quinta-feira, 30 de abril de 2020

Y - O Último Homem: Os Porquês e os Portantos (Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.)

Yorick tem finalmente as respostas sobre o motivo da praga que exterminou (quase) todos os homens do planeta. Agora, falta-lhe reencontrar a namorada que, durante todo esse tempo de busca, nunca lhe saiu do pensamento. Mas essa última fase do caminho não está isenta de perigos. Há quem continue à sua procura, alguns devido aos laços que os unem, mas outros com motivações mais duvidosas. E os anos passaram, de facto, o que significa que nem Yorick nem Beth são os mesmos que quando tudo começou. E o que devia ser um final feliz transforma-se em algo de muito diferente...
É o volume final de uma série toda ela cheia de surpresas, por isso seria, à partida, expectável que continuasse a surpreender. Mas provavelmente não desta forma. É que, ao longo de todo o caminho, com todos os altos e baixos da busca de Yorick por respostas, houve algo que se manteve mesmo nos momentos mais difíceis: o estranho e delicioso sentido de humor do protagonista, capaz de conferir leveza até aos momentos mais sombrios. E, juntando a isto o verdadeiro crescimento interior demonstrado por Yorick, era inevitável chegar a este ponto a torcer por um final limpo e tranquilo para alguém que passou por tanta coisa. Bem... não vou, obviamente, dizer como termina. Direi, sim, que é muito mais complexo e emocionalmente marcante do que o esperado. E também estranhamente adequado.
É também algo de particularmente notável a forma como, neste último volume, o cerne da história se desloca da busca por uma resposta global para a construção de um destino pessoal. Yorick, Beth, a agente 355, Hero... todas as personagens encontram neste último volume o seu derradeiro caminho, o que é particularmente interessante tendo em conta que a conclusão se projecta para sessenta anos no futuro. Mas também neste aspecto é Yorick que se destaca, com o reencontro, as derradeiras revelações e os confrontos finais a darem lugar a uma conclusão mais profunda e pessoal, em que os laços do caminho deixam a sua última marca, abrindo portas a um último vislumbre do artista de fugas que tantas aventuras protagonizou.
E importa ainda olhar uma última vez para o factor visual e, sobretudo, para a expressividade dos rostos. Há pequenas coisas que se tornam mais evidentes do que nunca: as semelhanças entre Yorick e Hero, a forma como as emoções se espelham nos rostos e até as ligeiras diferenças entre o Yorick original e o seu... legado, por assim dizer... fazem com que até o mais pequeno dos momentos pareça transbordar de vida. Além disso, há entre as personagens coisas que ficam por dizer, mas que se vêem na forma como as suas expressões são desenhadas.
Intenso, pessoal e cheio de surpresas, é, sem dúvida, um final à altura das altas expectativas criadas pelos volumes anteriores desta longa série. E é também o destino adequado - ainda que não o expectável - para um núcleo de personagens que, nesta longa jornada, se foi gradualmente tornando inesquecível. Yorick Brown termina aqui a sua história... mas continua na memória de quem a ler.

Autores: Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr. 
Origem: Aquisição pessoal

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Max Einstein - O Gangue dos Rebeldes (James Patterson e Chris Grabenstein)

A Max é um jovem génio. Não importa que não conheça o seu passado, nem as dificuldades por que já passou. A sua mente é brilhante e foi precisamente isso que a transportou para um mundo novo. Agora, escolhida por um benfeitor milionário para liderar os projectos de uma organização dedicada a fazer o bem pelo mundo, Max tem finalmente a oportunidade de pôr em funcionamento os complexos mecanismos do seu pensamento. Mas isso não significa que esteja segura. Os seus inimigos continuam a persegui-la, na esperança de a persuadirem a trabalhar para a sua sinistra organização. Felizmente, está rodeada de bons amigos - e tão geniais como ela.
Uma das primeiras coisas a sobressair das aventuras da Max Einstein - e deste volume em particular - é a visão positiva e optimista do mundo que move os protagonistas. São uma organização dedicada a resolver os problemas do mundo, trazendo esperança às pessoas e contribuindo para um mundo melhor. Poderá parecer até algo inocente, num mundo onde - à semelhança dos adversários da Max - a ganância parece ter o domínio. Mas é precisamente esta luta contra as possibilidades - e a brilhante capacidade das personagens de enfrentar cada problema com ideias surpreendentes e inovadoras - que torna estas aventuras tão empolgantes.
Escusado será dizer que, sendo uma aventura com vista a melhorar o mundo, é uma história repleta de temas importantes. Neste caso, trata-se da importância da água potável o elo de ligação entre as missões do grupo da Max. E é interessante notar que, além de ponto de partida para algumas situações intensas e muitas ideias geniais, serve também de base para a reflexão sobre questões como os efeitos da poluição e a influência de certas corporações que fazem negócio a partir de algo que devia ser de todos. É, acima de tudo, um livro de aventuras, mas com uma base bastante mais profunda do que à partida se esperava. E é também uma forma leve - e eficaz - de abordar temas bem sérios.
Importa, ainda assim, não esquecer o lado mais leve, porque é, afinal, de uma história que se trata. E, além das aventuras, dos mistérios (sobretudo no que respeita ao passado da Max) e das ideias brilhantes que, aos poucos, vão mudando o mundo, há ainda um outro aspecto que se destaca: o humor. Todo o livro tem um tom bastante leve, auxiliado pela escrita directa e pelos capítulos relativamente curtos que tão característicos são de James Patterson. Mas há rasgos de humor que são efectivamente geniais, não só pela precisão com que surgem, mas sobretudo pela forma como realçam os laços de amizade e de (relativa) harmonia entre os vários elementos do grupo da Max.
Leve, empolgante e muito divertido: assim se poderá descrever esta nova aventura da Max Einstein e do seu grupo de génios. Uma aventura de esperança e de optimismo que prova com exactidão que é possível falar de coisas sérias sem perder de vista a leveza e a simplicidade. 

Autores: James Patterson e Chris Grabenstein
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 28 de abril de 2020

Dias que Voam Outono (Fernando André Gonçalves)

Jérôme Bourbon tinha uma vida serena, com o seu cargo de professor universitário e a sua relação feliz, mas tudo mudou com a morte de Isabelle, que o mergulhou numa profunda escuridão. Será uma inesperada descoberta a arrancá-lo do abismo - um quadro à venda numa feira de velharias, pintado por alguém que partilha o seu nome. Por impulso, ou talvez pela força do destino, Jérôme dá por si a seguir os passos do seu homónimo, a comprar a casa do pintor e a partir, sem outra bagagem além do quadro, rumo a uma nova cidade. Aí, encontrará novos mistérios, a fascinante história da vida do seu homónimo - com quem tem, afinal, tanto em comum - e a possibilidade de um amor que, para existir, lhe exigirá que tudo aquilo que foi fique no passado.
Uma das primeiras coisas que importa realçar sobre este livro é que não é propriamente fácil de descrever. Contém no seu interior demasiadas vertentes para o enquadrar numa exposição simples. Alonga-se na introspecção, não só do protagonista, mas também do pintor cujo rasto ele segue, o que lhe confere um registo ao mesmo tempo pausado e intimista. Acrescenta-lhe uma história de amor perdido e de outro que aspira a desabrochar, o que proporciona momentos de estranha emotividade. E junta-lhe ainda mistérios e enigmas em abundância, que vão da identidade do pintor aos quadros escondidos e à história pessoal de um sobrevivente do Holocausto cuja relação com o pintor é surpreendentemente próxima. São múltiplos fios diferentes a convergir para o mesmo centro, e o resultado é algo complexo, mas também equilibrado.
Também a escrita se encaixa nesta espécie de descrição, pois tem, ao mesmo tempo, um encadeamento cativante e a complexidade de uma visão que tanto se demora em acontecimentos concretos como em longas meditações e abstracções. É certo que isto torna a leitura um pouco mais densa, mas confere-lhe também profundidade, o que não deixa de ser particularmente interessante tendo em conta o rumo da história destas personagens.
E há ainda um último ponto que importa referir. Há, ao longo de toda a narrativa, uma discreta presença que não é bem espiritual, mas que traça laços profundos entre vidas. Esta presença vai-se adensando e torna-se particularmente relevante no final que, deixando embora muito em aberto, atinge um equilíbrio estranhamente eficaz. Jérôme e Jérôme dão-se finalmente a conhecer na sua unicidade - mas é aí que as suas vidas convergem. Não são, por isso, as perguntas sem resposta que ficam no pensamento, mas as possibilidades de um fim que é o mais adequado a todo o percurso.
Pausado, complexo e sobretudo profundo nas suas contemplações, é um livro que exigirá o seu tempo. Mas, na sua teia certeira de vidas e de pensamentos - marcados pelo único elo universal da passagem do tempo - vai-se gradualmente entranhando na memória e é lá que fica uma vez terminada a leitura. Vale a pena, sem dúvida, conhecer esta história. E, sobretudo, os mistérios que encerra.

Título: Dias que Voam Outono
Autor: Fernando André Gonçalves
Origem: Recebido para crítica

domingo, 26 de abril de 2020

Gideon Falls, Vol. 2: Pecados Originais (Jeff Lemire, Andrea Sorrentino e Dave Stewart)

Traumas e descobertas parecem, à primeira vista, ter ficado para trás, como um pesadelo que lentamente se esbate, enquanto, num outro local de identidade semelhante, há quem procure explicações e, quem sabe, até uma reconstrução. Tudo converge para o mistério do Celeiro Negro, o mesmo que, a cada aparição, deixa morte e caos à sua passagem e parece apelar de formas similares à consciência de um padre e de um jovem mentalmente instável. Tudo é loucura - mas nada é fruto da imaginação. E, se o Celeiro existe, o que é e quem o habita? E qual será o preço de o reencontrar?
Sendo certo que uma das grandes forças deste livro é a intensidade e a vastidão do mistério que contém, não é, ainda assim, este mistério o que mais se destaca ao embarcar nesta leitura. É uma das suas facetas, claro, e parte do que lhe confere intensidade, mas, mais do que a história e as possíveis perguntas e respostas, há algo de tão singularmente especial na arte desta série - e deste volume em particular - que é impossível não ficar de olhos presos às imagens, ao encadeamento que não podia estar mais longe dos quadros lineares e sucessivos, ao contraste de luz e escuridão nas cores, ao vermelho que parece reflectir na perfeição a perigosidade do Celeiro e, sobretudo, aos enquadramentos singulares em que os momentos fulcrais são apresentados. Espirais de ADN, imagens que se estilhaçam em minúsculas partículas, círculos convergentes para uma única resposta - tudo isto vem imediatamente à memória ao primeiro olhar. E, tendo em conta a peculiaridade da história propriamente dita, não há dúvidas de que esta construção singular reforça infinitamente o seu impacto.
Olhemos então para a história e para as personagens que a povoam. Tudo parece assentar numa sucessão de reflexos, em que as histórias dos dois protagonistas se vão aproximando cada vez mais a cada revelação. O que é o Celeiro e que tipo de influência exerce continua a ser um grande enigma, mas desenvolvimentos e revelações não faltam e tudo culmina, aliás, num final particularmente poderoso. Que deixa tudo em aberto, é certo, mas que abre portas a uma fase seguinte que não pode ser senão absolutamente nova.
E há o grande mistério, claro, e a forma como se equilibra com os fantasmas interiores das personagens. A influência do Celeiro é incognoscível, ainda que seja óbvio que não é propriamente benéfica. Mas, para além deste mistério central, e da forma como a sua teia se estende para as personagens principais, há ainda os percursos pessoais de cada um: a difícil relação de Norton com a sua pretensa loucura; o passado do padre, que o leva a mudar constantemente de lugar; e as improváveis alianças que se vão formando, movidas pela própria percepção do inexplicável e do que parece ser, afinal, uma loucura comum. Porque é verdade que tudo fica em aberto, mas há já uma certeza: nada disto corresponde propriamente à definição de normal.
O que fica é, pois, a imagem de um livro feito todo ele de sombras memoráveis. Visualmente poderosíssimo, intrigante no mistério e marcante no delicado equilíbrio de forças entre as vulnerabilidades pessoais e a imperiosa necessidade de respostas, é tão sombrio como singular e fascinante. E é precisamente isso que o torna tão bom.

Título: Gideon Falls, Vol. 2: Pecados Originais
Autores: Jeff Lemire, Andrea Sorrentino e Dave Stewart
Origem: Recebido para crítica

sábado, 25 de abril de 2020

O Prazer da Leitura (Marcel Proust)

A leitura pode ser muitas coisas: escapismo, abstracção, fonte de aprendizagem, base para reflexão, manancial de conhecimento, inspiração e companhia, entre muitas outras coisas. E é, naturalmente, um prazer. Mas ver o prazer da leitura, e sobretudo da leitura dos clássicos, pela pena de um autor que é, ele mesmo, clássico acrescenta complexidade e profundidade a esta ponderação. E o que é, afinal, um prazer muito simples torna-se denso e complexo, ressoando de formas inesperadas.
Algo que importa referir, à partida, sobre este livro é que parece ter sido pensado como prefácio a uma outra obra. Não surpreendem por isso as muitas referências que surgem ao longo do texto, tal como não surpreende a relativa brevidade. Surpreende, sim, que num livro tão curto sejam tão complexos e elaborados os pontos de vista, tão detalhadas as descrições e tantas as citações e autores referidos. E, sendo certo que a leitura adquire um registo bastante pausado, também o é que não faltam as frases memoráveis, bem como a visão global de que o prazer da leitura como um todo pode ser algo de muito mais vasto do que a simples experiência pessoal.
Há também um contraste entre as diferentes etapas abordadas no livro, com um ênfase especial dado às leituras da infância e à forma como, mais do que a memória dos livros, fica a memória do que se passava quando os estávamos a ler. É este o aspecto mais marcante deste texto. Afinal, já nos aconteceu a todos associar um determinado livro a um certo acontecimento que sucedeu quando o estávamos a ler, certo? E não apenas na infância. Mas há um outro aspecto a enfatizar desta parte: é que é a mais pessoal de todo o texto, bem como a mais fluida. E, por isso, também a que mais nitidamente fica na memória.
Quanto aos muitos autores e citações apresentadas, poderá tratar-se de um factor difícil de acompanhar caso não se conheça muito bem o seu percurso. É que, além dos nomes propriamente ditos, muitas das citações surgem em francês ou latim - o que exige alguma pesquisa para descobrir o seu significado. O resultado é como que um contraste vincado entre uma primeira parte de grande proximidade e uma que se afasta para fontes mais longínquas - tendo, ainda assim, como elo comum a leitura nas suas múltiplas vertentes.
Eis, pois, um livro que, sob a sua aparente brevidade, esconde uma surpreendente e complexa vastidão. E, por isso, um livro surpreendentemente exigente, mas particularmente interessante na sua abordagem ao prazer da leitura.

Autor: Marcel Proust
Origem: Aquisição pessoal

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Teu Corpo é Teu! (Rachel Brian)

O consentimento é, na verdade, uma coisa muito simples - ou, pelo menos, devia sê-lo para todos. O nosso corpo é nosso e quem define os limites somos nós. E o mesmo se aplica a todos os outros: tal como os nossos limites são para manter, também não devemos tentar forçar os limites dos outros. Simples, não é? Mas muitíssimo importante. E se existem até adultos com dificuldade em entender este conceito, mais importante se torna explicá-lo de forma clara e acessível aos mais novos. É precisamente isso que este livro faz.
Pese embora o facto de ser um livro nitidamente pensado para os mais novos, e construído como tal, algo que cedo se torna evidente é que se trata de uma leitura relevante e esclarecedora para leitores de todas as idades. É que, se é verdade que as questões abordadas são no fundo bastante simples, e a forma como são descritas realça ainda mais a sua clareza, também o é que basta um olhar rápido às notícias do nosso mundo para perceber que estes limites tão claros nem sempre são respeitados. Há, pois, muito a aprender com este livro - e está muito longe de ser apenas para crianças.
Outro aspecto a sobressair desta leitura é a capacidade da autora de abordar de forma clara um tema sério, proporcionando, ainda assim, uma leitura leve e divertida. Além disso, os vários exemplos de consentimento, aplicados a coisas tão simples e surpreendentes como umas cócegas ou levar com uma tarte na cara, põem em evidência que a questão dos limites e da autonomia não se aplica apenas a um contexto específico - e muito menos a esse grande e muito específico grupo de pessoas que são os desconhecidos.
Mas importa, sobretudo, realçar duas facetas: primeiro, a forma clara e acessível com que os vários aspectos do consentimento (limites, possibilidade de mudar de ideias, procura de apoio, ausência de culpa) são abordados, ilustrando com exemplos as questões essenciais e apontando ainda formas de procurar ajuda em caso de necessidade; depois, a forma propriamente dita, com as ilustrações simples, mas claras e divertidas, a dar muito mais vida às ideias do que o mero texto escrito poderia fazer.
Pensado para os mais novos, mas relevante para todos os leitores, trata-se, pois, de uma forma acessível e cativante de abordar uma questão que não só é importantíssima como - pelo menos para os adultos - devia ser evidente. E basta este simples facto para que este livro mereça uma forte recomendação.

Autora: Rachel Brian
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 22 de abril de 2020

O Passado (Tessa Hadley)

Será, à partida, a última reunião familiar na casa onde os quatro irmãos cresceram, mas os laços de sangue que os unem não significam necessariamente umas férias tranquilas para Harriet, Alice, Fran e Roland. Fran levou os filhos. Alice, o filho do antigo namorado. Harriet foi sozinha, mas decidida a partir mais cedo. E Roland levou a nova mulher e a filha resultante de um casamento anterior. Entre todos, geram-se tensões e mistérios, não só sobre o que devem fazer à casa onde se encontram, mas sobretudo nas sombras de um passado que persiste em manifestar-se nas relações actuais. Pelo caminho, haverá quem descubra o amor e o desencanto. E, no fim, todos levarão na alma algo de diferente.
Uma das primeiras coisas que importa realçar acerca deste livro é que, apesar de não ser particularmente longo, exigirá algum tempo, não só pelo ritmo algo pausado e descritivo que a autora confere à narrativa, mas sobretudo pela complexidade das próprias relações. Não há um único protagonista - nem sequer quatro. Todas as personagens, presentes e passadas, assumem um papel importante. E, sendo certo que demora algum tempo a assimilar as relações e histórias pessoais de cada um, também o é que é essa mesma complexidade que confere profundidade à leitura.
Não é só às relações que a complexidade se cinge. Há para cada personagem uma evidente ambiguidade, com aversões que se tornam empatias e vice-versa, escolhas de moralidade dúbia, mas que se revelam a uma nova perspectiva devido à idade dos intervenientes e até uma teia de afectos e manipulações que gera o estranho desejo simultâneo de aproximação e afastamento. Nada é linear nesta família - nem as relações, nem as personalidades. E, quando a história se embrenha no passado, vêm à superfície novas semelhanças - bem como um certo mistério que nunca chega a ser totalmente desvendado sobre o passado dos quatro irmãos.
É como se nada fosse fácil na vida destas personagens, nem mesmo os laços que as unem àqueles em cuja companhia cresceram - ou estão a crescer. E é talvez desta impressão sombria, a de múltiplas vidas traçadas na sombra, que resulta a estranha e fascinante impressão que permanece ao longo de toda a leitura: a de um mergulho lento na vida das personagens, pausado e ambíguo, por certo, mas com rasgos de estranha intensidade e um percurso estranhamente memorável.
Exigirá o seu tempo, mas vale cada minuto. Pois, com a sua teia de relações complexas, descobertas misteriosas e personalidades em constante crescimento, não deixa de fascinar pela profunda ambiguidade e pela intensidade das tensões que unem estas personagens. Vale a pena, sem dúvida, conhecer esta família.

Título: O Passado
Autora: Tessa Hadley
Origem: Recebido para crítica