terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

As Velhas (Hugo Mezena)

São mulheres que, depois de uma longa vida, subitamente se vêem reduzidas a um espaço. O espaço de uma casa vazia, ou de uma casa, de visitas ocasionais ou nulas, ou apenas de fantasmas pesados. Mulheres que envelheceram, mas que vivem ainda no seu próprio mundo, entre os mexericos das vizinhas ou a prisão de um corpo que pouco reage. E o mundo passa, talvez sem ver. E é para ver que serve este livro.
Não é exactamente um romance, na medida de que cada uma destas histórias é essencialmente independente. Também não é apenas um conjunto de contos, já que há pequenas ligações, além, claro, de uma sensação de unidade que parece brotar do todo. E, por isso, poder-se-á começar dizer que, apesar de breve, é um livro difícil de descrever. Cada história ocupa poucas páginas e deixa tanto sem resposta quanta matéria para reflexão. O resultado é um estranho equilíbrio entre uma certa curiosidade insatisfeita (qualquer destas histórias bastaria para um romance) e a sensação de que todas as bases essenciais estão lá.
Talvez não seja a história de nenhuma destas mulheres em específico, embora cada uma delas tenha um percurso e uma personalidade bem vincados. Talvez seja a história da velhice como um todos. E, se olharmos assim para o livro, tudo ganha um novo significado: não temos resposta para tudo, tal como, às vezes, vidas inteiras não chegam para obter respostas; e, entre caminhos tão diferentes, sente-se a mesma solidão, a mesma perda, a mesma mistura de sabedoria e abandono que aguarda lá mais perto do fim do caminho. Mais que de factos, é uma história de impressões, impressões essas que, curiosamente, ganham um maior impacto devido à brevidade. 
E isto reflecte-se na própria escrita, simples, sucinta, mas pejada de afirmações certeiras, de observações perspicazes sobre a passagem do tempo. Da estranha beleza, enfim, que faz com que, apesar de tudo o que fica por dizer, o livro pareça ter tudo aquilo de que precisa. 
Fica, pois, esta estranha marca de um livro tão breve contendo multidões. Multidões de vidas já avançadas - e abandonadas, por vezes - mas cheias, ainda, de histórias para contar. Simples, sim, mas marcante. E também muito pertinente. 

Título: As Velhas
Autor: Hugo Mezena
Origem: Recebido para crítica

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Vox (Christina Dalcher)

Muitos pensavam que nunca poderia acontecer, mas bastou o carisma de um reverendo fanático, um discurso demagógico assente em estatísticas deturpadas e a indiferença generalizada para que, de repente, todo o país mudasse. Agora, as mulheres estão limitadas a cem palavras por dia, à vida do lar e a uma existência onde tudo é controlado, quando não absolutamente negado. A Dra. Jean McClellan não se conforma, mas sabe que acordou tarde demais. Por isso, quando se vê ante a possibilidade de regressar ao seu trabalho de investigação, ainda que temporariamente, livrando-se da pulseira que lhe controla as palavras, Jean agarra a oportunidade. Só que o seu soro destina-se a algo muito mais vasto do que curar o irmão do presidente... e muito mais sombrio. A não ser que ela faça alguma coisa. 
Uma boa palavra para começar a descrever este livro será aterrador. Aterrador porque traça um cenário terrível e também porque o discurso na base deste cenário não anda assim tão longe do pensamento de certas figuras reais. A primeira qualidade é, por isso, esta mesma: a relevância de discutir direitos que, embora vistos por muitos como garantidos, podem facilmente ser retirados. É um cenário terrível, mas terrivelmente realista, o que faz deste livro a fonte de muito material para reflexão.
A segunda qualidade é o ritmo intenso e viciante, que, além de reforçar o impacto de cada desenvolvimento, torna impossível parar antes do fim. Há sempre algo para desvendar em cada um dos seus curtos capítulos, seja no percurso que gerou a situação actual, seja no caminho que Jean e os outros têm pela frente na sua oportunidade de mudar as coisas. E, à medida que o enredo evolui, há também todo um conjunto de surpresas e de momentos intensos a fazer com que tudo na história seja notável.
Há ainda a construção das personagens, particularmente da protagonista. Jean e Jackie, nas suas vidas passadas, eram pólos opostos: a conformada e a activista. E, ao assumir Jean como protagonista, aquela que não se preocupou, a que achava impossível que acontecesse, a que acordou demasiado tarde, a autora consegue, além de realçar a importância de se estar atento à realidade, gerar uma heroína a partir de uma personagem falível. Isso torna as coisas mais interessantes e o crescimento de Jean muito mais intenso. Além, é claro, de reforçar a ideia (sempre particularmente pertinente num livro destes) que é sempre possível - e preciso - fazer alguma coisa.
Intenso, relevante e assustadoramente real, trata-se, pois, de um livro que deixa uma marca profunda, não só nas questões que evoca, mas na história construída para as suas personagens. Com um cenário aterrador e um percurso feito de luta e de uma estranha redenção, um livro imperdível por todas as razões. Aterrador, sim. Mas acima de tudo brilhante. 

Título: Vox
Autora: Christina Dalcher
Origem: Recebido para crítica

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Monstress, volume 3: Refúgio (Marjorie Liu e Sana Takeda)

Maika Meiolobo começa a entender melhor as suas origens, mas isso não faz com que o seu caminho seja menos perigoso. O ente a que está ligada é uma força poderosa, mas a verdade é que existem outros como ele. E a máscara, mesmo fragmentada, possui grande poder. Chegada a Pontus, onde espera encontrar refúgio enquanto decide os seus próximos passos, Maika vê-se forçada a assumir um papel na defesa da cidade - principalmente, quando a sua outra "metade" destrói o escudo que protege Pontus. Entretanto, há outras peças em movimento... e a certeza de que o caminho está ainda bem longe do fim.
Há algo de fascinante na forma como cada novo volume desta série acrescenta novas perguntas para cada resposta dada, adensando cada vez mais o mistério sem nunca perder de vista o delicado equilíbrio entre tensão, intriga e emoção que parece definir todo este mundo. Maika, na sua unicidade, é alvo do interesse de muitos, aliados e inimigos por igual. E cada novo passo que dá é relevante, seja para encerrar uma fase ou para abrir novas possibilidades para o que se seguirá.
É também desta unicidade que vive o impacto da história, pois, num mundo pejado de diferenças, cada personagem tem algo que a torna única. E mais, nenhuma delas é exactamente aquilo que parece. Os inimigos têm planos mais vastos. Os aliados têm a sua própria agenda. E, pelo caminho, quando cada vez mais parece difícil encontrar alguém realmente digo de confiança, surgem os rasgos de emoção (e até de um certo humor) a lembrar que também neste mundo existe algo de bom.
Claro que, falando no mundo, é inevitável falar na arte, que eleva uma história complexa e fascinante ainda a um nível mais notável. Desde os cenários à indumentária das personagens, passando pelas peculiaridades e expressões das personagens e o próprio contraste entre os cenários requintados e coloridos das cortes e das cidades e as sombras que realçam os momentos mais negros, há toda uma magia a acontecer neste livro e um equilíbrio perfeito entre um cenário belíssimo, uma história toda ela também de contrastes e um conjunto de personagens ricas e complexas.
Tudo somado, fica a deliciosa sensação de regressar um mundo que é todo de fascínio e de magia. Complexo mas viciante, com cenários arrebatadores e uma história tão intensa quanto as personagens que a povoam, um livro e uma série que não posso deixar de recomendar. A todos, mesmo. 

Autoras: Marjorie Liu e Sana Takeda
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Meu Gato, Meu Guru (Stéphane Garnier)

Viver com um gato traz-nos muitos benefícios, desde a sua simples companhia ao prazer de, ao fim de um dia cansativo, relaxar na companhia do seu pêlo sedoso e dos seus ronrons. Mas será que o gato pode também ser um mestre e um guia rumo a uma vida melhor e mais equilibrada? Sem dúvida! Afinal, basta olhar para o gato e analisar a sua atitude para vermos que ele tem muito para nos ensinar... E é precisamente desses ensinamentos que trata este livro.
Sendo certo que o aspecto mais importante é sempre o conteúdo (e, neste caso, a mensagem), há, ainda assim, elementos complementares que contribuem para que as ideias fiquem na memória. E este livro é muito rico nestes aspectos: basta a capa para chamar a atenção. E depois basta um primeiro folhear para que as suas deliciosas ilustrações (sim, porque há toda uma abundância de gatos neste livro) nos despertem a curiosidade em saber mais.
Claro que o conteúdo também não fica nada atrás. Primeiro, surpreende a simplicidade com que cada aspecto é abordado, sem grandes elaborações e dissertações espirituais, mas analisando as coisas como elas são. Depois, vem a ligação ao gato, com todas as inesperadas lições que este tem para ensinar. E, por fim, fica a sempre agradável sensação de concluir a leitura com uma visão um pouco mais vasta e, principalmente, com muitas ideias úteis para levar a vida de outra forma.
Importa ainda realçar a escrita e a forma como o autor organiza estas muitas ideias. Ao analisar diferentes características do gato, permite-nos analisar, de forma simples e igualmente precisa, as mesmas características em nós mesmos. E, ao complementar estas pequenas análises com pequenos fragmentos narrados da perspectiva de um gato, múltiplas citações de autores célebres e até uma desconstrução das rotinas diárias ao estilo felino, constrói também um todo mais completo e interessante: uma imagem de uma vida diferente.
Leve e divertido, mas também interessante e cheio de ideias boas, trata-se, pois, de um guia simples e inteligente para levar a vida de forma mais serena. E, claro, de um esplêndido elogio às mil formas como um gato nos pode melhorar a vida. Muito bom.

Autor: Stéphane Garnier
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Southern Bastards, Vol. 3 - Regressos (Jason Aaron e Jason Latour)

A morte de Earl Tubb desencadeou grandes tensões e novas perdas. Agora, paira no ar como que o pressentimento de uma ameaça. O grande mentor do temido Coach Boss pôs fim à vida, incapaz de continuar a lidar com aquilo em que o seu protegido se tornou. E, sem a sua orientação na defesa, o grande jogo que se aproxima pode muito bem  estar perdido. Além disso, não falta quem esteja atento ao mais pequeno descuido do treinador para tomar medidas drásticas. Afinal, quem ascendeu pelo sangue pode muito bem cair do mesmo modo. 
Ao terceiro volume, e num ponto da história em que julgamos começar a conhecer as personagens, um dos primeiros pontos fortes a sobressair neste livro, e uma das suas grandes surpresas, é, mais uma vez, a capacidade de surpreender. Se o primeiro volume contava a temerária entrada em cena de Earl Tubb e o segundo se embrenhava pelo passado de Euless Boss, o terceiro expande-se para um leque mais vasto de personagens, explorando passados, meandros do presente e até mesmo algumas possibilidades futuras. Poder-se-ia dizer que é, de certa forma, um volume de transição, preparando o caminho para o que promete ser um confronto brutal. Mas uma transição toda ela repleta de acção e de momentos marcantes.
Também particularmente notável nisto de explorar várias personagens é que esta expansão se sente não só ao nível dos acontecimentos propriamente ditos (e oh, se abundam as surpresas nestes acontecimentos) mas na própria cor. É como se a cada personagem correspondesse um tom específico, reflexo das particularidades do ambiente em que se movem. Ora isto, além de contribuir para realçar as particularidades de cada ramo da história, deixa uma grande curiosidade em ver de que forma convergirão estas diferentes facetas no próximo volume. 
Mas, voltando à história, há ainda um outro aspecto que importa referir: embora cada capítulo seja dedicado a uma personagem distinta, o que permite uma visão mais pessoal dos seus respectivos percursos, a soma das partes não deixa, ainda assim, de formar um todo equilibrado e uma linha narrativa muito clara. Tudo converge para um ponto de mudança que apenas se torna mais intenso com a crescente complexidade das personagens. O resultado é uma história que se torna mais viciante a cada novo volume e a promessa de um próximo ainda melhor.
Intenso e brutal, mas também complexo e surpreendente, trata-se, pois, de mais um livro que corresponde inteiramente às expectativas - com o bónus acrescido de as elevar ainda um pouco mais. Cheio de surpresas, muitíssimo viciante e uma visão estranhamente precisa de um mundo tão estranho - mas, afinal, tão perto - um livro e uma série que não posso deixar de recomendar.

Autores: Jason Aaron e Jason Latour
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Dia em que Perdemos a Cabeça (Javier Castillo)

Véspera de Natal. Um homem caminha pelas ruas da cidade, completamente nu e com uma cabeça nas mãos. Ao horror inicial, segue-se uma reacção rápida e o homem é detido e levado para uma instituição psiquiátrica, onde o Dr. Jenkins deverá avaliar se se trata de um louco ou de um assassino implacável. Mas cedo se torna evidente que o caso tem contornos estranhos. O misterioso homem, após um silêncio inicial, começa a falar por enigmas ao contactar com Stella Hyden, a agente do FBI encarregada de auxiliar o Dr. Jenkins. E a história dele começa a entrelaçar-se com outro tipo de pistas e o passado dos próprios investigadores. Tudo converge para Salt Lake... onde, há muito tempo, algo de perigoso e cruel começou a ganhar forma.
Oscilando entre vários pontos de vista e diferentes momentos da linha temporal, este livro tem na aura de mistério que tudo envolve o seu principal ponto forte. Desde o homem que se passeia com uma cabeça na mão às inocentes férias em Salt Lake que tudo desencadearam, há, para cada momento e para cada personagem, um enigma há espera de ser desvendado. É, pois, intensa a vontade que se gera de saber o que acontece a seguir, e vai crescendo à medida que também o enredo se intensifica.
Também particularmente intrigante é o facto de todas as personagens serem tudo menos perfeita. O presumível assassino esconde uma natureza bastante distinta da que aparenta e a sua história passada faz dele uma personagem surpreendentemente complexa. Mas o mesmo se aplica também aos outros, desde a desaparecida Amanda à estranhamente louca Laura, passando, claro, pelo irascível Dr. Jenkins e pelo atormentado Steven. Todas as personagens servem um propósito e são também muito bem construídas. E, à medida que a verdadeira dimensão dos acontecimentos começa a vir à tona, também o impacto desta construção se torna mais evidente.
E eis que chegamos ao fim e as peças do puzzle começam a encaixar. Não todas, é certo, o que deixa uma certa curiosidade insatisfeita a pairar, mas também a possibilidade de vir a existir uma sequela, mas as essenciais. O que aconteceu a Amanda torna-se claro, tal como o porquê do passeio na rua com uma cabeça nas mãos. E todas as explicações são inesperadas, ainda que não necessariamente completas, o que faz com que, no geral, o final esteja à altura das expectativas.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura enigmática e viciante, com personagens fascinantes e um mistério que, embora ainda não tenha sido completamente desvendado, prende do início ao fim e nunca deixa de surpreender. Uma boa história, em suma, e uma leitura muito cativante. 

Autor: Javier Castillo
Origem: Recebido para crítica

domingo, 10 de fevereiro de 2019

The Freedom Artist (Ben Okri)

Os velhos mitos falam de uma prisão, mas o sistema não pode permitir que essa história seja contada. Só há uma forma de progredir: através do trabalho árduo, da ausência de esforços intelectuais e, acima de tudo, sem fazer perguntas. Mas, quando uma rapariga que se atreveu a questionar é subitamente levada, o seu amante começa a questionar-se também sobre as perguntas que ela costumava fazer. E começa a ver... Num mundo em que todos gritam durante o sono e a atrocidade parece cada vez mais aceitável, Karnak começa a seguir o caminho dos que fazem perguntas. E, sem realmente o saber, torna-se parte de uma revolução silenciosa.
Não sendo propriamente um livro fácil de descrever, mas inesperadamente fácil de ler, esta é uma história de mitos e da construção do próprio mito. A história da prisão e a influência que exerce nas personagens é uma metáfora bastante precisa da vida: aqueles que negam o sistema e se atrevem a sobressair sofrem consequências diferentes (e menos atrozes) na vida real, mas há um paralelismo inegável entre a resignação de algumas das personagens deste livro e aqueles que, na vida real, têm medo de ser eles mesmos. 
Há, então, muito em que pensar ao ler este livro. É, afinal, de uma história de livre pensamento que se trata. Mas há também mais do que isso. Com os seus capítulos curtos, personagens interessantes e misterioso sistema, torna-se também uma leitura bastante viciante. E mesmo que nem tudo seja explicado e, no fim, fique uma certa curiosidade acerca da Hierarquia, todos os elementos essenciais estão lá. A revolução acontece e a grande resposta é dada. O entendimento total... bem, cabe a cada leitor encontrá-lo.
Um último elemento que importa mencionar é que, embora criando o seu próprio mito, esta história tem muitos pontos em comum com outros mitos existentes. O rapaz-guerreiro, que cura e é preso pelas suas acções. A sua estranha postura, tão semelhante às cartas do rator. A mulher numa colina, com a lua sob os pés e uma coroa de estrelas. Tudo assume uma natureza distinta - mas as ligações estão lá para ser descobertas.
Não é, portanto, um livro fácil de descrever, mas é bastante fascinante. E uma história intrigante e estranhamente viciante, sobre uma liberdade mais etérea e o poder das histórias para moldar vidas e criar revoluções. Uma boa leitura em suma.

Autor: Ben Okri
Origem: Recebido para crítica

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Improvement (Joan Silber)

Reyna é uma jovem mãe solteira cujo namorado ficará na cadeia durante alguns meses. A tia, Kiki, que em tempos viveu a sua própria história de amor na Turquia, vive agora sozinha é a familiar mais próxima de Reyna. Mas Kiki tem as suas dúvidas sobre Boyd, pois este parece querer envolver a sobrinha numa espécie de esquema criminoso. E, embora Reyna esteja disposta a muita coisa pelo namorado, quando as coisas se agravam subitamente, Reyna vê-se repentinamente obrigada a encontrar o seu próprio caminho.
Embora inicialmente focado em Reyna e na sua tia, um dos aspectos mais surpreendentes deste livro é que não tarda a expandir-se para uma perspectiva muito mais vasta. Reyna está no cerne do principal acontecimento, aquele que mudará muitas vidas, mas a história progride então para um acompanhamento destas vidas e das suas próprias evoluções pessoais. Daí que fique também a impressão de um título particularmente adequado: mais do que apenas a história de Reyna, é uma história de melhoramento - ou pelo menos do melhoramento possível - para todos os envolvidos.
É também uma história muito bem escrita, que dá voz aos aspectos mais marcantes do caminho de cada personagem. Isto, claro, enfatiza as suas principais qualidades, mas também o impacto de cada desenvolvimento. E há uma poesia estranha e melancólica em ver estas pessoas a tentar encontrar, de alguma forma, um lugar na vida. Não um grande feito, nem mesmo, nalguns casos, o melhor dos comportamentos, mas vida, ainda assim. Vida que desabrocha nas grandes qualidades, mas também nos defeitos e no que deles resulta.
No fim, nada termina realmente, mas parece, ainda assim, ser o fim adequado. Cada personagem percorreu o seu próprio caminho de melhoramento e, a partir daí, as suas vidas separaram-se por fim dos acontecimentos que tudo mudaram. O ciclo fechou-se. Esta história acabou. O resto... bem, é outra história que cabe ao leitor imaginar.
Tudo se resume, pois, nisto: uma história intrigante, poética e muito surpreendente, em que as acções de cada personagem podem moldar o mundo à sua volta. Maravilhosamente escrito e inesperadamente intenso, uma leitura bastante impressionante.

Título: Improvement
Autora: Joan Silber
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Grande Solidão (Kristin Hannah)

Alasca. A última fronteira. A grande solidão. E, para os Allbright, talvez um novo começo, menos assombrado pelas marcas da guerra que fizeram de quem antes era supostamente um bom homem um indivíduo instável e violento. O início faz-se de esperança para Ernt, Cora e a jovem Leni. Mas, à medida que as dificuldades se tornam evidentes, também as sombras de Ernt começam a vir novamente à superfície. Seguem-se os conflitos, a violência. E para Leni, que encontrou no Alasca um lar como jamais imaginou e um amor destinado a durar para sempre, viver à sombra do medo começa a tornar-se cada vez mais insuportável.
Basta um olhar para a capa para encontrar uma boa forma de descrever este livro: uma épica história de amor. Porque é de amor que se trata, embora não daquele que inicialmente julgamos estar no cerne do enredo. É uma história de amor, sim, mas também de brutalidade e violência, de provações e de esperança. E é precisamente isso que torna este livro tão angustiante quanto cativante.
É também uma história complexa, tal como o são as suas personagens. A relação entre Ernt e Cora, com tudo o que tem de disfuncional, torna-se ainda mais complicada no Alasca, com as grandes dificuldades da vida num local tão remoto a associar-se à tendência de Ernt para o conflito e para a obsessão. Leni, apanhada no meio de uma guerra pessoal, vê-se dividida entre amor e ódio, entre a necessidade de fugir e um sentimento que, ainda assim, não consegue negar. E pelo caminho há toda uma vastidão de crescimento: a adaptação ao Alasca, a descoberta das suas capacidades de resistência, o amor... com todas as suas consequências. E tudo num equilíbrio tão preciso de intensidade e de complexidade que a ambiguidade sentida pelas personagens transmite-se também para o leitor, moldando os traços de uma história memorável. 
Voltando ainda uma vez mais ao amor, importa ainda destacar outro elemento. Nem só do amor disfuncional entre Ernt e Cora vive a história, nem do profundo e doloroso amor entre Leni e Matthew. Há também o amor de Cora por Leni, com todas as decisões difíceis (certas e erradas) que isso implica, bem como os sentimentos fortes que unem uma comunidade sólida e coesa construída em torno da sobrevivência. Há um percurso longo, complexo e, sim, épico na história destas personagens. Um percurso notável e escrito com uma precisão marcante. 
Duro e cruel como o cenário que lhe serve de base, mas profundamente emotivo e marcante em todas as suas facetas, trata-se, pois, de uma história complexa, em que o amor é tão intenso na sua máxima disfuncionalidade como no verdadeiro sentido da palavra. Belo e poderoso, um livro memorável. Que não posso deixar de recomendar.

Autora: Kristin Hannah
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Porque Vivemos (Kentetsu Takamori, Daiji Akehashi e Kentaro Ito)

Qual é o sentido da vida? Há muitas respostas possíveis para esta pergunta, ainda que nenhuma delas pareça ser completamente satisfatória. Podemos apontar para os nossos sonhos e objectivos, mas, sabendo que a vida é finita, estes não poderão ser outra coisa que não temporários. Porque vivemos, então? É a esta pergunta enganadoramente simples que este livro pretende responder.
Com base nos ensinamentos do budismo, mas tentando transpor estes ensinamentos para a vida moderna, este é um livro que, embora bastante breve, consegue, ainda assim, trazer ao pensamento várias questões essenciais. A maior é, desde logo, a que dá título à obra. Afinal, o sentido da vida é uma questão intemporal. Mas, mais do que uma resposta definitiva, que, naturalmente, pode ser aceite ou não, o que este livro faz é olhar atentamente para a finitude das coisas, despertando várias questões relevantes. 
É também surpreendentemente simples na forma como expõe as suas ideias. Recorrendo a histórias, a dados da actualidade e também a citações de vários autores ilustres, consegue construir uma visão bastante clara daquilo que pretende transmitir - uma visão budista do porquê da vida e do sofrimento - sem se tornar demasiado denso ou esotérico. Claro que o tema justificaria uma abordagem mais extensa, até porque tem múltiplas ramificações. Ainda assim, o essencial da ideia está lá e isso faz com que, independentemente da curiosidade em saber mais, a impressão que fica seja a de uma leitura completa. 
Todo o livro gira em torno de uma perspectiva específica, o que significa que há certos aspectos que poderão provocar uma certa estranheza, seja devido a um sistema de crenças diferentes ou a uma simples interpretação distinta dos acontecimentos. Ainda assim, o objectivo essencial não parece perder-se. Concordar talvez não seja o mais importante: o que importa é reflectir. E material para reflexão não falta neste pequeno, mas muito interessante livro.
Simples, mas relevante e com uma visão muito interessante das grandes questões da vida, trata-se, pois, de um livro que se prolonga para lá da experiência de leitura. As ideias são clara e sucintamente expostas. As possibilidades, essas... ficam no pensamento bem depois de lida a última página. É também isto, afinal, que define uma boa leitura, não é? E é precisamente disso que se trata. 

Título: Porque Vivemos
Autores: Kentetsu Takamori, Daiji Akehashi e Kentaro Ito
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Southern Bastards, Vol. 2 - Sangue e Suor (Jason Aaron e Jason Latour)

Antes de se tornar na figura mais influente e temida da região, Euless Boss foi um rapaz apaixonado pelo futebol, disposto a resistir a tudo para entrar na equipa e a fazer tudo o que fosse preciso para se manter no meio. Poderoso e sem escrúpulos, rapidamente lidou com o único que se atreveu a fazer-lhe frente - mas esse acontecimento trouxe-lhe memórias. Segue-se, pois, uma longa viagem ao passado, com a promessa de que, depois da entrada em cena de Earl Tubb, nada voltará a ser exactamente o mesmo. Ainda que todos insistam em fingir que nada de grave aconteceu.
Talvez não seja inteiramente surpreendente, tendo em conta a forma como o volume anterior termina, mas não deixa de ser um aspecto peculiar o facto de este segundo volume conferir a uma outra personagem o foco da história. Se no volume anterior Euless Boss era o principal antagonista, agora é a sua história que vem à superfície: uma história cheia de sombras e de violência, pintada (tal como a de Earl, aliás) a vermelho sangue, mas que dá à sua posição toda uma nova perspectiva.
Boss, o treinador, é um indivíduo claramente sem escrúpulos - e há um funeral nesta história que serve perfeitamente para nos lembrar disso. Mas Euless, o rapaz com o seu sonho, é estranhamente vulnerável: desprezado pela maioria, preso numa relação com o pai que é tão má que disfuncional não chega para a descrever e agarrado a um sonho cada vez mais impossível. É fácil compreender o porquê da sua tenacidade. Ora, isto gera, naturalmente, sentimentos contraditórios - principalmente sabendo aquilo em que ele se tornará. Mas é também isso que torna a sua história tão notável: realçando os matizes de um cenário onde não há simplesmente bons e maus. O que há é ambições e o preço delas - e a violência necessária para concretizar o que se pretende. 
E depois... bem, há tudo o resto. A intensidade dos grandes momentos, o contraste vincado entre a pura violência e o que é, afinal, ainda e sempre um sonho - contraste este que transparece não só de uns quantos diálogos particularmente certeiros, mas da expressividade patente na arte, principalmente no que toca às feições das personagens. E desolação, claro. Uma desolação estranha, mas quase palpável, que resulta de uma história de sacrifício e sangue derramado em nome de algo que é duvidoso se vale a pena. 
Com um novo olhar a uma das personagens mais relevantes e um estranho equilíbrio entre os sonhos e as suas consequências, expande cenário e personagens para prometer ainda mais para o que virá. Intenso, sombrio e inesperadamente complexo, trata-se, pois, de um segundo volume mais do que à altura das expectativas geradas pelo primeiro. E que recomendo, naturalmente. 

Autores: Jason Aaron e Jason Latour
Origem: Recebido para crítica

domingo, 3 de fevereiro de 2019

A Fórmula do Amor (Helen Hoang)

Stella tem uma mente brilhante para os números, mas a sua síndrome de Asperger faz com que as suas interacções sociais tenham sérias limitações. Só que os pais delas querem netos e Stella está decidida a fazer-lhes a vontade, o que implica um relacionamento. Sentindo que precisa de melhorar, Stella decide procurar ajuda contratando um acompanhante que a ensine a ser melhor no sexo. Mas Michael tem muito mais do que isso para lhe ensinar. Atraente e encantador, mas com um passado conturbado que lhe impõe também as suas limitações, Michael começa por aceitar, com alguma relutância, a proposta de Stella. Mas, à medida que começam a interagir e a conhecer-se melhor, algo começa a despertar entre ambos. Algo de profundo e de verdadeiro... se estiverem dispostos a deixá-lo crescer.
Com um duo de protagonistas tão peculiar quanto carismático e uma história que parte de um estranhamente enternecedor constrangimento inicial para se tornar depois num crescendo de sentimentos profundos, este é um livro que cativa desde muito cedo e não deixa de surpreender até ao fim. Leve nos momentos certos, mas também com o equilíbrio ideal de humor, sentimento e sensualidade, é um daqueles em que mal damos pelas páginas a passar, tal é a vontade de saber o que acontece a seguir - e, principalmente, se as coisas vão acabar como desejamos para os protagonistas.
Parte desta sensação de proximidade vem de uma construção das personagens que vai muito mais fundo do que apenas a relação entre ambos. Stella, com a sua mente eficiente e os seus bloqueios sociais, tem experiências passadas e hábitos arraigados a condicionar cada passo que dá, e isto é marcante não só pela superação presente, mas pelos efeitos que, à medida que os acontecimentos passados vêm à tona, se tornam também mais evidentes. Michael, por sua vez, é uma estranha mistura de encanto e de sombras, com uma vida familiar cheia de ternura e capaz de despertar sorrisos enormes, mas com um passado cheio de fantasmas e de imposições que o prenderam à vida que tem. E a aproximação de ambos, com o desvendar destes aspectos não só ao leitor, mas também um ao outro, serve de base a uma relação mais sólida, mais completa... e mais complexa também, pois tudo isto implica os seus obstáculos. 
Surge então um contraste muito interessante: o de uma história de vidas complicadas contada com inesperada e deliciosa leveza. Pois a autora consegue dar a cada momento a forma que mais expande o seu potencial. Seja um jantar em família, um momento de sensualidade, uma grande discussão ou um simples gesto de conforto, em tudo surge o equilíbrio perfeito, pois tudo flui da forma mais natural.
No fim, fica esta deliciosa imagem: a de uma história cheia de romance e de humor, mas também de tensão, emoção e descoberta. Uma história de superação de obstáculos contada com toda a mestria e ternura de um enredo tão natural quanto a complexidade das suas personagens. Intenso, surpreendente, delicioso. E muito, muito bom. 

Autora: Helen Hoang
Origem: Recebido para crítica

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Ms. Marvel, Vol. 2 - Geração Perdida (G. Willow Wilson e Adrian Alphona)

Kamala Khan descobriu da maneira mais difícil que, com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Agora, o Inventor anda atrás dela, enviando máquinas cada vez mais perigosas, ao mesmo tempo que continua a empreender os seus planos maquiavélicos. Há vários adolescentes desaparecidos e é um destes desaparecimentos que faz com que Kamala se cruze com Wolverine, um dos seus heróis favoritos. Juntos, terão de encontrar a jovem desaparecida. Mas esse é apenas o início das revelações, pois, à medida que os contornos dos planos do Inventor começam a revelar-se, também a natureza dos poderes de Kamala se torna mais clara. E a certeza de que é preciso fazer alguma coisa.
Uma das primeiras coisas a sobressair neste segundo volume é que as peculiaridades que inicialmente se estranharam ao entrar nesta história são o que agora a torna tão única e cativante. Dos estranhos poderes de Kamala ao seu delicioso sentido de humor, passando, naturalmente, por um vincado contraste entre a sua natureza de super-heroína e a consciencialização para temas muito reais, são as coisas que tornam esta Ms. Marvel peculiar que a tornam também tão fascinante. E, agora que a conhecemos melhor, é fácil entrar no espírito da aventura, torcer para que seja bem-sucedida e sentir com ela, seja o impulso de agir, seja a confusão de descobrir que é ainda mais diferente do que pensava.
Esta fascinante peculiaridade sente-se em todas as facetas, desde os diálogos perspicazes às grandes sequências de acção, onde o movimento constante se associa a umas quantas expressões deliciosas. E, claro, Kamala pode ser uma super-heroína, mas é também uma adolescente entusiasmada. Daí que a expressividade do seu rosto em certos momentos específicos (com um destaque especial para as interacções com Wolverine) são algo de estranhamente encantador.
Mas voltando à história propriamente dita, há duas facetas que importa destacar. Primeiro, a riqueza e o contraste dos cenários, com o mundo dos adolescentes americanos a contrastar com o ambiente familiar de Kamala e também com o de Attilan. São ambientes muito distintos e os contrastes são notórios, o que, além de tornar tudo mais realista, permite compreender a posição de Kamala enquanto adolescente dividida entre mundos. E depois o equilíbrio, pois, ao longo da história, são muitos os momentos de acção, mas há espaço também para a necessária introspecção, para a análise das circunstâncias e até para uns quantos laivos brilhantes de emoção e de humor. São muitas facetas que convergem num todo harmonioso. E o melhor de tudo é que a conclusão é também, em si, um equilíbrio, encerrando uma fase - a do Inventor - para prometer novas e intensas aventuras. 
Intenso e viciante, trata-se, pois, de um livro imperdível, em que a aventura e a acção se conjugam com uma abordagem serena e perspicaz a um certo conflito geracional. Muito mais do que uma história de super-heróis, um livro cheio de surpresas e de vastíssimo potencial. Que promete ainda novas maravilhas. 

Autores: G. Willow Wilson e Adrian Alphona
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Divulgação: Novidade Suma de Letras

Uma tempestuosa manhã de Outubro. Num tranquilo subúrbio de Copenhaga, a Polícia faz uma descoberta terrível. No recreio de um colégio, uma jovem é encontrada brutalmente assassinada, e falta-lhe uma das mãos. Pendurado por cima dela, um pequeno boneco feito com castanhas.
A jovem e ambiciosa detective Naia Thulin é designada para desvendar o caso. Com o seu colega Mark Hess, um investigador que acabou de ser expulso da Europol, descobre uma misteriosa prova sobre «o homem das castanhas», nome com que os media baptizaram o assassino. Existem evidências que o ligam a uma menina que desapareceu um ano antes e foi dada como morta: a filha da ministra Rosa Hartung. Mas o homem que confessou o assassínio da menina, um jovem que sofre de uma doença mental, já está atrás das grades e o caso há muito encerrado.
Quando uma segunda mulher é encontrada morta e, junto dela, mais um boneco de castanhas, Thulin e Hess suspeitam de que possa haver uma ligação entre o caso Hartung e as mulheres assassinadas. Mas qual…?
Thulin e Hess entram numa corrida contra o tempo. O assassino tem uma missão… e está longe de a terminar.

SØREN SVEISTRUP é o guionista internacionalmente aclamado do fenómeno televisivo The Killing, vencedor de vários prémios internacionais, incluindo um BAFTA, e que foi reproduzido em mais de 100 países. Mais recentemente, escreveu para o cinema o guião do romance O Boneco de Neve, de Jo Nesbø. Sveistrup fez um Mestrado em Literatura e História na Universidade de Copenhaga e estudou na Danish Film School.
O Homem das Castanhas, o seu primeiro romance, é já um sucesso internacional, tanto de vendas como de crítica, e os seus direitos foram vendidos para 25 países.