terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Descender, Vol. 4: Mecânica Orbital (Jeff Lemire e Dustin Nguyen)

Não há lugares seguros para TIM-21. Não quando todos o procuram, com diferentes intenções. Mas a situação está prestes a tornar-se ainda mais delicada. Do confronto com TIM-22, o outro robô da mesma série, resultou que Telsa e Quon conseguiram fugir, mas levando um infiltrado. O verdadeiro TIM ficou para trás. Entretanto, também Andy anda em busca de TIM, sem saber que tem os seus próprios fantasmas do passado para enfrentar. Rumos colidem. Verdades vêm à tona. E tudo muda em menos de nada, deixando a sensação de que o fim está mais próximo do que aparenta - e não será limpo nem inocente.
É sempre algo de fascinante a forma como cada novo volume desta série consegue apresentar toda uma sucessão de novos desenvolvimentos - e surpresas, sobretudo - sem nunca perder a aura que a torna tão peculiar. É como que uma mistura de acção e de intriga com uma estranha e triste ternura, evocada em grande parte pelas circunstâncias de TIM, mas também pela imagem de um universo que tombou da sua própria grandeza. É estranho - mas estranhamente fascinante - como tudo é tão diferente, conseguindo ainda assim parecer sempre tão familiar. E é também fascinante a forma como os robôs se humanizam... bem, alguns, pelo menos... e os humanos adoptam a frieza das máquinas.
Claro que não se cingem a este estranho equilíbrio de sentimentos as peculiaridades desta série. A própria arte é invulgar, ainda que nem sempre seja fácil explicar o porquê das impressões que evoca. Talvez o contraste das cores fortes com o movimento. Talvez a expressividade nos rostos das personagens, com o inevitável destaque para a humanidade no rosto de TIM. Talvez a forma como as diferentes linhas do enredo se encadeiam umas nas outras, sobressaindo particularmente o entrelaçado das três partes na fase inicial deste volume. E, claro, basta olhar para esta capa: não parece um coração? Há aqui uma grande metáfora, mesmo ao alcance da mão.
Mas importa, ainda, voltar à emoção, porque há um poderoso efeito secundário nisto de se sentir tanta empatia por estas personagens. É que já são expectáveis as perguntas que ficam em aberto, mas este volume dá todo um outro sentido à expressão "deixar em suspenso". Ao longo do caminho, foram muitas as revelações e as surpresas e tudo culmina num ponto em que qualquer futuro passa a ser possível para estas personagens (exceto, talvez, um limpo e cor-de-rosa). E, assim sendo, só o resultado é previsível: uma vontade praticamente irresistível de descobrir o que acontece a seguir.
É algo de belo e de poderoso, esta história em que máquinas e humanos são capazes de partilhar da mesma crueldade e dos mesmos afectos. E, com as suas tão peculiares características, dos cenários aos enredos, sem nunca esquecer as emoções fortes que evoca, é também uma história que nunca deixa de fascinar - do início ao fim, e para além dele.

Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Universo Humano (Brian Cox e Andrew Cohen)

Quem somos? Qual a origem do universo? E porque estamos aqui? Que indescritível sucessão de coincidências fez com que a vida brotasse na Terra? E durante quanto tempo persistirá? Eis algumas das grandes perguntas que servem de premissa a este Universo Humano, que, numa abordagem concisa e abrangente, pretende, sem dramatismos nem rasgos de emoção, traçar, através das leis da física, uma carta de amor à humanidade. E é exactamente isso que faz, num registo que, embora possa ser algo desconcertante para quem não tiver grandes conhecimentos prévios da matéria, é, no geral, bastante acessível.
Parte do que torna este livro tão cativante de ler - mesmo para quem não tenha, como é o meu caso, um grande domínio prévio dos temas que aborda - é a forma como está estruturado. Os capítulos curtos, associados às várias reminiscências das experiências de gravação da série e a episódios mais conhecidos como a viagem do homem à Lua, vêm acrescentar leveza a uma leitura onde conceitos complexos da física e da matemática têm um papel dominante. Além disso, embora de forma necessariamente breve, há um evidente cuidado em explicar as linhas essenciais destes conceitos, o que significa que, além de uma carta de amor à humanidade, este livro é também uma ampla fonte de conhecimentos sobre temas tão vastos como a evolução humana, as origens do universo e as possibilidades de vida extraterrestre.
Outro aspecto a realçar é que, embora num tema tão vasto e complexo fiquem sempre perguntas sem resposta e conhecimentos a aprofundar, a imagem que fica uma vez terminada a leitura é a de que todas as bases essenciais estão presentes. Chega-se ao fim com muitas respostas que não se tinham no início e uma visão bastante mais abrangente das origens e complexidades do universo - complexidades essas que são também um pouco simplificadas pela abundância de diagramas que surgem ao longo do texto. Além disso, e embora as equações matemáticas desempenhem um papel crucial em várias das teorias e descobertas abordadas neste livro, sendo por isso útil ter algum conhecimento, é fácil, dada a clareza com que as coisas são explicadas, compreender as bases, apesar da abundância de números, factores e constantes.
Mas voltando à questão da carta de amor... É um livro sobre ciência e, em todos os aspectos que lhe dizem respeito, cinge-se estritamente aos factos científicos. Mas é também a tal assumida carta de amor à humanidade e a forma como é escrita retrata também na perfeição esse deslumbramento pela maravilha que é, aos olhos dos autores, a humanidade. Seja pelos discretos mas certeiros rasgos emocionais, seja pelas muitas citações que vêm complementar o texto científico, há como que uma proximidade com os temas que contribui também para tornar a leitura mais envolvente. É que as coisas podem ser complexas - e são - mas a sensação de espanto ante o resultado é algo de fascinante.
Vasto nos temas, acessível na abordagem e muito interessante na soma das partes - assim é, em suma, este Universo Humano. Um livro que exige o seu tempo, mas com muito de fascinante para ensinar.

Título: Universo Humano
Autores: Brian Cox e Andrew Cohen
Origem: Recebido para crítica

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Narval: O Unicórnio dos Mares! (Ben Clanton)

Um narval chamado Narval e uma alforreca chamada Alforreca, com um gosto comum por waffles e o mesmo espírito de aventura: tem tudo para correr bem, certo? Precisamente. E as aventuras podem ser simples, mas a amizade, essa, é grande. Além do mais, o Narval é... um narval, o que significa que é um animal peculiar. Por isso, há também algo a aprender desta amizade entre o Narval e a Alforreca. E aprender é sempre mais fácil - e interessante - quando é também divertido.
Muito breve, muito simples - e, no entanto, estranhamente cativante. Poder-se-ia resumir assim este pequeno conjunto de aventuras. Sim, porque o livro abrange três histórias diferentes, com os mesmos protagonistas, naturalmente, mas envolvendo percursos distintos. E, claro, são todas muito sucintas e simples, o que as torna perfeitas para leitores mais novos, e também muito divertidas, o que expande o seu apelo a leitores de todas as idades. Além de didácticas, claro, porque, entre waffles, festas e imaginação, há ainda espaço para descobrir alguns factos interessantes sobre a espécie destes curiosos protagonistas.
É também interessante reparar que, embora a palavra simplicidade se aplique realmente a todos os aspectos do livro - incluindo a arte - é também essa simplicidade que torna o conjunto tão eficaz. Sem grande margem para pormenores elaborados - ainda que com alguns laivos surpreendentemente reais, como a waffle e o morango, - o desenho complementa na perfeição a natural concisão de tudo o resto. Os diálogos são breves, as aventuras são quase inocentes - e a parte visual espelha na perfeição esta simplicidade.
Breve, lê-se num instante. Divertido, proporciona bons momentos de leitura. E, com o seu interessante equilíbrio entre os elementos didácticos e o simples espírito de aventura e imaginação, torna o impossível natural e faz da simplicidade a medida certa. Capaz de cativar leitores de todas as idades, o Narval é, sem dúvida, uma personagem que vale a pena conhecer.

Autor: Ben Clanton
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Crime no Expresso do Oriente (Benjamin Von Eckartsberg e Chaiko)

Célebre pelo seu luxo e conforto, o Expresso do Oriente vai invulgarmente cheio para aquela altura do ano, mas, ainda assim, ter amigos em posições de destaque ajuda e o famoso detective Poirot consegue um lugar para a viagem. Longe está ele de imaginar que conseguirá também um caso. Na mesma noite em que o comboio fica preso num banco de neve, um passageiro particularmente irascível é encontrado morto. E, dado que não falta ninguém nem havia propriamente uma abundância de vias de fuga, há uma coisa que é certa: o assassino continua no comboio. É, pois, hora de Poirot por as suas celulazinhas cinzentas a trabalhar... no que pode muito bem ser o mais desconcertante dos seus casos.
A primeira reflexão a emergir desta leitura é, sobretudo, de curiosidade: curiosidade com a forma como, através de um formato diferente, a mesma história pode ganhar outra vida. Não se trata propriamente do meu romance favorito de Agatha Christie, em grande parte devido à resolução final, mas é interessante notar que, ao dar às coisas uma versão visual, esse final ganha todo um outro impacto, o mesmo se aplicando à envolvência e à sucessão de pistas. Além disso, tendo em conta essa mesma resolução, os rostos das personagens - e particularmente a sua expressividade - ganham especial importância.
Outro aspecto a sobressair desta adaptação é que, sendo relativamente breve, e deixando parte dos elementos de contexto e caracterização (principalmente dos cenários) à parte visual, os momentos mais reveladores acabam também por ter outro impacto. Junte-se a isto o contraste entre o ambiente luxuoso e os tons sombrios que envolvem a revelação final e é como se a história se tornasse mais ominosa, mais intrigante. Mais memorável, enfim.
E, claro, importa referir que, apesar desta impressão divergente, o rumo do enredo é essencialmente fiel ao original, o que talvez possa esbater parte do factor surpresa para quem já sabe como a história termina, mas não lhe retira nenhuma da envolvência e da muito agradável aura de mistério. Além disso, é sempre agradável reencontrar Poirot e - neste caso específico - vislumbrar um laivo de humanidade por entre as sombras da sua frieza racional.
Fiel ao romance que lhe serve de base, mas capaz de lhe acrescentar profundidade e impacto através do desenvolvimento dos cenários e, sobretudo, da expressividade das personagens, trata-se, pois, de uma interessante e cativante adaptação.Para os fãs do original e também para os recém-chegados a esta história.

Autores: Benjamin Von Eckartsberg e Chaiko  
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Intocável (Tahereh Mafi)

O mundo está em ruínas e a única forma de sobreviver parece ter sido entregar todo o poder nas mãos de uns poucos que assumiram o controlo de tudo e ditam todas as regras - do que cada um pode comer aos sítios onde têm de viver. Mas claro que Juliette não sabe grande coisa sobre isto, pois passou os últimos meses fechada num asilo para proteger os outros do seu toque, que, inexplicavelmente, é capaz de matar. Mas o seu isolamento parece ter chegado ao fim, com a chegada de um rapaz à sua cela. Juliette lembra-se de Adam dos tempos em que tinha uma vida, ainda que ele pareça não a reconhecer. Mas o ténue conforto da sua presença traz consigo um grande perigoso: aproximar-se dela pode ser letal para Adam. Abrir o seu coração ao seu novo companheiro pode acabar de destruir o coração de Juliette. E o mundo da sua cela está prestes a expandir-se de formas inesperadas.
O primeiro aspecto a chamar a atenção neste livro terá inevitavelmente de ser a escrita. Narrado pela voz da protagonista, reflecte também o seu hábito de rasurar partes do que escreve no seu bloco de notas, além de adoptar um registo que parece fluir ao ritmo dos seus pensamentos. Assim, sobressai sobretudo a forma como a história se divide entre um ritmo de acção frenética e uma imersão total nos pensamentos de Juliette, que reflecte tanto os seus momentos de introspecção como a confusão que a invade perante as grandes revelações. Sobressai a diferença, em suma, na forma como a história é contada - diferença que reflecte a diferença da própria protagonista.
Destaca-se também que, não sendo um livro particularmente pequeno, são tantas as coisas a acontecer e as revelações a virem à superfície que facilmente poderia ter sido ainda mais extenso. Claro que parte da razão para as muitas perguntas sem resposta que ficam no fim deste primeiro volume tem a ver com o facto de a história ser contada da perspectiva de Juliette - e o que a protagonista não sabe, também o leitor não pode saber. E, se é verdade que alguns momentos parecem progredir de forma ligeiramente apressada (nomeadamente no que toca à relação entre Juliette e Adam), também o é que as circunstâncias não são propriamente normais, o que talvez justifique uma evolução mais rápida.
É também certo que a história vive muito dos momentos de acção e das grandes surpresas, entrelaçadas com uma grande dose de emoção. Mas importa ainda realçar que, ao longo desta história muito pessoal dos protagonistas, há também espaço para alguma reflexão: sobre o mundo, e as consequências de descurar os sinais de calamidade; sobre o que acontece quando o poder se torna autoritário; e sobre o sempre actual medo da diferença e a forma como se lida com ela. São elementos que surgem naturalmente e de forma discreta ao longo do enredo - mas não deixam de estar presentes e de lhe conferir maior profundidade.
Tudo somado, o que fica é a imagem de uma leitura empolgante, cheia de acção e de grandes relevações, mas também com um fundo emocional particularmente marcante. Um início promissor para uma história que, com tantas perguntas ainda por responder, só pode prometer ainda mais surpresas e mais emoções para o que se seguirá.

Título: Intocável
Autora: Tahereh Mafi
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Os Outros (C. J. Tudor)

Gabe sabia que o seu casamento estava a passar por dificuldades, mas não esperava ver a sua vida desabar em tão pouco tempo. Preso no trânsito a caminho de casa, vê a filha no banco de trás de um carro desconhecido. Pouco depois, surge a notícia de que perdeu tudo. A mulher está morta e todos dizem que a filha também. Mas ele não acredita. Ele viu-a naquele carro. E podem ter passados três anos, mas continua a procurar. E é depois de todo esse tempo que a primeira pista surge finalmente. Com a ajuda de um aliado invulgar, Gabe encontra o carro - com um cadáver lá dentro. E encontra também a primeira pista para algo de enigmático e tenebroso... na forma de duas palavras: Os Outros.
Ao terceiro livro de uma autora tão consistentemente brilhante - e diga-se logo à partida que a qualidade não pára de melhorar - há certas coisas que são, à partida expectáveis. O ritmo viciante, o aura de mistério, o elemento inexplicável que parece, porém, encaixar na perfeição em tudo o resto e, sobretudo, o delicado e poderosíssimo equilíbrio entre as trevas do mistério e as trevas da desolação interior das personagens. Este livro não é excepção, sendo que o que mais se destaca é a forma como - mais uma vez - a autora consegue elevar tudo isto a um nível ainda mais alto. O impacto emocional é ainda mais intenso. A sucessão de surpresas é ainda mais imprevisível. E há um sentido tão grande na forma como as múltiplas peças do puzzle se encaixam que são inúmeras as palavras para descrever a impressão que fica - sendo, ainda assim, possível resumi-las num grande e estrondoso UAU.
Há, ainda assim, aspectos que são muito próprios desta história específica. Basta, aliás, o conceito dos Outros, uma organização de pedidos e favores que é tudo menos caritativa. E o mais impressionante nesta premissa é que, além de lidar com mestria com as complexidades da perda de um ente querido e de todos os sentimentos contraditórios que essa perda pode despertar, principalmente quando envolve violência, traça também para as suas personagens uma ambiguidade moral que as humaniza. É que Gabe pode ser a vítima, mas tem um passado a expiar. Já o Samaritano é o exemplo perfeito da expressão que diz que olho por olho, dente por dente é uma forma de o mundo acabar cego. E há mais. Cada personagem desperta sentimentos diferentes, que se vão alterando com o desfiar das revelações, criando uma proximidade profunda que faz com que o impacto do final seja ainda mais poderoso.
E, claro, há a escrita. C. J. Tudor tem uma voz notável, tão capaz de empolgar pelo ritmo directo dos momentos de perigo ou dos diálogos mais tensos como de nos conduzir ao âmago mais desolado das suas personagens. E, pelo caminho, são tantas as frases memoráveis, tantos os rasgos de génio a dar à história a voz de que mais precisa, que é quase irresistível a vontade de continuar a ler... e o desejo de que a história nunca acabe.
Só uma coisa é expectável neste livro: que será brilhante. E é-o, de facto, em todos os aspectos. Intenso, profundo, com um intrigante mistério a contrastar com as histórias de perda e de morte que são também a sua força motriz, cativa da primeira à última página e entranha-se bem fundo na memória e no coração. Maravilhoso.

Título: Os Outros
Autora: C. J. Tudor
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Já não me deito em pose de morrer (Cláudia R. Sampaio)

As sombras e os enigmas de uma mulher da cor de um lírio, de um coração que parece não saber muito bem onde pertence, mas sabe que sente, de mulheres individuais que podiam ser todas as mulheres e de uma sombra raiada de luz que é tanto de morte como de libertação. As sombras de uma poesia que, sendo tão peculiar como indescritível, deixa poucas alternativas para a descrever além de uma linguagem também ambígua e poética, pois é mais de imagens e de impressões do que de regras concretas e cenários claros que vive este livro de poesia. E é precisamente isso que o torna notável.
Se todo o livro é diferente consoante o ponto de vista de quem o lê, mais ainda isto se aplicará à poesia. E muito especificamente a esta poesia. Não há normas, não há regras estritas, não há uma estrutura imposta a determinar rimas ou métricas. O que há é uma cadência fluida e natural que se ajusta, na sua máxima liberdade, a um conteúdo que não segue também normas nenhumas, deixando fluir imagens muito concretas, rasgos de locais específicos, por entre uma teia de abstracções algo sombrias e algo melancólicas de onde é possível retirar todo o tipo de sensações. Alguns dos poemas parecem falar directamente ao coração, sem ser, contudo, possível apontar qual é o elemento que neles os torna tão próximos. É poesia feita de sentimento - sem por isso perder nenhuma da complexidade evocada pelas suas imagens mais obscuras.
É também um livro com um curioso efeito sinestésico, ainda que relativamente discreto. É que, partindo da tal mulher da cor de um lírio, nasce no pensamento como que uma impressão de cor, ainda que não seja propriamente um elemento recorrente nos poemas. Talvez sejam os laivos de sombra dos poemas mais soturnos, ou então a própria primeira impressão que se prolonga para o resto, mas a cor do lírio permanece na memória ao longo de toda a leitura, mesmo quando as mulheres dos poemas são já outras e diferentes.
E há ainda um último contraste, o que resulta do equilíbrio entre as abstracções complexas que vão sendo tecidas a partir das imagens peculiares (começando, uma vez mais, pela mulher da cor de um lírio) e a simplicidade de outros versos e imagens que, na sua brevidade, parecem tornar normais até os elementos mais absurdos. O resultado é uma voz muito única, muito própria, mas capaz de criar, a espaços, laços de identificação estranhamente profundos.
É, de certo modo, uma poesia de sombras - mas sombras com cor. E é essa dança de sombras, tão peculiares e tão próximas, que faz com que, mesmo nos rasgos mais estranhos deste conjunto de poemas, haja sempre algo de efémero e de frágil que fala, ainda e sempre, ao coração. Cor de lírio, como a mulher. Cor de coração, como a capa. E memorável, sempre.

Autora: Cláudia R. Sampaio
Origem: Recebido para crítica

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A Menina que Queria Desenhar o Mundo (Adélia Carvalho e Sérgio Condeço)

Era uma vez uma menina que queria desenhar o mundo. Mas como, se o mundo é tão grande? Bem, começando pelo princípio: com um traço. E é a partir de um traço que cresce, que se expande e que viaja que o mundo se torna desenho. Porque afinal é mesmo verdade que o mundo é grande e só soltando o traço - a imaginação - é possível englobar o mundo inteiro. Basta voar... querer... e não desistir.
É curioso notar que a grande impressão que fica deste pequeno livro é exactamente à semelhança da história que ele contém: a de um mundo grande contido num pequeno espaço. O traço que viaja por muitos lugares para desenhar o mundo é um pouco como este livro, que, nas suas poucas páginas, contém mundos inteiros e grandes mensagens, transmitidas de uma forma tão simples quanto encantadora. E é mesmo possível desenhar o mundo: um mundo onde as diferenças fazem parte da realidade e não são motivo de medo; onde os sonhos se constroem em conjunto; onde a vida ganha encanto precisamente pela sua diversidade; e onde sonhar - e voar - é sempre, sempre possível.
Ora, tendo tudo isto em conta, não será propriamente uma surpresa este outro contraste peculiar: é que é um livro infantil, sim, mas capaz de arrancar sorrisos e até de fazer pensar os leitores mais adultos. Há tanto para explorar nesta pequena história que, mesmo que a infância já tenha ficado lá longe, continua a haver muito em que pensar nesta pequena leitura. E claro, esta universalidade tem ainda o condão de o tornar um excelente livro para ler e discutir com os mais novos - até porque lições para meditar são coisa que não lhe falta.
Sendo certo que o mais importante é sempre o conteúdo, importa ainda lançar um breve olhar à forma, nomeadamente ao equilíbrio entre um texto muito breve, mas com uma fluidez notável e até um certo toque de poesia, e as ilustrações também aparentemente simples, mas que enfatizam na perfeição os melhores aspectos desta pequena história. Além de uma história bonita, é um livro bonito de se folhear - e também isso faz parte do que o torna memorável.
O que fica é, então, tão simples e tão vasto como o traço com que a menina deste livro desenhou o mundo: uma história breve, mas belíssima, com ternura e encanto nas medidas certas e tanto, mas tanto de importante em que pensar... Bonito, cativante e muito bem construído, um livro infantil para... crianças dos oito aos oitenta.

Autores: Adélia Carvalho e Sérgio Condeço
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Os Meus Heróis Foram Sempre Drogados (Ed Brubaker e Sean Phillips)

Ellie sempre teve uma visão romantizada da droga e isso não mudou agora que está fechada numa clínica de reabilitação. Mas é onde menos espera que vai encontrar sentimentos como nunca antes sentiu. Não é a primeira vez que Skip está numa clínica daquelas, na esperança de que será desta vez que a sua vida vai entrar nos eixos. Mas, além de ser uma má influência, Ellie traz consigo um grande segredo. E o que parece ser um amor que começa a nascer - ainda que do tipo louco, capaz de desencadear fugas e deixar o mundo do lado de fora - esconde afinal um lado mais cruel.
Talvez fosse de esperar, tendo em conta a informação prévia de que é uma história enquadrada no universo Criminal - ou, bem, o nome dos autores - mas a verdade é que nada nos prepara para a sucessão de emoções que o rumo desta história desperta. É esse, aliás - mais do que os diálogos certeiros, mas do que um monólogo interior tão poético como implacável, mas do que os tons claros que apelam à nostalgia ao mesmo tempo que lançam as bases de uma desolação impiedosa - o factor que faz com que esta história tão breve se crave tão profundamente na memória. Sugere uma história de amor, de amor jovem, irresponsável, "sob a influência" talvez. Mas o que acaba por ser no fim de tudo é todo um rasgar de inocência que, além de ser uma surpresa praticamente absoluta, põe tudo em questão: amor, lealdade, confiança, justiça. Mas o mundo não é justo, pois não? Pelo menos o destas personagens.
É efectivamente uma história muito breve. Tudo acontece bastante depressa, ao ponto de quase não dar para pensar - ou preparar - o impacto das coisas. Mas o mais interessante é que também esta brevidade faz sentido. Para o contexto maior, há o universo de uma série mais vasta (e é verdade que a revelação final ganha outra familiaridade tendo já lido o primeiro volume de Criminal). Para o percurso individual desta história, tudo o que ela tem de essencial está lá: o contacto, a delicada dança à volta dos segredos, a promessa de um amor a desabrochar em contraponto a um passado solitário (e é tão impressionante a forma como isto é transporto para a arte no contraste entre cinza e pastel e nos cenários à sombra de Van Gogh) e, no fim... bem, o fim. O fim que desperta emoções tão fortes, mas do qual é impossível dizer muito sem estragar a força do impacto que ele tem.
E importa ainda voltar à arte, para realçar ainda um outro aspecto que contribui para o impacto desta imensa surpresa. É que, para uma história vinda do universo de Criminal - e, mais uma vez, destes autores - os tons são surpreendentemente claros, as expressões surpreendentemente inocentes (e, no caso de Skip, surpreendentemente genuínas), o que só faz com que seja mais profundo e inesperado o impacto de uma escuridão que vem, afinal, de dentro. Mas que está lá, ainda assim.
Amor e crueldade num percurso tão breve quanto impiedoso: poder-se-ia talvez definir assim a viagem que é este livro. Uma viagem pessoal e cheia de sentimentos fortes, de promessas de cor e de negrume... e uma história de inocência quebrada, da mais implacável das maneiras. Todo ele uma surpresa e todo ele memorável, um livro que não posso deixar de recomendar.

Autores: Ed Brubaker e Sean Phillips
Origem: Recebido para crítica

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Princesas que Mudaram a História (Virginia Mosquera e Lydia Sánchez)

Nem todas as princesas vivem num castelo... e muito menos ficam à espera de um príncipe que as salve. Não. As princesas deste livro são também, por direito próprio, protagonistas do seu conto de fadas, mas são elas que constroem a sua história e o seu reino. Conhecemos os seus nomes e talvez até um pouco da sua história. Mas o que este livro faz é mostrá-la como o conto de fadas que realmente é: o da princesa que tinha um sonho, lutou por ele, superou as barreiras e realizou-o. E a história, tal como é contada aqui, pode não ser absolutamente verdadeira, mas a princesa e o sonho são.
Partir da história de um conjunto de grandes mulheres, vindas de diferentes meios e com ambições igualmente distintas, e construir para elas uma história que é, ao mesmo tempo, um conto de fadas e assente na realidade pode parecer um desafio, mas se há coisa que este livro confirma é que resulta. Ler as histórias destas protagonistas contadas desta forma acrescenta-lhe um toque de magia sem tirar nenhuma da importância do percurso real. E, por isso, além de ser uma boa forma de apresentar aos mais novos a história destas grandes mulheres, é também uma leitura cativante e intrigante, pois pode não haver castelos mas nem cavaleiros andantes, mas ninguém disse que não havia magia.
Claro que, sendo um livro infantil, é inevitável uma certa brevidade, mas embora seja evidente a um olhar adulto que há muito mais para contar sobre estas princesas (até porque, nalguns casos, foram elas mesmas a escrever essa história) a verdade é que nunca falta nada de essencial. As linhas gerais do caminho estão lá e complementadas com o toque de magia e de encanto que faz de cada um destes pequenos contos um reino à parte. E a simplicidade... bem, a simplicidade faz sentido, não só pelo tipo de leitores a que se destina, mas porque enfatiza a força da mensagem global.
Há ainda um último ponto a sobressair nisto de pintar a realidade com magia: as ilustrações, claro. São lindas, cheias de cor e de magia. Sem se desviarem demasiado do aspecto real das protagonistas, complementam-no com cores, flores, cenários radiantes. E dão expressividade aos rostos e aos sentimentos contidos - o que, mais uma vez, enfatiza a mensagem do sonho, do esforço e da realização.
É um daqueles livros infantis que facilmente encantam também os adultos, e é mais actual do que nunca na mensagem de força, de perseverança e de poder feminino que transmite. Com a sua mistura de realidade e magia, parte de histórias reais para fazer sonhar. E isso é mais do que suficiente para que valha muito a pena esta descoberta.

Autoras: Virginia Mosquera e Lydia Sánchez
Origem: Recebido para crítica

sábado, 1 de fevereiro de 2020

As Senhoras de Missalonghi (Colleen McCullough)

Filha de uma viúva empobrecida num lugar onde as relações familiares parecem servir de pretexto para a perpetuação do fosso entre ricos e pobres, Missy Wright não tem grandes perspectivas de casamento, até porque não é propriamente uma beldade, muito menos aos olhos de toda uma vasta família de louros. Mas a sorte aparece quando menos se espera e a vingança de uns pode muito bem ser o conto de fadas de outros. A entrada em cena do misterioso John Smith vem pôr a sociedade de Byron em sobressalto, até porque alguém parece estar a comprar misteriosamente as acções da empresa da família. E um estranho, imagine-se! Mas também a própria Missy está pronta para começar a surpreender: farta da monotonia e da resignação ante a vida, começa a descobrir dentro de si uma centelha de desafio que já não a deixa estar quieta. E talvez a intrigante presença de John Smith tenha acendido algo dentro de si...
Uma das primeiras coisas a sobressair nesta história, e provavelmente a sua maior qualidade, é como, ao centrar a narrativa no percurso de Missy, facilmente vêm à tona as injustiças e dificuldades do tempo em que esta história decorre. O meio fechado, em que as coisas se fazem em família porque sempre assim foi (nem que isso implique deixar-se roubar por familiares com mais fortuna e menos escrúpulos), o desprezo dos afortunados que não querem ajudar em contraposição ao orgulho dos pobres que não querem aceitar essa ajuda, a própria visão dos papéis aceitáveis para uma senhora e do comportamento expectável em sociedade - tudo isto são aspectos que, dominantes na história da protagonista, ganham outro impacto pela sensação de opressão quase palpável que é possível sentir em torno de Missy. 
É, por outro lado, uma história relativamente breve, e com espaço mais do que suficiente para momentos caricatos e deliciosamente divertidos. O resultado é um equilíbrio muito eficaz entre os temas sérios, como a visão da sociedade da época e as situações mais problemáticas da vida pessoal das personagens, e uma leveza quase que de conto de fadas que promete romance e aventura.
Claro que, ao centrar-se em Missy, deixa, por vezes, certas facetas das outras personagens para segundo plano. Teria, talvez, sido interessante saber mais sobre o futuro da insuportável Alicia após os derradeiros desenvolvimentos ou sobre a vida de John Smith antes de Byron. E é impossível não ficar com alguns sentimentos ambíguos relativamente a algumas decisões de Missy. Ainda assim, a verdade é que todos os elementos essenciais estão lá e conjugados de uma forma tão envolvente que é praticamente impossível parar de ler.
Simples quanto baste, mas com um equilíbrio muitíssimo eficaz entre as histórias de adversidade e as promessas de aventura, trata-se, pois, de uma história que, passada num tempo diferente, conjuga temas que nunca deixam de ser actuais e sentimentos intemporais. Poderia, talvez, ser um pouco mais longo? Sim, mas resulta lindamente tal como é.

Autora: Colleen McCullough
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Os Filhos de El Topo - Caim (Alejandro Jodorowsky e José Ladrönn)

El Topo era um bandido que se tornou santo, mas que, ultrapassados os dias mais negros, viu o passado voltar para o assombrar. O filho Caim, que abandonara em criança, cresceu, procurou-o e, vendo-se incapaz de executar no pai a sua vingança, jurou matar o seu filho. E é assim que, de um reencontro feito em dor, nasce uma maldição. Nascido o segundo filho de El Topo, num mundo feito de falsas venerações, Caim é amaldiçoado com a invisibilidade para não poder consumar a sua vingança. Mas, num mundo onde todos desviam os olhos, Caim não está disposto a resignar-se. Nem que isso signifique obter pela força o que de outra forma não pode conseguir.
Embora possa não ser uma absoluta surpresa para quem já leu Os Cavaleiros de Heliópolis (e se não leram, estão à espera de quê?), um dos primeiros aspectos a sobressair desta leitura é a fortíssima carga simbólica que envolve toda esta história e que, neste caso, se torna ainda mais surpreendente dado o contexto envolvente. À primeira vista, o que este livro faz lembrar é uma espécie de western, tanto nos tons do cenário como no vestuário das principais personagens (e sem esquecer, claro, os rasgos de violência). Mas depois há o santo e os seus poderes, a colmeia como símbolo da imortalidade, o sacrifício como promessa do regresso e a visão da morte como um ciclo infinito. Para não falar, claro, em Caim (como na maldição) e Abel, essa tão conhecida história bíblica. Assim, um dos aspectos mais marcantes acaba por ser esta abundância simbólica e a naturalidade com que encaixa numa história que é, acima de tudo, de vingança e ódio.
É também surpreendentemente complexo em termos de impacto emocional, e é curioso notar como isto se aplica sobretudo à figura de Caim. Não é propriamente amaldiçoado sem motivo, e os rasgos de violência lembram-nos precisamente isso. Mas também não nasceu com o ódio no coração e o abandono passado, bem como a invisibilidade presente, fazem com haja também rasgos de humanidade a contrapor à crueldade maior. E, assim, Caim, o maldito, é estranhamente ambíguo - e é precisamente isso que o torna tão interessante.
Importa ainda voltar um pouco atrás para realçar ainda uma outra faceta associada ao simbolismo visual. É que, sendo um livro de grandes dimensões, permite analisar ao pormenor todos os pequenos detalhes da arte, que, principalmente nas partes do livro mais dedicadas ao santo, estão repletas de elementos simbólicos marcantes. A presença das múltiplas religiões - e a questão da pureza enquanto verdadeira força motriz - vem enfatizar a mistura de estranheza e de universalidade que define o mundo onde estas personagens se movem. E reconhecer os símbolos e as suas histórias cria também expectativas para as futuras convergências - e divergências, talvez - que aguardam os percursos de Caim e Abel.
Fica, por isso, este estranho fascínio ante uma história de vingança e de violência que consegue, ainda assim, conter uma vastíssima carga simbólica. E, entre o amor e o ódio, traçar nos corações ambíguos das suas personagens a promessa de uma história que tem ainda muito mais para revelar. Muito bom, em suma. E promete melhorar ainda mais.

Autores: Alejandro Jodorowsky e José Ladrönn
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Amar-te à Beira-Mar (Rodolfo Barquinha)

Era um amor destinado a ser para sempre, feito de viagens, de experiências em comum, de toques, de uma chuva eterna... até que parou de chover. O coração desfez-se, os caminhos separaram-se e a vida continuou. Mas nenhum amor tem necessariamente de ser o último e a viagem faz-se primeiro de poemas para lembrar, depois para esquecer e a seguir para recomeçar. Esta é a história de um amor contado em versos e impressões. O do narrador, claro, mas talvez não só.
Apresentado como um romance, mas escrito maioritariamente em verso (e o restante numa prosa muito introspectiva e poética), a primeira imagem a vir à tona passada a surpresa inicial é a de um livro que vive muito de impressões. Há rasgos concretos no rumo desta história, a descoberta, a separação, as viagens e a entrada em cena de um novo amor têm nomes, lugares e experiências específicas associadas. Mas são, ainda assim, uma parte relativamente discreta de um livro que vive, acima de tudo, dos sentimentos do protagonista. E, sendo certo que fica uma certa curiosidade em ver esse lado específico mais aprofundado, também o é que a ambiguidade torna os sentimentos mais universais.
Chega a ser fácil, às vezes, esquecer que há uma história particular subjacente a estas palavras. O amor do narrador/sujeito poético é dele e só dele, e há efectivamente passos específicos que são muito seus. Mas se olharmos individualmente para os poemas, ou até para os rasgos mais introspectivos de algumas das partes em prosa, é fácil transpor esses sentimentos para uma memória ou vaga sensação, ou talvez para a história de alguém de quem ouvimos falar. Há menos proximidade específica com as personagens, é um facto. Mas há como que uma proximidade emocional que compensa essa distância maior.
E, claro, sendo um livro tão poético e tão dominado pela poesia, importa ainda falar sobre o ritmo e a fluidez das palavras. Mais uma vez, são as impressões a dominar e a impressão que fica é a de uma forma de expressão natural, ainda que voltada para o interior, sem grandes regras estruturais, mas com uma cadência envolvente e capaz de contar uma história - ou impressões dela - mais a partir do coração do que do mundo exterior.
Difícil de enquadrar, portanto, mas nem por isso menos cativante, trata-se, pois, de um romance em que a história se faz tanto do que se passa na cabeça e no coração como dos acontecimentos específicos que despertam esses sentimentos e pensamentos. É um livro diferente, sem dúvida. E, na diferença, também uma boa leitura.

Autor: Rodolfo Barquinha
Origem: Recebido para crítica

domingo, 26 de janeiro de 2020

Kitty e o Tigre Dourado (Paula Harrison e Jenny Løvlie)

A Kitty está ansiosa por ver a nova exposição do museu - principalmente a famosa estátua do Tigre Dourado. Além das jóias que a tornam muito valiosa, paira sobre essa estátua uma lenda que diz que quem tocar na pata do tigre verá o seu maior desejo realizado. Ora, na inauguração da exposição, a Kitty dificilmente se poderá aproximar. E o seu gatinho, o Pumpkin, não poderá acompanhá-la. Por isso, decidem visitar o museu durante a noite. Qual não é, contudo, o seu espanto quando a sua visita os leva a assistir, em primeira mão, ao roubo do Tigre Dourado! Resta à Kitty e aos seus amigos felinos seguir o rasto do ladrão e recuperar a estátua antes do dia da inauguração. Ou então todos ficarão muito desiludidos.
Um dos primeiros aspectos a sobressair deste livro - tal como, aliás, no volume anterior - é a componente visual. O contraste dos negros e laranjas consegue transmitir na perfeição não só o ambiente nocturno em que as aventuras da Kitty decorrem, mas também as cores dominantes dos seus amigos felinos. É, afinal, da história de uma super-heroína com poderes felinos que se trata, e gatos não faltam nesta aventura. Assim sendo, é difícil não ficar, logo à partida, com a impressão de que as ilustrações estabelecem o cenário ideal para uma história tão simples quanto misteriosa.
Também a história em si é muito cativante, ainda que o facto de ser um livro juvenil lhe imponha uma necessária simplicidade. Mas se, aos olhos de um leitor adulto, é possível que fique a ideia de que esta aventura podia ser mais desenvolvida, também é certo que o essencial está lá. Há uma aventura, um mistério, um caso a resolver e as medidas certas de acção e de ternura. E, claro, uma protagonista cativante, com um conjunto de aliados eficazes, prestáveis... e fofos.
Tal como no livro anterior, também aqui existe uma mensagem, embora possivelmente não tão vincada. Na primeira aventura da Kitty, destacavam-se a coragem e a força de enfrentar o medo do desconhecido. Aqui, a lição é outra, com a situação da Preciosa e o roubo do Tigre Dourado a realçarem os perigos da ganância. Mas há um elo comum: a Kitty e os seus amigos gatos continuam a ter o tipo de relação sólida e fiável - de quem está sempre pronto a ajudar - que nunca deixa de ser inestimável. E o valor dessa amizade é já, em si mesmo, uma mensagem forte.
Com a sua mistura de aventura e mistério e uma história que é também de ternura e amizade, trata-se, pois, de uma leitura simples mas muito envolvente, sobretudo para os mais novos, mas não só. Cativante pela história, belíssimo nas ilustrações e repleto de personagens interessantes, é sempre um encanto viajar pela noite com a Kitty e os seus amigos gatos.

Autoras: Paula Harrison e Jenny Løvlie
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Intruso (Stephen King)

Embora horripilante em todos os aspectos, a morte de Frank Peterson, de onze anos, parece ser um caso fácil de resolver. Todas as provas - testemunhas, impressões digitais, ADN - apontam inquestionavelmente para o mesmo suspeito: Terry Maitland, um dos pilares da comunidade. São tão evidentes as provas que o detective Ralph Anderson não hesita em levar a cabo uma detenção muito pública. Mas nem tudo é tão simples como parece e cedo as provas aparentemente inabaláveis esbarram contra algo de inexplicável: Terry estava bem longe dali no momento do crime, tendo, aliás, sido filmado no local onde se encontrava. Como explicar então a presença de alguém em dois locais ao mesmo tempo? Bem, se o natural deixa de ser possível... Mas Ralph não pode aceitar uma explicação dessas e, seja como for, o que está feito, está feito. E o intruso que se move nas sombras alimenta-se da descrença de todos... e da dor causada pela sua presença.
Há certas características que são, à partida, expectáveis de um livro de Stephen King, e não será decerto este a excepção. Grandes reviravoltas, mistérios inexplicáveis, um enredo cheio de momentos sombrios e uma história que se torna ainda mais empolgante devido à empatia que as personagens despertam são alguns dos aspectos fulcrais para tornar este livro tão viciante e memorável. Mas desengane-se quem pensa que isto torna as coisas previsíveis. Nada neste livro é previsível - nem o enredo, nem o percurso pessoal das personagens e muito menos o impacto emocional que algumas fases despertam. E escusado será dizer que o resultado é um livro muito difícil de largar.
Outro aspecto a destacar tem a ver com a transição praticamente perfeita entre o que começa por ser a investigação de um crime "normal", mas acaba por ganhar contornos mais sobrenaturais. Inicialmente, o que marca é a situação de Terry. É difícil não sentir empatia para com os injustamente acusados, e a forma como autor desenvolve esta faceta, explorando a dúvida na mente das várias personagens gera sentimentos muito fortes. Depois, as circunstâncias alteram-se, é Ralph a assumir um papel de destaque, e eis que uma das personagens aparentemente menos marcantes revela toda uma nova faceta ao tornar-se o centro das atenções. E, à medida que os enigmas se sucedem, com as manifestações do sobrenatural a crescerem em impacto, novas figuras vão aparecendo, novas histórias vêm juntar-se à trama e o enredo vai-se intensificando, para culminar num final impressionante.
Não é propriamente novo nos livros deste autor, mas importa ainda fazer uma breve menção entre a ligação entre esta história e alguns outros livros. O nome de Bill Hodges será familiar mesmo para quem, como eu, ainda não leu a trilogia, e a presença de Holly tem o condão de despertar uma vontade ainda maior de a ler. E, para quem já a leu, imagino que será um novo ponto de familiaridade, como a que se sente ao encontrar uma discreta referência ao termo ka, tão dominante na série Torre Negra.
Intenso, empolgante, cheio de surpresas. Viciante pela história, emocionante pelo percurso das personagens, assustador pela fina teia traçada entre o natural e o sobrenatural. Fortíssimo nas personagens, brilhante no desenvolvimento, poderosíssimo na conclusão. É preciso acrescentar mais elogios? Pois ficam estes: imperdível. Genial.

Título: O Intruso
Autor: Stephen King
Origem: Aquisição pessoal

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Poemas Eróticos dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses (Victor Correia)

Todos nos lembraremos - quanto mais não seja dos tempos da escola - das categorias da poesia medieval: cantigas de amigo, de amor e de escárnio e maldizer. Mas talvez estas últimas não sejam tão conhecidas assim. E é principalmente destas, mas não só, que sai esta selecção de poemas que têm como elo de ligação o erotismo. Erotismo esse que não significa necessariamente - ou pelo menos nem sempre - sensualidade e que, ao olhar moderno, não pode deixar de parecer, no mínimo, politicamente incorrecto.
Um dos primeiros aspectos a salientar neste livro é o registo surpreendentemente actual. Voltando a lembrar a escola, uma das principais complicações da análise da poesia deste tempo era, por vezes, decifrar os significados do galaico-português. Pois bem, neste livro os poemas são traduzidos para o português actual, o que permite apreciar a rima, a métrica e as peculiaridades do conteúdo sem a barreira da compreensão dos vocábulos antigos. E, por falar em palavras peculiares, quem acha que o palavrão se banalizou nos dias de hoje poderá descobrir também, ao ler estes poemas, que é uma tradição mais antiga do que se pensava.
Outro aspecto a reter desta leitura - e particularmente das passagens pelo escárnio - é a recorrência de certas personagens. É algo de estranhamente intrigante ver a forma como diferentes autores dedicavam cantigas a uma mesma figura, evocando as mesmas histórias e rumores e usando-as como tema comum. Claro que importa ver as coisas segundo a mentalidade do tempo, pois o que em tempos foi normal pode agora ser inaceitável, mas não deixa de ser uma realidade que o comportamento da época era assim. E não deixa de haver também um elo comum com a actualidade: ainda hoje, os rumores se espalham como fogo, só que agora a uma escala mais global.
Não é propriamente fácil descrever este livro, mas uma boa forma de o referir será como um modo de dar a conhecer um lado menos divulgado da poesia medieval. Caricato, politicamente incorrecto  e com um conceito de erotismo muito diferente do actual, não deixa ainda assim de ser uma parte da história. E uma parte, às vezes, deveras curiosa.

Autor: Victor Correia
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Bug - Livro 2 (Enki Bilal)

Na sequência do bug que aniquilou todos os sistemas digitais da Terra, transpondo-os misteriosamente para o seu cérebro, Kameron Obb tornou-se o homem mais cobiçado à face do planeta. E, quando é a sobrevivência que está em jogo, os escrúpulos morais passam para segundo plano. Máfias, multimilionários, organizações pouco transparentes e, claro, os governos de vários países estão dispostos a fazer o que for preciso para deitar as mãos ao único detentor de toda a informação que se perdeu. Mas não é essa a maior preocupação de Kameron Obb. É que o bug não é apenas digital - tem uma criatura alienígena no seu corpo. Uma criatura que o está a deixar doente e que pode muito bem ser contagiosa. Acima de tudo, Kameron quer voltar a ver a filha. Mas não a qualquer preço...
Sendo fundamentalmente uma sucessão de novos desenvolvimentos no que respeita às consequências do bug e à perseguição e fuga que envolvem o protagonista, é difícil dizer muito sobre o desenrolar específico da história sem estragar as muitas surpresas do percurso. O que é, desde logo, uma qualidade, pois a sucessão de revelações e reviravoltas é um dos principais elementos a contribuir para tornar esta leitura tão empolgante. As certezas são muito poucas: Kameron tem um alienígena no corpo e todos os dados do mundo no cérebro. Há muita gente disposta a tudo para os obter. E ele não está disposto a entregar-se assim sem mais nem menos nas mãos do primeiro que lhe acontecer. Tudo o resto é uma sucessão de intrigas e movimentações, em que cada passo abre caminho a novas e inesperadas possibilidades, culminando num final que, mais uma vez, deixa tudo em aberto, prometendo, ao mesmo tempo, o início de uma nova fase para o que se poderá seguir.
Outro aspecto a sobressair é o cenário de devastação, como que de um apocalipse em câmara lenta. Sim, o caos foi quase imediato, mas a verdadeira dimensão das consequências manifesta-se de forma gradual e há algo de verdadeiramente impressionante na forma como a arte, com os seus tons sombrios e o contraste entre a estagnação dos planos afastados e o movimento dos confrontos e perseguições, reflecte este desvanecimento da vida normal. Além disso, tanto a arte como o texto propriamente dito conseguem, no meio de toda a acção e das fugas constantes, traçar os contornos de uma reflexão interessante: com o aumento da dependência tecnológica, se um dia ela se apagar, como acontece nessa história, quais serão as repercussões? Claro que o mundo actual não é, de todo, tão digital como o desta história. Mas e se fosse?
Ainda um último ponto a salientar, e um particularmente notável, é a forma como, num cenário de intrigas e perseguições globais, há, ainda assim, espaço para explorar emoções e laços pessoais. Principalmente os do protagonista, claro, com o seu apego à filha, as preocupações do mundo (literalmente) na cabeça e uma certa tristeza que se vê mais nas expressões do que propriamente nos diálogos. Mas também as obsessões dos que se viram privados de tudo o que conheciam, a incerteza de não saber o que acontece a seguir e o impacto emocional dos sucessivos encontros e separações. Cria-se uma certa proximidade, e também isso contribui para reforçar a vontade de descobrir o que mais o destino reserva para estas personagens.
Visualmente marcante, impressionante nos cenários e na visão do futuro e cheio de reviravoltas surpreendentes, trata-se, pois, de uma leitura intensa e empolgante sobre um futuro não muito impossível e em que o mais próximo são, ainda e sempre as personagens. Viciante, intrigante e muito surpreendente, um livro que não posso deixar de recomendar.

Título: Bug - Livro 2
Autor: Enki Bilal
Origem: Recebido para crítica

domingo, 19 de janeiro de 2020

Kitty e o Resgate ao Luar (Paula Harrison e Jenny Løvlie)

Todas as noites, a mãe da Kitty sai para viver grandes aventuras com os seus poderes felinos de super-heroína. Mas, embora tenha os mesmos poderes, a Kitty não sente o mesmo entusiasmo, pois a noite escura lá fora desperta-lhe um certo receio. Mas eis que, um dia, aparece um gato à sua janela a pedir ajuda e a mãe da Kitty está ausente. Cabe então à Kitty segui-lo e tentar ajudar a resolver o problema do barulho horrível que vem da torre do relógio. Será um monstro? Um fantasma? Uma coisa é certa: é a promessa de uma aventura.
É difícil falar deste livro sem destacar, antes de tudo o resto, as ilustrações. É que, embora complementem um texto também muito interessante, são mesmo elas o primeiro elemento a chamar a atenção. O contraste entre os laranjas dos felinos, o negro da noite e o branco do luar, bem como a mistura de mistério e de ternura que parece sobressair dos cenários, despertam uma curiosidade praticamente imediata para o mundo da Kitty e dos seus amigos felinos. E, sendo um aspecto tão presente ao longo de todo o livro, é difícil não ver como texto e imagem se complementam para dar forma a um todo maior.
Isto torna-se ainda mais interessante porque, sendo um livro pensado para os mais novos, é também uma história relativamente simples. A escrita é muito directa e a história segue um rumo relativamente linear, mas é tão eficaz o equilíbrio entre a beleza das páginas e a ternura simples da história da Kitty que até aos olhos de um leitor adulto a sensação que fica é a de ter vivido uma aventura. Simples? Sim, mas empolgante também.
E há uma mensagem também: uma mensagem de superação dos medos, de ter coragem porque é preciso e de descoberta de que nem tudo o que se esconde para lá do desconhecido é necessariamente mau - mesmo que seja um som aparentemente horripilante. Junte-se a isto a construção da amizade entre a Kitty e os seus amigos gatos e o resultado é uma lição em forma de aventura.
Cativante, enternecedor e principalmente muito bonito, trata-se, pois, de uma livro simples e muito envolvente, para miúdos e graúdos. E, claro, sendo o princípio de uma série, é inevitável também uma outra impressão: a enorme curiosidade em saber que aventuras irá a Kitty viver a seguir.

Autoras: Paula Harrison e Jenny Løvlie
Origem: Recebido para crítica

sábado, 18 de janeiro de 2020

A Morte do Papa (Nuno Nepomuceno)

Trinta e três dias após uma eleição que trouxe aos crentes novas esperanças, o Papa Mateus I é encontrado morto no seu quarto. Diz o Vaticano que de causas naturais, que foi encontrado com um livro nas mãos e com um sorriso nos lábios. Mas as incongruências não tardam a vir à tona e o que parecia uma explicação fácil torna-se numa certeza bem mais sombria: o Vaticano está a mentir. É este mesmo cenário que leva Diana Santos Silva a reatar o contacto com um misterioso pirata informático que parece ter informações vindas das mais altas instâncias. Só que Diana pode ser perspicaz em muitos aspectos, mas também comete erros. E eis que, mais uma vez, Afonso Catalão se vê arrastado para o meio de um cenário de crime e mistério. Mateus I não morreu de causas naturais e o enigmático Pedro parece ser quem tem as melhores informações. Informações de que Afonso precisa agora para limpar o seu nome...
Há algo de absurdamente irresistível no equilíbrio praticamente perfeito de surpresa e familiaridade que se sente ao começar a ler um novo livro deste autor. Surpresa porque cada novo enredo, cada nova reviravolta, nos leva por caminhos nunca imaginados, traçando teias de intrigas nos corredores do poder, conspirações pessoais e de âmbito global e deixando ainda espaço para os acasos, coincidências e ironias do destino. Familiaridade pelas personagens que estão já tão próximas (é impossível não sentir pelo menos um bocadinho face à irresistível inclinação do Afonso para se meter em sarilhos, mesmo sem saber), pelo impacto emocional dos momentos mais pessoais e pela forma como a história destas figuras se entrelaça num enredo de âmbito muito mais global. E, assim, há uma sensação que surge desde cedo e que nunca desaparece: a de regressar a um lugar onde já fomos felizes, mas onde há sempre novos e labirínticos caminhos para percorrer.
São tantas e tão poderosas as surpresas ao longo do percurso que é difícil abordar elementos específicos sem correr o risco de revelar demasiado, mas bastam as qualidades gerais para que a leitura valha a pena. A escrita directa, que enfatiza a acção e vai acrescentando a abundante informação de contexto ao ritmo que vai sendo necessária, torna o ritmo da leitura viciante, e o mesmo acontece com o misto de momentos de leveza, tensão, intriga e emoção. A mistura de novas personagens com outras já conhecidas, bem como a alternância entre diferentes percursos, aumenta a complexidade sem nunca perder a fluidez que tanto contribui para que seja extremamente difícil interromper a leitura. E os sentimentos fortes (positivos e negativos) gerados pelas diferentes personagens criam um vínculo emocional mais forte, não só pelo muito de marcante que contêm, mas pelas pequenas surpresas e referências pessoais espalhadas ao longo do texto.
E, claro, há um toquezinho discreto, mas que é particularmente agradável para quem já leu outros livros do autor - as referências passadas. Sendo a história totalmente independente, não deixam, ainda assim, de ser marcantes as referências a elementos do passado de Afonso. E não só, porque há umas quantas menções a um autor português de policiais (com quem uma das personagens parece não simpatizar lá muito) que transportam esta história para um mundo mais perto de nós. Afinal, é possível que conheçamos também este autor...
Com um equilíbrio notável entre intrigas globais e percursos pessoais e uma sucessão de surpresas e reviravoltas que nos conduz sempre a novas e impressionantes revelações, eis, pois, mais um livro que corresponde inteiramente às expectativas. Intenso e viciante, emotivo quanto baste e empolgante em todos os momentos, cativa desde as primeiras frases e fica na memória bem depois de atingido o muito impressionante fim. Se recomendo? Mas claro que recomendo. É imperdível.

Título: A Morte do Papa
Autor: Nuno Nepomuceno
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

One Winter Morning (Isabelle Broom)

Está a chegar o Natal, mas Genie sente-se tudo menos alegre. Há quase um ano, a mãe adoptiva morreu num acidente estúpido e Genie está convencida de que a culpa é sua. Agora, numa tentativa de a arrancar ao seu isolamento, o pai tenta convê-la a ir em busca da mãe biológica. Relutamente, Genie aceita, embora isso signifique que terá de viajar para o outro lado do mundo. Mas, quando chega à Nova Zelândia, a mãe não está lá. E a espera pelo seu regresso trará muitas revelações inesperadas - e alegres.
Provavelmente um dos aspectos mais impressionantes neste livro é a facilidade com que nos faz sentir com e pelas personagens. Genie está num estado sombrio quando a história começa, e basta isso para simpatizar com a sua dor e para gerar um certo vínculo emocional com ela. E, expandindo-se a partir destas trevas iniciais e do isolamento da protagonista, tudo se torna muito mais vasto e emocionalmente devastador. A viagem à Nova Zelândia leva Genie a entrar em contacto com as coisas que a assombraram durante todo o ano, mas abre também novas portas e possibilidades. E este delicado equilíbrio de dor e ternura, amargura e amor, escuridão e esperança, facilmente nos transporta para os recantos mais íntimos da história - e às personagens para os recantos mais íntimos do nosso coração.
Há também um ligeiro toque de mistério, e muitas questões como ponto de partida. Porque é que a protagonista foi deixada para trás, o que aconteceu ao certo para fazer com que ela se sinta tão culpada relativamente ao acidente, o que levou Bonnie a regressar a Inglaterra e que razões a levaram a deixar a filha para trás. Todas estas perguntas precisam de respostas, e encontram-nas, de facto. E mais! Pois as respostas trazem novos laços: familiares, de amizade e de amor.
Também a escrita está cheia de beleza. Emotiva, embora simples quanto baste; espantosa nos contrastes entre os diferentes cenários; envolvente e intrigante e cheia de ternura na voz; e divertida também, pois há um sentido de oportunidade perfeito na aparição dos momentos mais divertidos, que os torna ainda mais adequados numa história tão cheia de dor e perda. E esperança. Esperança também.
Emotivo e intrigante, triste, mas cheio de esperança, trata-se, pois, do tipo de história que se grava no coração. E é também essa a sua beleza: pois, durante toda a história, viajamos com Evangeline e as suas memórias - não no tempo, mas na vida. E sobretudo no amor.

Título: One Winter Morning
Autor: Isabelle Broom
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Harrow County 6 - Magia de Raízes (Cullen Bunn e Tyler Crook)

Emmy pode julgar que a sua presença foi finalmente aceite em Harrow County, mas a verdade é bastante mais desagradável. E, quando uma assombração a avisa de que anda alguém à solta a caçar assombrações, a última coisa que Emmy espera é que a a sua amiga de sempre esteja envolvida. Mas, por mais que Emmy repita que não é Hester, Bernice não está convencida. E há forças maiores a orientá-la - forças cujo maior interesse está bem longe de ser o bem-estar das gentes de Harrow County.
Há sempre algo de novo a vir à tona quando se pega num novo volume de Harrow County. É, aliás, esse o maior encanto desta série calmamente sinistra. Soa estranho? Mas é uma boa expressão para descrever esta história. Calma, porque, apesar dos muitos e perturbadores desenvolvimentos, Harrow County mantém sempre a fachada de pacatez aparente. Sinistra... bem, por causa de todas as criaturas sombrias e horripilantes - ainda que, nalguns casos, razoavelmente inofensivas - que povoam as sombras desse mesmo pacato local. E, sim, há sempre algo de novo, o que faz com que o contraste entre estes dois aspectos vá ficando cada vez mais vincado, até porque mesmo a gente "normal" consegue ver-se envolvida em situações... sinuosas.
É mais na história do que nos pormenores dos elementos visuais que as surpresas se sucedem, pois o estilo de contrastes e aparente simplicidade - os tons claros do mundo "normal" em contraposição aos rasgos de fogo e sangue do sobrenatural; a serenidade do insinuar do mistério em oposição ao movimento frenético das fugas e dos confrontos - mantém-se essencialmente igual, embora expandido pela aparição de novos elementos. Mas em tudo há novas forças, pois cada novo conflito acrescenta receios e possibilidades e a forma como esses se manifestam - na presença inesperada que surge estrategicamente no momento mais tenso, no reerguer das raízes de ligações e inimizades antigas - vem tanto dos diálogos certeiros como da impressão de uma cena cuidadosamente retratada.
E há ainda um novo elemento, que vem expandir o impacto emocional: Bernice. Bernice, a amiga de sempre que se volta implacavelmente contra Emmy, dando assim origem a um crescendo de intensidade que não vive apenas da sensação de perigo, mas sobretudo da marca emocional deixada pela amizade construída, rejeitada e depois... bem, só lendo para ver. Junte-se a isto a posição cada vez mais delicada da protagonista, com os inimigos a multiplicar-se e as suas convicções a serem postas à prova, e o resultado é uma proximidade que cresce a cada novo desenvolvimento.
Sexto volume, e em nada desilude. Muito pelo contrário, já que cada nova surpresa promete ainda mais força para o impacto final do fim que se aproxima. E recuo, por isso, alguns parágrafos para realçar a ideia de sinistra tranquilidade - poderoso contraste e fonte de tão grande empatia - que faz de Harrow County um lugar tão temível... quanto digno de uma atenta visita. Escusado será dizer, por esta altura, que recomendo esta série. Sem hesitações.

Autores: Cullen Bunn e Tyler Crook
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Alpendre a Cinco Vozes (Antero Barbosa)

Com vista para um legado antigo, para um extenso (e prontamente delapidado) património e para as memórias de uma família antiga, o Alpendre tornou-se o trono do reino do Menino QuiNando, que, fruto da fortuna e da educação, ficou menino até aos setenta anos. Mas a mesma fortuna que leva décadas a construir só precisa de alguns anos para se ver reduzida a nada, e eis que os restos do privilégio do Menino QuiNando se esfumaram com o abandono da Terceira Mulher. Agora, o Alpendre tem outro dono, e só o Sol e o povo se lembram de como era. E até a amizade de um gesto aparentemente bondoso pode esconder intenções egoístas e rancores à espera de despontar.
Com as suas cinco vozes e uma história que é feita mais de impressões do que propriamente de uma linha temporal precisa, este é um livro que, apesar da relativa brevidade, se torna difícil de descrever. Por um lado, porque as oscilações na linha temporal fazem com que seja difícil referir acontecimentos sem revelar os segredos ambíguos que se escondem nesta história. Depois, porque alguns desses segredos permanecem exactamente assim: ambíguos, sem uma resposta definitiva. E, finalmente, porque a narrativa acaba por viver tanto das impressões interiores - memórias, sentimentos, meditações - como dos acontecimentos propriamente ditos.
É, pois, um livro difícil de explicar, mas que, ainda assim, proporciona uma leitura estranhamente fluida. Talvez devido aos laivos de poesia que, sem nunca caírem no excesso, conferem ao romance um tom de profunda introspecção. Ou talvez porque há em todo o percurso uma melancolia que, embora difícil de despertar uma identificação directa (afinal, o Menino QuiNando vinha de vasta fortuna), consegue, ainda assim, gerar reflexões notáveis: sobre como tudo é efémero, fortuna, juventude e amor. Sobre como as boas intenções escondem, por vezes, sentidos ocultos. E, acima de tudo - ou não tivesse esta história cinco vozes - sobre como as coisas mudam consoante a perspectiva de quem as narra.
Poderia talvez ser um pouco mais extenso, mas tendo em conta o enigma que parece estar no âmago desta história - e por enigma entenda-se o simples facto de muito do que aconteceu ser mais insinuado do que relatado com todo o pormenor - e a forma como a ambiguidade parece assumir quase um papel de personagem, a brevidade acaba por fazer um certo sentido. Além disso, se a história vive mais de impressões do que de factos - e das percepções divergentes de entes e personagens - então é apenas natural que as coisas fiquem em aberto. Ninguém sabe tudo. Nem o Sol.
Ambíguo, mas estranhamente cativante, introspectivo e surpreendentemente poético, eis, pois, um livro que, em pouco mais de cem páginas, conta a história de múltiplas gerações sob a forma de um legado desfeito. E é esta imagem da vida - que brota, constrói e desfaz - que faz com que esta breve leitura acabe por ficar na memória. Isso, e a excentricidade do eterno Menino QuiNando.

Autor: Antero Barbosa
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O Muro no Meio do Livro (Jon Agee)

Há um muro no meio do livro. Não importa de onde veio. O que é certo é que está lá para proteger o lado seguro do livro do outro lado onde existem criaturas perigosas. Só que o lado seguro não é assim tão seguro e as criaturas do outro lado talvez não sejam assim tão perigosas. Será o muro assim tão importante, afinal?
Sendo embora um livro infantil, é difícil não chegar ao fim deste pequeno livro com a sensação de que, nos tempos que vivemos, há muitos adultos que podiam beneficiar da reflexão que este livro evoca. Mais do que proteger, o muro que há no meio deste livro alimenta preconceitos - este lado é seguro, o outro não, a criatura do outro lado é um ogre mau que come criancinhas - e cria barreiras a uma convivência melhor. E não é exactamente isso que acontece com os muros reais? Daí que esta simples mas muito pertinente reflexão não sirva só para os leitores mais novos. Serve para todos e é mais importante do que nunca.
Também bastante notável é a forma como esta mensagem tão vasta passa tão bem a partir de um livro tão simples. O texto é resumido ao essencial. As ilustrações são também da máxima simplicidade. E, ainda assim, o livro parece ter a medida certa. Há perguntas sem resposta? Claro. A começar pela origem do muro e, principalmente, da ideia de que um lado é seguro e o outro não. Mas, em vez de curiosidade insatisfeita, o que esta falta de respostas consegue gerar é uma ideia que pode ser aplicada a todos os muros: o que há no meio deste livro e os que há no meio das vidas reais.
Mas importa não esquecer que é um livro infantil, e por isso há ainda outra faceta a acrescentar a estas características. O texto muito simples, o formato relativamente grande e a estranha ternura que as ilustrações parecem despertar fazem deste um belíssimo livro para ler aos mais pequenos. Acompanhar a história, absorver as ideias e, porque não? Discutir a tão evidente e bem conseguida metáfora dos muros que é a vasta mensagem no âmago desta tão breve história.
Muros físicos, muros mentais, muros de preconceitos - é também para derrubar todos estes muros que serve esta pequena história. Um livro simples, bonito e em que a simplicidade da forma abre espaço a um conteúdo tão vasto quanto pertinente. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, não é verdade? Bem, este é, sem dúvida, um desses casos.

Autor: Jon Agee
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Sisters - Laços Infinitos (Anna Todd)

As irmãs Spring - Meg, Jo, Beth e Amy - podem nem sempre gostar muito umas das outras, mas no fundo são uma família unida. E ainda bem, porque, com o pai destacado no Iraque e a mãe nem sempre capaz de lidar com todas as tribulações da sua vida, é a união que sustenta a base da família Spring. Mas há coisas a acontecer na vida destas quatro jovens, amores e fantasmas do passado que voltam para as assombrar, uma amizade imprevista que ameaça transformar-se em algo mais e, além das simples dores de crescimento, a incerteza quanto a quando - e como - é que o pai delas vai voltar para casa. Mas pelo menos têm-se umas às outras... embora isso nem sempre pareça uma vantagem.
Inspirado no clássico Mulherzinhas, que tenta transpor para o mundo actual, este é um livro que parte das semelhanças mais óbvias, a começar pelo nome das quatro irmãs, para se ir distanciando gradualmente e adquirindo uma identidade própria. Ora, isto tem vantagens e desvantagens, sendo certo que a autonomia é sempre vantajosa, quando a fonte de inspiração é uma obra tão conhecida. Mas, mais do que convergências e divergências, que rapidamente passam para segundo plano, é percurso pessoal das irmãs Spring que cativa nesta história, e fá-lo nos bons momentos e nos maus.
O aspecto mais curioso neste livro é que é a sua principal qualidade que faz sobressair também as maiores ambiguidades. A autora decidiu contar a história na primeira pessoa e alternar entre as perspectivas das várias personagens, o que torna o registo muito mais próximo e as emoções sentidas muito mais pessoais. Mas acentua também as divergências, realçando não só as melhores características das irmãs, mas também os defeitos e as suas opiniões mais estranhas. O resultado são muitos sentimentos ambíguos, até porque, no fim da história, ficam umas quantas pontas soltas por explorar. Mas também a sensação de ter acompanhado de perto as desventuras mais ou menos adolescentes destas quatro irmãs que, embora nem sempre fáceis de perceber, têm maioritariamente o coração no sítio certo.
Há ainda um outro aspecto a destacar, embora contribua também um pouco para a tal ambiguidade. Neste caso, contudo, é uma ambiguidade que faz sentido, pois abre passo à reflexão sobre o poder de escolha. A obsessão de Meg pelo casamento em contraposição ao sonho de independência de Jo, a forma como esta divergência faz com que as irmãs choquem e também a forma como as suas certezas inabaláveis vão sendo... bem, abaladas pelas relações e evoluções que vão criando, é um bom ponto de partida para reflectir sobre a importância de sermos nós mesmos, de seguirmos os nossos sonhos e de ser para lá daquilo que os outros pensam. O mais curioso é que nem sempre as irmãs seguem o próprio exemplo (daí a sempre presente ambiguidade), mas a ideia não deixa de estar lá.
Finda a leitura, fica a imagem de uma história que se eleva acima das impressões contraditórias. Uma história de crescimento e fraternidade (com todos os atritos e conflitos que isso implica) e em que, embora nem sempre sendo fácil gostar das personagens, o que fica na memória são os sentimentos bons. Leve, cativante e com vários momentos memoráveis, uma boa leitura, somadas as partes.

Autora: Anna Todd
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Sisters - Laços Infinitos, clique aqui.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Onze anos


Sim, já lá vão onze anos... Como o tempo voa... E, ao fim de onze anos, o que há ainda para dizer que não seja o mesmo de todos os outros aniversários?

Continuo deste lado. E vocês continuam aí. (Não é maravilhoso da vossa parte?) Continuam a ler-me, a partilhar desta paixão absurdamente miraculosa que é esta coisa de viver milhões de vidas ao virar de cada página.

Não é incrível?

E sabem o que é ainda mais incrível? É que, ao longo destes onze anos, nunca deixaram de estar aí, tal como os livros também nunca deixaram de estar presentes. Nas noites tranquilas e nos dias de caos, nos tempos calmos e na correria constante. Sempre... e em toda a parte. E é tão bom...

São onze anos... e o tempo voa mesmo...

Mas mais virão? Espero que sim. Acompanham-me?

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Harrow County 5 - Abandonado (Cullen Bunn e Tyler Crook)

Emmy sabe agora que não é a única, mas o facto de ter conseguido banir a Família não significa que a paz se instalou definitivamente em Harrow County. A breve trégua permite-lhe, porém, ter finalmente com o Abandonado a verdadeira conversa que nunca teve. E o monstro que se esconde na floresta tem uma história pungente para lhe contar. Tal como Hester Beck, também ele foi em tempos um criador... e também ele pagou um preço elevado. E agora, após ter renunciado à sua identidade, vê-se alvo de atenções indesejadas. Não as de Emmy, que procura respostas, mas as daqueles que, feitos à sua imagem, se recusam a deixá-lo em paz.
Talvez pudesse considerar-se expectável que, ao quinto volume de uma série prevista para um total de oito, as bases do cenário e do contexto em que as personagens se movem estivessem já completamente lançadas, mas a verdade é que não é bem assim. Mais curioso ainda é que isto se revela uma grande qualidade, pois, sempre que julgamos saber já tudo sobre as peculiares circunstâncias de Emmy e de Harrow County, eis que surgem novos elementos e revelações a virar tudo do avesso. Além de tornarem a história completamente imprevisível, estes novos aspectos gradualmente revelados acrescentam complexidade às próprias personagens (principalmente no caso de Emmy, mas não só) e proporcionam uma sucessão de momentos verdadeiramente memoráveis.
Também particularmente notável é a forma como os próprios elementos de horror e sobrenatural se vão também tornando cada vez mais complexos, sem nunca perder, todavia, o factor choque que torna tudo tão intenso. Continuam a manifestar-se as múltiplas entidades estranhas e os momentos mais tensos continuam a resultar numa abundância de movimento e perigo, de morte e sangue. Mas há também algo mais etéreo na natureza destes elementos. Malachi e a família, com os seus poderes e a sua criação quase artística, acrescentam um toque de quase espiritualidade a uma história que vive muito do choque e do horror.
E há contrastes, claro, muitos contrastes. Entre a pacatez aparente de Harrow County e o intenso negrume que se esconde nas sombras. Entre a serenidade inabalável de Emmy e o turbilhão de forças que avançam contra ela. Entre o passado que persiste em voltar e a insinuação de um futuro que, feito de entidades retornadas, tem, ainda assim, de ser diferente. Estes contrastes estão em toda a parte, nos diálogos certeiros, nas mudanças de matiz entre o cenário que rodeia a casa de Emmy e as sombras que se agigantam nos bosques, entre os tons mais batidos das memórias e os rasgos sanguíneos do presente. No movimento palpável da perseguição e na tranquilidade dolorosa de um monstro que lembra. Em toda a parte, portanto: desenho, texto, cor e expressão.
Seria de esperar que, ao quinto volume da série, tudo fosse já relativamente familiar. Mas são tantas as surpresas a emergir do seio dessa familiaridade que, embora as personagens sejam já conhecidas, tudo o mais parece novo e fascinante. É, pois, sempre um enorme prazer regressar a Harrow County, reencontrar a Emmy... e tentar adivinhar o que poderá vir a seguir.

Autores: Cullen Bunn e Tyler Crook
Origem: Recebido para crítica