sábado, 25 de setembro de 2021

Se Eu Fosse um Gato (Paloma Sánchez Ibarzábal e Anna Llenas)

Se eu fosse um gato... muitas coisas seriam diferentes. Afinal, existem muitos pontos de divergência entre gatos e seres humanos. Os gatos têm hábitos diferentes, comportamentos diferentes, gostam de coisas diferentes e sentem-se confortáveis em ambientes diferentes. Mas... não será também assim entre diferentes pessoas? Através deste simples mas enternecedor exercício criativo, as autoras levam-nos a entrar na pele de um ser diferente e a transpor essa aceitação da diferença para todas as outras divergências da vida. E isso é um exercício muito bom para todas as crianças... e que também não faria mal nenhum a alguns adultos.
É precisamente pela importância deste exercício de reflexão que importa começar. Aceitar a diferença nos outros, aceitar que todos temos alguma medida de diferença, e que, parafraseando a canção, é mais o que nos une do que o que nos separa, é hoje mais importante do que nunca. E quanto mais cedo se aprender, melhor. Este livro é uma forma cativante, leve e muito ternurenta de transmitir a mensagem. E continua eficaz - mesmo na sua inevitável simplicidade - ante um olhar adulto.
Sendo um livro infantil, escusado será dizer que o aspeto visual é também particularmente importante. E é também bastante eficaz, pois, nesta mistura entre gatos e humanos, consegue construir imagens divertidas, resumir ao essencial o que, às vezes, parece complexo e completar com um toque de magia as palavras simples - mas muito certeiras - do texto.
E, no meio de todas estas diferenças, há ainda uma outra mensagem: a da importância e do valor da amizade. Da amizade que persiste, da amizade que nos vê como somos, da amizade que não tem barreiras e em que os gestos têm a importância do que os move. A amizade é crucial à vida, e a verdade é que transborda destas páginas. E que, mais uma vez, continua perfeitamente visível da perspetiva adulta.
É uma história muito simples, mas capaz de enternecer mesmo aqueles de nós que, já bem longe da infância, veem esta perspetiva como, talvez, algo inocente. Às vezes, porém, a inocência é a forma perfeita de transmitir - ou relembrar - verdades essenciais, e é exatamente isso que este livro faz. De uma forma simples, leve e cheia de ternura.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Stumptown - Volume Quatro (Greg Rucka, Justin Greenwood e Ryan Hill)

Pode não ser o mais dramático ou o mais violento dos caos de sempre, mas Dex Parios tem nas mãos o que é, sem dúvida, o caso mais caricato que alguma vez enfrentou. Tudo gira em torno de umas quantas amostras de café. Um bom café, sim, mas, aos olhos de Dex, apenas isso. Só que para os múltiplos envolvidos não é essa a questão: o que está em jogo é um café muito caro e muito específico e a rivalidade entre dos multimilionários. Além, claro, da chamada máfia barista, que tem intenções nefastas para o futuro desse café. Dex só tem de o entregar em segurança. Mas, para o fazer, vai ter de passar por uns quantos confrontos.
É na peculiaridade do caso, e na sua relativa leveza, que está a grande força deste volume, pois afasta-se um pouco das situações mais sombrias para explorar uma história menos violenta (mas com ação quanto baste, ainda assim) e com uma abundância de elementos caricatos que a tornam surpreendentemente divertida. Ora este contraste torna-se ainda mais vincado se olharmos para o aspeto visual, com os seus tons sombrios, expressões carrancudas, posições quase de duelo ao amanhecer. É como se o objetivo fosse dar um tom sério - mas não demasiado sério - a uma história que se assume como tudo menos isso.
Outro aspeto interessante é que este caso mais leve abre espaço a mais alguns desenvolvimentos sobre a história pessoal de Dex. As interações com Ansel são sempre rasgos de ternura, dada a inocência da personagem, mas a entrada em cena da irmã vem trazer novas tensões e conflitos pessoais. Fica, aliás, uma certa curiosidade insatisfeita relativamente a esta relação familiar, pois, sendo uma parte secundária face ao caso principal, deixa algumas questões em aberto. Ainda assim, ver mais da vida pessoal de Dex Parios é vê-la mais humanizada. E isso nunca pode deixar de ser interessante.
Ainda uma última nota para referir o último capítulo, que é um caso separado da história maior deste volume. Com relativamente pouco diálogo, vive muito da arte e do movimento, principalmente tendo em conta que toda a história gira em torno de uma noite de vigilância. Mas sobressai essencialmente por dois aspetos: pela forma como, sendo totalmente independente, não parece deslocado do caso anterior, e pelo surpreendente rasgo de empatia final num caso que parece ter pouco de pessoal.
Leve e peculiar, mas com um equilíbrio eficaz entre os aspetos sérios e os caricatos, trata-se, pois, de uma leitura envolvente, intensa e surpreendentemente divertida. Dex Parios em toda a sua glória, nas mais inesperadas das circunstâncias. E sempre com a mistura certa entre frieza e vulnerabilidade que tão bem a carateriza.

domingo, 19 de setembro de 2021

O Livro do Conforto (Matt Haig)

Às vezes, o mundo frenético em que vivemos deposita sobre os nossos ombros o peso de expetativas demasiado pesadas. Outras, como nos estranhos dias que vivemos, a incerteza assume proporções colossais e é preciso aprender a lidar com coisas que jamais teríamos imaginado. E, no meio de tudo isto, há a nossa própria natureza, as nossas inseguranças, a forma como tentamos constantemente ser mais, fazer mais, viver mais... esquecendo a necessidade de ser simplesmente. Este livro contempla todas estas complexidades do mundo e volta-se para as coisas simples. Para o que em nós é suficiente, para os pequenos rasgos de beleza, para o que nos ilumina nas trevas. Para o que nos conforta, em suma. E o conforto pode estar nas coisas mais simples.
Parte da enorme beleza deste livro, e todo ele é beleza, vem da capacidade como, a partir da máxima simplicidade, nos consegue dar tanto com que nos identificarmos. Pode ser a frase simples que ecoa nos confins do nosso próprio sentimento e que nos faz sentir vistos, ou a abertura com que o autor nos fala das suas próprias dificuldades, e que nos lembra que não temos de nos envergonhar das nossas vulnerabilidades. Pode ser a forma como em poucas frases, ou às vezes numa só, diz tudo o que é preciso e fala diretamente ao coração. Ou podem ser as palavras que precisávamos mesmo de ouvir - e, sim, também contam se as encontrarmos num livro.
É um livro muito próximo, em termos estruturais, dos anteriores Razões para Viver e O Mundo à Beira de um Ataque de Nervos. (Já os leram, a propósito? Porque valem mesmo a pena.) E tal como nos anteriores, mas talvez ainda um pouco mais, tendo em conta que é de conforto que se trata, esta estrutura revela-se particularmente eficaz. Estrutura que o próprio autor aponta como não muito definida, oscilando entre textos mais extensos e outros muitíssimo breves, mas que parece ser já um estilo próprio. E que resulta, porque quando basta uma frase para se nos entranhar no pensamento, ou uma simples lista para refletir no que nos perturba, então é porque nada de essencial lhe falta. Além disso, este encadear de ideias, que forma um todo maior, mas em que cada texto é uma unidade completa, é perfeita para os múltiplos regressos a que este livro apela. Porque, se as palavras nos falam, então também sabemos onde as procurar quando precisarmos de as ouvir.
E há ainda um último ponto particularmente marcante. Quando pensamos em conforto, pensamos à partida em coisas boas, mas todos sabemos que a vida nem sempre são coisas boas. Ora este livro, na sua já repetidamente referida simplicidade, consegue ver esse lado complexo da vida: nem sempre nos sentimos confortáveis, felizes ou sequer serenos. Mas a lição destas páginas aponta-nos o caminho para procurarmos o conforto possível mesmo a partir do abismo. E isso é algo de verdadeiramente precioso.
Máxima beleza na maior simplicidade. Um registo pessoal, mas capaz de falar ao coração de todos. E uma visão do que é ser-se humano, do que é viver, com todos os seus meandros e tribulações, mas também com uma infinita força de aceitação e de esperança. Tudo isto faz parte deste livro. Tudo isto o torna único. E é tudo isto - e o que faz despertar em nós - que o torna tão prodigiosamente belo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Concerto para 8 Infantes e 1 Bastardo (Fernando Relvas)

Começa como um encontro casual entre conhecidos que já não se viam há uns anos, mas cedo se transforma numa grande confusão. Porquê? Porque Fred, um dos intervenientes, está metido em negócios duvidosos e Jaca, o outro envolvido, não consegue resistir à curiosidade e também a um certo espírito de entreajuda. O que começa por ser um encontro inofensivo rapidamente dá lugar a uma sucessão de ataques, intrigas e manobras de diversão, entre descobertas por vezes involuntárias e a perceção de que nem todos os mistérios terão resposta.
Composto por um núcleo relativamente reduzido de personagens, e por uma história relativamente breve, é na dimensão da intriga que se encontra um dos aspetos mais surpreendentes deste livro. Desde a droga ao tráfico de armas, passando pelo mundo das estrelas do rock, há muito à acontecer nesta história e uma teia de ligações surpreendentemente complexa. Tanto que é impossível não ficar com a sensação de que certos aspetos acabam por se explorados de forma demasiado concisa, ficando uma certa curiosidade insatisfeita relativa a alguns pontos do enredo.
Se o contexto acaba por ser relativamente sucinto, já aos cenários não falta singularidade, o que, associado a uma intrigante expressividade nos rostos - particularmente notável nos momentos mais... desconcertantes - torna toda a leitura visualmente marcante. Além disso, tendo em conta os cenários em que grande parte do enredo decorre, a predominância do escuro transporta-nos para um ambiente que evoca na perfeição a aura do policial e das histórias de espionagem.
E há ainda algo de estranhamente cativante na figura de Jaca, eterno aspirante a diplomata, mas sempre metido noutro tipo de... conversações. É uma personagem algo caricata, inevitavelmente enquadrada no seu tempo, mas diferenciada pelas escolhas que faz - e pela forma como a vida se intromete nessas escolhas.
Conciso na exploração de um enredo intrincado, mas sempre cativante na sua brevidade, deixa realmente alguma curiosidade insatisfeita, mas não deixa de contar uma bela aventura. E isso é mais do que suficiente para que valha a pena conhecer este peculiar concerto.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Se os Gatos Desaparecessem do Mundo (Genki Kawamura)

Devia ter sido apenas um dia normal, mas acaba de receber a pior notícia de sempre. Resta-lhe muito pouco tempo de vida e, aparentemente, não há nada que o jovem carteiro possa fazer para mudar isso. A não ser que... Quando menos esperava, eis que surge a mais inesperada das visitas. Apresenta-se como o Diabo e tem uma proposta a fazer. Se ele estiver disposto a fazer com que certas coisas desapareçam do mundo, pode receber um dia de vida por cada coisa eliminada. Existem coisas a mais no mundo, diz ele. Mas será mesmo assim? E onde se traça a barreira entre o que é dispensável e o que não é?
Com uma história relativamente breve e onde não é muito difícil prever alguns desenvolvimentos, até porque o título é bastante esclarecedor, é na capacidade de apelar à reflexão que se encontra o grande ponto forte deste livro. Reflexão sobre quê? Bem, sobre tudo, desde a mortalidade e as razões para viver à forma como a memória nos prega partida, sem esquecer o olhar à forma como certos objetos se apoderam de nós e à importância que certas coisas adquirem para certas pessoas, não por aquilo que são, mas pelo que simbolizam. Não falta material para reflexão neste livro e, tendo em conta a simplicidade do texto, torna-se particularmente poderosa a vastidão deste aspeto. Quem diria que bastam algumas frases simples para nos fazer pensar nas facetas mais profundas da vida?
Outro aspeto especialmente cativante é o lado inesperado. Desde o princípio que há elementos caricatos, a começar pela escolha de indumentária do Diabo, mas expandindo-se depois para as peculiaridades de certas personagens. E este lado ligeiramente bizarro destaca-se por duas razões: primeiro, porque confere leveza ao que é, essencialmente, a crónica de uma morte anunciada; e segundo, porque abre portas a sentidos diferentes para o que julgamos conhecer. A explicação para a referida indumentária é, aliás, particularmente marcante e faz especial sentido.
O último ponto a destacar deixa sentimentos ambíguos, mas faz também todo o sentido que assim seja. Ficam inevitavelmente perguntas sem resposta, em parte devido à brevidade, que faz com que o passado seja explorado de forma relativamente concisa, mas também porque o depois fica, em certa medida, à imaginação do leitor. Ora, isto significa que fica uma certa curiosidade insatisfeita, mas faz sentido que assim seja, pois o passado define-se pelas memórias das personagens (e a memória é sempre falível) e o futuro numa história sobre a morte tem sempre de implicar perguntas sem resposta.
Surpreendentemente profundo na sua relativa brevidade, e surpreendentemente leve tendo em conta as circunstâncias do protagonista, trata-se, pois, de uma história cativante, singular e repleta de material para reflexão. Um bom livro para pensar, em suma, e também para emocionar.

domingo, 12 de setembro de 2021

Juntos (Luke Adam Hawker e Marianne Laidlaw)

Quando pensamos no que é a normalidade, vêm-nos à cabeça vários elementos da nossa vida pessoal e profissional, das relações que temos com os outros e dos pensamentos, palavras e ações que definem o nosso quotidiano. Mas a normalidade pode ser abalada. Às vezes, formam-se tempestades que abalam tudo o que julgamos conhecer e a própria vida tal como a conhecemos. É essa a história deste livro: a de uma tempestade que abala a vida do seu protagonista e do mundo em que ele se move. Uma tempestade que não tem nome... mas que, por estes dias, é muito fácil de reconhecer.
Nunca, ao longo de todo este livro, a palavra coronavírus surge com todas as letras. Mas basta olhar para a história que as imagens nos contam para reconhecer o nosso presente na vida que estas páginas refletem. E, assim sendo, a primeira coisa a salientar neste livro, e parte do que o torna tão comovente, é esta inevitável proximidade. A tempestade e a forma como esta afeta o mundo pode ser ambígua quanto baste, mas facilmente a reconhecemos. E a história destas pessoas pode muito bem ser a nossa.
Outro aspeto notável é o equilíbrio entre imagem e palavra. O texto é muito simples, muito conciso, e suficientemente vago para se aplicar às múltiplas tempestades da vida. As imagens aproximam-se mais da nossa tempestade específica, mas, sem se tornarem demasiado singulares, dão-nos a todos algo com que nos identificarmos. Além disso, tudo neste livro é simplicidade, não só na construção, mas também na mensagem, e essa simplicidade torna tudo mais nítido e mais marcante. Torna tudo mais próximo.
Sendo certo que é sempre o conteúdo que mais marca, importa ainda, neste caso, destacar a forma. Tudo neste livro é beleza, e isso é algo que se nota antes mesmo de o abrir. Enquanto mero objeto, torna-se desde logo cativante, despertando uma curiosidade imediata para o seu interior. E depois o interior transporta-nos para dentro de nós, completando essa primeira impressão de beleza com a beleza das coisas simples mas comoventes e a visão daquilo que nos une a todos, na tempestade e na bonança.
Breve e simples, mas belíssimo, é um livro sobre uma tempestade específica, mas capaz de se transpor para todas as tempestades da vida. E uma inesquecível mensagem de afeto e de união... mesmo nos momentos em que temos de estar separados.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Os Olhos do Gato (Mœbius e Jodorowsky)

Num mundo destruído, e a partir do isolamento das trevas, um rapaz cego acompanha uma caçada. Como, porquê, por que inefáveis meios, nada disso tem importância. A única coisa certa é que o rapaz aguarda uns olhos para que possa ao menos brincar a ver. Mas esse tipo de inocência implica uma brutalidade complementar. E o pouco que é dito, e o muito que é visto, contêm em poucas páginas uma lei da vida.
Não é propriamente fácil encontrar uma forma de descrever este livro. Visto em termos de narrativa, é muito breve, muito simples e assenta em pouco mais do que um percurso muito simples. Visto em termos estruturais, é totalmente diferente, sem nunca perder de vista, ainda assim, o facto de o percurso ser muito conciso. E visto como um todo, é um misto de interrogação ante tudo o que fica por dizer e de surpresa ante a precisão do que de facto reflete.
É descrito como um poema visual, e esta é uma expressão que adquire um estranho sentido. Por várias razões: primeiro, desde logo, porque em termos de ilustração, há toda uma construção complexa e fascinante que prende o olhar mesmo nos momentos mais macabros; depois, porque o contraste de perspetivas lhe confere um ar quase onírico, que acaba por ter, inevitavelmente, uma certa aura poética; e finalmente, porque esta brevíssima história consegue, na sua inexplicável simplicidade, refletir inocência e crueldade nas medidas exatas, e uma reflexão sobre como a vida é dos implacáveis.
Sendo tão breve, fica também uma estranha sensação da perspetiva emocional, algures entre o choque e a ambiguidade. Choque pelo tal contraste entre inocência e horror. Ambiguidade, porque é tanto o que não é dito, e são tantas as possibilidades que ficam em aberto, que é impossível evitar uma certa mistura de curiosidade insatisfeita e de contemplação sobre os possíveis futuros desta personagem.
Muito breve, funciona como um vislumbre de uma possibilidade maior. Mas inesperado na intensidade, surpreendente no contraste entre inocência e crueldade, e visualmente fascinante na mistura de inovação e repetição, não deixa de ser marcante na sua relativa brevidade. E memorável, à sua maneira.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Madrugadas (José António Pinto)

Impressões de buscas, de encontros, de olhares para o interior da alma e para as profundezas do mundo. Impressões de madrugadas insones, conturbadas, introspetivas, meditabundas. Impressões de vida e de morte, de valores e transgressões, de solidão e convivência, de sociedade e isolamento. De tudo e do olhar que o contempla são feitas estas madrugadas, relativamente breves, de uma simplicidade fluída, mas sobretudo de uma coesão surpreendente.
Provavelmente o aspeto mais marcante deste livro, e também o que lhe confere uma certa indefinição, é que, sem títulos para os poemas, e com uma estrutura que flui praticamente em continuidade, tanto pode ser visto como um conjunto de pequenos poemas como ser entendido como um só, extenso e intrincado. E a verdade é que cada página é um todo completo, um poema total, mas há relações inefáveis entre todos eles e uma sensação de coesão e de pertença que faz com que o todo pareça maior do que a soma das partes.
É, pois, um livro que permite duas leituras, a do longo poema, que quase faz eco de uma extensa madrugada de insónia, e a dos fragmentos de múltiplas madrugadas, que, no seu todo, formam uma vida. Tudo isto com uma simplicidade permanente, em que não só as palavras são concisas, mas também as imagens evocadas parecem, por vezes, fragmentárias, como que saídas de um sonho. Todos os textos - ou partes do texto, dependendo da interpretação - são breves, sem grandes elaborações em termos formais. E, ainda assim, formam-se imagens no pensamento, deixando uma interessante ambiguidade que terá diferentes sentidos consoante as impressões do leitor.
Vive mais de impressões do que de elementos concretos, o que significa que muito é deixado à imaginação de quem lê. Abrange, ainda assim, um amplo espetro de emoções o que significa que, se alguns dos poemas - ou, mais uma vez, partes de - criam uma maior sensação de distância, outros há que reforçam a proximidade. E é curioso notar que, às vezes, as imagens mais marcantes surgem dos fragmentos mais pequenos.
Feito de impressões breves, dá forma a um todo maior. Feito de imagens simples, surpreende com as mais inesperadas impressões. E, com um intrigante equilíbrio entre o todo e as partes, proporciona uma leitura que é simultaneamente leve e vasta, concisa mas abrangente, e sempre muito cativante. Vale bem a pena deambular por estas Madrugadas.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Cidade de Espiões (Mara Timon)

1943. Denunciada como espia devido a uma paixão não correspondida, Elizabeth de Mornay vê-se obrigada a fugir a toda a pressa de Paris. Perseguida pela Gestapo e na inesperada companhia de um piloto escocês, vê-se obrigada a tomar medidas extremas de modo a conseguir sobreviver e sair do país. Conseguirá fazê-lo, mas com um preço elevado em vidas e em experiências traumáticas. Mas o seu trabalho não acabou. Enviada a Lisboa, recebe uma nova identidade e uma nova missão, sob a égide do padrinho. Para a desempenhar, terá de se assumir como uma nova personagem e de se introduzir num meio onde ninguém é o que parece. Mas o passado está mais perto do que julga e o território por onde se move não é tão neutro como aparenta ser.
Parte do que este livro tem de interessante é que, através da perspetiva da protagonista, consegue tornar acessível a complexa teia de relações e intrigas que define a Lisboa onde a maior parte do enredo decorre. Desde os vários serviços de informação às teias de uma suposta neutralidade, passando, naturalmente, pelos movimentos de resistência, pelos meandros do regime e pela dupla identidade de vários dos intervenientes, o que não falta nesta história é intriga e alguns dos seus labirintos são particularmente intrincados. Ainda assim, a forma como tudo é narrado, bem como a proximidade emocional que se vai desenvolvendo, fazem com nunca seja difícil acompanhar todas estas ligações, e com que o crescendo de intensidade resultante das múltiplas movimentações ganhe ainda mais impacto.
Outro aspeto particularmente notável é uma certa ambiguidade que torna tudo mais intrigante. No contexto da história, naturalmente, ou não fosse esta uma narrativa de espionagem, onde ninguém é apenas aquilo que diz ser (mesmo os que parecem realmente sê-lo), mas também no que diz respeito às decisões e aos valores das diferentes personagens. Elizabeth de Mornay e Eduard Graf são, naturalmente, as figuras que mais sobressaem neste aspeto, ela pelas decisões que tem de tomar para sobreviver, ele pela posição que ocupa e pela contradição das suas relações. Mas esta ambiguidade está um pouco por toda a parte, sendo, aliás, também particularmente vincada no sempre intrigante e enigmático padrinho de Elizabeth.
Importa referir, por último, que ficam umas quantas perguntas sem resposta, até porque tudo indica que este livro terá continuidade. Ainda assim, o final revela-se particularmente adequado, não só pela resolução de umas quantas circunstâncias específicas, mas também por parecer sugerir o fim de uma etapa - e o início de uma nova - para as principais figuras da história.
Cativante, intenso, intrincado e fascinante - assim é este Cidade de Espiões. Uma história que demora o seu tempo, mas que nunca deixa de cativar, tanto pelos enigmas e complexidades do enredo como pela força e intensidade das personagens que o povoam. Prende do início ao fim, em suma, e deixa muita curiosidade em saber o que se seguirá.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Divulgação: Novidades Saída de Emergência

Três jovens embarcam numa jornada épica neste romance poderoso e comovente inspirado em acontecimentos verídicos.
Luisiana, 1875. No tumultuoso rescaldo da Guerra Civil, três jovens mulheres embarcam relutantemente numa viagem perigosa: Lavinia, a mimada herdeira de uma plantação arruinada; Juneau Jane, a sua ilegítima e livre meia-irmã crioula; e Hannie, a antiga escrava de Lavinia. Divididas pela sociedade, pela lei e por ressentimentos antigos, todas carregam traumas privados e segredos poderosos enquanto se dirigem para o Texas, a terra da esperança, em busca dos familiares desaparecidos.
Luisiana, 1987. Para Benedetta, professora primária, um emprego numa escola rural parece a solução para amortizar as suas dívidas – até chegar a uma pequena cidade costeira do rio Mississipi. Augustine, no Luisiana, permanece firme nas suas crenças, suspeitando de novas ideias e de novas pessoas, e Benny dificilmente consegue compreender a vida de pobreza dos seus alunos. Mas entre os carvalhos retorcidos e as plantações degradadas existe uma história centenária de três jovens mulheres, de uma viagem antiga e de um livro escondido que pode transformar as suas vidas.

A batalha vai começar…
Ano 57. Cato e Macro, veteranos do Império Romano, regressam a Roma. Depois de uma campanha desastrosa na fronteira oriental, a receção na corte imperial é hostil. As suas reputações e futuro estão em jogo.
Quando a paixão do imperador Nero pela sua amante é explorada pelos seus inimigos políticos, ela é desterrada para o exílio. Cato, isolado e indesejado em Roma, é forçado a escoltá-la até à Sardenha.
Ao chegar à agitada e fervilhante ilha com um pequeno grupo de oficiais, Cato enfrenta o perigo em três frentes: um grupo de soldados dividido, uma praga mortífera que se espalha pela província... e uma violenta insurreição que ameaça lançar a região num caos sangrento.

Quando António parte para a Guiné em 1972, no cumprimento do serviço militar, o pai passa-lhe para as mãos um conjunto de documentos retratando as vidas dos seus antecessores, pedindo-lhe três promessas: que regresse vivo da sua expedição a África, que juntos visitem as terras moçambicanas onde o pai cresceu e que àqueles documentos António some as páginas da sua própria vida.
O que se segue é uma viagem através das gerações, à medida que o narrador procura juntar todas as peças para reconstruir o seu passado. Recuamos até ao seu trisavô que viveu a Guerra Civil Portuguesa, ao bisavô que trabalhou na construção das primeiras linhas ferroviárias de Portugal e ao avô que, na demanda de uma vida melhor, partiu para Moçambique. Por sua vez, a vida do pai Manuel, passada entre a ilha de Ibo, a cidade da Beira e o Brasil, ficou marcada pelo romance proibido com uma jovem alemã durante o período das guerras mundiais, relação causadora de conflitos e responsável por encontros e desencontros entre continentes.
Ao longo desta fabulosa saga familiar, acompanhamos a História de Portugal e os seus últimos momentos enquanto Império, desde o triunfo dos liberais em 1834 até ao pós-25 de Abril, através dos olhos das gerações sem nome que cruzaram mares e continentes em busca de uma vida melhor nos cantos mais remotos do Império Português.

Sente que não tem tempo para cozinhar? Chega a casa exausto, sem vontade de ir para a cozinha e de preparar as suas refeições? Não sabe o que fazer e está cansado de repetir os mesmos pratos? Quer uma alimentação saudável e aplicar esta filosofia à família, mas não tem noção de quais os melhores alimentos, que hidratos de carbono escolher e que porções comer?

• Em Ementa Planeada, Cozinha Organizada vai aprender a planear uma ementa semanal de refeições saudáveis, de forma fácil e prática, com várias dicas para tornar esta tarefa parte do seu dia a dia.
• Vai descobrir truques para ter toda a semana organizada e conseguir refeições saborosas e apelativas ao olhar e paladar em 30 minutos, com uma metodologia pensada para simplificar o planeamento de refeições.
• Conseguirá saber quais os melhores alimentos a escolher, encontrará dicas para quando vai às compras, as porções adequadas, como organizar a despensa, o frigorífico e como incluir toda a família na elaboração das refeições.

Com quatro ementas totalmente planeadas para os dias ou semanas mais complicadas, este livro alia dicas de nutrição para as melhores escolhas alimentares com planeamento e organização de refeições, que vão facilitar o seu dia a dia.
Acabe de vez com o «eu não tenho tempo e não sei o que cozinhar para ser saudável» e comece a ter tempo para si e para a sua família.

Um relato impressionante da luta para controlar o continente africano.
Em janeiro de 1885, a Conferência de Berlim definia as regras para dividir o continente africano e os seus recursos entre os países europeus. Apesar de essa divisão parecer inevitável, o desenho final ainda não estava definido. Nesta rigorosa investigação, Robert Harms reconstrói o processo caótico que transformou a floresta tropical do Congo na região mais brutalmente explorada de África.
Protegido durante séculos por fronteiras naturais, o Congo assistiu a partir de 1870 à chegada de exploradores oriundos da Arábia, Europa e América. Pioneiros num negócio implacável e mortal que envolvia marfim, borracha e escravos, todos eles despojaram a floresta tropical dos seus recursos naturais em busca de fama, dinheiro e poder.
Oferecendo descrições vívidas das caravanas de escravos, das conferências humanitárias e dos encontros diplomáticos, Terra de Lágrimas revela a forma como as redes mundiais de comércio, viagens e comunicação redesenharam e arruinaram o continente africano. Uma herança que ainda se sente nos nossos dias.

O Gato e o Rato Querem Sair Daqui (Günther Jakobs)

Há um gato dentro deste livro. Giro, não? Talvez. Mas o gato não acha muita piada. Tem fome e precisa de ir à casa de banho. Quer sair... mas sozinho não consegue Precisa de ajuda. E que tal abanar o livro? Virá-lo? Rodá-lo? Ou imaginar-lhe um amigo com quem partilhar o espaço. O gato quer sair... e ajudá-lo nesse objetivo é a base deste muito simples, mas deliciosamente interativo, livrinho.
A descoberta do prazer da leitura nasce, muitas vezes, de algo que nos intriga, que desperta a curiosidade ou que nos faz querer partir à descoberta. E despertar esse interesse nos mais novos é algo que pode ser feito de muitas formas. A deste livro parece particularmente interessante: o livro torna-se objeto em movimento, motivo de ação e de exploração. E descobrir que a leitura pode ser divertida é um excelente ponto de partida para despertar o amor pelos livros.
Além da interatividade, há também o aspeto visual a ter em conta. Bastante simples, centrada sobretudo nas personagens, a ilustração destaca-se por dois aspetos: ternura e expressividade. Ternura porque é, bem, um gato, com a inevitável dose de fofura associada. Expressividade, porque é realmente um gato muito expressivo nas emoções que reflete e nas necessidades que o levam a querer sair do livro.
Não é uma história elaborada, nem precisa de ser. É, na verdade, muito simples. E, ainda assim, há outro aspeto curioso a reter: é que as emoções e necessidades deste gatinho - fome, curiosidade, receio, necessidade de um amigo, vontade de explorar e de sair - são, de uma forma muito simples, reflexos de algo que todos nós conhecemos. E essa proximidade tem o dom de tornar esta pequena leitura interessante até para quem já deixou a infância lá muuuito para trás.
Simples, interativo, cativante e divertido, trata-se, pois, de uma bela história para apresentar aos mais novos a magia dos livros. E, para aqueles de nós que já não são assim tão novos, é também uma bela recordação de tempos mais simples, e de como basta o essencial para cativar.

domingo, 29 de agosto de 2021

Um por Um (Ruth Ware)

Neve, esqui e umas férias de luxo: é esse o plano para a equipa da Snoop, uma empresa em ascensão cuja aplicação parece estar a ter um sucesso sem precedentes. Só que há sombras a pairar sobre esse luxuoso retiro. Há uma oferta de aquisição em cima da mesa e os acionistas da Snoop estão muito obviamente divididos. Em vez da promessa de descanso, o que parece cada vez mais presente é a tensão entre os vários elementos do grupo. E as coisas ainda mal começaram a complicar-se. Primeiro, um dos fundadores desaparece. Depois, uma avalanche deixa-os isolados. E o que parecia ter sido um acidente começa agora a dar sinais de ser obra de um assassino... que parece estar a ceifá-los um a um.
Comparada, por vezes, a uma Agatha Christie dos tempos modernos, Ruth Ware demonstra neste livro a precisão dessa comparação, não só pela capacidade de construir mistérios intrincados onde todos são suspeitos, mas pelas pequenas referências que parecem emergir do enredo. Neste caso, a acumulação de mortes uma a uma tem evidentes ecos de As Dez Figuras Negras, ainda que numa forma totalmente nova, num cenário muito mais moderno e com uma identidade própria. Parece premeditado, na verdade, como que em jeito de homenagem. E torna tudo mais intrigante, pois há um mundo de diferenças salpicado por pequenas semelhanças.
Outro aspeto marcante vem da dualidade de perspetivas, pois a história é narrada pela voz de duas das personagens principais. Erin e Liz dificilmente poderiam ser mais diferentes, tendo em comum apenas o facto de terem uns quantos segredos. E, ainda assim, à medida que o enredo evolui, e que os aparentes laços vão dando lugar a suspeitas, possibilidades e reviravoltas, há diferenças que se vão esbatendo e outras que se vão revelando, acrescentando novas perspetivas a cada novo desvendar de suspeitas.
Claro que o grande mistério é a identidade do assassino, e também aqui a autora consegue surpreender... como em tudo o resto, aliás. Mas há muito mais em torno deste mistério, desde as relações pessoais e profissionais às tensões e estratagemas, sem esquecer, claro, as sombras persistentes do passado. Há uma grande teia em torno do curto período de tempo em que o enredo decorre. E, além da intensidade que resulta da conjugação de todos estes elementos, há um crescendo de intensidade que culmina num final que surpreende não só pelas grandes revelações, mas pelas decisões com que confronta as várias personagens depois de tudo desvendado.
Intenso e intrincado, cheio de surpresas e de segredos, e principalmente muito viciante, trata-se, pois, de um livro que nos transporta para o coração do mistério. Prende desde as primeiras páginas e não deixa de surpreender até ao fim. E é também isso que o torna tão empolgante e memorável. Muito bom, em suma.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Projecto: MOTHER (Mónica Cunha)

Criada para resolver os problemas de um mundo à beira do colapso, MOTHER é uma inteligência artificial que cumpriu exatamente aquilo a que se destinava. Mas, pelo caminho, retirou à humanidade o controlo das suas vidas e a liberdade de escolha. Muitos parecem estar felizes com a sua nova condição, mas há uma organização que não se resigna. E agora parece estar iminente a destruição da MOTHER. Tudo depende de Yeside e da sua capacidade de manter a serenidade no confronto final. Mas, quando as certezas se transformam em perguntas, será que a calma pode prevalecer?
Algo que importa começar por dizer sobre esta história é que é um conto muito breve. E isto é algo particularmente relevante tendo em conta que parece haver todo um mundo de contexto e de possibilidades que não é desenvolvido nestas poucas páginas, mas que, ainda assim, parece quase tangível. É possível imaginar, através do que é efetivamente narrado, a luta anterior, a transformação do mundo, a formação e as ações do grupo de resistentes. E, ainda assim, nada disto é contado, o que significa que fica uma peculiar mistura de sensações: uma certa curiosidade insatisfeita ante um enredo que talvez pudesse ser muito maior, mas também a sensação de que tudo o que é essencial está lá.
Outro aspeto particularmente notável tendo em conta a relativa brevidade é a capacidade de levantar questões pertinentes, tanto de uma perspetiva global como individual. O mundo à beira do colapso, os meandros do poder e a quem servem, a forma como a defesa de uma suposta liberdade individual se sobrepõe, por vezes, ao bem-estar coletivo e a forma como a visão coletiva parece condicionar a individualidade... tudo isto está presente nesta história. E, ao nível pessoal, a necessidade de afeto, de fazer algo de bom na vida, de lutar por algo maior ou de simplesmente pertencer. Também isto é visível, e com uma precisão surpreendente para as suas tão poucas páginas.
Quanto ao fim, fica novamente uma certa ambiguidade, que faz todo o sentido, tendo em conta o que está para trás. Todo este duelo, todo este confronto de vontades, vive do que move as personagens e do que as construiu. E, tendo em conta o que fica por dizer do passado, faz sentido esta conclusão ambígua, em que uma escolha absolutamente certa é algo que não parece existir e em que as boas ou más intenções... bem... têm sempre consequências.
Podia ser uma história muito mais vasta, mas a verdade é que resulta bem assim. E, entre a sua capacidade de empolgar, o surpreendente impacto emocional e a abundância de material para reflexão, consegue ser uma história completa, apesar do muito que deixa por dizer. Além de muito cativante, naturalmente.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Faithless - Volume Dois (Brian Azzarello e Maria Llovet)

Faith achava que a sua vida era um tédio infernal. E alguém lá em baixo parece tê-la ouvido. Agora, tornou-se uma artista famosa, cuja originalidade desperta a curiosidade de todos os colecionadores. Mas há mais além disso e Faith começa a perceber que aqueles que a rodeiam são muito mais do que figuras excêntricas. Além disso, também ela tem as suas próprias capacidades. Mas o mundo da magia que lhe abriu as portas da fama esconde profundezas sombrias... e talvez Faith esteja já demasiado envolvida para voltar atrás.
Fusão de erotismo e sobrenatural, este é um livro onde é apenas expectável que haja uma certa dose de estranheza. E, bem... estranheza não lhe falta. Desde os momentos quase absurdos a uma surpreendentemente pouco violenta abundância de sangue, não há praticamente nada neste livro que não siga por caminhos inesperados. E, entre a sensualidade e o horror, o elemento mágico vai desvendando novas facetas e a estranheza vai dando lugar à curiosidade.
Outro aspeto particularmente notável nesta série - e particularmente neste volume - é o ambiente quase onírico e o contraste com a realidade. Momentos há que parecem saídos de um pesadelo ou, talvez, de um quadro de Bosch. Outros, transpostos para a luminosidade do dia, parecem ser de simples rotina - tirando os aspetos em que não são. E este contraste entre o normal e o sobrenatural, que é visível sobretudo na arte, mas também na própria história, com a Faith que deambula como uma turista a contrastar com a Faith que usa a sua influência para obter o que quer, é também parte do que vai tornando a história cada vez mais intensa.
São muitas as perguntas sem resposta que ficam ao fim deste segundo volume, ao ponto de ficar uma certa sensação de curiosidade insatisfeita relativamente a certos aspetos. Mas, tendo em conta que, ao que tudo parece indicar, esta história está ainda longe do fim, essa curiosidade insatisfeita não deixa de funcionar também como um despertar para a vontade de saber o que virá a seguir e que possíveis explicações surgirão para certos acontecimentos.
Sombras e sensualidade num estranho equilíbrio entre choque e envolvência, natural e sobrenatural, sonhos... e pesadelos. Assim é este novo volume desta série singular e cativante, onde há ainda muito por mostrar e por dizer... e também o que falta promete ser intenso.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Wish You Were Here (Nuno Morais)

Enviado ao Algarve para conduzir uma investigação, no mínimo, macabra, que envolve a descoberta de múltiplos cadáveres e a suspeita do envolvimento de poderosos, o inspetor Frederico Batalha regressa à casa das suas memórias para passar a noite antes de dar início à sua própria investigação. Só que essas memórias nunca deixaram de o assombrar, tanto que nunca mais regressou. E agora está de volta, os fantasmas vieram novamente à tona e as perguntas sem resposta são mais do que nunca. Longe está ele de imaginar que o caso que o trouxe ali tem mais ramificações do que esperava...
Algo que importa começar por dizer sobre este livro é que é relativamente breve, daí que seja uma surpresa a forma como entrelaça dois elementos tão diferentes como a história pessoal do protagonista e o caso em investigação. Importa, pois, também dizer desde já que a história não dará todas as respostas, com o âmbito mais vasto da investigação a passar para segundo plano ante a história pessoal do protagonista. Ainda assim, e pese embora a curiosidade insatisfeita que fica sobre o caso para lá dos laços pessoais, nunca deixa de ser uma história cativante e, pelo menos no que ao percurso pessoal diz respeito, que termina de forma particularmente adequada.
É o tipo de livro que se lê praticamente de uma assentada, não só devido à já referida brevidade, mas também devido ao estilo direto com que tudo é narrado. Não há grandes elaborações, até as reminiscências se concentram mais em momentos do que em introspeções e tudo progride de forma muito rápida, o que significa que, havendo sempre algo a acontecer, nunca há momentos mortos. Além disso, apesar de uma certa ambiguidade moral, não deixa de haver também uma boa empatia para com o protagonista (sobretudo na sua faceta mais jovem) que gera uma agradável sensação de proximidade ao longo de grande parte da leitura.
Podia, provavelmente, ser uma história mais longa, até porque o desenvolvimento do caso é muito conciso e deixa muito em aberto, o que significa que fica, de facto, uma boa dose de curiosidade insatisfeita. Ainda assim, não deixa de haver um certo equilíbrio - e um contraste que faz sentido - entre a parte pessoal e a parte profissional do percurso de Frederico, sendo que as respostas surgem na menos esperada das facetas.
Breve e conciso, mas cativante e agradável, mistura elementos do policial com a história de um romance de juventude. E, embora deixe coisas por explorar, nunca deixa de surpreender, nos mistérios... e sobretudo nas memórias.

sábado, 21 de agosto de 2021

Drácula (Georges Bess)

Enviado a um castelo na Transilvânia para tratar de assuntos burocráticos, Jonathan Harker não tarda a ver-se confrontado com circunstâncias inexplicáveis e aprisionado pelo que parecia ser apenas um cliente excêntrico, mas se revelou verdadeiramente monstruoso. Inicialmente apenas peculiar, o conde Drácula é muito mais do que isso. E tem planos - planos para partir para Londres, onde adquiriu várias propriedades e onde espera construir um novo terreno de caça. Mas Jonathan não é tão indefeso como parece. E nem todos são tão ignorantes da natureza do monstro como o conde parece julgar... principalmente os que têm motivos pessoais para o enfrentar.
Parte do que faz de um livro um clássico é a sua intemporalidade, a forma como resiste à passagem do tempo e ganha nova vida a cada nova leitura e interpretação. Ora isto aplica-se também à sua adaptação a novos formatos. E, no caso desta adaptação específica, a primeira coisa que importa referir é que essa intemporalidade é transposta para algo em que tudo é beleza.
Claro que, ao olhar para uma adaptação, uma das questões que inevitavelmente surgem é a da fidelidade ao original e a do equilíbrio com o que a diferencia. Bem, o equilíbrio é praticamente perfeito. Em termos de linha do enredo, segue com precisão a história que lhe serviu de base, ao ponto de quase ser possível ouvir a voz do original, sobretudo nos momentos de maior tensão. E o aspeto visual - onde, mais uma vez, tudo é beleza - significa que há também algo de novo, de único, a contrapor a esta inevitável familiaridade para quem já leu o romance de Bram Stoker.
E, continuando no aspeto visual, porque a verdade é que as imagens ficam presas na retina, há um aspeto particularmente marcante. Os vastos cenários, a expressividade dos rostos (e, tendo em conta certas personagens, esta expressividade é particularmente intensa) e a forma como os próprios jogos de sombras realçam o ambiente soturno do enredo transmitem na perfeição a natureza gótica da história. Mas é também nos pequenos pormenores que esta presença mais se sente: rosas e ossos, presenças fantasmagóricas, como que saídas da memória, asas e nevoeiros, elementos evocativos que fazem de cada imagem mais do que uma simples representação de um enredo. Há uma história, mas quase se poderia dizer que há também imagens que são um todo em si mesmas. E também isso é beleza. Também isso é impressionante.
Fiel às origens, mas também singular; cheio de sombras, mas também do esplendor do seu próprio brilho (porque é brilhante de facto); e capaz de acrescentar algo de novo a uma história mais que conhecida e intemporal. Assim é este Drácula, tão sombrio e perturbador com o original, mas de uma beleza profunda... e inesquecível.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Odes Modernas (Antero de Quental)

Mudança e intemporalidade. Regra e desafio à regra. Estrutura e liberdade de ir para além das estruturas definidas. De tudo isto são feitas estas Odes Modernas, compostas em igual medida de olhares à tradição, à crença e ao costume e da liberdade que resulta de quebrar as suas amarras. De forma e conteúdo equilibradas entre o comum e o singular, entre as formas e as figuras que todos conhecemos e uma visão diferente dada a todas elas.
Parte do que impressiona neste livro é a sucessão de equilíbrios que parece dar-lhe forma: equilíbrio entre coesão e singularidade, pois, embora abrangendo múltiplos poemas, parece formar um todo maior; equilíbrio entre o antigo e o novo, pois a mesma voz que olha para o passado desafia a construir um novo futuro; equilíbrio ainda ante estrutura e liberdade, pois todos os poemas têm uma forma muito precisa, mas da qual resulta uma naturalidade total; e equilíbrio, finalmente, entre altivez e humildade, pois há nestes poemas um certo tom solene, mas voltam-se também para as facetas mais humildes da vida.
Outro aspeto marcante são, naturalmente, as imagens que evoca, pois, ao construir um equilíbrio entre novas ideias e tradições seculares, evoca também rituais, figuras, costumes, entendimentos. E fá-lo com uma vez soberba, que transporta as imagens para o pensamento, a cadência quase para um tom de melodia e dá vida ao mesmo antigo mesmo enquanto apela a um novo.
De voz solene e altiva, mas capaz de descer as raízes do mundo; com uma cadência que se entranha no pensamento e que quase parece ouvir-se em voz alta... mesmo quando lida em silêncio; e com uma sucessão de equilíbrios notáveis na sua ligação entre passado e futuro. Assim são estas Odes Modernas: feitas, ainda e sempre, de mudança... e intemporalidade.

sábado, 14 de agosto de 2021

Moonshine, Vol. 3 - Querer a Lua (Brian Azzarello e Eduardo Risso)

Lou Pirlo pode ter conseguido escapar de uma situação muito difícil, mas a maldição que o assola não deixou de existir. Agora, conta com Delia e com os seus contactos para procurar uma forma de se curar . Também ela tem as suas próprias capacidades e uma relação muito íntima, ainda que atribulada, com duas bruxas. Só que voltar às origens pode ser um perigo. Delia deixou um passado de contas para ajustar e Lou pode ser a arma que faltava para esse ajuste de contas. Ver a sua maldição como uma bênção torna-o vulnerável. E a única saída para ambos pode ser uma suposta submissão...
É de esperar, à partida, tendo em conta os volumes anteriores, uma forte presença sobrenatural em cada desenvolvimento desta história. E ela existe, de facto. Menos expectável, talvez, é a forma que essa presença assume, com as bruxas e o poder da magia a assumirem agora o destaque e a revelar novos tipos de influência. Esta nova magia acrescenta complexidade ao enredo, além de ambiguidade, pois as relações entre as personagens são mais nebulosas do que nunca, o que, embora causando uma certa perplexidade, mantém sempre viva a curiosidade quanto ao que se poderá seguir.
São tantos os elementos em jogo que, às vezes, chega a parecer que certos momentos passam demasiado depressa, com as ligações passadas - e o contexto que as acompanha - a surgirem de forma ligeiramente vaga. Ainda assim, esta relativa concisão é amplamente compensada pela intensidade, pois, com tanto a acontecer em tão pouco tempo, é praticamente impossível desviar os olhos da história.
Em termos visuais, destacam-se dois pontos: o contraste de cores e de sombras, onde o vermelho domina nos momentos expectáveis e o contraste entre a luz dos dias e a penumbra arrepiante das noites realça na perfeição a dualidade da condição de Lou; e os elementos sobrenaturais, com os surpreendentes rasgos de horror e de beleza a surgirem num equilíbrio eficaz.
Relativamente breve, mas carregadinho de ação, deixa, a espaços, alguma curiosidade insatisfeita, mas sem nunca falhar no essencial. Cativante, intenso e misterioso, projeta as personagens para um novo cenário... e nunca deixa de surpreender.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Enquanto a Lua Muda (Sofia Serrano)

Camila, Aurora, Francisca e Margarida. Quatro mulheres, quatro histórias diferentes. Quatro vidas ligadas de forma inesperada. Camila, com a sua vocação de sempre para parteira, que a levará por caminhos inesperados e nem sempre lineares. Margarida, destinada desde pequena à medicina, mas com obstáculos a superar. Aurora, a jovem humilde com sonhos de amor e realidades horríveis. E Francisca, capaz de tudo para conseguir o que quer. Dificilmente podiam ser mais diferentes, mas têm algo em comum. E, atraídas para uma convergência pelas voltas da vida - e da Lua - guardam cada uma os seus segredos e as suas aspirações.
Dividida entre quatro pontos de vista e quatro personalidades muito diferentes, esta é uma história que surpreende, em primeiro lugar, pelo equilíbrio entre leveza e complexidade. Oscila entre diferentes períodos temporais, entre as perspetivas de várias personagens, entre meandros que se vão tornando cada vez mais ambíguos, mas nunca perde a fluidez e a envolvência. E é essa, aliás, a maior força desta história: a capacidade de cativar sempre, mesmo quando as escolhas das personagens são questionáveis, mesmo quando as opções tomadas as levam da proximidade à distância.
Outro ponto a destacar neste livro é que, da já referida ambiguidade, resulta bastante matéria para reflexão, pois, embora haja linhas relativamente claras, as motivações e circunstâncias fazem com que as escolhas não sejam assim tão fáceis de julgar. Além disso, e apesar da também já referida leveza, não faltam temas sérios ao longo desta história, desde a violência doméstica ao tráfico de crianças, passando pela luta contra a doença e os preconceitos entre classes sociais.
Finalmente, destaca-se um final equilibrado para um enredo onde nem sempre é fácil gostar das personagens. Equilibrado porque deixa o suficiente em aberto para cada leitor imaginar o futuro que lhe parecer mais justo e equilibrado também porque dá soluções com sentido para todas as personagens. Com sentido, mas não perfeitas, como não poderiam ser, tendo em conta as imperfeições da própria vida.
Envolvente e emocionante, leve, mas cheio de questões complexas, e com um conjunto de personagens e acontecimentos capazes de despertar emoção mesmo nos seus momentos mais ambíguos, trata-se, em suma, de uma boa história, e de uma leitura que prende da primeira à última página.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Atraiçoada (Kiera Cass)

Esteve quase a ser rainha, mas deixou tudo por amor. E depois esse amor desfez-se em nada devido à ambição e às intrigas de um rei sem escrúpulos. Em menos de nada, Hollis perdeu tudo. E, não tendo mais nada a perder, está decidida a fazer justiça. Por si, pela nova família que encontrou junto dos familiares do seu amor fugaz e também pela ideia de que quem é capaz de tudo para atingir os seus fins não pode ter tantas vidas nas mãos. Deixa, pois, o seu reino e parte para Isolte, para participar numa conspiração. Ciente de que haverá quem a julgue só por ser quem é... mas de que tem um papel a desempenhar.
Um dos primeiros aspetos a destacar neste livro é comum ao primeiro volume: a relativa brevidade. Relativa, porque, nas suas mais de duzentas páginas, não é assim tão curto, mas, com tantas coisas a acontecer no enredo, parece que podia ser bastante maior. É esse, aliás, o principal ponto fraco desta história: que, pela forma relativamente breve como tudo é narrado, há situações que parecem acontecer de forma demasiado simples, demasiado apressada, deixando uma certa sensação de curiosidade insatisfeita.
Apesar desta óbvia limitação, não lhe faltam, ainda assim, aspetos cativantes, a começar pela sucessão de reviravoltas, não só em termos de intrigas, mas sobretudo de relações pessoais. A mais clara de todas diz respeito a Etan e a Hollis, naturalmente, pois o caminho que ambos têm a percorrer está carregado de mudanças, não só de cenário e de estatuto, mas sobretudo de mentalidade. Além disso, a sensação de perigo constante e as múltiplas perdas já ocorridas fazem com que haja também uma boa medida de emoções fortes que contrastam com um sentido de humor que é, talvez, um dos grandes pontos fortes deste livro.
Ainda um outro aspeto a destacar é que, apesar da rapidez de alguns aspetos, há, ainda assim, alguns pontos notáveis na construção das personagens. Aqui, é Etan que se destaca, com a pessoa que se esconde atrás da sua barreira a ser muito diferente do que as primeiras atitudes demonstram. Também este lado inesperado das personagens contribui para gerar grandes surpresas e para realçar a ideia sempre relevante de que ninguém é apenas o que parece à primeira vista.
Relativamente breve e essencialmente simples, apesar da sucessão de reviravoltas, trata-se, pois, de uma leitura leve, mas capaz de suscitar emoção nos momentos mais inesperados. Cativante, surpreendente quanto baste e divertida nos momentos certos, uma boa aventura.

sábado, 7 de agosto de 2021

Armazém Central: Serge | Os Homens (Régis Loisel e Jean-Louis Tripp)

A vida em Notre-Dame-des-Lacs tem regras bem definidas, ainda que não estejam escritas em lado nenhum, exceto na rotina das pessoas. Mas essa rotina tem vindo a sofrer alguns abalos, e há um novo que vai abalar tudo o que a comunidade conhece. A entrada em cena de Serge, um perfeito forasteiro, desperta imediatamente suspeitas na comunidade, sobretudo após ter-se alojado em casa de Marie. E quando, quase sem ninguém dar por isso, Serge começa a ocupar um papel importante na comunidade, há quem não se sinta muito satisfeito com isso. O que parecia sólido tem, afinal, algumas fragilidades. E não será preciso mudar mentalidades para que uma nova paz se possa instalar?
Um dos aspetos mais marcantes desta série é a forma como retrata com absoluta perfeição as particularidades da vida num meio pequeno, onde todos se conhecem, as relações são estreitas e quase todas as mudanças são encaradas com desconfiança. É uma história que vive tanto das grandes revelações como dos pequenos momentos, o que, além de a tornar mais cativante, gera emoção nos mais inesperados momentos e consegue ainda fazer refletir sobre a forma como o medo e os preconceitos comandam, às vezes, as decisões das pessoas.
Outro aspeto curioso é que, embora situada num local muito específico, e com hábitos também bastante singulares, outros elementos há que facilmente poderiam se transpostos para outros locais. As festas, o porco, os vizinhos que se juntam para ajudar com alguma coisa, o regresso dos que partiram em alturas específicas do ano... soa familiar, não soa? E, tendo em conta o curso da história, esta familiaridade de um contexto diferente faz com que também as questões que evoca se tornem familiares. A posição de Marie, o segredo de Serge, os mexericos, as confissões, a necessidade de ajuda... tudo o que vive neste mundo vive também, de certa forma, na realidade.
Olhando, por último, para a arte, há dois aspetos que, não sendo particularmente novos para quem já leu outros volumes da série, não deixam ainda de merecer destaque: a expressividade das personagens, sobretudo no caso de Marie, em que os olhos parecem falar, mas presente em praticamente todos os intervenientes; e os discretos laivos de ternura discreta, numa carícia a um gato ou nas brincadeiras entre os animais, que acrescentam ainda um novo rasgo enternecedor a uma história toda ela emotiva.
Vive das pequenas coisas e das grandes emoções. Ensina lições insuspeitas, mais pela ação que pela palavra. E cativa, emociona e surpreende ao virar de cada página. Eis a alma desta série, e particularmente deste volume: uma leitura terna, intensa e memorável.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

O Monge e o Milionário (Vibhor Kumar Singh)

À primeira vista, seria de esperar que fossem totalmente incompatíveis. Um, um capitalista ferrenho, dedicado de alma e coração aos seus investimentos e ao sucesso empresarial. O outro, focado numa vida minimalista como forma de encontrar a paz e a sabedoria. Mas eis que, de formas diferentes, ambos se veem confrontados com a mesma pergunta: és feliz? E é esse o ponto de partida para uma parceria lucrativa, não só do ponto de vista financeiro, mas sobretudo da perspetiva mental.
Um dos aspetos mais interessantes desta pequena mas muito interessante leitura é o contraste que cria entre dois mundos diferentes, realçando tanto os obstáculos como as lições positivas a retirar de cada um desses mundos. As personagens são Monge e Milionário, mas aquilo que representam tem repercussões interiores: o Monge, com a sua emotividade, a sua presença espiritual e a sua visão mais minimalista do mundo, representa o coração; o Milionário, com a sua racionalidade, o seu pragmatismo e o seu pensamento sistemático, corresponde obviamente ao cérebro. E, assim, os dois mundos em colisão tornam-se forças complementares. Na história como na vida.
Sendo uma história breve, é também de esperar que seja relativamente simples. A história propriamente dita é, aliás, feita mais de pequenas partilhas do que propriamente de grandes acontecimentos. Ora, tendo isto em vista, é apenas natural que fique uma certa curiosidade insatisfeita, pois, mais centrada na lição do que num possível enredo, fica uma certa vontade de conhecer melhor estas personagens. Mas é também um daqueles casos em que a mensagem é mais importante do que o mensageiro, fazendo, por isso, sentido que personalidades e histórias passem frequentemente para segundo plano.
Falando, então, na mensagem. Mais do que soluções perfeitas, o que este livro apresenta é um conjunto de ideias e de pontos de partida para a busca da felicidade. Não promete fórmulas mágicas - até porque não existem fórmulas mágicas. Mas tem a capacidade de, em moldes inesperados e com uma simplicidade sempre cativante, nos fazer refletir um pouco, não só sobre a própria felicidade, mas também sobre outros aspetos da vida, desde o rancor ao perdão, passando até pelas ideias preconcebidas que temos de certas práticas.
Breve e leve, mas com uma boa base para reflexão, trata-se, pois, de uma história simples, mas onde Monge e Milionário - cérebro e coração - refletem um pouco de cada um de nós. Muito interessante, em suma, em múltiplas facetas.

domingo, 1 de agosto de 2021

Amnistia (Aravind Adiga)

Danny vive há quatro anos como imigrante ilegal na Austrália. Limpa casas, leva uma vida discreta, encontrou o amor num site de encontros para vegetarianos - apesar de não o ser - e aprendeu umas coisas sobre como manter a discrição para não ser apanhado. Em tudo o que faz, tem sempre algo bem presente: nunca voltará ao seu país. Só que a paz discreta da sua vida está prestes a desfazer-se. Certa manhã, ao limpar a casa de um dos seus clientes, recebe a notícia da morte de Radha Thomas, também ela uma antiga cliente sua. E, à medida que começa a perceber mais do que aconteceu, começa a suspeitar de que sabe também quem a matou. Só que denunciar o assassino implica denunciar-se a si mesmo e, possivelmente, ser deportado. Terá, pois, de decidir o que tem mais força: o medo ou a consciência.
Passada totalmente num único dia, embora parecendo abranger uma vida inteira, este livro tem a sua grande força no dilema interior que o define - e nas repercussões desse dilema em termos de perspetiva global. Danny debate-se entre a necessidade de ficar calado para não se denunciar e a consciência que lhe diz que não pode fazer isso. E as suas circunstâncias projetam uma pergunta para o leitor: será justo, verdadeiramente justo, que alguém possa fazer o que está certo e ser castigado por isso? É este o cerne desta história e é esta a grande marca que deixa: a capacidade de questionar, de fazer refletir, de gerar empatia onde ela muitas vezes não parece existir.
Também a voz do livro tem o seu lado singular, pois, apesar de narrado na terceira pessoa, parece entrar diretamente nos pensamentos de Danny, expressando as suas dúvidas, realçando as suas experiências, traçando até alguns monólogos interiores - ou... bem, diálogos interiores com um cato - particularmente marcantes. Além disso, a perspetiva de Danny enquanto figura deliberadamente invisível faz com que, sendo embora um percurso pessoal, haja também uma visão bastante nítida do cenário e do contexto ao longo de toda a narrativa.
Um último ponto a destacar é que, sendo uma luta entre medo e consciência, não é, ainda assim, uma história com uma visão linear de bem e mal. Sim, à primeira vista, pode parecer óbvio qual é a decisão certa a tomar. Mas dadas as circunstâncias, as dúvidas que vão emergindo e a própria ambiguidade do sistema, a perspetiva vai-se alterando. E a ambiguidade é particularmente forte porque nenhuma personagem se aproxima sequer de uma nobreza imaculada. Todos têm os seus defeitos, as suas vulnerabilidades humanas, as suas sombras. E assim, há uma dúvida que persiste até ao final da história. Final esse que é também emocionalmente ambíguo... porque é mesmo assim que tem de ser.
O próprio tema torna inevitável que não seja propriamente uma leitura leve. Mas é uma história que deixa a sua marca: pelo tema, pela complexidade, pela visão pura e dura de uma espécie de justiça onde qualquer boa ação pode ser castigada. E por Danny, em toda a sua singularidade, da estranheza à memorável empatia.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Mademoiselle Chanel e o Perfume do Amor (Michelle Marly)

1919. O nome de Coco Chanel é conhecido para todos. Conta entre as suas clientes inúmeras figuras importantes, muitas das quais a veem como indigna das suas atenções, ainda que não se importem nada de exibir as suas peças. Mas Coco - ou Gabrielle - nunca se importou com o que os outros pensavam. Bastam-lhe o sucesso, os amigos e o amor. Só que nada é eterno na vida, e muito menos o amor. E a perda do seu grande amor lança Gabrielle numa busca incessante por preservar a sua memória, os projetos que fizeram juntos. Um hino, em suma, ao amor partilhado - em forma de perfume.
Provavelmente o aspeto mais marcante neste livro é a forma como a autora parte de um conjunto de personagens reais para dar vida a uma história em que o verdadeiro protagonista é, na verdade, o perfume. Sim, claro, que é Gabrielle Chanel que domina, e uma Gabrielle que é muito mais fascinante pela forma intensa e emotiva que a autora tem de explorar o seu percurso e as suas relações. Mas a verdadeira força motriz da história é a criação do perfume, desde a sua origem enquanto projeto partilhado de amor à sua efetiva criação e desenvolvimento.
Não quer isto dizer, naturalmente, que as personagens sejam secundárias, ainda que tudo gire em torno deste grande projeto. É que, ao longo do caminho de Gabrielle, há muitas relações e contactos, desde a amizade algo possessiva com Misia à relação atribulada com Stravinsky, sem esquecer o amor de conto de fadas com Dimitri. Há todo um percurso a acompanhar e, nele, muitos momentos marcantes. E há também uma fluidez de narrativa que faz com que todo o enredo progrida com naturalidade, com uma voz leve quanto baste, mas cheia de emoção.
Há, finalmente, uma certa ambiguidade, que é necessária, não só por ser uma história de figuras reais, mas também porque o próprio percurso o exige. Não há amores perfeitos nesta história, tal como também não há personagens perfeitas. Coco Chanel pode desafiar as convenções da sociedade, mas essas continuam bem presentes. E, assim, há desenvolvimentos que nem sempre serão os mais desejados, mas são os que fazem mais sentido - ou os que mais se aproximam da realidade. E que podem tornar a história mais agridoce, mas tornam-na também mais viva.
Envolvente na escrita, fascinante nas personagens e muito equilibrado na forma como dá vida a um projeto de sonho sem esquecer a realidade, trata-se, pois, de uma leitura cativante e que mostra um lado diferente da sempre célebre Coco Chanel. Vale bem a pena conhecer esta história, portanto.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

A Melodia do Pássaro Amarelo (Jennifer Rosner)

Tinham uma vida cheia de música, até que o silêncio se abateu sobre o mundo. Agora, a pequena Shira tem de aprender a conter os mais ínfimos sons para que os soldados não a descubram no celeiro onde está escondida com a mãe. Para se consolar, cria mentalmente melodias para o seu pássaro amarelo e espera que tudo passe. Mas o perigo está perto e aquele esconderijo não durará para sempre.
Um dos aspetos mais surpreendentes deste livro vem da forma como, passada num contexto sobejamente conhecido, a história adquire, ainda assim, um registo singular e pessoal. Centrada na sobrevivência das protagonistas, deixa para segundo plano o contexto global para se focar nas experiências pessoais e na forma como estas se repercutem em cada passo.
O resultado desta perspetiva é uma história mais simples, mas também mais emotiva, mais ambígua, no sentido em que há aspetos que são apenas sugeridos, mas mais próxima. E sempre com um lado inocente que, passado para primeiro plano, contrasta vivamente com a crueldade em que se enquadra. 
Ainda um último ponto marcante é a presença da música em toda a história, das memórias de um passado menor ao conforto no meio do medo, passando pela capacidade de unir, inspirar a comover, a música acaba por ser também uma personagem, e uma que confere a esta história um enternecedor rasgo de poesia.
Simples quando baste, mas carregado de sentimento e de intensidade, trata-se, em suma, de uma leitura cativante, sobre tempos negros e perda, mas também amor e esperança. Uma bonita história. 

domingo, 18 de julho de 2021

Monstress, Vol. 5 - Filha da Guerra (Marjorie Liu e Sana Takeda)

A guerra tornou-se inevitável. Se antes as movimentações eram feitas sobretudo nas sombras, agora os ataques tornaram-se óbvios e mais brutais do que nunca. Ravenna está prestes a ser atacada e não tem grandes hipóteses de se defender. E, embora Maika tenha aparentemente coisas mais importantes com que se preocupar, até porque todos continuam a ter planos para ela que não consegue entender, dá por si a entrar na cidade e ocupar um lugar que nunca desejou. Entretanto, o passado vai vindo à tona. As antigas ligações revelam-se mais frágeis do que parecem. E pode não haver limites para o que é preciso fazer. Pode ser preciso aceitar o inaceitável.
Há algo de impressionante na forma como, a cada volume, esta história se vai tornando mais densa e mais complexa sem nunca perder de vista a base que a faz girar. O caos tornou-se global. A guerra arrasta tudo à sua passagem. Maika está mais perdida do que nunca e confiança é coisa que tem tudo para correr mal. E, ainda assim, continua a haver espaço para emoções profundas, para a ternura no meio do sangue, para a sensação de proximidade que brota mesmo dos tormentos mais sombrios. Maika tem de se aceitar como aquilo que é - e esse caminho quase transborda das páginas. E, à medida que as coisas se vão tornando cada vez mais moralmente ambíguas, o cada vez mais ténue cerne de inocência torna-se também cada vez mais precioso.
Outra das grandes forças desta série é, obviamente a arte, com a sua abundância de pormenores e os padrões fascinantes que vão brotando, seja dos cenários, das vestes ou até de certas expressões nos rostos. Neste volume, tudo parece adquirir tons algo mais negros, o que faz especial sentido tendo em conta os desenvolvimentos. E, ainda assim, há um equilíbrio poderoso entre os rasgos de beleza - sim, mesmo no caos - e a inevitável brutalidade da guerra, que assume também uma face bem visível. Há beleza por entre as sombras, intensidade nas expressões e um cenário tão único que, mesmo ao atravessar as mais sombrias mudanças, nunca perde o seu estranho encanto.
Ainda não é aqui que a história acaba, o que significa que, mais uma vez, ficam muitíssimas possibilidades em aberto. Mas, mais uma vez, também a forma como tudo termina parece perfeitamente ajustada ao fluxo da narrativa: encerrando uma etapa e abrindo caminho para novos passos; revelando novas facetas e insinuando sombras que ainda se poderão manifestar. Tudo indica que o caminho destas personagens está ainda longe do fim - e é grande a vontade de saber o que se seguirá.
Uma voz especial, páginas que transbordam de beleza, um núcleo de personagens tão ambíguo quanto fascinante e um mundo tão cheio de surpresas como os seus desenvolvimentos: é de toda esta matéria que é feito este livro magnífico. Que não desilude em nada e deixa expetativas ainda maiores para o que se poderá seguir. Belíssimo, em suma.

sábado, 17 de julho de 2021

Apesar de Tudo (Jordi Lafebre)

Dizem que o coração tem razões que a razão desconhece. E, apesar de tudo, quando sente, persiste nos sentimentos. Apesar dos desentendimentos, das incompatibilidades, da passagem do tempo, da vida, dos obstáculos, das ilusões. Apesar de tudo, persiste. E, quando escolhe, se escolhe, persiste também nessa escolha. É esse o caso do que une os corações de Ana e de Zeno, uma vida inteira de contactos dispersos e um amor que persiste... apesar de tudo. Ela, a mulher dedicada a modernizar a sua cidade, ele, a provar que o tempo pode voltar para trás. E será que não pode mesmo?
Com uma história simples e, ainda assim, cheia de emoção, é na sua estrutura invulgar que este livro tem o primeiro de vários pontos marcantes. Basta abri-lo e encontrar um capítulo 20 logo no início para perceber que esta história não vai ter um rumo linear. Mas tendo em conta a missão de Zeno - e será que o tempo pode realmente voltar para trás? - esta linha cronológica faz todo o sentido. Além disso, tendo em conta o tema central - os longos desencontros do amor - não podia ajustar-se mais esta viagem ao passado.
Outro aspeto notável, mas agora em termos visuais, é a imensa expressividade dos rostos. Claro que todo o livro é visualmente bonito, a começar desde logo pelos cenários, com o seu marcante contraste entre os locais por onde as personagens deambulam, e sem esquecer o movimento que, às vezes, diz mais do que todas as palavras. Mas é a expressão dos rostos - seja melancólica, expectante, irónica ou até um pouco travessa - que mais fica na memória. Até porque o amor que une estas duas personagens parece transbordar-lhes das expressões.
Quanto à história propriamente dita, fica uma impressão curiosa: é que é tanto o impacto do que é dito como o do que fica por dizer. A história é feita de momentos no tempo - e do tempo que passa, claro - o que significa que, de cada um desses retalhos, há aspetos apenas aflorados. E, ainda assim, não é uma sensação de curiosidade insatisfeita, mas mais como que de um equilíbrio entre o que passa e o que fica na memória ao longo do tempo. O que fica connosco para sempre.
Relativamente simples, mas transbordante de amor e de vida, trata-se, pois, de uma leitura relativamente leve, mas memorável em todos os seus aspetos. Uma história de amor e de tempo e de como nunca é tarde para encontrar o que faltava.

terça-feira, 13 de julho de 2021

A Anomalia (Hervé Le Tellier)

É um voo conturbado, mas aparentemente normal, tirando o grande susto da enorme turbulência. Nele, viajam um assassino profissional, um escritor e tradutor talentoso, mas pouco famoso, uma atriz, uma advogada, um arquiteto e a sua cada vez mais relutante namorada, um cantor à beira da fama e muitos outros passageiros. Passam pela turbulência e acabam por aterrar. E a vida continua, feliz para uns, infeliz para outros, absurdamente terminal para mais uns quantos. E, passados três meses, algo de estranho se revela. E a vida nunca mais será a mesma, para eles e para o resto do mundo.
Provavelmente o aspeto mais cativante neste livro - e diga-se de passagem que não lhe faltam aspetos cativantes - é a sua capacidade de conjugar quotidiano e impossível, tragédias pessoas e fenómenos à escala mundial, vidas individuais e o peso da humanidade como um todo. Cada personagem tem a sua própria vida, os seus segredos e motivações. Cada personagem tem uma identidade própria. E, ainda assim, todas convergem para um fenómeno inexplicável que mudará tudo aquilo que conhecem, conjugando singular e global de uma forma que é também ela singular.
Outro ponto marcante resulta, naturalmente, da própria escrita e da forma como o autor parece moldar o registo ao percurso individual de cada personagem. Da profunda frieza do assassino profissional à profunda emotividade da iminência da perda, passando pela perda de um amor, do sentido para a vida, da inocência e das aspirações, cada personagem tem também o seu próprio espetro emocional, e o autor dá-lhes voz de forma particularmente intensa. Além disso, à medida que o enredo se vai desenvolvendo, explorando novas perspetivas com o desvendar do fenómeno e as inevitáveis consequências, a história vai-se adensando, as situações tornam-se mais complexas, mas tudo continua a fluir com uma naturalidade notável.
Ainda um último ponto a salientar é a imprevisibilidade, com a necessária ambiguidade que a acompanha. Tudo nesta história é imprevisível, a começar, desde logo, pela anomalia central, e a forma como o autor conduz o enredo faz com que tudo surpreenda, nas grandes coisas e nos pequenos pormenores. Mas mais do que isso. A imprevisibilidade absoluta significa que não pode haver explicações para tudo e o equilíbrio brilhante que o autor consegue atingir, deixando por explicar o que não pode ser explicado, mas conduzindo cada peça para o final mais adequado (mas não necessariamente perfeito) é algo de particularmente genial.
Notável será, pois, uma boa palavra para descrever este livro: na escrita, no enredo, nas personagens, nas emoções. No equilíbrio que faz com que tudo faça sentido, mesmo o que jamais o poderia fazer. E na intensidade que faz com que se entranhe na memória, do início ao fim... e mais além.

domingo, 11 de julho de 2021

A Minha Irmã é uma Serial Killer (Oyinkan Braithwaite)

Korede é enfermeira. Tem como missão cuidar das pessoas nos seus momentos mais vulneráveis. E também a irmã mais velha de Ayoola e sempre lhe foi incutido que a sua missão era proteger a irmã, principalmente tendo em conta o passado de ambos. Ayoola é tudo o que Korede não é: bela, irresistivelmente atraente, impulsiva, extrovertida. E tem um segredo sombrio, do qual Korede é cúmplice. Já matou vários dos homens com quem se envolveu. Korede está habituada a proteger a irmã, a ajudá-la a ocultar os crimes. Mas agora o olhar de Ayoola voltou-se para alguém que lhe é muito querido. E talvez seja tempo de tomar uma decisão definitiva sobre quem é e que posição quer assumir.
Uma das primeiras coisas que importa dizer sobre este livro é que, apesar de envolver uma assassina em série, está muito longe de ser um policial. É muitas outras coisas: uma história de irmãs, uma visão de conflito entre tradição e modernidade, uma história de trauma e das suas consequências e até uma história de amor não correspondido. E, sim, também é uma história de crime, mas construída de uma forma tão diferente que, mesmo tendo em conta esses elementos, não são de todo o mistério e o crime a predominar.
É também uma história bastante singular, não só pelas particularidades do enredo, mas sobretudo pelo percurso pessoal das várias personagens e pela moralidade algo ambígua que as move. Ayoola, tendo em conta o seu historial, dificilmente poderá ser vista como uma personagem benigna, mas Korede, enquanto narradora, mostra-a em tempos mais inocentes, o que acaba por despertar alguma empatia. Já Korede parece seguir o percurso contrário, pois a empatia inicial face às suas circunstâncias vai dando lugar a algo mais complexo à medida que o enredo progride.
A ambiguidade não se cinge à moral das personagens. É uma história narrada na primeira pessoa, em capítulos relativamente curtos e com uma perspetiva inevitavelmente parcial, o que significa que ficam inevitáveis sentimentos ambíguos acerca de certos desenvolvimentos. Não deixa, ainda assim, de ser uma ambiguidade curiosamente adequada. Confrontada com uma escolha impossível, Korede encontra o caminho possível. Dividida entre o que é e o que pode ser, opta pela decisão mais realista. E, tendo em conta a forma como tudo termina, é também esta ambiguidade que faz com que as possibilidades fiquem no pensamento mesmo depois de terminada a leitura.
Singular e cativante, leve no registo, mas surpreendentemente complexo na perspetiva moral, trata-se de um livro ambíguo no sentido mais positivo do termo. E que leva o seu tempo a assimilar, mas acaba por se entranhar na memória com as suas estranhas e fascinantes circunstâncias.

sábado, 10 de julho de 2021

Gideon Falls, Vol. 5: Mundos Malvados (Jeff Lemire, Andrea Sorrentino e Dave Stewart)

Devia ter sido o fim. A destruição do Celeiro Negro devia ter finalmente posto termo à maldade intangível que persistia em alastrar-se. Mas não foi isso que aconteceu. Agora, os cinco viajantes dispersaram-se por múltiplos universos, múltiplas Gideon Falls, cada uma mais perturbadora que a anterior. E não estão sozinhos. A presença do Celeiro não foi destruída - foi libertada. E o que parecia ser o fim foi na verdade o início do fim. Agora, não sabem o que fazer além de tentar sobreviver e procurar-se uns aos outros. E sabem que têm de fazer alguma coisa. Não importa o quê. Antes que seja tarde.
Provavelmente o mais estranho de todos os volumes desta série até agora, é também o que deixa mais perguntas em resposta, até porque parece ser todo ele uma grande preparação para o derradeiro final. Dividida entre múltiplos cenários e os passos dos diferentes protagonistas, esta fase da história é essencialmente uma corrida contra o tempo, sem grandes explicações nem resoluções, até porque essas virão depois, mas como que a montar o palco para a derradeira explosão.
É o livro onde a história parece menos coesa, até porque faz sentido que assim seja, já que parece ser uma espécie de caos antes da ordem (ou da implosão final). Mas é também o livro que, visualmente, mais parece expandir este universo, pois não só oscila entre múltiplos cenários como há uma convergência a acontecer, que é refletida de forma particularmente brilhante nos contrastes e na transição entre imagens.
Tudo parece ter mudado desde o ponto em que tudo começou. O halo de sombra e a óbvia presença sinistra continuam bem presentes, mas o horror primitivo parece ter dado lugar a algo mais complexo e difícil de decifrar. Tendo isto em conta, o que não falta ao fim deste quinto volume são perguntas sem resposta, mas fica também uma grande curiosidade em saber de que forma tudo acabará por encaixar no fim. Até porque, chegados a este ponto, tudo é possível, desde uma colisão de mundos ao não muito expectável triunfo do bem sobre o mal, passando por todos os cenários intermédios. É impossível prever como tudo isto acabará.
Pode não ser o volume mais marcante desta série, mas não deixa de gerar grandes expetativas nos caminhos que prepara para o que se poderá seguir. E, com a intensidade das cores e dos contrastes, com as personagens já tão conhecidas e com o grande enigma por resolver, não deixa de proporcionar uma boa leitura e de cativar... como o que veio... e o que ainda está para vir.