segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Mãe, Promete-me que Lês (Luís Osório)

Escrever, ao estilo de uma kafkiana Carta ao Pai, uma carta à mãe há muito perdida, mergulhando nas boas e más memórias do passado para ajustar, talvez, as contas que foram deixadas por saldar: é esta a linha essencial deste livro. Um livro que, vasculhando memórias intransmissíveis, dificilmente poderia ser mais pessoal, mas que, ainda assim, parece evocar sentimentos mais vastos e familiares, independentemente das divergências. Pois podem-se conhecer ou não as figuras mais célebres, que as relações, essas, são universais. E é este equilíbrio entre o íntimo e o global que torna esta leitura tão cativante.
Uma das primeiras coisas a surpreender neste livro é que, embora centrado em memórias pessoais, se lê como se de um romance se tratasse. Apresenta-nos as suas figuras - o autor, os elementos da família, os amigos, a sempre presente Mãe - como personagens completamente novas. São-no, aliás, para quem lê. E assim, o que acontece é que o mergulho que o autor da carta faz nas suas próprias memórias transporta-nos a essa mesma viagem, levando-nos a conhecer as suas principais figuras e os sentimentos muitas vezes complexos a elas associados.
É concebível que, ao escrever sobre uma pessoa amada que partiu, pudesse surgir a tentação de embelezar as coisas. Não é o que acontece aqui. Lembrando, mais uma vez, a carta de Kafka, também aqui há espaço para todo o tipo de sentimentos e memórias: afectos e ódios, laivos de ternura e grandes traumas. E o caminho é longo - é uma vida inteira - , mas há tanto para descobrir e tantos (e tão fortes) sentimentos por trás que é quase como viver também um pouco dessa vida. É um percurso único, sim, e absolutamente pessoal - mas é fácil encontrar pontos de empatia. E é isso afinal que fala ao coração.
Importa ainda falar da escrita em si, até porque, num registo tão pessoal, a forma como as coisas são ditas ganha outro peso. É de uma carta que se trata - de uma longa carta ao passado, talvez - e, assim sendo, faz todo o sentido o registo intimista do texto. Faz também sentido o divagar entre diferentes momentos, pois é de memória que se trata, não de uma história linear, e é também isso que cria a muito interessante sensação de ter entrado nas memórias sentimentais do autor - pois não mostra só as recordações, mas também os sentimentos que elas provocam.
Não é um romance, mas poderia sê-lo. Porquê? Porque é como descobrir toda uma vida de raiz. Com o seu registo pessoal e introspectivo, o seu deambular por memórias únicas, mas com pontos e sentimentos comuns a muitas outras vidas, e a abertura de quem fala a alguém muito amado, mas muito distante, é quase como ver alguém contar uma história a si mesmo. Tornando-a real para todos os que a lerem. 

Autor: Luís Osório
Origem: Recebido para crítica

domingo, 11 de novembro de 2018

Artemis (Andy Weir)

Jazz Bashara pode não ter a mais moralmente correcta das vidas, mas, para continuar a viver na cidade lunar de Artemis, está disposta a fazer qualquer coisa. Graças a uns quantos trabalhos mal pagos e ao seu negócio de contrabando, tem conseguido manter-se à tona, mas, quando falha um exame, a sua melhor hipótese desvanece-se subitamente. Agora, precisa de encontrar outra forma de saldar uma dívida antiga e, quando menos espera, um dos seus melhores clientes propõe-lhe um trabalho acima de todas as expectativas: bem pago, à altura das suas capacidades... e altamente ilegal. Jazz não consegue resistir. Só que há muito que não sabe acerca desse trabalho e, quando as coisas começam a descontrolar-se, pode estar em risco o futuro de Artemis. Para não falar da vida da própria Jazz.
Um pouco à semelhança do que acontece em O Marciano, um dos aspectos mais cativantes deste livro é a forma como o autor consegue conjugar uma boa dose de ciência (com explicações bastante detalhadas) e um cenário completamente novo, o que implica umas quantas descrições extensas, com um enredo cheio de acção e de surpresas e um núcleo de personagens muito interessantes. Não é difícil de prever que a soma de todas estas partes será uma leitura viciante. O que talvez já surpreenda é a forma como tudo parece encaixar na perfeição, com os momentos de tensão e de perigo a contrastar com o delicioso sentido de humor da protagonista e com os rasgos de emoção que surgem precisamente nos momentos certos. 
Dificilmente se poderia pedir algo mais diferente que uma cidade na Lua. E, contudo, tudo flui com naturalidade. O sistema que rege Artemis fascina desde as primeiras revelações e vai-se tornando cada vez mais intrigante à medida que mais dos seus estranhos meandros se vão tornando visíveis. Além disso, há várias questões pertinentes a transpor para a realidade terrestre, desde as movimentações de Jazz na economia paralela aos planos económicos da administradora - passando, é claro, pela estranhamente eficaz forma de justiça de Rudy.
E, claro, há as personagens propriamente ditas. Algo que cedo se torna evidente é que não há personagens perfeitas nesta história (ainda que Rudy, com a sua estranha dedicação à justiça, possa aproximar-se um bocadinho disso). Basta a profissão de Jazz para estabelecer a sua ambiguidade moral, mas as circunstâncias levam a que outras personagens sejam também testadas nesse aspecto. E não é só a moral complexa que as torna notáveis: as relações delicadas, a forma como uma situação de perigo faz com que certos elementos do passado venham à tona, as amizades, os conflitos e as reconciliações possíveis, tudo isto faz parte do que confere intensidade à história. E não é só Jazz a fascinar com as suas peculiaridades. Há rasgos de brilhantismo nos diálogos de algumas personagens, principalmente no muito peculiar Svoboda, com a sua natureza paradoxalmente inocente. 
Intrigante desde as primeiras páginas, cresce em intensidade e complexidade sem nunca perder a leveza viciante, nem mesmo no impressionante final. E é isso que torna este livro tão notável: o equilíbrio entre muitas (e deliciosas facetas) que, juntas, formam um todo maior. E muito, muito bom. 

Título: Artemis
Autor: Andy Weir
Origem: Recebido para crítica

sábado, 10 de novembro de 2018

A Nossa Vida em Sete Dias (Francesca Hornak)

É a primeira vez em muito tempo que os Birch vão passar o Natal juntos, embora não seja uma opção totalmente voluntária. Olivia esteve na Libéria numa missão humanitária e agora tem de passar - juntamente com toda a família - uma semana de quarentena. E a verdade é que as relações não são propriamente fáceis. Principalmente quando todos parecem guardar algum segredo. Olivia não cumpriu estritamente as regras na Libéria. Andrew, o pai, acaba de descobrir que tem um filho que nunca conheceu. Emma foi diagnosticada com um cancro. E Phoebe, a sempre caprichosa irmã, acaba de ser pedida em casamento, mas não está tão feliz quanto devia. Fechados na mesma casa, não é o amor que os une que vem a tona, mas os pequenos atritos e as grandes irritações. E eis que, quando parece que a situação não pode piorar, os segredos começam a vir à tona...
Acompanhando a perspectiva das diferentes personagens e, portanto, também os seus diferentes sentimentos, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, por estar tão longe da harmonia familiar perfeita. Com os seus segredos e conflitos familiares, bastam alguns capítulos para perceber que os Birch não são propriamente uma família feliz. E é precisamente este ponto de partida que torna a história tão interessante: é que podem nem sempre gostar muito uns dos outros, mas são família, e os dias passados na companhia forçada uns dos outros, abrem caminho a uma muito interessante evolução.
Tendo em conta que tudo começa com atritos e divergências, a impressão inicial será sempre a de se estar a descobrir uma família disfuncional. Mas isso rapidamente muda. À medida que a história progride e as emoções das diferentes personagens vêm à tona, o que parecia disfuncional acaba por se revelar apenas complexo e também os atritos começam a dar lugar a uma ligação mais forte. Além disso, com os segredos e as dificuldades, vem também um percurso de aproximação e um crescendo emocional que faz com que as personagens que, de início, não nos diziam assim tanto, se tornam surpreendentemente memoráveis. Não deixam de ter os seus defeitos, claro, mas é precisamente isso que as torna tão reais.
Fica também a muito cativante (e surpreendente) sensação de se estar a acompanhar uma história completa e muito mais vasta do que apenas os sete dias da quarentena. Há temas relevantes e pequenos rasgos de leveza, grandes alegrias e ainda maiores sofrimentos, expectativas, motivos de ansiedade, afastamentos e aproximações. É, como diz o título, uma vida em (um pouco mais de) sete dias, com todas as descobertas, angústias e revelações que isso implica. E, entre os momentos divertidos e as explosões de emoção, as tensões e reconciliações e o final avassalador, as personagens tornam-se muito, muito mais próximas... e a história muito, muito marcante. 
História de conflitos e afectos familiares, mas, acima de tudo, de vidas vulneráveis, trata-se, pois, de uma leitura cativante, surpreendente e repleta de momentos memoráveis. Marcante, divertido e comovente em todos os momentos certos, um livro para recordar por muito tempo. Muito bom. 

Autora: Francesca Hornak
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Outcast, Vol. 4: Sob a Asa do Diabo (Robert Kirkman e Paul Azaceta)

Ainda ninguém sabe ao certo o que eles são, mas tudo indica que são legião e estão espalhados por toda a parte. O que procuram é também um enigma, mas há algo que os atrai para os Proscritos e, ao que parece, também a filha de Kyle Barnes possui os mesmos dons que ele. Quanto a Kyle... está numa situação delicada. E o seu único verdadeiro aliado, o reverendo Anderson, terá de correr grandes riscos se quiser ajudá-lo. Principalmente porque também ele está a lutar com os seus demónios... 
Nunca deixa de ser impressionante a forma como cada um destes livros parece elevar o enredo a um novo pico de intensidade. Claro que era de esperar que as coisas fossem... tensas... à partida, tendo em conta o final do volume anterior, mas a forma como os autores conduzem a história, entrelaçando grandes momentos de acção com revelações cada vez mais poderosas e uma cada vez maior complexidade no que respeita à mente das principais personagens torna tudo simplesmente irresistível. Começa-se a ler na expectativa de saber o que acontecerá a Kyle... e, sem dar por isso, vemo-nos embrenhados em novas dificuldades, com a certeza de que, com cada resposta dada, virão muitas novas perguntas... e um sem fim de possibilidades para os volumes que se seguirão.
Outro aspecto que surge também em crescendo - e de que maneira! - é a ambiguidade moral das personagens. Se, no primeiro volume, parecia ser suficientemente clara a linha que separava o bem do mal, agora as coisas já não são assim tão simples. Há, aliás, um momento neste livro capaz de pôr tudo em causa. E, claro, tudo muda de um momento para o outro. E, se tudo se encaminha para uma situação cada vez mais difícil, os acontecimentos deste volume específico deixam uma única grande certeza: as coisas vão complicar-se ainda mais.
Torna-se, pois, difícil resistir a esta série, não só pelo enredo cada vez mais viciante, mas também pela forma como tudo, desde as grandes cenas de acção aos momentos de vulnerabilidade, ganha vida no equilíbrio praticamente perfeito entre diálogos e imagem. É fácil reconhecer as emoções na expressão das personagens, sentir a intensidade do momento nos seus gestos, reconhecer até o matiz cada vez mais sombrio das circunstâncias pelos tons que parecem definir cada cenário. Tudo converge nas medidas certas para, no fim... deixar uma vontade quase irresistível de continuar.
Basta Kyle Barnes, com as suas peculiares circunstâncias e a sua natureza cada vez mais intrigante, para tornar esta história irresistível. Mas há um todo mais vasto à sua volta, negro e desolado e, talvez por isso mesmo, repleto de potencial, e uma história tão cheia de possibilidades (e tão hábil nos seus finais em suspenso) que é impossível não querer saber o que acontece a seguir. Tudo construído de forma tão marcante e equilibrada que basta, enfim, uma palavra para caracterizar estes livros: geniais. E altamente recomendados, claro.

Autores: Robert Kirkman e Paul Azaceta
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O Poder do Nosso Cérebro (Kaja Nordengen)

É no cérebro que se encontram todas as respostas, as bases da personalidade, do que sentimos, do que pensamos, do que comemos e dos vícios que temos. É um órgão verdadeiramente insubstituível e de uma vastíssima complexidade. Mas como funciona? De que forma permite a percepção do mundo e influencia os nossos comportamentos? Estas são apenas algumas das perguntas a que este livro pretende responder.
Escrito por uma neurocientista, mas pensado para um público essencialmente leigo, uma das primeiras coisas que importa destacar acerca deste livro é a acessibilidade. A escrita directa e clara, sem se embrenhar demasiado na gíria científica e explicando as coisas de forma simples (mas não simplista) faz com que os conceitos e mecanismos apresentados sejam de fácil compreensão mesmo para quem não tenha grandes conhecimentos específicos sobre a área. Além disso, as ilustrações ajudam também muito a visualizar certos aspectos, o que torna o conjunto bastante mais esclarecedor e também mais cativante.
Para isso contribui também a forma como a autora expõe a informação, acrescentando à explicação pura e dura exemplos específicos e até pequenos episódios da sua vida pessoal. Há coisas que é mais fácil visualizar pelo exemplo e a autora não hesita a recorrer a casos específicos de modo a tornar mais clara a mensagem que pretende transmitir. E há também a própria organização do livro que, separada entre os diferentes aspectos - personalidade, inteligência, orientação, etc. - torna muito mais fácil voltar atrás caso seja necessário rever algum conceito, bem como assimilar gradualmente o todo.
Esta conjugação de clareza, simplicidade e organização tem um efeito bastante interessante: o de que, apesar da complexidade do tema, tudo é assimilado de forma surpreendentemente fácil. As explicações são fáceis de entender, o registo, cativante e descontraído, prende a atenção do leitor e o equilíbrio entre a acessibilidade da linguagem e a vasta quantidade de informação torna o texto bastante complexo, mas nunca maçador nem cansativo. Assimila-se, pois, com naturalidade - que é sempre a melhor forma de aprender algo.
Trata-se, pois, de um livro acessível e esclarecedor para aprender mais sobre como o cérebro funciona. Interessante e pertinente, de leitura fluída e natural e com um toque de personalidade que não deixa também de surpreender, uma muito boa leitura. Recomendo.

Autora: Kaja Nordengen
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

WE3 (Grant Morrison e Frank Quitely)

O plano era converter animais em máquinas de matar para que estes pudessem travar as guerras em vez dos humanos. E os primeiros testes correram como esperado, aproveitando-se também o pretexto para livrar o mundo de um ou outro ditador. Só que o plano mudou e os três animais usados - um cão, um gato e um coelho - deverão ser agora desactivados. Mas eis que surge a oportunidade de fuga, e tudo o que eles querem é voltar para casa. Perseguidos pelos seus criadores, as armas que os compõem ser-lhes-ão essenciais à sobrevivência. Mas será a descoberta de que não são apenas aquilo o suficiente para os salvar? E onde é "casa", depois de tudo o que lhes foi feito?
Poder-se-ia pensar, à primeira vista, que a ideia de três animais que tentam regressar a casa poderia dar origem a uma história fofinha, mas... não. Não é bem isso. O que este livro apresenta é algo bastante mais complexo, onde converge a visão quase inocente e enternecedora de um animal de estimação que só quer regressar a casa (e há momentos, principalmente protagonizados pelo cão, que são realmente lindos) com a violência desmesurada dos seus criadores e também do que fizeram deles. Abundam, por isso, as imagens de sangue e entranhas... e também os rasgos de emoção, no que acaba por ser uma surpreendente convergência de opostos.
Além deste contraste, outro dos aspectos que tornam esta leitura notável prende-se com a forma como grandes partes da história são vistas do ponto de vista dos protagonistas animais. A forma de comunicação e a forma de pensamento são totalmente distintas das dos momentos em que participam os humanos, o que realça tanto as diferenças como os pontos em comum. Além disso, e sendo principalmente a história de uma fuga (e de uma perseguição), trata-se também de um livro cheio de acção, o que faz com que sobressaiam também as peculiaridades do desenho destas cenas.
O que me leva, claro, a outro ponto que importa realçar: a arte. É uma história que vive mais de acontecimentos do que propriamente dos diálogos (embora haja também alguns diálogos notáveis) e, assim sendo, torna-se crucial a componente visual. Componente essa que surpreende pela diferença, quer na expressividade das personagens (e, mais uma vez, principalmente do cão), quer nas impressionantes cenas de acção que tão facilmente transmitem a intensidade das circunstâncias.
Surgem, naturalmente, algumas limitações devido ao facto de a história se concentrar fundamentalmente na fuga, nomeadamente na curiosidade que fica relativamente à construção do projecto e a algumas das personagens humanas. São, ainda assim, aspectos secundários face ao impacto desta grande e intensa fuga, que culmina num final que, não dando todas as respostas, dá todas as que são realmente necessárias.
Simultaneamente sombria e comovente, trata-se, pois, de uma história intensa, cativante e cheia de surpresas. Além, é claro, de um retrato estranhamente certeiro do contraste entre a possível crueldade humana e o afecto incondicional dos animais. Marcante e surpreendente, um bom livro, em suma.

Título: WE3
Autores: Grant Morrison e Frank Quitely
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Callam, Uma Cidade Brilhante (Val Rosa)

Após um estranho incidente, Alice acorda num hospital diferente de todos os que alguma vez viu. Não sabe onde está, mas uma coisa é certa: tudo é estranho à sua volta. E o mais peculiar de tudo é que todos julgam que ela é outra pessoa, também chamada Alice, mas filha do líder daquele estranho lugar. Callam é uma cidade de magia e de harmonia, mas envolta numa guerra constante. E, ao que tudo indica, os seus inimigos estão a preparar-se para a batalha final. E Alice... bem, Alice não sabe bem o que faz ali, mas a verdade é que está mais ligada àquele mundo do que julga. Mas, se ela não é quem todos julgam que seja, então que é feito da verdadeira Alice?
Com uma escrita cativante e uma intrigante mistura de leveza e de mistério, este é um livro que, com as medidas certas de perigo e de inocência, abre portas para um novo mundo sem nunca perder a naturalidade. A história parte de um ponto de mudança: a protagonista cai subitamente num mundo novo sem conhecer nada do que a rodeia. E, assim, a confusão inicial - e a maravilha da descoberta - transmite-se a quem acompanha as suas aventuras. É fácil sentir com Alice: sentir que está perdida, sentir que começa a entender, sentir, depois, que é preciso fazer alguma coisa. E esta proximidade, aliada a um registo sempre envolvente e com alguns momentos particularmente marcantes, torna a leitura muito, muito interessante.
É também uma história onde as linhas que separam o bem do mal estão bastante bem definidas. Callam e Lirasales são perfeitos opostos e, se isto torna o enredo um pouco mais linear, faz também com que seja mais fácil torcer pelo lado "certo". Além disso, embora os dois lados sejam muito fáceis de identificar, já as possíveis consequências do conflito não são assim tão claras. E, à medida que tudo se encaminha para a batalha final, a história cresce em intensidade, culminando num final bastante forte. 
Haveria talvez mais a explorar neste mundo, já que a história se centra essencialmente na história de Alice (ou das Alices), embora haja outras personagens também muito intrigantes. E é também verdade que o fim deixa algumas questões em aberto, principalmente acerca de Ernando. Mas, pese embora estas possibilidades que ficam no ar (e que deixam, talvez, a possibilidade de novas histórias), a história principal tem, de facto, princípio, meio e um fim satisfatório. E essa é também uma impressão muito agradável: a de que, haja ou não mais histórias sobre este mundo, este livro é um ciclo completo. 
Leve quanto baste, mas intensa e intrigante, trata-se, pois, de uma aventura cheia de acção e segredos, que, pontuada por grandes e pequenas revelações, cativa desde o início ao fim. Uma boa história, portanto, e um belo mundo para descobrir.

Título: Callam, Uma Cidade Brilhante
Autora: Val Rosa
Origem: Recebido para crítica

domingo, 4 de novembro de 2018

O Livro da Ignorância (Vítor J. Rodrigues)

Há mestres que partilham a sua sabedoria. Já Amnésio sente que, sendo a sua sabedoria ínfima e a sua ignorância tão vasta, acha que deve ser esta última o cerne dos seus discursos. E é de ignorância que se trata, mas não no sentido da recusa obstinada de conhecimento. De ignorância, sim, a ignorância das circunstâncias dos outros, dos mecanismos da natureza, da capacidade de moldar ou controlar o universo. Da ignorância que é um sem fim de possibilidades de aprendizagem - que são, afinal, a base deste livro.
Partindo de um não sei e culminando num gostaria de aprender, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela premissa, a fazer lembrar "o tão célebre só sei que nada sei" e, ao mesmo tempo, o igualmente ilustre "conhece-te a ti mesmo". Amnésio é um profeta que não vê o passado nem o futuro: vê o que não sabe e o que isso lhe permite descobrir. E esta ideia de um profeta que ensina sabedoria - e não necessariamente conhecimento - através da ignorância é algo de particularmente surpreendente.
Também a escrita em si é cativante, com uma simplicidade fluída e que parece embalar-nos ao ritmo de uma quase meditação. Amnésio dá mais perguntas que respostas, mas fá-las com uma sinceridade que faz com que elas ecoem dentro de nós. Além disso, não é um livro que pretenda dar as respostas (embora seja sempre inevitável uma pequena sensação de curiosidade insatisfeita), mas antes incentivar à aceitação e à procura. E, assim sendo, faz sentido esta voz de alguém que ensina interrogando. Interrogando-se a si mesmo, principalmente.
É um livro relativamente breve, mas que parece conter universos inteiros. Como? Através da sempre tão presente ignorância. É que se, como Amnésio, olharmos para a imensidade do mundo, provavelmente chegaremos, também como ele, à conclusão de que é muito mais o que não sabemos. E esta consciencialização da ignorância - mas de uma ignorância repleta de potencial - é algo de particularmente positivo numa actualidade tão apressada e em que são tantas as exigências de conhecimento e de acção.
Cativante e surpreendente, trata-se, portanto, de um livro inspirador, não tanto por convicções específicas, mas pelas vastas portas de potencial que, na sua brevidade, parece querer abrir. O resto fica à vontade do leitor: seguir ou não os passos de Amnésio, do não sei ao gostaria de aprender. 

Autor: Vítor J. Rodrigues
Origem: Recebido para crítica

sábado, 3 de novembro de 2018

A Winter's Night (Theodore Brun)

Um acidente de viação numa noite de tempestade leva um homem que viajava por uma região remota da Dinamarca a um misterioso castelo. O proprietário é um velho conde que, embora suficientemente amistoso, parece carregar um grande peso em cima dos ombros. A esposa está a dar à luz no andar de cima, mas há uma maldição na família que dita que ele nunca terá um herdeiro. Dada a presença do seu hóspede inesperado, o conde decide partilhar a história da família. Mas essa noite está também associada à misteriosa maldição. E embora céptico, de início, o hóspede não tarda a começar a acreditar... 
Se conhecem os meus hábitos de leitura, é provável que esta opinião seja uma surpresa, porque não me dou lá muito bem com o formato ebook. Mas, se estamos a falar de um conto de um dos meus autores favoritos - e uma belíssima forma de passar o tempo enquanto espero por mais Erlan - então eu abro uma excepção. Aqui estou eu, portanto, a mais lenta de todas as leitoras (em formato digital), a escrever sobre um conto estranhamente viciante lido em ebook.
Falemos dele, então. Um dos aspectos mais impressionantes nesta pequena história é que, apesar de relativamente breve, parece atingir o equilíbrio perfeito entre os seus vários elementos. O aspecto mitológico, associado, bem, ao mistério da maldição e à noite escura e tempestuosa em que tudo acontece, cria um equilíbrio delicado e intrigante que nos puxa desde o início para dentro da história e não nos larga mais até ao fim. Parece, além disso, ter precisamente a medida certa: o cenário sombrio é descrito com precisão, tal como os fundamentos essenciais da maldição familiar, mas a história nunca se torna demasiado lenta. Muito pelo contrário: é fácil imaginarmo-nos na posição do narrador, a contorcermo-nos na cadeira com a vontade de saber mais... ao mesmo tempo que nos questionamos sobre a tempestade lá fora e o que poderá realmente significar.
Também impressionante é que, embora muito diferente das The Wanderer Chronicles, é possível sentir a mesma vibração, não só na escrita belíssima e no ritmo intenso da narrativa, mas também nas personagens. O narrador é uma personagem céptica - numa situação a modos que sobrenatural. Por isso, é de esperar que não lide lá muito bem com aquilo. Isto torna-o falível e humano - e, principalmente, cria um contraste bastante engraçado com a figura sombria e atormentada do conde. É fácil sentir com eles - de formas distintas. No caso do narrador, são as situações embaraçosas em que parece meter-se. E quanto ao conde... bem, é tudo. E, no fim, tudo converge para um final equilibrado, com todas as respostas necessárias e uma conclusão adequada para a questão da maldição... mas deixando também o suficiente à imaginação do leitor. Pois o que é um mistério sem fios de possibilidades?
Nem sempre uma história precisa de ser grande para se tornar uma grande história. E, com a sua aura de mistério, as personagens intrigantes e uma forma belíssima de contar a história, este conto tem tudo o que precisa. Uma leitura breve, portanto, mas bastante impressionante. E uma história que não posso deixar de recomendar.

Título: A Winter's Night
Autor: Theodore Brun
Origem: Aquisição pessoal

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Outcast, Vol. 3: Uma Pequena Luz (Robert Kirkman e Paul Azaceta)

Kyle sempre foi perseguido por demónios, ou seja o que for que aquelas entidades são, mas agora a situação tornou-se de forma ainda mais dramática. Depois da mãe e da mulher, é agora a irmã quem está afectada e Kyle sabe que tem pouco tempo para a salvar. E, mesmo que consiga, isso será sempre apenas o início. Enquanto proscrito, sabe que atrai e desperta o ódio daquelas criaturas, principalmente agora que começa a perceber como funcionam. E enquanto Kyle conta apenas com a ajuda do reverendo, já os seus adversários parecem ser legião... e ter um grande plano em mente.
Seria de esperar, talvez, que, ao terceiro volume da série, não houvesse muito de novo a dizer sem revelar demasiado das linhas centrais - e das muitas surpresas - da história. Mas não é bem assim. É que, embora os mistérios em si sejam uma parte fundamental do impacto da leitura (e, claro, não se pode dizer muito sem estragar esse impacto) há também outro tipo de desenvolvimentos, a nível das personagens e das suas relações, que vão também ganhando um impacto crescente. É o caso das descobertas que Kyle vai fazendo sobre os... chamemos-lhe demónios, mas também sobre aquilo que o torna diferente. E, claro, esta contextualização gradual surge no meio de um enredo repleto de acções e de reviravoltas, o que faz com que cada nova descoberta seja muito mais intensa.
Algo que continua também muito presente - além, é claro, dos estranhos entes que parecem estar na base de tudo - é o misto de horror e tristeza que parece moldar agora todo o caminho de Kyle. Horror ante algo que vai descobrindo ser cada vez mais negro e mais vasto. Tristeza por uma vida desolada e cercada de desolação. O resultado é esta sensação ambígua e fascinante de contraste entre o choque e a empatia, de, por um lado, querer desvendar os mistérios e, por outro, querer ver mais do que se passa na pobre e atormentada alma de Kyle.
Sem surpresas, até porque é mais um elemento comum aos volumes anteriores, isto reflecte-se tanto nos diálogos certeiros, como nos tons sombrios da arte e nas expressões das personagens. Mas há aqui também um outro aspecto que importa destacar: é que há subjacente a tudo uma tão grande intensidade que há tanto de surpreendente nas principais cenas de acção como nos momentos de isolamento e de melancolia que surgem no entretanto. Como uma mistura de causa e consequência - porque há sempre consequências. Sempre. 
E no fim... Bem, no fim, fica uma vontade irresistível de começar logo a ler o volume seguinte, até porque parecem ser característicos desta série os finais onde não só tudo é deixado em aberto como as personagens ficam numa situação sensível. E a deste livro... é particularmente delicada.
Intenso, sombrio e absolutamente viciante, trata-se, portanto, de mais um volume que excede amplamente as expectativas, deixando aquela deliciosa avidez de quer saber mais, ler mais, descobrir mais... o mais rapidamente possível. Muito, muito, muito bom. 

Autores: Robert Kirkman e Paul Azaceta
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Companhia das Letras

Um pai dirige-se à filha que não o conhece e conta-lhe a sua história, a história de ambos, revelando distâncias e aproximando-se por causa disso, numa entrega sincera e emocional.
Uma viagem até aos confins do mundo, até ao Vietname e Camboja, até ao território que antigamente se designava como Cochinchina, para encontrar e perceber aquilo que está mais perto de nós, aquilo que nos habita.
Um pai que ergue muros de silêncio, uma mãe que revela as costuras do Mundo, uma criada velhíssima, um amigo que quer ser campeão de luta, uma amante que carrega sabores e perfumes proibidos. São estas algumas das inesquecíveis personagens que rodeiam este homem que se dirige à filha, que testemunham — ou dificultam — essa procura do amor mais incondicional.
Uma busca que nos leva, a todos, a chegar tão longe, para lá de longe, para nos depararmos connosco, com as nossas relações mais próximas, com os nossos erros, com as nossas paixões, com as nossas dores e, ao somar tudo isto, entre sofrimento e júbilo, encontrar talvez felicidade.

Escritor, ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb, nascido em Julho de 1971, na Figueira da Foz. Escreve regularmente para o Jornal de Letras, Artes e Ideias e para a revista «Evasões 360˚» do DN.  Recebeu vários prémios e distinções nas diversas áreas em que trabalha, vive no campo e gosta de cerveja.
Os seus livros estão publicados em vários países.

Passatempo Não Há Rosas Sem Espinhos

O blogue As Leituras do Corvo, em parceria com a 4 Estações, tem para oferecer um exemplar do livro Não Há Rosas Sem Espinhos, de Aurélie Valognes. Para participar basta responder à seguinte questão:

1. Como se chama a protagonista deste livro?

Convidamo-los também a visitar e seguir a página de Facebook bem como o blogue e o site da editora.


Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 15 de Novembro. Respostas posteriores não serão consideradas.
- Para participar deverão enviar as respostas para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- Os vencedores serão contactados por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Divulgação: Novidade 4 Estações

Rose, 36 anos, celibatária e dedicada a família, depois de perder o pai e o emprego, toma conhecimento que seu único filho de 18 anos, vai sair de casa para ir viver com a namorada. Rose desaba completamente. Busca então uma solução para a sua vida, trabalhar como baby-sitter de um lulu-da-pomerânia, Pépete, da prepotente Verónique Lupin e ainda cuidar da da mãe de Verónique, uma idosa rica e decrépita. O romance relata com muito humor e profundidade, por vezes até de forma comovente, o relacionamento sem bom senso de Rose com o filho, assim como com as duas mulheres com quem passa a conviver, aliás personagens memoráveis e coloridas.

Aurélie Valognes nasceu e cresceu perto de Paris, França. Após os estudos numa escola de negócios, começou a trabalhar para empresas americanas e passou o início de sua carreira como gerente de marca, trabalhando e viajando pela Europa. Somente quando ela e o seu marido tiveram a oportunidade de se mudar do seu país de origem para uma missão internacional na Itália, Aurélie reavivou o seu amor por escrever. Mémé dans les orties tornou-se um bestseller em França. Foi traduzido para muitas línguas. Mora em Milão com o seu marido e filho de três anos.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O Mundo de A Guerra dos Tronos (George R.R. Martin, Elio M. Garcia Jr. e Linda Antonsson)

A história de Westeros não começou com a visita do rei a Eddard Stark e sua subsequente nomeação como Mão do Rei. Não, o mundo em que estas personagens se movem é muito mais vasto e a sua história muito mais antiga. Este livro percorre a parte da história que estava por contar, desde o início dos tempos à chegada de Robert Baratheon ao trono, passando pelo longo reinado dos Targaryen e abrangendo toda a vastidão dos Sete Reinos (e até um pouco mais). Profusa e magnificamente ilustrado, dá rostos e paisagens a este vasto mundo, ao mesmo tempo que, numa construção meticulosa e fascinante, dá uma história completa e bastante interessante a um mundo saído da imaginação.
Sendo um livro grande, cheio de cor e com uma vasta abundância de belíssimas ilustrações, escusado será dizer que o primeiro elemento a chamar a atenção é o aspecto visual. Basta um primeiro olhar a este grande livro, um primeiro folhear, para se sentir o chamado deste mundo. E, se leram os livros das Crónicas de Gelo e Fogo, então provavelmente já sentiram a curiosidade em saber mais sobre este universo. Bem, este livro responde a essa curiosidade. Exaustivamente.
Outro aspecto notável é que se trata da história de um mundo fictício, mas isso não implica que essa história seja mais simples ou menos desenvolvida. Ler este livro é como ler um tratado sobre a história de um lugar real, com a sua vastidão de reis e de senhores, de povos e civilizações que se sucedem, de guerras, de intrigas, de facções, de conquistas e tratados de paz. Só que... com dragões (e mais uns quantos elementos surpreendentes) a tornar tudo ainda mais interessante.
Já disse que é um livro lindo. Há neste livro várias ilustrações capazes de prender o olhar durante um bom bocado. Mas também o texto tem esse condão: o de dar vida a cenários, figuras e batalhas com a mesma clareza que se estivéssemos a assistir a tudo de muito perto. Surgem até alguns momentos marcantes, embora o narrador do livro pretenda assumir-se como um estudioso imparcial, em que é difícil não sentir um bocadinho do coração a tomar partido. Afinal, é de Martin que se trata - o que significa que ninguém está seguro.
E quanto à curiosidade de saber mais? Bem, nesse aspecto, o resultado é curioso. É que, por um lado, ficamos a saber muito mais sobre este imenso mundo. Mas, por outro, ele é imenso. O que significa que há ainda mais aspectos a descobrir, elementos que, embora descritos de forma bastante clara, deixam no pensamento a questão de como seriam se imaginados mais a fundo. Porque é, afinal, um mundo completo, embora fictício. E esta ambígua sensação de ter ficado a saber muito mais, mas querer saber ainda mais, é a mesma que fica ao ler sobre a história real - porque, no fundo, há sempre mais para contar.
Terminada a viagem, fica, claro, a melhor das impressões: a de um livro belíssimo e fascinante, capaz de abrir portas a novas descobertas sobre um mundo já muito desenvolvido. Imperdível para os fãs das Crónicas de Gelo e Fogo, um livro notável em todos os aspectos. 

Autor: George R.R. Martin, Elio M. Garcia Jr. e Linda Antonsson
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O Solilóquio do Rei Leopoldo (Mark Twain)

Foi com alegadas intenções piedosas e a mais altruísta das inspirações que Leopoldo II, rei da Bélgica, conseguiu obter para si o governo do Estado Livre do Congo. Só que, nas mãos de Leopoldo... nem livre, nem estado. E se, durante algum tempo, as suas influências e alegadas boas intenções lhe permitiram fazer daquele território o seu próprio "coração das trevas", a oposição acabaria, ainda assim, por chegar. Entre as vozes contrárias contar-se-ia, claro, a de Mark Twain, que, neste curioso solilóquio, consegue, ao mesmo tempo, satirizar a figura real, questionar a aceitação das outras potências e relatar com toda a clareza as linhas essenciais da atrocidade.
Sendo certo que o Solilóquio é, em si, bastante esclarecedor, tanto pelo muito que exprime no texto como pelas imagens que o acompanham, importa começar por referir o extenso e também esclarecedor prefácio de António Araújo. É que livros como O Coração das Trevas podem ter tornado esta história bastante célebre, mas não deixa de ser essencial entender o contexto e as forças em movimento que permitiram que tudo acontecesse. O prefácio é, pois, uma viagem em si mesmo, permitindo compreender os acontecimentos, vislumbrar o alcance das atrocidades e, depois, conhecer também os movimentos da oposição, entre os quais se contaria o próprio Solilóquio.
Importa também dizer que, embora construído como que em estilo de dramatização, este é essencialmente um manifesto - embora seja absurdamente fácil imaginar Leopoldo II a barafustar contra os que o "caluniam" com a verdade. Assim, mais do que o estilo (e, diga-se, quase bastaria o estilo para que a leitura valesse a pena) destaca a mensagem que as palavras transmitem: o relato da brutalidade, que é, em si, factor de choque, mas que serve também de base para uma reflexão sobre o potencial corruptor do poder, principalmente quando concentrado nas mãos de um só homem.
E talvez seja uma coisa estranha de dizer sobre um texto satírico, mas a verdade é que, neste livro, Mark Twain soa invulgarmente sério. Talvez devido ao tema em si (e é do mais sombrio que se pode imaginar) ou a um pessimismo inerente, mas há algo de notável na forma como, de um texto que quase ridiculariza o seu protagonista, é possível nascer uma imagem tão grave.
É uma leitura relativamente breve e bastante cativante - e isto aplica-se tanto ao Solilóquio como ao muito interessante prefácio. Mas é, acima de tudo, um livro pertinente, não só para manter na memória as crueldades passadas, mas para lembrar a facilidade absurda com que, por vezes, as liberdades se apagam. Muito interessante.

Autor: Mark Twain
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Outcast, Vol. 2: Uma Ruína Sem Fim (Robert Kirkman e Paul Azaceta)

Kyle Barnes precisa de respostas. Só assim poderá recuperar um pouco da vida que perdeu. Mas está rodeado de sombras por toda a parte e até o seu único aliado, o reverendo, começa a ter dúvidas sobre a eficácia do que fez no passado. Parece haver demónios - ou seja lá o que eles são - em todo o lado e Kyle só sabe que, mesmo que sinta que está a enlouquecer (ele ou o mundo inteiro) precisa de fazer alguma coisa. Mas o que se passa é tudo menos loucura, e embora Kyle pouco saiba além de que os demónios o chamam de proscrito e anseiam pelo seu poder, há coisas que começam a ganhar forma. E, com as respostas, vêm também novas ameaças... mais uma vez, àqueles que lhe são mais próximos.
Talvez um bom ponto de partida para começar a falar sobre este livro seja o título. Chama-se Uma Ruína Sem Fim e dificilmente poderia ser mais adequado. Pois se já antes a vida de Kyle era feita de sombras, há agora todo um manto de desolação a cobrir tudo o que rodeia. Além do passado que o assombra, assombram-no também agora os actos do presente, e isto deixando de fora a (também muito capaz de assombrar) parte sobrenatural. Há, pois, um manto de profunda tristeza subjacente ao mistério e ao horror e também seja isso o que mais marca neste segundo volume: a sensação de mergulhar nas trevas com Kyle, sabendo que é bem possível que não haja retorno.
É uma história sombria, não só ao nível dos demónios... bem, literais... como também dos demónios interiores das personagens. Estes assumem, aliás, um papel bastante preponderante neste segundo volume. O resultado é um equilíbrio delicado, mas muito eficaz, entre o que parecem ser duas facetas distintas, mas profundamente entrelaçadas, da mesma história: por um lado, o obscuro e fascinante mundo dos demónios, cujas acções e intenções começam apenas a assumir um pouco de sentido; por outro, a história pessoal de Kyle, cujas angústias compreendemos cada vez melhor.
E neste delicado equilíbrio entre o horror e a tristeza também o elemento visual desempenha um papel crucial. É tão fácil sentir o que atormenta as personagens numa frase notável como na expressão devastada que, muitas vezes, lhes atravessa as feições. É tão fácil sentir as sombras nos diálogos do misterioso Sidney como na aura de escuridão que parece envolver todos os locais. E, no fim, não há nada que não faça falta e as personagens entranharam-se de tal forma que é impossível resistir à vontade de descobrir, o mais rapidamente possível, o que reserva o futuro para o atormentado Kyle Barnes.
Inteiramente à altura das expectativas e com um equilíbrio ainda mais intenso que o do primeiro volume entre os elementos de horror e as sombras internas que povoam a alma das personagens, trata-se, pois, de mais um livro viciante, surpreendente e marcante em todos os momentos certos. Altamente recomendado, em suma.

Autores: Robert Kirkman e Paul Azaceta
Origem: Recebido para crítica

domingo, 28 de outubro de 2018

Anassa (Josh Martin)

A história devia ter acabado quando Aula e Joomia se uniram, unindo também assim os seus povos. Mas não foi isso que aconteceu. Embora juntos à força, os dois povos continuam centrados nas suas divergências e Etain, a líder profetizada, está muito longe de conseguir levá-los a superar as diferenças. E eis que tudo se agrava. Primeiro, um dos sues elementos adquire um estranho poder e começa a espalhar o caos na ilha. Depois, um grupo de guerreiros hostis chega a Chloris, inegavelmente mais fortes e decididos a colher os recursos de que precisam, seja qual for o custo para os habitantes da ilha. Agrava-se ainda mais o caos. Etain estava destinada a ser líder - mas, para o ser, tem um longo caminho pela frente. E, com os amigos de sempre e alguns novos e improváveis aliados, terá de arriscar tudo para salvar o seu povo.
Sendo uma continuidade de Ariadnis e, tal como este, narrado de múltiplos pontos de vista, uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro é a evidente sensação de que o que se deveria atingir com a forma como tudo terminou... não correu bem como o esperado. Ora, isto tem um efeito interessante: por um lado, ressuscita a mesma confusão sentida do início do primeiro livro, pois tudo o que pensávamos saber sobre este mundo é afinal um pouco diferente; por outro, transmite toda a frustração, confusão e medo das personagens, o que acaba por as tornar mais próximas, mesmo quando as suas escolhas não são as mais fáceis de entender.
Outro aspecto especialmente intrigante é esta expansão do mundo, permitindo a entrada de um novo povo com novos comportamentos. Chloris foi alegadamente criada para dar uma nova oportunidade aos humanos, mas, ao que parece, Govinda mantém os mesmos problemas do passado. Escusado será dizer que este é um excelente ponto de partida para a reflexão sobre questões de raça, igualdade e género que, embora surgindo de forma gradual, estão bem presentes ao longo desta história. Além disso, há ambiguidade suficiente para realçar algo de positivo: os defeitos individuais não são os defeitos de todo um povo. E isso é particularmente evidente nas diferenças que separam Vulcan e Sol.
Embora haja muita matéria para reflexão, o ritmo da história nunca se torna pausado. Muito pelo contrário. Há sempre alguma coisa a acontecer, seja uma invasão, uma batalha no mar, uma discussão feroz entre amigos, uma traição ou uma espécie de redenção. Há muitos momentos intensos ao longo da história e também um percurso de crescimento e de aceitação nas personagens. Além, claro, de uns quantos momentos de humor que acrescentam um agradável laivo de descontracção a uma história repleta de tensões.
E quanto ao fim... bem, ficam novamente perguntas sem resposta, nomeadamente acerca de Sol e Domaga (ainda que, em menor grau, também sobre Aula e Taurus). Mas é, ainda assim, o final mais adequado: deixando resolvido o enredo central e, para o resto, todas as esperanças e possibilidades do início de um novo ciclo.
Intenso, cativante e cheio de surpresas, trata-se, pois, de um livro em que todos os elementos parecem contribuir com algo de positivo para criar uma história com uma mensagem forte, personagens tão falíveis quanto complexas e um enredo totalmente imprevisível. O resultado é, claro, uma boa história. E uma boa leitura.

Título: Anassa
Autor: Josh Martin
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A Menina que Queria Salvar os Livros (Klaus Hagerup e Lisa Aisato)

Anna adora ler e, ao longo dos seus quase dez anos, já fez muitos amigos nos livros. E um ou outro inimigo (a vida é mesmo assim). Mas, quando a bibliotecária lhe diz que há livros que são destruídos porque ninguém os leva emprestados, Anna decide salvá-los. De uma só vez, leva cinquenta livros para casa e lê-os a todos. E, quando se sente cansada, a bibliotecária sugere-lhe um último livro com um misterioso final. Anna devora A Floresta Encantada e, quando se depara com o mistério do final, faz tudo para descobrir a resposta que lhe falta. Só que, nos livros como na vida... as respostas nunca são bem as que se esperam.
Bastam as primeiras páginas para perceber o porquê de este ser um livro para leitores de todas as idades - e principalmente para os realmente apaixonados, os que devoram livros como se não houvesse mais dias, que fazem amizade com as personagens e as guardam na memória para sempre. É que Anna é uma das nossas: uma menina apaixonada pelos livros e pela gente que neles habita. O resultado é, claro, empatia imediata e uma afinidade que nunca desaparece à medida que acompanhamos os seus passos.
É também uma história cheia de ternura e que não tem apenas uma mensagem positiva: tem várias! Desde o amor pela leitura à aceitação do futuro desconhecido, passando pela entreajuda, pela descoberta do conhecimento e, enfim, pela vontade de ajudar inerente à pequena Anna, há todo um mundo de valores nesta pequena história. E, além das mensagens, há a história em si, bonita, ternurenta, cheia de surpresas e capaz de conter mundos inteiros na sua simplicidade.
Há mais ainda. Além do texto cativante, da história surpreendente da protagonista especial, há um delicioso equilíbrio entre texto e ilustrações, com o aspecto visual a dar nova vida à história, ao mesmo tempo que enche de cor, de sonho e principalmente de criatividade esta história sobre sonhos... e cores... e a criatividade infinita contida no interior de um livro. Tudo tem precisamente a medida perfeita e leva-nos na aventura de Anna como se estivéssemos lá, ao lado dela.
Fica, então, esta impressão encantadora de termos vivido uma aventura com alguém que partilha da mesma paixão. Uma aventura feita de sonhos e de inocência, mas, acima de tudo, do poder das histórias. Belíssimo. 

Autores: Klaus Hagerup e Lisa Aisato
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Bizâncio

Estamos a entrar numa nova Idade de Ouro da exploração espacial.
Até agora do domínio da ficção, transferir a civilização humana para outros planetas é cada vez mais uma possibilidade científica – e uma necessidade se, algum dia, tivermos de deixar a Terra.
Michio Kaku, físico de renome mundial, explora a visão deslumbrante de como poderá a Humanidade desenvolver uma civilização sustentável no espaço, revelando-nos os progressos das diversas ciências que poderão permitir-nos terraformar e construir cidades habitáveis em Marte e mais além.

 «Deslumbrante… Kaku tem um pensamento de grande amplitude e as perspectivas que nos apresenta valem a viagem.» - The New York Times


A  hora dos desenhos animados chegou e as três crianças preparam-se para se instalarem em frente ao ecrã de comando na mão. Mas o avô tem um plano diferente: propõe-lhes contar uma história.
O seu repertório é contestado pelos pequenos que já conhecem todas as histórias. Resolve, então, mudar de táctica e acaba por conseguir cativá-los para desenvolverem a sua própria história.
Um livro da autoria de Jean Leroy e Matthieu Maudet sobre o poder e a importância da imaginação.
Para crianças a partir dos 3 anos.


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Em O Todo ou o seu Nada, o autor recria, com as liberdades próprias do ficcionista, a vida atribulada e aventurosa de João Falcato, homem de sete fôlegos e personagem multifacetada do século XX português: marinheiro e náufrago, viajante, escritor, professor, jornalista, vinicultor.
Contador de histórias, viveu uma existência ora trágica, ora mediana. Criador de ilusões, possuía a sabedoria para, entre a tristeza e a alegria escolher a alegria, e entre o nada e a tristeza escolher a tristeza.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Mal Me Quer (M. J. Arlidge)

Helen Grace desceu ao inferno e voltou, mas a sua vida nunca mais será a mesma. Onde antes havia uma confiança imbatível, há agora suspeita e instabilidade. Mas nunca como agora Helen precisou tanto de estar no seu melhor. Há um par de assassinos à solta e o que parece movê-los é um furioso plano de vingança. Numa corrida contra o tempo, Helen e a sua equipa terão de concentrar todos os seus esforços no caso, pois cada momento perdido pode significar uma nova vítima. E cada fracasso é uma nova dúvida numa base já bastante abalada.
Começo pelo evidente: é sempre uma maravilha reencontrar Helen Grace e a sua equipa (mas principalmente Helen). Ainda assim, e tendo em conta os acontecimentos do último volume, as expectativas eram particularmente elevadas e as possibilidades particularmente delicadas. Não foi propriamente uma surpresa, por isso, quando, após um primeiro vislumbre do impacto do passado recente, o caso seguiu um rumo (salvo raros momentos de abertura) menos pessoal. A surpresa vem depois, quando, embora concentrada no caso e na inevitável corrida contra o tempo, os inevitáveis paralelismos e as cicatrizes do passado começam a vir à superfície. E no fim... Bem, no fim, naquele momento em que pensamos que desta vez o coração vai sair um bocadinho menos abalado desta vez, é quando as verdadeiras sombras vêm à tona, e é isso que torna o final tão impressionante.
Chegados a este ponto da série, talvez não seja preciso dizer muito sobre as personagens. Complexas, falíveis, fortes na essência, mas com as vulnerabilidades que tanto as humanizam, deixam em cada momento a sua marca específica. E, claro, Helen é Helen, com todos os seus demónios e cicatrizes. Mas o mais impressionante aqui é a delicada mistura de familiaridade e de mudança: familiaridade, porque as personagens mantêm ainda e sempre a sua identidade essencial; mudança, porque as experiências vividas projectaram-nas para uma perspectiva diferente. E isto não se aplica apenas a Helen, mas também à sempre ambígua Emilia Garanita.
Mas, claro, há o caso em si e, embora seja a linha mais global o que mais marca quem acompanha a série desde o início, este caso em específico tem também muitos aspectos notáveis. Como sempre, é uma investigação com princípio, meio e fim - e, principalmente, com muitas surpresas, reviravoltas, momentos de tensão e perigo e uma visão muito precisa da mente dos criminosos. Além disso, e também como habitual, nunca se trata de um caso fácil, não só em termos de apanhar os responsáveis, mas da própria entrada nos seus pensamentos. Ao entrar na mente de Daisy, Helen chega até a ver-se a si mesma. E é aqui, no ponto em que as duas facetas da história convergem, que nasce a verdadeira marca deste livro.
Helen pode não ser a mesma desde Holloway. Mas as sombras tornaram-na (ainda) melhor. E isso reflecte-se nesta história intensa, sombria e absolutamente viciante, em que a história pessoal da protagonista se alia a um caso complexo e surpreendente para dar forma a um livro genial. Recomendo, pois claro. Como sempre. E mal posso esperar para ver o que vem a seguir. 

Título: Mal Me Quer
Autor: M. J. Arlidge
Origem: Aquisição pessoal

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A Distância entre Mim e a Cerejeira (Paola Peretti)

Mafalda tem apenas nove anos, mas sabe já que tem um grande obstáculo pela frente. Sofre de uma doença rara que, dentro de poucos meses, a deixará completamente cega. E, enquanto os pais tentam encontrar a melhor forma de lidar com o que está para vir, Mafalda vai procurando, à sua maneira, uma solução impossível para a sua situação. Faz listas de tudo o que gosta, mas que deixará de poder fazer. Curiosamente, faz também um novo amigo. Mas, acima de tudo, planeia uma nova vida, na cerejeira da escola, tal como Cosimo, a sua personagem favorita de O Barão Trepador. Mafalda está a descobrir a vida da forma mais difícil - mas talvez, mesmo às escuras, seja possível encontrar o essencial.
Não é propriamente uma surpresa que o primeiro elemento a cativar - e o que mais força terá até ao fim - seja a inocência que transborda de toda a história. Contada pela voz de Mafalda, mostra o mundo pelos olhos de alguém que, mesmo com uma grande sombra a pairar-lhe sobre o futuro, vê a vida como repleta de possibilidades. E é desta inocência em contraste com a terrível escuridão que se aproxima que nascem os grandes momentos de emoção, pois é impossível não sentir com Mafalda quando os seus sonhos e esperanças se apagam. 
Há momentos de inevitável tristeza, mas não é, ainda assim, uma história triste. Não só porque o caminho de Mafalda é muito mais do que uma jornada rumo às trevas - é a descoberta da amizade, a do que existe para lá das limitações, a de que a vida continua mesmo depois da perda e a de que, embora a inocência se vá perdendo, há outras coisas boas para ocupar o seu lugar - mas, principalmente, porque há toda uma base de ternura e de afectos à sua volta. Nem sempre é fácil entender as escolhas das personagens, mas é natural que assim seja, pois são essencialmente pessoas imperfeitas a tentar lidar com as dificuldades da vida. Mas todos fazem o seu melhor e o essencial - essa tão esquiva e intensa criatura - nunca deixa de se manifestar.
Contar a história da perspectiva de Mafalda implica uma inevitável limitação: as histórias pessoais de algumas das outras personagens passam para segundo plano. Ainda assim, e embora fique aquela curiosidade em saber mais, por exemplo, sobre a vida de Estella, a verdade é que a alma essencial dessas personagens está presente: Estella é a estrela que guia Mafalda. E, tendo embora vida própria, é nesse aspecto que mais brilha.
A impressão que fica é, pois, a de uma história simples e inocente, mas, acima de tudo, muito enternecedora. Reflectindo na escrita a personalidade de Mafalda, a autora dá-lhe vida em todos os momentos - nos tristes, nos pensativos e também nos mais divertidos. E é isso que, no fim, fica na memória: Mafalda pode ter ficado às escuras, mas o seu coração continua cheio de luz. E capaz de nos comover a todos. 

Autora: Paola Peretti
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A Provadora (V. S. Alexander)

1943. Vivem-se tempos perigosos em Berlim, com a ameaça dos ataques aéreos a pairar sobre as cabeças de todos. É por isso que os pais de Magda Ritter decidem mandá-la embora, em busca de trabalho noutro local. Só que esse trabalho não é tão seguro quanto julgavam. Magda é recrutada para ser uma das provadoras de Hitler, o que significa um treino exaustivo, mas também um perigo constante. Principalmente porque, embora poucos no exterior o saibam, a solidez do regime começa a desmoronar. E embora o seu papel de provadora comece por ser apenas um trabalho, ainda que perigoso, à medida que começa a ver as duras verdades que nunca conheceu, Magda vê-se envolvida numa conspiração que, se bem-sucedida, poderá, talvez, salvar o pouco que resta.
Dividido entre a história pessoal de Magda (e, mais tarde, do seu interesse amoroso) e um cenário global em risco de colapso, este é um livro que começa por marcar mais pelo que mostra do mundo do que propriamente pelas suas personagens. E o que mostra parte precisamente de Magda e do mundo que a rodeia. Apesar da guerra, o mundo parece continuar a girar à volta do partido, ante a indiferença geral, e posta perante a necessidade de se filiar no partido para poder trabalhar, essa escolha surge como meramente pragmática. A primeira impressão é, pois, a de uma indiferença generalizada que, tendo em conta o contexto da época, não pode parecer outra coisa que não realista.
Não surpreende, por isso, que não haja propriamente uma empatia imediata, embora seja naturalmente compreensível a cedência inicial de Magda ante a necessidade de ganhar a vida. Mas esta é uma história sem heróis absolutos. Magda e o seu apaixonado das SS nunca poderão ser figuras perfeitas tendo em conta a profissão que exercem. Mas, à medida que a história evolui, as conspirações ganham forma e as escolhas se tornam realmente difíceis, começam a vir à tona os verdadeiros valores. É nesse momento que as personagens deixam a sua marca e o impacto da história se intensifica.
E, claro, tudo converge para um final sobejamente conhecido - embora com uma reviravolta inesperada. Mas o mais notável neste livro é a forma como o autor parece conduzir os acontecimentos num crescendo de intensidade, acrescentando picos de emoção a uma situação só de si tensa e abrindo inclusive perspectivas diferentes para figuras cuja natureza e temperamento não são propriamente novidade. 
Não, não é uma história de personagens admiráveis. Mas, às vezes, são os gestos que justificam essa admiração. E, nesta história de personagens falíveis em circunstâncias inimagináveis, é isso o que realmente fica na memória: as personagens que tentam fazer o que está certo mesmo quando todas as escolhas parecem erradas. Cativante, surpreendente e com alguns momentos realmente notáveis, uma boa leitura.

Título: A Provadora
Autor: V. S. Alexander
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Presença

Ascensão e Queda dos Cavaleiros de Cristo
Dan Jones
Coleção: Não Ficção nº 4
Tema: História
Título Original: The Templars
Tradução: Adriana Maia Dias
ISBN: 978-972-23-6288-7 
Páginas: 488

PEREGRINOS . GUERREIROS . BANQUEIROS . HERÉTICOS
Os Templários foram a mais rica e poderosa e a mais secreta das ordens militares que floresceram na era das cruzadas. A sua história - que passa pelo maior conflito internacional da Idade Média, por uma rede financeira global, e pela ascensão veloz seguida de uma queda sangrenta e humilhante - deixou um rasto de mistério que continua a fascinar e a inspirar historiadores e romancistas e a alimentar teorias da conspiração.
Dan Jones documenta cada fase da história de duzentos anos dos Templários, desde a sua fundação no começo do século XII como ordem de caridade para prestar apoio aos peregrinos que visitavam a Terra Santa; o seu crescimento como uma elite guerreira; a sua evolução para uma sofisticada entidade financeira isenta de regulação fiscal e com acesso privilegiado a papas, imperadores e reis; até à sua extinção em 1312. A partir de então, a sua lenda gerou enorme especulação. Quem eram na realidade os Templários? E o que lhes terá, de facto, acontecido?
Um livro imperdível, escrito com grande rigor sobre uma das épocas mais fascinantes e ao mesmo tempo mais dramáticas da história da Humanidade.

Dan Jones, para além de historiador, é um jornalista premiado e profissional de audiovisuais. É autor de vários bestsellers tais como The Plantagenets e Magna Carta, e criador e apresentador de dezenas de programas de televisão, incluindo a aclamada série Secrets of Great British Castles da Netflix / Channel 5. Escreve uma coluna semanal para o London Evening Standard, e os seus artigos têm sido publicados em jornais e revistas como The Sunday Times, The Daily Telegraph, The Wall Street Journal, Smithsonian, GQ e The Spectator.
Os direitos de publicação de Os Templários foram adquiridos por editoras de 12 países.
Dan Jones vive em Surrey, no Reino Unido.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O Pecado da Gueixa (Susan Spann)

Japão, século XVI. O padre Mateus leva uma vida tão tranquila quanto possível no seu trabalho de missionário cristão em tempo de múltiplas crenças. Mas essa calma está prestes a desabar. Tudo começa quando Sayuri, uma das suas convertidas, é acusada de assassinar um samurai numa casa da chá. E, quando o padre Mateus tenta defendê-lo, vê-se arrastado para o julgamento. Se, no espaço de dois dias, não conseguir provar a inocência de Sayuri, também o jesuíta morrerá. Felizmente, conta com o auxílio precioso do seu tradutor - e protector - Hiro. Passando por um samurai sem senhor, Hiro é, na verdade, muito mais do que isso. E, aos seus talentos ocultos, junta-se uma mente arguta, capaz de desvendar qualquer mistério.
É como uma viagem a um mundo completamente diferente, este livro. O tempo, o cenário, a cultura, os comportamentos - praticamente tudo é diferente da nossa realidade. E, contudo, é absurdamente fácil entrar na história. É esta a primeira de muitas qualidades a destacar-se neste livro: bastam algumas páginas para saltar para o interior da história e sentir que se caminha - e sente - com as personagens. A empatia de Mateus, a mistura de frustração e devoção de Hiro, a fragilidade de Sayuri no seio de uma intriga aparentemente demasiado complexa para desvendar a tempo - tudo isto dá forma a uma história que, além de cativar pelo seu contexto único, rapidamente se torna impossível de largar.
Tendo isto presente, claro que outra das qualidades terá de vir da caracterização das personagens. O curioso é que isto não se aplica apenas às personalidades específicas de cada um - e são deliciosas - mas também, e principalmente, à forma como se relacionam uns com os outros e com o ambiente em que se movem. O código de conduta dos samurais faz com que certas perguntas se tornem mais difíceis de colocar - e eis que entra em cena o alegado desconhecimento do jesuíta para resolver esse problema. O direito à vingança parece ser a verdade mais elementar deste mundo - mas bastam alguns passos para entender que nada é, afinal, assim tão simples. E, no meio de tudo isto, há um núcleo sólido por entre a mudança: Mateus e Hiro formam uma dupla perfeita, na investigação do mistério, mas também na vida quotidiana.
E, claro, não se pense que este extenso contexto - de cenários, de regras, de intrigas - prejudica a intensidade da história. De modo algum. O que começa como um mergulho dramático mantém a intensidade até ao fim. Em parte, claro, devido à própria escrita, que se concentra em mostrar os acontecimentos, acrescentando o contexto e as informações suplementares à medida que vão sendo necessários. Mas principalmente devido à história em si, cheia de enigmas e de pistas a seguir, mas também de surpresas, de (deliciosos) momentos de humor e de ocasionais momentos de emoção e de nobreza que conferem a tudo uma outra perspectiva.
O resultado é uma leitura viciante, que, com as suas personagens notáveis, o seu cenário invulgar e o seu enredo de enigmas e revelações, prende desde as primeiras páginas e nunca deixa de surpreender. Intenso, cativante e cheio de surpresas, um livro que não posso deixar de recomendar. 

Autora: Susan Spann
Origem: Recebido para crítica

domingo, 21 de outubro de 2018

A Fórmula do Peregrino (Tiago Moita)

Um acidente de automóvel e um resgate oportuno levam a jornalista Catherine Delgado a cruzar-se com o enigmático Gabriel Search. Professor de física quântica, tem uma visão do mundo bastante mais espiritual do que as duas posições extremadas que parecem ter tomado conta da opinião pública. E a sua viagem, para a qual Catherine acaba por ser também puxada, poderá ser o início da mudança de que o mundo precisa. O objectivo é seguir as misteriosas pistas deixadas por um peregrino e chegar ao esconderijo da fórmula de Deus. Mas, mais que a busca de uma fórmula milagrosa, a viagem promete ser de descoberta - embora haja forças poderosas dispostas a tudo para os impedir de chegar ao destino.
Um pouco à semelhança de O Evangelho do Alquimista, também este parece ser um livro que dá mais importância e destaque à mensagem das personagens do que ao enredo em si. Não que faltem mistérios, descobertas e reviravoltas, mas o domínio parece pertencer às explicações de diferentes elementos e perspectivas. Ora, isto tem dois efeitos. O primeiro, e mais evidente, é o de tornar o ritmo da narrativa bastante mais pausado, ainda que a vastidão de conhecimentos e teorias compense em parte este passo mais lento. O outro é o inevitável conflito de pontos de vista. Ao longo da história parecem haver duas facções extremas e uma intermédia: ciência, religião e espiritualidade. Mas, sendo certo que o percurso do peregrino parece representar o lado certo, a verdade é que as barreiras nunca são assim tão claras. Há valores do lado da fé, do lado da ciência e do lado da espiritualidade, estando o problema principalmente nos fanatismos. Mas, por vezes, há qualidades descritas de forma demasiado crítica e, por outro lado, aspectos pouco questionados. O resultado serão sentimentos ambíguos, possivelmente variando consoante a posição do próprio leitor relativamente a estes temas.
Mas, passando ao enredo e às personagens. Pode parecer, de início, que tudo começa de forma demasiado simples: Catherine cruza-se por acaso com a pessoa que lhe alterará o destino. Ainda assim, e à medida que a história evolui, começam a surgir segredos e possibilidades e a teia de intrigas e planos torna-se bastante mais intrigante. Além disso, as ligações secretas entre as diferentes personagens - e a forma como algumas delas são reveladas - geram alguns picos de emoção que conferem à história uma maior intensidade.
É curioso, num livro que se alonga bastante em explicações, mas ficam algumas questões em aberto. Talvez por a história se centrar mais no percurso de Gabriel e Catherine, os passos dos adeptos de Seal e Lawkins acabam por ser explorados de forma bastante mais sucinta, o que deixa uma certa curiosidade insatisfeita acerca de como ganhou forma o grande projecto de ambos. Não são elementos essenciais, é verdade, pois a base do que os move é explicada ao pormenor, e o final não ganharia mais força com uma caracterização mais profunda. Ainda assim, fica a tal vontade de saber mais sobre a construção - e povoação - desse misterioso empreendimento.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura pausada, mas intrigante e com um desenvolvimento bastante detalhado das temáticas da fé, da ciência e da espiritualidade. Interessante e envolvente, uma boa história.

Autor: Tiago Moita
Origem: Recebido para crítica

sábado, 20 de outubro de 2018

Descender, Vol. 2: Lua Máquina (Jeff Lemire e Dustin Nguyen)

TIM-21 contém dentro de si a resposta para o mistério dos Colectores e isso faz com que muitos procurem deitar-lhe a mão. Mas a situação desesperada em que o pequeno robô e os seus aliados se encontravam sofreu uma grande reviravolta com a entrada em cena da resistência dos robôs. Agora, TIM-21 parece estar junto dos seus - embora também estes tenham interesses ocultos. E, entretanto, aquele que tanto procura, Andy, o seu irmão, anda também à procura dele. E, embora o universo seja grande, não desistirá enquanto não o encontrar. 
Dando continuidade directa aos acontecimentos do primeiro volume e expandindo a história para um novo e mais complexo contexto, este livro eleva a história de TIM a novas alturas, ao mesmo tempo que, apresentando novas personagens e novos grupos, desenvolve também a complexidade do universo em que se movem. A história está agora mais dividida - entre TIM e Andy - e ambas as partes têm a mesma cativante mistura de mistério, acção e emoção. E aqui está o cerne do que torna esta história tão marcante: é que ambos, ainda que de maneiras diferentes, parecem conhecer o caminho mais rápido para o coração dos leitores.
Se basta a história em si para gerar emoções fortes (e, com personagens como estas, é mais do que suficiente), a forma como os autores lhe dão vida reforça imensamente o seu impacto. Da arte, destacam-se os tons, as cores contrastantes e, acima de tudo, a expressividade das personagens. Dos diálogos, a mistura de intriga e de inocência que faz com que TIM seja, ainda e sempre, o centro de algo muito maior do que ele. As vulnerabilidades das personagens - expressas tanto em texto como em imagem - tornam-se assim nas grandes forças de uma história cheia de acção e de potencial.
Sendo o segundo volume de uma história mais vasta, não é de esperar que sejam já dadas todas as respostas. E não são mesmo. Todo o final é, aliás, uma grande pergunta - uma pergunta tão grande que deixa uma vontade praticamente irresistível de saber o que acontece a seguir. Final mais aberto seria difícil, mas é também um final adequado, pois replica - e intensifica - a estrutura do volume anterior. TIM parte de uma mudança, percorre um caminho difícil e completa uma fase do seu percurso - a que se seguirá certamente algo de diferente. As respostas em falta são também possibilidades - e o que se segue só pode ser bom. 
A mesma emoção, o mesmo fascínio e o mesmo equilíbrio entre acção e emoção - mas com o dobro da intensidade. Assim é este segundo volume: uma leitura viciante, intrigante, muito comovente e que promete ainda novas e melhores surpresas para o que resta descobrir da história. Belíssimo - e muito bom.

Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Origem: Recebido para crítica