segunda-feira, 18 de junho de 2018

Afirma Pereira (Pierre-Henry Gomont)

Responsável pela folha cultural de um jornal "independente" - tão independente quanto se pode ser em tempos de ditadura - o doutor Pereira, perdido no seu próprio mundo e fascinado por um artigo que leu, contrata, para escrever necrologias antecipadas, o jovem Monteiro Rossi. Só que Rossi não é apenas um jornalista à procura de emprego. Tem amigos duvidosos, ideias revolucionárias - e isso é tudo menos aconselhável na Lisboa de Salazar. Pereira só quer saber da literatura, diz, e a política não lhe diz nada. Mas vê-se fascinado pelo idealismo do jovem - e é assim que começa a questionar...
Há algo de particularmente mágico em regressar a uma história marcante e encontrá-la num outro formato, mas com a mesma alma essencial. E é esta precisamente uma das características mais impressionantes deste livro: é uma adaptação fiel e, pese embora as necessárias diferenças, é possível reconhecer as linhas do original, vendo-as porém a uma nova perspectiva. É que o elemento visual dá-lhe uma identidade nova e uma outra vida a personagens e acontecimentos. E esta mistura entre novo e familiar é algo verdadeiramente brilhante.
Independentemente deste impacto, inevitável para quem já conhecer o romance, é também um livro completo em si mesmo - ou seja, para quem ainda não conhece o doutor Pereira, descobrir a história através desta adaptação não retira nenhum do seu impacto. Talvez tenha o efeito secundário de criar a vontade de ler o romance - tal como o romance aumenta a vontade de ler esta adaptação. Mas são elementos independentes, ainda que se complementem na perfeição.
Mas voltando à história - e pondo de parte a existência ou não de conhecimento prévio. Há na história do doutor Pereira e na sua descoberta de um mundo bastante mais cruel e complexo do que o seu mundo interior um retrato bastante preciso do que é a vida e a liberdade (ou falta de) num regime ditatorial. A censura, a violência, o inevitável secretismo marcam aqui uma presença vincada - e um contraponto à também presente (e inevitável) resistência. A história do doutor Pereira - e principalmente a forma como tudo termina - é todo um hino à resistência, nem sempre grandiosa, nem sempre bem-sucedida... mas necessária, sempre. E, se a história em si basta para o exprimir, a imagem - com tons que parecem também evocar o secretismo - torna tudo mais nítido e mais palpável.
Adaptação fiel, mas completa na sua solidez, eis, pois, um livro imperdível, tanto para quem já leu o romance de Antonio Tabucchi, como para os que não o descobriram ainda. Marcante, pertinente e, além disso, belíssimo, um livro que não posso deixar de recomendar. 

Título: Afirma Pereira
Autor: Pierre-Henry Gomont
Origem: Recebido para crítica

domingo, 17 de junho de 2018

Talento para Matar (Andrew Wilson)

Agatha Christie está a passar por uma fase difícil, ainda a sofrer com a morte da mãe e com o seu casamento em vias de desmoronar. Mas a vida está prestes a tornar-se ainda mais negra. No metro, um homem empurra-a para a linha, para depois a resgatar no último minuto, e esse homem tem as piores das intenções. Determinado a livrar-se da esposa, decidiu tirar proveito dos talentos únicos de Mrs. Christie e recrutá-la para matar a incómoda Flora Kurs. Ciente de que, se recusar, a sua família e reputação ficarão arruinadas e sem alternativas, Agatha Christie desaparece misteriosamente. Mas o seu talento para contar histórias de assassínios está longe de corresponder a uma acção impiedosa na vida real. E realizar o plano de Kurs - ou encontrar uma forma de o travar - terá sempre um preço terrível...
Um dos aspectos mais cativantes deste livro, e um que desde muito cedo se evidencia, é que, tendo como protagonista Agatha Christie, lê-se... bem, como um romance de Agatha Christie. Enigmático, cheio de reviravoltas, com personagens movidas pelo desespero ou pela ambição e com um vilão bastante arrepiante, é o tipo de policial que prende desde as primeiras páginas. E, com o seu crescendo de intensidade e a escolha impossível a que a protagonista se vê forçada, rapidamente se torna difícil largar o livro antes do fim.
É também o início de uma série, embora o mistério central tenha princípio, meio e fim. Fica, por isso, a agradável sensação de uma leitura completa e independente, com todos os seus elementos pesados nas medidas certas e a também agradável sensação de possibilidade - de muitas possibilidades a explorar no livro seguinte. Junta-se, pois, o melhor de dois mundos: a satisfação de um caso resolvido e o potencial do muito mais que poderá haver para descobrir.
Ainda um outro ponto forte nesta história é a alternância de pontos de vista - e de narrador. As partes de Mrs. Christie são narradas na primeira pessoa, permitindo um olhar mais claro e pessoal sobre os seus dilemas e sentimentos, o que é particularmente relevante tendo em conta as suas circunstâncias. E os restantes pontos de vista - Una, Davison, Kenward - mostram o mundo em volta, não só no que diz respeito à investigação do caso, mas também aos elementos pessoais que poderão servir de cobertura aos inevitáveis segredos.
Intenso, enigmático e cheio de surpresas, mas também com muita emoção e um toque de leveza resultante da naturalidade com que tudo é contado, trata-se, pois, de uma leitura cativante e surpreendente, não só pelo intrigante enredo, mas também - e principalmente - pela abordagem diferente a um elemento real da vida da protagonista. Muito bom. 

Autor: Andrew Wilson
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Príncipe das Trevas (Mark Lawrence)

Jalan Kendeth pode ser um príncipe e o neto da Rainha Vermelha, mas isso não faz dele um homem particularmente corajoso. Dedicado apenas aos seus prazeres, não pensa em muito mais do que satisfazê-los e fugir aos cobradores que, inevitavelmente, o perseguem. Mas vêm rumores do norte, rumores de um Rei Morto que, auxiliado por necromantes, fez dos mortos o seu exército. E, embora Jalan não preste grande atenção a isso, a sua presença no lugar errado à hora errada liga-o a um homem que é tudo o que ele não é - nobre, corajoso, movido por grandes valores. E a única maneira de quebrar a maldição que os une é seguir para norte e combater o que os puxa para lá...
Situado no mesmo mundo e na mesma linha temporal da Trilogia dos Espinhos, este é um livro que, podendo ser lido sem qualquer conhecimento prévio da história do mundo, se torna ainda mais impressionante se olharmos para os paralelismos que existem. Sim, o mundo é o mesmo e, portanto, os grandes problemas também os são. Mas o mais marcante é que basta este primeiro volume para antecipar um percurso de crescimento tão notável para Jalan como o que Jorg sofreu. O Jalan do fim do livro não é o mesmo que nos foi apresentado no início da história. E se o Jalan inicial já tinha carisma para dar e vender... bem, o que se segue só pode ser fantástico. 
Outra das muitas qualidades deste livro é a sempre fascinante escrita do autor  e a forma como, ao longo de todo o enredo, surgem inúmeras frases memoráveis. Além disso, a voz de Jalan parece ajustar-se na perfeição à sua personalidade, o que, além de despertar uma surpreendente proximidade, pois realça as emoções (principalmente o medo) do protagonista, confere a tudo, desde os acontecimentos aos cenários por onde passam, uma perspectiva bastante mais invulgar.
Nem só de Jalan vive a história, ainda que, com as suas inúmeras peculiaridades, bastasse ele para fazer com que a leitura valesse a pena. E, além de umas quantas figuras mais ou menos secundárias, mas todas relevantes, que contribuem em muito para a aura de mistério e intensidade que rodeia toda a narrativa, há Snorri, em tudo o oposto e em tudo complementar a Jalan. Snorri, com a sua posição delicada, o seu papel de estrangeiro vulnerável, a sua força física e a sua nobreza interior, é o contraponto perfeito a um príncipe vindo de todos os prazeres e que parece começar a crescer na provação.
E a história em si é irresistível, desde os momentos iniciais de ócio e de pequena intriga de um príncipe que procura, acima de tudo, salvar a própria pele, à longa viagem para norte, com todas as descobertas e perigos, e que culmina no derradeiro confronto com o que seguiram e os perseguiu. Viagem que, cheia de episódios marcantes em si mesma, ganha ainda um toque adicional de fascínio ao cruzar-se com personagens já conhecidas de outras andanças e que, dada a sobreposição temporal entre as duas trilogias, é particularmente agradável reencontrar. 
Intenso, cativante e cheio de surpresas e revelações, tanto no desenrolar da história como, acima de tudo, no crescimento das personagens, eis, pois, um livro que está mais que à altura das elevadíssimas expectativas deixadas pela Trilogia dos Espinhos. Com um enredo brilhante, personagens fascinantes e uma escrita que nunca deixa de surpreender... mal posso esperar para saber o que acontece a seguir. 

Autor: Mark Lawrence
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O Que Fica Somos Nós (Jill Santopolo)

Lucy e Gabe conheceram-se no dia 11 de Setembro de 2001 - o dia em que o mundo mudou e o mesmo aconteceu com as suas vidas. Talvez tenha sido a experiência de partilhar aquele dia ou talvez tenha sido uma manifestação do destino, mas entre ambos nasceu um amor firme e duradouro. Só que nem sempre o amor basta. Lucy e Gabe têm sonhos distintos e o de Gabe passa por correr o mundo em busca de fotografias capaz de mudar mentalidades, pôr fim a guerras e acabar com o sofrimento. Passa por deixar Lucy para trás e é isso que acaba por fazer. Mas nem os anos que passam nem a distância e a falta de contacto - nem sequer outros relacionamentos - podem apagar o elo que os unem. E quando, demasiados anos depois, ante a mais difícil de todas as decisões, é preciso dar enfim uma conclusão ao que os uniu, Lucy sabe que tem de lhe contar o seu último segredo...
Uma boa forma de definir a essência deste livro seria, talvez, um equilíbrio de imperfeições. Imperfeições premeditadas, entenda-se, pois uma das primeiras coisas a saltar à vista nesta leitura é que nenhuma das personagens é perfeita. O cerne da história pode ser uma relação romântica que se prolonga através do tempo e das dificuldades, mas Lucy e Gabe têm divergências e desacordos, como acontece a qualquer ser humano, e pontos que nunca podem ser comuns. E isto aplica-se também a Darren, o terceiro elemento central nesta história de relações. Darren, Lucy e Gabe - tão capazes de manifestações de puro amor como de gestos de condescendência e de desprezo para com o papel e as aspirações dos outros. 
Ora, isto desperta, por vezes, sentimentos contraditórios. É fácil admirar os grandes sonhos de Gabe, mas não a sua disponibilidade para deixar tudo o resto para trás. É fácil sorrir ante o humor e os grandes gestos de Darren, mas não ante a forma como desvaloriza os sonhos e o papel de Lucy na vida familiar. E quanto a Lucy, é fácil entender as suas dúvidas e inseguranças, ainda que nem sempre a forma como lida com os seus segredos. São personagens ambíguas e talvez por isso despertem um pouco menos de empatia. Mas é também isso que as torna mais reais.
Também a forma como a história está contada reflecte este equilíbrio delicado. É Lucy a contar a história a Gabe, o que desde logo promete grandes revelações para o final. Mas além disso, este registo pessoal de confidência à pessoa amada, torna as emoções mais abertas, mais intensas, o que reforça tanto o impacto dos pequenos momentos como o das últimas revelações.
É, pois, uma história de gente imperfeita - à procura da perfeição possível. A história de um amor frágil, mas duradouro, e das vidas complexas (e, sim, imperfeitas) que giram à volta desse amor. Envolvente, emotivo e com um tom intimista que torna tudo mais marcante, uma leitura que cativa desde o início e que, nas grandes e nas pequenas coisas, não deixa de surpreender até ao fim. 

Autora: Jill Santopolo
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Wissper - Problemas de Suricatas

O Monty e a sua família de suricatas têm um problema: a toca é demasiado pequena para todos e, por isso, têm de dormir à vez. Felizmente, a Wissper tem um dom peculiar e pode ajudá-los. Com a sua flauta, transporta-se para a casa dos suricatas e, com a ajuda de um animado grupo de pinguins, encontra uma forma de resolver o problema. Afinal, a Wissper gosta de ajudar os amigos - estejam eles onde estiverem!
Cativante e colorido com a sua história simples e cheia de magia, este é um livro que, pensado para os mais pequenos, consegue igualmente despertar a nostalgia em quem já há muito deixou a infância para trás, o tempo em que era fácil acreditar em animais falantes e em magia e em que a inocência fazia ver o bem em toda a parte. E este é, aliás, um dos pontos fortes das histórias da Wissper: há sempre uma mensagem positiva associada às suas pequenas aventuras, ou não fosse o espírito de entreajuda a essência das viagens da pequena protagonista.
Mas há também uma história cativante e divertida e um curioso paralelismo entre a vida familiar da Wissper e a dos amigos que lhe pedem ajuda. Neste caso, a questão é o espaço em casa - e as possíveis formas de resolver o problema. E se, na casa da Wissper, a solução é evidente desde o início, já no caso de Monty e dos seus companheiros... bem, a resposta é bastante mais peculiar e engraçada.
Mais uma vez, importa realçar a cor e a beleza das imagens, tão importantes para captar a atenção dos mais novos e também para dar mais vida a esta aventura. E cor não falta neste livro, tanta que basta um breve folhear para despertar a curiosidade para as suas várias personagens.
Tudo somado, fica a imagem de mais uma história breve e simples, mas sempre cativante e com uma mensagem muito positiva. Uma boa história para ler aos mais pequenos... ou para ler, simplesmente.

Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 12 de junho de 2018

The Call - A Invasão (Peadar O'Guilin)

Nessa e Anto sobreviveram à Terra Cinzenta e julgavam ter cumprido a sua parte. Mas as coisas estão longe de ter terminado. Agora, quando pensavam ter pela frente uma vida juntos, vêem-se novamente separados. Nessa, acusada de traição, pois nunca poderia ter sobrevivido sozinha na sua condição, é levada para interrogatório antes de ser enviada de volta à Terra Cinzenta. E Anto é enviado para junto de um grupo de combatentes - quanto mais não seja, para o manter na ignorância do que está a acontecer a Nessa. Entretanto, os Sídhe não desistiram da sua ambição de reconquista. E uma promessa cumprida pode anular uma promessa desfeita, permitindo-lhes tomar finalmente posse da terra que julgam ter-lhes sido roubada...
Tal como aconteceu com o primeiro volume, um dos aspectos mais marcantes deste livro é o vincado contraste entre a relativa simplicidade da escrita, com o seu estilo directo a ajustar-se à juventude das personagens, e o intrincado lado sombrio da história. Aqui, os Sídhe são tudo menos fadas bondosas e o que são capazes de fazer está na base de várias descrições macabras e perturbadoras ao longo do livro. E, claro, em resposta à crueldade, também a Nação responde com crueldade, o que cria uma situação intensa, em que os fins justificam os meios e a justiça passa para um muito distante segundo plano.
Também a evolução do enredo tem muito de intrigante. Se já no primeiro livro a sobrevivência era o essencial, aqui passa a ser quase a única regra. E se ,por um lado, isso dilui alguma empatia - há personagens de que é pura e simplesmente impossível gostar - , por outro, confere à história um maior dramatismo. Tal como o Chamado, é também uma corrida contra o tempo a acção das personagens neste livro. Mas com consequências bastante mais vastas e, como tal, com muito menos limites morais. 
E, como se não bastassem as acções dos Sídhe para conferir à história um registo bastante negro, também a posição dos protagonistas se torna cada vez mais desesperada, o que, além de ser, por si só, uma surpresa, pois desde cedo se percebe que não haverá finais limpos e muito menos perdas mínimas, reforça o impacto dos grandes gestos, pois há uma estranha nobreza no sacrifício quando já tudo se perdeu. 
Intenso, surpreendente e inesperadamente (ainda mais) negro, trata-se, pois, de uma notável mistura de continuidade e evolução relativamente ao primeiro volume. E, ainda que deixando para trás algumas questões em aberto, de uma conclusão mais que adequada para um enredo que nunca poderia ter um fim fácil. Uma boa história, sem dúvida, de um autor para continuar a acompanhar.

Autor: Peadar O'Guilin
Origem: Recebido para crítica

Passatempo O Bom Ditador II - A Expansão

O blogue As Leituras do Corvo, em parceria com o autor Gonçalo JN Dias, tem para oferecer um exemplar do livro O Bom Ditador II - A Expansão. Para participar basta responder à seguinte questão:

1. Como se chama o primeiro volume desta trilogia?

Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 30 de Junho. Respostas posteriores não serão consideradas;
- Para participar deverão enviar as respostas para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- Os vencedores serão contactados por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Palavras Cínicas (Albino Forjaz de Sampaio)

Amor, família, amizade, fé, caridade, nobreza. Seria de pensar que estes e outros valores semelhantes seriam algo de intemporal e de universalmente reconhecido. Bem, para o autor destas crónicas não são. Nelas, é questionado tudo quanto se julga ser bom, exaltando antes os contornos do egoísmo, do ódio e da indiferença. E poderá haver numa tal visão qualidades redentoras? Talvez, porque há entre tudo isto uma grande verdade: no fim, todos acabam da mesma forma. 
Não é propriamente fácil falar sobre este livro, pois cada uma das cartas que o compõem parece lançar nova luz sobre as perspectivas anteriores, principalmente no que às duas últimas diz respeito. E não é fácil também porque a exaltação do mal é, por vezes, de tal modo vincada que acaba por conseguir despertar esse mesmo ódio que tanto exalta - para as mesmas palavras que tanto lhe cantam os louvores. Importa, talvez, por isso ter em conta a época em que foi escrito e a necessidade de desafiar a sociedade da moral e dos bons costumes. Nesse aspecto, dificilmente poderia ser mais eficaz, pois questiona realmente tudo. 
Importa também considerar o livro como um todo, e como um todo que pretende desafiar convenções. Algumas das cartas, lidas isoladamente, despertam essencialmente indignações face a tão vincadas - e revoltantes - posições. Mas depois vêm as seguintes para expor uma visão mais sombria e as sombras interiores que ditam essas palavras. E, não redimindo completamente este quase maquiavélico louvor ao vício, acrescentam-lhe, ainda assim, uma nova camada de complexidade.
Mas há um aspecto particularmente marcante neste livro: é que, mesmo não nutrindo propriamente bons sentimentos pelas perspectivas apresentadas nas crónicas, há uma fluidez na forma como estão escritas que é difícil não admirar. Tudo parece surgir com a naturalidade da convicção e, ao mesmo tempo, ser posto em causa pelo pessimismo que lhes dá voz. E assim surge uma estranha percepção: a de uma visão difícil de admirar... admiravelmente escrita.
Ficam, pois, sentimentos contraditórios e uma visão do mundo com tanto de negro como de meticulosamente construído. E uma leitura que, não sendo leve nem fácil, consegue, ainda assim, ser estranhamente interessante.

Autor: Albino Forjaz de Sampaio
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Vogais

Adolf Hitler era um líder improvável — alimentado por ódio, incapaz de aceitar uma crítica, socialmente e emocionalmente inadequado — e, no entanto, atraiu multidões. Como foi possível que se tenha tornado uma figura tão atractiva para milhões de pessoas? Essa é a pergunta que norteia O Carisma de Hitler, a mais recente obra de Laurence Rees, que entre os vários prémios com que já foi galardoado contam-se um BAFTA e dois Emmys.
Laurence Rees investiga a forma como Hitler construiu o seu mito e fez uso do seu carisma até se transformar num quase «messias» com contornos semidivinos — da retórica pomposa dos primeiros discursos antissemitas às massivas demonstrações de adoração retratadas nos filmes de Leni Riefenstahl —, entretecendo a personagem e a figura pública, para as confrontar com os testemunhos das vítimas do seu encanto e os seus opositores mais ferozes.
Ao mesmo tempo uma visão histórico-psicológica surpreendente e um estudo esclarecedor dos mecanismos de manipulação e credulidade humanas, este livro analisa a natureza do apelo de Hitler e revela o papel que o seu suposto «carisma» desempenhou no seu sucesso.

Laurence Rees, licenciado pela Universidade de Oxford, ganhou o British Book Award para Livro de História do Ano em 2006, pelo seu bestseller Auschwitz: Os Nazis e a «Solução Final» [Ed. Dom Quixote, 2005]. Diretor criativo de programas de História da BBC TV durante muitos anos, escreveu seis livros sobre os nazis e a Segunda Guerra Mundial, incluindo The Nazis: A Warning From History, World War II: Behind Closed Doors e Holocausto: Uma Nova História (Ed. Vogais, 2017), bem como os documentários televisivos que acompanharam os livros. Entre os vários prémios com que já foi galardoado, contam-se um BAFTA e dois Emmys. 

domingo, 10 de junho de 2018

O Cavaleiro Misterioso (George R.R. Martin)

Sor Duncan, o Alto, e o seu jovem escudeiro, Egg, dirigem-se a Winterfell quando o inesperado convite para um casamento os desvia para Parede Branca. Aí, Dunk espera vencer algumas justas e melhorar um pouco as suas condições financeiras. Mas aquele casamento é muito mais do que parece e há um ninho de conspiradores a mover-se em torno de um misterioso cavaleiro chamado John, o Rabequista. Sem querer, Dunk dá por si no centro dos acontecimentos - e com um papel relevante a desempenhar.
Bastante distantes no tempo dos acontecimentos de A Guerra dos Tronos, mas igualmente cativante e com a mesma mistura de intriga, vulnerabilidade, conspiração e um leve toque de bizarria, este é um livro que, sendo necessariamente mais breve que qualquer dos volumes das Crónicas de Gelo e Fogo, contém, ainda assim, todos os elementos que os tornam tão memoráveis. Sendo uma novela gráfica, a história vive tanto das imagens como dos diálogos - e prova disso mesmo são as grandes lutas - e a complexidade do universo está tão presente nestas imagens como nas extensas descrições de qualquer dos outros livros. Além disso, fica-se com uma percepção diferente ao contactar com uma representação visual das personagens - já que, principalmente no que diz respeito aos Targaryen, há uma distância bastante vincada relativamente às restantes personagens.
Quanto à história em si tem o tom característico das aventuras de Dunk e Egg: perigo e intriga nas medidas certas, momentos de humor e de embaraço, situações de vulnerabilidade e um certo código de honra que, mantido em circunstâncias tão peculiares, se torna especialmente marcante. E claro, pode não ser difícil adivinhar a resolução final de certos acontecimentos - mas o caminho é tão empolgante e as personagens tão interessantes que adivinhar o que poderá acontecer não retira ao enredo qualquer impacto.
E, claro, importa sempre falar da imagem e de como é fácil, ao longo das páginas, entrar neste mundo, contemplar os locais onde tudo acontece e, de certa forma, assistir às justas e a outros confrontos mais sangrentos que aí se travam. Há vida nas imagens e uma vida que se ajusta na perfeição aos diálogos. E, por isso, tudo parece atingir o equilíbrio certo.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura cativante, intensa e cheia de surpresas. Um belíssimo livro para matar saudades de Westeros enquanto não chega o tão aguardado Winds of Winter e para descobrir um período distinto da tão vasta história desse mundo. Muito bom. 

Autor: George R.R. Martin
Origem: Recebido para crítica

sábado, 9 de junho de 2018

O Projeto Acidente (Julie Buxbaum)

Kit é uma rapariga popular, mas a tragédia que lhe roubou o pai fez com que lhe fosse difícil regressar à normalidade. David é um rapaz peculiar, com dificuldades em interagir com os outros e bastante isolado no mundo. Nenhum dos dois espera, por isso, que o momento em que Kit se senta à mesa de David se torne o início de uma bela amizade. Afinal, têm mais em comum do que julgavam e a proximidade parece surgir naturalmente - até mesmo a David, para quem nada é natural. Mas Kit precisa da ajuda de David e do seu génio matemático para encontrar as explicações que procura para o acidente que vitimou o pai. E essas respostas, por mais inocentes que possam parecer, podem muito bem ser o fim do que estava apenas a começar...
Há algo de mágico na forma como a autora consegue pegar num cenário tão aparentemente simples como o da vida escolar e fazer dele a base de toda uma série de temas relevantes. Primeiro, a condição de David e o difícil luto de Kit. Depois, a privacidade na era das redes sociais. E ainda, em torno de tudo isto, a necessidade de aprender a aceitar, a perdoar e a evoluir com os obstáculos da vida. Há na história destas duas personagens todo um percurso de crescimento, e este só se torna ainda mais marcante pelo facto de ambos estarem a passar por uma fase difícil, mas também capaz de lhes abrir os olhos para novas realidades. À sua maneira, os obstáculos levam-nos a crescer e a forma como a autora desenvolve esta caminhada é algo de simplesmente brilhante. 
Também muito impressionante é a forma como as pequenas grandes revelações se conjugam com a relativa naturalidade do quotidiano das personagens. A vida não para - e a escola muito menos. E, apesar das grandes mudanças que Kit e David estão a viver, a vida normal continua a desenrolar-se à volta deles, o que cria um muito cativante equilíbrio entre mudança e normalidade. Equilíbrio esse que, ao sofrer a influência dos novos desenvolvimentos, acaba por ser também o que define os contornos da ligação entre os protagonistas.
E depois há emoção. Aliás, emoção é o que mais abunda nesta história. A ternura das relações familiares, a mistura de choque, angústia e compreensão provocada pelas grandes viragens, a descoberta de um amor frágil que começa a despontar e o tão difícil - mas tão necessário - sentimento de pertença a algum lugar. Nada disto é fácil, na verdade. E, porém, é fácil sentir com as personagens, nos bons e nos maus momentos. É fácil viver com eles esta história e é provavelmente por isso que o final tem um impacto emocional tão grande.
Crescimento, superação e descoberta. São estes os elementos definidores nesta história. Uma história tão cativante pelas personagens em si como pelo percurso de crescimento e pela mensagem de aceitação que dele resulta. E em que tudo parece surgir precisamente na medida certa, para construir uma leitura envolvente, surpreendente e muito, muito emotiva. Uma belíssima história, em suma, que recomendo incondicionalmente. 

Autora: Julie Buxbaum
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: O Bom Ditador II - A Expansão, de Gonçalo JN Dias

Matthias um rapaz que viveu isolado com a sua família, lutando pela sobrevivência, dá os primeiros passos fora da sua fazenda, numa sociedade que emerge das cinzas.
Sara uma jovem que, aparentemente, foge para leste, para poder escapar das garras de um Estado opressor.
Gustavo, após 15 anos de poder, decidiu que está na hora de encontrar um sucessor. No entanto, uma surpresa vinda do passado poderá mudar os seus planos.
O destino dos três irá cruzar-se.


O Bom Ditador - O Nascimento de um Império: https://www.amazon.com/dp/B01A5YYQ7I

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Divulgação: Novidades Presença

Laura é uma mulher realizada. Tem uma carreira bem-sucedida, um casamento estável com um homem rico e um filho, Daniel, que ela adora.
Quando Daniel, estudante de medicina de 23 anos, conhece Cherry, uma belíssima e inteligente rapariga oriunda de um meio mais modesto, Laura acolhe-a de braços abertos.
Mas Laura começa a desconfiar que a sua futura nora não é bem o que aparenta ser...
Laura tentará a todo o custo afastá-la da vida de Daniel. Mas Cherry não é fácil de afastar...
Um thriller psicológico de cortar a respiração.

Michelle Frances é uma autora britânica. Licenciou-se em Inglaterra na Bournemouth Film School, em 1996, e concluiu o mestrado no American Film Institute, Los Angeles, em 1998. Após o seu regresso a Londres, trabalha há cerca de quinze anos como produtora e editora de argumentos para canais de televisão, como a BBC. A Namorada é o seu romance de estreia, que se tornou de imediato um bestseller e cujos direitos de publicação foram vendidos para 15 países.

Cass vive momentos difíceis desde o dia em que viu aquela mulher dentro de um carro estacionado no bosque . Agora sabe que a mulher foi assassinada e que ela nada fez para ajudar. Tenta afastar o caso da sua mente , mas o que poderia ela ter feito? Se tivesse parado, teria provavelmente acabado também por ser uma vítima . Mas, desde então, Cass anda perturbada, esquece-se das coisas mais básicas: Onde deixou o carro? Tomou a medicação? Qual o código do alarme de casa? Consumida por um profundo sentimento de culpa, a única coisa que não consegue esquecer é a imagem daquela mulher dentro do carro. E há ainda as chamadas telefónicas anónimas e a sensação de que alguém anda a observá-la. Mas quem poderá estar por detrás disso?

B. A. Paris é a autora britânica do bestseller internacional Ao Fechar a Porta, publicado pela Editorial Presença que conta com mais de um milhão de exemplares vendidos apenas no Reino Unido e é um bestseller do New York Times. Os direitos das suas obras foram adquiridos por 37 países. Tendo vivido durante muitos anos em França, regressou recentemente ao seu país-natal, onde reside com o marido e as cinco filhas.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

The Trouble Boys (E.R. Fallon)


Quando era criança, Colin O’Brien mudou-se para Nova Iorque com a família porque a mãe precisava de mudar de ambiente. Mas a realidade que encontraram em nada corresponde às expectativas. A vida parece mover-se à base de favores e ligações locais e não tarda a que o preço de viver num sítio desses se torne evidente. Ao chegar, Colin fez apenas uma amizade, com Johnny Garcia, e essa amizade parece ser a única âncora na vida de Colin. Mas o tempo passa. Tragédias acontecem. E, à medida que os caminhos dos dois amigos se separam, também as suas vidas se embrenham mais profundamente nas das organizações criminosas que parecem governar o local. Para prosperar num tal cenário, é preciso abandonar todas as lealdades anteriores. E, ao fazê-lo, Colin descobre que a vida não vale assim tanto…
Acompanhando toda a vida e crescimento de Colin e, com ele, o das muitas pessoas que entram e saem do seu mundo, esta é uma história com tanto de esperança como de desencanto. No início, Colin é tão inocente como qualquer criança, mas isso não tarda a mudar com a descoberta do mundo real. E, à medida que a sua posição se altera, de vítima a protector e depois a executor dos desejos de outrem, também Colin muda. É esta mudança o cerne deste livro, e também a sua tragédia, pois, quando a inocência de Colin se perde, o seu destino torna-se inevitável. E esse conhecimento torna o caminho muito mais intenso.
Colin é uma personagem impressionante, mas é ver o seu caminho no contexto da época que torna tudo mais marcante. As relações e inimizades intrincadas entre os diferentes grupos – e até dentro do mesmo grupo – tornam tudo imprevisível e, ao mesmo tempo, inevitável. E, sabendo como tudo terá de terminar para uma tal personagem, é de certa forma avassalador acompanhar as esperanças, medos, paixões e escolhas de Colin – mesmo nos momentos em que é mais difícil entender os seus actos.
Embora o cenário seja algo complexo, é fácil entrar nesta história. A escrita é precisa, realçando os momentos mais importantes, mas explorando também os pontos de vista de Colin. E a narrativa flui com um equilíbrio quase perfeito de choque e naturalidade. Há ternura e amor, crescimento e amizade – e depois há morte, traição, desencanto. E tudo faz sentido no fim – até mesmo a tristeza que fica da conclusão.
Intenso, intrigante e, a espaços, surpreendentemente emotivo, no fim, tudo se resume a isto: uma história de grandes esperanças em tempos sombrios e de crescer como algo muito diferente do que se esperava nos sonhos de infância. Uma boa leitura, em suma.

Autora: E.R. Fallon
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

Todos os anos, Belly costuma contar os dias que faltam para o verão, e só pensa em regressar à casa de praia para estar novamente com Conrad e Jeremiah. Contudo, a amizade que sempre uniu os três jovens parece estar a desmoronar-se e tudo parece diferente.
Até ao dia em que Jeremiah conta a Belly que Conrad desapareceu, e lhe pede ajuda para o encontrar. Belly fará de tudo para descobrir onde está o amigo. Mas isso só será possível se regressarem à casa de praia.
Voltará tudo a ser como dantes ou estará esta amizade num ponto sem retorno?
Uma história intensa sobre o amor e a forma como ele nos ajuda a trilhar o nosso caminho.

Jenny Han nasceu e cresceu na costa leste dos Estados Unidos da América. Estudou na Universidade da Carolina do Norte e fez um mestrado em Escrita para Crianças em Nova Iorque, onde mora actualmente.
Se pudesse escolher um emprego, Jenny Han gostaria de ser ajudante do Pai Natal, provadora de gelados ou a melhor amiga da Oprah, entre outras coisas perfeitamente vulgares. Tem uma predilecção por meias até ao joelho e come qualquer sobremesa, desde que seja de maracujá.
Com seguidores em todo o mundo, Jenny Han é uma autora bestseller, e o seu livro A Todos os Rapazes que Amei (ed. Topseller, 2014) está a ser adaptado ao cinema, com estreia marcada nos EUA para Agosto.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Que Sombra te Acompanha (Tiago Gonçalves)

Alfredo trocou a aldeia pela cidade em busca de uma vida melhor, mas os anos passaram e ficou apenas o desencanto e a solidão. Agora, deambula pelas ruas, apenas com a sombra por companhia, e tenta entender o seu lugar no mundo. Sozinho, pondera sobre a sua vida e a do mundo que o rodeia - mas um reencontro inesperado leva-o a questionar o que nunca antes questionou...
Muito breve e centrado mais na vida interior do protagonista do que propriamente em movimentos e acções, este é um livro em que o elemento fundamental é o pensamento. O pensamento que leva a Alfredo a recordar e a questionar o que fez e não fez, a comparar o lugar onde vive com o que deixou e as marcas que o tempo traçou nessas diferentes recordações. E, sendo certo que algo se perde pela brevidade - seria interessante conhecer mais a fundo o percurso efectivo do protagonista, para lá da forma como ele se vê - , também o é que este mergulho no interior faz especial sentido se se tiver em conta que a história de Alfredo - de deixar tudo para trás em busca de algo melhor que acaba por não se encontrar - poderia ser a de muitas outras pessoas.
É interessante, por isso, que marquem mais os sentimentos que a acção - ainda que haja um elemento presente que, apesar da brevidade, consegue acrescentar à narrativa um intrigante elemento de mistério. E os sentimentos de Alfredo são tão vastos quanto sombrios, contendo o espaço de uma vida inteira nas memórias de um dia - e em poucas dezenas de páginas. Fica alguma curiosidade insatisfeita quanto ao resto, mas a verdade é que o essencial parece estar lá, no deambular de Alfredo e na forma como o autor dá voz aos pensamentos e desilusões do seu protagonista.
Não é uma história que dê todas as respostas, até porque o mais importante parecem ser precisamente as perguntas. Mas fica, da solidão do protagonista, uma imagem precisa da melancolia de quem deixa tudo para trás e vai à procura, para encontrar algo bem diferente do que esperava. E é essa impressão de melancolia, mais que as partes da jornada que ficam por contar, que se demora no pensamento depois de terminada a leitura.
Breve, mas cativante. Simples, mas pertinente. Assim é, pois, este Que Sombra te Acompanha. Uma leitura rápida, mas cheia de sentimento e de introspecção. Uma boa história, em suma. 

Título: Que Sombra te Acompanha
Autor: Tiago Gonçalves
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Topseller

Às vezes é preciso construir algo sem ter nada de sólido por onde começar.
Vanja é uma trabalhadora ao serviço do Estado. Como todas as outras pessoas. Porque o estado somos nós. A comuna somos nós. O comité somos nós. Todas as regras, todas as imposições, todas as ordens e toda a burocracia são necessárias para garantir que o mundo não se desfaça.
O mundo corre o risco de se desfazer. Se não marcarmos cuidadosamente os nossos pertences, se cada objecto não estiver etiquetado e for lembrado regularmente do que é e do que pode ser vai acabar por se desfazer numa espécie de lodo viscoso. E, portanto, o bom comportamento é fundamental. O método também. A desobediência pode significar o fim.
Mas Vanja precisa de mais. Precisa de conhecer, precisa de entender. Precisa de saber porque é que as suas palavras são capazes de tanto, e, no entanto, utilizadas para tão pouco.
Será que a obediência e a destruição são as únicas duas hipóteses?

Karin Tidbeck é originária de Estocolmo, na Suécia. Vive e trabalha em Malmö, como escritora, tradutora e professora de Escrita Criativa. Escreve ficção em inglês e sueco. A sua estreia em inglês, Jagganath, ganhou o Crawford Award e fez parte da shortlist do World Fantasy Award.
Amatka, o primeiro romance publicado em Portugal, é uma fábula política, na linha de 1984, sobre o controlo social, a rejeição da mudança e as revoluções mais inesperadas.

Quando Gavin decide pegar fogo a todos os objectos que lhe lembravam a morte do seu companheiro, Syd, não imaginava que uma câmara estivesse a filmar. Quando Joan Lennon viu na televisão que um ator famoso de Hollywood estava a fazer uma grande fogueira no quintal, não imaginava que se tratasse de um velho amigo do pai.
No entanto, ambas estas coisas eram verdade.
Joan tem «memória fotográfica». Recorda-se de praticamente toda a sua vida. É por isso que tem tanto medo de ser esquecida. E é também por isso que está a escrever uma canção. Tal como o seu ídolo, e inspiração para o seu nome, John Lennon, ela quer imortalizar-se através da música.
Gavin, por seu lado, precisa de esquecer. No entanto, escondido em casa dos pais de Joan, encontra a maior das tentações. Joan conhecia Syd, e lembra-se, ao pormenor, de todos os momentos em que esteve com ele.
Poderão estes dois ajudar-se? Ou estarão apenas a caminhar para a desilusão?

Val Emmich é um homem americano que ganha a vida a fazer muitas coisas. Começou a tocar e a escrever música com 15 anos. Depois de frequentar a Universidade de Rutgers, assinou um contrato com a Sony/Epic e já lançou mais de uma dúzia de álbuns.
Entretanto, também construiu uma sólida carreira como actor. Já entrou em Vinyl, 30 Rock e Ugly Betty. Estreia-se agora na escrita de ficção com Uma Canção Nunca se Esquece.
Quando não está na estrada, vive na cidade de Jérsia, no estado de Nova Jérsia.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A Casa da Beleza (Melba Escobar)

Karen mudou-se para Bogotá para poder construir uma vida melhor para si e para o filho. Mas a realidade é bastante mais dura do que esperava. Mesmo a trabalhar num conceituado salão de beleza - apropriadamente chamado Casa da Beleza - o dinheiro está longe de chegar para os seus planos e as coisas só tendem a piorar. Ainda assim, o seu trabalho fá-la entrar em contacto com mulheres influentes, desde uma psicanalista à mulher de um congressista, e julga ter até criado algumas amizades. Mas uma das suas clientes morreu em circunstâncias misteriosas pouco depois de uma sessão com Karen. E os responsáveis têm todo o tipo de meios disponíveis para a calar.
Apesar de ter uma morte no centro de grande parte do enredo, um dos primeiros aspectos a surpreender neste livro é que o elemento criminal está muito longe de estar no cerne da narrativa. Sim, há um cadáver, há uma família à procura da verdade e chega até a haver uma espécie de investigação. Mas, à volta disto, há um mundo de influências nas mãos dos poderosos - e de resignação por parte daqueles que não o são. E é este retrato de uma sociedade de meandros obscuros o que realmente define esta história.
Ao contar a história pela voz de uma das clientes de Karen, acompanhando todavia de perto certos aspectos do percurso das restantes personagens, a autora consegue adensar o mistério, ao mesmo tempo que realça o tal lado negro da sociedade que tão presente está até mesmo nas pequenas coisas. Karen parece ser o centro para onde tudo o resto converge, mas também para as outras personagens há características vitais que, num plano mais ou menos secundário, contribuem ainda assim em muito para a nitidez do retrato global. E que retrato é esse? A de um cenário onde tudo é possível com dinheiro e influência e onde a impunidade se afirma em toda a sua expressividade.
Talvez seja em parte por isso que fica a sensação de um final demasiado apressado, pois a construção das relações e das influências foi tão intrincada que custa a aceitar uma conclusão tão súbita. Ainda assim, e apesar desta insatisfação que fica com o que é deixado por aprofundar, é difícil ignorar o impacto do mundo em que Karen e as suas clientes se movem. Um mundo onde a verdade pode ser negada, onde todas as conspirações parecem ser possíveis e onde virar costas é apenas demasiado fácil. Faz sentido, então, a dúvida com que certas coisas terminam, apesar da tal vontade que fica de descobrir um pouco mais.
Fica então a impressão de uma narrativa que, mais que a história de uma morte inexplicável, é um relato de vidas vulneráveis num mundo em que a influência tudo pode. Intrigante, com uma escrita envolvente e um enredo com vários momentos impressionantes, uma boa leitura.

Autora: Melba Escobar
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

Em 1896, Mileva Maric, uma mulher extremamente inteligente, é a única estudante do sexo feminino a frequentar o curso de Física numa universidade de elite em Zurique. É aí que se apaixona pelo colega Albert Einstein, com quem acaba por casar e ter três filhos. Apesar da total dedicação aos filhos, Mileva nunca abandona a sua paixão pela ciência, trabalhando em conjunto com o marido e contribuindo para estudos científicos tão importantes como a Teoria da Relatividade.
Contudo, por nunca ter concluído a licenciatura, todo o mérito dos artigos que escreve com o marido é-lhe atribuído a ele. À medida que a fama de Albert Einstein aumenta, cresce também o receio de Mileva de que as suas próprias ideias científicas permaneçam para sempre sob a sombra do marido, com quem mantém uma relação cada vez mais conturbada.
A Mulher de Einstein é um romance, inspirado em factos reais, que relata a história da primeira mulher de Einstein, uma cientista brilhante cuja contribuição para a Teoria da Relatividade continua a ser altamente debatida.

Marie Benedict é uma advogada norte-americana com mais de dez anos de experiência. Além de tirar a licenciatura em Direito, formou-se também em História e História da Arte. Marie sempre sonhou desenvolver trabalhos que pudessem dar a conhecer a vida e os feitos de grandes mulheres da História. Quando começou a escrever, teve finalmente essa oportunidade.
É também a autora dos romances históricos The Chrysalis, The Map Thief e Brigid of Kildare, assinando com o nome Heather Terrell. Actualmente, vive em Pittsburgh com a família.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Um de Nós Mente (Karen M. McManus)

Simon Kelleher criou uma aplicação onde partilha os mexericos mais sumarentos da escola - quem anda a enganar quem, quem copiou, quem se faz passar por algo que não é. E escusado será dizer que isso não lhe trouxe propriamente grandes amigos. Mas o que ninguém espera é que Simon acabe morto numa sala onde está com outros quatro colegas de castigo, no que começa por parecer um acidente, mas cujas incongruências não tardam a apontar para algo mais funesto. Cedo as suspeitas começam a recair sobre os quatro alunos presentes na sala: Bronwyn, a boa aluna; Cooper, o atleta promissor; Addy, a rainha da beleza; e Nate, o jovem cadastrado. Uma coisa é certa: só eles estavam na sala onde Simon morreu. E todos eles têm segredos que Simon estava prestes a expor...
Misturando os dramas normais da vida escolar com um caso de contornos bastante mais sombrios, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela naturalidade com que as duas facetas parecem encaixar. Por um lado, a vida normal dos quatro protagonistas, com os dramas, os conflitos e as inseguranças da vida escolar - ainda que agravadas pela infame aplicação de Simon. Por outro, a morte inexplicável de Simon, com a investigação e as atenções mediáticas - bem, como é claro, o crime em si - a criar novos focos de tensão entre e em redor das personagens. E tudo com um ritmo sempre intenso e envolvente, aberto quer a momentos de humor, quer a episódios de grande emoção - mais uma vez, sem esquecer a aura de mistério que envolve o estranho caso de Simon.
Para este equilíbrio contribui em muito o facto de autora acompanhar os quatro suspeitos, narrando partes da história dos seus pontos de vista, o que permite uma visão mais próxima do que lhes está a acontecer e dos segredos que precisam de guardar. Além de manter viva a suspeita, esta forma de contar a história permite ver os diferentes mundos em que as personagens se movem e entender de que forma o ambiente molda a sua posição no mundo. E isto reflecte-se também na forma como investigadores e imprensa lidam com as personagens, levantando pelo caminho várias questões pertinentes.
É fácil entrar no ritmo do enredo e a leitura facilmente se torna viciante, não só pela forma como a autora consegue realçar sempre o essencial, mas também pela mistura de surpresa e empatia que parece acompanhar todo o percurso. Ao dar voz às próprias personagens, a autora realça-lhes os medos e as dúvidas. Mostra-as como são: jovens à procura do seu lugar no mundo, inseguros e vulneráveis e muito longe de perfeitos. E talvez nem sempre seja fácil entender as suas decisões - mas os erros também fazem parte do crescimento e, assim sendo, faz todo o sentido que aconteçam.
Intenso, intrigante e com uma muito envolvente mistura de dramas pessoais, momentos de emoção e segredos perigosos, trata-se, portanto, de um livro que cativa do início ao fim e que, ao longo do seu sempre agradável percurso, consegue abordar vários temas relevantes sem nunca se perder do enredo central. Uma belíssima surpresa, em suma, e um livro que não posso deixar de recomendar.

Autora: Karen M. McManus
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

Maria Weston morreu durante a sua festa de finalistas do liceu. Era uma rapariga irreverente, autêntica e tinha a vida pela frente… O corpo nunca foi encontrado. Portanto, quando Louise Williams, 25 anos depois, recebe o seu pedido de amizade no Facebook, entra em pânico.
Depois do pedido, começam a chegar as mensagens. Inicialmente, parecem inofensivas. Memórias de um passado que Louise não quer relembrar, mas apenas isso.
Depois, começam a ser cada vez mais detalhadas, e as recordações aproximam-se perigosamente de um segredo que nunca deverá ser revelado. Louise nem imagina o que aconteceria se todos soubessem o que realmente aconteceu a Maria.
Mas, afinal, é apenas o Facebook, certo? Mesmo quando Louise sente alguém a segui-la no metro. É tudo virtual, não é? Até quando há objectos a desaparecer de casa. O que se passa nas redes sociais não é a vida real, certo?

Laura Marshall cresceu em Wiltshire, no sudoeste de Inglaterra, e estudou Inglês na Universidade do Sussex.
Quando decidiu que queria escrever, fez formação em Escrita Criativa através de um programa da agência literária Curtis Brown.
O seu primeiro romance, Pedido de Amizade, foi finalista do Bath Novel Award 2016 e alcançou a shortlist para o Lucy Cavendish Fiction Prize de 2016. Foi bestseller do Sunday Times e de vendas em e-book. 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Pântano dos Sacrifícios (Susanne Jansson)

Nathalie Nordström deixou o passado para trás e construiu a sua vida longe de Mossmarken, onde em tempos uma tragédia abalou toda a sua vida. Mas agora está de volta para, no pântano onde cresceu, levar a cabo uma experiência e talvez vencer alguns fantasmas. Mas aquele não é um pântano normal. Diz-se que, em tempos, lá foram feitos sacrifícios de todo o tipo - incluindo humanos. E, ao longo dos anos, foram vários os desaparecimentos ali perto. Agora, movida por um pressentimento, Nathalie acaba de salvar a vida de um homem violentamente agredido e prestes a afundar-se no pântano. No mesmo pântano onde começam a ser descobertos vários cadáveres...
Com uma intrigante aura de mistério e um leve toque de sobrenatural, este é um livro em que, apesar do seu ambiente algo peculiar, é fácil entrar no ritmo da narrativa. A escrita é bastante directa e, apesar de as vastas descrições do pântano conferirem ao enredo um ritmo um pouco mais pausado, realçam também a especificidade das circunstâncias, o que torna tudo mais enigmático, pois, num cenário onde tudo é invulgar, as revelações têm, inevitavelmente, um maior impacto.
Também deveras intrigante é a forma como a autora conjuga um possível elemento sobrenatural com o que é acima de tudo uma investigação policial, acrescentando-lhe ainda outro tipo de fantasmas: os do passado. A história de Nathalie e do que a afastou daquele local acrescenta ao enredo um elemento pessoal que torna tudo mais próximo. Além disso, a presença dos espíritos - no pântano ou, pelo menos, na mente de algumas personagens - insinua outro tipo de possibilidades, levantando suspeitas e reforçando também o impacto das grandes revelações. E, não sendo este um policial particularmente gráfico ou cheio de acção - as respostas surgem mais por dedução ou recordação, do que propriamente por grandes actos ou perseguições - este ambiente misterioso parece harmonizar as coisas.
Há ainda um terceiro elemento a reforçar este equilíbrio: a conjugação de comunidade e isolamento que parece definir Mossmarken. É um meio pequeno, onde há pessoas que se conhecem e colaboram, onde as grandes perdas parecem ter um impacto mais vasto, mas também onde a vida individual parece fechar-se sobre si mesma. Talvez por isso a crença nos espíritos tenha um papel tão importante nesta história. 
Até porque nem tudo encontra respostas definitivas. Se, para o mistério essencial dos cadáveres no pântano e para o passado de Nathalie há uma resolução definida, há, todavia, elementos secundários que são deixados em aberto. E, sendo certo que fica uma certa vontade de saber mais sobre estas personagens e aspectos menos explorados, também o é que este equilíbrio entre mistério e revelação faz todo o sentido num ambiente como o desta história.
Enigmático e intrigante, trata-se portanto de um livro que, não sendo propriamente de ritmo compulsivo, cativa, ainda assim, desde muito cedo, quer pelos seus múltiplos mistérios, quer pelo ambiente invulgar onde tudo acontece. Misterioso, surpreendente e com uma escrita fluída e envolvente, uma belíssima estreia.

Autora: Susanne Jansson
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Planeta

Em 1951, um homem caminha pelas ruas de Copenhaga como se estivesse sem rumo. Palle Hardrup dirige-se para um banco, dispara contra o gerente e um funcionário e foge com o dinheiro. Quando é preso e interrogado afirma não se lembrar de nada e as testemunhas oculares corroboram que ele parecia estar numa espécie de transe.
O investigador Anders Olsen descobre que quando Palle cumpria pena de prisão esteve na mesma cela do carismático Björn Nielsen. Juntos, fizeram yoga e meditação – e Olsen começa a suspeitar que Nielsen o hipnotizou e lhe ordenou que roubasse o banco. Anders também suspeita que Nielsen é o misterioso Anjo-da-Guarda, que Palle afirma que lhe envia mensagens de Deus.
Mas este homem foi um ex-colaborador nazi e tudo indica que de facto, alguém quer que arque com as culpas. Quanto mais investiga mais a sua saúde mental começa a entrar em colapso com as maquinações que vai descobrindo e com a hipótese aterradora de alguém poder manipular outra pessoa para cometer um crime.

Arto Halonen é um director de cinema e guionista, conhecido pela sua vincada consciência social em relação aos seus objetivos. É uma das poucas pessoas no mundo que entrevistou o assassino Palle Hardrup.
Kevin Frazier é um romancista, escritor de ficção, ensaísta e revisor que mora em Helsínquia. As colaborações anteriores entre Halonen e Frazier incluem o premiado documentário Shadow of the Holy Book.

sábado, 2 de junho de 2018

Já Não se Escrevem Cartas de Amor (Mário Zambujal)

A passagem do tempo e o aniversário de um antigo companheiro despertaram em Duarte os apegos da memória. Memórias de um tempo de boémia, de mistérios, de paixões arrebatadoras... e de cartas. De cartas que se escreviam, cheias de romantismo, e que pesavam sempre demasiado. Enquanto espera pela mulher numa noite de tempestade, Duarte recorda esses tempos e as suas estranhas aventuras... de paixões destinadas a acontecer.
Relativamente breve e centrado, acima de tudo, nas aventuras e desventuras do protagonista, este é um livro que cativa, principalmente, pelo delicado equilíbrio entre estranheza e naturalidade que parece pautar o percurso de Duarte. Duarte é uma figura do seu tempo - habituado aos excessos e à vida nocturna, com as suas vontades e transgressões. Mas é também um homem apaixonado - ainda que de uma forma algo peculiar. E a história vive, em grande medida, dessa sua paixão, mas também da forma como extravasa para as outras facetas da sua vida: as relações pessoais e profissionais, as atracções mais ou menos fugazes e, ao contemplar-se no passado, a percepção de um mundo que mudou.
Tudo isto surge de forma relativamente sucinta, como que ao ritmo das memórias do protagonista. E, havendo todavia tantas relações e personagens interessantes, é verdade que fica uma certa curiosidade insatisfeita acerca do mundo que rodeia Duarte. Mas é também verdade que os elos essenciais estão lá - o despertar do amor, a evolução profissional e pessoal, a passagem do tempo e o crescimento que ela traz e, claro, o simples passar dos anos. E, curiosamente, há até um outro elemento secundário - a existência de um crime por explicar - que, não sendo essencial à história de Duarte, acaba por lhe acrescentar uma certa aura de mistério que, apesar de leve (como tudo o resto neste livro), torna a narrativa também um pouco mais intrigante.
Mas volto à questão da naturalidade para realçar a forma como a história é contada. A personalidade de Duarte parece transparecer de cada palavra, como que com uma certa bonomia de quem leva a vida sem grandes preocupações. É também daqui que surge a leveza - da forma como o protagonista parece encarar a vida e que se reflecte no modo de contar a história. Leveza, mas não demasiada, pois o Duarte que aguarda em noite de tempestade tem ansiedades bastante distintas das do Duarte das recordações. Cresceu, enfim, de certa forma, e também isso se nota na narrativa.
Fica, no fim, a impressão de uma leitura leve e cativante, a evocar uma certa saudade de tempos diferentes. Diferentes, mas movidos pelas mesmas coisas essenciais: o amor, a amizade, a tranquilidade e, claro, a boa companhia. Não tão diferentes, então, não é verdade?

Autor: Mário Zambujal
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Dei o Teu Nome às Estrelas (Rui Conceição Silva)

Joaquim é um homem solitário numa terra onde domina a tranquilidade e onde as redes do progresso estão ainda a décadas de distância. Mas a tranquilidade de Figueiró dos Vinhos estende-lhe novas possibilidades com a chegada de um grupo de pintores com quem cria amizade. Começam assim os seus dias de glória - glória essa que aumenta ao escutar pela primeira vez o canto de uma voz encantadora. A dona da voz é Olinda e rapidamente lhe arrebata o coração. Mas Olinda está prometida a outro homem e aqueles são tempos em que a vontade de uma mulher não tem peso. Principalmente quando há dívidas e interesses a defender...
Com uma considerável componente descritiva e muito espaço para a introspecção e para os meandros dos conflitos e dilemas interiores, este é um livro de ritmo relativamente pausado, mas que, aliando uma escrita belíssima a uma história cujo poder se revela aos poucos, cativa desde muito cedo e nunca deixa de surpreender. Primeiro, pela beleza das palavras e pelo recuo a um passado tão amplamente caracterizado. E depois pela forma como amor, amizade, ligações familiares e o simples afecto que liga uma pessoa ao seu lugar no mundo fazem com que a história de toda uma vida possa fluir como de instantes se tratasse.
É uma história que vive tanto do interior - dos pensamentos, das decisões certas ou erradas, das emoções, das dúvidas e das percepções que se criam do mundo e daqueles que o povoam - como das acções exteriores. Tão importantes como as aventuras dos pintores, como a aproximação a Olinda e como os desenvolvimentos - felizes e amargos - desta história de amor, é o impacto que cada um destes elementos tem na vida interior do protagonista. Vida essa que é vastíssima, demorando-se em pensamentos e expressões de emoção moldadas ao ritmo da solidão. E há uma estranha beleza em tudo isto, pois, muitas vezes, o que se vive por dentro não transparece no exterior, pelo que, ao contar a história desta forma, o autor relembra as complexidades insuspeitas que, às vezes, se escondem nos labirintos da alma humana.
Não é uma leitura compulsiva. As longas descrições, a caracterização pormenorizada do ambiente e do contexto e as longas instrospecções do protagonista - introspecções que, por vezes, parecem traçar círculos completos entre um ponto e o seguinte da sua vida - exigem um certo tempo e concentração para que todos os pormenores sejam assimilados. Mas há na escrita uma tão cativante poesia que a leitura nunca se torna aborrecida. E mesmo quando as ideias se repetem - pois a vida de Joaquim parece levá-lo repetidamente ao encontro daquilo que mais o define - a história nunca se torna cansativa, pois há sempre um motivo para esses pensamentos e divagações.
No fim, fica a sensação de se ter viajado ao passado, caminhado com os mestres e assistido a uma história de amor que, não sendo fácil nem limpa, é precisamente por isso mais real. Cativante, surpreendente e magnificamente escrito, um romance que leva o seu tempo - mas que merece cada instante. 

Autor: Rui Conceição Silva
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Bertrand

O Senado de Roma elegeu Júlio César ditador vitalício. Depois de ter perdoado os seus inimigos e recompensado o amigo, César prepara-se para abandonar Roma e lutar contra o Império Parta.
Depois de décadas a investigar crimes e conspirações envolvendo os poderosos, Gordiano está pronto para se reformar. Mas eis que Cícero, e depois César, o chamam para que fique atento a possíveis atentados contra a vida do imperador. E César tem mais um assunto a discutir com Gordiano: decidiu fazê-lo senador durante a próxima sessão do Senado... a 15 de março desse ano de 44 a.C.
Com apenas quatro dias até ser nomeado senador, Gordiano tem de usar todos os seus recursos para descobrir que conspiração será essa contra Júlio César. Porque os Idos de Março se aproximam...

Steven Saylor sempre se deixou fascinar por tudo o que se refira à antiguidade clássica. Fascínio este que, diz o próprio, começou nos grandes épicos do cinema (Cleópatra, Espartacus, Ben-Hur) que povoaram a sua infância, e que depois se consolidou com a sua licenciatura em História pela Universidade do Texas, passando pelas suas participações no Canal História como perito em política e cultura romanas. Para nós, leitores, os títulos que publicou sob o nome genérico de Roma Sub-Rosa, são o melhor fruto do fascínio de Saylor por um império que começou a desbravar o caminho civilizacional que ainda hoje percorremos.