sábado, 30 de janeiro de 2021

Black Hammer - O Evento (Jeff Lemire, Dave Stewart, David Rubin e Dean Ormston)

Presos na Quinta há demasiado tempo e separados de tudo o que em tempos os fez avançar - tudo excepto uns dos outros, claro - os heróis de outrora parecem ter-se resignado à sua condição de prisioneiros. Mas eis que chega uma visitante do mundo exterior, alguém que eles conhecem e que vem à procura do Black Hammer. Lucy só quer saber o que aconteceu ao pai, mas está agora tão presa como os outros, mas ainda mais confusa, pois não entende muito bem os seus sentimentos. Não está, porém, disposta a resignar-se como os outros e, à medida que procura respostas e o passado começa a vir à superfície, Lucy descobre mais do que as memórias que perdeu. Descobre a promessa de um futuro.
Há algo de fascinante neste estranho contraste de uma história em que os super-heróis não parecem já ser muito heróicos. Presos num lugar inexplicável, cada um dos heróis tentou reconstruir a sua vida, dentro dos possíveis, através de relações ou de isolamento, de resignação ou de revolta. E esta percepção de uma vida para lá dos seus dias áureos tem o condão de humanizar as personagens, além, claro, de criar um contraste poderoso entre as memórias do passado - que incluem naturalmente grandes cenas de acção e de combate - e a inexorável tranquilidade da Quinta.
É um percurso que vem já do volume anterior, mas que ganha aqui novos contornos. A entrada em cena de Lucy lembra que o mundo não acabou, despertando novos planos de fuga e, consequentemente, novas suspeitas. Assim, gera-se também outro equilíbrio: entre as memórias do passado, que ocupam grande parte deste segundo volume, e as possibilidades futuras, que envolvem alguns segredos e intrigas e também um grande desenvolvimento final que promete ainda novas revelações. Os dias de glória das personagens não contrastam apenas com a resignação presente. Realçam também os segredos que persistem apesar da convivência - e que implicam que nem tudo é exactamente o que parece.
E, sendo uma história em que tudo contrasta, também na parte visual sobressaem os equilíbrios. O passado de glória transborda de cor e de movimento, contrastando com a relativa tranquilidade da Quinta. Mas as fronteiras vão-se gradualmente esbatendo. Além disso, a presença de Lucy e a sua relação com as palavras acrescentam também uma nova forma de expressão e um novo ponto de contraste, que se manifesta não só nos tons nostálgicos que a envolvem, mas também nas suas próprias expressões.
Proximidade e isolamento, acção e silêncio, movimento e introspecção. Contrastes e equilíbrios, em suma. São estes os elementos centrais de um segundo livro que, expandindo a história para o passado e para o futuro, abre portas a novas relações e revelações - e promete ainda muitas mais surpresas. Intenso, surpreendente e inesperadamente emotivo, um segundo volume ainda mais memorável e equilibrado que o primeiro. Muito bom.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Dylan Dog - Os Inquilinos Arcanos (Tiziano Sclavi, Corrado Roi, Luigi Mignacco, Enrique Breccia, Barbara Baraldi e Nives Manara)

Um prédio assombrado, um nevão mortal e um fantasma que anda a assustar os alunos de um colégio (e a causar estragos maiores). São estas as premissas das três aventuras que compõem esta nova visita a Dylan Dog. Um prédio com vida própria, onde Dylan encontra uma nova paixão, mas também uma série de pesadelos invulgares. Um nevão que esbate a ténue linha que separa passado, presente e futuro. E o fantasma de uma humilhação que perdura para além da morte. Em comum, a presença do detective do pesadelo - aqui em plena actividade profissional.
Talvez não devesse ser uma surpresa, tendo em conta a actividade profissional do protagonista, mas o primeiro elemento a sobressair, sobretudo em comparação com outras histórias, é que neste volume dominam efectivamente os monstros e os casos sobrenaturais, ao contrário de outros em que o sobrenatural serve de ponto de partida para uma visão mais introspectiva. Junte-se a isto o facto de termos um total de três histórias diferentes em pouco mais de cento e vinte páginas e a impressão que fica é, por vezes, a de desenvolvimentos ligeiramente apressados.
Outro aspecto bastante obviamente diferente é que este livro é a cores, o que acaba por criar um ambiente um pouco menos sombrio do que o de outras aventuras. Ainda assim, há outros pontos a sobressair neste aspecto, a começar pelas diferenças entre as três histórias, sobretudo na expressão dos rostos, mas também na forma como os cenários se revelam também distintos. Além disso, existe também um contraste de cor entre as três histórias, com os cenários surpreendente luminosos do prédio assombrado a contrastar com a escuridão e o caos do grande nevão e o ambiente estranhamente idílico do colégio. Embora juntas num mesmo volume, cada história é um todo independente, e as diferenças são notórias, tanto no percurso como na arte.
Um último ponto a salientar é que, embora mais activo e menos introspectivo, Dylan Dog continua a ser Dylan Dog, com a sua faceta de apaixonado fugaz e a sua tendência irresistível para se deixar arrastar para o amor mesmo em situações delicadas, além dos ocasionais momentos de humor que estas situações provocam. Não é um Dylan Dog tão sombrio, mas continua a ser, a espaços, o romântico incurável, e é fácil reconhecê-lo como tal em cada uma destas histórias.
Não será, talvez, a mais marcante das aventuras deste herói, pelo menos do ponto de vista emocional. Mas não deixa de ser uma leitura envolvente, visualmente surpreendente (já disse que este é a cores?) e repleta de momentos interessantes. Uma boa leitura, em suma, e um sempre agradável reencontro.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Quando Servi Gil Vicente (João Reis)

Os nomes são uma coisa estranha e por isso Anrique habituou-se a ajustar o seu às suas circunstâncias, a fim de evitar, tanto quanto possível, os inconvenientes. E sob o nome de Anrique de Viena que se apresenta, mas é na sua função que está a sua verdadeira importância: servo de Gil Vicente, ilustre figura das letras e do teatro, nos seus derradeiros anos. E é enquanto fiel servidor que Anrique conta a sua história e a de seu amo: uma história talvez improvável, talvez ligeiramente bizarra, mas tão cativante e singular quanto surpreendentemente humana.
Sendo todo ele uma unidade coesa e difícil de dividir - como, aliás, o próprio texto, que quase exige ser lido de uma vez só - existem, ainda assim, duas facetas distintas que importa salientar: o estilo de escrita e a construção dos protagonistas. E é por estes que começo, pois é a sua singularidade que torna esta leitura tão surpreendente. Não se espere daqui uma visão adoradora do mestre no alto do seu pedestal. Gil Vicente é aqui um homem comum, ainda que de génio (nos dois sentidos da palavra) invulgar. E quanto a Anrique... bem, a sua condição de servo coloca-o numa posição única, de ter de lidar com o génio (irascível) do mestre e de conhecer ao mesmo tempo o seu génio (brilhante). E assim, a biografia improvável torna-se absurdamente plausível, nos momentos mais comuns e nos mais peculiares.
Quanto à escrita, sobressaem também duas ramificações: o registo individual deste livro e a comparação com outros livros do autor. Individualmente, destaca-se a evidente intenção de dar à voz de Anrique um registo ajustado ao seu tempo, bem como, a espaços, uma quase intenção por parte da personagem de imitar o mestre (o que é particularmente notável se tivermos em conta a forma como tudo termina). No conjunto da obra, destaca-se a capacidade quase camaleónica do autor de dar a cada uma das suas histórias a exacta voz que ela exige. Cada livro é como que um mundo novo, algo de totalmente diferente. E, ainda assim, a identidade está lá.
Da conjugação destas duas facetas, converge uma terceira que importa ainda reforçar: a tal coesão referida no início. É um livro que, sem estar dividido em capítulos, e não sendo, afinal, assim tão breve, pode parecer, ao primeiro folhear, ligeiramente intimidante. Pois bem, não o é. Muito pelo contrário. As páginas quase voam, o que é particularmente notável tendo em conta as suas múltiplas singularidades e a inevitável complexidade associada ao deambular mental de Anrique.
Tudo somado, o que fica é a imagem de uma leitura surpreendente em todos os aspectos. Singular na escrita, singular nas personagens e deliciosamente cativante na sua mistura de humano e de improvável. Estranha e memorável viagem ao passado, eis, pois, em suma, uma leitura a não perder.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Pulp (Ed Brubaker e Sean Phillips)

Foram já três as vezes em que Max Winter quase morreu. E, à terceira, face a um ataque cardíaco, Max começa finalmente a aceitar que já não é o mesmo que vê na sua imaginação. Para trás, ficou uma vida de fora da lei e até o seu percurso de autor de histórias pulp parece estar finalmente a esgotar-se. Mas o início do  fim é também um início. E a necessidade de deixar algo de bom à mulher que é, na prática, a única luz que lhe resta, leva-o a fazer planos desesperados. Planos esses que o levarão ao reencontro com alguém do passado - e a um plano distinto, movido por valores mais altos, mas que pode muito bem ser o último.
Será, talvez, uma premissa surpreendente a ideia de misturar uma história de bandidos (sim, daqueles dos westerns) com uma história de combate aos nazis. E, tendo isto em vista, seria talvez de esperar uma certa medida de estranheza. Pois, mas não há. E essa é uma das primeiras grandes surpresas e uma das maiores qualidades deste livro: é que o que parece improvável flui com naturalidade, pois tudo faz sentido, desde as mudanças de percurso do protagonista à forma como vinganças antigas dão lugar a novas forças motrizes sem nunca perder de vista os motivos do passado. Tudo encaixa, tanto no rumo da história como no impacto emocional. E esse... esse é particularmente poderoso.
Tendo em conta a dupla de autores, já se espera à partida uma certa medida de desolação, mas não deixa de ser algo de fascinante a forma como, em cada série ou história individual, essa desolação adquire facetas diferentes. Aqui, é o peso da velhice, a contemplação de uma vida que não atingiu os objectivos pretendidos e a presença inexorável da morte quando há ainda algo mais que é preciso fazer. É a mesma sombra que se avista em Criminal ou em The Fade Out - Crepúsculo em Hollywood, mas com matizes diferentes. E esta mistura de novo e de familiar, conjugada com um percurso que facilmente gera empatia, torna a leitura tão empolgante quanto devastadora.
Mas voltando aos contrastes, e à tal conjugação de contextos diferentes. É também particularmente interessante a forma como este contraste se reflecte a nível visual. As cores das cenas de western, mais vivas, sobretudo no vermelho, contrastam com os matizes mais escuros da vida presente de Max Winter. Além disso, há uma diferença nos rostos, que se torna ainda mais clara nas últimas páginas. É como se o peso emocional traçasse marcas físicas (como acontece, na verdade). E como se também isso fizesse parte da alma da história.
No fundo, tudo é memorável, e é essa a verdadeira marca que fica desta leitura. Uma história relativamente breve, mas magnificamente construída, visualmente marcante e, acima de tudo, transbordante de emoção e de intensidade. Impressionante, em suma.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Minha Sombria Vanessa (Kate Elizabeth Russell)

Vanessa Wye sempre foi relativamente solitária. Com aspirações criativas, habituou-se a passar o tempo sozinha, a trabalhar nos seus poemas e nos seus sonhos de se tornar escritora. Mas, aos quinze anos, surge uma mudança súbita, quando Jacob Strane, o seu professor de inglês, começa a dar-lhe atenção. À primeira vista, tudo aponta para uma mera simpatia por uma boa aluna, mas há uma certa intensidade, uma manifestação de súbitas - e aparentemente involuntárias - palavras que parecem sugerir algo mais. E Vanessa deixa-se levar pelo que julga ser o início de uma grande história de amor proibido... Dezassete anos depois, outra rapariga vem a público denunciar contactos inapropriados por parte do mesmo professor. E procura o apoio de Vanessa. Mas o que Taylor vê como abuso, Vanessa vê como uma relação singular. E, agora que a verdade começa finalmente a vir ao de cima, terá de analisar como nunca o fez o que realmente aconteceu - nesse ano e depois.
Provavelmente o aspecto mais impressionante deste livro é a forma como a autora consegue reflectir com uma precisão avassaladora todas as complexidades que envolvem a história da protagonista. Não é uma simples história de vítima e de vilão, porque Vanessa nunca se quis ver como vítima e aquilo que vê em Strane é muito diferente do que se reflecte nas acusações das outras alunas. E é tendo esta perspectiva em vista que toda a história vai sendo construída numa delicada linha de ambiguidades, onde não há - pelo menos aos olhos da protagonista - verdades e mentiras absolutas, mas apenas o que conhece e o que não quer admitir.
Não é - e, ainda que Vanessa a veja como tal, isto é algo que desde o início é muito claro - a grande história de amor que vive no pensamento da protagonista. É algo mais sombrio, mais perturbador, mais intrincado. E é algo de impressionante a forma como a autora constrói todas estas facetas. O lado negro de Vanessa, que se manifesta das mais inesperadas formas, o desequilíbrio de poder e o potencial de manipulação que lhe está associado (e a forma como, por vezes, se inverte), a complexa teia de rumores e de verdades - e, sim, de mentiras também - associada a todo o percurso. E, no meio de tudo isto, uma proximidade que nunca é compreensão absoluta, pois nunca o poderia ser, um jogo de atracção e aversão que vai evoluindo a cada novo desenvolvimento e converge num final que tem na ambiguidade a sua maior força.
E importa ainda salientar um último aspecto. Sendo Vanessa uma aspirante a escritora, e grande parte do seu percurso guiado pela sua relação com Lolita, não é propriamente uma surpresa a abundância de referências literárias, sobretudo a Nabokov, mas não só. Mas, mais do que as referências propriamente ditas, sobressai a precisão com que encaixam na história, surgindo sempre no momento adequado, de tal modo que quase parecem construídas para pertencer ali. É como se a voz da autora se harmonizasse com as vozes que cita, reforçando a fluidez e a envolvência das palavras.
Complexo, intenso, perturbador e muito cativante: assim se resume esta história de amor que não o é, na verdade. Uma história sombria, mas fascinante nas suas ambiguidades, além de maravilhosamente escrita e capaz de se entranhar no pensamento bem depois de terminada a leitura. Memorável, em suma, e altamente recomendada.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Cão Flash (Antero Barbosa)

A partida, a perseguição, o regresso. A presa em fuga, a corrida da matilha, a sempre constante iminência da morte, concretizada, por vezes, de formas imprevisíveis. Uma caça que se torna visão... visão inefável, talvez. E um ritmo que é, em si mesmo, uma corrida, difícil de descrever, mas estranhamente fascinante. Um flash, deveras. E um flash surpreendente.
Uma das primeiras coisas que importa salientar sobre este livro é que, embora cada uma das partes possa ser lida indepedentemente, a impressão que fica não é a de um conjunto de poemas, mas sim a de um longo e vasto poema que abrange a totalidade do livro. É certo que há impressões distintas, rasgos de introspecção por entre a corrida, deambulações por outras paisagens e outras formas de pensamento. Há, ainda assim, uma unidade de ritmo e de perspectiva, que forma um todo coeso e sucessivo que é quase uma história, sem nunca o ser realmente.
Tem no seu cerne uma cena de caça, o que implica necessariamente uma dose de crueldade. Mas é também este lado mais negro e inevitavelmente sangrento que cria um forte contraste entre os rasgos de brutalidade e outros de quase emoção. A imagem que se forma tanto é a de um caçador que persegue a presa como a de um regresso ao que se deixou por fazer. Tanto retrata a sobrevivência do mais forte como a vulnerabilidade dos que apenas o parecem ser. E, sendo certo que existem momentos de choque, há também surpreendentes rasgos de meditação.
O aspecto mais marcante acaba, ainda assim, por vir da estrutura. Com versos relativamente breves e sem grandes restrições em termos de rima ou de métrica, surpreende pela facilidade com que consegue reflectir no ritmo das palavras a cadência da cena relatada. Todo o conjunto - ou todo o poema, na verdade - se lê como uma corrida, ao ritmo dos passos que descreve. E essa impressão quase sensorial é particularmente notável por se conseguir manter constante ao longo de todo o livro.
Ritmo intenso, contrastes fortes e uma grande coesão: são estas, pois, as grandes impressões que ficam deste relativamente breve - mas surpreendentemente vasto - Cão Flash. Uma leitura de contrastes, mas sempre muito cativante.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O Cardeal (Nuno Nepomuceno)

Uma criança desaparece a caminho da escola, acabando por ser encontrada morta e com óbvios sinais de violência. Uma idosa desaparece da casa onde vivia e os seus membros são encontrados espalhados pela neve. Um escritor famoso é acusado destes crimes, após ter sido visto a fugir de um dos locais, e consequentemente detido. Mas nem todos acreditam na sua culpa. De regresso a Cambridge, morada dos seus fantasmas, o professor Afonso Catalão dá por si intrigado pelo caso e a acreditar na inocência de Adam Immanuel e começa a seguir as pistas do que não bate certo. Mas não são estes os únicos crimes a chamar a atenção. No Vaticano, o papa foi assassinado de forma brutal - tal como a sua reputação. E Diana, que nunca deixou de investigar certos aspectos, vê-se novamente atraída para o mistério. Até porque também aqui parece haver um culpado óbvio - mas as teias da intriga são bastante mais complexas...
Parte do que torna esta série tão empolgante, e isto aplica-se, na verdade, a todos os volumes, é a mistura de proximidade e de surpresa constante. Proximidade porque, a cada novo volume da série, Afonso e Diana vão-se tornando quase que da família, figuras conhecidas de quem gostamos e que é sempre um prazer reencontrar. Surpresa... bem, por tudo. Tudo é surpreendente nestas histórias, desde a sempre complexa teia de intrigas às sucessivas revelações que se vão manifestando. Além disso, ao acompanhar de perto os múltiplos fios, e não só o percurso de Afonso e de Diana, o autor explora com precisão todas as complexidades da intriga, além de despertar emoções fortes - sejam de empatia ou de aversão - que não se cingem apenas aos protagonistas.
Sendo certo que todos os livros desta série têm uma história central independente, neste caso, é mais evidente do que nunca que o impacto se intensifica conhecendo toda a história anterior. Há muitos elos que vêm de livros anteriores, sobretudo de A Morte do Papa (mas não só), o que faz com que o conhecimento prévio torne a visão global ainda mais impressionante. Além disso, as ligações de Afonso e de Diana - passadas e presentes - têm uma evolução ao longo da série. E este percurso pessoal é também fascinante de se acompanhar.
Ainda um outro ponto que merece especial destaque - e outro contraste poderoso - é o equilíbrio entre proximidade emocional e ambiguidade moral. Não é em Afonso e Diana que isto mais se manifesta (ainda que seja particularmente interessante ver a forma como a jornalista lida com as recusas...), mas mais nos alvos da sua investigação. Há figuras que parecem, apesar de tudo, intrinsecamente boas, mas que escondem facetas sombrias. Outras, pela personalidade irascível, parecem inocentes improváveis, mas... o rumo dos acontecimentos pode fazer-nos mudar de opinião múltiplas vezes. A verdade é que ninguém é o que parece e nenhuma explicação é tão simples como à primeira vista aparenta ser. E, assim, de surpresa em surpresa, de revelação e revelação, vamos sendo empolgantemente - e imparavelmente - conduzidos rumo a um final poderosíssimo.
O que fica no fim desta leitura? A sensação de uma viagem deliciosamente atribulada, cheia de intensidade e de surpresas, o sempre agradável reencontro com personagens que é sempre um prazer rever, e uma intensa e avassaladora história de intrigas, crimes e segredos que prende do início ao fim e deixa logo saudades do professor Afonso Catalão. Numa palavra? Soberbo.


Esta é minha recomendação para a campanha Prosa e Poesia da editora educativa Twinkl.