segunda-feira, 30 de maio de 2022

O Gato que Salvava Livros (Sosuke Natsukawa)

A morte do avô de Rintaro deixou-o desligado da vida, e ainda mais isolado do mundo. A sua melhor companhia sempre foram os livros, e é neles que agora procura refúgio enquanto espera que alguém dê rumo à sua vida. Mas as respostas virão de onde menos espera, na forma de um gato falante com várias missões para lhe atribuir. Tudo em prol do seu amor maior, naturalmente - os livros.
O aspeto que mais sobressai desta leitura é inquestionavelmente o delicado equilíbrio entre o improvável e o familiar. Temos um gato falante, livros que caem do céu como neve, portas secretas, labirintos e até um livro com dois mil anos a ganhar vida. E, subjacentes a estas ideias, temos um conjunto de coisas com que qualquer leitor se poderá identificar e que convergem numa só: o amor aos livros.
Também interessante, tendo em conta todos estes elementos, é a relativa brevidade do livro. Há mesmo alguns momentos, no início, em que tudo parece ser um pouco apressado. Com o progredir da história, contudo, esta concisão ganha um novo sentido, pois reflete não só o poder universal dos livros, mas principalmente os diferentes fios que puxam cada leitor. E que, sendo diferentes, têm necessariamente de ser mais intuídos do que descritos.
Finalmente, importa salientar o impacto emocional inesperado. Não é um livro de grande dramatismo, e até os momentos mais intensos parecem ter uma certa calma a envolvê-los. Mas é uma serenidade que faz sentido, e que abrange também momentos de surpreendente ternura e de crescimento pessoal.
Relativamente breve, mas muito cativante e cheio de empatia, trata-se, pois, de um livro sobre livros que ecoará no coração de quantos adoram ler. E de uma história curiosa sobre o crescimento interior de um protagonista que nem sempre é fácil de entender, mas com quem é muito fácil simpatizar.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Revelação de Capa - Amor de Pechisbeque


 
Como é que alguém se apaixona? Abrindo os olhos.

Quando alguém termina um relacionamento amoroso, a vida parece um verdadeiro fim do mundo. O desnorte nos sentimentos baralha-nos em tudo o resto, desde a simples ocupação dos tempos livres com os amigos, à própria estabilidade pessoal e familiar. Amor de Pechisbeque é um romance escrito à flor da pele, que nos faz descobrir vírgulas onde só vemos pontos finais.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Uma Mulher Aparentemente Viva (Cláudia R. Sampaio)

A mulher acorda... e o mundo que vê entrelaça-se entre futuros e passados de uma mente quase labiríntica. Parte numa viagem à mente para descobrir a solidão e encontra-se, transforma-se... a si e ao que contempla. E é a história dessa mulher, nos seus improváveis contornos, que molda a forma desta poesia.
Geralmente, ao ler um livro de poesia, espera-se uma certa medida de coesão, havendo também, contudo, uma certa independência entre os poemas. Neste caso, essa coesão é mais profunda e indivisível, pois não só existe uma protagonista definida, como também uma certa linha sequencial, o que implica um todo mais vasto, maior do que a soma das partes, e que gera um impacto global maior do que o de qualquer leitura parcial.
É um livro de poesia, mas que parece ter uma história para contar, ainda que de forma muito singular. E isso significa ecos e repetições na forma, ideias que se vão multiplicando ao longo do livro. Por outro lado, as imagens evocadas vão do contemplativo ao quotidiano, evocando uma espécie de espiritualidade peculiar enraizada na solidão em pleno mundo material. Ora, esta conjugação suscita um certo desconcerto, mas que faz também um estranho sentido.
Há também como que uma reflexão subjacente, mas impossíveis de descrever, pois surge mais de impressões do que pensamentos elaborados. Também isto tem um efeito desconcertante, pois o despertar da mulher é também uma viagem em comunhão com o leitor. Mas também esta perplexidade dá lugar a momentos de fascínio.
História em forma de poema, ou poema esculpido em história, trata-se, em suma, de um livro singular, mistura de contemplação e de realidade, de ritmos e de impressões indescritíveis, enigmático, mas muito cativante. Uma forma especial de vida, digamos assim. 

domingo, 22 de maio de 2022

O Fim dos Homens (Christina Sweeney-Baird)

Tudo começa com um caso do que parece ser uma doença incómoda mas não grave, como uma gripe ou algo similar. Mas os verdadeiros contornos do caso não tardam a revelar-se sob a forma de uma doença fulminante e mortal. Inicialmente, os primeiros casos são ignorados, o que permite uma propagação descontrolada da doença. E é então que tudo se torna claro: há uma nova peste a espalhar-se pelo mundo. E afeta exclusivamente os homens.
Parte do poderosíssimo impacto deste livro resulta dos inevitáveis paralelismos com a realidade recente. Não, não são muitas as semelhanças entre esta peste e a recente pandemia, mas coisas como a necessidade de tomar medidas impopulares, o abalo na vida das pessoas, as perdas e transformações e a diversidade de reações criam, de certa forma, um laço entre ficção e realidade. Além, claro, de suscitarem a inevitável questão de como reagiria o mundo perante uma pandemia de repercussões muito mais graves.
Outra das grandes forças deste livro está na multiplicidade de pontos de vista. Ao contar a evolução da doença e as consequentes reações através da perspetiva de várias personagens, a autora constrói um enredo muito mais completo e intenso, abrangendo momentos de grande tensão e outros de desespero, episódios dramáticos, tragédias e rasgos de esperança, pequenos rasgos de alegria e muito sacrifício e superação.
O que me leva a outro dos grandes prodígios desta história: a capacidade de refletir todas as facetas. Não é uma história de heróis perfeitos nem de união absoluta e perfeita na busca por uma resolução. É uma história de seres humanos, corajosos e cobardes, abnegados e egoístas, lutadores e pessimistas, esperançosos e desesperados. E estas características coexistem, por vezes, na mesma personagem, o que implica uma história de personalidades complexas, falíveis e nem sempre compreensíveis perante a maior das adversidades. Humanas, em suma.
E, claro, importa salientar que não é uma história de resoluções fáceis. Não o poderia ser, atendendo às circunstâncias. Mas é também isso que a torna tão real, o facto de tudo ser complexo e multifacetado, revelando o melhor e o pior das personagens e colocando-as perante escolhas inevitáveis de modo a refletir quem são e a refletir sobre o que se faz depois do impensável.
Intensa, angustiante, avassaladora, eis, pois, uma história passada no futuro, mas com laços de proximidade. E um livro que, através das suas circunstâncias dolorosas e das suas personagens multifacetadas, cativa, surpreende, abala e enternece, sempre nas medidas certas. Maravilhoso, em suma. E inesquecível.  

sexta-feira, 20 de maio de 2022

O Combate Quotidiano - Volume Dois (Manu Larcenet)

A vida continua depois da perda. As barreiras do quotidiano continuam a surgir, mesmo quando tudo parece ter estagnado. E cada novo sucesso parece vir acompanhado de novas dificuldades e desafios. Marco tem de aprender a lidar com os seus medos e angústias. De descobrir formas de lidar com as mudanças do mundo. E de aceitar os inesperados com que a vida lhe atira...
Parte da beleza deste livro, tal como do anterior, na verdade, é a forma como reflete, através de percursos pessoais, problemas comuns a muitos seres humanos. A perda de um ente querido e a consequente solidão, as aspirações que não são partilhadas pelos dois membros do casal, a perda de um trabalho que se tornou identidade, os preconceitos e a necessária superação... é efetivamente um combate quotidiano o que esta história descreve. E é por refletir facetas do quotidiano de muitos que a história é tão cativante, mesmo nos elementos que deixa em aberto.
Também a nível visual há poderosos contrastes a realçar estas pequenas grandes lutas. Cenários luminosos e sombrios refletem o equilíbrio entre tristezas e alegrias. Os objetos que acompanham as partes mais introspetivas realçam o simbolismo das coisas que não são só coisas. E a expressividade nos rostos de traço relativamente simples enfatiza a melancolia desta história de vidas mais ou menos normais.
Ainda um último ponto a salientar tem a ver com o facto de as personagens não serem perfeitas. Sejam fantasmas do passado, indecisões presentes, mudanças impossíveis de aceitar ou meras explosões de mau feitio, todas as personagens tem o seu lado menos perfeito, o que as torna mais humanas e mais marcantes nas suas pequenas epifanias pessoais.
É uma história singular, mas feita de toda uma vastidão de questões importantes. Aparentemente simples, mas capaz de refletir a complexidade do mundo. E intensa no seu equilíbrio entre desolação e esperança, entre exasperação e ternura. Entre os desafios e as pequenas luzes do quotidiano da vida.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Paraíso (Pedro Eiras)

O caminho começou no Inferno e foi progredindo. Agora, abrem-se as portas do Paraíso. Mas nada é, também aqui, como esperado. Longe da rutilante glória da paz perfeita e da absoluta impassibilidade, este é um paraíso de fúria salvífica, de interrogação aos dogmas do mundo, de contemplação dos mártires da bondade e de abertura aos desenquadrados da vida. Um paraíso mais ambíguo, e povoado até de matizes sombrios, mas por isso mesmo mais glorioso.
Conclusão de um tríptico que, qual Divina Comédia, nos levou já a Inferno e Purgatório, este último livro é como que o culminar do caminho. Contempla um Paraíso de imperfeitos, tudo questionando. E, através de imagens verdadeiramente notáveis, evoca quotidiano e espiritual, fé e ausência dela, almas de bondade e crueldades absurdas.
Existe uma evidente coesão entre as três partes da viagem, mas este livro chega ainda mais longe. Se, na fase inicial, é possível distinguir os poemas como unidades independentes, a partir de um certo ponto, e embora continue a haver divisões, torna-se clara a unidade de um apelo que, em tom de exortação e de quase profecia, transmite um crescendo de intensidade que funciona como uma espécie de exaltação.
E, claro, muito à semelhança dos livros anteriores, também aqui não há grandes imposições em termos de regras estruturas, o que significa que as palavras - e as imagens por elas evocadas - fluem com uma liberdade avassaladora.
Chegamos ao fim do caminho, e o Paraíso está longe de ser o das promessas. Já o que este livro prometia é amplamente superado, com o seu equilíbrio de luz e sombra, a sua voz única e cativante e a capacidade de tornar naturais as mais inesperadas imagens. Não é o Paraíso esperado, não. Mas é certamente glorioso.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Diário de Uma Miúda como Tu - A Sério ?! (Maria Inês Almeida e Manel Cruz)

A Francisca está a entrar na adolescência, o que significa mudanças de humor, novos interesses e algumas distrações. No essencial, contudo, continua igual a si mesma, com os seus interesses e frustrações, os seus altos e baixos e as suas aventuras ao longo de um quotidiano normal. É uma miúda como qualquer outra... mas quem disse que era simples?
Parte do que torna estes livros cativante, mesmo para quem já não faz parte do seu público principal, é a forma como acompanham o crescimento da protagonista, não só nas suas aventuras mais caricatas, mas também na forma como lida com os obstáculos da vida. São histórias simples e descontraídas, assentes sobretudo nos dilemas da vida normal, mas não deixam de ter muitos momentos divertidos e algumas surpresas ao longo do caminho.
Outro ponto interessante são as mensagens subjacentes. Uma delas prende-se, naturalmente, com a questão do ambiente, que é uma das preocupações da protagonista, marcando por isso presença em todos os livros. Mas há também uma ideia subjacente à absoluta normalidade da Francisca. Não é uma miúda perfeita com notas perfeitas e comportamentos imaculados. É uma miúda normal, com as suas particularidades e vulnerabilidades, que são também o que a torna tão fácil de  compreender.
Finalmente, importa referir, como sempre, o aspeto visual, que, de forma simples mas criativa, confere a estes livros o aspeto de verdadeiros diários, tornando a leitura mais imersiva e envolvente.
Uma história simples sobre os desafios do crescimento de uma adolescente perfeitamente normal, mas também singular na sua normalidade, com novos desenvolvimentos, mas com a mesma leveza e capacidade de cativar. Assim é, em suma, este novo diário da Francisca - uma boa leitura, como sempre.