quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Arranha-Céus (J.G. Ballard)

Concebido para proporcionar aos seus residentes todas as comodidades necessárias, o arranha-céus, parte de um empreendimento que englobará outros quatro iguais a ele, serve de residência a uma elite abastada e culta. Nos seus quarenta andares, acolhe cerca de duas mil pessoas, naquilo que se espera ser um exemplo de sucesso. Mas os primeiros problemas não tardam a surgir. Primeiro, são as falhas do próprio prédio, que cedo dão lugar a complicações entre vizinhos. Depois, a violência alastra e os estratos sociais implícitos na distribuição dos andares levam a uma inevitável tomada de partidos. Seguir-se-á o caos - ou a instalação de uma nova ordem?
Se há algo que desde muito cedo se percebe sobre este livro é que nunca poderá ser uma leitura fácil. A premissa, a evolução dos acontecimentos, a própria escrita - há em tudo isto uma tal complexidade que toda a atenção é necessária para que nada fique por assimilar. E, assim sendo, este é um livro que exige muita concentração... mas que, apesar disso, facilmente nos puxa para toda a sua perturbadora estranheza.
Mais que os acontecimentos propriamente ditos, ainda que também estes tenham muito de perturbador, é o tom do próprio livro que realça o impacto da narrativa. Denso, quase opressivo, num registo cada vez mais sombrio e, contudo, parecendo encarar com naturalidade o crescendo de violência que é narrado, reflecte de forma muito precisa o que será o ambiente cada vez mais caótico do arranha-céus. Além disso, ainda que haja motivações pessoais associadas a algumas das personagens, o verdadeiro motivo na base de todo o caos nem sempre é fácil de assimilar, o que deixa em aberto várias possibilidades. As diferenças sociais, o isolamento, a necessidade de assumir um papel dominante ou, pelo contrário, de uma resignação à submissão são apenas alguns dos elementos presentes ao longo da narrativa, e qualquer um deles - ou todos em conjunto - poderiam justificar os acontecimentos.
No fundo, é como se tudo o que acontece tivesse um motivo - ou uma questão subjacente - ainda que alguns deles apenas estejam claros para os protagonistas desses acontecimentos. E assim o que acontece é que actos de violência, mas também de desleixo, da manifestação de uma ambição sem regras ou, pelo contrário, de absoluto desinteresse, coexistem num estranho equilíbrio em que, apesar de tudo o que de quase surreal há no evoluir das coisas, há também elementos de realidade facilmente reconhecíveis.
A soma de tudo isto é um livro exigente, em que nem sempre é fácil acompanhar a linha de acção e as motivações das personagens. Mas também uma narrativa em que, de tudo o que tem de estranho e de sombrio e de perturbador, sobressai um conjunto de questões relevantes e uma visão da natureza humana que, não sendo particularmente favorável, acaba por ser, em muitos aspectos, terrivelmente certeira. Muito interessante, portanto.

Título: Arranha-Céus
Autor: J.G. Ballard
Origem: Recebido para crítica

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