terça-feira, 15 de maio de 2012

Agarrem-me ou dou cabo desses palhacitos! (Rafeiro Perfumado)

Cenas de um mundo em mudança, peculiaridades que definem as diferentes gerações, experiências bizarras da vida quotidiana... ou simplesmente episódios muito estranhos. São estes os elementos na base deste conjunto de textos onde a visão um pouco caricatural, mas bastante precisa e muito, muito divertida, dos mais diversos episódios e circunstâncias proporciona, ao mesmo tempo, uma leitura cativante e algo em que reflectir.
São textos relativamente curtos, organizados por tema e com uma numeração de capítulos algo peculiar, mas cada um dos episódios/reflexões apresentados pelo autor tem algo de interessante para descobrir. Havendo ou não algum exagero na caracterização da situação, concordando-se ou não com o ponto de vista (desenvolvido com veemência) pelo protagonista/narrador/personalidade que dá voz ao texto, é difícil não notar que há, em muitos dos textos, algo ou alguém aparentado aos meandros da vida real. 
Exagerando, talvez, num ou noutro defeito das personalidades referidas, são, ainda assim,  particularmente familiares as descrições do ocasional comportamento abusivo - e da forma como este se pode tornar irritante. Mas, para lá deste lado que, sem perder de vista o humor, acaba por reflectir muito bem o lado enervante de certas situações da convivência social, há ainda um outro aspecto que se destaca, e é a forma como o dito narrador se caracteriza também a si próprio nas reflexões apresentadas. Se as figuras que observa são apresentadas no seu mais caricato, importa também notar que o mesmo é feito pelo narrador: aliás, as observações pessoais e a forma como estas encaixam na veemência das opiniões são também parte do que cativa nas particularidades deste divertido livro.
Trata-se, portanto, de uma leitura divertida, com uma visão bastante particular dos aspectos mais... peculiares... do quotidiano e da vida social e que, com leveza e descontracção, levanta, apesar de tudo, algumas questões simples, mas interessantes, sobre a forma como se interage num mundo em que tanto pode mudar. Uma boa leitura.

Novidade Sextante


Da Índia, com amor dá-nos as cores, formas, luz e sombras das figuras, ambientes e emoções de um vasto painel da presença dos portugueses em Goa, na época da sua afirmação no Oriente. Com Joana e Violante, órfãs d’el-rei, viajamos na Carreira da Índia. Joana nos fará testemunhas da sua viagem interior, por dentro da saudade, amor e aventuras, dúvidas de si e da sua fé, abalada pelo confronto com outra cultura, até ao momento em que, naufragada, despojada, perdida em terras de cafres, ouvimos as últimas palavras da sua narrativa: sei quem sou. A narração do futuro caberá a outros.

De raízes beirãs, Júlia Nery, nasceu em Lisboa no século xx e vive numa aldeia perto de Cascais, onde foi professora do ensino secundário e deputada à Assembleia Municipal. Publicou a sua primeira obra de ficção em 1984: Pouca terra… poucá terra... Conciliando o seu trabalho de professora, de formadora na área específica da Didática da Língua e de dinamizadora de oficinas de escrita, continuou a publicar obras de ficção e de teatro: O cônsul, O plantador de naus a haver (Prémio Eça de Queirós, 1994), Na casa da língua moram as palavras, Infantas de Portugal, Valéria, Valéria, www.morte.com, O segredo perdido, Crónica de Brites, Aquário na gaiola, os dois últimos editados pela Sextante. Tem obra traduzida em francês e alemão.

Novidade Pastelaria Studios


Enquanto uma negra conspiração se vai expandindo por algumas cidades europeias, três adolescentes divertem-se, navegando pela Internet, tentando decifrar mistérios e crimes até então irresolúveis.
Dana, Mark e Rohan são provenientes de nações distintas mas os seus interesses e suas motivações convergem. À medida que uma onda de crimes vai assolando o território do velho continente, os jovens vão interagindo através das comuns salas de chat, falando sobre um infindável número de temas. 
O percurso das suas vidas toma, porém, um rumo diferente, acompanhado de estranhos acontecimentos que podem mudar os seus destinos. 
Paralelamente, uma sociedade secreta, cujos elementos parecessem tão competentes quanto obstinados, move-se de forma obscura e sanguinária, onde todos os seus passos parecem ser criteriosamente preparados, na tentativa de alcançar um marco até então inatingível.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Rubix (Ana Rita Pereira)

Saltos temporais inexplicáveis e a impressão de que estão a ver coisas são os primeiros sinais que fazem com que Mariana e Cristóvão se apercebam de que algo de errado está a acontecer. Mas, antes mesmo que consigam encontrar uma explicação ou uma pista que lhes permita procurar resposta, os dois amigos que foram acampar com eles desapareceram e ambos vão parar a um mundo diferente. Aí, em Rubix, travam conhecimento com a rainha de um povo dividido e ficam a saber que só a intervenção de Mariana - cujas origens a marcam como escolhida - pode impedir que ambos os mundos sejam destruídos.
Bastante breve e tendo em vista um público jovem, esta é uma história relativamente simples, mas apresentada de forma cativante e com uma escrita agradável. Há, quer na história, quer nas personagens que a habitam, laivos de alguma inocência e de um quase idealismo que complementam as inevitáveis dúvidas da protagonista ao ver-se no centro da acção num cenário que lhe é completamente desconhecido. Há também alguns momentos particularmente interessantes a nível de cenário, principalmente a nível das construções associadas aos poderes de Mariana, e o enredo, relativamente simples e a fazer por lembrar, por momentos, o mundo de Narnia, tem também uma base bastante cativante.
Perde-se um pouco com a brevidade da história, principalmente porque fica a impressão de que bastante mais haveria por dizer. Tal como é, a leitura é cativante e a história é agradável, mas fica, em vários momentos, a impressão de que mais haveria para dizer, quer a nível da construção de Rubix, quer de explicações para o que está a acontecer. A resolução dos conflitos parece, por vezes, demasiado fácil, devido, talvez, à brevidade com que são descritos.
Trata-se, em suma, de uma história cativante, que poderia, talvez, ter sido mais desenvolvida, mas que apresenta uma ideia com bastante potencial e alguns elementos particularmente interessantes. Uma leitura agradável, portanto.

Novidade Porto Editora


Estava à tua procura. Encontrei-te. És a pessoa certa... Agora, mata!

Marcus é um homem sem passado.  A sua especialidade: analisar as cenas de crime para reconhecer o Mal nos pequenos detalhes e solucionar homicídios aparentemente perfeitos. Há um ano, foi gravemente ferido e perdeu a memória. Hoje, é o único que poderá salvar uma jovem desaparecida.
Este peculiar investigador enfrenta, porém, um desafio ainda maior: alguém está a usar o arquivo criminal da Igreja para revelar a verdade sobre crimes nunca oficialmente resolvidos. Assassinos são colocados perante os familiares das vítimas. Será, passado tanto tempo, saciado o desejo de vingança? Passarão os inocentes a culpados? Ou será, finalmente, feita justiça?

Donato Carrisi nasceu em 1973 em Martina Franca (Itália). Licenciado em Direito, especializou-se em Criminologia e Ciências do Comportamento. Dedica-se, desde 1999, à carreira de argumentista de cinema e televisão, e escreve regularmente no Corriere della Sera. 
O Tribunal das Almas é o seu segundo livro, depois do enorme sucesso de Sopro do Mal, já publicado pela Porto Editora.

Vencedor do passatempo O Perraultimato

E terminou mais um passatempo, desta vez com 116 participantes. Como habitual, resta-me agradecer a todos aqueles que enviaram as suas respostas. E anunciar que o vencedor é...


70. Susana Franco (Pontinha)


Parabéns e boas leituras!

domingo, 13 de maio de 2012

O Perraultimato (Filipe Faria)

Eles deviam ter vivido felizes para sempre, mas... não foi isso que aconteceu. Agora, a busca de respostas vai fazer com que os seus caminhos se cruzem. De Borralheiro, o irmão mais novo que queria mostrar o seu valor e que é, afinal de contas, o único que tem a inexplicável percepção que há algo de errado, depende a busca de uma forma de fazer com que tudo volte a ficar bem. As instruções estão no Perraultimato, mas dificilmente podiam ser mais enigmáticas. Ainda assim, Borralheiro vai à procura das suas respostas, para encontrar, ao longo do caminho, um grupo de companheiros invulgares... e alguma pista quanto ao que poderá fazer a seguir.
Tendo como ponto de partida um conjunto de contos de fadas, o que primeiro cativa neste livro é a forma como estas histórias já conhecidas são transformadas para dar origem a um enredo bastante diferente. Início de uma série maior, este livro funciona, em grande medida, como um volume introdutório, com a história individual de cada personagem a preparar caminho para a jornada em que as cinco figuras principais se encontrarão. E cada uma destas personagens tem algo que as diferencia da figura típica de conto de fada, sendo desde logo um dos elementos que tornam interessante uma história envolvente e com algumas boas surpresas ao longo do percurso.
Dos cinco protagonistas desta história, marca a diferença tanto de personalidades como de capacidades e a forma como estes aspectos se relacionam com a história passada de cada um. Muito diferentes entre si, mas todos eles fruto de uma história que não acabou como devia, há algo de cativante tanto na personalidade algo provocante de Capuchinho como na postura de quase servilismo de Aprendiz, na dúvida que parece definir cada acção de Borralheiro como no temperamento algo aguerrido de Burra e no medo de Vasilisa de fazer mal sem querer. Junte-se a esta variedade de temperamentos também as capacidades a eles associadas - e aqui os "companheiros" de Aprendiz são particularmente interessantes - e o resultado é um grupo com muito de interessante.
O enredo é, ainda, apenas um ponto de partida para uma história que se insinua como algo bastante maior do que o que este livro apresenta, mas há já neste início de aventura uma série de bons momentos e surpresas agradáveis. O ritmo da narrativa é agradável e, talvez por apresentar um cenário que exige menos pormenores a nível de contextualização, também a escrita parece ser menos elaborada, ainda que o vocabulário invulgar continue a marcar presença. Há, também, alguns momentos divertidos por entre as situações mais negras, o que resulta num equilíbrio agradável.
Fica, pois, deste O Perraultimato, a impressão global de uma leitura envolvente, com um interessante conjunto de personagens e uma abordagem bastante diferente a histórias já bastante conhecidas. Um bom início de série, deixando umas quantas perguntas sem resposta, mas com um muito bom ponto de partida para uma história ainda com muito para explorar. Gostei.