terça-feira, 16 de abril de 2013

O Livreiro (Mark Pryor)

De férias e em busca de algo com que se ocupar, Hugo Marston, chefe de segurança da embaixada americana em Paris, decide visitar o seu amigo Max na sua banca de livros junto ao rio. Faz algumas compras, quase por impulso, e, não tendo consigo dinheiro suficiente, ausenta-se por uma hora para ir em busca de um banco. Volta uma hora depois, a tempo de ver o amigo ser raptado sem nada poder fazer para o ajudar. Mas Hugo não está disposto a desistir e, se foi incapaz de impedir o rapto, então está determinado a fazer tudo o que puder para descobrir o que aconteceu e trazer o amigo de volta. O problema é que o velho Max, com o seu passado secreto e a sua pequena banca, chamou a atenção de gente poderosa. E a própria polícia parece não estar assim tão interessada em desvendar o mistério.
Mistério, acção é um pouco de História, num enredo cheio de personagens carismáticas e com uma intriga elaborada, fazem deste livro uma leitura intrigante e viciante. E por vários motivos, sendo de referir, desde logo, o estilo de escrita, bastante directo e centrado na acção, mas com a medida certa de contexto e descrição de cenários. Há sempre uma pergunta que precisa de resposta ou uma situação em que é preciso agir, o que mantém viva a curiosidade em saber mais, e, além disso, o ambiente, com todas as suas peculiaridades, é caracterizado com bastante precisão, sem excessos, mas de forma a tornar esses cenários fáceis de imaginar.
A este ritmo intenso, tanto a nível de momentos de acção como de enigmas para desvendar, junta-se a inevitável presença de um passado que paira sobre as personagens. E isto aplica-se tanto a simples experiências pessoais (como a antiga relação de Hugo ou o primeiro casamento de Claudia) como a factos com ligação a momentos históricos (como a história de Max, sobrevivente do Holocausto). Estas ligações implicam, aliás, dois pontos fortes. A relação que têm com o grande mistério (do desaparecimento de Max e de todas as consequentes revelações) está longe de ser a expectável, e a forma como o seu passado contribui para essa expectativa potencia o impacto das revelações mais surpreendentes. Além disso, a existência de um passado, que implica mais ou menos dor e mais ou menos crescimento, torna as personagens mais humanas, gerando assim mais empatia.
Por último, mas igualmente importante, falta referir, claro, a caracterização das personagens. Enquanto protagonista carismático, Hugo sobressai, com a sua relativa tendência para o heroísmo a conjugar-se com um bom sentido de humor e algumas experiências (passadas a presentes) a revelar as suas vulnerabilidades. Mas quase todas as personagens têm algo de carisma, seja na forma como agem perante as circunstâncias, seja no que os liga enquanto colegas ou amigos (ou algo mais). É fácil encontrar algo de cativante em muitas as personagens e também isso é parte do que cativa neste livro.
Misterioso e envolvente, com um enredo cheio de surpresas e um conjunto de personagens tão interessantes como as circunstâncias em que se encontram, O Livreiro apresenta uma história cativante, num cenário bem construído e com um equilíbrio fascinante entre intriga, acção, emoção e um delicioso toque de humor. Um livro viciante, portanto. Muito bom.

Novidade Porto Editora


Ella Beene vive uma vida idílica numa pacata cidade americana, com o marido, Joe, e os dois filhos do primeiro casamento deste. Certo dia, porém, infringindo uma regra de ouro, Joe vira costas ao mar e uma onda arrasta-o para o fundo, levando consigo os seus muitos segredos.
Convencida de que a mãe biológica dos filhos, Paige, os tinha abandonado, é com grande surpresa que Ella a vê aparecer no funeral, decidida a recuperar a custódia.
À medida que os segredos emergem, Ella vê a sua vida perfeita ruir como um castelo de cartas. Mas há duas crianças que precisam de si mais do que nunca e pelas quais está disposta a enfrentar todas as adversidades…

Seré Prince Halverson é mãe e madrasta e cresceu com uma mãe e uma madrasta. Trabalhou vários anos como copywriter freelance. O maior amor do mundo é o seu primeiro romance e está a ser traduzido para 19 países.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Receitas de Amor (Anthony Capella)

Laura é uma jovem americana a estudar em Roma. Após algumas experiências desastrosas, convence-se de que o seu príncipe encantado até pode estar em Itália, mas só se for um chef de mãos hábeis. Não o espera encontrar, claro, mas, por acaso ou não, Tommaso surge na sua vida. Afirma ser o chef de um restaurante conceituado e está disposto a prová-lo a Laura, se for isso que é preciso para a conquistar. O problema é que Tommaso não é um chef, mas sim um empregado de mesa. Para seduzir Laura, precisa da ajuda do seu amigo Bruno, ele sim um cozinheiro experiente. Bruno sente-se em dívida para com o amigo e, apesar de alguma relutância, acaba por aceitar cozinhar para ele. Mas o que ele ainda não sabe é que Laura é a mulher por quem se apaixonou e com quem nunca teve a coragem de falar. Entre tantas confusões e enganos, a história não pode acabar bem...
Conjugando romance e gastronomia no centro de um enredo feito de paixões e enganos, Receitas de Amor é, no essencial, um livro para divertir e entreter. Situações caricatas surgem em abundância e, em consequência, vários momentos divertidos, e toda a história é contada no tom leve e agradável de uma história que, apesar de todas as confusões envolvendo os protagonistas, acaba por ser bastante simples. Há muitos episódios curiosos e até, por vezes, um toque de emoção, o que, aliado a um enredo intrigante o suficiente para despertar a curiosidade relativamente à embrulhada em que as personagens se conseguiram meter, resulta numa leitura envolvente e com vários momentos particularmente bons.
A parte romântica é feita dos habituais equívocos presentes neste tipo de história. Cada personagem tem intenções completamente diferentes e as circunstâncias colocaram-nos numa posição que, sendo aceitável, no princípio, cedo se afasta do que era suposto ser. Isto é parte do que dá origem às grandes confusões, criando para os protagonistas um conjunto de peripécias e conflitos que, peculiares como são, acabam, ainda assim, por captar o interesse de quem lê. E a isto juntam-se as questões de culinárias, também elas uma boa base para episódios caricatos, mas também uma forma interessante de conhecer melhor a cozinha romana. A descrição dos detalhes gastronómicos é, aliás, bastante exaustiva, havendo, por vezes, momentos em que quase se sobrepõe à história.
Quase tudo gira em torno de Bruno, Tommaso e Laura, o que leva a que algumas questões fiquem em aberto, nomeadamente devido à discreta intervenção da Máfia nos restaurantes e a algumas das opções de Tommaso quando se vê à frente do restaurante. São elementos secundários, já que o centro é o romance, mas que tornam a história mais interessante, pelo que poderiam, talvez, ter sido um pouco mais explorado, apresentando consequências, por exemplo.
Este é, portanto, um livro que, sem ser particularmente complexo, cativa pela peculiaridade das circunstâncias dos seus protagonistas e pela empatia que são capazes de gerar, mas também, e principalmente, pelo bom equilíbrio entre um caricato triângulo amoroso e um desenvolvimento interessante dos detalhes gastronómicos. Um livro agradável e divertido, em suma, e uma boa leitura para descontrair.

domingo, 14 de abril de 2013

A Lenda do Vento (Stephen King)

Durante a sua jornada seguindo o Caminho da Luz, Roland Deschain e os seus companheiros encontram-se na iminência de enfrentar uma terrível tempestade e vêem-se forçados a procurar abrigo numa cidade abandonada. A tormenta-mor durará longas horas e virá com ventos furiosos e um frio letal. Felizmente, uma das casas da cidade é sólida o suficiente para proporcionar o abrigo necessário, mas, mesmo assim, a noite será longa. E, quando os seus companheiros lhe pedem uma história para passar o tempo, Roland escolhe recordar os seus tempos de juventude, uma das suas primeiras intervenções enquanto pistoleiro. E relacionada com esse episódio, bem como com as suas mais queridas recordações de infância, uma história que a sua mãe lhe contava e que sempre foi uma das suas favoritas. Chamava-se essa história A Lenda do Vento.
Apesar de, cronologicamente, a acção deste livro se situar entre os volumes quatro e cinco da saga A Torre Negra, a verdade é que - tal como o próprio autor diz no prólogo - não há grandes dificuldades em ler este livro sem conhecer o restante da série. Parte da história diz respeito ao passado de Roland, noutra ele nem sequer está envolvido e o restante diz respeito a episódios relativamente breves da sua jornada. Não há, por isso, nada de essencial em falta e, excepto pela estranheza inicial face a alguns termos específicos do sistema, não há qualquer dificuldade em acompanhar a história, mesmo sem ter lido os restantes livros.
Fica, sim, muita curiosidade em conhecer o resto da série. Roland é uma personagem cativante e, do contraste criado entre o jovem do passado e o adulto que conta a história, surgem todos os traços de uma personalidade carismática e complexa, construída sobre um passado difícil e um papel a desempenhar. Personalidade que sobressai tanto das suas interacções com os companheiros como das suas acções enquanto jovem. Além disso, também as personagens em seu redor têm muito de cativante, o que, apesar da sua intervenção discreta, desperta a curiosidade em saber mais sobre as suas histórias.
Mas, para além das perguntas em aberto, esta é, apesar de tudo, uma história que pode ser lida de forma independente, e aqui entram outras características interessantes. Desde logo, destaca-se a forma como o enredo é construído: uma história dentro de uma história dentro de uma história (ou parte de). Cada história ocorre num momento diferentes, e uma delas com um protagonista diferente, mas as ligações entre elas são fascinantes. O sistema tem muito de interessante para desvendar, com a sua conjugação entre magia e elementos de um mundo tecnológico, criaturas inexplicáveis e acções simplesmente humanas. E também o cenário muda, com os efeitos da passagem do tempo através dos diferentes episódios, da história do jovem Tim ao Roland adulto. Tempo que, nesta história, acaba por ser tão relevante como qualquer das personagens.
De referir, por último, o ritmo a que a história evolui. Ao interromper uma história para abrir espaço a outra, retomando a anterior numa fase mais avançada, o autor prende a atenção do leitor. Atenção que se mantém através de uma sucessão de acontecimentos em que mistério e tensão se conjugam com momentos emotivos e umas quantas revelações surpreendentes. O resultado é uma história que cativa desde as primeiras páginas, crescendo em intensidade à medida que os acontecimentos tornam a leitura mais e mais viciante. E que culmina num final que dá todas as respostas necessárias, deixando, ainda assim, a curiosidade em saber mais (principalmente se não se conhecer o resto da série).
Envolvente e surpreendente, com personagens carismáticas e um sistema tão rico em peculiaridades como em evocações de temas universais, este é um livro que, apesar de ligado a uma série maior, funciona bem quer como história independente, quer como introdução ao mundo de A Torre Negra. Uma história cativante, portanto, num mundo fascinante, e que deixa muita curiosidade em descobrir mais. Muito bom.

sábado, 13 de abril de 2013

Aforismos e Afins (Fernando Pessoa)

Breves fragmentos e frases curtas, mas nunca simples, representam, neste livro, o pensamento de Pessoa na sua forma mais sintética. Atribuídas a Pessoa ortónimo ou a algum dos seus vários heterónimos, cada frase contém complexidades insuspeitas, ainda que resumidas em muito poucas palavras. Este é, pois, um livro de pequenas frases, mas de grandes questões. E é precisamente isso que o torna tão interessante.
Muitos dos aforismos deste livro ocupam apenas uma ou duas linhas. Ainda assim, são perfeitamente claras as ideias do poeta, as mesmas que transparecem na sua poesia. Além disso, alguns deles são atribuídos aos heterónimos, o que realça um outro aspecto interessante deste livro. É que mesmo em poucas palavras é possível reconhecer as diferenças, o que define cada heterónimo como uma personalidade distinta com formas diferentes de encarar a vida.
Estas particularidades bastariam para tornar interessante este pequeno livro. Mas há ainda os temas em si. Questões de pensamento, do valor da crença e da racionalidade, da honestidade, das formas de crer e de amar - e de viver em suma - são apenas alguns dos pontos abordados neste livro. Todos eles de forma muito sucinta, mas sempre focada no essencial, considerando os aspectos mais pertinentes e reflectindo, em ideias por vezes improváveis, mas que fazem, afinal, todo o sentido, o lado mais genial do pensamento de Pessoa.
Este é, por isso, um livro que, apesar da sua brevidade, contém no seu interior um mundo de ideias e questões importantes. Ideias que, exploradas de forma muito breve, mas com uma precisão impressionante, acabam por se insinuar na memória do leitor, não só pela relevância dos assuntos, mas principalmente pela mestria com que são abordados. Vale a pena ler este livro, portanto. Vale muito a pena.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Fotobiografias do Século XX - Fernando Pessoa (Richard Zenith)

Poeta de múltiplas identidades e personalidades, Fernando Pessoa é uma figura cuja vida (ou vidas) é difícil de distanciar da sua obra, já que, se é verdade a obra vale por si mesma, também é certo que há traços da vida e das vontades de Pessoa em cada um dos seus projectos, acabados ou não. Até porque tanto a vida como a criação são fascinantes, como bem demonstra esta fotobiografia.
O primeiro aspecto a chamar a atenção neste livro é o aspecto. Numa edição cuidada, com um aspecto visual apelativo, as imagens e o texto conjugam-se num equilíbrio adequado, deixando que as imagens completem os factos narrados pelo texto, o que os torna mais claros na mente do leitor. Basta folhear algumas páginas para despertar curiosidade para a leitura e, apesar da letra pequena, o aspecto da edição é, no geral, bastante agradável, prometendo o melhor para o conteúdo.
E o conteúdo não desilude. Numa escrita acessível, mas fluída e rica em detalhes, o autor constrói os traços essenciais da vida (ou, mais uma vez, vidas) do poeta, tendo em conta quer os seus traços de personalidade conhecidos e modos de agir, quer o contexto da época e a forma como este influencia os projectos e pontos de vista de Pessoa. É muito mais que uma simples síntese biográfica. Além de uma exposição bastante completa dos principais acontecimentos, também uma análise de ideias e motivações é apresentada, bem como, ainda, aspectos da sua interacção com outras figuras do seu tempo, ligações mais ou menos emocionais. E a literatura, sempre a literatura, vista na forma como influencia a forma do seu criador.
Ainda um outro aspecto interessante é que esta biografia não se conclui com a análise dos últimos dias de Pessoa, mas apresenta também o percurso da obra após a sua morte. Estes elementos finais, que reforçam a ideia - presente ao longo de todo o livro - de um poeta a escrever para uma posteridade mais ou menos distante, tornam o livro ainda um pouco mais completo, já que, além de biografia do poeta, reflectem um pouco sobre o que tornou intemporal a sua obra.
Interessante e completo, mas escrito de forma acessível e claro na exposição dos factos, este é, portanto, um livro que satisfará tanto os conhecedores da obra de Pessoa como os simples curiosos em saber algo mais sobre o poeta. Agradável de ler, numa edição bonita e rica em conhecimentos interessantes, vale muito a pena ler esta fotobiografia.

Novidade Suma de Letras


Mildred Pierce foi abençoada com umas pernas de fazer perder a cabeça, jeito para a cozinha e uma personalidade que não é para brincadeiras.
Tudo isso lhe foi útil quando teve de sobreviver ao divórcio e à pobreza e abrir o caminho de saída da baixa classe média. Mas Mildred tem também duas fraquezas: uma tendência para se apaixonar por homens indolentes e uma devoção irracional pela filha mimada e egoísta.
Cain é um observador nato da natureza humana, das suas idiossincrasias, fraquezas e motivações. Mildred Pierce, o romance de 1941, é de uma força emocional devastadora e executa uma crítica social contundente. Mildred Pierce, a heroína, é uma personagem memorável, com cujas ambições e mágoas qualquer leitor poderá identificar-se.
 Após a adaptação, vencedora de um Óscar, para o grande ecrã em 1945 – com a inesquecível Joan Crawford –, Mildred Pierce chega finalmente à televisão numa mini-série vencedora de cinco prémios Emmy e um Globo de Ouro, protagonizada por Kate Winslet. A adaptação é da HBO, produtora de Os Sopranos, Sete Palmos de Terra e A Guerra de Tronos.

James M. Cain  (1892-1977) é hoje reconhecido como um dos grandes mestres do policial negro americano. Nascido em Baltimore, começou a sua carreira como repórter, serviu na Força Expedicionária Americana na Primeira Grande Guerra e tornou-se, mais tarde, professor de Jornalismo no St. John’s College, em Annapolis. Escreveu editoriais para Walter Lippmann, no New York World,  e foi chefe de redacção do The New Yorker antes de rumar para Hollywood, para ser guionista.
Aos 42 anos, viu publicado o seu primeiro romance, O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, que de imediato causou furor. Um clássico, foi acusado de obscenidade em Boston e diz-se ter inspirado Albert Camus a escrever O Estrangeiro. Com 18 livros publicados, Cain estava a trabalhar na sua autobiografia quando morreu, em 1977.