terça-feira, 9 de agosto de 2016

Ready Player One - Jogador 1 (Ernest Cline)

Ano 2044. O mundo não é um lugar risonho onde se viver. Os recursos são escassos, a pobreza abundante. Há quem viva em atrelados empilhados uns em cima dos outros. Muitos são, pois, os que fogem para a realidade virtual para encontrar uma vida melhor. No OASIS, o simulador que ganhou o lugar de destaque na vida das pessoas, é mais fácil conseguir uma boa vida. Mas há uma batalha há espera de acontecer. O criador do OASIS morreu e deixou a sua fortuna em herança ao primeiro que conseguir seguir as suas pistas e encontrar o ovo que ele deixou escondido na sua vasta simulação. E, quando há tanto dinheiro e recursos em jogo, e uma empresa disposta a tudo para os adquirir, a Caçada do ovo nunca poderá ser apenas um videojogo. E as consequências de travar esse combate podem muito bem estender-se à vida real.
Imaginem um livro que é ao mesmo tempo uma visão de um futuro possível e um regresso ao passado, capaz de questionar valores e prioridades, pessoais e corporativas, ao mesmo tempo que constrói todo um enredo centrado no mundo dos videojogos. Assim é este Ready Player One, história de uma caçada virtual com consequências no mundo real e, acima de tudo, da descoberta de valores e prioridades num mundo em que as simulações ganham uma importância vital. 
Não é muito difícil apontar as razões que tornam este livro fascinante: tudo nele o faz. Mas um dos primeiros elementos a destacar-se é, sem dúvida, a forma como o autor transpõe para um mundo futurista um vastíssimo conjunto de referências e elementos da cultura dos anos 80. Jogos, bandas, filmes de culto... Tudo está presente e tudo tem um papel importante a desempenhar no enredo. Ora, isto só tem vantagens: por um lado, permite descobrir coisas novas, acompanhando as personagens na sua jornada. Por outro, é uma boa forma de relembrar filmes icónicos, jogos que marcaram a infância de muita gente, músicas que - adorando ou odiando - ainda hoje permanecem bem presentes. Há todo um mundo a (re)descobrir e isso basta para que a jornada valha a pena.
Mas há muito mais. A própria construção das personagens e dos códigos por que se movem é fascinante. Por um lado, os gunters, inteiramente dedicados à caçada, tão concentrados no destino como no caminho que os levará até lá. Por outro, a IOI, disposta a tudo, inclusive a matar, para conseguir deitar as mãos ao prémio final. Tudo isto, levanta questões importantes: sobre até que ponto os fins justificam os meios, sobre a justeza de um combate em que alguns têm todas as formas de fazer batota, sobre matérias de privacidade e valores diferentes na base de empresas diferentes. E, a um nível mais pessoal, sobre honra no combate, respeito pelos rivais, capacidade de cooperação, amizade e afecto. Parzival, Aech, Art3mis, Shoto e Daito são em tudo um contraponto perfeito aos Seizes. E a forma como estes dois lados se enfrentam abre caminho a todo um conjunto de momentos impressionantes.
É um livro bastante descritivo, com a multiplicidade de elementos na base da caçada a exigirem apresentações e as bases estratégicas dos vários intervenientes a conferirem ao enredo uma certa complexidade. Mas é interessante que, apesar deste ritmo mais pausado, a história nunca deixa de cativar. É que a informação vai sendo apresentada ao ritmo a que as personagens precisam dela e, ao ser narrada pela voz do Wade, surge na medida em que é necessária e com a importância que o seu papel no enredo justifica. Além disso, a esta vasta quantidade de informação acresce uma igualmente vasta medida da acção, o que confere à narrativa um equilíbrio perfeito entre as partes que a constituem.
E, por fim, o ambiente, tão intenso e imersivo como o de um videojogo, mas deixando espaço à imaginação do leitor para visualizar os passos das personagens, tanto no mundo virtual como no real. Os lugares, as personagens, os vários elementos do jogo em que se movem, mas também a realidade para lá do OASIS, tudo é construído na perfeição. E, assim, é fácil entrar nesta história. E, se é certo que é preciso tempo para assimilar todos os pormenores, também o é que nunca esmorece a vontade de descobrir mais.
Tudo isto converge num todo vastíssimo e imensamente impressionante. Enredo, cenários, personagens - tudo se molda num equilíbrio perfeito. E nesta viagem ao futuro que é, ao mesmo tempo, o tal regresso ao passado, tudo se encaixa na medida certa para proporcionar uma leitura impressionante. Que recomendo sem reservas.

Autor: Ernest Cline
Origem: Recebido para crítica

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