sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O Meu Amigo de Outro Mundo (Ross Montgomery)

Caitlin tem dez anos e o facto de viver sozinha numa ilha com os pais não lhe conquistou grandes vantagens. O único amigo que tem é Frank, o homem que a leva de barco para a escola, e os pais estão sempre demasiado ocupados para ela. Mas a solidão está prestes a acabar. Um dia, após uma chuva de meteoros, Caitlin encontra uma estranha criatura na praia. Tudo indica que será um extraterrestre, mas o que Caitlin vê nele é uma criatura inofensiva e assustada - bem como um potencial amigo. Sem medo nenhum, Caitlin tenta ensiná-lo a comunicar, dá-lhe um nome e cria com ele uma relação de amizade. Só que o Perigeu não pára de crescer e, quando o segredo de Caitlin deixa de ser segredo, o mundo torna-se um lugar perigoso - para o Perigeu e para todos os habitantes.
Narrado do ponto de vista da protagonista e, em consequência, com uma visão bastante inocente das coisas, este é um livro que se define principalmente pela simplicidade. E isto é uma surpresa, não tanto pela inocência com que Caitlin trata do seu novo amigo, mas pela forma como esta visão simples e inocente se mantém mesmo quando as coisas se complicam de forma global. O amor da pequena Caitlin pelo Perigeu não muda quando ele passa a ser uma possível ameaça - e, sendo certo que, nalguns momentos, esta inocência parece ser exagerada, basta lembrar a idade da protagonista, e o coração grande que demonstra ter, para que tudo passe a fazer sentido.
Centrando-se essencialmente na relação entre Caitlin e o Perigeu, faz também sentido que os outros acontecimentos passem para um relativo segundo plano, embora, sendo a possível ameaça algo global, fique uma certa curiosidade insatisfeita acerca da forma como as diferentes forças - o exército, os cultos, os próprios investigadores - estariam a orientar os próximos passos. Além disso, o próprio Perigeu é um enigma, e as respostas que surgem são, inevitavelmente, parciais. Mas também isto resulta adequado, principalmente se tivermos em conta a mensagem subjacente à história: de amizade apesar das diferenças e dificuldades.
É uma história simples, e a simplicidade estende-se à escrita. Capítulos relativamente curtos e uma forma bastante directa de contar as coisas adequam-se ao que seria o pensamento da protagonista. Além disso, esta simplicidade contribui também para reforçar o impacto de alguns momentos, não necessariamente os de maior perigo, mas os mais emotivos ou divertidos. Até porque o pensamento de Caitlin leva-a, por vezes, a chegar a afirmações bastante interessantes.
Assim é, pois, este livro feito de amizades inesperadas: uma história bonita, inocente e cheia de episódios surpreendentes, capaz de cativar leitores de todas as idades. Simples, divertida e, nos momentos certos, comovente, uma boa leitura.

Autor: Ross Montgomery
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A Ilha das Mil Fontes (Sarah Lark)

Depois de ver o seu primeiro amor morrer-lhe nos braços, Nora Reed, filha de um influente comerciante, aceita um casamento de conveniência com Elias Fortnam, proprietário de uma plantação de açúcar na Jamaica, na esperança de aí realizar o sonho que nunca viveu com Simon. Mas a realidade é muito mais complexa do que os seus sonhos de juventude. A vida nas plantações implica o recurso a trabalhadores escravos, algo que, embora contrário às suas convicções, Nora tem de aprender a aceitar. E, quando seres humanos se tornam propriedade, seguem-se as crueldades e a revolta. Nora tem de aprender a viver naquele novo mundo, com um marido que não ama e que, a cada novo dia, se revela um pouco mais repulsivo. Mas o amor continua à espreita, mesmo por entre as provações. E talvez seja ali que Nora irá finalmente superar a perda...
Começar a destacar qualidades num livro em que tudo é mágico e todas as suas facetas se conjugam num equilíbrio perfeito não é propriamente fácil, mas, no caso deste livro, há desde logo um ponto que é preciso destacar: a escrita. Sarah Lark escreve sobre tempos e locais longínquos e fá-lo descrevendo tudo ao pormenor. E, todavia, nunca a história se torna demasiado descritiva e muito menos maçadora. É que há na escrita desta autora uma tão maravilhosa fluidez que é fácil visualizar o cenário, imaginarmo-nos lado a lado com Nora Reed ante tudo aquilo que precisa de enfrentar e sentir com as personagens - não só com Nora, mas também com as outras figuras centrais - o impacto daquilo que estão a viver.
É uma magia que começa na escrita - mas que se estende a todos os outros aspectos. O percurso é longo e cheio de tribulações, e a forma como a autora constrói as suas personagens torna praticamente irresistível a vontade de querer continuar a acompanhar esse percurso. Além disso, nunca nada é fácil, mesmo quando as possibilidades são muitas. E este caminho de escolhas difíceis, de duras perdas, de crueldade, de sofrimento e, enfim, talvez de superação está de tal modo repleto de momentos comoventes, angustiantes, ternos e surpreendentes que é impossível evitar que a viagem e seus protagonistas fiquem gravados no coração.
Há, além disso, todo um mundo de questões relevantes neste livro, ou não se passasse grande parte da história numa plantação. A forma como os senhores das plantações vêem os escravos, com toda uma série de argumentos rebuscados para justificar que tudo fique na mesma, e a crueldade que gera novas crueldades, evocam na perfeição o lado mais sombrio da época em que o enredo decorre. E a este cenário global, caracterizado com precisão e sem perder de vista as suas complexidades, a autora vem acrescentar ódios e vinganças pessoais das personagens, numa teia intrincada, mas fascinante, de percursos individuais num todo mais vasto. É uma história de escravos e de senhores - e é a história de Doug, Nora e Akwasi. Uma história feita de crueldades injustificadas, de amor em lugares insuspeitos e, principalmente, de personagens complexas, nenhuma delas perfeita, mas todas profundamente humanas.
É uma estranha magia, pois, a que vive nas páginas deste livro. Um livro relativamente extenso, mas em que mal se dá pelas páginas a passar, tal é o impacto da história, a força dos sentimentos que as personagens despertam e a poderosa vastidão de um cenário onde tudo marca, tudo surpreende... e tudo comove. Maravilhoso.

Autora: Sarah Lark
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro A Ilha das Mil Fontes, clique aqui.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Pollyanna (Eleanor H. Porter)

Enviada para viver com a tia após ter perdido os pais, Pollyanna não teria à partida muitas razões para ficar contente - até porque a sua tia Polly é uma mulher amarga e obcecada pelo dever. Mas, em tempos, o pai ensinou-lhe um jogo e isso fez com que Pollyanna começasse a procurar em toda a parte razões para ficar contente. Agora, chegada à sua nova casa, Pollyanna começa a espalhar alegria por todos aqueles que encontra. E, se todos começam por a ver como uma criança invulgar, a sua persistência na alegria cedo começa a influenciar os outros. E a vida das pessoas começa a mudar...
É provavelmente na inocência que está o aspecto mais cativante deste livro. Na inocência de uma criança que, tendo perdido quase tudo, se agarra a um optimismo quase absurdo que não só a ajuda a lidar com os obstáculos como a leva a querer espalhar alegria por todos. O Jogo do Contente, tão essencial à linha desta história, pode parecer, pelo menos a um olhar adulto, um exagero, pois, por mais motivos que se possam procurar, não basta ficar contente para que os problemas se desvaneçam. Mas há em tudo isto uma inocência enternecedora e uma mensagem muito positiva de optimismo e determinação, pois é certo que também na vida de Pollyanna os problemas não desaparecem pela simples força do pensamento - mas tornam-se decerto mais fáceis de suportar.
É uma história muito simples, tanto nos acontecimentos como na forma como são contados. O problema de Jimmy Bean, o misterioso passado da tia Polly e até o mau feitio do senhor Pendleton - tudo isto contém enigmas que desvendar ou situações para desenredar, mas tudo acontece com a máxima simplicidade. E sim, claro que isto pode deixar, por vezes, a sensação de algumas coisas parecerem demasiado fáceis, mas também faz um certo sentido. Ou não fosse esta a história de uma menina capaz de mudar o mundo com a sua simples alegria.
Talvez não seja uma visão particularmente precisa do mundo, já que o optimismo inabalável de Pollyanna colide com um mundo onde, por vezes, procurar a alegria não chega. Ainda assim, importa lembrar que este é um livro juvenil e, assim sendo, falar de optimismo, de inocência e de procurar forças mesmo nos momentos difíceis não pode senão ser uma boa premissa. Além disso, quando a alegria feroz de Pollyanna colide com a amargura da tia, com o mau humor de John Pendleton ou com a simples confusão das outras personagens, o resultado é também uma série de momentos divertidos, o que acrescenta a toda a ternura e inocência da história o potencial para umas boas gargalhadas.
Percebe-se, pois, o porquê de esta história simples e enternecedora ser considerada um clássico. É que, com a sua mistura eficaz de leveza e inocência, humor e ternura, simplicidade e optimismo, contém em si uma base essencial de valores que tem tudo para cativar leitores de todos os tempos e idades. Basta isso, pois, para que a leitura valha a pena. E já é muito.

Título: Pollyanna
Autora: Eleanor H. Porter
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Destemidas - Mulheres que Só Fazem o que Querem (Pénélope Bagieu)

Já todos ouvimos falar na história de alguma mulher que mudou o mundo à sua volta - e até mesmo a história do mundo em geral. Mas a verdade é que há muitas mais além dessas figuras mais conhecidas. É dessas que fala este livro: mulheres que viveram a sua vida confrontando todas as barreiras para alcançar um objectivo e que não deixaram que nada as impedisse.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro é, inevitavelmente, a premissa. A fazer lembrar um formato diferente das Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes, conta as histórias de um conjunto de mulheres notáveis, e fá-lo de forma simples, cativante e esclarecedora. E basta isto - a importância destas histórias e a clareza com que nos são contadas - para fazer com que a leitura valha a pena.
Mas, naturalmente, há mais. Há um estilo muito próprio, em que tanto a imagem como a própria forma como a história é exposta parecem querer lembrar uma história contada em voz alta. Há a diversidade de épocas, de âmbitos, de percursos, que fazem com que este livro englobe diversas áreas e mentalidades, sem nunca perder de vista a linha central - a da igualdade. E há um contraste surpreendente entre a simplicidade da história e o impacto das imagens que encerram cada uma delas, que, mais do que traçar uma divisão entre as diferentes histórias, eleva a sua beleza ao máximo impacto.
Ao abranger várias pequenas histórias, é também o livro ideal para um regresso ocasional às partes mais marcantes. Além, é claro, de se devorar de uma assentada numa primeira leitura. É que todas estas histórias são notáveis - principalmente pelo facto de serem reais, mas também pela forma cativante como são contadas. E a forma como a autora as constrói, dando a cada uma o ambiente e a cor adequados à época e local em que decorrem, torna tudo mais nítido e marcante.
O título ajusta-se, pois, na perfeição. Pois é de mulheres destemidas que se trata. E de um retrato notável de algumas mulheres que, não sendo talvez as mais conhecidas da História, têm, ainda assim, todas elas um percurso admirável - e que importa, sem dúvida, conhecer. Recomendo.

Título: Destemidas - Mulheres que Só Fazem o que Querem
Autora: Pénélope Bagieu
Origem: Recebido para crítica

domingo, 12 de agosto de 2018

Jessica Jones: Pulsar (Brian Michael Bendis e Mark Bagley)

Grávida e a precisar de dinheiro, Jessica Jones está pronta para iniciar uma nova fase na sua vida: a trabalhar para o Clarim Diário, num novo suplemento surpreendentemente dedicado às histórias dos super-heróis. Só que não importa assim tanto que Jessica tenha deixado de ser super-heroína - as suas ligações continuam presentes, tal como a inevitável tendência a meter-se em sarilhos. Primeiro, a morte de uma jornalista põe-na no caminho do poderoso Norman Osborn. Depois, uma guerra secreta lança-a numa busca frenética pelo namorado. E, por fim, mesmo quando se prepara para ter o seu filho e casar, novos problemas vêm bater à porta dos Vingadores - mesmo quando Jessica mais precisa deles... É que a vida de um super-herói nunca pára. E namorar com um Vingador tem destas coisas.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste volume é a diferença de registo. Se, em Alias, o ambiente era mais negro e havia uma maior abundância de cenas pesadas, aqui, há uma maior leveza, que transparece não só nos acontecimentos como também visualmente. Além disso, há mais super-heróis - muito mais super-heróis - e menos investigação, o que, por si só, bastaria para justificar a mudança de registo. Mas há também um equilíbrio entre esta evidente mudança e as ligações vindas do passado. O ambiente pode ser menos sombrio, mas Jessica Jones continua a ser a mesma pessoa, com o seu temperamento peculiar, a sua persistência incessante e a sua visão algo parcial - e menos segura do que deveria ser - de si mesma. O que, claro, apenas reforça a sensação que ficou após o último volume de Alias: que se fechou um ciclo e que esta é uma nova fase.
Também a nível de imagem se notam mudanças evidentes, inclusive entre números. Se a Jessica Jones de Alias mantinha sempre essencialmente os mesmos traços, aqui há uma visão algo distinta - ainda que seja sempre fácil reconhecê-la. E é interessante a forma como, por vezes, quase parece vislumbrar-se a Jessica Jones do passado, enquanto noutras - principalmente quando assume um papel mais discreto, ou uma postura diferente - a imagem se altera, como que ajustando-se às circunstâncias em que se encontra.
Mas voltando aos muitos super-heróis. Já não é novidade para ninguém que super-heróis é coisa que não falta no universo Marvel e muitos deles marcam presença neste livro. Ora, sendo Jessica a figura central, também não é propriamente uma surpresa que muitas destas aparições sejam fugazes - ainda que nunca discretas. Mas o mais interessante nisto tudo é que todos têm algo de fundamental a acrescentar ao enredo, além do muito agradável efeito secundário que é a curiosidade irresistível em conhecer as suas próprias histórias. Até porque, ao longo da leitura, surgem várias referências intrigantes a algumas dessas outras histórias. 
E claro, há outra figura importante nesta história - ou não tivesse Jessica ido trabalhar para o Clarim Diário. A história de Ben Urich, com a sua dedicação ao trabalho e os seus invulgares princípios, está na base de alguns dos momentos mais marcantes do livro, além de acrescentar a uma história repleta de super-heróis um outro tipo de heroísmo: o de fazer o que está certo mesmo quando é difícil.
O que fica então de tudo isto? Uma leitura viciante e cheia de surpresas, e uma janela aberta para um mundo tão vasto que difícil é saber para onde ir a seguir. Intenso, cativante e com um sempre fascinante núcleo de personagens, um livro a não perder. 

Autores: Brian Michael Bendis e Mark Bagley
Origem: Recebido para crítica

sábado, 11 de agosto de 2018

Felizes para Sempre (Kiera Cass)

Vista pelo olhar da protagonista, a história da Selecção deixou para várias das suas personagens muitas questões em aberto. Mas nem só de America vivia a história e, tanto no passado como durante a Selecção, houve momentos que foram narrados de uma perspectiva inevitavelmente parcial. As respostas que faltavam estão aqui, neste livro, onde Amberly, Maxon, Aspen, Marlee e mais algumas personagens assumem a sua própria voz, revivendo momentos já conhecidos - e acrescentando-lhes algo de novo.
A Rainha abre este livro com a história da selecção da rainha Amberly, revelando não só um lado diferente do rei Clarkson, mas também uma história cheia de ternura, esperanças e amor. Leve e cativante, evoca o mesmo ambiente dos outros livros da série, transportando-o para um passado mais distante, ao mesmo tempo que revela facetas diferentes dos protagonistas. Mas há também pistas evidentes para o que virá depois na história de ambos, o que cria também uma certa - e adequada - sensação de melancolia.
Segue-se O Príncipe, que, do ponto de vista de Maxon, acompanha o início da Selecção. Embora não acrescentando muito de novo à história já conhecida, excepto na fase inicial, ver as coisas a acontecer da perspectiva do príncipe confere a alguns momentos um novo impacto, além de realçar a complicada relação de Maxon com o pai. Ah, e claro, o sentido de humor de Maxon e America nunca deixa de cativar.
Depois vem Aspen, em O Guarda, um Aspen ainda apaixonado por America e a tentar encontrar uma forma de remediar o que perdeu. Mais extenso, mais detalhado e com vários momentos de grande intensidade, é este o conto que segue mais de perto a linha dos outros livros, mas também o que, ao abrir a mente do protagonista, mais o complementa.
E a seguir vem A Favorita, provavelmente a mais intensa e comovente das histórias deste livro. A protagonista é Marlee e, embora o essencial da sua história seja já conhecido de quem leu os outros livros, vê-lo da sua perspectiva dá-lhe todo um novo impacto. Além de, como parece ser característica deste livro, revelar também novas e cativantes facetas do comportamento das outras personagens.
Parte do que torna este livro tão interessante é o facto de complementar algumas facetas dos outros livros da série, acrescentando-lhes novas perspectivas, bem como detalhes interessantes. É o que acontece nas Cenas de Celeste, que, apesar de bastante breves, permitem ver a Celeste que, no início da história, parecia não poder existir. Momentos simples, mas surpreendentemente emotivos, que acrescentam à história um pouco mais de emoção.
A Aia conta a história do ponto de viragem na relação de Lucy e Aspen. Um momento relativamente breve, mas repleto de emoção, e que acrescenta uma perspectiva diferente a alguns acontecimentos dos outros livros. 
Continuando a complementar a história principal, vem o que aconteceu Depois de A Escolha. Trata-se de uma cena da vida de America e Maxon enquanto casal, que, além de especialmente enternecedora, permite ver também um pouco mais das relações entre personagens depois do processo de Selecção. Um momento simples, mas muito bonito, e um belíssimo complemento ao enredo central.
E, por fim, uma breve resposta acerca das outras Seleccionadas. Onde Estão Agora? As respostas são sucintas e não propriamente essenciais para o todo, mas reforçam a sensação de fim de ciclo e a ideia de a Selecção ser apenas uma passagem - e não um destino fatal - para as preteridas na escolha do príncipe. Também um interessante complemento.
Chegado o fim, fica a mais simples das impressões: a de um livro que vem dar as respostas que faltaram nos outros volumes da série e apresentar novas perspectivas para alguns dos grandes acontecimentos. Leve, cativante e com vários momentos intensos, um belíssimo complemento e uma leitura a não perder para os fãs da série. 

Autora: Kiera Cass
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Felizes para Sempre, clique aqui.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Portugal - Os Grandes Momentos da História (João da Cunha Carvalho Portugal)

Contar em poucas centenas de páginas uma história de séculos nunca poderá ser tarefa fácil. São muitos os nomes, as datas e os acontecimentos notáveis - sejam eles batalhas, acordos, alianças ou revoluções. Mas talvez bastem essas poucas centenas para conter o essencial, as linhas básicas de uma história que é, inevitavelmente, mais vasta, mas da qual é possível ficar com uma ideia bastante clara. É nisso que consiste este livro: um conjunto de relatos sucintos que, no seu todo, formam um retrato das linhas essenciais da História de Portugal.
Abrangendo um amplo período histórico e, contudo, resumindo cada acontecimento a um reduzido número de páginas, uma das primeiras características a sobressair neste livro é o registo invulgar. Mais do que narrar factos e enunciar listas de nomes - embora estas sejam, de facto, inevitáveis - parece querer transpor para o momento da leitura o impacto e intensidade dos momentos que descreve. E sendo muitos deles grandes batalhas, esta descrição como que exaltada de vigor patriótico resulta estranhamente adequada, pois como que transpõe para o texto a bravura e o perigo do momento.
Também interessante é a forma como, ao seguir os acontecimentos por ordem cronológica, se fica com a impressão de estar a ler algo mais que um conjunto de episódios. Sim, cada capítulo descreve um momento distinto, mas, ao acompanhar a linha temporal, fica-se com uma visão mais abrangente do todo de que os fragmentos fazem parte e, principalmente, da imensa vastidão desse todo.
Não é, como é óbvio, um livro exaustivo, até porque muitos destes momentos justificariam um livro só a eles dedicado. Mas o essencial está lá, seja no que toca aos intervenientes, às estratégias de batalha, às intrigas, alianças e revoluções e até mesmo às conquistas alcançadas em tempos de paz. Fica a curiosidade em saber mais? Bem, para isso haverá certamente outros livros. Mas, enquanto ponto de partida para uma visão global da História e dos feitos pátrios, o equilíbrio entre brevidade e informação parece ser o adequado.
É esta, pois, a imagem que fica desta leitura: a de um resumo relativamente sucinto, mas bastante abrangente e equilibrado da História de Portugal, realçando essencialmente os seus grandes feitos e grandes figuras de uma forma clara e cativante. Um bom livro, em suma.

Autor: João da Cunha Carvalho Portugal
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O Homem nas Sombras (Phoebe Locke)

Diz a lenda que o Tall Man matou a filha por ela ser desobediente - mas que, às raparigas que lhe derem presentes e subserviência, ele pode torná-las especiais. E foi esta lenda a origem de um crime cujas ramificações se estenderiam pelo futuro. Na infância, Sadie e as amigas fizeram um sacrifício ao Tall Man. E, anos depois, quando teve a sua própria filha, a noção de que Amber poderia estar amaldiçoada fê-la fugir para a proteger. Só que as sombras nunca partem verdadeiramente. E, ao regressar a casa, julgando ter deixado o pior para trás, Sadie traz consigo o fardo do seu passado. Porque o Tall Man leva filhas. Mas às vezes precisa de um pouco de ajuda...
Oscilando entre diferentes períodos e também diferentes perspectivas, este é um livro que leva o seu tempo a assimilar. Talvez por os verdadeiros contornos do crime só serem revelados numa fase já muito avançada do enredo, muitas das referências feitas pelas personagens assumem uma certa ambiguidade, o que torna o início um pouco confuso. Além disso, se há coisa que não há neste livro é personagens que despertem simpatia. Todas são contraditórias, imperfeitas. Todas têm segredos e sombras a esconder. E, se é verdade que isso cria uma maior distância - e, no caso de Federica, uma ligeira irritação - também o é que confere à história uma perspectiva um pouco mais realista.
Quanto ao Tall Man, é também um mistério em si. Em parte lenda, em parte superstição e - por vezes - em parte real (pelo menos na mente de algumas das personagens), nunca se chega a saber sobre ele uma verdade absoluta, o que deixa, é claro, uma certa curiosidade insatisfeita. Mas também isto faz sentido, pois, sendo ele um homem de sombras, é apenas natural que a sua verdadeira natureza (real ou imaginária) seja também deixada às sombras da imaginação.
Mas voltando ao enredo. O início é, realmente, bastante pausado, em parte pela sensação de se saber muito pouco e em parte pela distância sentida relativamente às personagens. Mas a história vai-se entranhando aos poucos, à medida que as surpresas vão surgindo, e, se o ritmo nunca chega a ser realmente compulsivo, há ainda assim um crescendo de intensidade que culmina num final bastante forte. E quanto à tal empatia? Nenhuma das personagens se torna subitamente adorável, não - mas tornam-se mais fáceis de entender.
A impressão que fica é, pois, a de um livro peculiar, ainda que não propriamente viciante, em que diferentes momentos e personagens se conjugam para dar forma a um mistério intrigante, surpreendente e com um final particularmente intenso. Gostei. 

Autora: Phoebe Locke
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

As Vantagens de Ser Invisível (Stephen Chbosky)

Aos quinze anos e introvertido por natureza, Charlie não tem propriamente facilidade em fazer amigos, mas, apesar de não se sentir assim tão desconfortável com a sua invisibilidade, está a tentar "participar". E é isso que o leva a conhecer Patrick e Sam, dois irmãos finalistas que lhe vão abrir as portas do estranho mundo da adolescência - e não só. Charlie não tarda a apaixonar-se por Sam, mas ela é mais velha e é bem clara quando lhe diz que não pode haver nada entre eles. Ainda assim, a amizade desenvolve-se e, com ela, uma série de partilhas, segredos e experiências mais ou menos perturbadoras. É que há razões para Charlie ser como é. E, à medida que cresce, às vezes mesmo sem se dar conta, há elementos de um passado reprimido que ameaçam vir à superfície.
Escrito na forma de cartas a um destinatário desconhecido, uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste romance é a forma como a escrita evoca na perfeição o caos interior do protagonista. Aos quinze anos, Charlie está a passar por uma série de mudanças e, além disso, as suas experiências conferiram-lhe uma série de hábitos próprios. Ora, isto transparece na perfeição das cartas, não só pelos acontecimentos nelas narrados, mas pelo próprio registo. E o resultado é a sensação de partilhar um pouco dos sentimentos confusos de Charlie, entrando assim na sua vida e participando das suas dificuldades.
Também interessantes são os muitos reflexos da época em que a história decorre, com objectos como as cassetes a evocar uma espécie de nostalgia. E a própria forma de estar no mundo das personagens, com a maior tolerância ao tabaco e ao álcool, os preconceitos ainda vigentes, mas então ainda mais arraigados, e um sistema de comunicação ainda consideravelmente mais limitado, a fazer lembrar um passado não muito distante, onde tudo parece ser diferente, mas os dramas e dilemas continuam a ser semelhantes.
E depois há o lado sombrio por trás dos aparentes pequenos dramas da adolescência. O grande segredo de Charlie, que ele próprio não lembra, de início, mas também as experiências partilhadas e a profunda disfuncionalidade escondida sob uma aparente normalidade adolescente. Experiências que surgem em tão grande abundância que chega a ficar a sensação de haver demasiado a acontecer numa história que não é assim tão extensa.
No fim, ficam algumas perguntas sem resposta, mas também uma imagem de fim de ciclo. De um ano que termina, para dar lugar a outro, com mais verdades assimiladas e, assim, novas possibilidades. É esta a marca que fica desta história: a de que a vida - e o crescimento - continuam, apesar dos traumas. E o que não mata... às vezes torna-nos mesmo mais fortes. 

Autor: Stephen Chbosky
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O Manuscrito (John Grisham)

Na sequência de um elaborado assalto à biblioteca da Universidade de Princeton, os manuscritos originais dos cinco romances de F. Scott Fitzgerald são roubados e desaparecem sem deixar rasto. De início, os ladrões parecem ter cometido erros evidentes e dois deles são presos quase de imediato. Mas as pistas esmorecem e, sem um rasto a seguir, as atenções voltam-se para o outro lado do negócio. Bruce Cable, proprietário de uma livraria em Camino Island, é conhecido por negociar livros raros e há uma pista que aponta na sua direcção. Mas, sem provas suficientes, exige-se discrição para obter respostas. E é aqui que entra em cena Mercer Mann, escritora em bloqueio criativo e desesperadamente necessitada de dinheiro.
Tendo como ponto de partida o elaborado esquema do assalto, para seguir depois para um cenário distinto e uma outra faceta do caso, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, por abranger tantas e tão diferentes personagens. Da equipa de ladrões à construção da vida de Bruce Cable, passando é claro por Mercer, pelos seus empregadores e até pelos escritores que povoam Camino Island, há todo um conjunto de figuras interessantes e invulgares. Algumas, cativam pelo carisma, pelos sucessos atingidos ou pelo sonho que insistem em alimentar. Outras pelas suas facetas mais bizarras. E, sendo que nenhuma delas é perfeita, todas acrescentam algo de bom ao enredo, ficando até, nalguns casos, uma certa pena quando acabam por passar para segundo plano.
Ora, com tantas personagens, é apenas natural que algumas assumam o protagonismo, enquanto outras se vão esbatendo. E, se fica uma certa curiosidade insatisfeita acerca de algumas dessas figuras, nomeadamente o grupo de escritores com os seus distintos projectos, também é verdade que não são eles o cerne da história. Quanto a esse - os manuscritos de F. Scott Fitzgerald, com o seu roubo e recuperação - nada de relevante fica por dizer. E, se é previsível que haja uma resolução definitiva, já a resolução em si é totalmente inesperada.
O que me leva a outro dos pontos fortes: a capacidade de surpreender. Sendo a linha central da história a aproximação e infiltração no meio de um possível suspeito, é inevitável - pelo menos para a protagonista - que haja uma certa separação entre bons e maus. Só que essa separação não é tão clara como parece e, à medida que Mercer vai descobrindo isso, também as circunstâncias evoluem, com a consequente sucessão de dilemas pessoais, escolhas difíceis e situações surpreendentes.
Trata-se, pois, de um livro intrigante e surpreendente, que mistura o crime e o mundo dos livros numa fusão intensa e delicada. Envolvente, com uma fluidez quase viciante e um enredo cheio de surpresas, uma boa leitura. 

Título: O Manuscrito
Autor: John Grisham
Origem: Recebido para crítica

domingo, 5 de agosto de 2018

Areias Brancas (Geoff Dyer)

Viajar pode ser uma experiência reveladora - mas não necessariamente segundo as expectativas criadas. Às vezes, vai-se a um local onde se passam dias na ânsia de o deixar, e só depois é que a viagem se torna memorável. Outras, tem-se um objectivo em mente e, apesar de todos os esforços, esse fica por concretizar. E outras, descobrem-se locais inexplicáveis, com uma história vastíssima, mas que não são o que pareciam ser. De todas estas experiências - e até de alguns incidentes de percurso - nasce este estranho e cativante livro.
Sendo, essencialmente, um livro de viagens, é apenas de esperar uma considerável componente descritiva. Mas começam logo aqui as surpresas: há, de facto, vastas descrições, tanto de locais, como de experiências, pessoas e elementos históricos, mas num registo bastante peculiar. Nos locais, porque o autor acrescenta-lhe um perspectiva pessoal, que chega até a surpreender, por estar muito longe da sensação de espanto reverente que, às vezes, domina este tipo de livro. Nos restantes elementos, por abrir as suas próprias percepções, não se cingindo ao lado bom da experiência, mas exprimindo também os contrastes e contradições.
Claro que há também uma vasta dose de informação - e um amplo conjunto de referências artísticas - o que, tornando embora a visão mais completa, torna também o texto mais pausado. Ainda assim, é sempre uma experiência interessante descobrir novos locais e personalidades. Além de que, ao acrescentar ao percurso os seus episódios pessoais mais invulgares, o autor torna a viagem mais intensa, peculiar... e, nalguns casos, mais divertida.
E há ainda o que fica depois da viagem: percepções do mundo, pensamentos surpreendentes, laivos de humor por entre uma análise mais vasta e introspectiva de propósitos. Frases notáveis que surgem quando menos se espera e que, mesmo quando o texto parece perder-se um pouco em longas explicações, acrescentam um elemento de surpreendente profundidade. Um olhar pessoal por detrás dos traços do lugares, que torna mais memoráveis as impressões e mais duradouro o seu impacto.
No fim, fica a impressão de um livro de viagens que não é bem um livro de viagens. Uma estranha aventura, pessoal e intransmissível, mas que transmite algo de básico e essencial que vai muito além dos lugares e das pessoas. Estranho, contraditório até, mas muito interessante. E uma boa leitura.

Título: Areias Brancas
Autor: Geoff Dyer
Origem: Recebido para crítica

sábado, 4 de agosto de 2018

Nada é por Acaso (Maria Roma)

Há anos que Maria Pia viu a casa de Sirmione pela última vez, mas, nos seus últimos momentos, decide deixar aos seus mais próximos as revelações do porquê - e um motivo para regressar. Adriana, a neta, será a nova proprietária. Mas o que esta ainda não sabe é que, na casa do lado, cujo antigo habitante significou, em tempos, tanto para Maria Pia, se encontra a promessa de um grande amor. Um incidente delicado leva Adriana a conhecer Stefano e a apaixonar-se. E, à medida que desvendam os meandros do passado, bem como as teias do presente atribulado das suas famílias e relações, o amor que os une torna-se cada vez mais forte...
Escrita em capítulos relativamente curtos e acompanhando os pontos de vista de várias personagens distintas, este é um livro que deixa, por vezes, sentimentos ambíguos. Talvez devido à diferença de perspectivas, ou à personalidade francamente pouco empática de algumas figuras centrais, que, por vezes, as faz cair em comportamentos contraditórios, nem sempre é fácil entender os porquês de algumas das coisas que acontecem. Ainda assim, algo que desde cedo se torna claro é que, mesmo não gostando de algumas personagens, é fácil entrar no ritmo da história, pois a mistura de mistérios e desgostos passados e novos amores a nascer no presente compensa os momentos de maior distância e são também mais as personagens que despertam empatia do que as que despertam verdadeira aversão.
Apesar da relativa brevidade dos capítulos, há uma considerável componente descritiva, o que torna a leitura um pouco mais pausada. Mas é também um elemento que faz sentido, já que os locais - principalmente Sirmione - são parte do que marca o percurso das personagens e, assim sendo, é apenas natural que o cenário seja descrito ao pormenor. Além disso, a história percorre toda uma vastidão de locais, mas é Sirmione o centro para onde tudo converge, daí que seja adequada esta mais extensa caracterização.
Claro que, ao seguir várias personagens, criam-se também várias histórias secundárias à da relação de Adriana e Stefano - e com vários pontos de proximidade. Daí que fique, em certos aspectos, uma certa curiosidade insatisfeita, principalmente no que toca ao futuro de Renata e Julieta. Até porque sendo estas duas as personagens que mais antipatia despertam, seria sempre interessante saber um pouco mais sobre a evolução dos seus percursos.
Ficam, por isso, impressões contraditórias, principalmente acerca das personagens que habitam este romance. Mas fica também a imagem de uma leitura cativante, com várias surpresas notáveis e um interessante equilíbrio entre emoções muito distintas. Uma boa história, em suma.

Autora: Maria Roma
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Destemida (Lesley Livingston)

Segunda filha do rei de uma tribo guerreira, Fallon preparou-se a vida inteira para ocupar o seu lugar entre os guerreiros do pai. Mas Virico teme perdê-la, como perdeu a filha mais velha, e para o evitar decide dá-la em casamento a um conhecido aliado. Só que Fallon não está disposta a aceitar isso e, quando os acontecimentos se precipitam, Fallon dá por si nas mãos de um mercador de escravos e a caminho da Roma que tanto odeia. Aí, espera-a um destino de brutalidade... ou glória nas arenas. Mas grandes sucessos trazem grandes inimigos - e nem mesmo a protecção de alguns aliados inesperados a poderá proteger nos combates que se avizinham.
Provavelmente um dos aspectos mais notáveis neste livro é a facilidade com que transporta o leitor para o interior da história e do seu mundo. Talvez por ser narrado pela perspectiva de Fallon, já que a sua situação arranca logo num contexto difícil e cada novo desenvolvimento só vem levantar mais barreiras. Ou talvez porque este é o ponto de partida para um percurso de crescimento tão intenso quanto surpreendente, repleto de momentos marcantes, tanto em combate como nos meandros da intriga.
O que me leva outro dos pontos fortes: a intriga. Não é propriamente uma surpresa, numa história que decorre na Roma de Júlio César, que haja amplo espaço para intrigas, traições e pequenas ou grandes conspirações. O que surpreende é a forma como este contexto mais vasto envolve a história particular de Fallon, com os diferentes elementos a surgir precisamente quando são necessários, deixando à jornada individual a linha essencial do enredo, mas manifestando-se quando lhe acrescentam uma perspectiva mais ampla.
E depois, claro, há o aspecto emocional. Fallon é o tipo de personagem que desperta empatia: forte, mas vulnerável, determinada, por vezes teimosa, mas decidida a lutar pelos princípios que valoriza. Mas está longe de ser a única figura notável. Sorcha, Elka, Cai, até mesmo Charon. Todos eles são figuras marcantes, cada um à sua maneira, e a teia de relações que se desenvolve - de amizade, de interesse, de rivalidade ou de ódio - confere à história um ritmo irresistível. Pois há sempre algo de bom a descobrir, seja num laivo de humor, no desvendar de uma intriga ou num simples momento de afecto ou emoção.
Trata-se, pois, de uma história marcante. Intensa no enredo, notável nas personagens e cheia de possibilidades quanto ao que se poderá seguir, uma abertura poderosa para uma série que promete ainda muito mais. Recomendo.

Título: Destemida
Autora: Lesley Livingston
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

The Fade Out - Crepúsculo em Hollywood (Ed Brubaker e Sean Phillips)

1948. O mundo do cinema vive uma fase ambígua, em que grandes sucessos convivem com um controlo quase absoluto e um sistema que persegue todos os culpados - ou suspeitos - de actividades anti-americanas. E é neste contexto que uma actriz é encontrada morta, no que tudo indica ter sido um trágico suicídio. Só que Charlie Parish, guionista, sabe que não foi bem assim e, por mais que tente aceitar a necessidade de esquecer e seguir em frente, a sombra de Val continua a persegui-lo. Além disso, contou o segredo a um amigo igualmente inconformado. E nenhum deles consegue resistir ao impulso de descobrir a verdade - mesmo sabendo que não podem ganhar...
Não é propriamente fácil escolher um ponto por onde começar a falar sobre este livro - e, no entanto, quase que basta uma palavra: brilhante. É que são tantos os elementos notáveis e é tão perfeita a conjugação entre todos eles que a verdade é que não há nada a dizer que não seja bom. Mas talvez surja daqui um bom ponto de partida - o equilíbrio. O equilíbrio entre um cenário meticulosamente construído, associado a elementos de contexto muito precisos, tanto na imagem como nos diálogos, e a um contraste entre glamour e devastação que é simplesmente arrebatador.
Basta o início para criar impacto, a imagem de uma mulher morta em circunstâncias suspeitas e de um inocente conhecedor de uma verdade em que ninguém acreditará. Sente-se logo esse contraste - entre a justiça e a realidade - e a inevitável desolação que terá de vir a seguir. E, no entanto, há mistério. Há procura. E há respostas: respostas difíceis, desenvolvimentos inesperados e um caminho feito tanto de perigos como de revelações, que culmina num final tão intenso quanto devastador.
É difícil dizer tudo o que importa sem revelar demasiado, até porque uma boa parte do fascínio vem do processo de desconstrução dos meandros de Hollywood. Mas bastam os contrastes para se ficar com uma boa ideia: sucesso e controlo, luz e sombra, sucesso exterior e demónios interiores. Glamour... e segredos. Demasiados segredos, do tipo que destrói vidas inteiras. E marca, principalmente quando, no centro de tudo, está um protagonista tão fascinante.
É um livro grande, até porque inclui uma boa quantidade de extras que só contribuem para tornar o todo ainda mais notável. E, todavia, devora-se de uma assentada. Porquê? Porque, a partir do momento em que se começa a desvendar este estranho mundo, é irresistível o impulso de continuar. E há tanto para descobrir nesta requintada mistura de poder e desolação: nos cenários, no ambiente, no próprio percurso das personagens e no que globalmente representam. 
Que mais dizer, então? Que prende, que fascina e que se grava na memória de quem o lê. Que é ao mesmo tempo belíssimo e devastador. E que, por isso, no fim tudo se resume à mesma palavra com que comecei: brilhante. Brilhante, brilhante, brilhante. E imperdível, claro. 

Autores: Ed Brubaker e Sean Phillips
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O Homem que Não Ligou (Rosie Walsh)

Durante sete dias, Sarah julgou ter encontrado o amor da sua vida. Um encontro casual fez com que Sarah e Eddie David acabassem por partilhar sete dias de paixão recíproca e de esperanças para o futuro. Mas, esgotado o tempo e chegada a hora da separação, tudo acabou. Eddie devia ter-lhe ligado, mas não ligou, e embora todos os seus amigos julguem ser algo que acontece e que Sarah tem de ultrapassar, no fundo, ela sente que algo terrível aconteceu. E está certa, ainda que não da forma que imagina. Pois, tal como ela, Eddie tem um grande fantasma no seu passado - um fantasma que não lhe permite prosseguir com aquela relação.
Tendo como ponto de partida uma relação a desabrochar, mas expandindo-se para todo um conjunto de possibilidades misteriosas e segredos do passado, este é um livro cheio de surpresas. O que começa por ser uma história de abandono rapidamente evolui para um possível mistério e depois para algo mais intenso à medida que o passado vem à tona. E, durante este percurso, nada é fácil, tudo é inesperado e as emoções são uma constante, não só pelas dificuldades no percurso dos protagonistas, mas também pela forma como a autora transmite estes dilemas e dificuldades ao leitor.
Não há personagens perfeitas. Eddie e Sarah têm cada um os seus fantasmas e os seus erros, e isso desde cedo se torna evidente. Mas o que surge aos poucos é a forma como estes fantasmas estão relacionados, bem como a influência que têm em todo o seu percurso, passado e presente. E assim a autora prolonga o mistério, insinuando possibilidades para depois apresentar uma resposta bem diferente, se nunca perder de vista o essencial: a ligação profunda que nasceu em poucos dias e que é a força motriz por trás de tudo o resto.
E é desta mistura de amor e imperfeição - de dúvidas, inseguranças, esperanças futuras e fantasmas passados - que nasce o tão grande impacto emocional da história. É fácil sentir empatia com Sarah na sua busca incessante, tal como é fácil, quando as respostas surgem, compreender as motivações de Eddie. É fácil até entender o porquê de certos comportamentos negativos de algumas personagens. Porque tudo deixa marcas e a forma como essas marcas se manifestam e algo de profundamente notável - tanto pelo que representa como pela forma como é contada. 
No fim, tudo converge para um final tão intenso como comovente. E é essa a marca maior que fica deste livro: uma história emotiva, feita de grandes perdas e de maior superação, em que o amor tudo conquista... até mesmo o passado. Recomendo.

Autora: Rosie Walsh
Origem: Recebido para crítica