terça-feira, 19 de julho de 2016

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (Martha Batalha)

Pouco depois de a irmã fugir de casa dos pais, Eurídice casou. Não se sabe se por paixão passageira ou se por simples pragmatismo. O que é certo é que, desde o seu casamento, Eurídice aprendeu a ser a mulher perfeita para Antenor, dedicada apenas ao marido e aos filhos. Ou... quase. É que Eurídice tem uma inteligência acima da média e, por isso, precisa de um projecto capaz de a realizar. E, quando os tempos (e a mentalidade do marido) objectam a essa realização, a apatia torna-se na única resposta. Isso e as memórias de um passado que, de forma inesperada, persiste em voltar...
De tudo o que este livro tem de memorável, e é bastante, há um aspecto que, desde logo, sobressai: a capacidade da autora de resumir ao essencial a caracterização de personagens, época e ambiente em que tudo decorre, sem por isso deixar nada por dizer. Poder-se-ia definir este livro como uma saga familiar, em que vidas inteiras vão sendo tecidas e entretecidas. E, no entanto, pouco passa das duzentas páginas. Duzentas páginas em que tudo o que é importante é dito e nada de irrelevante tem lugar.
Ora, se tudo na escrita tem a medida certa, e isto é, desde logo um ponto forte, há ainda um outro traço da escrita que importa referir. É que a forma como a autora conta a história das suas personagens, de modo tão intimista e, ao mesmo tempo, tão imparcial na forma como observa as suas vidas, facilmente cativa e nunca deixa de surpreender. É como se as almas e corações dessas personagens estivem expostas - não em palavras nem em juramentos, mas em puras e simples acções.
Depois, há a história e a forma como as vidas das personagens retratam de forma tão certeira os tempos e as mentalidades em que se movem. Eurídice, tão inteligente e com tantos sonhos, reduzida ao papel de esposa perfeita, alvo dos (eternos) mexericos da vizinhança, mas incapaz de encontrar a realização de que precisa. Guida, o aparente oposto da irmã, mas destinada a um percurso de descoberta em que a verdade é muito mais dura do que quaisquer aspirações românticas. E outros que, ao longo da jornada, se introduzem nas suas vidas para as alterar, para o bem ou para o mal. Tudo é relevante. Tudo é interessante. E é fácil sentir e sofrer e sonhar com estas personagens, até àquele último ponto de passagem em que o resto... fica nas asas da imaginação.
Nem todos os livros precisam de ser grandes para ser complexos. E muito menos precisam de ser difíceis de ler. A prova disso está neste livro que, tão sucinto quanto memorável e cativante do início ao fim, retrata de forma precisa e equilibrada as infinitas complexidades da vida. Muito bom.

Autora: Martha Batalha
Origem: Recebido para crítica

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