terça-feira, 18 de setembro de 2018

Sangue Frio (Robert Bryndza)

A descoberta de um cadáver desmembrado dentro de uma mala deixa Erika Foster preocupada. Já lidou com muitos casos difíceis e basta um primeiro contacto para perceber que este será mais um. Só que aquele corpo é apenas o primeiro e as poucas pistas parecem não levar a lado nenhum. Certezas tem apenas duas: a de que há um assassino cruel à solta e de que precisa de resolver o caso. Mas, quando mais precisava de se concentrar, uma traição vinda de onde menos espera resulta num ataque que a deixa fragilizada. E o caso tem de ficar para segundo plano - pelo menos até poder regressar.
É sempre um prazer regressar à companhia de Erika Foster. É, aliás, uma das grandes qualidades desta série, a forma como, apesar dos diferentes casos e das relações que acabam ou se alteram, surge sempre uma agradável sensação de reencontro ao mergulhar na leitura de um novo volume. É que as coisas vão mudando: Erika rejeitou uma promoção, o relacionamento que começava a desabrochar mudou e até mesmo a segurança de trabalhar com uma equipa de confiança pode ser abalada. Mas Erika continua a mesma: feroz, determinada, com a cabeça no lugar.
Quem já leu os outros volumes da série, saberá, claro, que Erika tem muitas qualidades, mas está longe de ser perfeita - o que só a torna mais interessante. Isto é particularmente evidente neste livro, em que um ataque pessoal e alguns fios vindos da história anterior fazem com que o mundo pessoal de Erika ganhe um maior destaque. Claro que o caso continua a ser o elemento fundamental, e é no trabalho que o melhor de Erika se revela, mas conhecer o seu lado vulnerável torna tudo muito mais intenso e maior a curiosidade acerca do que poderá vir a seguir.
Quanto ao caso em si, é cheio de surpresas - sendo que só isto é que não é uma surpresa. O autor divide-se entre o percurso da investigação e o percurso dos criminosos, o que, por um lado, permite uma visão mais próxima do que está a acontecer de ambos os lados e, por outro, evidencia desde muito cedo que nunca nada será tão simples como parece. E assim, a história vai-se desenrolando, numa sequência de pistas, revelações e mudanças de rumo cuja intensidade vai em crescendo e culmina num final especialmente poderoso. Marcante não só pela resolução do mistério, mas porque não é só Erika quem tem questões pessoais a explorar - e a forma como os dois mundos se conjugam (ou, de certa forma, colidem) torna tudo bastante mais avassalador.
Com a sua protagonista notável e complicada, um caminho difícil e um caso cheio de surpresas e reviravoltas, trata-se, pois, de mais um volume que corresponde inteiramente às expectativas criadas pelos anteriores. Intenso, surpreendente e muito, muito viciante, um livro a não perder. Recomendo.

Título: Sangue Frio
Autor: Robert Bryndza
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Ansiedade dos Nossos Dias (Diogo Telles Correia)

Vivemos num mundo frenético, competitivo e com cada vez menos espaço para o erro. Não surpreende, por isso, que a ansiedade seja um mal que tem vindo a aumentar. Mas o que é isso da ansiedade? Em que consiste? É toda igual? Há outras questões associadas? Como se diagnostica? E, mais importante ainda, como se trata? É a estas perguntas - e a mais algumas delas decorrentes - que este livro pretende dar resposta.
Uma das primeiras coisas que importa realçar acerca deste livro é que não é um livro de auto-ajuda. Não vai sugerir soluções, muito menos desencadear mudanças milagrosas. Não. É um livro que explica, que permite compreender e que, com as suas explicações esclarecedoras e os exemplos dos vários casos relatados, permite compreender melhor o que é a ansiedade e como se manifesta. As soluções, essas, partem sempre da procura de ajuda especializada.
Como todas as doenças, e principalmente as do foro mental, trata-se de um tema complexo e que envolve múltiplos factores. O interessante neste livro é a forma como o autor consegue simplificar, explicando o essencial de uma forma acessível - mesmo a quem não tenha grandes conhecimentos prévios sobre o tema - e realçando o mais importante: a necessidade de compreender o que se passa e de procurar ajuda para combater os problemas. Abordando os diferentes tipos de ansiedade de uma forma organizada, das causas ao diagnóstico e tratamento, e usando depois casos práticos, contados de forma aberta e cativante, para dar exemplos práticos, o autor abre portas a uma mais ampla compreensão deste problema.
É, curiosamente, um livro relativamente breve e é inevitável a sensação - até porque muito haveria a dizer sobre a complexidade dos mecanismos envolvidos - de que muito mais haveria a explorar sobre o tema. Ainda assim, o registo sintético parece, neste caso, ser bastante adequado, realçando os elementos essenciais sem se dispersar em demasiados detalhes, o que permite uma compreensão global do problema e das possíveis soluções.
Relevante, esclarecedor e de leitura agradável, trata-se, portanto, de um bom livro para começar a entender esta doença que, num mundo capaz de pôr a prova os nervos de qualquer um, tem vindo a tornar-se cada vez mais presente. Muito interessante. 

Autor: Diogo Telles Correia
Origem: Recebido para crítica

sábado, 15 de setembro de 2018

As Ondas do Destino (Sarah Lark)

Apesar da sua história delicada, Deirdre Fortnam leva uma vida alegre e protegida na plantação dos pais. O seu crescimento, porém, desperta algumas preocupações sobre o seu futuro. Por isso, quando o jovem médico Victor Dufresne entre na vida de Deirdre, parece ser uma solução caída dos céus. Victor e Deirdre amam-se e o facto de o futuro de ambos ter de ser em Saint-Domingue parece até uma bênção disfarçada. Mas também aí se vivem tempos de mudança e rebeliões começam a ganhar forma. E Deirdre encontrará paixão onde menos espera - uma paixão que não poderá continuar...
Apesar das evidentes ligações (e das personagens comuns) com A Ilha das Mil Fontes, esta é uma história essencialmente independente da anterior. Ainda assim, ganha um novo impacto conhecendo à partida o passado de algumas personagens. Deirdre e Jefe têm elos comuns e esses terão um papel fulcral na evolução dos acontecimentos. Além disso, é também interessante reparar nos paralelismos e nas divergências entre as histórias de Nora e Deirdre: caminhos diferentes, personalidades muito distintas, mas ambas em pleno ponto de viragem do mundo a que pertencem.
Os paralelismos não se ficam por aqui, claro, pois também nesta história o tema da escravatura desempenha um papel dominante. E é interessante a forma como a autora consegue acrescentar algo que diferencia às duas histórias ao mesmo tempo que realça as mesmas - e sempre pertinentes - questões. A vida em Saint-Domingue é diferente da da Jamaica, mas estão presentes o mesmo desprezo, a mesma crueldade... e as mesmas consequências, ainda que assumindo uma forma distinta. Tudo isto está subjacente à história central e reforça-lhe o impacto - pois compreender a vida das personagens e compreender também as condições e o contexto da época.
Mas passando à história. Uma das grandes qualidades dos livros de Sarah Lark é a naturalidade com que tudo parece fluir, ao ponto de nem as descrições mais extensas retirarem intensidade ao ritmo da narrativa. E também aqui há um cenário novo e regras novas, revelados de forma gradual e ao ritmo da percepção das próprias personagens. Há, pois, uma beleza e e uma fluidez naturais que facilmente nos transportam para o interior da história. E depois... Depois os acontecimentos fazem o resto.
O cenário pode ser idílico, mas nada - nem ninguém - é perfeito. E aqui está outra das grandes surpresas deste livro. Deirdre e Victor (e Jefe) estão muito longe de ser Nora e Doug. E, às vezes, não é tão fácil compreender as suas motivações. O impressionante é que, mesmo quando as escolhas são imperfeitas, quando não é difícil adivinhar que aquilo não vai correr bem, a história nunca perde a magia. A imperfeição humaniza as personagens. As consequências, essas, aumentam o impacto emocional. E no fim fica a sensação de uma longa e árdua jornada, feita tanto de sonhos e de esperanças como de queda e da redenção... possível.
Fica, pois, a mesma magia e o mesmo encanto, resultado de um mergulho profundo feito igualmente de beleza, de amor e de brutalidade. Uma história notável, em suma, com personagens marcantes e uma escrita que encanta desde as primeiras linhas. Belíssima. 

Autora: Sarah Lark
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro As Ondas do Destino, clique aqui.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Divulgação: Novidade Asa

Na noite em que a mãe lhes foi arrancada, os gémeos Maisy e Duncan perceberam que só podiam contar um com o outro. Se até então a vida deles não fora fácil, a partir desse momento piora dramaticamente pois o pai decide enviá-los para casa da avó, a ríspida Violet.
Os gémeos sentem-se mais abandonados do que nunca. Mas a negligência da avó tem um lado positivo: Maisy e Duncan passam a desfrutar de uma liberdade inesperada e podem explorar o campo e fazer novas amizades sem terem de se justificar a ninguém. Até ao dia em que Duncan desaparece sem deixar rasto.
À medida que os dias dão lugar a semanas, perante a ineficácia da polícia e a indiferença da avó, Maisy decide descobrir por si própria o que aconteceu à única pessoa que verdadeiramente ama. E vai começar por Grace Deville, a excêntrica amiga do irmão. Grace vive isolada na floresta... e tem segredos por revelar…
O Dia Em Que Te Perdi explora ternamente temas delicados e actuais. Lesley Pearse, uma contadora de histórias nata, fala-nos de perda, de esperança, de força interior, e dos inquebráveis laços de família.

Lesley Pearse é autora de uma vasta obra publicada em todo o mundo e uma das escritoras preferidas do público português. A sua própria vida é uma grande fonte de inspiração para os seus romances. Quer esteja a escrever sobre a dor do primeiro amor, crianças indesejadas e maltratadas, adopção, pobreza ou ambição, ela viveu tudo isto em primeira mão. Lesley é uma lutadora, e a estabilidade e sucesso que atingiu na sua vida deve-os à escrita. Com o apoio da editora Penguin, criou o Women of Courage Award para distinguir mulheres comuns dotadas de uma coragem extraordinária.

Divulgação: Novidade Saída de Emergência

Shadow Moon sai da prisão e descobre que a sua mulher morreu. Derrotado, falido e sem saber para onde ir, conhece o misterioso Sr. Wednesday, que o emprega como guarda-costas, empurrando Shadow para um mundo mortífero onde fantasmas do passado regressam da morte e onde uma guerra entre deuses está iminente. O romance vencedor de prémios Hugo, Bram Stoker, Locus, World Fantasy e Nebula que deu origem ao sucesso televisivo da Starz, com autoria de Neil Gaiman, é adaptado como novela gráfica pela primeira vez!Compilando os primeiros nove números da série de banda desenhada Deuses Americanos, juntamente com arte adicional, esboços de personagens e capas de David Mack, Glenn Fabry, Becky Cloonan, Skottie Young, Fábio Moon, Dave McKean e mais!

NEIL GAIMAN é um autor galardoado de romances, novelas gráficas, contos e filmes para todas as idades. Os seus títulos incluem Mitologia Nórdica, A estranha vida de Nobody Owens, Coraline, O que se vê da última fila, O oceano no fim do caminho, Neverwhere: Na Terra do Nada e a série de novelas gráficas The Sandman, entre outras obras. A sua ficção recebeu os prémios Newbury, Carnegie, Hugo, Nebula, World Fantasy e Will Eisner. A adaptação cinematográfica do seu conto Como falar com raparigas em festas e a segunda temporada da adaptação televisiva aclamada e premiada com Emmy do seu romance Deuses Americanos estreará em 2019. Nascido no Reino Unido, vive actualmente nos Estados Unidos.

Formado em pintura pela Universidade de Cincinnati, P. CRAIG RUSSELL fez de tudo na banda desenhada. Depois de se distinguir ao serviço da Marvel pelo trabalho com Killaraven e Doctor Strange, tornou-se um dos pioneiros no desbravar de novos rumos para esta forma de expressão subestimada com, entre outros esforços, adaptações de óperas de Mozart (A Flauta Mágica), Strauss (Salomé) e Wagner (O Anel dos Nibelungos). Craig é autor dos cinco volumes da adaptação em banda desenhada dos Contos de Fadasde Oscar Wilde e deu vida de forma soberba a personagens tão diversos como Batman, Conan, Hellboy, The Spirit, Morte e Sandman. O seu trabalho mais recente inclui adaptações em banda desenhada de Coraline e The Graveyard Book de Neil Gaiman.

SCOTT HAMPTON nasceu em 1959 em High Point, Carolina do Norte, e cresceu embrenhado em literatura clássica, romances de horror e banda desenhada. O seu irmão mais velho, Bo, foi responsá-vel por alimentar um enorme apetite por banda desenhada em Scott.
Foi natural que, quando Bo se tornou ilustrador de banda desenhada, o irmão mais novo lhe seguisse o exemplo (ambos estagiaram com Will Eisner em 1976!) Scott tornou-se um dos mais respeitados artistas e contadores de histórias no meio da banda desenhada. O seu trabalho em Silverheels (Pacific Comics, 1983) é considerado o primeiro título de banda desenhada pintado com continuidade. Além de ilustrar as suas histórias, Scott ilustrou livros de alguns dos melhores autores de fantasia, incluindo Neil Gaiman (Books of Magic, Robert E. Howard (Pigeons from Hell), Clive Barker (Tapping the Vein), Archie Goodwin (Batman: Night Cries) e David Brin (The Life Eaters).

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Chamar as Coisas pelos Nomes (Vânia Beliz)

Sexualidade. Para muitas pessoas, é um autêntico palavrão. E, no entanto, é um elemento essencial do desenvolvimento humano e deve ser abordada desde cedo - não só para uma maior consciencialização, mas também para prevenir potenciais riscos. Este livro, que pretende orientar a família para a abordagem a este tema durante as diferentes fases do crescimento, é um guia útil para compreender o que fazer, o que explicar e de que forma lidar com os possíveis constrangimentos. 
Simples, acessível e muito, muito útil, este é um livro nitidamente pensado para os pais que precisam de começar a pensar na abordagem das questões da sexualidade com os filhos. E, assim sendo, uma das primeiras qualidades a destacar-se é a ausência de tabus: escrito de forma clara e abordando com naturalidade todas as questões, pode funcionar como uma base orientadora para quem precisa de discutir estes temas com um filho ou familiar. Mas há mais: a linguagem acessível e os esquemas e exercícios permitem um trabalho em conjunto e, consequentemente, funcionam como estímulo ao tão necessário diálogo.
Apesar de ser um livro relativamente breve, todos os elementos essenciais estão presentes e a forma estruturada com que a autora aborda os diferentes elementos - considerando os tempos certos, mas também as diferenças existentes - faz com que o livro seja uma boa ferramenta de consulta. Além disso, ao não se esquivar a nenhum assunto, transmite também, de certa forma, a compreensão e confiança que se espera que, depois, os pais venham a manifestar ao falar sobre o tema. O que acontece é, pois, que o livro acaba por ser uma espécie de exemplo, não só de abrangência, mas também de registo.
Haverá naturalmente questões a aprofundar, além da base essencial aqui apresentada. Mas é interessante notar que também nesse sentido a autora aponta caminhos, não só através dos vários projectos referidos no final, mas também no possível recurso a aconselhamento especializado. 
É um ponto de partida, acima de tudo - e um ponto de partida muito claro. Acessível e esclarecedor, desmistifica algumas ideias sobre o que é realmente a sexualidade e de que formas deve ser abordada ao longo do crescimento - abrindo deste modo caminho a relações mais confiantes, conscientes e seguras. Uma boa leitura para pais e educadores, em suma.

Autora: Vânia Beliz
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Clube do Autor

Sertã, Estoi, Arzila: parecem lugares pequenos para palco de um romance épico onde se narram grandes façanhas, batalhas que marcaram a história da nação e ajudaram Portugal a descobrir o mundo. Não são. Lopo Barriga, o herói desconhecido das páginas deste livro, nasceu na Sertã e viveu em Lisboa mas foram as lutas que travou no Norte de África que o tornaram conhecido e inspiraram a narrativa que invoca os nomes maiores dos Descobrimentos.
Lisboa, 1471: Lopo Barriga e o seu fiel amigo Nuno Fernandes de Ataíde embarcam numa expedição rumo a África. Aí protagonizam e saem vitoriosos de sangrentas batalhas, feitos que depressa chegam ao reino e conduzem Lopo Barriga a adail de uma das principais praças do Norte de África.
Alcunhado “o terror dos mouros”, Lopo Barriga foi todavia esquecido pela História. Neste livro, o autor recupera a bravura do destemido e audaz cavaleiro português e oferece ao leitor um romance rico e envolvente que nos transporta para as ruas de Lisboa no tempo dos Descobrimentos, evoca o cheiro dos mares bravios, as brisas quentes do deserto, a emoção e a inclemência dos campos de batalha em África.
Abrir este livro é viajar no tempo, embarcar nas caravelas que ajudaram Portugal a descobrir o mundo e ao mesmo tempo mergulhar numa história de amor, aventura e luta. Tudo Em Nome D’El Rey.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

D. Dinis, Um Destino Português (José Jorge Letria)

A posteridade atribuiu-lhe como cognome o Lavrador. Mas foi muito mais do que isso. Poeta, legislador, diplomata, marido, amante e pai, deixou a sua marca em elementos tão distintos como a poesia do seu tempo, a língua, as bases de um sistema de classes menos dominado por uns poucos privilegiados e, claro, o inevitável pinhal de Leiria. Esta é a história do rei D. Dinis, contada em parte pela sua própria voz.
Não sendo bem uma biografia, pois há elementos nascidos da pura imaginação, mas também não sendo exactamente um romance, pois os factos assumem, ainda assim, a predominância, poder-se-ia definir este livro como uma biografia poética, em que o autor pega num conjunto de elementos e constrói, com certa liberdade, mas mantendo presentes as linhas gerais dos factos reais, um relato mais linear para a história de toda uma vida. E, sendo certo que isto impõe certas limitações, já que o contexto acaba por ser visto apenas da perspectiva do protagonista escolhido, também o é que o essencial está lá e que esta forma de contar as coisas tem o efeito de, além de tornar a leitura mais cativante, despertar a vontade de ir à procura de um conhecimento mais aprofundado.
É também uma visão bastante pessoal, além de invulgar. As cartas atribuídas ao rei permitem como que uma visualização do que poderia ir na mente da figura central deste livro durante os momentos mais determinantes da sua vida. E, além de criar um retrato do rei que nos aproxima mais do homem, o autor transmite ainda uma outra coisa: é que bastam uns poucos parágrafos para perceber o registo que definirá o livro inteiro. O de uma profunda admiração pelo homem, pelo rei e, principalmente, pelo poeta.
Porque a poesia é fulcral neste livro, sendo constantemente evocada ao longo do livro. Não só pelos poemas que vão surgindo a espaços, mas também na importância que o autor lhe atribui ao contar certos acontecimentos e determinações do rei. Legislador, combatente, lavrador também - mas acima de tudo poeta - é esta a imagem que o autor aqui constrói para D. Dinis.
Biografia poética, portanto - o que faz especial sentido quando se fala de um rei poeta. E um livro que, relativamente sucinto, mas sempre muito cativante, permite uma visão bastante clara da vida de um rei que terá, afinal, sido muito mais que Lavrador. Muito interessante.

Autor: José Jorge Letria
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 11 de setembro de 2018

O Messias das Plantas (Carlos Madgalena)

A sua paixão pelas plantas e os sucessos alcançados na conservação de várias espécies em risco de extinção valeram-lhe o título de Messias das Plantas. Mas, para Carlos Magdalena, qualquer um pode ser um messias, mesmo que com recursos limitados, bastando para isso olhar um pouco mais aos perigos que ameaçam o equilíbrio do ecossistema. Este livro conta a sua história - mas principalmente a das plantas que mais marcaram o seu percurso. O resultado é uma aprendizagem constante.
Assente numa experiência pessoal, mas cedendo às plantas o verdadeiro protagonismo, este é um livro que exigirá, talvez, alguns conhecimentos prévios da biologia das plantas para uma completa apreciação. Não que o autor seja demasiado técnico. Na verdade, o registo é bastante acessível. Ainda assim, poderá ser útil lembrar algumas ideias básicas das aulas de biologia para entender algumas das características e procedimentos descritos ao longo do livro. 
É uma leitura bastante fluída, pese embora as especificidades das várias plantas e a abundância de nomes científicos.A forma como o autor descreve as plantas, além, é claro, das fotografias, permite uma visão bastante clara do que nos está a ser contado. Além disso, e apesar da importância dos pormenores mais técnicos, é fácil compreender a mensagem global, não só devido a clareza do texto, mas à própria paixão com que o autor fala daquilo que faz.
A mensagem é clara: a importância de proteger as espécies ameaçadas, bem como o equilíbrio dos diferentes ecossistemas. E mais clara se torna pela forma envolvente e empolgada com que o autor descreve as suas experiências. É quase como estar lá, a vê-lo entrar em cenários invulgares - e a passar pela ocasional situação caricata - para conseguir uma amostra, uma semente, uma possibilidade de fazer alguma coisa. E, assim, acaba por surgir também uma segunda mensagem positiva: a do poder da determinação, mesmo quando parece impossível ter sucesso.
História pessoal, mas com uma mensagem muitíssimo mais abrangente, trata-se, pois, de uma boa leitura não só para os interessados pela conservação das espécies, mas para todos os que se interessam pela protecção do mundo em que vivemos. Cativante, muito interessante e de leitura agradável, vale a pena conhecer este Messias. 

Autor: Carlos Magdalena
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Asa

Dylan mal se lembra da cara do pai, tinha cinco anos quando ele se foi embora – e nunca mais o viu. Descobriu entretanto que ele vivia em Aberdeen, no Norte da Escócia. Telefonou-lhe, falaram longamente, e hoje é o grande dia: vai visitá-lo. Sente borboletas na barriga, e a verdade é que não dormiu bem, teve um sonho muito estranho…
O comboio percorre lentamente paisagens verdejantes. Até que, ao passar num logo túnel, dá-se um acidente terrível. E Dylan é a única sobrevivente. Ou talvez não.
Ao emergir dos escombros, ao encontrar a saída do túnel, não percebe bem onde está. A paisagem verdejante deu lugar a um cenário desolado, desértico, terrível.
E Tristan, um rapaz de olhos tristes, está à sua espera. Ela levará tempo a perceber o que se passa. Tristan é o barqueiro, tem a mesma missão há muito, muito tempo: encaminhar os mortos para o outro lado. É uma longa travessia, que ele já fez com milhares de pessoas. E com enormes perigos: porque à espreita estão as fúrias à caça de almas humanas…
Ao longo do caminho, sem perceber como nem porquê, Dylan sente-se cada vez mais próxima do rapaz dos olhos tristes. E ao aproximar-se do seu último destino, sabe que a história não pode acabar ali, sabe que tudo fará para permanecer ao lado do seu barqueiro, por toda a eternidade.
Mas como? Será que o amor pode transcender a morte?

Claire McFall é escritora e professora e vive e trabalha no Norte da Escócia. O seu primeiro livro, O Barqueiro, conquistou o prémio Scottish Children's Book Award e foi nomeado para os prémios Branford Boase Award e Carnegie Medal.
Autora também das obras Bombmaker e Cairn Point (vencedora do primeiro prémio Scottish Teenage Book Prize), dedica-se a tempo inteiro à escrita desde que os direitos de O Barqueiro foram vendidos para o cinema.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Espada de Vidro (Victoria Aveyard)

Foi por pouco que Mare e Cal escaparam a uma sentença de morte, mas a guerra está longe de estar terminada. Agora que sabe que não é a única com sangue vermelho e habilidades prateadas, Mare sabe que precisa de alcançar os que são como ela - antes que Maven o faça. Só que o caminho é tudo menos fácil. Maven tem todo o poder de um reino - e de inúmeros Prateados - nas suas mãos. E ela tem apenas uns poucos aliados e a certeza de que não pode confiar em ninguém. Ainda assim, desistir não é opção. E, por mais que Maven apele à sua rendição, Mare sabe que nenhuma ameaça a poderá fazer ceder.
Dando continuidade aos acontecimentos de Rainha Vermelha, mas elevando-os a todo um nível de intriga, este é um livro que vê todas as qualidades do anterior reforçadas por uma maior complexidade. Se já antes havia traição e intriga ao virar de cada esquina, aqui as coisas atingem um ponto em que nem em si mesma Mare consegue confiar inteiramente. E se antes ainda havia algumas divisões claras entre certo e errado, essas definições a preto e branco são aqui completamente esbatidas por todo um conjunto de escolhas difíceis, pois nenhuma decisão é boa ou má, e todas têm consequências.
Há também um grande avanço em direcção às sombras, pois a guerra tornou-se inevitável e de consequências terríveis. Mas o mais impressionante neste percurso é a forma como os acontecimentos se repercutem nas personagens. A Mare deste livro é muito diferente da do anterior e as mudanças acentuam-se com o evoluir da história. O mesmo se aplica também às outras personagens, mas é em Mare, já que a história é contada pela sua voz, que essas alterações são mais notórias. Mare, com o peso da culpa, da perda, da desconfiança constante, de sentimentos que não têm lugar no seu mundo. Mare que, para combater um monstro, talvez tenha também de se tornar um.
E, claro, tudo isto acontece a um ritmo intenso, cheio de grandes confrontos e grandes perdas, e principalmente de momentos emocionalmente devastadores - a que os ocasionais laivos de humor vêm contrapor alguma leveza. É difícil resistir à vontade de saber o que o futuro tem reservado a Mare e a Cal - e, ao alcançar os grandes pontos de viragem, impossível deixar de sentir o impacto. Além do mais, a história não acaba aqui e a forma como tudo termina... bem, digamos que a vontade de ler o próximo volume é ainda mais irresistível. 
Intenso, sombrio e profundamente emotivo, trata-se, pois, de um livro que eleva ainda mais as expectativas para o que poderá estar reservado à sua protagonista. Com um enredo cheio de surpresas e alguns picos de intensidade simplesmente devastadores, uma leitura a não perder. E que recomendo, naturalmente.

Título: Espada de Vidro
Autora: Victoria Aveyard
Origem: Recebido para crítica

domingo, 9 de setembro de 2018

O Décimo Círculo (Jodi Picoult)

Trixie Stone tem catorze anos e está a passar por uma situação delicada. O namorado, que julgava ser o seu amor para sempre, deixou-a e Trixie não está a conseguir lidar com a situação. E, numa noite que esperava ser de algum descontrolo, mas também a única forma de o reconquistar, as coisas descontrolam-se de facto, mas não da forma como Trixie esperava. Nessa noite de caos, Trixie volta para casa a dizer que Jason a violou e, nesse momento, inicia-se uma verdadeira descida aos infernos. Não só para Trixie, que nunca mais será a mesma, mas também para os pais, que, cada um com os seus segredos, têm agora de deixar de lado tudo o resto para tentar proteger a filha. 
Provavelmente o aspecto mais marcante desta história é a forma como a autora constrói todo um turbilhão de emoções intensas, ao mesmo tempo que lhes acrescenta questões relevantes e um mistério a resolver. O que realmente aconteceu a Trixie naquela noite é apenas a primeira de várias perguntas que vão surgindo e, a cada nova revelação, a história tende para um rumo mais inesperado. O resultado é uma leitura intensa, não só pelas emoções que desperta, mas pelas muitas surpresas que se manifestam ao longo do enredo e que culminam num final que só é previsível num aspecto: não é, de todo, o que se esperaria no início.
É também muito fácil entrar no ritmo na narrativa e, uma vez lá dentro, é irresistível a vontade de saber mais, não só devido ao mistério e aos consequentes passos que cada uma das personagens tem de dar após as novas revelações, mas também pela forma como as personagens estão construídas. Há em todas elas forças e fraquezas e as evidentes vulnerabilidades só torna mais forte o impacto emocional do que lhes vai acontecendo. Além disso, há também um crescimento a acontecer, não só em Trixie, mas também em Laura e Daniel enquanto casal. E esse crescimento - com as inevitáveis dores associadas - define-se também por momentos de grande emotividade.
Depois, claro, há as muitas questões relevantes, desde a forma como são tratados os casos de violação às dificuldades de superar os fantasmas de passado, passando, claro, pela facilidade com que se destrói uma vida inteira e as pequenas mentiras que se tornam numa mentira incontornável. Tudo isto está presente e tudo isto justifica uma reflexão, reflexão essa que se estende das personagens ao próprio leitor. E tudo surge com naturalidade, perfeitamente enquadrado na fluidez de um enredo em que todas as facetas parecem ter a medida certa.
Ainda uma última nota para referir dois traços que, embora não sendo os mais importantes, acrescentam também algo de marcante à história. Primeiro, a banda desenhada, que, além de introduzir no livro um elemento peculiar, permite vários paralelismos interessantes entre a criação de Daniel e a sua própria vida. E depois o elemento Dante, com os círculos infernais a desempenharem um papel muitíssimo relevante na interpretação dos acontecimentos, tanto na vida de Laura, que os estuda, como nas de Daniel e Trixie.
A soma das partes é uma leitura memorável, com uma história envolvente e equilibrada, personagens humanas e vulneráveis e uma série de acontecimentos tão surpreendentes quanto emocionantes. Intenso, empolgante e muito relevante, um livro cheio de surpresas. Muito bom.

Autora: Jodi Picoult
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Novembro (Sebastià Cabot)

Gus trabalha numa loja de discos enquanto procura encontrar a sua inspiração como escritor, e não está muito interessado em grandes momentos de socialização. Mas tudo muda no dia em que conhece Clara. Também à procura do seu lugar no mundo, Clara transborda de vida e a necessidade faz com que os dois acabem a viver na mesma casa. Da proximidade, nasce a paixão e um amor que prometia durar para sempre. Mas nada é eterno. E a vida em comum começa a desmoronar - não com estrondo, mas com uma multiplicidade de silêncios...
Parece ser uma história muito simples - a história de um amor jovem a nascer - e é quase num tom de leveza que esta leitura começa por emergir. Mas, se olharmos com atenção, há todo um mundo de verdades difíceis e actuais por detrás desta história. Tantas que, pese embora a sensação que desde cedo se manifesta de que nem tudo virá a ter uma resposta, há todo um mundo na história destas personagens.
Às diferenças de personalidade e de forma de encarar a vida, acrescentam-se as dificuldades do mercado laboral, as inevitáveis dores de crescimento, a sensação de se estar sozinho contra o mundo e de a vida poder ser, às vezes, demasiado pesada. E isto não acontece apenas com Gus e Clara, mas também nas histórias dos seus amigos mais próximos. É, aliás, aqui que fica a tal curiosidade insatisfeita, pois haveria talvez mais a dizer sobre estas personagens. Ainda assim, faz um certo sentido que assim seja: afinal, também na vida não sabemos o final de todas as histórias.
Mas voltando a Gus e Clara - e à sua história de amor e desamor. Quase parece haver uma vida inteira na história que nos é contada e, todavia, tudo surge com a máxima simplicidade. Os diálogos são reduzidos ao mínimo e também no movimento, nas expressões, nos próprios cenários se sente esta redução ao essencial. E porém ajusta-se. Pois, numa história tão feita de silêncios - os silêncios do amor que não precisa de palavras, do crescimento que se insinua sem darmos conta, do afastamento que se vai moldando aos poucos - faz todo o sentido que as grandes verdades se manifestem com a mesma discrição. A mesma que se vê nos diálogos sucintos, mas também num traço e num tom que quase parecem conter toda a melancolia da vida. 
Parece uma história simples, mas é isso que a torna universal, pois amor, crescimento e desamor são uma parte inegável da vida. E é isso, no fim, que dá tanto impacto a esta história de desencanto: a impressão de que Gus e Clara podiam ser qualquer um de nós. Fica, por isso, esta imagem marcante: a de uma história simples, actual e intemporal. Uma história de amor, naturalmente. 

Título: Novembro
Autor: Sebastià Cabot
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Chega Aqui que Vamos Falar de Amor (Francisco Sexto Sentido)

Há quem diga que o amor é efémero, que passa, que depende de nos amarmos em primeiro lugar, que pode desaparecer à primeira desilusão ou que é tudo menos fiel. A visão do autor é diferente. E, nesta longa declaração de amor a uma mulher desconhecida, praticamente tudo é questionado: ciúme, necessidade, confiança, amor-próprio, fidelidade, constância. Ao fundo, vislumbra-se uma mulher que só o autor parece conhecer verdadeiramente - mas é a mente do autor a base deste livro.
A primeira impressão que surge ao ler este livro - e também a que fica depois de terminada a leitura - é a de uma imagem feita de sentimentos contraditórios. Ora questiona lugares-comuns e generalizações, ora cai noutro tipo de generalizações. Ora recusa o amor-próprio para se abrir unicamente ao amor por outra pessoa, ora se demora na sua própria visão. E, no meio de tudo isto, fica uma impressão ambígua: a de haver, de facto, várias ideias relevantes, mas também algum exagero e alguns pontos de vista perigosos.
Faz todo o sentido, por exemplo, questionar a ideia de que só alguém seguro e confiante conseguirá alcançar o sucesso. Afinal, ninguém é perfeito. Já não faz tanto sentido o quase menosprezo com que parece falar de aspectos como a educação obtida nas escolas, pondo o amor acima de tudo e de todos - incluindo as outras facetas essenciais da vida. 
Além disso, o livro tem um registo muito vincado, muito (demasiado) afirmativo, de quem tem todas as certezas absolutas e está, parafraseando algumas das afirmações, "rodeado de idiotas". Parece demasiada a certeza para quem fala de algo tão vasto como o amor e demasiado o isolamento resultante: é como se só o amor existisse no mundo e fossem essas duas pessoas contra o mundo. O que, tendo em conta a tão grande certeza de que "ninguém pode ser feliz sozinho" acaba por ser também um pouco estranho.
Não deixa de ter os seus pontos de interesse e, principalmente na forma como aborda os sentimentos negativos, há, de facto, alguns pontos de vista muito relevantes. Ainda assim, fica a sensação de que acabam por se perder um pouco no ciclo repetitivo de um amor que parece devorar tudo o resto, deixando para trás todas as outras forças do mundo. Além, é claro, de uma última surpresa no registo: é que o autor questiona múltiplas vezes os autores motivacionais - mas acaba por cair no mesmo tom quase imperativo de alguns desses autores.
Ficam, pois, os tais sentimentos contraditórios de uma leitura que contém, de facto, boas ideias - e alguns textos realmente marcantes - mas que se perde demasiado no ciclo fechado da sua própria visão. Interessante quanto baste, ainda assim.

Autor: Francisco Sexto Sentido
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Um Mundo sem Fim - Volume I (Ken Follett)

Passaram duzentos anos desde a construção da catedral e Kingsbridge continua a ser um lugar próspero. Mas a passagem do tempo não traz apenas crescimento e as quatro crianças - Merthin, Caris, Gwenda e Ralph - que assistem ao combate entre um misterioso cavaleiro e dois outros homens têm pela frente destinos muito diferentes. É que as lutas pelo poder surgem onde menos se espera e o mesmo acontece com o afecto dos corações. Sonhos e aspirações acabam por dar origem a conflitos e enganos. E o caminho é longo, pois tem a dimensão da vida.
Embora relacionado com Os Pilares da Terra, não só pelo cenário comum, mas também pelas referências ao passado que vão surgindo ao longo da narrativa, esta é uma história perfeitamente independente. Novas personagens, novos obstáculos e novos caminhos - além, é claro, das mudanças que o tempo impôs a Kingsbridge - fazem deste livro um percurso completamente novo, ainda que com as mesmas qualidades da história anterior.
E, tal como em Os Pilares da Terra, também aqui um dos grandes pontos fortes é a capacidade de gerar sentimentos intensos, sejam eles de empatia ou de aversão para com diferentes personagens - e, mais do que isso, de os ir moldando ao ritmo de um enredo repleto de reviravoltas, fazendo com que ninguém seja apenas aquilo que pareça e com que o futuro aparentemente traçado acabe por seguir um rumo completamente diferente. As crianças do início da história crescem e amadurecem, passando por muito ao longo do caminho. E também aqueles que as rodeiam têm as suas próprias histórias. Histórias essas que, da fusão de múltiplos percursos pessoais, fazem nascer um todo maior, com Kingsbridge como derradeiro protagonista.
Claro que, sendo este apenas o primeiro de dois volumes, não fica muito em aberto: fica tudo. Mas é interessante notar que a escolha do ponto de divisão é particularmente adequada, fazendo com que este primeiro volume culmine num pico de intensidade... e deixando uma vontade irresistível de descobrir o que acontece a seguir.
Mas voltando às personagens. Além do impacto dos seus percursos pessoais, feitos de dor e de conflito, de sucessos e de perdas, de esperanças e de desespero, há ainda uma outra faceta a retirar destes percursos. É que, no caminho de cada um deles, surgem diferentes elementos da construção mais vasta do mundo: lutas de poder, segredos obtidos para benefício próprio, intrigas, conspirações, julgamentos manipulados. Há tanto para descobrir ao longo desta história, e é tudo contado de forma tão marcante e intensa que é impossível não sentir todo o impacto de cada um desses momentos dramáticos.
Com uma fascinante teia de intrigas, personagens fortes na empatia e no carácter e toda uma série de episódios memoráveis, dificilmente se poderia pedir mais a este livro. Marcante, surpreendente e notável em todos os seus aspectos, uma história a não perder e uma grande promessa para o que virá na segunda metade. Muito, muito bom. 

Autor: Ken Follett
Origem: Aquisição pessoal

Para mais informações sobre o livro Um Mundo sem Fim - Volume I, clique aqui.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O Diário das Raparigas Rebeldes 2018 - 2019 (Elena Favilli e Francesca Cavallo)

Conhecem a sensação de gostar tanto de um livro que só querem é descobrir mais coisas - cadernos, bonecos, seja o que for - do mesmo universo? Tem uma certa magia, não é? E, se já conhecem a magia inspiradora das Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes, então provavelmente também vão gostar desta ideia. Trata-se de um diário/agenda pensado para o ano lectivo que agora começa, e, além de muito espaço para escrever, tem várias das ilustrações das Histórias de Adormecer, desafios a preencher, citações, curiosidades, questionários e até mesmo páginas para colorir. É, por isso, um livro especial - um livro para cada um moldar à sua imagem, tornar especial... tornar seu. 
Destina-se, naturalmente, aos fãs das Histórias de Adormecer e, principalmente, aos mais jovens. Mas tem ainda um aspecto curioso: é que, embora abrangendo o espaço de um ano lectivo, não se limita a uma utilização enquanto agenda. Desde os pequenos desafios para preencher, que estimulam a criatividade, a um espaço organizado que permite igualmente uma utilização enquanto diário pessoal, funciona essencialmente como um diário inspirador. Pois que melhor ideia do que escrever os nossos próprios pensamentos e planos junto às histórias e imagens de tantas e tão inspiradoras rebeldes?
E é aqui que entra a tal magia de reencontrar, num formato diferente, aquele livro que nos fascinou. É que até podemos já não fazer parte do público a que se destina este livro - como, aliás, as próprias Histórias de Adormecer. Mas isso não lhe retira nenhuma da magia, e reencontrar o mesmo encanto e a mesma beleza neste pequeno e delicioso diário é, em si mesmo, um belo matar de saudades.
Gostaram das Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes? Então provavelmente também vão gostar deste encantador complemento. Diário, agenda, livro de pensamentos... as possibilidades são imensas! E que melhor realçar a mensagem dos livros que lhe serviram de base? Tudo é possível. Não há limites. Basta fazer.

Autoras: Elena Favilli e Francesca Cavallo
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Porto Editora

A CADA GERAÇÃO, NA OBSCURA ILHA DE FENNBIRN, NASCEM TRÊS IRMÃS GÉMEAS.

Três rainhas herdeiras de um só trono, cada uma possuindo um poder mágico muito cobiçado. Mirabella é capaz de inflamar o incêndio mais violento ou a tempestade mais terrível. Katharine consegue ingerir um veneno mortal sem sentir os seus efeitos. De Arsinoe diz-se capaz de fazer florir a rosa mais vermelha e controlar o leão mais feroz.
Mas para uma delas ser coroada rainha, não basta ter a linhagem certa. As trigémeas terão de conquistar o seu direito à coroa, lutando por ele... até à morte.
Na noite em que as irmãs completam 16 anos, a batalha começa. E a rainha que sobreviver, conquistará a coroa!

Kendare Blake nasceu na Coreia do Sul, mas cresceu nos EUA. Tem um mestrado em Escrita, pela Middlesex University em Londres. Vive actualmente em Kent, Washington.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Em Chamas (Thomas Enger)

Henning Juul era um jornalista de sucesso, até à tragédia que pôs a sua vida em suspenso. Agora, dois anos passados desde o trauma, regressa ao trabalho, sem saber muito bem qual é o seu lugar ou como recomeçar. E começa em grande: uma estudante universitária foi encontrada numa tenda, com sinais de apedrejamento e flagelação, além de uma mão cortada. O caso promete tornar-se mediático e basta o enigma para atrair Henning à investigação. Só que nada é o que parece e a suspeita inicial de um crime de honra não tarda a dar lugar a uma intriga de contornos bastante mais elaborados. A notícia tornou-se um quebra-cabeças. E Henning Juul não vai parar até o resolver.
Um grande mistério, escrito de forma intensa e com um protagonista forte: bastam estas três características para pôr em evidência a qualidade do livro. A história cativa desde as primeiras páginas, com o mistério do que aconteceu na tenda a associar-se a elementos delicados (como a questão de um alegado choque cultural e uns quantos inimigos do piorio) e a um percurso pessoal que deixou marcas para dar forma a uma leitura viciante e cheia de surpresas. A escrita, com os seus capítulos curtos e directos, mas com intensos e precisos mergulhos aos abismos da alma do protagonista, atinge o equilíbrio perfeito entre tensão, mistério e emoção. E Henning Juul... bem, Henning Juul é fascinante, com o seu passado trágico e os seus esforços por recuperar o controlo da vida.
O que leva, naturalmente, a outro dos grandes pontos fortes deste livro: a construção das personagens. Não só de Henning, embora baste ele para realçar esta faceta particularmente marcante, mas de todas as personagens. Há uma moralidade ambígua, como que uma imperfeição subjacente, em cada uma das personagens mais relevantes: de Brogeland, com a sua obsessão pouco profissional com a colega em contraponto à eficiência que demonstra no seu trabalho, a Heidi, cuja posição é toda ela fonte de ambiguidades, passando, é claro, pela peculiar Annette, cujos segredos ninguém parece conseguir alcançar, e pelo enigmático 6tiermes7, elo de ligação e fonte de distância. E é uma ambiguidade que faz sentido, pois humaniza as personagens, tornando-as muito mais reais do que uma simples divisão entre bons e maus alguma vez poderia fazer. Além do mais, o protagonista é jornalista, algo que lhe basta para despertar amores e ódios.
Mas voltando ao caso. Sendo este o primeiro volume de uma série, é apenas de esperar que fiquem perguntas sem resposta. E ficam, de facto, mas essencialmente acerca da história pessoal de Henning. O caso em si é perfeitamente independente, com princípio, meio e um final bastante inesperado. Também aqui há um equilíbrio bem conseguido: uma história que atinge um fim satisfatório, mas que tem subjacente uma outra história, deixando por isso uma vontade imensa de ler os volumes seguintes da série.
Intenso, viciante, cheio de surpresas e com um protagonista que apenas se torna mais forte pela sua evidente vulnerabilidade, cativa desde as primeiras páginas e não deixa de surpreender até ao fim. Não se poderia, pois, pedir muito mais a um início de série. Uma série - e um protagonista - a acompanhar. 

Título: Em Chamas
Autor: Thomas Enger
Origem: Recebido para crítica

domingo, 2 de setembro de 2018

Nos Passos de Magalhães (Gonçalo Cadilhe)

Odiado por uns, idolatrado por outros, Fernão de Magalhães faz parte da lista das figuras históricas incontornáveis. E seguir os seus passos é uma longa viagem, capaz de levar até aos confins do mundo. É esse o ponto de partida deste livro que, numa mistura de narrativa histórica e percurso de viajante, segue o caminho de Magalhães, conjugando impressões modernas com a história de um tempo bastante mais distante.
Um dos elementos mais cativantes ao ler um livro de viagens é a possibilidade de conhecer lugares nunca visitados como se lá se estivesse. Neste aspecto, o livro cumpre plenamente as expectativas. Bastam, aliás, as muitas fotografias para criar uma forte primeira impressão do que será uma longa viagem, cheia de experiências notáveis. É também uma viagem bastante vasta, não se cingindo a uma única área geográfica, mas seguindo os contornos de uma volta ao mundo. Assim, os lugares visitados são muito diferentes e tanto o texto como as fotografias permitem uma percepção muito nítida dessas diferenças.
Ao associar a esta longa viagem um percurso histórico anterior, cria-se um equilíbrio interessante. De um lado, está a viagem do autor pelos lugares modernos. Do outro, o percurso de Magalhães. E o contraste entre ambos é notório, tanto nos locais mais alterados pelo tempo como nos que mantiveram muitas das suas características. Ao desenvolver a história da sua viagem em conjunto com a da viagem histórica, o autor constrói um retrato de um mundo em mudança, ao mesmo tempo que expõe as suas percepções pessoais e, claro, um percurso histórico de incontestável relevância.
Claro que, ao conjugar as duas facetas, ambas acabam por assumir uma dimensão mais sucinta. Haveria certamente mais a dizer, tanto sobre os passos de Magalhães como sobre os do próprio autor. Ainda assim, não fica a sensação de que falte nada de essencial e esta relativa brevidade tem também o agradável efeito de reforçar o impacto das coisas essenciais. Talvez não se fique a conhecer tudo, mas o que fica não se esquece facilmente.
Fica, por isso, a curiosa sensação de ter feito duas longas viagens sem sair do sítio. Viagens igualmente fascinantes ao passado e ao presente, num caminho de descobertas incessantes. Porque afinal, é isso a leitura, não é? E esta é deveras uma boa leitura.

Autor: Gonçalo Cadilhe
Origem: Recebido para crítica

sábado, 1 de setembro de 2018

The Last Hours (Minette Walters)


1348. Develish não é como os outros sítios. Embora o seu senhor seja tão cruel e insensível como qualquer outro, Lady Anne, a esposa, detém uma influência que o marido jamais poderá reconhecer. E as coisas estão prestes a mudar. Quando a Peste Negra chega durante uma das ausências de Sir Richard, Lady Anne assume a responsabilidade de proteger Develish. Mesmo que isso signifique fechar as portas ao marido e à peste que ele traz consigo. Mas fechar as portas à Peste Negra é apenas o início da luta pela sobrevivência. Isolados, mas com um ninho de intrigas no seu seio, as gentes de Develish têm de encontrar novas formas de sobreviver até que a pestilência passe. E uma nova ordem que permita a todos estarem seguros.
Acompanhando um conjunto de personagens bastante distintas através de um período conturbado, esta é uma história que, apesar de todas as suas complexidades, não demora muito tempo a cativar. Talvez porque todas as personagens criam uma primeira impressão forte – para o bem ou para o mal – e, assim, a necessidade de saber o que lhes vai acontecer não tarda a tornar-se irresistível. Mas também devido à história em si, com todas as suas intrigas e interesses em colisão, e bons corações forçados a tomar decisões terríveis.
As figuras principais são, claro, Lady Anne e Thaddeus Thurkell. Dificilmente podiam ser mais diferentes um do outro e, todavia, parecem complementar-se na perfeição. São também frutos perfeitos do seu tempo. Laddy Anne, culta e sábia, mas presa a um casamento com um marido cheio de falhas. Thaddeus, amaldiçoado pelo seu nascimento a ser tido sempre como um homem superior, mesmo sabendo mais e tendo melhor coração do que muitos dos seus alegados superiores. No seu esforço de fazer o melhor pelo seu povo, estes dois têm pela frente um percurso impressionante, e a história que a autora tece, com toda a sua teia de intrigas, é também ela bastante impressionante.
Há ainda um outro aspecto a ter em conta. Se estas duas personagens principais são fundamentalmente boas, o mundo em que se movem é… bem, bastante brutal. E, assim sendo, faz sentido que todas as personagens manifestem também as suas imperfeições. Thaddeus não é um homem paciente. Lady Anne guarda segredos. E até mesmo os mais temíveis dos seus inimigos – os que estão dentro das muralhas de Develish – parecem às vezes manifestar qualidades redentoras. Isto torna tudo muito mais interessante, pois deixa a mais relevante das questões: quanto nas ações destas personagens faz parte do seu próprio mal e quanto é fruto do seu tempo?
A história continuará – e eu mal posso esperar para ler o próximo volume. Porque, com a sua intrincada teia de poder e intriga, as suas notáveis personagens fortes e uma história tão cheia de surpresas como de momentos intensos e emocionantes, não se pode pedir muito mais a este primeiro livro. Brilhante, intrigante e cheio de surpresas, um livro que recomendo sem reservas.

Título: The Last Hours
Autora: Minette Walters
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Salpicos de Mim (José António Pinto)

Amor, saudade, sombra e inspiração. Poder-se-ia dizer que são estes os protagonistas neste conjunto de poemas em que cada texto é uma individualidade única, mas em que todos formam um todo coeso e mais amplo. Pois uma das primeiras impressões a manifestar-se é precisamente esta: a de que cada poema é em si mesmo uma unidade, mas todos parecem pertencer a uma mesma voz, a um mesmo sujeito que vive, respira, sente. E, assim, lêem-se quase como se de uma história se tratasse: uma história feita mais de sentimentos que de acontecimentos, é certo, mas uma história, ainda assim.
São maioritariamente poemas muito breves e, contudo, não lhes parece faltar nada. É esta, aliás, outra das grandes qualidades deste livro: a facilidade com que, em poucas linhas, se constrói uma imagem completa, seja ela de um instante vivido ou de um sentimento interior. Aqui, a vida acontece em poucas linhas, pois bastam essas para dizer o essencial. E é isso que torna cada poema memorável, pois vai directo ao essencial do sentimento - seja ele amor, atracção, melancolia, saudade ou vazio.
Claro que, sendo a grande maioria dos poemas dedicado ao amor (em qualquer das suas múltiplas formas) pode parecer, a espaços, que o tema se repete. Ainda assim, há um efeito intrigante nesta repetição de aspectos: por um lado, sai reforçada a ideia da força do amor, já que este parece ter de se manifestar múltiplas vezes; por outro, reforça também a coesão do todo, já que é esse mesmo amor o fio de ligação que une todos os poemas.
Trata-se, pois, de uma leitura breve, mas marcante, em que cada poema contém em si um pequeno mundo de sentimentos. E em que o todo, sempre maior do que a soma das partes, proporciona uma agradável e sempre cativante viagem às múltiplas facetas do amor. Gostei. 

Título: Salpicos de Mim
Autor: José António Pinto
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O Anjo-da-Guarda (Arto Halonen e Kevin Frasier)

1951. Palle Hardrup entra num banco em Copenhaga com a intenção de realizar um assalto e, quando as suas ordens não são obedecidas, dispara sobre dois funcionários e foge. Não tarda, todavia, a ser detido e o caso parece ter-se resolvido facilmente. Só que não é bem assim. Anders Olsen, responsável pela investigação, cedo começa a achar estranha a atitude plácida do detido e os elementos peculiares não tardam a vir à superfície. Aparentemente, Hardrup estabeleceu, em tempos, uma relação espiritual com um companheiro de prisão chamado Nielsen, a quem deixava que o hipnotizasse. E uma possibilidade começa a ganhar forma: terão os assaltos sido realizados sob a influência de Nielsen? E, se sim, não será este um perigo à solta?
Baseado numa história verídica e com um facto assente desde o início - que há, de facto, influência de Nielsen sobre os actos de Hardrup - , seria de esperar uma certa medida de previsibilidade nesta história. O que surpreende é, então, que essa medida de previsibilidade se cinja precisamente ao facto central: sim, Nielsen é responsável, como sabemos desde as primeiras páginas. Mas como, por que métodos e porquê, além, claro, de como foi que Anders e seus aliados chegaram à prova desses factos... isso já é um caminho de surpresas. Surpresas essas que proporcionam vários momentos intensos, revelações inesperadas... e um final estranhamente adequado.
Também especialmente interessante é a forma como os autores acrescentam ao caso central um conjunto de histórias pessoais e um passado sempre delicado, tendo em conta a data em que o enredo decorre. As relações das várias personagens com os nazis ou a Resistência, as perdas e traições envolvidas e a forma como a ideologia se manifestou em diferentes personagens acrescenta uma perspectiva mais profunda à posição de cada uma delas. E particularmente em Marie e Anders, cuja vida pessoal enquanto casal é particularmente abalada por este caso, sendo eles - mais até do que Nielsen - o verdadeiro núcleo central desta história.
Ficam algumas questões em aberto, principalmente no que toca à relação entre Anders e Marie, e daí uma certa curiosidade insatisfeita sobre a superação - ou não - do abismo que o caso abriu entre ambos. Ainda assim, faz também um certo sentido que assim seja, já que a linha central da história é o caso Hardrup e esse atinge uma completa conclusão. Além disso, fechar a história num ponto entre a divisão e a esperança deixa também uma agradável aura de mistério que, tendo em conta a forte presença da hipnose em todos os acontecimentos, resulta também bastante adequada.
Nem sempre o mistério sobre a identidade do culpado é essencial a uma boa história policial. Neste caso, sabê-la de antemão só torna tudo mais intenso. E assim, a impressão que fica é a de uma leitura com uma premissa previsível, mas imprevisível em tudo o resto. E, por isso mesmo, muito cativante. 

Autores: Arto Halonen e Kevin Frasier
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Hellblazer: Na Prisão (Brian Azzarello e Richard Corben)

John Constantine cometeu muitos erros na vida e talvez por isso sinta que chegou a altura de pagar. Mas também sabe que a prisão é o seu próprio tipo de inferno e que, para sobreviver, terá que despedaçar as regras instituídas e impor as suas próprias regras. Ora, Constantine é um tipo invulgar: à chegada parece vulnerável e não parece ter um talento especial para fazer amigos. Mas tem também alguns talentos únicos essenciais para a sua ascensão ao poder. Pois quem melhor do que um mágico para impor regras no inferno?
Pertencendo a uma série muito extensa e, consequentemente, a uma muito longa caminhada no que diz respeito à vida do protagonista, um dos primeiros aspectos a destacar neste livro é que, conheça-se ou não John Constantine de outras andanças, é perfeitamente possível tirar o máximo partido da leitura. A história desenrola-se toda ela em ambiente fechado e contém em si um ciclo completo. Além do mais, Constantine é um enigma que chega e parte como tal. Por isso, não fica curiosidade insatisfeita, pois a linha central do enredo encerra de forma satisfatória, mas antes uma vontade irresistível de conhecer mais das suas aventuras.
Também a arte parece ajustar-se na perfeição ao ambiente fechado e opressivo em que o enredo decorre. Da cor às expressões das personagens, passando, é claro, pelos inevitáveis momentos de violência, loucura e caos, tudo parece encaixar da forma certa para transmitir o ambiente sombrio e perigoso da penitenciária e o choque de tensão, conflito e... bem... insanidade aí reinante. Além disso, tendo em conta a precisão cirúrgica dos diálogos e monólogos, que contam apenas o que não é possível captar das imagens, o equilíbrio atingido é algo de delicado e eficiente - ainda que necessariamente também sombrio e perturbador.
Mas voltando a Constantine. Sendo ele uma personagem capaz de "alguns truques", e sendo isto algo conhecido mesmo para quem se está a estrear na série, surpreende a forma igualmente discreta e devastadora que a magia toma para se manifestar. O poder nunca é verdadeiramente afirmado, mas apenas insinuado nalguns diálogos. E todavia, quando se manifesta, o resultado é impressionante. Surge, então, uma visão diferente da magia: menos rituais, menos gestos dramáticos, mas poder e fantasmas em abundância - o que é também um aspecto crucial da história. 
Tudo somado, fica naturalmente a melhor das impressões. A de um livro que, pertencendo a um todo mais vasto, constitui também um todo em si mesmo - e que, cativante em todos os seus aspectos, deixa uma intensa vontade de conhecer os outros volumes. O mais rápido possível, de preferência. 

Título: Hellblazer: Na Prisão
Autores: Brian Azzarello e Richard Corben
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Charlatães (Robin Cook)

Devia ter sido uma cirurgia simples, mas uma sequência de erros e acasos acabou por levar à morte na mesa de operações de um estimado membro do pessoal do hospital. Agora, todos procuram atirar as culpas para outro lado e cabe ao doutor Noah Rothauser investigar e apresentar o caso na conferência de morbilidade e mortalidade. E se bastavam os erros para tornar a situação delicada, os egos envolvidos dificultam-na ainda mais. O cirurgião responsável, alimentado por rancores passados, quer a todo o custo atirar as culpas para cima da anestesiologista, Ava London, com quem Noah sente uma certa empatia. Só que aquela é apenas a primeira de várias mortes relativamente próximas envolvendo a doutora London - e também Noah começa a questionar...
Explorando diferentes possibilidades e aspectos da ética nas boas práticas médicas, uma das principais qualidades deste livro prende-se com as várias questões relevantes que vão surgindo ao longo do caminho. Desde a forma como os interesses económicos moldam a marcação das cirurgias à temática dos suplementos nutritivos, passando, é claro, pelo impacto dos avanços tecnológicos na linha que separa o real do virtual e a verdade da mentira, há todo um conjunto de questões a surgir ao longo do enredo e todas elas são dignas de reflexão. Tantas, aliás, que, por vezes, fica a sensação de uma certa dispersão, já que o evoluir dos acontecimentos acaba por deixar algumas outras facetas para segundo plano.
Esta diversidade de temas tem também o condão de tornar o enredo imprevisível. No início, o cerne parece estar na descoberta de um possível responsável para a morte ocorrida ou na exploração dos problemas do hospital. Mas eis que novas relações se criam e a história desvia-se para um rumo diferente, abordando novos temas e abrindo caminho a novas possibilidades. De súbito, ninguém é quem parecia ser e a posição de Noah torna-se cada vez mais delicada à medida que novas revelações vêm à tona, culminando num final completamente inesperado. 
E é aqui que surgem os sentimentos contraditórios. É que há tantos temas pertinentes e um enredo tão intrigante que a forma como tudo termina, deixando, talvez, demasiado em aberto, acaba por não ser totalmente satisfatória. Fazendo, embora, um certo sentido, e surpreendendo até, pois fecha a história de uma forma que, sendo tudo menos limpa, é também tudo menos previsível.
Envolvente, relevante e cheio de surpresas, trata-se, pois, de um livro onde nem tudo (nem todos) encontra o final desejado, mas que, com o seu enredo intrigante, protagonistas surpreendentes e revelações inesperadas, cativa desde o início e nunca deixa de surpreender. O que é mais do que suficiente para fazer desta uma boa leitura.

Título: Charlatães
Autor: Robin Cook
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Amor em Blackmoore (Julianne Donaldson)

Há muito que Kate Worthington decidiu que nunca se casaria, apesar das imposições sociais, e nunca se cansou de o dizer aos seus amigos mais próximos. Mas é difícil resistir à pressão constante da mãe e, em desespero, acaba por aceder a um pacto impossível: a mãe deixará que passe uma temporada em Blackmoore, o lar de eleição do mais chegado dos seus amigos. Mas Kate terá de conseguir - e rejeitar - três pedidos de casamento ou ficará à mercê da mãe para tudo o que ela quiser. Ao seu olhar determinado, parece fácil. Mas, quando chega a Blackmoore, a realidade torna-se bem visível. O escândalo que a persegue torna impossível o seu objectivo e a única pessoa que a pode salvar - Henry, o seu amigo de sempre - é também a razão de muitas das suas escolhas...
Misturando inocência, amizade e sentimentos mais profundos numa história onde há tantas personagens a despertar empatia quantas as que despertam aversão profunda, este é um livro que tem na capacidade de emocionar a sua maior qualidade. Diferentes em muitos aspectos, mas amigos desde sempre, Henry e Kate são, em todos os aspectos, personagens complementares e a forma como a história os une, ambos presos, de certa forma, nas suas gaiolas, mas com uma consciência diferente desse facto, cria uma série de momentos comoventes. São também personagens que se entranham desde o início, não só porque vistos em perspectiva (já que as respectivas mães são algo de completamente diferente), mas também pela naturalidade da relação que construíram. Há entre Henry e Kate toda uma série de momentos afectuosos, caricatos e divertidos - e a forma como o amor nasce e se sustenta a partir destas coisas torna o enredo particularmente delicioso.
É também uma história de vulnerabilidade, já que Kate está numa situação especialmente frágil, enquanto Henry se expõe de cada vez que manifesta os seus sentimentos. E esta vulnerabilidade torna o percurso muito mais emocionante, já que é impossível não torcer para que, no fim, as barreiras acabem por desabar. Além disso, e embora não seja particularmente difícil adivinhar de que forma as coisas acabarão para ambos, o caminho até lá está cheio de surpresas, de momentos marcantes - e de um afecto tão profundo e inocente que torna até os mais simples gestos em algo de enternecedor.
Henry e Kate são personagens fáceis de amar. Já as mães de ambos são fáceis de odiar. Mas o curioso nisto tudo é que estes dois lados tão contrários acabam por ser o que torna o enredo tão intenso. Além disso, também nas personagens secundárias há todo um espectro de empatia: personagens que cativam, personagens que surpreendem e personagens que, embora tudo menos cativantes, contribuem, à sua maneira, para realçar a dificuldade das circunstâncias. Faz, pois, todo o sentido esta diversidade de emoções e temperamentos, e a forma como a autora as entretece, com uma simplicidade natural e envolvente, reforma o impacto dos grandes e também dos pequenos momentos. 
Inocência, amizade e amor: eis, pois, as bases centrais desta história. Uma história tão divertida quanto comovente, com um brilhante casal protagonista e todo um conjunto de momentos deliciosos. Cativante, intensa e enternecedora, uma belíssima leitura para quem gosta de histórias de amor. Muito bom.

Autora: Julianne Donaldson
Origem: Recebido para crítica

domingo, 26 de agosto de 2018

Princesa Mecânica (Cassandra Clare)

O seu coração pode estar dividido, mas Tessa está decidida a seguir em frente com o caminho que escolheu. E, sendo Jem tão frágil, quanto mais cedo o casamento se realizar, melhor. Mas a alegre agitação dos preparativos é ensombrada por uma pesada sensação de inevitabilidade. É que Mortmain não desistiu dos seus planos e está disposto a tudo para levar Tessa para junto de si. Pois ela é a arma que lhe permitirá destruir os Caçadores de Sombras - e é esse o derradeiro propósito do Magister e dos seus autómatos.
Volume final da trilogia e também elo de ligação para os outros livros da autora, este é o livro em que todas as pontas soltam se fecham - mas não necessariamente todas as possibilidades. Afinal, Tessa é uma personagem peculiar e, por isso, também o seu caminho teria de o ser. E é precisamente daqui que surgem os momentos mais notáveis da história: do triângulo feito de diferentes - mas igualmente poderosos - tipos de amor que une Jem, Will e Tessa, proporcionando momentos de grande emotividade sem nunca se tornar demasiado previsível. E também os paralelismos e ligações: pois de Tessa e Will, mas também de Cecily e Gabriel e Sophia e Gideon - nascem os ramos que darão forma a outros Caçadores de Sombras. 
É fácil entrar na mente dos protagonistas, e ainda mais devido à intensidade do enredo. Há sempre algo de relevante a acontecer, seja nas relações pessoais, seja no plano mais vasto que põe em campos opostos Mortmain e os Caçadores de Sombras. E é por isso difícil não querer saber o que acontece a seguir, não só devido ao ritmo de constante acção e revelação, mas também pelo impacto dos grandes e dos pequenos momentos. Porque há espaço para tudo: gestos de grande dramatismo, deliciosos momentos de humor e um caminho feito de dificuldades e dor, mas também de amor e superação.
E, claro, há o mundo dos Caçadores de Sombras, que nunca deixa de cativar. Não só pelas diferenças e paralelismos entre o tempo das duas séries, mas principalmente pelas vastas possibilidades. A hierarquia, os rituais, a Lei (e as possíveis transgressões) - em tudo isto há um potencial vastíssimo e a forma como a autora o explora, desenvolvendo-o ao ritmo da história das suas personagens torna tudo mais intenso e fascinante. 
Fecha-se um ciclo neste Princesa Mecânica - mas não a história dos Caçadores de Sombras. E este fim de ciclo, com todas as suas novas possibilidades, tem ainda um muito agradável efeito complementar: a vontade de conhecer novas personagens, de reencontrar algumas já conhecidas, e de continuar a explorar este vasto mundo.
Não é o fim, portanto, mas é um fim de ciclo mais que adequado. E, com a sua vasta emotividade, a sua história intensa e cheia de surpresas e as suas tão memoráveis personagens, encerra em beleza uma trilogia que é toda ela muito cativante. E que se recomenda, claro. 

Autora: Cassandra Clare
Origem: Recebido para crítica

sábado, 25 de agosto de 2018

Teatro Vertical (Manuel Alberto Vieira)

De homens tornados monstros e perdas tornadas ódio, de inocências deixadas num autocarro que parte e abandonadas numa fornalha secreta. Disto se faz Teatro Vertical, que bem podia chamar-se ensaio sobre a crueldade e, das muitas sombras que o povoam, surge um laivo de estranheza e fascínio que prende desde o primeiro contacto e que não deixa de surpreender até ao fim. Pois há verdade e até beleza nas sombras - e a mente humana tem mais sombras do que imaginamos.
Basta pegar neste livro e folheá-lo para descobrir a primeira das várias fontes de fascínio nesta relativamente breve, mas muito intensa, leitura. As ilustrações são deslumbrantes e a estrutura do livro, com os seus tons e imagens a evocar na perfeição o ambiente sombrio das histórias, realça tudo o que nele há de enigmático, intrigante e tenebroso. Porque é, de facto, um teatro de trevas - da escuridão na alma dos seus protagonistas. E basta um olhar às imagens para preparar o caminho - imagens essas que, vistas depois ao ritmo do texto, ganham ainda um novo impacto.
Mas passando às histórias, porque também sobre elas há muito de notável a destacar. Primeiro, vem o choque - pois nenhum dos caminhos acaba onde se esperava e há sombras insuspeitas à espreita mesmo no que parece a mais inocente das situações. Depois, o fascínio - pois há um certo realismo duro na crueldade dos actos destas personagens. E, por fim, a sensação de que toda a estranheza e peculiaridade fazem perfeito sentido, pois representam um lado mais negro e mais oculto, mas nem por isso menos real, da mente humana. Tudo num equilíbrio delicado e eficaz, em que bastam poucas páginas para construir uma história notável, tal é o impacto das circunstâncias e a harmonia da voz que as narra. 
E há mais. Sendo certo que cada uma das histórias pode ser lida de forma independente, há, ainda assim, um factor de coesão que faz do conjunto um todo maior. Lido de seguida, parece formar quase que um romance em fragmentos - onde as figuras e os cenários mudam, mas permanece a mesma protagonista: a escuridão. E, mais uma vez, também as ilustrações contribuem para esta convergência, ao retratar visões inesperadas que parecem funcionar como elos de ligação entre as diferentes personagens.
Sombrio, misterioso e fascinante: assim é este Teatro Vertical. Um livro feito de estranhos habitantes, mas que, em todos os aspectos, fascina e surpreende, gravando-se na memória como uma viagem peculiar. E, naturalmente, altamente recomendada.

Título: Teatro Vertical
Autor: Manuel Alberto Vieira
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

As Casas Também Morrem (Elsa Guilherme)

Luísa é uma experiente avaliadora imobiliária e está habituada a analisar com olho crítico todas as casas que lhe são apresentadas. Mas, ao partir para Vilar de Fragas numa fase delicada da sua vida, Luísa está longe de imaginar que a espera uma casa completamente diferente. Do ponto de vista profissional, a Casa do Inglês é um achado, mas há um enigma a envolvê-la. E, à medida que vai conhecendo os habitantes da vila, Luísa começa a perceber o verdadeiro significado da casa. Uma casa que guarda pecados antigos, histórias familiares complexas - e que não precisa de ser vendida, mas libertada dos pecados daqueles que lhe estão associados.
Mais que o mistério em si, e este é também muito intrigante, a primeira coisa a despertar curiosidade nesta leitura é o tão bem caracterizado ambiente de meio pequeno, em que todos se conhecem, todos sabem (ou imaginam) a vida dos outros e há figuras que, pelo nome ou pela antiguidade, parecem ou julgam elevar-se acima dos comuns mortais. Isto é interessante, desde logo, porque reflecte a impressão que Luísa sente ao entrar como que num mundo novo, mas também pela forma como realça o impacto de todos os seus enigmas, abrindo caminho às grandes revelações que inevitavelmente sucedem aos grandes segredos.
É, aliás, deste meio fechado que surge a origem do mistério, um enigma que recua até às Invasões Francesas, mas que se estende também pelo presente e pelas muitas e delicadas associações entre as diversas personagens. É fácil, por isso, entrar na pele de Luísa, a estranha que chega para desequilibrar tudo, possivelmente levar-lhes a casa a que todos têm tão grandes pretensões e desvendar algumas das facetas mais sombrias daquela gente. O resultado é, claro, uma discreta teia de intrigas e de segredos - e um percurso feito de mistérios e de surpresas, onde não faltam estranhas crenças, manifestações sobrenaturais e... bem, uns quantos pecadores inesperados.
Ao centrar-se na casa, há uma faceta da história que acaba por passar para segundo plano: a vida pessoal de Luísa. E é aqui essencialmente que surgem os sentimentos ambíguos, não tanto pela situação do filho - que acaba por estabelecer também um notável paralelismo com a história da casa - mas pela relação com o marido, cujo comportamento e exigências nunca chega a ser devidamente enfrentado. Fica, pois, em aberto a grande pergunta do depois, um aspecto que poderia, talvez, ter sido um pouco mais explorado. Ainda assim, sendo a casa quase que a verdadeira protagonista, faz também um certo sentido que os outros aspectos assumam um papel secundário.
Intensa e intrigante, trata-se, pois, de uma história feita de grandes e pequenos enigmas: os de uma casa com um passado a preservar e os pequenos grandes segredos ocultos sob a ideia de um sítio onde todos se conhecem. Uma boa história, portanto, e um bom livro a descobrir. 

Autora: Elsa Guilherme
Origem: Recebido para crítica