sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Destemida (Lesley Livingston)

Segunda filha do rei de uma tribo guerreira, Fallon preparou-se a vida inteira para ocupar o seu lugar entre os guerreiros do pai. Mas Virico teme perdê-la, como perdeu a filha mais velha, e para o evitar decide dá-la em casamento a um conhecido aliado. Só que Fallon não está disposta a aceitar isso e, quando os acontecimentos se precipitam, Fallon dá por si nas mãos de um mercador de escravos e a caminho da Roma que tanto odeia. Aí, espera-a um destino de brutalidade... ou glória nas arenas. Mas grandes sucessos trazem grandes inimigos - e nem mesmo a protecção de alguns aliados inesperados a poderá proteger nos combates que se avizinham.
Provavelmente um dos aspectos mais notáveis neste livro é a facilidade com que transporta o leitor para o interior da história e do seu mundo. Talvez por ser narrado pela perspectiva de Fallon, já que a sua situação arranca logo num contexto difícil e cada novo desenvolvimento só vem levantar mais barreiras. Ou talvez porque este é o ponto de partida para um percurso de crescimento tão intenso quanto surpreendente, repleto de momentos marcantes, tanto em combate como nos meandros da intriga.
O que me leva outro dos pontos fortes: a intriga. Não é propriamente uma surpresa, numa história que decorre na Roma de Júlio César, que haja amplo espaço para intrigas, traições e pequenas ou grandes conspirações. O que surpreende é a forma como este contexto mais vasto envolve a história particular de Fallon, com os diferentes elementos a surgir precisamente quando são necessários, deixando à jornada individual a linha essencial do enredo, mas manifestando-se quando lhe acrescentam uma perspectiva mais ampla.
E depois, claro, há o aspecto emocional. Fallon é o tipo de personagem que desperta empatia: forte, mas vulnerável, determinada, por vezes teimosa, mas decidida a lutar pelos princípios que valoriza. Mas está longe de ser a única figura notável. Sorcha, Elka, Cai, até mesmo Charon. Todos eles são figuras marcantes, cada um à sua maneira, e a teia de relações que se desenvolve - de amizade, de interesse, de rivalidade ou de ódio - confere à história um ritmo irresistível. Pois há sempre algo de bom a descobrir, seja num laivo de humor, no desvendar de uma intriga ou num simples momento de afecto ou emoção.
Trata-se, pois, de uma história marcante. Intensa no enredo, notável nas personagens e cheia de possibilidades quanto ao que se poderá seguir, uma abertura poderosa para uma série que promete ainda muito mais. Recomendo.

Título: Destemida
Autora: Lesley Livingston
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

The Fade Out - Crepúsculo em Hollywood (Ed Brubaker e Sean Phillips)

1948. O mundo do cinema vive uma fase ambígua, em que grandes sucessos convivem com um controlo quase absoluto e um sistema que persegue todos os culpados - ou suspeitos - de actividades anti-americanas. E é neste contexto que uma actriz é encontrada morta, no que tudo indica ter sido um trágico suicídio. Só que Charlie Parish, guionista, sabe que não foi bem assim e, por mais que tente aceitar a necessidade de esquecer e seguir em frente, a sombra de Val continua a persegui-lo. Além disso, contou o segredo a um amigo igualmente inconformado. E nenhum deles consegue resistir ao impulso de descobrir a verdade - mesmo sabendo que não podem ganhar...
Não é propriamente fácil escolher um ponto por onde começar a falar sobre este livro - e, no entanto, quase que basta uma palavra: brilhante. É que são tantos os elementos notáveis e é tão perfeita a conjugação entre todos eles que a verdade é que não há nada a dizer que não seja bom. Mas talvez surja daqui um bom ponto de partida - o equilíbrio. O equilíbrio entre um cenário meticulosamente construído, associado a elementos de contexto muito precisos, tanto na imagem como nos diálogos, e a um contraste entre glamour e devastação que é simplesmente arrebatador.
Basta o início para criar impacto, a imagem de uma mulher morta em circunstâncias suspeitas e de um inocente conhecedor de uma verdade em que ninguém acreditará. Sente-se logo esse contraste - entre a justiça e a realidade - e a inevitável desolação que terá de vir a seguir. E, no entanto, há mistério. Há procura. E há respostas: respostas difíceis, desenvolvimentos inesperados e um caminho feito tanto de perigos como de revelações, que culmina num final tão intenso quanto devastador.
É difícil dizer tudo o que importa sem revelar demasiado, até porque uma boa parte do fascínio vem do processo de desconstrução dos meandros de Hollywood. Mas bastam os contrastes para se ficar com uma boa ideia: sucesso e controlo, luz e sombra, sucesso exterior e demónios interiores. Glamour... e segredos. Demasiados segredos, do tipo que destrói vidas inteiras. E marca, principalmente quando, no centro de tudo, está um protagonista tão fascinante.
É um livro grande, até porque inclui uma boa quantidade de extras que só contribuem para tornar o todo ainda mais notável. E, todavia, devora-se de uma assentada. Porquê? Porque, a partir do momento em que se começa a desvendar este estranho mundo, é irresistível o impulso de continuar. E há tanto para descobrir nesta requintada mistura de poder e desolação: nos cenários, no ambiente, no próprio percurso das personagens e no que globalmente representam. 
Que mais dizer, então? Que prende, que fascina e que se grava na memória de quem o lê. Que é ao mesmo tempo belíssimo e devastador. E que, por isso, no fim tudo se resume à mesma palavra com que comecei: brilhante. Brilhante, brilhante, brilhante. E imperdível, claro. 

Autores: Ed Brubaker e Sean Phillips
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O Homem que Não Ligou (Rosie Walsh)

Durante sete dias, Sarah julgou ter encontrado o amor da sua vida. Um encontro casual fez com que Sarah e Eddie David acabassem por partilhar sete dias de paixão recíproca e de esperanças para o futuro. Mas, esgotado o tempo e chegada a hora da separação, tudo acabou. Eddie devia ter-lhe ligado, mas não ligou, e embora todos os seus amigos julguem ser algo que acontece e que Sarah tem de ultrapassar, no fundo, ela sente que algo terrível aconteceu. E está certa, ainda que não da forma que imagina. Pois, tal como ela, Eddie tem um grande fantasma no seu passado - um fantasma que não lhe permite prosseguir com aquela relação.
Tendo como ponto de partida uma relação a desabrochar, mas expandindo-se para todo um conjunto de possibilidades misteriosas e segredos do passado, este é um livro cheio de surpresas. O que começa por ser uma história de abandono rapidamente evolui para um possível mistério e depois para algo mais intenso à medida que o passado vem à tona. E, durante este percurso, nada é fácil, tudo é inesperado e as emoções são uma constante, não só pelas dificuldades no percurso dos protagonistas, mas também pela forma como a autora transmite estes dilemas e dificuldades ao leitor.
Não há personagens perfeitas. Eddie e Sarah têm cada um os seus fantasmas e os seus erros, e isso desde cedo se torna evidente. Mas o que surge aos poucos é a forma como estes fantasmas estão relacionados, bem como a influência que têm em todo o seu percurso, passado e presente. E assim a autora prolonga o mistério, insinuando possibilidades para depois apresentar uma resposta bem diferente, se nunca perder de vista o essencial: a ligação profunda que nasceu em poucos dias e que é a força motriz por trás de tudo o resto.
E é desta mistura de amor e imperfeição - de dúvidas, inseguranças, esperanças futuras e fantasmas passados - que nasce o tão grande impacto emocional da história. É fácil sentir empatia com Sarah na sua busca incessante, tal como é fácil, quando as respostas surgem, compreender as motivações de Eddie. É fácil até entender o porquê de certos comportamentos negativos de algumas personagens. Porque tudo deixa marcas e a forma como essas marcas se manifestam e algo de profundamente notável - tanto pelo que representa como pela forma como é contada. 
No fim, tudo converge para um final tão intenso como comovente. E é essa a marca maior que fica deste livro: uma história emotiva, feita de grandes perdas e de maior superação, em que o amor tudo conquista... até mesmo o passado. Recomendo.

Autora: Rosie Walsh
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 31 de julho de 2018

Mentes Poderosas (Alexandra Bracken)

Uma doença inexplicável alastrou pelos Estados Unidos e vitimou a grande maioria das crianças da nação. Mas não é esse o maior medo dos líderes do país. É que as crianças que sobreviveram parecem ter desenvolvido poderes e é isso que realmente assusta os adultos. Alimentando-se do medo global, o governo decide pôr todas as crianças em campos, classificando-as segundo as suas capacidades e dando às mais perigosas o destino... adequado. Ruby é uma delas e foi o seu poder a fazer com que fosse descoberta e também o que lhe permitiu sobreviver. Só que agora o engano que fez com que fosse classificada entre os menos perigosos está prestes a ser descoberto. E a única opção de fuga não é necessariamente agradável...
Um dos aspectos mais notáveis neste livro e também o que mais contribui para o tornar tão viciante é a forma como as circunstâncias das personagens despertam quase de imediato sentimentos fortes. O facto de serem crianças vulneráveis os protagonistas e as condições a que são reduzidas desperta uma estranha mistura de empatia e de revolta que basta para tornar praticamente irresistível a necessidade de saber o que acontece a seguir. Além disso, o contexto delicado, com poderes com um elevado potencial de destruição, mas com uma estrutura de defesa cujos actos são igualmente destrutivos, realça desde o início um impacto emocional que promete ser devastador.
E, embora baste o cenário global para tornar a leitura fascinante, é quando se observam os aspectos particulares que o verdadeiro poder se manifesta. Ruby, com os seus raros poderes e a difícil situação de se saber capaz de muito, mas incapaz de se controlar, é o tipo de personagem que é fácil compreender. E, quando o seu caminho se cruza com o de Liam e seus companheiros, o grupo que se forma é tão surpreendentemente coeso, apesar das diferenças entre as várias partes, que é impossível não ficar a torcer por eles.
Mas o caminho é longo e, dadas as circunstâncias, não é propriamente de esperar que haja dificuldades. Há esperanças, pequenos sucessos, perdas, fracassos, ilusões quebradas e... bem, a inevitável fuga constante. E, ao longo de todo este caminho, há inúmeras surpresas, situações perigosas, momentos profundamente emotivos e deliciosos laivos de humor. Há tudo, enfim. Tudo o que dá vida a uma história memorável e é precisamente essa a palavra que melhor define este início de série.
Intenso, viciante e cheio de possibilidades, trata-se, portanto, de um livro onde tudo cativa e tudo surpreende, das personagens ao seu percurso e ao difícil contexto em que se movem. E é isso mesmo que as grava na memória, deixando uma imensa curiosidade em descobrir o que o futuro lhes reserva depois deste início deveras promissor. Muito bom.

Autora: Alexandra Bracken
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Mentes Poderosas, clique aqui.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

A Seguir (Morris Gleitzman)

Felix e Zelda conseguiram fugir do comboio que os levava para um campo de morte, mas a situação continua a ser desesperada. E a única esperança das duas crianças é encontrar alguém que os possa proteger e esconder dos nazis. Após um início atribulado, encontram Genia, que aceita escondê-los em sua casa, com novos nomes e novas histórias. Mas os nazis estão em toda a parte e o perigo de serem descobertos é uma constante. Por isso, Felix sabe que tem de fazer planos. E, se for preciso ir embora para que Zelda fique mais segura, então é isso que fará.
Com duas crianças como protagonistas e o mais negro dos cenários como base, este é um livro que tem no seu equilíbrio entre inocência e crueldade a sua maior qualidade. Talvez por serem tão jovens, Felix e Zelda ainda conseguem ver o mundo com a inocência de quem procura a bondade e, mesmo quando assistem ao pior da natureza humana, mantêm esperanças e sonhos, ainda que difíceis de alcançar. E é isso que torna tudo tão marcante: quando a crueldade reina em toda a parte, haver crianças capazes de sonhar e pessoas capazes de se arriscar por elas é algo de especialmente impressionante, e o autor retrata este contraste na perfeição.
Também interessante é a forma como o autor simplifica um tema complexo sem lhe retirar nenhuma da sua brutalidade. Sendo um livro juvenil, faz sentido que a história não se alongue demasiado em linhas secundárias, embora fique uma certa curiosidade acerca de algumas personagens menos centrais. Mas o essencial está lá, no que Felix e Zelda têm de presenciar, nos medos, nos perigos, no comportamento dos que os rodeiam. E, se o contexto mais vasto fica para segundo plano, isso não tem assim tanta importância, porque é possível ver os horrores do todo por esta pequena parte - e ver o impacto sobre os mais inocentes de todos.
Também na escrita se reflecte este contraste entre inocência e crueldade, pois, pese embora os momentos mais perturbadores, a escrita flui com uma simplicidade quase leve. E é também por isso que o final tem o impacto que tem: porque há tanta esperança e tanta inocência pelo caminho que ver a forma como tudo termina - e tentar imaginar o que poderá vir a seguir - é algo de particularmente avassalador.
Simples quanto baste, mas com um poderoso contraste entre a inocência da juventude e a crueldade de um dos momentos mais negros da História, trata-se, pois, de uma história notável. Cativante, surpreendente e emotiva, uma leitura marcante e uma série para continuar a acompanhar.

Título: A Seguir
Autor: Morris Gleitzman
Origem: Recebido para crítica

domingo, 29 de julho de 2018

Inocência e Desejo (J. Kenner)

Wyatt Royce quer ser reconhecido por mérito próprio e não pela família a que pertence. E a exposição fotográfica que está a preparar pode ser o descolar de uma carreira brilhante. Isto se conseguir encontrar a mulher perfeita para o que tem em mente. O tempo começa a esgotar-se, mas, quando a candidata ideal lhe entra pelo estúdio adentro, Wyatt não sabe o que pensar. Kelsey é perfeita, mas também a rapariga que, doze anos antes, lhe partiu o coração. Estará ele disposto a confiar novamente, sabendo que, em tempos, ela lhe voltou as costas, e que medos antigos podem voltar a emergir?
Centrado na sensualidade, no amor e na superação de obstáculos, este é um livro que é bastante mais que um simples romance erótico. Sim, tem erotismo e sensualidade, mas tem-nos nas medidas certas, com os momentos mais escaldantes a surgirem precisamente quando mais acrescentam ao enredo e num delicado equilíbrio com todas as outras facetas da história. E é interessante ver como estas várias facetas - a atracção e o amor entre os protagonistas, mas também os fantasmas de um passado mal resolvido e a forma como as experiências passadas moldaram a postura dos protagonistas - encaixam num todo envolvente e harmonioso, de tal modo que é impossível parar de ler.
Para esta envolvência contribuem também as próprias personagens e o mundo em que se movem. À partida, Kelsey e Wyatt não podiam ser mais diferentes, ela com a sua timidez inculcada por medos passados, ele com a sua determinação feroz. Mas ambos escondem as mesmas inseguranças, os mesmos fantasmas. E, à medida que o passado vai sendo revelado e a relação presente evolui também, surge entre ambos uma harmonia fascinante, não só pelo que os une um ao outro, mas também pela superação que essa aproximação implica - na relação entre ambos e nas relações com os outros.
E, claro, há sensualidade, há paixão e há amor. Mas é curioso notar que, mais do que as cenas mais intensas, são os momentos de afecto simples os que mais marcam ao longo do caminho. Sendo certo, porém, que todos os elementos contribuem - desde os mais quentes aos mais enternecedores - para tornar a história tão cativante e surpreendente.
Com as medidas certas de emoção, sensualidade e até mesmo um delicioso toque de humor, trata-se, pois, de uma leitura intensa, viciante e cheia de boas surpresas. Uma história feita de erotismo e de amor - e de descobertas de uma vida para lá dos medos. Muito bom.

Autora: J. Kenner
Origem: Recebido para crítica

sábado, 28 de julho de 2018

Os Dias do Amor

Em todos os tempos e para inúmeras vozes, o amor foi tema e fonte de inspiração. Poesia em si mesmo, inspirou - e continua a inspirar - incontáveis poetas e infindáveis poemas. Poemas como os que compõem esta extensa antologia, que, abrangendo diferentes nomes, épocas e nacionalidades, apresenta um poema de amor para cada dia do ano. Para amar sempre, todos os dias.
Seria, talvez, de pensar que, numa antologia com mais de quatrocentas páginas, mas em que todos os poemas têm um tema comum, a leitura pudesse vir a tornar-se repetitiva. Não é o caso. Quer se decida ler o livro de ponta a ponta ou procurar - ou regressar - a um poema específico, é tal a diversidade de vozes e de perspectivas que nunca cansa ler tanto sobre o amor. Até porque cada olhar vê um amor diferente, traçado em cenários e emoções distintas. E isso faz de cada texto uma nova revelação.
Claro que, como em tudo, há preferências distintas, e também aqui a diversidade é uma força. Das  diferentes origens, épocas e vozes pessoais, resulta não só uma multiplicidade de perspectivas e sentimentos, mas também uma diversidade estrutural. Rima ou ausência dela, uma métrica meticulosamente calculada ou a liberdade de um ritmo totalmente livre, a estrutura clássica do soneto ou uma forma completamente indefinida. Para tudo isto há espaço e tudo faz sentido, pois, tal como o amor que serve de tema a esta antologia, também a poesia é vasta e cheia de possibilidades.
Não sendo embora o mais importante, importa ainda destacar a organização do livro, até por ser o tipo de livro a que dará certamente vontade de regressar mais tarde. Ao dispor os poemas por ordem cronológica, facilita-se uma procura futura por um poema específico. E mais, cria-se também uma certa imagem da evolução dos conceitos de amor - e das estruturas poéticas - ao longo do tempo, o que, além de reforçar a coesão do todo, acrescenta ainda uma nova camada de significado a esta antologia.
Para ler da primeira à última página, consecutivamente. E depois regressar aos lugares mais marcantes. É esta a impressão que fica desta longa, mas fascinante, antologia, onde o amor reina em todas as suas formas - e a poesia é vasta, ilimitada. 

Título: Os Dias do Amor
Autora: Inês Ramos (organização)
Origem: Aquisição pessoal