quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Estrangulador de Cater Street (Anne Perry)

Charlotte Ellison vive segundo as normas da sociedade a que pertence, participando dos eventos sociais e levando a vida familiar expectável do ambiente de família de classe média em que se enquadra. Mas a tranquilidade do seu lar é abalada pela notícia de que talvez haja um assassino em série por perto. Várias jovens foram estranguladas em Cater Street e as pistas seguidas pela polícia parecem indicar que o culpado está longe de pertencer às classes criminosas. Qualquer um pode ser o responsável e, mais franca e curiosa do que seria de esperar de alguém da sua condição, Charlotte toma um particular interesse pelo caso. Até porque o inspector responsável parece também ter algum interesse em Charlotte.
Apesar de ter um crime por base, há mais neste livro para além da resolução de um mistério. Na verdade, nem sempre é este a ter o protagonismo. Muito do interesse do enredo prende-se com a caracterização da sociedade, reflectida na perfeição - e nos seus múltiplos aspectos - no ambiente familiar dos Ellison. Desde a postura algo pomposa dos homens da casa à excessiva defesa da moral da mãe de Edward, passando pelos diferentes temperamentos das três irmãs, a autora explora, no seu conjunto de personagens, toda uma postura perante a sociedade. E esta contextualização, se é certo que levanta ideias pouco agradáveis no contexto actual, também o é que cria uma óptima base para o desenvolvimento da sua protagonista.
Charlotte Ellison é uma personagem forte, quer pelo carisma com que lida com as circunstâncias que a rodeiam, quer por todas as questões a que serve de porta-voz. Ao longo do enredo, Charlotte questiona a tal defesa rígida da moral, as diferentes regras para homens e mulheres, a ideia do mal e do pecado - encarnada pela peculiar figura do vigário - e até mesmo as diferenças de classe social. E o mais interessante é que não o faz só com palavras, mas, e principalmente, por acções.
Quanto ao enredo propriamente dito, o mistério entrelaça-se com este retrato das convenções sociais e também com um pouco de romance. Também aqui sobressai a caracterização das personagens, já que, ao desenvolver o carácter de outras figuras para lá da protagonista, a autora torna a história um pouco mais vasta, criando percursos igualmente interessantes para essas personagens. Além disso, e sendo este o primeiro volume de uma série, este conjunto de figuras e acontecimentos abre para os volumes que se seguirão um conjunto de possibilidades interessantes.
Quanto aos acontecimentos propriamente ditos, o ritmo é relativamente pausado, sem nunca deixar de ser envolvente. Mesmo não estando sempre em destaque, o mistério está sempre presente, criando para toda a história uma aura intrigante, que, de suspeita em suspeita, abre caminho para um bom final. Além disso, mistério e romance andam estranhamente próximas, e também a relação de Charlotte com o inspector evolui a um ritmo gradual, mas sempre cativante.
Misterioso e envolvente, O Estrangulador de Cater Street conjuga um bom retrato da sociedade vitoriana (e dos seus problemas), com uma história que equilibra as medidas certas de mistério e romance. Um muito bom início, portanto, e uma série a seguir.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Que Monstros Fabricamos? (David Almond)

Davie e Geordie são dois rapazes normais na aldeia onde vivem. Ajudam o padre nas missas, confessam-se e, assim que viram costas, dedicam-se às pequenas maldades típicas da sua idade. No fundo, são tão inocentes como quaisquer outros rapazes. Mas tudo muda com a chega do estranho Stephen Rose, um rapaz de modos reservados e comportamentos peculiares que parece ter um interesse particular em Davie. Quase sem querer, também Davie se sente fascinado, principalmente a partir do momento em que vê as figuras que Stephen constrói no barro. O problema é que o seu novo amigo tem um lado negro e algumas capacidades peculiares e a ideia de criar vida a partir do barro pode trazer consequências indesejadas.
Com protagonistas jovens e dirigido a um público jovem, este livro é, no essencial, uma história relativamente simples, não sendo difícil de prever, em linhas básicas, o rumo dos acontecimentos centrais. Ainda assim, muito de interessante surge desta história, que a escrita simples e directa torna envolvente e a que os acontecimentos e as personagens dão uma vida particular.
A história é narrada pela voz de Davie, daí que tudo seja visto do seu ponto de vista. Tendo isto em conta, é inevitável que haja elementos da história que ficam por desenvolver, principalmente no que acontece a Stephen para lá da sua relação com Davie. Ainda assim, este tipo de narração tem também um lado positivo e este é o dar uma perspectiva mais próxima a todo o enredo. É fácil entrar no mundo de Davie, sentir os seus medos e a sua confusão. E, à medida que a história se torna mais intensa e mais sombria, também são mais fortes as emoções que transmite.
Um outro aspecto interessante é que, mesmo sendo a história centrada no enredo, sem grandes reflexões, há várias questões que se insinuam nos pensamentos do protagonista - e, em consequência, nos do leitor. A existência ou não de um deus e dos anjos e, por oposição, da maldade pura, levantam, desde logo, questões sobre os limites entre o bem e o mal. E, ao abordar estas questões do ponto de vista de um rapaz de 14 anos, o autor acrescenta-lhe uma certa inocência que, confrontada com o lado mais sombrio do enredo, acaba por se revelar particularmente tocante.
Com um enredo bastante simples, mas com muito de fascinante nas pequenas coisas, este é, assim, um livro envolvente, com uma boa história e personagens cativantes. Uma boa surpresa, portanto, e uma boa leitura.

Novidades Saída de Emergência para Agosto

Uma batalha entre dois continentes
No ano de 1565, a Europa ameaça desmoronar-se. Dividida, não consegue fazer frente a um implacável Império Otomano em expansão. Quando uma gigantesca frota turca se aproxima, toda a esperança de um continente caído em desgraça está numa minúscula ilha no meio do Mediterrâneo: Malta. E para a defender apenas restam os Cavaleiros da Ordem de Malta.
Um homem dividido
Entre os convocados para resistir e morrer está o veterano caído emdesgraça, Sir Thomas Barrett. O instinto de honra força-o a colocar a Ordem acima de tudo, mas o seu desejo secreto é o de voltar a ver a mulher que sempre amou. Para piorar tudo, é incumbido de uma missão secreta pela rainha Isabel, que vê nos Cavaleiros uma ameaça ao seu reino.
Um dia para mudar a História
Enquanto sir Thomas confronta o passado que lhe custou a honra, um grandioso exército inimigo lança o cerco à ilha. No meio de gritos e morte tudo se decidirá: o destino da fé cristã, o fim ou a glória dos Cavaleiros de Malta, e o futuro de uma Europa que nunca esteve tão próxima da aniquilação total.

Há dez anos que Margaret não tem contacto com a sua filha Erica. Esta fugiu com um jovem anarquista e vive à margem da lei no Novo México, onde terá tido uma filha. Por isso, quando numa noite fria de Janeiro encontra uma criança abandonada à porta de sua casa, Margaret acredita tratar-se da sua neta. A pequena Norah destaca-se pela sua inteligência, bondade e cedo demonstra ter habilidades extraordinárias que encantam a comunidade. Afirma ser um anjo e consegue fazer duvidar os que a rodeiam. Mas quando uma carta de Erica chega às mãos de Margaret, toda a realidade que esta criara para explicar o sucedido ameaça desmoronar-se. Pois se Erica nunca teve uma filha… quem será realmente Norah?
  
O conhecido ballet de Stravinski A Sagração da Primavera, com os seus motivos de morte e renascimento como ritos de passagem da natureza, dá título a uma das mais ambiciosas obras literárias de Alejo Carpentier (1904 – 1980), cuja trama gira em torno de dois personagens: Vera, bailarina russa que fugiu do seu país após os acontecimentos de 1917, que atua na companhia de Diaghilev, e Enrique, membro de uma família cubana endinheirada, que, por sua militância contra a ditadura de Gerardo Machado, se vê obrigado a exilar-se no Paris boémio dos anos 30.
 Uma obra na qual o autor aprofunda alguns dos mais destacados acontecimentos sociais e políticos do século XX, desde a guerra civil espanhola até à revolução cubana, refletindo-se nela o processo de iniciação artística de Carpentier e onde se exalta o vigor colossal das forças da arte e da revolução para renovar e rejuvenescer os processos históricos.

Meredith Gentry faz-se passar por uma mulher normal, em Los Angeles, onde trabalha como detective privada. Mas ela esconde segredos sobre o seu passado. Agora, alguém foi enviado para a levar de volta para casa – quer ela queira quer não. Subitamente, Meredith vê-se como um mero peão, encurralada nos planos de alguém da sua família. Vão despertar jogos de sedução, paixões ardentes, e a luxúria… Meredith terá de lutar com as maiores tentações às quais nenhuma mulher conseguiria resistir. Vai desfrutar da companhia constante dos homens mais irresistíveis que alguma vez imaginou. Vai correr perigos para além da sua compreensão. Há algo de diferente em Meredith. Algo que a torna apetecível e indispensável. Um arrebatador desejo domina este livro da primeira à última página.
  
Krynn prepara-se para a batalha decisiva contra os servos de Takhisis, a rainha das Trevas. Os nossos companheiros têm em seu poder as misteriosas e mágicas orbes e lança de dragão, mas será isso o suficiente para resistirem às forças da escuridão?
Uma batalha ainda maior encontra-se por travar no coração de cada um dos heróis. Tanis está dividido entre a perigosa Kitiara e o amor incondicional de Laurana. Raistlin prossegue a sua demanda por mais conhecimento e poder entre os magos de Krynn, mas o preço a pagar é elevado e poderá não sobreviver. Saberá Caramon, o seu irmão, até onde vai a ambição de Raistlin? Tasslehoff aprende, pela primeira vez, a sentir medo pelos seus amigos.
Com o alvorecer, novos segredos e traições, mas também grande coragem e sacrifício, serão revelados. Os deuses são testemunhas de que nada voltará a ser o mesmo em Krynn.

Há segredos na cidade de Bon Temps, segredos que ameaçam aqueles que estão mais próximos de Sookie — e que poderão despedaçar-lhe o coração... Sookie Stackhouse não pensa duas vezes antes de recusar o pedido da sua antiga colega Arlene quando esta pede que lhe devolva o seu lugar no Merlotte's. Afinal, Arlene tentou matá-la. O seu relacionamento com Eric Northman, porém, não é tão claro. Juntamente com os seus vampiros, ele mantém a distância... e um silêncio gélido. E, quando Sookie descobre porquê, sente-se devastada. É então que um homicídio chocante abala Bon Temps e Sookie é presa por esse crime. Mas as provas são débeis e sai sob fiança. Quando começa a investigar o homicídio, descobre que o que passa por verdade em Bon Temps é apenas uma mentira conveniente. O que passa por justiça é mais sangue derramado. E o que passa por amor nunca será suficiente...

A Pedra Pagã existe há centenas de anos, muito antes de três rapazes se terem reunido à sua volta e derramado sangue num pacto de irmãos, libertando inconscientemente uma força malévola desejosa de caos e destruição. Um desses rapazes, Gage Turner, foge do seu passado desde há muito tempo. Filho de um pai alcoólico abusivo, a sua infância na cidade de Hollow foi tudo menos fácil, e só a amizade com Fox e Caleb o salvaram.
Mas ao libertarem o mal sobre a sua terra natal, iniciando um ciclo de loucura e crime a cada sete anos, Gage sabe que terá que ajudar os seus amigos a salvar a cidade onde cresceu. Depois de uma vida inteira solitária, conseguirá ele criar laços emocionais com as três mulheres a quem está preso pelo destino, em especial Cybil? Uma história de amor em que só abrindo o coração se pode almejar derrotar as trevas.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Ninguém me Conhece como Tu (Anna McPartlin)

Amigas desde a infância, Lily e Eve foram inseparáveis durante muitos anos, até ao dia em que algo de terrível as separou e destruiu a sua amizade. Passaram muitos anos, mas agora o destino quer que elas se voltem a encontrar. Eve deixou uma vida de fortuna e sucesso para voltar ao lugar onde cresceu, abrandar o ritmo da sua vida. Lily vive presa a um casamento tenso com um homem com tendências agressivas. E nenhuma delas sabe o quanto precisa da outra. Até ao dia em que Eve sofre um grave acidente de viação e se vê presa a uma cama do hospital em que Lily trabalha. Durante a longa e difícil recuperação, as duas amigas voltarão a aproximar-se e a encontrar uma na outra a força de que precisam para enfrentar novos desafios. Até porque há sempre problemas por perto.
Com uma história feita de encontros e descobertas pessoais, este livro tem, sem dúvida alguma, o seu ponto forte no aspecto emocional. Desde os momentos ternos às situações traumáticas, das personagens empáticas aos indivíduos detestáveis, a autora consegue dar vida às suas personagens e transmitir essas características ao leitor. É fácil sorrir ante as irreverências de Eve, escolher lados nos conflitos conjugais de Lily e Declan, odiar os seus comportamentos mais insuportáveis e, contudo, sentir alguma compaixão face ao seu passado. Este é, aliás, outro dos traços que torna a história tão marcante. É que, mesmo nas personagens cujo papel se aproxima do do vilão, a autora apresenta-lhes também as capacidades redentoras, criando, ao mesmo tempo, um sentido de humanidade e a curiosidade em saber se essas personagens percorrerão ou não esse tal caminho de redenção.
Parte deste lado emotivo deriva, também, do facto de a história se centrar muito nas relações entre as personagens. Há um lado romântico, inevitavelmente, e neste surpreende o facto de a autora encaminhar as coisas para um final menos fechado e menos previsível, mas há também muitos outros elos e questões. A amizade acaba por ser, por vezes, o elemento dominante, com a perda e a recuperação do contacto a fazer reflectir sobre os verdadeiros afectos. Na verdade, há na relação entre o grupo de amigos de Eve e Lily momentos tão fortes como os da história das duas, até porque a autora desenvolve estas personagens com a mesma atenção que dedica às protagonistas. E depois há a questão do casamento de Lily, toda ela uma boa base para reflexão sobre a questão da violência doméstica.
Cativante desde o início, este livro vai crescendo aos poucos em intensidade, à medida que os pontos fortes de personalidade - e até, por vezes, as suas vulnerabilidades - conquistam empatia, chamando a atenção para o que sentem e quem são. A partir desse ponto, a leitura torna-se cada vez mais viciante, para culminar num final marcante e que, mesmo sem dar todas as respostas, surpreende e comove. Uma boa história, portanto, com personagens cativantes e muitos momentos fortes para recordar. 

domingo, 28 de julho de 2013

Angelópolis (Danielle Trussoni)

Durante anos, Verlaine debateu-se entre a vontade de voltar a ver Evangeline e o conhecimento do que teria de fazer quando a encontrasse. Mas tudo se precipita no momento em que o reencontro acontece. Diante dos olhos de Verlaine, Evangeline é raptada por um dos anjos mais perigosos e levada para destino incerto. Mas antes, ela deixa-lhe uma pista, sob a forma de um ovo Fabergé. Para a encontrar, Verlaine terá de considerar todas as informações de que dispõe, travar algumas lutas perigosas e desvendar alguns segredos. E o que encontrará no fim pode não ser o que deseja.
Apesar de vários novos elementos e de um conjunto de diferenças interessantes, Angelópolis funciona, em grande medida como um volume de transição, apresentando novas informações ao mesmo tempo que coloca as peças nas devidas posições para acontecimentos por vir. Nesta medida, e em certo grau, é natural que muitas coisas fiquem em aberto, até porque parte da informação desvendada levanta novas questões. Mas é também daqui que surgem quer os principais pontos fortes, que as fragilidades.
Começando pelo lado positivo, o que mais sobressai é, sem dúvida, o desenvolvimento do sistema. Neste segundo volume, a autora continua a explorar a sua versão alternativa do funcionamento do mundo angelical e acrescenta vários elementos interessantes, quer no desenvolvimento das ligações aos Romanov, quer com as experiências (passadas e presentes), quer ainda com alguns novos segredos associados a Evangeline. Há, em tudo isto, muito de interessante e a forma como todos estes elementos se cruzam é, de facto, um dos aspectos que mais contribui para que a leitura nunca perca a envolvência.
Também nos grandes acontecimentos - e nas mudanças a eles associadas - há situações bem conseguidas, com as grandes revelações a abrir boas possibilidades para o que se seguirá. Além disso, e apesar da abundância de informação, o ritmo do enredo nunca se torna demasiado lento, talvez pela impressão de corrida contra o tempo associada à missão de Verlaine. Verlaine que, a propósito, acaba por ser o protagonista deste livro, sendo a quase ausência de Evangeline bastante notada.
Esta mudança leva às fragilidades. Sendo Evangeline uma das personagens fulcrais de Angelologia, a sua presença muito discreta neste livro deixa a sensação de um percurso que poderia ter sido mais explorado. Ao mesmo tempo, cria uma distância relativamente às personagens, até porque a história é centrada mais nos acontecimentos que nas personagens, deixando a percepção de que mais poderia ser dito a esse respeito. Há vislumbres de emotividade nas personagens, mas são elementos que surgem de forma secundária, o que, aliado a algumas pequenas incongruências, dificulta a ligação às personagens.
Há ainda bastante para explorar neste mundo, até porque muitos dos grandes acontecimentos deste livro servem como porta para novas possibilidades. Quer sobre os percursos de Evangeline e Verlaine, quer sobre os planos de anjos e angelologistas, os elementos explorados neste livro despertam, principalmente, novas questões para o que se seguirá. Também por isso acabam por ser parte do que cativa neste livro, já que criam uma agradável aura de mistério e a noção de um objectivo para certos elementos aparentemente contraditórios, ao mesmo tempo que prometem algumas surpresas para o que falta contar da história.
Da soma de tudo isto, fica a impressão de um livro menos surpreendente que o primeiro volume, mas cativante e interessante quanto baste e com muitos novos elementos a despertar curiosidade para o que se seguirá. Uma leitura agradável, portanto, e intrigante. Gostei.

Para mais informações sobre o livro Angelópolis, clique aqui.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Inferno e Paraíso (Peter S. Hawkins)

Ao longo do tempo, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, tornou-se uma referência incontornável. Até mesmo quem não faz a mínima ideia do que seja tal livro pode dar por si a evocar certas referências à obra, ainda que não lhe conheça a origem. Mas traçar um retrato para a obra e para o autor é mais do que uma ideia geral da descida aos Infernos do poeta. Neste livro, Peter S. Hawkins consegue apresentar um retrato sucinto e esclarecedor de autor e obra, completo quanto baste, mas sem se tornar exaustivo ou maçador.
Este não é propriamente um livro destinado a académicos e estudiosos, mas antes ao leitor comum que tenha vontade de descobrir Dante e a sua grande obra. É assim que o autor define o seu objectivo e, em consequência, é inevitável que, para muitas das questões, houvesse necessariamente mais para aprofundar. Ainda assim, o autor consegue traçar um retrato muito claro, e esse é o primeiro dos muitos pontos fortes deste livro. Não fica a impressão de informação em falta, mas também não há dispersão em pormenores desnecessários. Assim, a leitura consegue ser interessante tanto para quem pouco conhece de Dante como para quem já tem algumas noções. Tanto para quem já leu a Divina Comédia como para quem nunca se aproximou.
Outro aspecto bem conseguido deste livro reside no facto de o autor não se limitar a uma exposição da vida do poeta e dos factos e interpretações essenciais da obra. O que acontece é que o autor traça a sua própria análise, cruzando os factos, os elementos do poema e as suas próprias interpretações, numa abordagem sintética, mas completa, escrita num registo agradável e num sistema organizado. Desta organização importa ainda realçar um último capítulo particularmente interessante na abordagem que apresenta à presença de Dante na arte e na literatura dos séculos após a sua morte, considerando diferentes expressões artísticas e realçando a universalidade da obra do poeta.
Ainda um último ponto a referir, e algo que contribui também para que a leitura seja sempre interessante, é o tom de proximidade e de admiração que ocasionalmente transparece das palavras do autor. Centrado nos factos ou na análise - ou na conjugação de ambos - o autor consegue ainda demonstrar o seu fascínio e a sua admiração por Dante e pela sua obra e isso transparece na forma como se expressa. É fácil reconhecer-lhe o entusiasmo e isso contagia quem lê, deixando até uma certa vontade de ler (ou reler) a Divina Comédia.
Inferno e Paraíso, é, assim, uma obra que, não sendo exaustiva nos detalhes e nas referências que desenvolve, consegue construir uma abordagem completa e precisa quer à vida de Dante, quer à sua obra maior, tudo isto num registo que cativa e desperta curiosidade. Dificilmente poderia, por isso, ser mais positiva a impressão que fica deste livro. Recomendo.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O Senhor Gordo de Mau Humor (François-Xavier Nève e Isabelle Charly)

 Breve, simples e directa, esta é a história - tal como o título indica - de um senhor gordo com um problema de mau humor. Mas um problema tão grande que ninguém se pode sequer aproximar. Isto é, até ao dia em que acontece um incidente muito peculiar. É uma história muito curta, em que as imagens são tão importantes como as palavras, e em que um início demasiado simples acaba por dar lugar a um final bastante bonito.
O texto é, neste livro, resumido ao essencial. E tanto o é que, a princípio, fica a impressão de alguma coisa em falta, principalmente porque o tal senhor gordo de mau humor não é propriamente uma figura simpática. Ainda assim, o ritmo agradável e as imagens que completam as palavras tornam a história cativante. Além disso, a partir de um certo ponto, tudo muda e, ainda que de forma simplificada, a forma como o lado bom das personagens acaba por se sobrepor aos seus traços desagradáveis transmite o essencial de uma mensagem positiva.
Quanto às imagens, reflectem o essencial da história e tornam-na mais viva, contribuindo para tornar a história mais interessante, o que faz delas uma parte essencial deste livro simples, mas bonito. Muita cor e alguns traços peculiares na imagem são também parte do que torna apelativo este pequeno livro.
Simples, mas cativante. É essa, afinal, a impressão que fica deste pequeno livro para pequenos leitores. Um livro interessante, com uma boa história, ainda que, talvez, um pouco breve demais. E uma leitura agradável, em suma.