segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Novidade Civilização

Título: Clarice Lispector – Uma Vida
Autor: Benjamin Moser
Título Original: Why This World
Tradução: Maria Beatriz Sequeira
Páginas: 664 pp.

Nascida em 1920, numa Ucrânia devastada pelo rescaldo da Primeira Guerra Mundial, vendo a família levada para um país distante pelos terríveis pogroms que mataram a mãe e arruinaram o pai, Clarice Lispector triunfou sobre as suas origens para se tornar, quase desde a adolescência, uma pessoa cuja beleza, génio e excentricidade intrigaram os escritores e artistas do Brasil. Clarice Lispector - Uma Vida conta como uma rapariga precoce, depois de um longo exílio no estrangeiro e de difíceis lutas pessoais, se tornou uma grande escritora e mostra, pela primeira vez, as profundas raízes da mística tradição judaica que fizeram dela a verdadeira herdeira de Kafka. Atravessando o mundo, da Ucrânia ao Brasil, de Nápoles, Berna e Washington ao Rio de Janeiro, Clarice Lispector - Uma Vida mostra como Clarice Lispector transformou as lutas de uma mulher em obras de arte de carácter universal.

Passatempo Deixa o Grande Mundo Girar

O blogue As Leituras do Corvo, em parceria com a Civilização editora, tem para oferecer 2 exemplares do livro Deixa o Grande Mundo Girar, de Colum McCann. Para participar basta responder ao seguinte desafio:

Prove que quer mesmo ganhar o novo romance de Colum McCann “Deixa o Grande Mundo Girar”.

O motivo mais original ganha o livro.

Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 31 de Agosto. Respostas posteriores não serão consideradas.
- Para participar deverão enviar a resposta para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- Os livros serão atribuídos às duas respostas mais originais;
- Os vencedores serão contactados por email e o resultado será anunciado no blogue;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

sábado, 21 de agosto de 2010

A Criada Zerlina (Hermann Broch)

Um estranho triângulo amoroso, pautado pelo desejo e pelo mistério. É esta a história que Zerlina, a criada, conta ao senhor A., a história de como, apesar do seu casamento com o juiz conselheiro, a baronesa Elvira se envolveu com o senhor de Juna e de, como, numa estranha oscilação entre a inveja o desejo, também Zerlina decidiu conquistar o mesmo homem, vendo-se este perante as atribulações de ter de se livrar da mulher para satisfazer os caprichos das duas amantes.
Breve, com uma escrita poética, ainda que não muito sentimental, esta pequena história cativa essencialmente pela forma como é apresentada. É a própria Zerlina a contar as suas acções, cuidadosamente aliadas aos seus pensamentos e sentimentos. Mas, entre as suas palavras, podemos ver também os comentários e reacções do senhor A., o que acaba por transmitir a sensação de que Zerlina está a responder a perguntas que também o leitor se faz.
Amor e desejo são aqui separados por uma linha muito ténue. Por um lado, Zerlina fala quase com desprezo do "chorrilho sentimental" presente nas cartas entre a baronesa e o senhor de Juna. Por outro, também ela sente por ele uma atracção inexplicável, mas que acaba por oscilar entre períodos de obsessão e de desprendimento total. Fica, por isso, a dúvida. Qual das duas mulheres (se alguma) amaria verdadeiramente o senhor de Juna? E ele, sentiria algo mais que atracção por qualquer delas?
Ainda uma referência para a postura do juiz conselheiro que, ciente da verdade e com os meios para concretizar a sua vingança, representa nesta história onde a traição parece ser quase banal, a figura recta, paciente e compassiva do homem fiel e (mais uma vez, segundo Zerlina) santo.
Interessante, ainda que bastante breve, a história de Zerlina cativa e faz reflectir. Fica apenas, através do pouco que é revelado do senhor A., a sensação de que também ele teria uma história a ser revelada e da qual não foi possível vislumbrar senão alguns detalhes.

Ex Machina (Robert Finn)

Depois de alguns percalços na sua tese de doutoramento, Jo acaba por integrar uma equipa de investigação algo obscura na Cornualha. Mas o trabalho que aí encontra parece resumir-se às tarefas monótonas e, quando se apercebe de que há um grupo dentro da equipa que parece guardar segredos bem mais intrigantes, Jo decide investigar por conta própria. O problema é que as conversas de morte e de oculto que acaba por ouvir não são apenas uma brincadeira de espionagem e Jo vai acabar por compreender que os segredos guardados por David, Susan e o Professor permanecem ocultos por um motivo.
Sequela directa do livro O Perito, Ex Machina mantém algumas características do primeiro volume, tais como a envolvência geral do mistério e a importância e antagonismo entre a equipa do Professor e o Exército que Testemunhou a Criação. Há, contudo, grandes diferenças. Ex Machina é narrado do ponto de vista de Jo, o que, por um lado, transmite uma visão bastante mais pessoal da situação, particularmente a partir do momento em que assume o protagonismo quase total, mas apresenta também uma imagem progressiva de como alguém totalmente estranho à situação acabaria por reagir ao descobrir o segredo dos adeptos.
Também a componente mágica do enredo é explorada de forma bastante diferente nos dois livros. Se, durante grande parte do primeiro volume, não passa de uma insinuação, sendo reveladas as suas verdadeiras potencialidades numa fase quase final, aqui representa uma parte importante e muito desenvolvida da história. Os diferentes tipos de poderes que podem ser controlados, a descoberta de Jo relativamente ao que consegue fazer e a forma como a sua progressiva obsessão a torna vulnerável a um ataque também de natureza mágica, alterando a sua personalidade, ao mesmo tempo que reflecte medos e dúvidas que crescem com o surgir das revelações, desempenham um papel importante na contextualização da natureza dos adeptos e da magia que controlam.
Existem algumas oscilações, principalmente no que toca ao ritmo dos acontecimentos, mais lento no início da história, que começa de uma forma bastante pausada e fortemente sentimental, centrando-se mais na vida privada e nos problemas de Jo e na fase inicial de descoberta dos seus poderes, quando a descrição do controlo e da forma como cada capacidade é manipulada chega a ser exaustiva. Estes desenvolvimentos acabam por ser pequenas fases em que a história se torna um pouco impessoal, ainda que revelem aspectos interessantes da magia neste livro. Além disso, as intervenções espaçadas de David e Susan (grandes intervenientes do livro anterior) acabam por contribuir para a sensação de que Ex Machina funciona, em certa medida e tendo em conta que uma boa parte do conflito de Jo acaba por se dirigir contra um indivíduo particular (e não contra o Exército propriamente dito), como um livro de contextualização.
Agradável de uma forma geral, ainda que com algumas fragilidades, este é um livro com bastantes momentos de acção e que, ainda que não resolva em definitivo a situação do Marcador e daqueles que o procuram, acrescenta bastantes elementos interessantes ao seu contexto. Fico curiosa para saber o que virá a seguir.

Divulgação: A Violência da Natureza

"A Violência da Natureza"
Autor: Florindo Silva & Rui Sousa
P.V.P.: 15,00 €
Data 1ª Edição: Julho 2010
Nº de Edição: 1ª
ISBN: 978-989-96859-0-1
Nº de Páginas: 168
Edição de Autor

COMPRAR O LIVRO: aqui

Sinopse:

Com apenas 12 anos de idade, Rui Pereira idealizou um sonho. Nada de anormal pois com aquela idade, quem não sonhava ser Bombeiro, Policia, Médico ou mesmo Jogador de Futebol? Mas ao contrario de muitos de nós que acabamos por abdicar desses mesmos sonhos, o Rui decidiu que iria em frente. O “Louco”, como muitos lhe chamavam, não desistiu.
Desde cedo ficou fascinado com um dos mais poderosos fenómenos da natureza, o Tornado. Apesar de ser menosprezado por todos, o Rui não olhou a meios para realizar o seu sonho que consistia em construir uma maquina que estudasse os tornados de forma a criar um período mais largo de tempo, entre a previsão e a formação desse mesmo tornado.
Nunca é fácil realizar um sonho desta envergadura, já que implica salvar vidas e quando surgiram as primeiras dificuldades, em vez de desistir, o Rui continuou a lutar para realizar o seu sonho.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Leya Contos

Nomes já conhecidos da literatura nacional juntam-se neste pequeno livro para apresentar um pequeno conjunto de contos de estilos e temas variados que, de forma breve, permitem ao leitor conhecer um pouco da sua obra. E há-os para todos os gostos, do mais simples ao mais elaborado, com mais ou menos divagações e emoções pelo caminho.
O livro abre com o conto Dois Homens, de Dulce Maria Cardoso. Uma breve despedida, reflexão sobre uma relação entre pai e filho, de leitura agradável e com uma escrita fluente. Não envolve, contudo, por completo, por ser demasiado breve para um tema onde haveria mais que dizer. Segue-se Castelos na Areia, de Fernando Pinto do Amaral. Nas três páginas que constituem este conto, o autor fala de encontros e separações, lançando um enigma sobre a vida do protagonista. Interessante, com uma escrita agradável e um certo mistério que deixa a vontade de ler mais.
Inês Pedrosa surge representada neste livro com o conto Um Amor na Cidade. Mais uma história de separação, esta traçada no enigmático cenário da cidade, e onde é particularmente interessante o elo estabelecido pela pintura e as descrições de tom misterioso, como se insinuando segredos que nunca chegam a ser revelados.
Nevermore, de Manuel Alegre, junta fluência e musicalidade num conto sobre música e sobre uma visita que não voltará a repetir-se. Apesar do final marcante, a brevidade do conto deixa, mais uma vez a sensação, de algo em falta. Já em Le Bel Eté, Urbano Tavares Rodrigues conta a história de um casal que, vivendo em Paris, embarca numa viagem de férias a Portugal e, num estilo fluído e cativante, fortemente emotivo, mistura na perfeição felicidade e tragédia.
Segue-se, de José Eduardo Agualusa, o conto Eles Não São como Nós, a história de como uma noite de insónia salva duas vidas. Um conto sobre a luta e a miséria, com uma escrita precisa e bastante interessante.
Em Atendedor de Chamadas, de José Mário Silva, é apresentada, sob a forma de uma sequência de mensagens deixadas no dito aparelho, o perfil de um homem e do mundo que o rodeia. Com uma estrutura invulgar, uma escrita envolvente e um final surpreendente, este é um dos contos mais cativantes do livro. Também muito bem conseguido, A Espada Japonesa, de Mário de Carvalho, um conto imaginativo sobre o efeito de uma ideia e da presença de um objecto sobre a mente e a sanidade de um homem. Envolvente, algo místico, e com um final muito intrigante.
Jangada para Longe, de Ondjaki, é um conto sobre a ânsia da viagem, reflectida na construção de um misterioso aparelho. Particularmente marcante neste conto a soberba descrição do cenário, transmitindo com mestria a ideia do sonho a alcançar. Ainda sobre o sonho, segue-se O Menino que Escrevia Versos, de Mia Couto. Aqui, o aparecimento, qual temível doença, de uma veia poética no filho de uma família de pouca cultura, parece despertar terríveis reacções, resultando num conto terno e emotivo.
Por fim, Fúria, de Patrícia Reis. Reflexo de um fragmento da relação (algo perturbada) entre um casal, com uma escrita cuidada e cativante, que parece dar voz aos mais pequenos instintos dos intervenientes.
Agradável de forma geral, não há nenhum conto neste livro que não tenha alguns pontos de interesse. Fica, em alguns deles, a sensação de que mais poderia ser dito sobre as histórias e sobre os seus protagonistas. Não deixa, ainda assim, de ser um livro interessante para revelar pontos de interesse num primeiro contacto com a obra destes autores. Gostei.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Duna (Frank Herbert)

Designado para governar Arrakis, um planeta de condições áridas, mas rico em especiaria, a substância que move muitos dos interesses imperiais, o duque Leto Atreides e a sua família deixam para trás Caladan para assumir a nova posição. Mas há demasiados olhares interessados sobre o planeta e a intriga leva à traição e a tragédia parece pairar, iminente e inevitável, sobre os Atreides. Ainda assim, nem todos os planos correm como deveriam e Paul, herdeiro do Duque, mas também muito mais que isso, aprenderá na adversidade a ser líder e profeta... e a consumar uma lenda que talvez nunca tenha conscientemente desejado.
Se tivesse de definir este livro com uma única palavra, ela seria, sem margem para dúvidas, SUBLIME. Não houve nada neste livro que não me fascinasse, nenhum elemento que me parecesse exagerado ou que não encaixasse completamente no contexto. Desde a escrita fluída e envolvente, precisa nos detalhes e nas explicações, viciante na acção, harmoniosa na fusão entre movimento, emoção e racionalidade, à caracterização de personalidades complexas, diversas e de uma intensidade tal que é praticamente impossível não encontrar alguém que reflicta algo que admiramos na natureza humana, passando pela complexidade e elaboração de um sistema vasto e desenvolvido, onde nada parece ser deixado ao acaso, mas onde o detalhe nunca se torna maçador.
Para mim, este livro foi um caso de fascínio instantâneo. A conjugação entre a acção e a emoção, a forma como o autor apresenta prenúncios de tragédia ao mesmo tempo que desenvolve em cada personagem os elementos que farão o leitor sentir por eles, a forma como a inevitabilidade de um acontecimento cedo anunciado não impede o despertar de uma certa esperança de que as coisas não sejam tão seguras como parecem... E o próprio processo de crescimento, a aprendizagem perante um destino enfrentado com relutância, a ascensão talvez um pouco prematura à idade adulta, conduzida por perdas e enganos, para fazer de Paul Atreides uma personagem extremamente cativante, e que me marcou de uma forma muito intensa e pessoal.
Mas não é Paul o único elemento de interesse neste livro. Leto Atreides, pela personalidade intensa e pelo sentido de honra, não só protagoniza um dos melhores momentos do livro como se reflecte, ao longo da totalidade do enredo, na pessoa em que Paul se tornará. Jessica, Chani, Stilgar, Kynes e muitos outros, surgem, na multiplicidade de ambientes, crenças, costumes e formas de vida que representam, como um reflexo da complexa vastidão que constitui este mundo, todos eles com um papel importante a desempenhar. E é também por isso que eu julgo que este livro tem todos os elementos de uma obra prima. Um mundo complexo e muito bem explorado, uma escrita soberba, personagens cativantes colocados num enredo envolvente e com situações de pura emotividade, e, claro, o jogo de mistérios e presságios que definem, ao longo de todos os acontecimentos, a ténue linha entre o homem e o profeta.
Impõe-se ainda deixar uma referência muito positiva ao trabalho de tradução de Jorge Candeias. Num livro tão complexo e cheio de termos invulgares como é este, não deve ter sido, de todo, um trabalho fácil, mas o resultado é magnífico e tudo soa na perfeição.
E em jeito de conclusão, porque não creio que palavras algumas fossem suficientes para definir por completo o que este livro contém e o que representou para mim, fica a minha recomendação sem reservas para este livro que é, provavelmente, um dos melhores que alguma vez me passou pelas mãos. FANTÁSTICO.