domingo, 12 de janeiro de 2014

Escravos do Desejo (Kate Pearce)

A caminho de Londres e em fuga de um passado conturbado, Helene Delornay viu-se presa, durante um fim-de-semana, na companhia de um homem sedutor e impetuoso, mas com inesperados laivos de cavalheirismo. Partilhou essa noite com Philip Ross e foi quanto bastou para descobrirem a paixão. Mas não o suficiente para ficarem juntos. Helene tinha nos ombros o peso do passado e Philip o das exigências paternas. Agora, dezoito anos mais tarde, Helene é a dona da casa de prazer mais exclusiva de Londres e um dos seus sócios acaba de morrer, deixando a sua parte do negócio... a Philip. Mais uma vez, os caminhos de ambos voltam a cruzar-se. E, mais diferentes ainda do que quando se conheceram, têm ainda em comum uma paixão devastadora. Mas poderá sobreviver a tudo o que os separa?
Situado no mesmo cenário do livro anterior, e com personagens em comum, este livro surpreende, em primeiro lugar, por um inesperado equilíbrio entre a componente erótica e os restantes elementos do enredo. Se em Escravos da Paixão o erotismo era o aspecto dominante, com o restante da história a surgir como complemento, neste livro tudo é desenvolvido de uma forma mais equilibrada, com a história e a caracterização das personagens a desempenharem um papel tão relevante como as cenas sensuais que, ao longo do enredo, vão surgindo.
Nada se perde, a nível de desenvolvimento do lado erótico da história, devido a este cruzar de novos elementos. Muito pelo contrário. Ao desenvolver mais o passado dos protagonistas, a autora torna-os mais interessantes e mais próximos - até porque esses passados conturbados dão, por si próprios, uma bela história. E ao acrescentar ao enredo uns quantos elementos de intriga e de perigo, tudo se torna muito mais intenso, já que a relação dos protagonistas se forma com base não apenas na atracção e no contacto físico, mas também no que cedo se revela como um genuíno afecto.
Tudo isto é narrado de uma forma relativamente simples, sem elaborações desnecessárias, mas com todos os elementos essenciais à caracterização - seja de ambiente ou de personagens. Além disso, há uma curiosa evolução nas interacções entre os protagonistas, já que as suas diferenças de temperamento ocasionam quer momentos de tensão, quer situações curiosamente divertidas. Também isto contribui para uma impressão de leveza, o que torna a leitura especialmente agradável. E, mesmo que, na questão da intriga, seja relativamente fácil reconhecer o responsável, a forma como tudo acontece não deixa de ser interessante.
Envolvente e equilibrado, Escravos do Desejo apresenta um cenário intrigante e personagens interessantes. E, com eles, constrói uma história cativante, com muito de erotismo, mas também com muito de interessante para lá do erotismo. O resultado é uma leitura leve e sempre agradável. E uma boa história, em suma.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A Chama de Sevenwaters (Juliet Marillier)

Passaram dez anos desde o incêndio que a deixou marcada para sempre, e Maeve cresceu para aceitar o que a vida lhe deu. Mas nem só marcas físicas ficaram do fogo e, agora que a necessidade a obriga a regressar a Sevenwaters, todos os medos e inseguranças voltam a afluir-lhe ao pensamento. Ainda assim, o regresso não é algo a que se possa recusar, não quando as acções de Mac Dara ameaçam lançar a desgraça sobre Sevenwaters. E muito menos quando, ainda que não o saiba, a própria Maeve tem um papel fundamental a desempenhar no combate ao príncipe do Outro Mundo.
Último volume do regresso a Sevenwaters, este é um livro que une muitos pontos, dando respostas ao que tinha ficado em aberto e terminando, enfim, a longa estrada de algumas das personagens. Não surpreende, por isso, que este seja um livro particularmente emotivo. E essa emotividade nasce, desde logo, com a forma como Maeve começa a contar a sua história, com uma vaga melancolia que se insinua através da sua força e que, em poucas páginas, basta para gerar empatia. Além disso, se a voz de Maeve abre aos leitores o coração da sua protagonista, a sua forma de ver o mundo e as pessoas revela também as histórias e o coração dos outros. Com o evoluir do enredo e os muitos momentos intensos que vão surgindo, outras personagens se revelam no que fala ao coração, desde Finbar, sério para lá dos seus parcos anos, ao sempre misterioso e sempre impressionante Ciarán, cujo papel neste livro acaba por ser a mais impressionante e adequada conclusão para o seu longo percurso.
Da história propriamente dita, sobressaem a força dos momentos e a envolvência com que é contada. Não se pode dizer que sejam especialmente surpreendentes a identidade dos antagonistas ou a intervenção de algumas das personagens, mas a forma como a história é construída, sempre com uma impressão de proximidade às personagens, uma força emotiva em grandes e pequenos momentos e uma escrita sempre maravilhosa, compensa em muito esses momentos mais previsíveis, o que permite que a envolvência se mantenha, mesmo quando é fácil adivinhar o que vai acontecer.
E depois há a sensação de um fim atingido e de uma porta que se fecha - ainda que, talvez, não completamente. Não só para Maeve, com a sua luta e a sua superação, mas para todo um conjunto de conflitos - interiores ou entre mundos - que abrem caminho, em fim, para a paz possível. Mais uma vez, aqui é Ciarán que sobressai, Ciarán e a sua difícil escolha, mas há para todos - e para Sevenwaters em geral - uma conclusão adequada. E essa impressão acaba por ser estranhamente reconfortante.
Maravilhosamente escrito e repleto de momentos emotivos, eis, pois, um livro que, não sendo completamente surpreendente, cativa, ainda assim, quer pelas personagens, quer pelo enredo, quer pela beleza da escrita que molda esta história. Sempre envolvente e, por vezes, comovente, um final à altura para uma história fascinante. Muito bom.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

As Gotas de um Beijo (Carina Rosa)

Ainda a tentar ultrapassar o fim de um casamento de vinte anos, David encontra na sua amizade com Diana o refúgio e o conforto de que necessita. Mas basta-lhe pousar o olhar em Laura para que os seus sentimentos sejam abalados. Vê-la fá-lo sentir-se novamente hesitante e nervoso... e irresistivelmente atraído. E ao que parece, o sentimento é mútuo. Mas também Laura tem assuntos inacabados na sua vida e um segredo capaz de abalar as fundações do amor que começa a nascer. E, enquanto a paixão cresce, e com ela o perigo, também a amizade de sempre pode estar comprometida, pois os sentimentos da amiga e irmã de uma vida também não são tão simples como ambos julgavam.
Tendo como base um romance complicado - ao qual se associa o inevitável triângulo amoroso - acompanhado de uma certa medida de tensão e de perigo, este é um livro que cativa principalmente pela escrita envolvente, com uma certa medida de leveza que, em ocasiões, contrasta com os momentos mais sombrios. Se a relação entre as personagens tem as suas complicações, a história, no geral, é relativamente simples, e não é difícil prever o rumo geral dos acontecimentos. Ainda assim, a forma como o enredo é apresentado, com uma escrita igualmente simples, mas envolvente, e pautada por algumas frases particularmente marcantes, cativa a atenção do leitor. Para isto contribui também o ritmo da narrativa, em que, seja no romance, seja relativamente aos segredos que lhe estão associados, há sempre alguma coisa a acontecer.
Também o desenvolvimento das personagens tem os seus elementos cativantes, com algum destaque para o papel de Diana, aparentemente secundário, mas servindo de base a alguns dos melhores momentos do livro. Além disso, todas as personagens têm um passado e isso é parte do que as torna interessantes. É neste aspecto, aliás, que a história poderia ter sido mais desenvolvida, explorando as vivências passadas das personagens, o que permitiria também aprofundar um pouco mais algumas questões pertinentes - como é o caso da violência doméstica.
Trata-se, pois, de um livro relativamente breve, que poderia ter sido mais desenvolvido em certos aspectos, mas que não deixa, por isso, de ser uma leitura agradável e cativante. Uma história envolvente, com personagens interessantes e alguns momentos especialmente bons. Gostei.

Novidade Quetzal

Um professor de educação física procura refúgio em Garopaba, cidade balnear de Santa Catarina, após a morte do pai. Afasta-se da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha num isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, o misterioso Gaudério, que teria sido assassinado, décadas antes, na mesma Garopaba.
Barba Ensopada de Sangue resgata e leva às últimas consequências temas como a construção da identidade; as dificuldades que enfrentamos para entender e reconhecer os outros; a necessidade inconfessa de uma reparação talvez inviável; a busca da harmonia entre mente e corpo; o consolo que o contacto com a natureza e os animais nos pode proporcionar; e os diversos tipos de violência que podem irromper de uma existência domesticada.

Daniel Galera nasceu em São Paulo, em 1979, mas passou grande parte da sua vida em Porto Alegre. Escritor e tradutor de literatura contemporânea de língua inglesa, foi um dos criadores da editora Livros do Mal, pela qual lançou o seu livro de estreia, Dentes Guardados (2001), e a primeira edição de Até o Dia em Que o Cão Morreu (2003), entretanto adaptado ao cinema. Cordilheira (2008) recebeu o Prémio Machado de Assis de Romance, da Fundação Biblioteca Nacional, e ficou em terceiro lugar na categoria Romance do Prémio Jabuti. Os seus livros estão publicados em Inglaterra, nos Estados Unidos, em França, Itália, na Argentina, Roménia e Holanda. Barba Ensopada de Sangue será o seu primeiro livro publicado pela Quetzal.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Serva do Império (Raymond E. Feist e Janny Wurts)

A vitória de Mara sobre os Minwanabi pode ter-lhe garantido alguma tranquilidade, mas trouxe-lhe também severas inimizades. Para garantir a prosperidade do seu clã, Mara tem de tomar decisões complicadas e assegurar-se da segurança dos que lhe são leais. Isso implica conquistar aliados e manter sobre os seus inimigos o máximo de vigilância possível. Mas se, no que toca à intriga política, Mara consegue ser implacável, é certo que continua a ser também mulher, obrigada pelas circunstâncias a tornar-se líder e estratega, mas com as suas vulnerabilidades, apesar disso. Mais uma vez, Mara tem batalhas a travar e armadilhas a evitar. Mas é possível que o mais constante dos seus apoios venha de onde menos se espera.
Dando continuidade à história iniciada em A Filha do Império, este livro tem, inevitavelmente, muitos pontos em comum com o anterior. E o mais evidente é o já expectável ritmo pausado, com uma vasta componente descritiva em que todos os aspectos de cenário e contexto são explorados. Descrição esta que, apesar de abundante, não se torna repetitiva. E por duas razões. Nos cenários, o percurso de Mara leva-a a novos lugares, pelo que a descrição desses espaços - e do contexto em que surgem - permite expandir a perspectiva global do que caracteriza o império. E nas batalhas, porque permite vislumbrar o crescimento e as vulnerabilidades das várias forças em conflito, o que nunca deixa de ser interessante.
Mas se o mundo é, por si só, vasto e interessante, há muito mais a descobrir para lá destes cenários. A história de Mara, que começou num registo mais pessoal, evoluiu agora para uma bem mais complexa teia de intrigas, em que rivais e aliados definem condições, conspiram e atacam, cada qual com os seus motivos subjacentes e com as necessárias consequências para cada acção. Mas o lado pessoal não se desvanece por completo e é aqui que a presença de uma nova personagem relevante se torna particularmente relevante. Ao colocar Kevin no centro da vida de Mara e dos Acoma, os autores apresentam não só o lado humano da protagonista, mas também uma perspectiva diferente, ao colocar lado a lado as diferenças culturais entre Midkemia e Tsuranuanni. As questões que se colocam a Kevin surgem também perante o leitor, o que permite também uma abordagem mais ampla e equilibrada das duas culturas em colisão.
Ainda um outro pormenor interessante é a forma como este livro se cruza com uma parte da história de outros livros, situando-se temporalmente no tempo da guerra da brecha. Assim sendo, destaca-se a presença ocasional, mas muito relevante, de Milamber, uma figura misteriosa neste livro - mas não tanto para quem tiver lido O Mago - que realça, mais uma vez, as diferenças de perspectiva e mostra alguns acontecimentos relevantes do ponto de vista do outro lado do conflito.
O que fica, então, deste livro é a impressão de uma leitura cativante, ainda que não compulsiva, com um ambiente vasto e interessante e personagens fortes a servir de base a uma história envolvente, rica em bons momentos e que promete muito de bom para o volume que se segue. Recomendo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Karma e Reencarnação (Elizabeth Clare Prophet e Patricia R. Spadaro)

Já todos ouvimos falar nos conceitos de karma e de reencarnação, sendo ambos dois termos relativamente comuns. Mas em que consistem verdadeiramente e quais são as ideias por detrás do conceito? É a esta pergunta - e a mais algumas - que este livro pretende responder, numa abordagem que é tanto de explicação como de orientação na base espiritual que lhe está subjacente.
Um pouco como o livro anterior, Os Sete Centros de Energia, também este livro conjuga conceitos e orientações, numa exposição que pretende ser, em simultâneo, exposição de conhecimento e guia espiritual. Assim sendo, as características serão essencialmente as mesmas, ainda que em diferentes graus. Neste livro, domina a exposição de contexto e o desenvolvimento das ideias, surgindo as indicações e as possíveis técnicas fundamentalmente na parte final.
Um outro aspecto mais presente é o recurso a exemplos para ilustrar alguns dos conceitos. Este é, aliás, um dos principais pontos fortes do livro, já que as várias histórias apresentadas tornam mais claras as ideias e mais cativante a leitura. Além disso, e ainda que requerendo também um certa medida de crença, mais uma vez a abordagem à espiritualidade não se limita a um sistema religioso, o que permite uma perspectiva mais abrangente.
Sobressai também a organização em temas e a forma sucinta, mas esclarecedora, com que cada aspecto do tema é desenvolvido. Sendo um livro relativamente breve, e em que cada um dos capítulos é, também, bastante curto, é inevitável a impressão de que muito mais haverá a descobrir sobre o assunto. Ainda assim, os aspectos essenciais são apresentados de forma bastante clara, sem descurar o contexto histórico e filosófico das ideias, além da evidente base espiritual.
Interessante e de leitura agradável, a impressão que fica deste livro é, então, a de uma boa base para aprender sobre as ideias essenciais, já que, de forma acessível e organizada, equilibra a sua faceta de guia com uma clara e sintética introdução aos elementos de base. Um bom ponto de partida, portanto, e uma leitura interessante. Gostei.

5 anos


É verdade, já passaram 5 anos. 5 anos desde que este pequeno recanto do meu mundo se abriu para me dar a descobrir grandes leituras e novos autores. Mas não foi só isso o que este espaço me trouxe. Também me deu a conhecer pessoas fantásticas e abriu-me as portas para amizades que espero que possam durar uma vida.

Se tem valido a pena andar por aqui? Claro que sim. E é por isso que, para já, basta dizer que, enquanto houver tempo e entusiasmo e leituras para descobrir, este meu tão querido lugar vai continuar presente, para quem o quiser conhecer. Bem-vindos sejam os que por aqui passarem... e obrigada, por tudo o que de bom daqui surgiu, ao longo destes 5 anos.

Continuaremos a encontrar-nos por aqui.