domingo, 9 de dezembro de 2018

Um Rapaz Chamado Natal (Matt Haig)

O pequeno Nicolau não tem uma vida fácil, mas tem o amor do pai e isso basta-lhe. Até ao dia em que as coisas começam a correr mal. Tudo começa com a chegada de um caçador que convida o pai de Nicolau a embarcar numa expedição em busca da terra dos elfos. Ora, isto significa que Nicolau acaba por ter de ficar com a sua tia, que é tudo menos simpática e afável. Com o passar dos meses e a falta de notícias do pai, Nicolau acaba por decidir ir à procura dele. Mas o caminho é árduo e não basta descobrir os elfos. Pois o que aconteceu à expedição traz algumas verdades difíceis. E só a fé de Nicolau no impossível poderá mudar um pouco as coisas.
Pensado para os mais novos, mas perfeito para leitores de todas as idades, este é um livro que tem muitas qualidades. E a primeira é a mistura de inocência com lucidez, pois Nicolau, sendo uma criança, ainda vê o mundo com a inocência da infância e a sua história é feita de aparentes impossíveis, mas há também verdades duras e dificuldades. A história de Nicolau pode ser mágica, mas não se faz de soluções fáceis. E é talvez por isso mesmo que acaba por ser tão marcante. 
Outra grande qualidade é a magia em si, claro. Magia na história, magia nas capacidades das personagens, magia como força motriz do mundo dos elfos... e magia na escrita. Matt Haig escreve maravilhosamente, e isto aplica-se tanto aos seus romances mais adultos como a estes livros pensados para os mais novos. Há frases simplesmente deliciosas ao longo desta história e tudo parece fluir com total naturalidade. Mesmo quando o que nos é contado é improvável! Além disso, as ilustrações complementam na perfeição a magia do texto, dando caras e corpos às personagens e também um toque peculiar a um cenário já de si incomum.
E depois há as personagens, naturalmente. Nicolau, com a sua infância difícil, a sua crença vincada na bondade e o seu longo percurso rumo à descoberta de quem é, é uma personagem que cativa desde o primeiro contacto e nunca deixa de surpreender com a sua sabedoria inocente. E depois há os que o rodeiam: os sempre peculiares elfos, as renas, a Duende da Verdade... todas estas personagens acrescentam magia à história, além de alguns rasgos bastante brilhantes de humor. E, no fim, todas têm o seu papel na transmissão de uma mensagem positiva e clara: a de que, na vida, nem tudo corre bem... mas também há muito de bom à espreita.
Magia e inocência nas medidas certas: são estes os ingredientes centrais desta história ternurenta, cativante e, a espaços, muito comovente. Uma história para iluminar o Natal de leitores de todas as idades. Recomendo.

Autor: Matt Haig
Origem: Aquisição pessoal

sábado, 8 de dezembro de 2018

História de Portugal: Perguntas e Respostas (Luís Mendonça)

Desde a alegada descendência dos lusitanos aos motivos para a adesão à moeda única, passando por invasões, revoluções, guerras e tratados, sem esquecer, claro, os hábitos e mentalidades dos diferentes períodos históricos: de tudo isto é feito este livro que, através de um conjunto de perguntas que englobam toda a história de Portugal, desmistifica algumas ideias, ao mesmo tempo que apresenta uma explicação sucinta, mas bastante clara, de vários pontos essenciais. São setenta perguntas ao todo. E, nas respostas, há muito para descobrir.
Um dos aspectos mais interessantes deste livro é a forma como consegue abranger uma história tão vasta e, embora não a analisando de forma exaustiva, não deixar de fora nenhum elemento essencial. É verdade que há grandes acontecimentos aos quais não é dedicada uma pergunta específica. Mas estão tão presentes no contexto de algumas das outras perguntas que a informação relevante acaba por estar lá de qualquer forma, sendo assimilada também da mesma forma.
Setenta perguntas, muitos séculos de história e menos de trezentas páginas implicam, naturalmente, que não será uma abordagem detalhada a todas estas questões. Também não parece ser esse o objectivo: para isso, há livros mais concentrados num único destes temas, o que lhes permite uma abordagem mais completa. Ainda assim, é interessante notar que, apesar da brevidade, a sensação que fica é a de ter lido um texto bastante completo, não só por toda a informação essencial estar presente, mas também, talvez, pelo registo algo grave que parece definir a escrita.
É, pois, um livro mais denso do que o habitual neste género de livros dedicados a explorar sucintamente múltiplos episódios históricos. E, sendo por isso uma leitura mais pausada, não perde, ainda assim, nenhuma da sua capacidade de cativar. Até porque o conhecimento transmitido é muito e, apesar da relativa brevidade das respostas, há muita informação interessante para descobrir ao longo desta leitura.
Tudo se conjuga, então, numa impressão bastante positiva: a de um livro que demora o seu tempo, mas que apresenta muita informação relevante sobre a história de Portugal - não só no que respeita aos grandes acontecimentos, mas também aos hábitos e mentalidades. Interessante e cativante, uma boa leitura, em suma.

Autor: Luís Mendonça
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Miss Marley (Vanessa Lafaye)

Clara e Jacob Marley são dois órfãos a viver na rua e todas as noites Jacob promete a Clara que as coisas vão melhorar. Mas, quando isso acontece, é devido a um homem que morreu na rua e esse facto assombrar-lhes-á o caminho até ao fim. Pois Jacob tem apenas um objectivo: garantir que não voltarão a ser pobres. E, à medida que as suas vidas evoluem a partir dessa primeira bolsa dourada, o coração de Jacob começa a mudar. Enquanto Clara se move por compaixão e piedade, Jacob pensa apenas nas suas ambições. E, quando os negócios e os assuntos pessoais começam a misturar-se, revela-se a verdadeira frieza do coração de Jacob.
Jacob Marley é uma personagem célebre. Quem não o reconhece de Um Cântico de Natal? Mas, visto pelos olhos de Clara, este livro mostra um Jacob muito diferente e o caminho que fez dele o fantasma que todos conhecemos. Pois Jake, o pequeno órgão, é muito diferente do homem que surge no fim e a história desta mudança é muito impressionante.
É também uma história muito comovente. Clara, vulnerável desde criança, cresce para se tornar uma mulher com o coração no sítio certo. Há, por isso, um óbvio contraste e um equilíbrio muito delicado entre as acções e pensamentos de Jacob e os de Clara. É Clara a personagem que realmente marca neste livro, com a triste história de tudo o que passou e a sua natureza fiel, compassiva e afectuosa a guiá-la mesmo até ao fim. E é também uma pequena luz entre as trevas do irmão. Um farol de bondade no meio da crueldade dos negócios.
Há em toda esta história uma beleza algo melancólica, algo comovente que a torna memorável. E também a escrita faz parte do que a torna assim. Tudo parece fluir com naturalidade, desde os diálogos mais intensos às descrições dos diferentes cenários. E aquela visão final... bem, é digna do próprio Dickens.
Tudo se resume, pois, a isto: uma história bela, intensa e capaz de partir corações, apresentando uma nova perspectiva para uma muito célebre personagem e introduzindo novos elementos - e também novas profundidades - a um conto já bastante impressionante. Clara e Jacob Marley - na sua perfeita oposição - são ambos personalidades memoráveis. E o mesmo se aplica a esta sua bela história. 

Título: Miss Marley
Autora: Vanessa Lafaye
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O Homem que Matou o Diabo (Aquilino Ribeiro)

Uma visita fortuita fez com que o caminho de Máxima, célebre actriz, se cruzasse com o de Macário, que imediatamente fica enfeitiçado por ela. E agora, incapaz de a esquecer, apesar do seu lugar seguro e do conformismo que sempre o manteve ali, eis que, sem conseguir resistir à tentação, Macário parte numa peregrinação invulgar. É que Máxima incumbiu-o de esculpir o seu busto. E isso - bem como o amor inebriante que o consome - basta para levar Macário a atravessar Espanha e parte de França a pé, passando por inúmeras provações, em nome de um amor que não consegue esquecer. Só que o amor não basta - muito menos para alguém como Máxima. E o que Macário julgava ser o fim da sua via sacra poderá ser apenas o início...
Denso, pautado por vastas reflexões, descrições tão extensas como a paisagem que retratam e uma linguagem também muito elaborado, este é um livro que exigirá o seu tempo, mas que não deixará de trazer as suas recompensas. Leva o seu tempo, porque ao ritmo pausado associa-se uma visão surpreendentemente ampla de certos temas de fé e moralidade - principalmente tendo em conta a quase improvável inocência inicial do protagonista. Mas vale a pena, pois, além da peregrinação física de Macário, com todas as suas aventuras e desventuras, há também como que uma peregrinação interior, da inocência de uma fé cega à percepção de um mundo muito mais complexo e cruel.
Há toda uma multiplicidade de facetas em torno da figura de Macário, personagem central de toda esta aventura. Enquanto homem apaixonado, deixa-se levar pelo seu demónio interior até ao mais amargo dos cálices. Enquanto inocente, vê-se perante um mundo cujas forças nunca conseguirá realmente vencer. E se, ao longo do seu caminho, há todo um conjunto de momentos notáveis - das situações mais caricatas às mais inesperadamente comoventes - é o final que realmente marca. O Macário do final deste livro está muito longe de ser o do início e, mais do que as longas palavras dedicadas ao seu mentor, são os derradeiros gestos que o provam. Do homem que tinha medo dos ruídos do convento abandonado nada resta. E as escolhas, essas... bem, nada faria prever que fossem de tal molde.
Mas, voltando ainda à questão da densidade da escrita, pois faz também um certo sentido que assim seja. A história de Macário é um aprofundar das percepções do mundo, uma descoberta de que a vida é muito mais complexa e mais dura do que o que sempre lhe foi ensinado. É certo que este alongar de explicações e pensamentos torna a leitura mais pausada. Mas também o é que realça a transformação operada em Macário: da inocência de uma criança grande à indiferença de um homem duro como a vida.
Repito-me, pois, em jeito de conclusão, dizendo que é, de facto, um livro que leva o seu tempo, mas que vale muito a pena. Pois, com o seu protagonista invulgar e o atribulado percurso de crescimento para ele construído, consegue reflectir na perfeição algumas das facetas mais duras do mundo e dos homens. E é também essa familiaridade que torna a leitura notável. 

Autor: Aquilino Ribeiro
Origem: Recebido para crítica

domingo, 2 de dezembro de 2018

Almanaque de Natal

Vem aí o Natal. Luzes nas ruas, cânticos natalícios, árvores enfeitadas, presépios, doces... enfim. Um sem fim de pequenas coisas para nos lembrar o espírito festivo. E é de tradições, de histórias, de convívios e... mais uma vez, de doces... que é feita esta quadra. Por isso, o que este almanaque pretende é reunir todos estes aspectos da época numa viagem pelas particularidades do Natal: desde as origens aos hábitos, sem esquecer, claro, o inevitável Pai Natal.
Quer se seja um apaixonado por esta época de luzes, quer um daqueles que acham o Natal uma simples época de consumismo e hipocrisia (e, por isso, se irritam com tudo quanto é natalício), provavelmente há neste livro algo fácil de compreender. Quanto mais não seja a secção intitulada "Eu Odeio o Natal". Mas, gostando ou não, há muito sobre esta época que importa lembrar e descobrir, desde as tradições mais famosas às mais surpreendentes (e um tanto ou quanto aterradoras) criaturas. Este livro é, por isso, ideal para entrar no espírito natalício, mesmo para aqueles para quem esse espírito não é coisa muito abundante.
Mas não é só o teor do livro que é natalício. O próprio aspecto visual grita Natal em cada página, com as ilustrações a reforçar o ambiente festivo que caracteriza todo este Almanaque. É um livro bonito, o que faz dele também - naturalmente - um bom presente de Natal. E é, acima de tudo, um daqueles livros que nos fazem voltar a tempos inocentes: ou não teremos todos um dia ficado todos na esperança de que o Pai Natal descesse pela chaminé e nos trouxesse algo de bom?
Voltando ainda um bocadinho atrás. Há um pouco de tudo neste livro, desde as tradições dos diferentes países aos hábitos culinários, passando pela história, os cânticos, as decorações, várias sugestões (livrescas, naturalmente) de presentes de Natal e até algumas anedotas da época. E há também, no fim, um espaço para um Natal mais literário, com dois contos surpreendentemente angustiantes e comoventes e dois poemas de também surpreendentemente leveza, para nos lembrar que Natal pode ser luz e festa, mas, para alguns, está muito longe de ser perfeito. 
Bonito, cativante, capaz de arrancar sorrisos com a sua escrita leve e o seu retrato animado destes tempos de luz - e também lágrimas com algumas das páginas finais. Assim é este Almanaque de Natal: completo, envolvente e cheio da magia que caracteriza esta época do ano. Muito bom, em suma. 

Origem: Recebido para crítica

sábado, 1 de dezembro de 2018

Plano Natalício de Leituras


Estamos na época das luzes, dos embrulhos, do frio e da música natalícia em toda a parte. Vem aí o Natal. E que melhor forma de entrar no espírito do que... livros natalícios? 
Este ano, decidi tentar algo um pouco diferente. Sem grande organização - até porque os outros livros continuam a chamar por mim - , decidi escolher esta pequena pilha de livros natalícios para intercalar com as (muitas) outras leituras em curso. Por isso, se tudo correr de acordo com este meu plano natalício, estes são alguns dos livros que me vão fazer companhia durante este mês.

E vocês, o que vão ler este Natal?

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

São Lágrimas, Senhor, São Lágrimas (Fernando Correia)

Basta ligar a televisão ou abrir um jornal para nos cruzarmos com estas histórias recorrentes: casos de violência doméstica que acabam em morte, mesmo quando previamente sinalizados, situações em que o medo continuado fez com que tudo se descobrisse demasiado tarde e também as batalhas jurídicas que se seguem à denúncia. Mas quebrar o silêncio é o primeiro passo e é essa a mensagem que, através das histórias reais reunidas neste livro, o autor pretende transmitir. O resultado é um livro perturbador - mas muito, muito relevante.
Sendo um livro relativamente breve, e que contém várias histórias, um dos aspectos mais marcantes prende-se com a capacidade de, em poucas páginas, conter uma vida inteira sem nunca parecer que há algo por dizer ou outro lado da história. Os factos são os factos - puros e duros - e é a estes, bem como ao impacto emocional que têm, que o autor se cinge, o que faz com que a mensagem sobressaia com mais intensidade. 
Há, aliás, um contraste curioso na forma como este livro está estruturado. A introdução que o autor faz a cada história, com o seu registo como que pensativo, quase poético, contrasta fortemente com a brutalidade dos casos. E, se isto cria uma espécie de efeito de choque - como se de dois mundos diferentes se tratasse - também realça o verdadeiro âmago da questão. A violência existe e, às vezes, vem de onde - e como - menos se espera. Conhecer os casos, conhecer as histórias, é por isso fundamental.
Às histórias, une-as o demónio da violência doméstica. O resto é diferente: diferentes meios, diferentes classes sociais, gente de poucos estudos e com cursos superiores, fortes e vulneráveis, mas todos susceptíveis. O que reforça também outra faceta da mensagem: a violência existe e não apenas nos meios instruídos. Às vezes, está onde menos se imagina e não é mais nem menos importante por afectar alguém com uma posição mais (ou menos) privilegiada.
Trata-se, em suma, de um livro relevante e de uma importante chamada de atenção, e basta isso para justificar a leitura. Mas é também um livro marcante, não só pela mensagem que transmite, mas, acima de tudo, pela forma precisa e clara como retrata os diferentes casos - e as angústias a eles associadas. Vale a pena, pois, ler este livro. E pensar... principalmente pensar.

Autor: Fernando Correia
Origem: Recebido para crítica