sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A Gravitação do Amor (Sara Stridsberg)

Quando foi levado para o hospital psiquiátrico Beckomberga, Jim tinha acabado de ser encontrado na neve depois de ter engolido uma dose massiva de comprimidos. Havia nele uma escuridão, uma sombra que nunca se dissipou. Mas ali parece ser finalmente feliz - apenas ali. Como visitas, tem a mulher que deixou de o amar e a filha que nunca deixou de o querer. Como amigos, um médico que tem o estranho hábito de levar pacientes a festas no exterior e uma outra paciente que se transformou no amor da sua vida. E o tempo vai passando, como que ao ritmo das memórias. Jimmie e a filha Jackie têm uma relação como nenhuma outra. Mas a passagem das trevas para a luz pode muito bem ser impossível... e a verdade é que tudo termina, um dia.
Uma das primeiras coisas que importa referir sobre este livro é que, ao longo de toda a narrativa, as perguntas são tão importantes como as respostas. Isso significa que a sensação de confusão que por vezes emerge dos avanços e recuos nas memórias das personagens nem sempre é totalmente dissipada e que há futuros e acções que nunca ficam totalmente claros. Alguns insinuam-se nas entrelinhas. Outros há que desaparecem simplesmente. E, assim, muito é deixado à imaginação, o que acaba por deixar alguma curiosidade insatisfeita, ainda que também a sensação de que o que fica em aberto faz sentido.
E faz sentido porque a história vive tanto de acontecimentos como de memórias e pensamentos das personagens. Jim, Jackie e aqueles com quem interagem têm em comum uma única faceta: a imensa dualidade entre as trevas e a luz com que todos se debatem dia após dia. E isso nem sempre se faz de actos visíveis, o que significa também que não há uma vitória derradeira. Há pequenas coisas - no hospital e fora dele - a manter suspenso o equilíbrio entre luz e sombra, vida e morte. Vícios, emoções, pensamentos passatempos... e relações. E de tudo isto se faz esta história, em que também a sanidade é uma linha ténue e, por vezes, difícil de vislumbrar.
A própria escrita é um reflexo deste delicado equilíbrio. Belíssima, sempre, mas num registo quase que fragmentário, como que evocando pedaços de um sonho muito estranho. Às vezes, um diálogo simples, de frases curtas, mas em que há algo de transcendente a insinuar-se nas sombras. Às vezes, uma introspecção profunda, da qual emerge apenas um acto que fica por pronunciar. Tudo isto numa sucessão de momentos, de fragmentos de vida, um pouco vagos, mas dando forma a uma imagem de tristeza e de fragilidade que fica na memória bem depois de terminada a leitura.
E, assim, a imagem que fica é como que a de um mergulho nas profundezas da mente. Uma viagem em que as partes mais importantes da história acontecem no interior e em que, por isso, nem tudo é visível, apesar de estar lá. O resto fica nas asas da imaginação... que continua a trabalhar muito depois do fim do livro. 

Título: A Gravitação do Amor
Autora: Sara Stridsberg
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Masha e o Urso - Brincadeiras no Bosque (O. Kuzovkov)

Desde que Masha o descobriu que o urso nunca mais teve sossego. Nem no Inverno. Irrequieta e infinitamente curiosa, Masha quer sempre brincar e descobrir coisas. E é precisamente isso que acontece nas duas histórias deste livro, em que o urso descobre o valor da amizade e Masha desvenda o mistério de umas pegadas invulgares. Tudo com a brincadeira sempre em mente e a traquinice como ponto principal.
Em tudo semelhante aos dois livros anteriores, também deste livro sobressaem duas características: uma história simples, directa e engraçada direccionada para um público jovem e um muito agradável equilíbrio entre o texto e as imagens. Mais uma vez, Masha e o urso são levados em aventuras engraçadas que, sem grandes acontecimentos ou surpresas de maior, conseguem, apesar disso, ser muito cativantes e agradáveis. E, mais uma vez também, as ilustrações complementam o texto na perfeição, dando forma a um livro visualmente apelativo e que facilmente cativará para a leitura.
Ao contrário dos anteriores Como Tudo Começou e Brinca Comigo!, este livro reúne duas histórias, histórias essas que são perfeitamente independentes entre si, tendo em comum apenas os protagonistas. Mas é curioso ver estas duas histórias juntas, porque, uma vez que uma se passa no Inverno e outra na Primavera, cria-se um contraste interessante entre as duas. Aqui, destaca-se mais uma vez o aspecto visual que, com os verdes da primeira história e os brancos da segunda, realça esse tal contraste entre as duas partes.
E, claro, é uma história para crianças, por isso a já esperada medida de inocência está sempre muito presente. Masha tem como preocupação essencial encontrar o seu companheiro de brincadeiras, enquanto que o urso, resignado a não ter sossego com a sua nova amiga por perto, acaba por alinhar em todo esse divertimento. E, assim, é tudo muito simples e muito terno, o que acaba por ser refrescante num mundo tão mais complexo e sombrio.
Trata-se, pois, de mais uma boa leitura para os mais novos. E, para os que já não são assim tão novos, de um bom regresso aos tempos da inocência, em que a mais simples das histórias era mais do que suficiente para ver a imagem de um mundo melhor. Gostei.

Título: Masha e o Urso - Brincadeiras no Bosque
Autor: O. Kuzovkov
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Ready Player One - Jogador 1 (Ernest Cline)

Ano 2044. O mundo não é um lugar risonho onde se viver. Os recursos são escassos, a pobreza abundante. Há quem viva em atrelados empilhados uns em cima dos outros. Muitos são, pois, os que fogem para a realidade virtual para encontrar uma vida melhor. No OASIS, o simulador que ganhou o lugar de destaque na vida das pessoas, é mais fácil conseguir uma boa vida. Mas há uma batalha há espera de acontecer. O criador do OASIS morreu e deixou a sua fortuna em herança ao primeiro que conseguir seguir as suas pistas e encontrar o ovo que ele deixou escondido na sua vasta simulação. E, quando há tanto dinheiro e recursos em jogo, e uma empresa disposta a tudo para os adquirir, a Caçada do ovo nunca poderá ser apenas um videojogo. E as consequências de travar esse combate podem muito bem estender-se à vida real.
Imaginem um livro que é ao mesmo tempo uma visão de um futuro possível e um regresso ao passado, capaz de questionar valores e prioridades, pessoais e corporativas, ao mesmo tempo que constrói todo um enredo centrado no mundo dos videojogos. Assim é este Ready Player One, história de uma caçada virtual com consequências no mundo real e, acima de tudo, da descoberta de valores e prioridades num mundo em que as simulações ganham uma importância vital. 
Não é muito difícil apontar as razões que tornam este livro fascinante: tudo nele o faz. Mas um dos primeiros elementos a destacar-se é, sem dúvida, a forma como o autor transpõe para um mundo futurista um vastíssimo conjunto de referências e elementos da cultura dos anos 80. Jogos, bandas, filmes de culto... Tudo está presente e tudo tem um papel importante a desempenhar no enredo. Ora, isto só tem vantagens: por um lado, permite descobrir coisas novas, acompanhando as personagens na sua jornada. Por outro, é uma boa forma de relembrar filmes icónicos, jogos que marcaram a infância de muita gente, músicas que - adorando ou odiando - ainda hoje permanecem bem presentes. Há todo um mundo a (re)descobrir e isso basta para que a jornada valha a pena.
Mas há muito mais. A própria construção das personagens e dos códigos por que se movem é fascinante. Por um lado, os gunters, inteiramente dedicados à caçada, tão concentrados no destino como no caminho que os levará até lá. Por outro, a IOI, disposta a tudo, inclusive a matar, para conseguir deitar as mãos ao prémio final. Tudo isto, levanta questões importantes: sobre até que ponto os fins justificam os meios, sobre a justeza de um combate em que alguns têm todas as formas de fazer batota, sobre matérias de privacidade e valores diferentes na base de empresas diferentes. E, a um nível mais pessoal, sobre honra no combate, respeito pelos rivais, capacidade de cooperação, amizade e afecto. Parzival, Aech, Art3mis, Shoto e Daito são em tudo um contraponto perfeito aos Seizes. E a forma como estes dois lados se enfrentam abre caminho a todo um conjunto de momentos impressionantes.
É um livro bastante descritivo, com a multiplicidade de elementos na base da caçada a exigirem apresentações e as bases estratégicas dos vários intervenientes a conferirem ao enredo uma certa complexidade. Mas é interessante que, apesar deste ritmo mais pausado, a história nunca deixa de cativar. É que a informação vai sendo apresentada ao ritmo a que as personagens precisam dela e, ao ser narrada pela voz do Wade, surge na medida em que é necessária e com a importância que o seu papel no enredo justifica. Além disso, a esta vasta quantidade de informação acresce uma igualmente vasta medida da acção, o que confere à narrativa um equilíbrio perfeito entre as partes que a constituem.
E, por fim, o ambiente, tão intenso e imersivo como o de um videojogo, mas deixando espaço à imaginação do leitor para visualizar os passos das personagens, tanto no mundo virtual como no real. Os lugares, as personagens, os vários elementos do jogo em que se movem, mas também a realidade para lá do OASIS, tudo é construído na perfeição. E, assim, é fácil entrar nesta história. E, se é certo que é preciso tempo para assimilar todos os pormenores, também o é que nunca esmorece a vontade de descobrir mais.
Tudo isto converge num todo vastíssimo e imensamente impressionante. Enredo, cenários, personagens - tudo se molda num equilíbrio perfeito. E nesta viagem ao futuro que é, ao mesmo tempo, o tal regresso ao passado, tudo se encaixa na medida certa para proporcionar uma leitura impressionante. Que recomendo sem reservas.

Autor: Ernest Cline
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Ready Player One - Jogador 1, clique aqui.

domingo, 7 de agosto de 2016

Água - Uma Novela Rural (João Paulo Borges Coelho)

A água está a acabar. Na aldeia, muitos são os que pensam que nunca mais voltará e que o que se avizinha é o fim de todos. Outros pensam diferente. O Engenheiro Waasser, que veio para construir pontes, não tem agora respostas para o que está ali a fazer. Ryo e Laama, os áugures, discutem a natureza da seca que a todos fustiga. Maara e Ervio, estranhos namorados, usam um dos raros telefones que ali existem para trocar pensamentos comuns e perguntas. E um recém-chegado com intenções duvidosas põe em marcha um plano para extravasar um ódio que nem ele compreende. Entretanto, a água continua sem vir. E ninguém sabe ao certo o que fazer, como viver ou... quem ser.
História de um tempo difícil e das gentes que o atravessam, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pela voz muito própria com que tudo é contado. Em capítulos curtos e com um estilo de escrita aparentemente simples, dá voz à quase inocência das gentes da aldeia, para depois, numa inesperada reviravolta, questionar os mais profundos dos pensamentos e razões. Traça um amor quase inocente - para depois o abalar pelo ciúme e pela dúvida. E uma visão de um povo onde tudo o que acontece é encarado com as mesmas medidas de naturalidade e de revolta - assim surpreendendo tanto pela paz aparente, como pelos arroubos de violência que dela brotam.
Assim se cria uma história de contrastes. E são, no fundo, estes contrastes o que fica na memória, terminada a leitura, pois, do que parece, de início, ser a história de um amor em tempos difíceis, emerge, afinal, uma visão mais ampla. Da história de Maara e Ervio, passa-se para as tribulações de toda a aldeia e, daí, para a própria natureza. Tudo num registo ora inocente, ora cruel, ora até ligeiramente mágico. E assim, é quase tudo inesperado. Principalmente o final.
Fica, desta passagem do pessoal ao global, uma sensação de curiosidade insatisfeita. É que, na fase final, algumas das personagens, já com o seu papel desempenhado, parecem ficar para trás no meio da confusão. O que faz sentido, tendo em conta a forma como tudo termina. Mas fica, ainda assim, insatisfeita a vontade de saber um pouco mais sobre o que o destino teria reservado para estas tão estranhas e cativantes personagens.
Reduzida ao mais simples e inocente - ou, talvez, à sua base essencial - , esta é, portanto, a história de uma aldeia e das gentes que nela vivem em tempos de total escassez. Simples, na aparência, mas surpreendente em quase tudo, um livro que se lê de uma assentada e que, do primeiro ao último capítulo, não deixa nunca de cativar.

Autor: João Paulo Borges Coelho
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Odd e os Gigantes de Gelo (Neil Gaiman)

Odd é um rapaz estranho. Tem um sorriso capaz de irritar muita gente e, como se não bastasse, um acidente a cortar uma árvore fez com que tivesse de usar uma muleta para andar. A mãe, essa, casou com outro homem uns anos depois de o pai de Odd ter morrido, e esse homem, ele próprio pai de muitos filhos, não tem tempo para dar atenção ao enteado. Até que um dia, quando o Inverno devia dar lugar à Primavera... continua a ser Inverno. E o frio e as dificuldades fazem com que pequenos atritos se tornem grandes conflitos. É então que Odd decide fugir, sem sequer imaginar que tem um papel a desempenhar no possível regresso da Primavera. E tudo começa com uma águia, uma raposa e um urso...
História de coragem e aventura, vocacionada para um público jovem, mas igualmente cativante para leitores adultos, este é um livro que cativa principalmente pela simplicidade. É uma história bastante curta e em que tudo se resume aos acontecimentos iniciais, o que faz com que, do primeiro ao último capítulo, haja sempre algo a acontecer, sem paragens nem tempos mortos. Além disso, a história de Odd (criança numa aldeia víquingue) e da forma como se encontra com os deuses torna-se especialmente cativante por essa mesma simplicidade. É que, para quem está diante de Thor, Odin e Loki - ainda que numa forma... diferente - há em todas as interacções uma invulgar - mas deliciosa - informalidade. E assim, tudo acontece de forma muito simples e natural. O que não deixa de ser um pouco inesperado.
Quanto à história em si, não se pode dizer que tenha uma base particularmente surpreendente - é fácil adivinhar como tudo termina. Mas já não é tão fácil assim imaginar de que forma se chegará a esse final. É, pois, nas pequenas coisas que estão as surpresas. Na forma como Odd conversa com o Gigante de Gelo, no mistério por detrás da situação em que os deuses se encontram, nas pequenas peculiaridades com que algumas situações são resolvidas... Se a linha geral dos acontecimentos é fácil de prever, já os pequenos detalhes, os momentos divertidos, o toque de inesperado que tudo define, desde o que as personagens fazem àquilo que as caracterizam, esses conseguem sempre surpreender.
E, assim, basta uma história simples para cativar. Breve, de leitura agradável, com um enredo interessante e um ritmo leve e divertido, uma boa história e uma boa leitura. Para miúdos e graúdos.

Autor: Neil Gaiman
Origem: Aquisição pessoal

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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Moonlight Mile - A Última Causa (Dennis Lehane)

Passaram doze anos desde o famoso (ou infame) caso Amanda McCready e a vida de Patrick Kenzie mudou em muitos aspectos. Mas o passado está prestes a bater-lhe à porta. Primeiro, uma chamada telefónica a meio da noite exige-lhe que volte a encontrar. No dia seguinte, a tia de Amanda aparece para lhe dizer que a agora adolescente voltou a desaparecer. Patrick não se pode dar ao luxo de perder tempo com casos que não lhe trazem qualquer proveito. Mas a sensação de ter feito algo de mal no passado puxa-o de volta ao mistério do desaparecimento de Amanda. E tudo indica que, desta vez, Amanda está longe de ser uma criança inocente.
Sendo este livro o último volume de uma série, e estando directamente relacionado com o caso central de um dos outros livros, é natural que haja ligações e referências a acontecimentos passados ao longo do enredo. Mas uma das primeiras coisas a sobressair nesta leitura é que todos os factos essenciais são referidos. Seja no que diz respeito ao caso de Amanda, seja na relação entre Patrick e Angie, os elementos essenciais vão sendo relembrados ao longo da história, o que faz com que, apesar da curiosidade que fica em saber as origens de certas ligações, não há nenhuma pergunta essencial que fique sem resposta. E, assim, o livro lê-se facilmente sem qualquer conhecimento prévio, até porque o caso que Patrick tem agora em mãos é, tanto quanto se pode perceber, completamente diferente do que envolveu a Amanda de quatro anos.
Outro aspecto que se destaca é que a associação deste caso concreto ao da criança desaparecida doze anos antes cria algumas expectativas quanto ao que se poderá estar a passar. Ora, isto consegue ser bastante enganador, pois permite ao autor conduzir gradualmente o leitor a uma realidade bem mais negra - e bem menos inocente - da qual Amanda é o centro racional e em que tudo é planeado com vista a um fim muito preciso.
Ora, é neste aspecto que fica alguma incerteza, pois, tendo Amanda dezasseis anos, e por mais culta que seja, há nas complexidades dos seus actos tantas possibilidades de algo correr mal que parece um pouco improvável que tudo aconteça como de facto acontece. Isto não retira envolvência à história nem lhe diminui a aura de mistério... mas fica, por vezes, a sensação de um ligeiro excesso de sorte.
Quanto às personagens, sobressaem as interacções invulgares (particularmente entre Patrick e Yefim, mas não só) e a forma como o passado influencia muitas das escolhas que acabam por fazer. Não são propriamente figuras do género de despertar empatia. Ainda assim, as circunstâncias em que se encontram tornam-nas interessantes e adequadas aos papéis que têm para desempenhar.
A impressão que fica é, portanto, a de uma história intrigante, que, apesar de recuperar um caso antigo do protagonista, o transforma em algo completamente novo. E, assim, uma leitura cativante e surpreendente, em que tudo se assimila na perfeição, mesmo sem conhecer o resto da série. Gostei.

Autor: Dennis Lehane
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Gennaro Clean - Mafioso sem Mácula (Romeu Cunha Reis)

Criado numa zona pobre e dominada pela máfia, em que a violência é praticamente rotineira e a única forma de viver é jurando lealdade à 'Ndrangheta, Gennaro é um rapaz ambicioso. Educado pela avó para se dedicar aos estudos e aspirar a uma vida melhor, cedo começa a questionar-se sobre a existência de formas de ganhar dinheiro sem recorrer à violência. Mas as respostas que procura não estão ali e, para ser bem sucedido, vai ter de elevar a sua pequena (e não muito legal) ocupação a algo de mais vasto. Parte, portanto, para Roma, onde espera tirar o curso de economia e arranjar um emprego que o ajude a pagar as contas e a ganhar experiência. Mas a sua mente não se contenta com pouco... E o seu jogo da vermelhinha pode muito bem transformar-se na raiz de todo o sucesso.
Um dos primeiros aspectos a destacar-se neste livro é a forma como o autor conjuga a história pessoal do protagonista com várias questões relevantes da sociedade, começando pelo poder do crime organizado e a terminar nas parcerias público-privadas, percorrendo, ao longo do caminho, todo um conjunto que interessantes questões económicas e sociais. E o mais interessante em tudo isto é a forma como o autor as aborda, pois, ao desenvolvê-las do ponto de vista do protagonista, torna mais visível o efectivo impacto dessas questões que são, afinal, mais do que simplesmente coisas de números. Ora, isto dá muito em que pensar e só isso já é motivo suficiente para fazer com que a leitura valha a pena.
Quanto à história em si, é também bastante interessante, ainda que as extensas elaborações teóricas criem, por vezes, uma sensação de distância. Apesar das suas circunstâncias iniciais, nem sempre é fácil simpatizar com Gennaro e as suas escolhas, o que acaba por tornar o tom da narrativa um pouco mais distante. Além disso, a sua evolução no mundo dos negócios acontece, por vezes, de forma bastante abrupta, deixando em aberto várias questões (principalmente relativamente à máfia, mas também ao que aconteceu à família de Gennaro, antes e depois da sua ascensão social).
Há, ainda assim, uma agradável envolvência ao longo de todo enredo, em parte devido à fluidez da escrita e em parte ao rumo dos próprios acontecimentos. Mesmo não se gostando das escolhas de Gennaro, é fácil entendê-las. E, além disso, há no seu percurso uma jornada de crescimento que, apesar de algumas perguntas em aberto, é muito clara na sua base essencial: da pobreza à ambição desmedida e desta a uma percepção um pouco mais equilibrada das coisas. Nem tudo é perfeito, porque o próprio Gennaro (humano como é) também não o consegue ser. Mas as suas peripécias e aventuras nunca deixam de cativar, mesmo assim.
A soma de tudo isto é uma história interessante e de leitura agradável. Com algumas perguntas sem resposta, é certo, mas com um tema muitíssimo relevante e um protagonista cheio de surpresas no seu empreendedorismo. Uma boa leitura, portanto.

Título: Gennaro Clean - Mafioso sem Mácula
Autor: Romeu Cunha Reis
Origem: Recebido para crítica