sábado, 6 de outubro de 2018

Coração Negro (Naomi Novik)

A cada dez anos, o Dragão, o feiticeiro do vale, leva uma rapariga para o servir durante dez anos. E, quando a rapariga volta, o apego que tem à sua terra desapareceu e ela parte rumo a outra vida. Ainda assim, é o preço a pagar pela protecção do feiticeiro e, naquele ano em particular, ninguém está muito preocupado, pois há uma rapariga que é a escolha óbvia. Só que... não é bem assim. Agnieszka não é bonita nem particularmente prendada, mas tem magia dentro de si, e isso torna-a a escolha óbvia para o irascível Dragão. Mas submissa é algo que ela também não é e, por isso, a sua aprendizagem revelar-se-á uma tarefa árdua para o feiticeiro. Principalmente porque tem, ao mesmo tempo, uma batalha terrível a travar contra a corrupção do Bosque que os ameaça a todos.
Sendo certo que o aspecto mais importante de um livro é sempre o conteúdo, este é um daqueles casos em que a primeira impressão é o arauto perfeito do que virá depois. A capa é maravilhosa e cheia de pequenos pormenores que, à primeira vista, captam a atenção e, depois de lida, a história fazem todo o sentido. Basta, pois, a capa para despertar a curiosidade e prometer muito de bom. Promessa que é cumprida em todos os aspectos.
É uma história de ritmo relativamente pausado, graças em grande parte às extensas, mas fascinantes, descrições de cenários, contexto, regras, comportamentos e rituais. E, ainda assim, facilmente se torna viciante. É que há algo de impressionante na forma como a história é construída, narrada pela voz de uma protagonista frágil, mas determinada, que cresce ao mesmo tempo que as batalhas se tornam mais difíceis. Além disso, há tantos momentos marcantes no percurso de Sarkan e Agnieszka que é impossível não querer saber o que acontece a seguir.
Há também uma estranha magia nesta história de... bem, de magia. As emoções parecem estar sempre à flor da pele, embora não haja espaço para grandes sentimentalismos - principalmente da parte de Sarkan. O mistério é igualmente intenso: o que é o Bosque, o que o move, de que forma poderá ser derrotado. E há ainda espaço para intrigas intrincadas, de corte e não só, o que torna tudo tão mais complexo e fascinante que tudo - mas mesmo tudo - acaba por se tornar irresistível.
E há magia também na escrita e na forma como nos leva num embalo tão estranho quanto natural. Agnieszka acaba de dizer adeus à sua antiga vida e, por isso, tudo é novo. Mas o mais importante em toda esta história são, ainda e sempre, as raízes. A forma como a autora explora este equilíbrio entre quebra e ligação é algo de brilhante e a forma como este equilíbrio se estende para lá de Agnieszka envolvendo outras personagens e chegando ao ponto de tocar até o distante Dragão é simplesmente memorável.
No fim, fica aquela tão mágica sensação de ter descoberto finalmente as respostas - e da forma mais satisfatória - mas de querer ficar dentro do livro um pouco mais. É essa, afinal, a verdadeira magia: a de uma história que nos leva para o seu interior, nos faz viver com as personagens e sentir tudo o que elas sentem e, depois, deixa uma pequena semente no fundo do nosso coração. Coração Negro é tudo isto. E é brilhante.

Título: Coração Negro
Autora: Naomi Novik
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Deuses Americanos - Sombras (Neil Gaiman, P. Craig Russell e Scott Hampton)

Shadow sai da prisão para descobrir que a mulher e o melhor amigo morreram no mesmo acidente e que a vida que julgava pode reconstruir está irremediavelmente perdida. Mas eis que uma nova estranha oportunidade surge no seu caminho, na forma do misterioso Sr. Wednesday, que parece saber tudo sobre ele e estar absolutamente empenhado em oferecer-lhe emprego. Só que não é um emprego vulgar e, ao serviço de Wednesday, Shadow terá de aprender a acreditar em tudo, desde a simples estranheza da vida à realidade de uma guerra entre deuses antigos e modernos.
Uma das primeiras coisas que importa dizer sobre este livro é que não importa ter lido ou não o romance original para desfrutar de toda a estranheza e fascínio desta intrigante história. É fácil entrar no mundo de Deuses Americanos, mesmo que, como eu, não tenham dele qualquer conhecimento prévio. E, para quem está a entrar neste mundo pela primeira vez, é, aliás, particularmente fascinante a forma como partilhamos da estranheza do protagonista. Tudo é estranho e tudo é novo. E é isso mesmo que torna tudo tão genial.
É, naturalmente, Shadow a personagem que se destaca, até porque as suas circunstâncias - e o facto de dar por si perdido num mundo completamente novo - despertam uma empatia imediata. Mas há muito mais para descobrir e em comum têm apenas este aspecto: é tudo fascinante. Desde Wednesday e os outros que partilham a sua natureza aos seus maiores inimigos, passando, é claro, pelas figuras aparentemente secundárias que vão deixando a sua marca ao longo do caminho. Além disso, há vários episódios que, apresentando personagens aparentemente isoladas do enredo central, permitem uma visão bastante mais vasta do que seria a presença dos deuses no mundo moderno.
E, claro importa ainda falar do elemento visual. Não conhecendo (ainda) o romance original, é difícil julgar da fidelidade em termos de caracterização. Mas é fácil ouvir a voz de Gaiman no texto e imaginar que essa linha se manterá também nas imagens. Além disso, a fidelidade à história é apenas uma faceta a ter em conta, porque há outras qualidades: a cor, a expressividade, a construção de um mundo onde o sonho, a imaginação e o divino têm um papel tão importante. Os diálogos podem ser a alma do enredo, mas é a arte que dá às personagens a imensa vida que têm. 
O resultado é ma leitura intensa, viciante e tão cheia de surpresas como de emoção. E um mundo diferente a explorar e desvendar, em que deuses antigos e deuses modernos convergem rumo a um conflito em que quase tudo será permitido. Genial, em suma.

Autores: Neil Gaiman, P. Craig Russell e Scott Hampton
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Cães Mais Famosos (Cláudia Cabaço)

São muitos os cães que deixaram a sua marca na história e na memória das pessoas, seja devido a actos de heroísmo ou pelo protagonismo em histórias que sempre tiveram o condão de encantar. Quem não se lembra, afinal, de Lassie ou de Rin Tin Tin? E quem nunca ouviu falar de Bo, o famoso cão de Barack Obama? Estes são apenas alguns dos protagonistas caninos deste pequeno, mas deveras adorável livro que, a cada novo protagonista, nos faz lembrar uma vez mais o porquê de se dizer que o cão é o melhor amigo do homem.
Bonito seria uma boa palavra para começar a descrever este livro. Bonito visualmente, porque bastas as várias imagens e o design apelativo para alimentar a vontade de continuar a folhear e depois a ler. E bonito, acima de tudo, pelo conteúdo, pois há tanta beleza, tanta ternura - e tanta inocência principalmente - nestas histórias que é difícil não chegar ao fim com um sorriso de encanto... e uma ou outra lágrima de emoção.
Outra boa palavra para o descrever será portanto enternecedor. E comovente. É que, se todas estas histórias são de amor e de devoção canina, algumas são também de heroísmo em circunstâncias terríveis. E, assim sendo, é apenas expectável que nem todas terminem com o final desejado. Mas ficam, ainda e sempre, as facetas mais positivas: o heroísmo, a coragem, o espírito de sacrifício, a companhia. O amor, enfim, porque é ele que está na base de tudo.
E há ainda um outro aspecto que cativa. Sendo tantas as histórias neste livro, e tendo ele "apenas" cento e sessenta páginas, é de esperar que as histórias sejam contadas de forma relativamente sucintas. É assim, de facto. Mas, curiosamente, talvez devido à fluidez da escrita, ou talvez devido à própria simplicidade do essencial, nunca fica a sensação de que falte dizer alguma coisa. Está lá a alma da história - e a dos seus protagonistas. O resto, cabe-nos a nós imaginar.
É um livro pequeno, tal como o título indica, mas grande nas emoções que desperta. Pois, nas suas histórias ternas e comoventes, faz-nos lembrar um tipo de amor mas simples, mas mais intenso e incondicional. O cão é realmente o melhor amigo do homem - e nada como este livro adorável para nos lembrar disso. Muito bom.

Autora: Cláudia Cabaço
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 2 de outubro de 2018

A Gathering of Ravens (Scott Oden)

Ele é o último da sua espécie, uma criatura lendária, perversa, mortífera, e está decidido a obter a sua vingança. Chama-se Grimnir e está vivo há séculos. Agora, porém, o mundo está a mudar, com uma nova fé a ameaçar as velhas crenças, e esta pode muito bem ser a sua última oportunidade de se vingar do assassino do seu irmão. Um homem e a sua protegida entraram, incautos, na sua gruta. Quando saírem... será para diferentes destinos e muitas batalhas inesperadas. Pois Grimnir pode ser um assassino, e dos mais perversos... mas tem também o seu próprio código. E está decidido a segui-lo.
Com uma intrincada teia de lendas e de crenças, e um cenário bastante vasto para os acontecimentos, este é um livro que parece arrancar de forma um pouco lenta. Mas lento nem sempre quer dizer aborrecido, e este livro é tudo menos isso. Primeiro, há o mistério e as sombras da situaçã de Étain. Depois o perigo, a perda, a sua estranha forma de cativeiro. E então... Então Grimnir começa a revelar a sua verdadeira complexidade e a intriga em seu redor torna-se mais vasta. Além disso, há dois mundos de fé em colisão, criaturas antigas, e uma estranha e poderosa (e assustadora) magia. O resultado é um mundo fascinante.
Também bastante impressionante é o desenvolvimento de Grimnir e de Étain. Ele é uma criatura sem coração - ou assim parece - mas os seus actos revelam aos poucos um interior bem mais complexo. Ela é frágil, quase indefesa, mas aprende a tomar conta de si, fiel à sua fé, mas com uma mente que começa a abrir-se às novas realidades que se desenrolam diante dos seus olhos. E as circunstâncias de ambos - a sua união forçada e depois natural - tornam os acontecimentos do livro muito mais poderosos devido à superação das diferenças. No fim da história, Étain e Grimnir já não são os mesmos. Mudaram-se um ao outro. E contudo, a sua essência mantém-se a mesma.
Um último aspecto que importa mencionar é, claro, a escrita. Sim, a história evolui a um ritmo pausado. Mas há magia em cada canto, não apenas na história, mas também na forma como é contada. Há escuridão, há sangue (muito sangue), mas há também uma espécie de pureza a florescer no meio de tudo isto. E a forma como o autor espalha estas pequenas sementes de esperança quando tudo parece convergir para o mais negro dos fins... bem, é bastante brilhante.
Levará o seu tempo a desvendar toda a extensão do seu poder - mas é então que se torna fascinante. Pois há vida nos corações de todas as personagens - mesmo quando rodeadas de morte. E é isto que faz desta história uma viagem tão memorável. E tão marcante. 

Autor: Scott Oden
Origem: Recebido para crítica

domingo, 30 de setembro de 2018

O Cobrador (Seth C. Adams)

Ao entrar na floresta pela primeira vez e avistar uma luz misteriosa, Joey está longe de imaginar que a sua infância e inocência acabarão ali. E o primeiro momento marcante, embora de conflito, também não lhe insinua que isso esteja prestes a acontecer. É ali que faz o seu primeiro novo amigo, no início do que se tornará o Clube dos Intrusos. Só que a luz misteriosa acaba por ser um carro abandonado com uma fortuna no interior e um cadáver na mala. E, enquanto Joey e os amigos começam a imaginar as possibilidades que aquele dinheiro lhes poderá proporcionar, outros há, porém, que também o procuram. Outros que não olharão a meios para atingir os seus fins.
Bastam algumas páginas para começar a sentir a ambiguidade que acompanhará o ritmo desta leitura até ao final. Ambiguidade não só nas sensações que desperta, mas principalmente nas decisões e comportamentos das personagens. Afinal, trata-se de um grupo de crianças e, assim sendo, a primeira coisa a surpreender terá de ser, necessariamente, a mistura de intrepidez e de violência que se manifesta no seu caminho. Mas toda a história é de sentimentos contraditórios, com empatia e aversão a ganhar forma em medidas iguais, e por isso surpreende também a mistura de distância para com as motivações das personagens... e a necessidade de saber se tudo acabará bem.
Também o ritmo do enredo parece sofrer oscilações, com um avanço relativamente pausado na primeira fase, ainda que rasgado por vários picos de intensidade, e uma intriga crescente que culmina num final bastante forte. Não é propriamente uma leitura compulsiva, até porque as personagens levam o seu tempo a entranhar-se. Mas tem, ainda assim, muitas boas surpresas ao longo do caminho e um ambiente de mistério que, ao acabar por conduzir num rumo totalmente diferente do que insinua, reforça o impacto dos momentos mais tensos.
Nem tudo encontra resposta e, nalguns aspectos, é inevitável a sensação de curiosidade insatisfeita - principalmente no que diz respeito ao carro e ao Cobrador. Ainda assim, há uma linha de desenvolvimentos que, mais do que os mistérios em si, culmina numa conclusão satisfatória: querendo ou não, Joey e os amigos acabaram por crescer. E, mais do que o que ficou por explicar, fica a imagem desse crescimento - e das marcas que inevitavelmente deixou.
Leva o seu tempo, sim, mas acaba por valer a pena. Pois, com a sua narrativa de ambiguidades, retrata uma história tão composta de segredos e perigos como das (tudo menos) simples barreiras do crescimento. Acaba, pois, por ser uma boa leitura - e um autor a acompanhar.

Título: O Cobrador
Autor: Seth C. Adams
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Convite


sábado, 29 de setembro de 2018

Atlas (Jorge Luis Borges)

Todos os lugares de uma viagem deixam, de alguma forma, a sua marca - ainda que nem sempre sejam fáceis de exprimir. E será, talvez, essa a essência deste pequeno livro, que, mais que um registo de viagens, parece formar mais um atlas de impressões, em que memórias, imagens, evocações e poemas encontram um equilíbrio delicado e cativante. Da brevidade, surge uma imagem completa, ainda que não exaustiva. E, no fim, fica a impressão de ter viajado - no espaço, mas também no tempo - sem se ter saído do sítio.
Provavelmente o aspecto mais cativante deste pequeno livro é a forma como parece possível dizer tanto em tão poucas linhas. É como se cada texto evocasse uma passagem completa, ainda que não haja grandes descrições e grande parte das referências visuais surjam das diferentes fotografias. Talvez porque a viagem não se concentra apenas no espaço físico: divaga por referências a autores, a memórias, a afectos e experiências pessoais. E, assim, a impressão que fica é a de ver aqueles momentos pelo olhar de quem os exprime: como uma memória enquadrada, completa.
Não é - e importa ter isto em mente - o que habitualmente se espera de um livro sobre viagens e talvez seja também por isso que a impressão que provoca é tão surpreendente. É que a viagem é, acima de tudo, ao mundo do autor, mas fica, ainda assim, a sensação de ter viajado. Além disso, a diversidade de imagens, de referências e até de registos faz com que pareça haver neste livro um mundo inteiro - apesar de haver certamente, para cada espaço ou referência, muito mais a contar.
E, claro, esta mistura de precisão e brevidade faz com que as páginas voem. É fácil mergulhar nesta estranha viagem e, embora fique a sensação de haver ainda mais mundo para descobrir (e basta qualquer um dos textos para gerar esta sensação), fica também a ideia de um percurso satisfatório: como que de ver pelos olhos de quem viu e, assim, ver de uma forma única.
É um livro breve, sim, e aparentemente simples. Mas há um equilíbrio tão eficaz e uma experiência tão pessoal por detrás de cada momento que, mais do que perguntas sem resposta ou cenários vistos apenas de forma velada, fica a sensação de uma viagem única. E basta isso para que a leitura valha a pena.

Título: Atlas
Autor: Jorge Luis Borges
Origem: Recebido para crítica