sexta-feira, 30 de novembro de 2018

São Lágrimas, Senhor, São Lágrimas (Fernando Correia)

Basta ligar a televisão ou abrir um jornal para nos cruzarmos com estas histórias recorrentes: casos de violência doméstica que acabam em morte, mesmo quando previamente sinalizados, situações em que o medo continuado fez com que tudo se descobrisse demasiado tarde e também as batalhas jurídicas que se seguem à denúncia. Mas quebrar o silêncio é o primeiro passo e é essa a mensagem que, através das histórias reais reunidas neste livro, o autor pretende transmitir. O resultado é um livro perturbador - mas muito, muito relevante.
Sendo um livro relativamente breve, e que contém várias histórias, um dos aspectos mais marcantes prende-se com a capacidade de, em poucas páginas, conter uma vida inteira sem nunca parecer que há algo por dizer ou outro lado da história. Os factos são os factos - puros e duros - e é a estes, bem como ao impacto emocional que têm, que o autor se cinge, o que faz com que a mensagem sobressaia com mais intensidade. 
Há, aliás, um contraste curioso na forma como este livro está estruturado. A introdução que o autor faz a cada história, com o seu registo como que pensativo, quase poético, contrasta fortemente com a brutalidade dos casos. E, se isto cria uma espécie de efeito de choque - como se de dois mundos diferentes se tratasse - também realça o verdadeiro âmago da questão. A violência existe e, às vezes, vem de onde - e como - menos se espera. Conhecer os casos, conhecer as histórias, é por isso fundamental.
Às histórias, une-as o demónio da violência doméstica. O resto é diferente: diferentes meios, diferentes classes sociais, gente de poucos estudos e com cursos superiores, fortes e vulneráveis, mas todos susceptíveis. O que reforça também outra faceta da mensagem: a violência existe e não apenas nos meios instruídos. Às vezes, está onde menos se imagina e não é mais nem menos importante por afectar alguém com uma posição mais (ou menos) privilegiada.
Trata-se, em suma, de um livro relevante e de uma importante chamada de atenção, e basta isso para justificar a leitura. Mas é também um livro marcante, não só pela mensagem que transmite, mas, acima de tudo, pela forma precisa e clara como retrata os diferentes casos - e as angústias a eles associadas. Vale a pena, pois, ler este livro. E pensar... principalmente pensar.

Autor: Fernando Correia
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Então, Boa Noite (Mário Zambujal)

Afonso Júlio é um homem peculiar. Devido a uma alegada plasticidade dos neurónios, passa as noites acordado e, de dia, dorme profundamente. Ora, isso traz inconvenientes, não só profissionais, mas ao nível dos relacionamentos amorosos. E, como se não bastasse esta circunstância invulgar, Afonso Júlio vê-se agora a braços com uns quantos assuntos a resolver. O padrinho deixou-lhe uma carta que, com três anos de atraso, acaba de lhe chegar às mãos e que o incumbe de cobrar uma dívida e de casar com uma desconhecida sobrinha. E a mulher dos seus sonhos desapareceu, cabendo-lhe agora a tarefa de a encontrar. Tudo nos seus horários bizarros em que a noite começa ao amanhecer.
Com o seu protagonista invulgar e uma história cheia de peripécias, tanto no que respeita à difícil "missão" de Afonso Júlio como às histórias do seu passado, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo delicioso sentido de humor. É difícil resistir às aventuras de Afonso, com a sua atribulada vida nocturna (ou diurna?) e os seus complicados amores. Além disso, há algo de fascinante em acompanhar o percurso de um herói com traços que são tudo menos heróicos. Seja no ocasional episódio de conflito, seja nos grandes gestos de sedução, Afonso Júlio está longe de ser o herói másculo e cheio de coragem. E talvez seja por ser tudo menos isso que é tão fácil torcer para que o caminho lhe corra bem.
Também particularmente cativante é a leveza da escrita, com o seu ajuste perfeito às peculiaridades da história. Afonso Júlio pode ter uma série de sarilhos para resolver, mas são sarilhos que, associados à sua muito invulgar personalidade, proporcionam momentos divertidíssimos. E, assim, a leveza da forma como o enredo é narrado ajusta-se perfeitamente ao estranho e delicioso humor das circunstâncias e a brevidade e simplicidade das soluções só as torna mais surpreendentes. 
E, claro, há sempre a relação entre o protagonista e as mulheres, algo que parece ser característico dos "bons malandros" do autor. É como que um elo comum entre diferentes histórias que, embora únicas e distintas, parecem reforçar o laço sempre presente de uma malandrice bastante inofensiva.
Somadas as partes, fica naturalmente a melhor das impressões: a de uma história leve, divertida e cheia de surpresas. Invulgar, como o seu noctívago protagonista, e muito, muito cativante, um livro para devorar de uma assentada. E que recomendo, naturalmente. 

Autor: Mário Zambujal
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Emporium

Prepare-se para uma história envolvente, uma mistura de romance de época e de aventuras em ambiente palaciano onde personagens fortes e tramas surpreendentes prendem o leitor a cada momento. Leónia Lencastre, inteligente e corajosa neta bastarda do rei, e Alexandre Toledo destemido Cavaleiro da Ordem e defensor do Reino, são protagonistas de um intrincado enredo onde ódios, lutas e traições polarizam toda a acção. Conseguirá o amor vencer as duras batalhas que têm que enfrentar?

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Os Dados Estão Lançados (Jean-Paul Sartre)

Pierre, chefe de um grupo de conspiradores contra o regime prestes a entrar em acção, vê a sua obra interrompida por uma inesperada traição. No mesmo dia, Ève, uma senhora da sociedade, é envenenada pelo marido ambicioso. E, do outro lado da morte, descobrem não só estas revelações difíceis, mas também uma inesperada esperança. Foram, na verdade, feitos um para o outro e estipulam as regras que, não se tendo encontrado em vida, deverão ter uma nova oportunidade - vinte e quatro horas - para se amarem, se quiserem retomar a sua vida humana. Só que os dados estão lançados e o que parecia uma paixão fácil na morte revela-se bastante mais complexa em vida. Principalmente porque ambos têm assuntos inacabados a resolver.
Quando ouvimos falar em Jean-Paul Sartre, nome maior do existencialismo, imaginamos a contemplação das grandes questões da vida e da morte, do sentido ou da falta dele. E talvez por isso imaginemos também uma obra mais densa, mais elaborada. Era esse, pelo menos, o meu caso. Surpreende, por isso, logo às primeiras páginas a envolvência e a fluidez deste pequeno livro onde todos os acontecimentos se cingem ao essencial e os sentidos - simbólicos, emocionais, pessoais ou universais - surgem da acção, mais do que propriamente da introspecção. Surpreendentemente viciante seria, pois, uma boa forma de começar a descrever esta história.
Surpreende também o contraste vincado entre a leveza e a intensidade de um enredo onde há sempre algo de notável a acontecer com a presença evidente dos grandes temas que estão, de facto, lá. Basta a premissa, aliás: a morte, do outro lado da vida, enquanto lugar de observação impotente, de conformismo e indiferença, de vago divertimento com as tribulações dos vivos. O amor, intenso quando tudo o que existe é o par, mas muito mais complicado quando outros valores se levantam. A luta por uma causa, o espírito de sacrifício - e, por outro lado, o egoísmo, a ambição, a traição. Tudo numa história relativamente breve, e tudo mais em actos do que em reflexões. E, por isso mesmo, tudo tão marcante.
E, claro, isto leva ao lado emocional, também ele surpreendentemente forte. Bastam as circunstâncias de Eve para despertar empatia e as de Pierre para gerar uma certa admiração. E, à medida que a história evolui, primeiro para a descoberta da morte, depois para as possibilidades do amor e da correcção dos males, também as emoções se tornam mais intensas. É absurdamente fácil sentir com os protagonistas: a confusão, o afecto, a ternura, a ira... a resignação. Pois basta o título para nos dizer que haverá nesta história inevitáveis - mas nem essa certeza faz com que deixemos de torcer para que as coisas possam ser diferentes.
Nem sempre é precisa uma grande complexidade para dar forma a um grande livro  - até porque a complexidade emerge, às vezes, das coisas mais simples. É esse o caso deste Os Dados Estão Lançados: história intensa, envolvente, viciante e cheia de grandes questões nas pequenas coisas. Um livro notável, em suma. 

Autor: Jean-Paul Sartre
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Todo ou o Seu Nada (Amadeu Lopes Sabino)

Náufrago, professor, jornalista, escritor. Autor de obras marcantes e criador de outras que pouco passaram do título. Célebre no seu tempo pela autoria de Fogo no Mar, João Falcato levaria uma vida de mudanças constantes, de maior ou menor mediania e deixaria sobretudo as suas marcas naqueles que o conheceram mais de perto. Como o narrador desta exacta história.
Espécie de romance biográfico, que mistura factos, ideias e ficções, este é um livro que desperta sentimentos ambíguos. Enquanto romance, gera uma inevitável sensação de distância, não só pelas longas exposições de ideias e contextos políticos, mas pela às vezes parca empatia que desperta para com o seu protagonista. Enquanto biografia, é precisamente o pormenor do contexto que torna a leitura interessante. 
Talvez a maior qualidade do livro esteja na escrita e na forma como, quando menos se espera, faz surgir de uma longa divagação uma frase memorável ou um momento de especial impacto que conferem a tudo uma nova perspectiva. Nem sempre é fácil admirar a personagem, com as suas relações conflituosas (principalmente no que ao casamento diz respeito) e a estranha mistura de ambição e desinteresse que parece moldar todos os seus planos. Além disso, as longas deambulações pelas questões políticas e sociais - embora relevantes, principalmente no que toca à forma como reflectem a mentalidade da época - reforçam a sensação de distância face a uma figura que, já de si, não desperta grandes proximidades. Ainda assim, há momentos notáveis, sendo o final o mais interessante de todos eles.
Olhando, por outro lado, para o aspecto biográfico, há ainda uma outra característica que se destaca: é que não é só a vida de João Falcato que é contada nas páginas deste romance. É todo o contexto do tempo e de outras figuras sonantes da sua época. Há, pois, muito de interessante a descobrir - no contexto político, nas formas de pensamento, no contraste entre aspirações de mudança e pensamentos ainda colados ao passado - e uma visão bastante clara da época abrangida por este livro. 
Talvez não seja o mais envolvente dos romances, até porque a sua figura central não é - nem parece que pretendesse sê-lo - um herói. É, ainda assim, uma leitura interessante, não só pelo vasto conhecimento contido, mas também pelos momentos notáveis que fazem com que tudo valha a pena. Interessante e com as suas surpresas, leva o seu tempo... mas vale a pena ler. 

Autor: Amadeu Lopes Sabino
Origem: Recebido para crítica

domingo, 25 de novembro de 2018

Teresa de Calcutá (Maria Isabel Sánchez Vegara e Natascha Rosenberg)

Desde pequena que Agnes sonhava ajudar os outros e, inspirada pelo exemplo de um padre missionário, viria a deixar a sua terra natal e a construir uma imensa missão de auxílio aos mais necessitados. Ficaria conhecida como Madre Teresa de Calcutá e viria a ser canonizada. Esta é a sua história contada aos mais novos.
Parecem ser características desta colecção a escrita simples com rima, as ilustrações bonitas e cheias de cor e a simplicidade que enfatiza o essencial. São também estas as características que mais se destacam neste livro em específico, onde, contada em poucas páginas, é possível ficar com uma ideia clara da história de Teresa de Calcutá e, ao mesmo tempo, com uma mensagem muito positiva de amor e ajuda.
É, naturalmente, um livro pensado para os mais pequenos, bastante breve e relativamente simples. Mas é também um daqueles livros que conseguem evocar nos leitores mais velhos a agradável sensação de um regresso à infância. Lembram-se? De quanto bastavam umas poucas páginas para nos fazer sonhar e viajar e aprender também? Pois este é um livro pequeno, mas desperta essa mesma sensação, não só pelo percurso da sua protagonista, mas pela forma colorida e cativante como este é contado.
Cinge-se ao essencial, claro, como é natural num livro infantil. Mas tem também este condão: o de despertar a curiosidade sobre a vida da sua protagonista. Lendo este pequeno livro, aprende-se a linha essencial da história. Mais tarde, haverá espaço e livros - há sempre livros - para descobrir o pormenor.
A colecção chama-se Meninas Pequenas, Grandes Sonhos. E é também disso que trata este livro: da história de uma menina que concebeu - e realizou - um grande sonho, deixando assim a sua marca no mundo. Uma história bonita, cativante e muito interessante.  

Autores: Maria Isabel Sánchez Vegara e Natascha Rosenberg
Origem: Recebido para crítica

sábado, 24 de novembro de 2018

Os Templários (Dan Jones)

Nasceram como uma ordem de pobres cavaleiros destinada a proteger os peregrinos durante as suas viagens à Terra Santa, mas protagonizariam uma ascensão imensa e uma queda ainda mais estrondosa. Grandes guerreiros, homens influentes, dotados de disciplina e organização incomparáveis, inspirariam admiração e ódio. E, cada vez mais embrenhados nas malhas do poder, cairiam às mãos de uma outra ambição. Esta é a história dos Templários - peregrinos, combatentes, banqueiros e hereges - das origens ao seu amargo fim.
Bastante extenso e muito completo, uma das primeiras coisas que importa destacar acerca deste livro é a organização. Abrangendo grandes conflitos e tendo como protagonista uma organização espalhada por vastos territórios, é apenas natural que percorra diferentes períodos e diferentes locais - referindo, por vezes, acontecimentos simultâneos em diferentes territórios. A organização cronológica permite, por isso, uma visão mais clara do todo, acompanhando os diferentes ramos e facetas da Ordem e também o crescimento - e desmoronamento - das suas amplas relações.
Uma vez que abrange um vasto período de tempo, uma ordem numerosa e as vastas movimentações das cruzadas, é apenas de esperar uma abundância de nomes e datas. Também aqui sobressai a estrutura do livro, que, com a sua organização clara e escrita acessível, permite assimilar facilmente todos os pormenores e proporciona uma leitura envolvente e agradável, quase como se de um romance se tratasse. Além disso, a história em si tem muito de cativante, desde os relatos das grandes batalhas ao inevitavelmente sombrio processo que conduziria à extinção da Ordem. 
Trata-se de um retrato estritamente histórico, o que significa que tenta não tomar partidos (embora, na fase final, seja difícil não se ficar com uma opinião... pouco abonatória... acerca de Filipe, o Belo) e que se cinge essencialmente aos factos. Assim, o que acontece é que os aspectos míticos frequentemente associados aos Templários - a guarda do Santo Graal, a adoração de Baphomet, entre outros - são remetidos apenas para um epílogo que analisa o legado templário no imaginário das pessoas. O resto é história pura e dura - e mais do que suficiente para fascinar.
Completo, cativante e esclarecedor, eis, pois, uma belíssima forma de conhecer a fundo a complexa e fascinante história dos Templários, com todas as movimentações militares, políticas e também religiosas (ou não fosse o apogeu da Ordem no tempo das grandes cruzadas). Muito interessante, em suma. E muito bom.

Título: Os Templários
Autor: Dan Jones
Origem: Recebido para crítica

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