - tão independente quanto se pode ser em tempos de ditadura - o doutor Pereira, perdido no seu próprio mundo e fascinado por um artigo que leu, contrata, para escrever necrologias antecipadas, o jovem Monteiro Rossi. Só que Rossi não é apenas um jornalista à procura de emprego. Tem amigos duvidosos, ideias revolucionárias - e isso é tudo menos aconselhável na Lisboa de Salazar. Pereira só quer saber da literatura, diz, e a política não lhe diz nada. Mas vê-se fascinado pelo idealismo do jovem - e é assim que começa a questionar...
Há algo de particularmente mágico em regressar a uma história marcante e encontrá-la num outro formato, mas com a mesma alma essencial. E é esta precisamente uma das características mais impressionantes deste livro: é uma adaptação fiel e, pese embora as necessárias diferenças, é possível reconhecer as linhas do original, vendo-as porém a uma nova perspectiva. É que o elemento visual dá-lhe uma identidade nova e uma outra vida a personagens e acontecimentos. E esta mistura entre novo e familiar é algo verdadeiramente brilhante.
Independentemente deste impacto, inevitável para quem já conhecer o romance, é também um livro completo em si mesmo - ou seja, para quem ainda não conhece o doutor Pereira, descobrir a história através desta adaptação não retira nenhum do seu impacto. Talvez tenha o efeito secundário de criar a vontade de ler o romance - tal como o romance aumenta a vontade de ler esta adaptação. Mas são elementos independentes, ainda que se complementem na perfeição.
Mas voltando à história - e pondo de parte a existência ou não de conhecimento prévio. Há na história do doutor Pereira e na sua descoberta de um mundo bastante mais cruel e complexo do que o seu mundo interior um retrato bastante preciso do que é a vida e a liberdade (ou falta de) num regime ditatorial. A censura, a violência, o inevitável secretismo marcam aqui uma presença vincada - e um contraponto à também presente (e inevitável) resistência. A história do doutor Pereira - e principalmente a forma como tudo termina - é todo um hino à resistência, nem sempre grandiosa, nem sempre bem-sucedida... mas necessária, sempre. E, se a história em si basta para o exprimir, a imagem - com tons que parecem também evocar o secretismo - torna tudo mais nítido e mais palpável.
Adaptação fiel, mas completa na sua solidez, eis, pois, um livro imperdível, tanto para quem já leu o romance de Antonio Tabucchi, como para os que não o descobriram ainda. Marcante, pertinente e, além disso, belíssimo, um livro que não posso deixar de recomendar. 

Título: Afirma Pereira
Autor: Pierre-Henry Gomont
Origem: Recebido para crítica

domingo, 17 de junho de 2018

Talento para Matar (Andrew Wilson)

Agatha Christie está a passar por uma fase difícil, ainda a sofrer com a morte da mãe e com o seu casamento em vias de desmoronar. Mas a vida está prestes a tornar-se ainda mais negra. No metro, um homem empurra-a para a linha, para depois a resgatar no último minuto, e esse homem tem as piores das intenções. Determinado a livrar-se da esposa, decidiu tirar proveito dos talentos únicos de Mrs. Christie e recrutá-la para matar a incómoda Flora Kurs. Ciente de que, se recusar, a sua família e reputação ficarão arruinadas e sem alternativas, Agatha Christie desaparece misteriosamente. Mas o seu talento para contar histórias de assassínios está longe de corresponder a uma acção impiedosa na vida real. E realizar o plano de Kurs - ou encontrar uma forma de o travar - terá sempre um preço terrível...
Um dos aspectos mais cativantes deste livro, e um que desde muito cedo se evidencia, é que, tendo como protagonista Agatha Christie, lê-se... bem, como um romance de Agatha Christie. Enigmático, cheio de reviravoltas, com personagens movidas pelo desespero ou pela ambição e com um vilão bastante arrepiante, é o tipo de policial que prende desde as primeiras páginas. E, com o seu crescendo de intensidade e a escolha impossível a que a protagonista se vê forçada, rapidamente se torna difícil largar o livro antes do fim.
É também o início de uma série, embora o mistério central tenha princípio, meio e fim. Fica, por isso, a agradável sensação de uma leitura completa e independente, com todos os seus elementos pesados nas medidas certas e a também agradável sensação de possibilidade - de muitas possibilidades a explorar no livro seguinte. Junta-se, pois, o melhor de dois mundos: a satisfação de um caso resolvido e o potencial do muito mais que poderá haver para descobrir.
Ainda um outro ponto forte nesta história é a alternância de pontos de vista - e de narrador. As partes de Mrs. Christie são narradas na primeira pessoa, permitindo um olhar mais claro e pessoal sobre os seus dilemas e sentimentos, o que é particularmente relevante tendo em conta as suas circunstâncias. E os restantes pontos de vista - Una, Davison, Kenward - mostram o mundo em volta, não só no que diz respeito à investigação do caso, mas também aos elementos pessoais que poderão servir de cobertura aos inevitáveis segredos.
Intenso, enigmático e cheio de surpresas, mas também com muita emoção e um toque de leveza resultante da naturalidade com que tudo é contado, trata-se, pois, de uma leitura cativante e surpreendente, não só pelo intrigante enredo, mas também - e principalmente - pela abordagem diferente a um elemento real da vida da protagonista. Muito bom. 

Autor: Andrew Wilson
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Príncipe das Trevas (Mark Lawrence)

Jalan Kendeth pode ser um príncipe e o neto da Rainha Vermelha, mas isso não faz dele um homem particularmente corajoso. Dedicado apenas aos seus prazeres, não pensa em muito mais do que satisfazê-los e fugir aos cobradores que, inevitavelmente, o perseguem. Mas vêm rumores do norte, rumores de um Rei Morto que, auxiliado por necromantes, fez dos mortos o seu exército. E, embora Jalan não preste grande atenção a isso, a sua presença no lugar errado à hora errada liga-o a um homem que é tudo o que ele não é - nobre, corajoso, movido por grandes valores. E a única maneira de quebrar a maldição que os une é seguir para norte e combater o que os puxa para lá...
Situado no mesmo mundo e na mesma linha temporal da Trilogia dos Espinhos, este é um livro que, podendo ser lido sem qualquer conhecimento prévio da história do mundo, se torna ainda mais impressionante se olharmos para os paralelismos que existem. Sim, o mundo é o mesmo e, portanto, os grandes problemas também os são. Mas o mais marcante é que basta este primeiro volume para antecipar um percurso de crescimento tão notável para Jalan como o que Jorg sofreu. O Jalan do fim do livro não é o mesmo que nos foi apresentado no início da história. E se o Jalan inicial já tinha carisma para dar e vender... bem, o que se segue só pode ser fantástico. 
Outra das muitas qualidades deste livro é a sempre fascinante escrita do autor  e a forma como, ao longo de todo o enredo, surgem inúmeras frases memoráveis. Além disso, a voz de Jalan parece ajustar-se na perfeição à sua personalidade, o que, além de despertar uma surpreendente proximidade, pois realça as emoções (principalmente o medo) do protagonista, confere a tudo, desde os acontecimentos aos cenários por onde passam, uma perspectiva bastante mais invulgar.
Nem só de Jalan vive a história, ainda que, com as suas inúmeras peculiaridades, bastasse ele para fazer com que a leitura valesse a pena. E, além de umas quantas figuras mais ou menos secundárias, mas todas relevantes, que contribuem em muito para a aura de mistério e intensidade que rodeia toda a narrativa, há Snorri, em tudo o oposto e em tudo complementar a Jalan. Snorri, com a sua posição delicada, o seu papel de estrangeiro vulnerável, a sua força física e a sua nobreza interior, é o contraponto perfeito a um príncipe vindo de todos os prazeres e que parece começar a crescer na provação.
E a história em si é irresistível, desde os momentos iniciais de ócio e de pequena intriga de um príncipe que procura, acima de tudo, salvar a própria pele, à longa viagem para norte, com todas as descobertas e perigos, e que culmina no derradeiro confronto com o que seguiram e os perseguiu. Viagem que, cheia de episódios marcantes em si mesma, ganha ainda um toque adicional de fascínio ao cruzar-se com personagens já conhecidas de outras andanças e que, dada a sobreposição temporal entre as duas trilogias, é particularmente agradável reencontrar. 
Intenso, cativante e cheio de surpresas e revelações, tanto no desenrolar da história como, acima de tudo, no crescimento das personagens, eis, pois, um livro que está mais que à altura das elevadíssimas expectativas deixadas pela Trilogia dos Espinhos. Com um enredo brilhante, personagens fascinantes e uma escrita que nunca deixa de surpreender... mal posso esperar para saber o que acontece a seguir. 

Autor: Mark Lawrence
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O Que Fica Somos Nós (Jill Santopolo)

Lucy e Gabe conheceram-se no dia 11 de Setembro de 2001 - o dia em que o mundo mudou e o mesmo aconteceu com as suas vidas. Talvez tenha sido a experiência de partilhar aquele dia ou talvez tenha sido uma manifestação do destino, mas entre ambos nasceu um amor firme e duradouro. Só que nem sempre o amor basta. Lucy e Gabe têm sonhos distintos e o de Gabe passa por correr o mundo em busca de fotografias capaz de mudar mentalidades, pôr fim a guerras e acabar com o sofrimento. Passa por deixar Lucy para trás e é isso que acaba por fazer. Mas nem os anos que passam nem a distância e a falta de contacto - nem sequer outros relacionamentos - podem apagar o elo que os unem. E quando, demasiados anos depois, ante a mais difícil de todas as decisões, é preciso dar enfim uma conclusão ao que os uniu, Lucy sabe que tem de lhe contar o seu último segredo...
Uma boa forma de definir a essência deste livro seria, talvez, um equilíbrio de imperfeições. Imperfeições premeditadas, entenda-se, pois uma das primeiras coisas a saltar à vista nesta leitura é que nenhuma das personagens é perfeita. O cerne da história pode ser uma relação romântica que se prolonga através do tempo e das dificuldades, mas Lucy e Gabe têm divergências e desacordos, como acontece a qualquer ser humano, e pontos que nunca podem ser comuns. E isto aplica-se também a Darren, o terceiro elemento central nesta história de relações. Darren, Lucy e Gabe - tão capazes de manifestações de puro amor como de gestos de condescendência e de desprezo para com o papel e as aspirações dos outros. 
Ora, isto desperta, por vezes, sentimentos contraditórios. É fácil admirar os grandes sonhos de Gabe, mas não a sua disponibilidade para deixar tudo o resto para trás. É fácil sorrir ante o humor e os grandes gestos de Darren, mas não ante a forma como desvaloriza os sonhos e o papel de Lucy na vida familiar. E quanto a Lucy, é fácil entender as suas dúvidas e inseguranças, ainda que nem sempre a forma como lida com os seus segredos. São personagens ambíguas e talvez por isso despertem um pouco menos de empatia. Mas é também isso que as torna mais reais.
Também a forma como a história está contada reflecte este equilíbrio delicado. É Lucy a contar a história a Gabe, o que desde logo promete grandes revelações para o final. Mas além disso, este registo pessoal de confidência à pessoa amada, torna as emoções mais abertas, mais intensas, o que reforça tanto o impacto dos pequenos momentos como o das últimas revelações.
É, pois, uma história de gente imperfeita - à procura da perfeição possível. A história de um amor frágil, mas duradouro, e das vidas complexas (e, sim, imperfeitas) que giram à volta desse amor. Envolvente, emotivo e com um tom intimista que torna tudo mais marcante, uma leitura que cativa desde o início e que, nas grandes e nas pequenas coisas, não deixa de surpreender até ao fim. 

Autora: Jill Santopolo
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Wissper - Problemas de Suricatas

O Monty e a sua família de suricatas têm um problema: a toca é demasiado pequena para todos e, por isso, têm de dormir à vez. Felizmente, a Wissper tem um dom peculiar e pode ajudá-los. Com a sua flauta, transporta-se para a casa dos suricatas e, com a ajuda de um animado grupo de pinguins, encontra uma forma de resolver o problema. Afinal, a Wissper gosta de ajudar os amigos - estejam eles onde estiverem!
Cativante e colorido com a sua história simples e cheia de magia, este é um livro que, pensado para os mais pequenos, consegue igualmente despertar a nostalgia em quem já há muito deixou a infância para trás, o tempo em que era fácil acreditar em animais falantes e em magia e em que a inocência fazia ver o bem em toda a parte. E este é, aliás, um dos pontos fortes das histórias da Wissper: há sempre uma mensagem positiva associada às suas pequenas aventuras, ou não fosse o espírito de entreajuda a essência das viagens da pequena protagonista.
Mas há também uma história cativante e divertida e um curioso paralelismo entre a vida familiar da Wissper e a dos amigos que lhe pedem ajuda. Neste caso, a questão é o espaço em casa - e as possíveis formas de resolver o problema. E se, na casa da Wissper, a solução é evidente desde o início, já no caso de Monty e dos seus companheiros... bem, a resposta é bastante mais peculiar e engraçada.
Mais uma vez, importa realçar a cor e a beleza das imagens, tão importantes para captar a atenção dos mais novos e também para dar mais vida a esta aventura. E cor não falta neste livro, tanta que basta um breve folhear para despertar a curiosidade para as suas várias personagens.
Tudo somado, fica a imagem de mais uma história breve e simples, mas sempre cativante e com uma mensagem muito positiva. Uma boa história para ler aos mais pequenos... ou para ler, simplesmente.

Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 12 de junho de 2018

The Call - A Invasão (Peadar O'Guilin)

Nessa e Anto sobreviveram à Terra Cinzenta e julgavam ter cumprido a sua parte. Mas as coisas estão longe de ter terminado. Agora, quando pensavam ter pela frente uma vida juntos, vêem-se novamente separados. Nessa, acusada de traição, pois nunca poderia ter sobrevivido sozinha na sua condição, é levada para interrogatório antes de ser enviada de volta à Terra Cinzenta. E Anto é enviado para junto de um grupo de combatentes - quanto mais não seja, para o manter na ignorância do que está a acontecer a Nessa. Entretanto, os Sídhe não desistiram da sua ambição de reconquista. E uma promessa cumprida pode anular uma promessa desfeita, permitindo-lhes tomar finalmente posse da terra que julgam ter-lhes sido roubada...
Tal como aconteceu com o primeiro volume, um dos aspectos mais marcantes deste livro é o vincado contraste entre a relativa simplicidade da escrita, com o seu estilo directo a ajustar-se à juventude das personagens, e o intrincado lado sombrio da história. Aqui, os Sídhe são tudo menos fadas bondosas e o que são capazes de fazer está na base de várias descrições macabras e perturbadoras ao longo do livro. E, claro, em resposta à crueldade, também a Nação responde com crueldade, o que cria uma situação intensa, em que os fins justificam os meios e a justiça passa para um muito distante segundo plano.
Também a evolução do enredo tem muito de intrigante. Se já no primeiro livro a sobrevivência era o essencial, aqui passa a ser quase a única regra. E se ,por um lado, isso dilui alguma empatia - há personagens de que é pura e simplesmente impossível gostar - , por outro, confere à história um maior dramatismo. Tal como o Chamado, é também uma corrida contra o tempo a acção das personagens neste livro. Mas com consequências bastante mais vastas e, como tal, com muito menos limites morais. 
E, como se não bastassem as acções dos Sídhe para conferir à história um registo bastante negro, também a posição dos protagonistas se torna cada vez mais desesperada, o que, além de ser, por si só, uma surpresa, pois desde cedo se percebe que não haverá finais limpos e muito menos perdas mínimas, reforça o impacto dos grandes gestos, pois há uma estranha nobreza no sacrifício quando já tudo se perdeu. 
Intenso, surpreendente e inesperadamente (ainda mais) negro, trata-se, pois, de uma notável mistura de continuidade e evolução relativamente ao primeiro volume. E, ainda que deixando para trás algumas questões em aberto, de uma conclusão mais que adequada para um enredo que nunca poderia ter um fim fácil. Uma boa história, sem dúvida, de um autor para continuar a acompanhar.

Autor: Peadar O'Guilin
Origem: Recebido para crítica