sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Balanço de 2022

2022. O ano da correria da boa. Cheio de desafios, de atividade e de coisas em geral com que me ocupar. O que significa que a leitura foi mais reduzida que o habitual: 115 livros ao todo.
Ainda assim, não faltaram leituras marcantes, como não podia deixar de ser. E não podia deixar de se cumprir a tradição de partilhar os favoritos do ano. Assim, sem mais demoras, eis a lista:




Conhecem-nos? Leram? Gostaram? Contem-me tudo!

E, entretanto, sem propósitos específicos, mas com a vontade de sempre, fica a certeza: mais correria, menos correria, continuaremos a ver-nos por cá. Até para o ano!

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Saga - Volume Dez (Brian K. Vaughan e Fiona Staples)

Passaram anos desde que um acontecimento drástico mudou a vida de Hazel e da mãe, e foram muitas as decisões difíceis que tiveram de tomar para sobreviver. Agora, o caminho tornou-se ainda mais ambíguo, a luta pela sobrevivência exige precaução e desconfiança e os contactos feitos pelo caminho escondem também os seus próprios segredos. E Hazel vai crescendo, a vida vai continuando.. e a cada nova esperança sucede uma nova perda.
Após a conclusão devastadora do último volume, a que se seguiu um longo hiato, é impossível não começar por referir o poderosíssimo impacto emocional deste regresso. Esperanças que ficaram veem-se reduzidas a pó, o impacto das perdas é quase palpável e, mais uma vez, o caminho vai evoluindo entre oscilações de esperança e devastação - com particular destaque para o final, naturalmente, mas com uma presença vincada ao longo de todo o percurso.
O facto de também na história terem passado anos, tem também outro desenvolvimento interessante: traz consigo novas personagens, o crescimento de algumas já conhecidas e um trajeto mais concentrado do que noutros volumes. Há, pois, mais entradas em cena do que reencontros, com a história mais centrada em Hazel, mas sem perder de vista o contexto global. E há ainda uma presença secreta, maioritariamente invisível, mas subjacente a grande parte dos acontecimentos: Marko.
Mantêm-se, de resto, todas as qualidades dos livros anteriores: a expressividade dos rostos, a exuberância e a diversidade das personagens, a abundância de cor e de cenários singulares e um delicioso equilíbrio entre drama e ação, emoção transbordante e humor certeiro, inocência e desolação. Tudo convergindo para uma aventura viciante cujo potencial parece ainda bem longe de se esgotar.
Regresso demorado, mas fortíssimo, com a mesma vida abundante, a mesma intensidade irresistível e a mesma emoção devastadora, este décimo volume é Saga em toda a sua glória,  correspondendo integralmente às expetativas e prometendo ainda mais para o que virá.  Belíssimo, poderoso, memorável, é prodigioso, em suma. Como sempre.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Feliz Natal


Não faltem neste dia a luz e a magia,
O amor, a esperança e o conforto das memórias,
Com as palavras que sempre são o nosso refúgio 
E a promessa de novas histórias ao virar da próxima página. 

Feliz Natal. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Bug - Livro 3 (Enki Bilal)

Cada vez mais assolado por mistérios, conflitos e ideologias em colisão, o mundo vai-se tornando cada vez mais caótico. E, no meio de tudo, mantém-se o elusivo Kameron Obb, cujo parasita interior lhe confere poderes singulares, pesadelos e febres e a cobiça de todos os grupos em conflito. É preciso encontrar respostas... e a liberdade possível. Mas cada passo de Obb traz novos problemas. E novas perguntas a precisar de resposta.
Parte do que mais fascina neste terceiro livro é também o que mais desconcerta: a forma como cada novo passo traz novas complexidades - ideológicas, políticas e principalmente biológicas. E importa desde já dizer que não é ainda aqui que se encontram todas as respostas. Muito pelo contrário: o mistério adensa-se, a teia torna-se mais intrincada e são infinitas as possibilidades que ficam em aberto para o que se seguirá.
Dito isto, continua a ser fascinante visitar este mundo em degradação, conhecer as suas forças discordantes e acompanhar o percurso de um protagonista tão poderoso quanto vulnerável, com quem todos querem fazer grandes coisas... mas a partir de uma posição de subjugação. Além disso, das inúmeras forças em conflito emergem múltiplas facetas da atualidade, sendo certo que algumas deixam sentimentos contraditórios na abordagem, mas nunca deixam de ter os seus pontos de interesse.
Finalmente, a nível visual, sobressaem dois pontos: a precisão do caos, que ganha especial vida nos cenários, mas também nas visões mais interiores do protagonista; e os jogos de sombras, que salientam não só a aura de mistério, mas também a promessa de decadência que parece envolver este futuro.
Enigmático, complexo e cheio de intensidade e mistério, trata-se, em suma, de um livro tão desconcertante quanto cativante. E deixa tudo em aberto, é certo, mas não deixa de ser mais uma bela etapa nesta fascinante aventura. Que vale bem a pena continuar a seguir. 

sábado, 10 de dezembro de 2022

Mar da Tranquilidade (Emily St. John Mandel)

Um jovem exilado da alta sociedade no início do século XX, que parte para se encontrar ou apenas existir. Um músico que fez sucesso graças, em parte, aos vídeos da irmã morta. Uma autora que escreveu sobre uma pandemia mortal pouco antes de ser também ceifada por uma pandemia. E um investigador que percorre o tempo em busca de explicações para uma anomalia que pode alterar perspetivas sobre a natureza da vida. Todos estes fios se entrelaçam e convergem para lembrar a mutável natureza da vida e as infinitas formas da desolação.
Embora seja, no essencial, uma história independente, uma das coisas que importa salientar sobre este livro é que terá certamente um impacto muito maior tendo lido anteriormente Estação Onze e O Hotel de Vidro, não só pelas personagens em comum, mas sobretudo pela viva sensação de que tudo pertence a uma mesma teia de histórias e de mundos.
Este impacto sai ainda mais realçado pelo facto de ser um livro relativamente breve, em que há tanto de marcante no que é dito como no apenas sugerido ou vislumbrado. É, aliás, interessante a forma como, com um aprofundar bastante menor dos elos pessoais, a autora consegue criar com igual mestria a sensação de melancolia e desolação que tão tangível é nos livros anteriores.
Há ainda outro contraste poderoso. Sendo embora um livro com muito a acontecer, e com uma voz relativamente concisa, o tom tem o seu lado introspetivo, um pouco como se cada pequena coisa apelasse a uma contemplação de algo maior: a vida, o tempo, a natureza humana, o futuro. E há ecos que se repercutem não tanto por acontecimentos específicos, mas mais por uma frase, uma imagem, uma impressão.
Mas há mistério. E respostas. E, a haver algo de expectável neste livro, é que o final jamais poderia ser limpo e linear. Não é, de facto. Deixa perguntas sem resposta. Mas, atendendo ao percurso, é mais do que natural que assim seja: é perfeitamente adequado.
Relativamente conciso, na escrita e nos desenvolvimentos, mas com um poderoso equilíbrio entre as suas múltiplas facetas e a visão que delas emerge, trata-se, em suma, de um livro marcante e memorável,  tanto no que diz como no que inspira. E é dessa matéria que são feitas as grandes leituras.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Madame Bovary (Daniel Bardet e Michel Janvier)

Criada num convento e depois transportada para um casamento em que o que julgava ser romance se tornou tédio, Emma Bovary aspira a algo mais além do quotidiano aborrecido. Mas o marido não tem ambições e, movida por um sonho vago, Emma deixa-se levar por paixões proibidas. Procura amor noutros braços, procura conquistá-los para sempre... sem saber que caminha a passos largos para a ruína.
Sendo uma adaptação de um romance muito mais extenso, é inevitável comparar a relativa concisão desta adaptação com o texto mais vasto que lhe serve de base. E é interessante notar que, embora muito mais sucinta e cingida ao essencial, esta história não perde nenhuma da intensidade, apesar de tudo evoluir de forma muito mais rápida.
Outro contraste interessante é, claro, o da parte visual, já que esta versão dá rostos às personagens e cenários às suas experiências. E dá sobretudo expressividade, principalmente no caso de Emma, em que as emoções que tanto causam e tanto movem surgem claramente refletidas nas suas feições.
Claro que, para quem tiver lido o original, a história já é conhecida, o que talvez atenue ligeiramente o impacto desta progressiva caminhada para a ruína. Ainda assim, reencontrar a história, nesta nova versão condensada e nova, salienta não só o percurso da protagonista, mas também a visão da moral e dos costumes que é também parte do seu âmago. E não falta material para reflexão ao longo de todo esse percurso - sobre os costumes da época e também sobre a natureza da sociedade em geral.
Tudo somado, fica, pois, a impressão de um reencontro novo com uma história já conhecida: conciso, mas intenso, cativante e expressivo. Vale a pena conhecer esta adaptação. 

terça-feira, 25 de outubro de 2022

O Acontecimento (Annie Ernaux)

Um acontecimento capaz de traçar o limite da despreocupação e despertar em pleno a vida adulta, uma mudança que inicia buscas e transformações. Uma gravidez indesejada de uma estudante decidida a abortar em tempos de clandestinidade e que recorda, ao fim de muito tempo, os passos orientadores deste acontecimento. Vida narrada em voz de romance, mas num registo intimamente pessoal.
Apesar da evidente brevidade deste livro, não se trata propriamente de uma leitura fácil de descrever. Sempre a deambular pela fronteira da realidade, mas com a visão por vezes ambígua da memória, não é  tanto uma história como a introspeção, embora girando em torno de um acontecimento. E é também uma história que podia ser de muitas, o que deixa também uma marca singular.
Também devido à brevidade, mas no próprio registo, há uma impressão de concisão nos factos que contrasta com a vastidão da matéria para reflexão. O próprio tema suscita questões e a forma pessoal, mas refletindo uma situação comum a muitas outras, evoca questões sociais e até sobre a natureza humana.
E, mais uma vez, tudo de forma muito sucinta, o que faz sobressair um outro ponto. A narrativa converge para um acontecimento e o ritmo das palavras reflete essa convergência, oscilando entre deambulares pelas palavras, explicações muito rápidas e momentos de pura intensidade  dramática.
Tudo somado, o que fica é a sensação de um livro pequeno, mas vasto, pessoal, mas aberto às questões e complexidades sociais, e com uma voz certeira e direta, mas que evoca na perfeição os meandros da memória. Conciso, mas com uma eficácia memorável, um livro que marca de diferentes formas.