sábado, 12 de junho de 2021

A Mão que Mata (Lourenço Seruya)

Um mês após a morte do patriarca da família, os seus três filhos reúnem-se para tratar das partilhas. O local é a casa em Sintra onde o pai viveu e que um dos irmãos pretende comprar. Mas o que devia ser um encontro tranquilo transforma-se em tragédia quando a tia Manuela é encontrada morta. E, ainda que a teoria do assalto seja a explicação mais fácil de adotar, não é essa a opinião de um dos inspetores responsáveis pelo caso.
Parte do que torna esta leitura cativante é a forma como o autor consegue construir uma identidade própria a partir de uma estrutura relativamente conhecida. A ideia so crime misterioso cuja resolução está nos segredos dos presentes na casa é, de certa forma, um clássico, mas o autor dá-lhe uma voz diferente ao transpor para Portugal um enredo normalmente mais frio e ao substituir o habitual detetive pelos procedimentos de um grupo de inspetores da Polícia Judiciária. Além disso, se inicialmente a fórmula parece familiar, o desenrolar dos acontecimentos não tarda a abrir portas a uma sucessão de inesperados, o que rapidamente torna a leitura viciante.
Outro equilíbrio particularmente notável resulta da multiplicidade de perspetivas, acompanhando não só o percurso da investigação, mas também o dos suspeitos. Estes vários pontos de vista vão deixando pistas para a identidade do culpado, mas apontam também em vários sentidos diferentes, o que contribui em muito para manter o mistério vivo até ao fim.
E há ainda a questão pessoal, não só aplicada aos motivos do crime, mas sobretudo à vida particular de Bruno. Além de revelar uma personagem profundamente humana, com os seus defeitos, mas essencialmente com o coração no sítio certo, insinua enigmas do passado que sugerem, talvez, um possível regresso.
Da soma das partes, fica, pois, a impressão de uma reconstrução moderna do mistério clássico. E uma leitura cativante, intensa e cheia de surpresas. Muito bom.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor

Dos primórdios à modernidade, da antiga tradição às novas liberdades do presente, da incessante luta por uma liberdade que parece sempre, na melhor das hipóteses, parcial e por uma vida que ora é pessoal, ora é a de um continente inteiro. De tudo isto, em inúmeras vozes, é feita esta longa e vasta antologia. Um livro extenso e tão variado em vozes como em estilos e temas, onde há, por isso, uma imensidão de poesia a descobrir.
Existem essencialmente duas características nesta antologia que sobressaem logo ao primeiro contacto e que são confirmadas ao longo de toda a leitura: é completa e é diversa. Completa, porque abrange toda a história da poesia angolana: tradição oral, precursores e contemporaneidade. Diversa, porque em todo este longo caminho, não falta diversidade de vozes, de estilos, de estruturas e, claro, de perspetivas. Claro que há temas que dominam - a liberdade, a luta, o sacrifício, a relação com a terra, os grandes heróis - mas parece haver espaço para todo o tipo de registos, desde os que assumem a voz de um país inteiro aos que exploram os labirintos pessoais do coração, dos que dão ritmo à tradição e à memória aos que contemplam com nostalgia o que foi e não voltará a ser.
Alguns nomes são sobejamente conhecidos. Outros não o serão tanto. Alguns, conhecidos de outras formas literárias, têm na poesia um registo totalmente diferente, o que suscita uma cativante mistura de reencontro e de revelação. E, ao longo de todo o livro, há todo o tipo de impressões emotivas: o que marca, o que comove, o que apela à dança (ou parece dançar na página). Claro que há sempre poemas mais marcantes e outros que não suscitam o mesmo impacto. Mas entra aqui outras das vantagens de tão grande diversidade: cada leitor tem as suas preferências. E cada leitor encontrará aqui algo à sua medida.
Longo, abrangente e muito interessante. Completo, complexo e cheio de vozes marcantes. Vasto na diversidade das vozes e nos impactos que causa. E, por tudo isto, memorável à sua maneira singular. Assim é esta antologia que abrange uma história inteira. E que é nitidamente um livro a que valerá a pena regressar.

domingo, 6 de junho de 2021

Heather, Absolutamente (Matthew Weiner)

Mark e Karen Breakstone construíram uma vida perfeita. Ele ganha bem, embora nunca tenha alcançado o auge do sucesso com que sempre sonhou. Ela encontrou na filha, Heather, alguém em quem depositar todos os seus sonhos e ideais. E Heather tem realmente um brilho especial que não é visível apenas aos olhos dos pais. E, ao crescer, começa a atrair um tipo diferente de atenção. Radiante e bela, Heather atrai olhares onde quer que vá. Mas o perigo está mais perto do que julgam e as obras realizadas pelo vizinho de cima trazem para perto a presença de estranhos. E de um estranho em particular, cuja contemplação de Heather parece esconder intenções tenebrosas.
Um dos primeiros aspetos a sobressair no que diz respeito a este livro é a forma como, apesar da relativa brevidade, explora múltiplas perspetivas e questões pertinentes. A história oscila entre as perspetivas de Mark, Karen, Heather e Bobby, cada um com a sua própria personalidade e as suas próprias sombras. E oscila também entre meios contrastantes: a riqueza e a segurança que definem a vida dos Breakstone e o mundo de pobreza e violência de onde Bobby emergiu. Ora, com estes dois mundos em colisão e o poderoso contraste entre o ideal e o inimaginável, tudo insinua tragédia desde muito cedo. Mas a tragédia anunciada... não é a bem a que se espera.
Outro aspeto particularmente interessante é que, numa história que gira em torno de visões do ideal, nenhuma das personagens é propriamente ideal. Nem o casamento de Mark e Karen é perfeito, nem eles são exatamente o que queriam ser. A própria Heather, com a sua beleza radiante e empatia profunda, consegue transformar, a espaços, essa empatia em profunda crueldade. E quanto a Bobby, tudo é ambiguidade, pois esconde monstruosidades insuspeitas e sonhos quase infantis na mesma personalidade. O resultado é que nenhuma destas personagens é do tipo que desperta empatia imediata, não deixando, ainda assim, de, com as suas imperfeições e complexidades, despertar uma constante curiosidade.
É precisamente neste aspeto que a relativa brevidade faz com que fique uma ligeira curiosidade insatisfeita, pois o papel destas personagens acaba por surgir sempre em função dos outros intervenientes. A história de Bobby cinge-se sobretudo à promessa da tragédia iminente, mas fica a sensação de que mais haveria a dizer. E quanto a Heather, a sua totalidade só surge muito a espaços, quando a sua perspetiva consegue sobrepor-se à visão idealizada de todos os outros sobre ela. Não falta nada de essencial à história, em suma, mas fica uma ligeira impressão de que podia não se ter esgotado nas suas cerca de cento e cinquenta páginas.
Cheia de contrastes e de surpresas, trata-se, pois, de uma leitura relativamente rápida, mas memorável em muitos aspetos. Breve mas intensa, concisa mas complexa na construção dos laços, uma história de tragédia anunciada... mas com os seus matizes de inesperado ao longo de todo o percurso.

sábado, 5 de junho de 2021

Criminal - Livro Quatro (Ed Brubaker e Sean Phillips)

Nascer num certo meio, com um determinado nome ou com certos amigos nem sempre é caminho aberto para uma vida de sucesso. Existem meios, nomes e amigos em que o caminho aponta inevitavelmente para uma vida de crime e de violência. Aqui, os negócios de família envolvem atividades pouco lícitas - ou nada lícitas mesmo - e quem se vê embrenhado nelas sabe que não existem verdadeiras saídas. Nem a prisão é segura. Nem a infância. Nem mesmo um sonho alternativo que acaba por se desfazer.
Sendo um dos elementos característicos desta série o equilíbrio entre a relativa independência de cada história e a intrincada teia de laços, intrigas e interesses que unem as várias personagens deste universo, uma das primeiras coisas a destacar deste volume específico é a presença de um novo laço. Bem, não totalmente novo, pois o universo do desenho e da banda desenhada já se tinha manifestado antes. Mas o elo comum é, desta vez, bastante mais evidente e, além de acrescentar um lado quase inocente aos desenvolvimentos, acrescenta também um poderoso contraste visual nas histórias (ou fragmentos de histórias) que surgem dentro do enredo principal.
Outro aspeto comum a todos os volumes, mas que surge aqui com um impacto diferente, é a desolação da inevitabilidade. Muitas das personagens parecem estar presas ao mundo em que nasceram, ou a que involuntariamente acabaram por ficar ligadas, mas tudo adquire um impacto maior quando a história e a perspetiva são as de um miúdo que não tem propriamente escolha. Além disso, ao não haver propriamente uma cronologia linear, pois só este livro passa por três épocas diferentes, todo o percurso realça a ideia de um círculo vicioso de crime que se perpetua por não haver alternativas.
O que me leva a outro ponto marcante: que, sendo embora um mundo de crime e de violência, não são os momentos de grande ação e conflito os que mais se entranham na memória. São os de um miúdo que sacrifica a inocência, de alguém que carrega aos ombros o peso de uma grande vergonha, de um espaço em que a única fuga é para o interior de uma história que não existe. Desolação, em suma, a mesma desolação que tão caraterística parece ser de tudo o que estes dois autores tocam.
Não são as histórias mais complexas deste universo e, ainda assim, não lhes falta nada. Têm inocência e emoção, esperança e desolação, expetativas e uma realidade inexorável. E violência e ação quanto baste, mas muito mais além disso. Encaixam, pois, perfeitamente no ciclo de sombras e de intrigas que é este tão fascinante universo. E, como todas as outras, ficam também na memória.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Divulgação: Novidade Saída de Emergência

Polónia, 1941. Róża e a sua filha de cinco anos, Shira, têm de se refugiar num celeiro quando os nazis iniciam a perseguição aos judeus. Escondida dia e noite, Shira tem dificuldade em permanecer quieta e em silêncio, com a música a percorrer-lhe o corpo e a quinta convidativa lá fora. Para a acalmar, Róża conta-lhe a história de uma menina num jardim encantado, onde um pássaro amarelo canta as melodias com que ela sonha. Neste mundo de fantasia, Róża consegue proteger Shira dos horrores que as cercam. Até ao dia em que o abrigo deixa de ser seguro e Róża tem de tomar uma decisão impossível: manter Shira ao seu lado ou afastar-se para lhe dar uma hipótese de sobreviver.

Jennifer Rosner é autora de vários livros para crianças. A Melodia do Pássaro Amarelo é a sua estreia na ficção para adultos. Os seus trabalhos já foram publicados no The New York Times, The Massachusetts Review, The Forward, entre outras publicações. Para além de escrever, é professora de Filosofia.
Estudou na Universidade de Columbia e de Stanford. Vive com a família no Massachusetts.

 

terça-feira, 1 de junho de 2021

Roma Obscura (Luis Manuel López Román)

A cidade de Roma esconde no seu seio todo o tipo de perigos, desde as complexas intrigas das diferentes fações políticas, que implicam muitas vezes consequências fatais para o lado perdedor, às mais aparentemente simples rixas de taberna causadas por uma frase mal interpretada. Mas existem ainda outros tipos de perigo, mais tenebrosos e incompreensíveis, alimentados - ou interpretados - à base das superstições da maioria. É a este mundo que Marco Lemúrio pertence. Há quem lhe chame bruxo, feiticeiro, caçador de licantropos, charlatão, vigarista. E talvez seja um pouco de tudo isso. Mas tem também um legado de conhecimento e de sangue e é por isso que sabe que nem todas as histórias de fantasmas são contos para assustar crianças ou explicar o inexplicável. Sabe que as sombras existem e os feiticeiros também. E, ao que tudo indica, anda um à solta na cidade.
Provavelmente o aspeto mais cativante deste livro - e diga-se de passagem que não lhe faltam aspetos cativantes - é a forma como transpõe para um mundo que é, por si só, bastante complexo um conjunto de elementos sobrenaturais sem com isso tornar a história demasiado obscura ou irreal. A possibilidade da existência da feitiçaria, a presença de poderes sobrenaturais e o inevitável confronto com esses poderes conjugam-se com a intriga política, as diferenças sociais e até um contexto histórico que deixou as suas marcas no protagonista de forma equilibrada e natural, o que proporciona uma leitura surpreendentemente leve, tendo em conta as complexidades do sistema.
Outro ponto particularmente notável é a construção do próprio Marco Lemúrio. Não é, à primeira vista, o tipo de personagem com a qual se espera sentir uma empatia imediata. Frequentador assíduo de tabernas e prostíbulos, com uma ocupação no mínimo duvidosa e uma vida gerida entre a preguiça e o vício, não é propriamente um cidadão romano exemplar. Mas esta primeira impressão vai-se gradualmente esbatendo para revelar uma figura mais complexa e muito mais moralmente reta do que seria de esperar. Não é um herói perfeito, nem poderia ser, com as sombras que o acompanham. Mas as particularidades do seu percurso vão revelando qualidades insuspeitas na sua personalidade.
E há, claro, o mistério propriamente dito, que Marco tem de resolver, não só por motivos financeiros, ma também por interesse pessoal. Por múltiplos interesses pessoais, aliás, sendo um deles salvar a vida. E, não querendo revelar demasiado sobre os desenvolvimentos, sobressaem dois aspetos: o crescendo de intensidade que culmina num final poderosíssimo; e as várias perguntas em aberto que, não dizendo respeito ao caso específico, que é basicamente independente, deixam uma enorme curiosidade em saber o que se segue relativamente a esta saga.
Intrigante, intenso e viciante, trata-se, em suma, de um livro cheio de surpresas. Da verdadeira natureza do protagonista aos inesperados desenvolvimentos na teia de intrigas que é a Roma desta saga, sem esquecer os surpreendentes momentos de ternura, tudo prende nesta história, da primeira à última página. Mal posso esperar para saber o que se segue na vida de Marco Lemúrio.

sábado, 29 de maio de 2021

O Dilema (B. A. Paris)

Livia passou grande parte da sua vida adulta a planear a festa do seu quadragésimo aniversário. Não tendo tido o grande casamento que sonhava, quer compensar, de alguma forma, essa ausência dando uma grande festa para todas as pessoas importantes da sua vida. Só que há sombras a pairar sobre o seu grande dia. Os últimos meses trouxeram-lhe uma série de descobertas dolorosas e um segredo que tem vindo a adiar contar ao marido, pois sabe que mudará para sempre a vida de ambos. Só que também Adam acaba de ficar com um segredo terrível nas mãos. A filha, que estava a estudar em Hong Kong, tinha planeado aparecer de surpresa na festa da mãe e Adam era o único a saber. Mas o plano acaba de correr dramaticamente mal e também Adam tem de dizer a verdade a Livia. Mas como? E quando? As horas vão passando e os silêncios adensam-se. E, depois de tanto silêncio, poderá a relação de ambos subsistir?
Uma das primeiras coisas a destacar sobre este livro é que, apesar de toda a história gerar em torno de segredos e mentiras, foge em quase todos os aspetos ao mistério convencional. Tanto Livia como Adam, cujas perspetivas acompanhamos ao longo de toda a história, têm segredos guardados e verdades que, quando vierem à tona, causarão surpresa e perturbação. Mas, mais do que um grande mistério, é em torno da vida deste casal e das consequências que estes grandes segredos terão para ambos que todo o enredo gravita. E, assim, embora viciante como um policial e surpreendente a cada novo capítulo, é uma história mais pessoal e emotiva do que à primeira vista seria de esperar.
O que me leva, claro, a outra das grandes qualidades desta história: a voz com que é contada. São as vozes de Adam e Livia, o que significa que os sentimentos estão sempre à flor da pele. E são também as vozes de pessoas com uma grande dose de culpa e de tormento interior, o que significa que é vastíssimo o leque de sentimentos fortes a surgir ao longo da leitura. Das pequenas irritações às grandes aversões, da incompreensão à profunda empatia, de um desespero que quase transborda das páginas à pequena possibilidade da esperança, não falta emoção ao longo de todo o livro. E isso, juntando às surpresas constantes, torna a história impossível de largar.
Finalmente, e ainda relacionado, de certa forma, com todas estas emoções, importa realçar a forma como toda a história se vai encaminhando, num percurso que é todo ele de surpresas, para um final que é também inesperado, mas sobretudo muitíssimo adequado, tendo em conta todo o percurso. Seria tentador optar pelo caminho mais fácil, depois de todos os segredos desvendados, mas o que a autora faz é escolher o que faz mais sentido, o que tem mais impacto e o que, sendo o menos ideal de todos, é também o mais realista.
Intenso, viciante, cheio de surpresas e transbordante de emoções, não é, de todo, um mistério convencional. Mas é, acima de tudo, uma história de segredos contundentes, de verdades difíceis e de um percurso familiar que é muito mais do que apenas as dificuldades do quotidiano. Memorável, em suma.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Dylan Dog & Dampyr - O Detective do Pesadelo (Mauro Boselli e Bruno Brindisi)

Conheceram-se com a entrada em cena de uma vampira que os pôs no caminho dos planos maquiavélicos de um Senhor da Noite. Agora, têm um assunto inacabado para resolver. E, seguindo as pistas que Lagertha lhes deixou, Dylan Dog, mais o seu fiel assistente, bem como Harlan Draka e a sua equipa, vão em busca de Lodbrok e das alegadas armas de destruição maciça com que este se prepara para destruir Londres. Só que o inimigo não está tão inconsciente dos seus planos como eles pensam. E, quando o confronto acontece mais cedo do que esperavam, veem-se obrigados a improvisar. Dylan fez uma promessa, mas é possível que não seja capaz de a cumprir. E quanto ao Dampyr... bem, esse sabe bem quem são os seus inimigos, ainda que não possa deixar de sentir uma certa admiração relutante pelo seu aliado acidental.
Já não é propriamente uma surpresa que, numa história envolvendo Dylan Dog, o enredo tenda a seguir por caminhos inesperados. Mas a forma que essa imprevisibilidade assume nunca deixa de ser surpreendente, o que é, aliás, uma das maiores forças das suas aventuras. Neste caso, há dois mundos distintos a convergir, o que duplica o inesperado. Mas, mais do que isso, destaca-se um outro aspeto: que, embora vindos de contextos diferentes, e com personalidades basicamente opostas, o encontro entre estes dois protagonistas surge como perfeitamente (sobre)natural.
Trata-se de uma continuação direta do anterior A Noite do Dampyr, o que significa que, ao contrário de outros volumes, é importante ter lido o anterior. Dito isto, olhando para o conjunto como um todo, sobressaem tanto as continuidades como as diferenças. A história dá continuidade ao passado e respostas ao que tinha ficado em aberto, acrescentando ainda novos elementos e algumas reviravoltas surpreendentes. A arte mantém as mesmas características para as personagens, mas acrescenta um traço diferente e novos e fascinantes cenários E, mais uma vez, há todo um mundo de coisas a acontecer em apenas cerca de cem páginas, num equilíbrio que proporciona uma leitura viciante, mas em que os desenvolvimentos nunca parecem demasiado apressados.
E, claro, há as personagens propriamente ditas, já que, nesta colisão de mundos, sobressai o melhor de todos os envolvidos: o estranhamente delicioso humor de Groucho, a união da equipa de Harlan, a vulnerabilidade de Dylan e a determinação do Dampyr. Enfim, há algo que é inevitável: a vontade de reencontrar todas estas personagens. Cuja história não se cinge, felizmente, a apenas estes dois volumes.
Intensidade e humor, ação, mistério e um toque de surreal: de tudo isto é feita esta segunda parte de uma aventura que, mais longa que o normal e unindo num só enredo dois mundos diferentes, faz sobressair o melhor de todos os seus elementos e prende da primeira à última página. Vale muito a pena conhecer esta história.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Purgatório (Pedro Eiras)

Depois dos círculos do Inferno, o Purgatório, lugar de expiação dos pecados menos imperdoáveis, talvez um pouco menores, talvez cometidos por aparente desconhecimento, ou espírito de rebanho ou mera sensação de impunidade. Lugar de penitência, e de reflexão, talvez, sobre como o mundo inspira e acalenta a possibilidade de transgressão, ou se torna até Purgatório dos vivos na forma como tece os meandros da sociedade. Purgatório, lugar de passagem, de espera, de esforço pela redenção possível. Mas não é isso mesmo o mundo em que vivemos?
Muito à semelhança do anterior Inferno, há algo de absurdamente indescritível - e absurdamente fascinante - na poesia que dá forma a este livro. Ora lhe basta um punhado de versos para traçar uma imagem inteira (e uma imagem memorável, entenda-se), ora se alonga em poemas mais longos, traçando visões mais complexas, mais labirínticas talvez, mas das quais é fácil extrair um ambiente familiar e até mesmo uma espécie de identificação. É uma voz singular, mas fala às nossas próprias vozes. Parece contemplar o além, mas o mundo que traça está mais próximo deste do que de qualquer vida depois da morte. E é, afinal, também este mundo que contempla - e o que dele ficará após a possível passagem.
Não faltam poemas memoráveis nas cento e poucas páginas deste livro. Não faltam versos capazes de ecoar nos meandros das nossas próprias memórias, de fazer refletir sobre se é realmente este o mundo que queremos e também sobre que formas adotamos para a expiação pessoal. Alguns são verdadeiramente brilhantes, com a sua cadência natural, os rasgos de inesperado e uma voz tão clara, tão forte, que ler este livro é quase como ouvi-lo em voz alta. E quase damos por nós a fazer isso mesmo.
E importa finalmente realçar o aspeto inevitável: a coesão do todo, a união praticamente perfeita que faz com que cada poema seja uma unidade completa, mas também elo de um todo que é maior do que a soma das partes. Pode facilmente ser lido aleatoriamente, e tendo em conta o apelo quase imediato que fica a um regresso, isso é quase inevitável. Mas lido de ponta a ponta, deixa esta imagem poderosa: a de uma verdadeira viagem a um Purgatório que não é o de Dante, mas tem as suas ligações, sendo embora uma versão diferente e própria.
Belo nas palavras, belo na cadência, belo nas imagens que traça. Belo em tudo, em suma, e memorável também em tudo o que contém. Assim é este singular Purgatório, leitura breve, mas que perdura por muito, muito tempo.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Dylan Dog & Dampyr - A Noite do Dampyr (Roberto Recchioni, Giulio Antonio Gualtieri e Daniele Bigliardo)

Estava apenas a acompanhar uma amiga a uma festa um tanto ou quanto bizarra e, por isso, não estava propriamente à espera de ver aparecer uma vampira a sério. E muito menos de a ver ser perseguida por um grupo de aspeto um tanto ou quanto questionável. Mas sendo Dylan Dog quem é, a estranheza faz parte do seu quotidiano e, além disso, sendo quem é, não pode ver uma mulher em apuros, mesmo que seja morta-viva. É assim que o caminho de Dylan acaba por se cruzar com o de Harlan Draka, o Dampyr, revelando a ambos a existência de inimigos em comum. Mas o que podem fazer quanto à vampira? E ao verdadeiro inimigo que a persegue?
Sendo uma espécie de encontro entre os protagonistas de duas séries diferentes, poder-se-á, à partida, pensar que a história de que este livro é a primeira parte terá interesse sobretudo para quem já conhecer minimamente o percurso dos dois heróis. Bem, não necessariamente. Eu, pelo menos, só conhecia um deles, e o resultado da leitura não foi perplexidade, mas sim uma curiosidade enorme em conhecer mais sobre este estranho e fascinante protagonista. Refiro-me ao Dampyr, claro, porque, sobre Dylan Dog, já me devem ter visto escrever umas coisas...
É ainda da questão do cruzamento entre séries que resulta outro aspeto marcante: o equilíbrio. Apesar de dividirem o protagonismo, não faltam elementos fortes de ambas as séries. O mundo dos Senhores da Noite, com as suas ligações, inimizades e longas vinganças entrelaça-se com a presença de um velho inimigo de Dylan. O contraste entre os companheiros de ambos os protagonistas é também particularmente notável, servindo mesmo de base a alguns momentos brilhantes de humor, protagonizados maioritariamente por Groucho... mas não só. E não faltam também momentos intensos, sejam de ação ou de emotividade, que surgem sempre na altura certa.
Em termos visuais, destacam-se as mesmas qualidades de uns quantos outros volumes protagonizados por Dylan Dog: os cenários extraordinariamente detalhados, cheios de aspetos surpreendentes, e uma expressividade absurdamente palpável no rosto das personagens, que às vezes quase faz com que pareçam saltar da página.
E é apenas a primeira parte, o que significa que não faltam questões em aberto. Mas fica, acima de tudo, a impressão de um percurso que, não sendo ainda completo, tem tudo nas medidas certas e promete ainda muito mais para o que falta desvendar. Intenso, marcante, surpreendente, é Dylan Dog em toda a sua glória... e em excelente companhia.

domingo, 23 de maio de 2021

O Paciente (Jasper DeWitt)

Apesar da sua relativa juventude, ou talvez em parte devido a ela, o jovem psiquiatra Parker H. tem grandes ideais em mente. Espera fazer a diferença na vida dos seus pacientes, algo que não aconteceu com a sua própria mãe, esquecida nos meandros do sistema. Mas as aspirações de Parker têm pela frente um adversário poderoso, pois o hospital psiquiátrico onde acaba de começar a trabalhar tem internado há anos um doente cujo caso é inexplicável. Joe parece mudar de sintomas de forma incompreensível e, pior do que isso, parece despertar sintomas nas pessoas que dele cuidam, ao ponto de ter levado já membros do pessoal ao suicídio. Mas Parker não é de desistir e, confiante na sua inteligência, decide tomar conta do caso, sem saber que tudo aquilo em que acredita pode muito bem estar prestes a desabar com estrondo.
Provavelmente o aspeto mais marcante desta história, e também uma das razões por que não posso dizer muito sobre ela sem estragar possíveis surpresas, é a constante sucessão de voltas e reviravoltas que define todo o enredo. Tudo começa com um grande mistério, que vai dando lugar a suspeitas, teorias, ao que parece ser possibilidades gritantes, seguidas pela tomada das acções possíveis e pela descoberta de que nada é exatamente aquilo que parecia ser. E isto acontece várias  vezes, de formas diferentes, explorando meandros distintos e abrindo portas a novas possibilidades, que serão, por sua vez, confirmadas... ou não. Num livro de sensivelmente duzentas páginas, é realmente impressionante a capacidade de abranger uma viagem tão longa sem que nada pareça demasiado apressado, numa história que é, no fundo, um quebra-cabeças complexo e viciante onde as explicações vão ficando cada vez mais negras.
Além do enredo propriamente dito, também a própria voz com que a história é contada contribui para tornar a leitura viciante. É Parker quem narra a sua história, o que cria uma maior proximidade, pois as suas emoções e perplexidades parecem transbordar da página. Além disso, esta proximidade com o protagonista faz com que os grandes momentos se tornem ainda mais intensos, sobretudo se tivermos em conta a forma como tudo termina.
E, por falar em como tudo termina, importa referir alguns aspectos sobre o fim. Não podendo revelar qual é, obviamente, existem, ainda assim, duas facetas que importa destacar: primeiro, que, embora não dando respostas para tudo, dificilmente se poderia pedir um final mais adequado ao ambiente de horror e de mistério que se vai adensando ao longo de todo o livro; e segundo, que há pequenas (e premeditadas) pontas soltas que se entranham na imaginação do leitor, deixando no pensamento a dúvida sobre o que poderá ter acontecido a seguir.
Não é particularmente longo, e, ainda assim, não falta nada a este livro. Intensidade, horror, mistério, emoção, dúvida - de tudo isto é feita esta história sombria e intrigante, que prende desde as primeiras linhas e fica no pensamento bem depois do fim. Uma poderosa história sobre os monstros que imaginamos - e outros que se infiltram na imaginação.

sábado, 22 de maio de 2021

A Família Monstro - A Maldição do Ofeliakrom (Bruno Matos e Raquel Carrilho)

Quando a Mizé venceu o Torneio dos Feiticeiros, o seu adversário, o feiticeiro Armando Confusão, não reagiu da melhor forma. Agora, porém, parece querer redimir-se e, ao saber que a Vamp está com problemas amorosos, decide oferecer-se para a ajudar. Existe um medalhão mágico cujo poder pode gerar um amor que não se desvanece com a perda do efeito de um encantamento, e o feiticeiro Confusão tem esse medalhão, faltando apenas encontrar as pedras que o completam. Ora, a Vamp está decidida a embarcar nessa aventura, ainda que a sua família tente fazê-la entender que a magia não deve envolver-se em questões de amor. Mas será que o medalhão resulta mesmo? E serão as intenções do feiticeiro tão puras como ele alega?
Um bom ponto de partida para começar a falar sobre este livro - e que se aplica também ao anterior, na verdade - é que, apesar de nitidamente pensado para leitores mais novos, é perfeitamente capaz de cativar um leitor adulto. Porquê? Porque é leve, mas não demasiado simplista, inocente quanto baste, mas não irrealista na mensagem, e surpreendente, apesar da brevidade da história. Ou seja, transporta-nos facilmente para o tempo em que bastava uma história simples para nos fascinar, mas sem parecer demasiado simples.
Outra óbvia qualidade é o equilíbrio entre texto e ilustrações, num livro cheio de cor e de vida, com personagens singulares - é de uma família de monstros que se trata, afinal - e em que o registo é bastante acessível, mas abre espaço também para a aprendizagem. É um livro bonito de se folhear e descobrir e em que a componente visual complementa muito bem a escrita.
Claro que é uma história relativamente simples, e não é difícil prever alguns dos desenvolvimentos. Mas não deixa, ainda assim, de ser cativante, não só pelas personagens (e, sobretudo, pelo seu delicioso sentido de humor), mas também pela mensagem positiva que emerge da história. Se, no volume anterior, se destacava o desportivismo e a importância da família, aqui fala-se de amor, de como os sentimentos não podem ser impostos e de como há vida para lá das desilusões amorosas.
Leve, empolgante e muito divertido, trata-se, pois, de um livro simples nas bases, mas cheio de aspetos cativantes para descobrir. Perfeito para ler com os mais novos, ou para recordar a nostalgia de quando o fomos nós mesmos, um livro cheio de cor e de humor e uma série a acompanhar.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Spaghetti Bros - Livro 2 (Carlos Trillo e Domingo Mandrafina)

Os irmãos Centobucchi podem ser unidos, à sua maneira, mas de uma forma que é tudo menos convencional. Ou não fossem eles um mafioso, um padre, um polícia, uma atriz e uma mãe de família com uma vida dupla. Mas, como se não bastassem estes papéis contraditórios, têm também uma tendência natural para se meterem no caminho um dos outros, quer seja revelando ou ocultando segredos, interferindo nas relações uns dos outros ou até partilhando em confissão coisas que o confessor preferia não saber. Têm uma história em comum e laços ambíguos a uni-los. E, entre episódios inesperados de violência e de humor, têm uma estranheza que é singularmente fascinante.
Não é muito fácil falar sobre este livro - tal como o anterior, aliás - sem revelar demasiado, pois, embora haja uma história maior a unir todos os irmãos, e desenvolvimentos que avançam de episódio em episódio, todo o livro é composto por pequenos momentos, o que significa que cada um deles tem surpresas a desvendar. Ainda assim, é fácil destacar as principais qualidades: o equilíbrio entre a simplicidade de cada situação individual e a história maior a que pertencem; o contraste entre uma violência quase fácil e uma teia complexa de relações familiares; e também a estranha leveza resultante de alguns rasgos de humor bastante deliciosos.
Sobressai a palavra contraste, não é verdade? E por múltiplas razões: é que o contraste não vem só dos aspectos específicos de cada episódio, drama e humor, leveza e implacabilidade, lealdade familiar e... falta de lealdade em geral. Vem das próprias circunstâncias da família Centobucchi, que fazem com que ora haja irmãos a querer proteger-se, ora irmãos a querer matar-se; irmãos que querem revelar segredos, e segredos cujo fardo é preciso calar; e até um delicado malabarismo entre moral e falta dela, fé e hipocrisia, união e... o fim do livro dirá o quê.
Olhando individualmente para cada episódio, tudo acontece de forma relativamente concisa, o que significa que fica alguma curiosidade insatisfeita... até chegarmos aos episódios seguintes. E há também perguntas sem resposta ao chegarmos ao fim deste volume. Mas há um aspecto curioso acerca desta relativa simplicidade: é que, transposta também para o aspecto visual, sem grandes elaborações nos cenários, enfatiza o impacto do drama através das expressões das personagens. E quem diz do drama, diz do humor, porque há expressões na cara do padre Francesco que nem precisam de palavras.
Aparentemente simples, aparentemente leve, mas com uma história maior a emergir das partes e uma ambiguidade moral e emocional que acrescenta a estes episódios uma inesperada complexidade, trata-se de uma leitura ligeira, mas muito surpreendente, sobre laços de família coesos... mas um tanto ou quanto espinhosos.

terça-feira, 18 de maio de 2021

O Mistério da Estrada de Sintra (Eça de Queirós e Ramalho Ortigão)

É durante uma passagem aparentemente inofensiva pela estrada de Sintra que um médico e o seu amigo se veem subitamente projetados para uma intriga de proporções indecifráveis. Sequestrados por um grupo de mascarados, são conduzidos a uma casa em local não identificado, onde se deparam com um cadáver cuja morte é não só um mistério, mas também causa da proteção de muitos segredos. Inicia-se assim um enredo narrado a muitas vozes - todas intervenientes, de algum modo, no drama - em que tudo converge para uma derradeira revelação que tem de ser conhecida. Mas não de todos.
Descrito como o primeiro policial da literatura portuguesa, este é um livro em que múltiplas facetas sobressaem, a começar, desde logo, pelo registo dramático e misterioso que acompanha toda a narrativa e pela estrutura por ela assumida. Narrado sob a forma de cartas escritas pelos diferentes intervenientes ao redator do Diário de Notícias, o enredo vai assumindo diferentes formas, conduzidas ao ritmo das suspeitas das diferentes personagens e das diferentes emoções que as circunstâncias lhes despertam. Da (relativa) serenidade estoica do médico aos rasgos de dramatismo do mascarado alto, da justa indignação de Z ao espírito de sacrifício de A. M. C., há, ao longo deste livro, toda uma sucessão de estados de ânimo diferentes, que fazem com que cada faceta assuma um tom distinto e com que a totalidade se torne mais complexa e mais intrigante.
Sendo certo que, tal como o título indica, é sobretudo um mistério, não deixa, ainda assim, de ter outros elementos misturados. A identidade do morto não é apenas o enigma: está na base de uma dramática história de amor e de adultério que serve de base a uma bastante exaltada crítica social - ainda que moralmente ambígua, dadas as circunstâncias. A situação do sequestro faz com que uma das personagens entre em contacto com um adepto do espiritismo, o que dá origem a uma curiosa divagação sobre assombrações e espíritos. E a descoberta do culpado surge na senda de um desenrolar de paixões dramáticas e exaltadas, que chegam a suscitar até alguns momentos de curiosa emoção.
Há, na verdade, tantas figuras envolvidas que acaba por se ficar com a sensação de que qualquer delas bastaria para protagonizar uma história. Ficam, por isso, algumas ambiguidades, sobretudo sobre Rytmel e a mulher que tantas suspeitas despertou, mas também sobre o passado das figuras que gravitam em torno da condessa. Claro que, não sendo aspectos essenciais do drama principal, não são verdadeiramente cruciais para a narrativa. Mas, tendo em conta a forma como tudo termina, fica também a sensação de que parte da força destas personagens acaba por passar para segundo plano.
Descrevem-no os autores, no prefácio, com sendo "execrável". Esta que vos escreve permite-se discordar. Pois, com um estranhamente fascinante labirinto de mistérios, intrigas, amores e desafios às normas, cativa tanto pelo que tem de dramático, como pelo que as múltiplas vozes parecem deixar por contar. Singular e curioso, um livro surpreendente.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Fiona & Lucifera (Sónia Cântara)

A Fiona tinha uma vida perfeitamente normal, até ao dia em que decidiu adotar a Lucy e o Fera. A Lucy é uma gatinha tímida e ternurenta. Já o Fera é obcecado por comida e transborda de mau-feitio. Mas não são dois gatos normais e, além de muito mais pelo nas roupas da Fiona, trouxeram também sarcasmo, ternura e um ou outro laivo de sabedoria, numa visão muito simples, mas muito certeira da atualidade. Em que cada pequeno episódio pode ser uma revelação.
Um bom ponto de partida para falar sobre este livro é o equilíbrio entre simplicidade e precisão. Composto todo ele por pequenos episódios, é feito, em grande medida, de momentos simples, alguns inesperados, outros capazes de dar formas novas a ideias já conhecidas. Mas é, acima de tudo, muito certeiro na sua visão do quotidiano, quer seja nas relações amorosas, na vida profissional, na correria - ou na preguiça, no caso do Fera - do dia-a-dia e até na nova normalidade do coronavírus. É tudo muito conciso, mas também muito exacto, e até as referências que já conhecemos ganham outro tom ditas por estas personagens.
O que me leva a outro aspecto: a leveza. Em parte pela simplicidade das ilustrações, e em parte também por ter os protagonistas que tem, tudo neste livro parece ser leve e descontraído. Não há situações complexas, os dramas são naturais e a mistura entre ternura e sarcasmo atinge um equilíbrio praticamente perfeito. É verdade que não há grande imprevisibilidade, mas às vezes também não é precisa. E, numa história - ou conjunto de histórias, talvez - sobre um quotidiano em mudança, até é saudável que haja uma certa dose de previsibilidade.
Simples, leve e certeiro, trata-se, em suma, de um livro muito divertido. Uma história de gatos que não é propriamente sobre gatos e um olhar sobre a vida que, carregadinho de sarcasmo e também de descontração, mostra que a normalidade nem sempre é tão aborrecida como parece.

sábado, 15 de maio de 2021

A Família Monstro - O Torneio dos Feiticeiros (Bruno Matos e Raquel Carrilho)

Longe vão os tempos em que os monstros assustavam os humanos. Com a entrada em cena de tecnologias cada vez mais avançadas, os papéis inverteram-se, ao ponto de o medo dos humanos ser tão forte que os monstros decidiram fechar todas as portas que ligavam o seu mundo ao dos humanos. Todas? Talvez não. Ou pelo menos é isso que parece, pois uma humana assustada chamada Mizé acaba de ir parar involuntariamente a Monstrópolis. Mais especificamente, ao sótão da família Monstro. E a porta por onde entrou desapareceu à sua passagem, por isso, se quiser regressar a casa, vai precisar de toda a ajuda que conseguir. E essa ajuda só pode vir da estranha família com que acaba de se encontrar...
Há algo de estranhamente encantador - e nostálgico - em ler livros infantis na idade adulta. Ora nos vem à cabeça o tempo em que bastava a mais inocente das histórias para nos fascinar, ora a magia de quando acreditávamos que tudo era possível. E, quando lemos uma história cativante, como é o caso desta pequena aventura, vem outro tipo de nostalgia: a que nos diz como gostaríamos de ter lido uma história destas na nossa própria infância. Pois bem... este livro desperta todos estes sentimentos e tem ainda o condão de, nostalgias à parte, proporcionar uma leitura cativante, leve e divertida... mesmo a quem já deixou de ser criança.
Parte do que torna esta leitura tão empolgante é o equilíbrio entre texto e ilustração, com uma história simples quanto baste, mas bem escrita e com vários momentos intensos, e uma componente visual cheia de cor e de expressividade. Destacam-se particularmente as expressões da Mizé, mas a caracterização dos monstros é também muito interessante, além de particularmente notável pela diversidade. Além disso, uma vez que tudo se passa num mundo de monstros, não faltam figuras peculiares, o que é sempre um estímulo delicioso à imaginação de quem lê.
Claro que, sendo um livro infantil, é uma história relativamente breve, o que significa que tudo acontece de forma relativamente linear. Ainda assim, não lhe faltam qualidades, desde a mensagem positiva, de que diferente não significa mau e da importância de receber e ajudar quem precisa, à construção de um mundo alternativo onde todos são diferentes, mas nem tudo é assim tão diferente. E, claro, sem esquecer o sentido de humor delicioso que torna ainda mais encantadora esta história surpreendentemente terna.
Cheio de cor e de vida, de leveza e também de inocência, trata-se, pois, de uma bela leitura para os mais novos, mas igualmente capaz de fazer sonhar os que já não o são tanto. Leve, divertido e enternecedor, um livro que se lê num instante, mas que surpreende ao virar de cada página.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Lendas Tradicionais Portuguesas

Mouras encantadas, princesas e nobres cujo amor perdurou no tempo ou acabou em tragédia, locais que permaneceram como símbolo - ou inspiração - de uma história que talvez seja mito ou talvez tenha um fundo de verdade. A nossa tradição está repleta deste tipo de lendas, algumas mais sombrias e dramáticas, outras de final mais alegre. E é essa tradição que este livro nos apresenta, através de um conjunto de relatos breves, alguns certamente familiares, outros evocativos de outras histórias, e todos muito cativantes.
Sendo certo que o mais importante num livro é sempre o conteúdo, é inevitável, neste caso, começar por referir o aspeto visual. Desde a capa evocativa ao azul etéreo - ou enigmático - que domina o interior, e sem esquecer as imagens de locais ou elementos pertencentes a cada lenda, é um livro que dá gosto folhear e que prende imediatamente a atenção, antes mesmo de começar a leitura das muitas e intrigantes lendas que contém.
E esta é também uma boa forma de as começar a caraterizar: muitas e intrigantes na sua diversidade. Abrangem diferentes pontos do país e diferentes tipos de história, ainda que quase sempre com o amor em primeiro plano. (Porque o amor nunca morre, não é o que dizem?) E, contadas sempre de forma relativamente sucinta, mas num registo muito envolvente, quase evocam uma outra tradição, a de partilhar histórias antigas através de gerações, junto à fogueira ou antes de dormir. Ao ler estas lendas, quase é possível ouvi-las a ser contadas em voz alta, tal como as ouvimos - ou outras similares - na infância de muitos de nós. E esta familiaridade reconfortante é também parte do encanto deste livro.
É uma leitura breve, mas que fica na memória, não só pela nostalgia que evoca através do reencontro com histórias familiares, mas também pela descoberta da abundância de lendas e mitos que povoam o nosso imaginário tradicional. E, sendo relativamente leve, leva-nos numa viagem ao mistério e à emoção de histórias antigas que, à sua maneira, se tornaram intemporais.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Reiniciar (Katherine May)

Ao longo da vida, existem períodos em que as dificuldades da vida nos levam a uma retração, a uma busca de isolamento, de confortos solitários. Num mundo frenético, onde a necessidade de fazer algo acelerou os ritmos da vida, pode ser a aparição de uma doença, a ameaça de uma perda ou algum tipo de mudança radical para pôr em causa as exigências de uma rotina que se tornou opressiva. E então surge o inverno - não o inverno físico, mas um inverno mental, íntimo, pessoal, que reflete, em certa medida, a estação das chuvas, das neves e do frio. É este inverno - como ponto de partida para um recomeço - que este livro pretende apresentar.
Provavelmente o aspeto mais marcante neste livro é o estranho e fascinante equilíbrio que constrói entre aspetos aparentemente distintos. Há o percurso pessoal, traçado entre diferentes invernos e diferentes períodos de tribulação, há a introspeção, que se torna meditação sobre o mundo atual e as suas normas por vezes sufocantes, e há ainda os elementos quase de curiosidade - abelhas, auroras boreais e o funcionamento dos mergulhos em pleno inverno - que, apesar de mais distantes, servem para estabelecer paralelismos não só com o percurso pessoal, mas também com a humanidade em geral.
Outro ponto notável vem da voz da autora e de uma escrita onde não faltam frases memoráveis e rasgos de uma certa poesia, capaz de transpor este registo intimista para algo de mais vasto e de facilmente identificável. Podemos não ter - e não temos, certamente - as mesmas experiências específicas que este livro nos conta, mas reconhecemos as sensações e as palavras dão-lhe vida. Reconhecemos o cansaço de uma vida demasiado ocupada, a dúvida sempre que tomamos uma decisão difícil, a insegurança de não sermos - de não podermos - ser o que devíamos. De forma diferente? Claro. Mas o sentimento é familiar.
É um livro de ritmo lento, pois, em certa medida, reflete a cadência pausada do inverno em que habita. Exige algum tempo para assimilar, não porque seja particularmente rebuscado, mas porque explora estados de espírito complexos e complementa-os com os labirintos da própria vida. Mas vale a pena dedicar-lhe esse tempo, pois a viagem que traça pode ser pessoal, mas não é intransmissível. E é fácil encontrar um  bocadinho de nós neste percurso singular.
Inverno, mas um inverno diferente. Reinício, mas um reinício que não apaga o antes. E vida, do tipo que persiste para lá das sombras. São estas, enfim, as peças que compõem este livro, pausado, mas sempre cativante, e com uma escrita belíssima na sua introspeção. Vale a pena viajar por estas páginas... e guardá-las connosco bem depois do fim.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Divulgação: Novidade Saída de Emergência

Pelo crime de roubar pão, a jovem May recebe uma sentença para a vida: deve tornar-se numa Devoradora de Pecados – uma mulher proscrita, brutalmente marcada, cujo destino é ouvir a confissão final dos moribundos, ingerir alimentos que simbolizam os seus pecados como rito funerário e assim acolher as suas transgressões para conceder às suas almas acesso ao céu.
Órfã e sem amigos, aprendiza de uma Devoradora de Pecados com quem não pode falar, May tem de trilhar o seu caminho num mundo cruel e perigoso que não compreende. Quando um coração de veado aparece na urna de um moribundo que não confessou o pecado mortal que o alimento representa, a Devoradora de Pecados recusa-se a ingeri-lo. É levada para a prisão, torturada e morta. Para vingar a sua morte, May terá de descobrir os responsáveis por uma ameaça que nas sombras põe em perigo o futuro de uma nação.

MEGAN CAMPISI é dramaturga, romancista e professora. As suas peças já foram representadas na China, em França e nos Estados Unidos. Frequentou a Universidade de Yalee a L’École International de Théâtre Jacques Lecoq. Vive em Brooklyn, Nova Iorque, com a sua família.
Pode consultar a página da autora em https://www.megancampisi.com/

domingo, 9 de maio de 2021

Viver Num Mundo Impossível (Frédéric Lenoir)

Quando tudo na vida muda subitamente e o próprio mundo parece ter-se tornado imprevisível, o ser humano tem de se adaptar e de encontrar uma forma de dar sentido às coisas. A mente rege-se, até certo ponto, por necessidades - segurança, socialização, realização - e a pandemia que vivemos veio alterar equilíbrios em todos estes aspectos. Eis, pois, o ponto de partida para este pequeno mas muito interessante livro, que reflecte não só sobre as mudanças que a COVID-19 trouxe ao nosso mundo, mas sobretudo sobre a forma como a mente humana reage à crise, procurando formas de se adaptar.
Embora tenha como ponto de partida as alterações provocadas pelo vírus na sociedade e na resposta às necessidades humanas, não é unicamente a esta situação que o livro se dedica. Pode partir desta crise específica, mas traça uma visão da reacção humana a todos os tipos de crises. E é surpreendentemente leve, talvez devido à brevidade, para uma visão que abrange tantas perspectivas: filosófica, psicológica, fisiológica e, claro, social. Tudo com um conjunto de conceitos muito simples - mas muito abrangentes - como base: resiliência, adaptação, sentido.
Outro aspecto curioso neste livro é que acaba por ser a abordagem à pandemia que mais sentimentos ambíguos deixa, não na visão de como as pessoas se adaptaram a ela, que é bastante certeira, mas no que parece ser uma comparação algo ambígua em termos de medidas entre diferentes países. É claramente secundário, até porque todo o registo do livro parece dedicar-se mais ao percurso de adaptação pessoal, mas é impossível não ficar com a sensação de que a comparação entre países como a Coreia do Sul e França acaba por ser um pouco vaga.
Voltando à adaptação pessoal, sobressai ainda um último aspecto: é que, embora a pandemia seja a premissa perfeita, com confinamentos, distanciamentos e a necessidade de definir alternativas de contactos a serem o exemplo perfeito da necessidade de descobrir novas vias de adaptação, grande parte desta visão pode ser aplicada a crises bem menos globais, e até mesmo pessoais, como o isolamento em resultado de uma perda ou a necessidade de reagir a uma crise que virou do avesso as circunstâncias da vida de alguém.
Não é um livro de soluções fáceis - até porque não existem soluções fáceis. É, sim, uma boa reflexão sobre a importância da resiliência em tempos de crise e da capacidade de o ser humano se adaptar para responder às suas necessidades. Interessante no tema, cativante na escrita e também muito actual, uma leitura rápida, mas que não se esgota ao virar da última página.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Esquecida (P.C. Cast + Kristin Cast)

Teve consequências dramáticas, mas a intervenção de Zoey no mundo alternativo do irmão parece ter finalmente desmascarado as verdadeiras intenções de Neferet - e numa fase menos perigosa do que aconteceu no mundo da própria Zoey. Mas, ainda que nem tudo seja igual nos dois mundos, há algo que se mantém: Neferet não está disposta a desistir das suas ambições e tudo fará para alcançar o que entende ser o seu direito. Forçada a mover-se secretamente, estabelece o seu próprio contacto com a Magia Antiga enquanto tenta acompanhar o que se passa na Casa da Noite. Já no mundo de Zoey, tudo parece estar tranquilo... mas só à superfície. Pois há visões e sinais que indicam que os dois mundos podem muito bem estar prestes a colidir.
Desde o primeiro volume desta segunda série que era bastante evidente o equilíbrio entre os elementos novos e o mundo e as personagens conhecidas da longa série anterior. Este volume vai um pouco mais longe, explorando até a história antiga do mundo de Kevin, para realçar as diferenças entre os dois mundos, e explorando também os aspectos que separam as personagens dos dois mundos. As personalidades podem ser bastante semelhantes, mas há algumas diferenças no passado desta Neferet, na forma como o seu mundo se formou e nos papéis que as diferentes personagens têm a desempenhar. E, disperso entre múltiplas perspectivas e pontos no tempo, este livro funciona, em grande medida, como uma preparação para o grande final, deixando tudo em aberto, mas acrescentando muitas jogadas e revelações importantes.
Por deixar tudo em aberto, o que não falta são perguntas sem resposta. Mas, mais do que curiosidade insatisfeita, até porque é bastante evidente que muitas dessas respostas virão na parte que ainda falta contar da história, o que fica é uma grande expectativa em saber de que forma tudo irá terminar. Ao longo deste livro, houve desenvolvimentos interessantes para todas as personagens, mas a conclusão deixa inúmeras possibilidades em aberto. E assim, só o último volume dirá que seguimento terão todas estas interessantes movimentações.
Quanto aos restantes aspectos, mantêm-se essencialmente as mesmas características: a mesma escrita leve e directa, ainda com os necessários rasgos de formalidade associados à magia, o mesmo núcleo de personagens peculiares, mas sempre cativantes, e a mesma agradável mistura de emoção e de humor. Sem nunca perder a leveza, mesmo nos momentos mais inesperadamente sinistros, cativa da primeira à última página.
Preparação para um possível grande final e também revelação de origens e de contextos, trata-se, em certa medida, de um livro de transição entre passado e futuro das personagens. Que não deixa, ainda assim, de estar repleto de bons momentos e de proporcionar uma muito boa leitura.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Stumptown - Volume Três (Greg Rucka, Justin Greenwood e Ryan Hill)

Por uma vez na vida, Dex Parios parece estar livre de confusões - ou pelo menos de confusões que exijam a sua atenção imediata - e só quer aproveitar um bocadinho a vida, assistindo a um jogo de futebol com o irmão e com um bom amigo. Mas o que começa por ser um momento bem passado entre cânticos e festejos cedo segue um caminho mais sombrio, quando Mercury, o amigo de Dex, é brutalmente espancado e deixado à beira da morte. A vida de detective privada implica investigar para quem lhe paga, mas desta vez Dex torna-se a sua própria cliente. Não vai parar até descobrir quem foi que agrediu o amigo. E quando os encontrar... não planeia ser meiga.
Um dos aspectos mais interessantes desta série é que, embora tendo os seus pontos em comum com outras histórias de detectives privados, é muito mais ambígua e humana do que a maioria. Não é a típica história em que o detective puxa das suas capacidades superiores para desvendar uma trama intrincada e, após um derradeiro conflito com os bandidos, se afasta misteriosamente rumo ao próximo caso. Bem... tem um pouco disso, mas de forma menos óbvia, mais complexa, mais falível. Dex Parios está longe de ser perfeita, e isso torna tudo bem mais interessante. Tem um passado que a torna vulnerável, o que a torna também mais próxima. E quanto a confrontos com os bandidos... bem, têm sempre o seu quê de desconcertante, o que acaba para contribuir também para o factor surpresa.
Quanto a este caso específico, sobressai sobretudo o aspecto pessoal: a ligação de Dex ao desporto, as suas sempre complicadas relações e um passado misterioso que, pouco a pouco, começa a manifestar-se. E são tantas as revelações que, a determinada altura, fica mesmo a sensação de que alguns aspectos podiam ser mais expandidos, nomeadamente quanto às pistas do caso, que às vezes surgem de forma algo abrupta. Não deixa, ainda assim, de fazer um certo sentido este ritmo mais apressado - até porque, neste volume, a vida de Dex parece uma corrida constante.
Em termos visuais, sobressaem dois aspectos. Primeiro, a entrada em cena de Justin Greenwood, que traz um traço muito diferente e uma Dex com expressões bastante distintas da dos volumes anteriores, mas, ainda assim, perfeitamente reconhecível. E, em segundo lugar, todo o ambiente em torno do estádio, que, com os seus pormenores e a forma quase sinestésica de transpor para a página os cânticos dos adeptos, evoca na perfeição a sensação de se entrar num mundo à parte.
Tudo somado, fica a impressão de um livro visualmente singular, com um enredo intenso, ainda que ligeiramente apressado, e um núcleo de personagens que nunca deixam de surpreender nos mais inesperados aspectos. Cativante, intensa e ligeiramente desconcertante, mais uma bela aventura para acrescentar ao historial de Dex Parios.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Tinta Simpática (Patrick Modiano)

A vida é feita de memórias... e das lacunas que o tempo e o acumular de experiências vão abrindo por entre essas memórias. A Jean Eyben, restam-lhe as memórias de um caso aparentemente pouco relevante, que lhe caiu nas mãos num emprego temporário, mas que continuou a assombrar-lhe os pensamentos, como uma história escrita a tinta invisível. E é a persistência dessas memórias dispersas que o leva a decidir pôr por escrito, ao ritmo dos pensamentos, os passos que deu para descobrir a esquiva Noëlle Lefebvre. Passos também algo vagos, mas que parecem puxá-lo... como o fio de um passado que ele mesmo esqueceu.
É algo surpreendente a forma como um livro tão breve consegue desvendar, a espaços, complexidades insuspeitas, não só nas linhas do caso, que começa por evocar o enredo de um policial para se converter depois numa demanda mais intimista, mas sobretudo na cadência das palavras e na forma como reflectem a falibilidade da memória. Narrada maioritariamente na primeira pessoa, oscila entre diferentes momentos e registos, sem nunca perder a componente introspectiva que torna o texto mais pausado, é certo, mas torna também mais próxima a alma do protagonista.
Maioritariamente na primeira pessoa, porque, a determinada altura, a perspectiva altera-se e o fantasma procurado torna-se o fantasma que contempla. Não há verdadeiramente uma razão para isto, o que deixa uma certa curiosidade insatisfeita. Mas há principalmente uma complementaridade natural, em que também este novo ponto de vista vem acrescentar outras memórias e outros esquecimentos. As lacunas de Jean Eyben não são únicas, afinal. Talvez sejam parte da própria natureza humana. E essa pertença, essa naturalidade, são algo muito evidente em todo o texto.
Nem sempre é fácil compreender estas personagens, até porque uma das partes cruciais do livro é a existência de lacunas - e existem, de facto. São múltiplos os reencontros com as memórias e as manifestações do esquecimento, o que significa que faz sentido que nem tudo seja explicado. E, sim, ficam perguntas sem resposta, o que faz com que as personagens sejam também, em certa medida, incognoscíveis. Mas o essencial está lá - a persistência da memória e a luta contra o esquecimento. E não será isso o que verdadeiramente move o protagonista?
Breve, mas surpreendentemente complexo, ambíguo, mas fascinante nas suas deambulações. E surpreendente, ainda, no seu equilíbrio entre os mistérios de um desaparecimento e os mistérios interiores da memória e das suas transformações. Singular em muitos aspectos, e sempre uma boa leitura.

sábado, 1 de maio de 2021

Andar a Pé (Henry David Thoreau)

Andar a pé pode ser muito mais do que o acto de ir de um lado para outro. Pode ser um acto de descoberta de locais inexplorados, de comunhão com a natureza, de contacto com uma parte da vida que persiste e continua independentemente da chamada civilização. Pode ser um gesto tranquilizador, um acto de meditação, um momento passado a sós com os próprios pensamentos. E, além de um bom exercício, pode ser uma forma de ver o mundo. É esta a perspectiva que este pequeno livro pretende apresentar.
Uma das primeiras coisas que importa referir sobre este livro é que, apesar da brevidade, exige o seu tempo para ser devidamente assimilado, em parte devido à escrita um pouco pausada, que traça descrições meticulosas da paisagem e das paisagens interiores que esta evoca, mas sobretudo porque parece reflectir no próprio texto a experiência de uma extensa e lenta caminhada, contemplando a natureza e meditando depois profundamente nas suas complexidades.
E funciona realmente como uma caminhada, não só através dos espaços evocados, mas também, em certa medida, do tempo, pois, ao longo do expressivo contraste traçado entre natureza e civilização, são várias as referências que vão sendo evocadas. Mas não é só esse tempo que se sente no livro, pois, embora não sendo descrito totalmente como tal, é fácil imaginar todo o texto a ser proferido durante uma pensativa e filosófica caminhada por bosques e terrenos ainda por explorar, como se o ritmo dos passos tivesse sido também transposto para o papel.
Claro que, sendo tão breve, fica sempre aquela vontade insatisfeita de ler um pouco mais, até porque as descrições são particularmente notáveis. Ainda assim, é interessante notar que esta visão da caminhada parece ter, no essencial, a dimensão certa, com espaço para a observação, para a contemplação e para a reflexão sobre o mundo e a evolução, através dos tempos, de natureza e civilização.
Breve, mas surpreendentemente vasto no conteúdo, trata-se, pois, de um livro que exige algum tempo - ou, melhor dizendo, uma certa contemplação - para assimilar todas as suas particularidades. Mas que fica no pensamento pela forma como desperta - ou relembra - o poder e a importância de uma boa deambulação. A pé, naturalmente.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Armazém Central: Marie (Régis Loisel e Jean-Louis Tripp)

É ao Armazém Central de Félix Ducharme que todos os habitantes da aldeia de Notre-Dame-des-Lacs vão buscar tudo aquilo de que precisam, o que significa que, além de ser o local onde tudo pode ser comprado, o armazém tornou-se também numa espécie de centro da comunidade. Só que agora Félix Ducharme morreu e a única pessoa a tomar conta do armazém é a sua viúva, Marie. Assoberbada por pedidos e responsabilidades, Marie tenta encontrar uma forma de prosseguir sozinha. Mas nem mesmo o apoio de uma comunidade coesa - ainda que também com todos os atritos e maledicências de um meio onde tudo se sabe - parece capaz de lhe tornar o trabalho mais leve. E há tanto trabalho para fazer...
Um dos aspectos mais impressionantes nesta série é a forma como, a partir de uma história que não é feita nem de grandes dramas nem de grandes momentos de acção, sei vai moldando uma visão completa - e sobretudo muito cativante - da vida nesta comunidade. Os desenvolvimentos nascem sobretudo das pequenas coisas - uma perna partida, um ciúme injustificado, alguém que morreu de velhice, alguém que se afastou da fé - mas formam uma teia tão coesa como a comunidade que os protagoniza. E, embora sendo uma história de vidas quotidianas, não deixa de estar repleta de momentos marcantes.
Outro aspecto a sobressair é a precisão com que retrata a vida em meios pequenos, nas qualidades e nos defeitos. Qualidades como o espírito de entreajuda, a forma como toda a aldeia converge para consolar quem perdeu alguém, a partilha dos momentos de alegria e a certeza de haver sempre alguém a quem recorrer. Defeitos como o alastrar furioso dos rumores, os julgamentos excessivos, o choque ante qualquer novidade e as limitações de uma vida onde há coisas que são inevitavelmente inacessíveis. É Notre-Dame-des-Lacs nos anos 20 do século passado, mas há coisas que continuam a ser muito actuais. E também esse reconhecimento contribui para tornar a leitura tão cativante.
Finalmente, e olhando agora para a arte, evidencia-se uma vastidão insuspeita. É que, ao fundo de cada momento central, há toda uma imensidão de pormenores a descobrir, seja em coisas tão simples como as brincadeiras das crianças ou em presenças tão discretas e oportunas como a do gato que aparece na capa e que, ao longo do livro, nunca deixa de ser uma presença expressiva e ternurenta. Além, claro, da expressividade de certos momentos: as lágrimas nos olhos de Marie, o desconcerto de Gaetan, a inesperada revelação das ideias luminosas do padre. Tudo ganha vida nas páginas e, seja no humor ou na emoção, tudo deixa a sua marca.
É, pois, uma história de pequenas coisas que convergem em toda uma vida: a vida de uma comunidade feita de singularidades e, sobretudo, de gente notável e de corações cheios de vida. Visualmente encantador e cheio de momentos notáveis, um livro memorável em todos os aspectos.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Um Auto de Gil Vicente (Almeida Garrett)

Prepara-se a encenação das Cortes de Júpiter, um auto escrito por Gil Vicente para celebrar a partida da infanta D. Beatriz para a sua nova vida como duquesa. Mas, se o auto promete comédia, já as emoções que se movimentam nas sombras são bem menos sombrias. É que, com a muito relutante mas abnegada colaboração da filha de Gil Vicente, Bernardim Ribeiro vive os últimos momentos do seu amor proibido com a infanta. E está decidido a que o seu último adeus seja dramático e memorável - nem que para isso tenha de se infiltrar no auto...
Menos célebre, talvez, do que Falar Verdade a Mentir, a tão conhecida peça que muitos de nós estudaram na escola, esta é uma peça que assume um registo algo diferente. Embora tenha também os seus rasgos de leveza e de humor, a linha geral do enredo é muito mais dramática, com uma teia de amores proibidos, movimentações secretas e até declarações de amor tragicamente eloquentes. Não perdendo de vista, é certo, um certo tom de crítica - ou não fosse o amor proibido da infanta com Bernardim um perfeito reflexo de como as aparências e o estatuto ditam a suposta pureza de uma reputação. Ainda assim, é o drama que tudo move e o resultado é uma leitura muito mais sóbria, ainda que também pautada por uma saudável dose de estranheza.
Situada no reinado de D. Manuel I, pretende também retratar as movimentações da corte, o que significa um grande número de personagens e também uma algo surpreendente componente descritiva. Ora, isto torna o texto mais pausado, pois, mesmo imaginando as indicações transpostas para um cenário, também os longos diálogos têm o seu quê de caracterização introspectiva. Fica-se, porém, com uma visão mais clara das coisas, o que, mais do que em comportamentos e cenários, acaba por ter um impacto particularmente forte ao debruçar-se sobre as ambiguidades do coração. De Bernardim e da infanta, claro, mas... não só.
Importa ainda fazer referência aos textos iniciais, do autor e dos editores, que, não sendo cruciais para a leitura, permitem uma maior contextualização da obra no seu tempo, bem como uma breve reflexão sobre o estado do teatro português na altura em que ela foi escrita. Também estes textos são pausados, até porque oscilam entre a crítica e a explicação, mas contribuem para uma visão mais completa da obra e do seu contexto. E, sendo assim, não podem deixar de ser interessantes.
São menos de cem páginas, mas não lhes faltam pontos de interesse, quer na caracterização da obra, quer no drama propriamente dito. E assim, apesar de relativamente pausado, não deixa nunca de ser um livro cativante, sobre dramas e amores proibidos... e também sobre teatro, poesia e emoção.

domingo, 25 de abril de 2021

Noites Azuis (Joan Didion)

Noites azuis, diz-se, são as noites de longos crepúsculos que preparam a chegada da escuridão, noites em que a luz se demora, mas que anunciam também a sua morte. E são estas noites azuis - alerta para as trevas que se aproximam - que servem de base a um livro feito de memórias, mas que não é só memória, mas também reflexão sobre o abandono, a mortalidade e o envelhecimento. E é uma história também: da autora, das pessoas que, ao longo do tempo, povoaram a sua vida e das suas muito pessoais noites azuis.
Sendo, acima de tudo, um registo muito pessoal de emoções, experiências e impressões da autora, este não é propriamente um livro fácil de descrever, até porque o seu registo impressionista faz com que, também aos olhos de quem o lê, sejam mais as impressões que ficam no pensamento, e não algo que possa ser descrito de forma absolutamente palpável e linear. É um livro que vive de memórias, e a memória tem os seus ritmos peculiares. E, apesar de pessoal e intransmissível, não deixa de despertar também impressões de proximidade.
Um óbvio aspecto que se destaca é, ainda assim, a escrita propriamente dita, pois a voz da autora parece reflectir na perfeição o impacto dos temas que pretende abordar. Fala do envelhecimento, e evoca - não só nas memórias, mas na própria construção das descrições - fragilidade, confusão, nostalgia. Fala de morte, e reflecte não só toda a dor e tristeza, mas também as diferentes formas de assimilar a perda - ou de viver com ela. Fala de família e de abandono e recua à infância da filha para traçar uma teia de impressões complexas, mas onde é fácil encontrar pontos de identificação. Tudo com laivos de introspecção e de poesia que fazem com que a leitura pareça, a espaços, quase uma conversa intimista.
São, curiosamente, os aspectos mais ambíguos - ou mais vagos, poder-se-á dizer - que acabam por ter mais impacto, e não tanto aqueles em que figuras específicas assumem mais protagonismo. Também isto resulta um pouco do facto de serem memórias pessoais, e vindas de um meio muito específico, pelo que é mais a ligação que essas pessoas têm com a autora, e não os seus próprios percursos, que realmente chama a atenção. E são também esses momentos - viagens, ensaios, festas - os que parecem mais distantes, criando um contraste interessante com aqueles em que as emoções vêm à tona.
Introspectivo, pausado, mas surpreendentemente poderoso na sua reflexão sobre o envelhecimento e a perda, trata-se, pois, de um livro mais de impressões do que de enredos, mas capaz, ainda assim, de despertar emoções intensas. E, num livro como este, tão pessoal e tão poético, basta isso para o fazer ficar na memória.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Procura-se Lucky Luke (Matthieu Bonhomme)

Procura-se Lucky Luke. Vivo. É essa a indicação que parece ter-se espalhado por toda a parte. E a recompensa pela sua captura não é nada pequena, o que significa que não faltam interessados. Desde velhos inimigos a jovens empreendedoras, Luke vê-se subitamente obrigado a seguir por sendas ainda mais solitárias a fim de evitar a perseguição por um sem fim de adversários. Só que, como bom herói, não pode ver uma donzela em perigo, e muito menos três. Assim, ao cruzar-se com três belas mulheres em circunstâncias delicadas, sente-se obrigado a acompanhá-las até ao seu destino, protegendo-as, tanto quanto possível, dos perigos. Só que nem elas são apenas donzelas indefesas, nem a delicada situação de Luke é exactamente o que parece. E a explicação virá de onde menos se espera...
Sendo protagonizada por uma figura sobejamente conhecida, para não dizer mesmo intemporal, não é propriamente uma surpresa a facilidade com que se entra nesta nova aventura. Basta a familiaridade da personagem, associada à peculiaridade das suas circunstâncias, para querer saber o que causou essa situação e, principalmente, como será que Luke se vai livrar dela. E, se juntarmos a isto a expectável sucessão de reviravoltas, momentos de acção e... bem, tiros em abundância, o resultado é, no mínimo, muito interessante.
Há, ainda assim, dois aspectos específicos que importa salientar (e que ganham outro sentido após a leitura da entrevista incluída no final do livro): a presença de velhos inimigos, que cria ligações com outras aventuras e (para quem não as leu ainda) a vontade de as conhecer; e o duplo sentido da avidez com que as diferentes personagens querem deitar a mão a Lucky Luke. São dois aspectos curiosos que, além de acrescentarem intensidade à história, estão na base de alguns dos momentos mais interessantes de todo o enredo.
Quanto à linha do enredo propriamente dita, é aparentemente simples (até porque é uma leitura relativamente breve), mas esconde toda uma abundância de momentos memoráveis, tanto a nível de desenvolvimento das personagens, com rasgos de humor deliciosos a envolver a "palhinha" de Luke, como do próprio enredo, com a forma como tudo termina a ter um inesperado impacto emocional.
Finalmente, importa referir também dois pontos ao nível do aspecto visual: o movimento, que é particularmente interessante na forma como equilibra uma certa convergência de múltiplos adversários para o mesmo ponto; e a cor, sobretudo na forma como dá vida aos cenários desérticos e contribui também para pôr em ordem os momentos com mais potencial para confusão (nomeadamente, a já referida convergência de adversários).
Não é preciso conhecer profundamente a história de Lucky Luke para desfrutar desta aventura. Mas se, como eu, ainda conhecerem poucas das deambulações deste cowboy solitário, acreditem... vão ficar com vontade de as conhecer a todas. E esse é apenas um dos mais interessantes efeitos secundários desta leitura breve, mas muito empolgante e surpreendente.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Uma Hora de Vida (M.J. Arlidge)

Tudo começa com uma chamada perturbadora. Uma voz inquietante, desconhecida, com um anúncio aterrador: «Tens uma hora de vida.» A vítima é um homem de sucesso, mas foi em tempos um adolescente assustado, parte de um grupo de jovens que, numa mistura de sorte e de coragem, conseguiu escapar a um assassino sádico. A ameaça é clara e a morte parece ter regressado para reclamar os anos conquistados na fuga. No dia seguinte, Justin é encontrado morto. Mas será o responsável o mesmo assassino do passado, cujo derradeiro fim é mera especulação? Cabe à inspectora Helen Grace seguir as pistas e desvendar o mistério. Mas o assassino parece ser um dos mais perigosos que já enfrentou e estar sempre um passo à sua frente. Principalmente porque a sua equipa já não é tão coesa como em tempos foi...
Há algo de absurdamente impressionante na forma como, após nove volumes e toda uma sucessão de dramas, intrigas, tragédias e perdas, esta série nunca deixa de surpreender. Se a protagonista é familiar, já as suas circunstâncias parecem ser um turbilhão de incessante mudança. Se há figuras cuja presença e atitude se tornaram relativamente expectáveis, como é o caso da sempre fascinante e odiosa Emilia Garanita, já os seus novos passos nunca deixam de expandir os limites daquilo de que ela é capaz. E há sempre desenvolvimentos para todos os elos comuns, desde as conturbadas relações na equipa de Helen ao percurso pessoal dos que lhe são mais próximos.
Junte-se a isto um caso alucinantemente frenético, em que o único aspecto previsível é o facto de ser, como sempre, uma corrida contra o tempo, e é basicamente impossível parar de ler. As páginas voam ao ritmo da intensidade devastadora dos acontecimentos. Cada capítulo é uma teia de possibilidades em suspenso para o que se poderá seguir. E, à medida que as revelações se vão sucedendo, é tão forte o impacto das surpresas, não só em termos de caso, mas também de percursos pessoais, que é simplesmente impossível não ter a sensação de estar lá a assistir - e a participar - em tudo.
Como é habitual nesta série, o caso central tem neste livro o seu início e o seu fim. Já quanto ao percurso das personagens - Helen, Charlie, Joseph, Emilia -, há coisas que ficam em aberto, o que tem dois efeitos interessantíssimos. Primeiro, reforçar as ligações que vêm de trás e a evolução que as várias personagens foram sofrendo ao longo da série. E, segundo, deixar em aberto alguns fios que fazem com que - apesar de ainda não ter sido publicado - seja irresistível a vontade de ler o próximo volume. O mais rapidamente possível.
Com as suas personagens marcantes e a sua história empolgante, nunca deixa de surpreender, seja nos desenvolvimentos do caso ou no percurso pessoal da protagonista. E, com o seu ritmo frenético, a intensidade avassaladora e a sempre fascinante complexidade de Helen Grace, transporta-nos para o interior de uma corrida contra o tempo da qual é extremamente difícil sair a meio. Intenso, viciante, frenético e devastador, prende logo às primeiras frases e é impossível de largar antes do fim. E tudo isto o torna memorável. Irresistível. Magnífico.

domingo, 18 de abril de 2021

Tristia [um díptico e meio] (António Cabrita)

Nasce numa conjugação de tempos, de extremos históricos - presente próximo e passado longínquo - unidos por fios cuja descrição se afigura, por vezes, impossível. Heitor e Andrómaca deambulam por paisagens actuais, sem estarem verdadeiramente presentes, mas parecendo afirmar-se em cada pensamentos. E também as imagens se confundem entre o palpável e o onírico, entre o estranhamente real e o absurdamente impossível. Tal como as palavras, ora insondáveis, ora brutais, ao ritmo de uma evocação longa e livre, mas onde parece existir uma cadência subjacente.
Não é propriamente fácil descrever este livro. Há características bastante vincadas - os poemas maioritariamente longos, a liberdade de uma poesia sem rima e em que o ritmo parece ser o da consciência, o contraste entre cenários directos e percepções maioritariamente imaginárias - mas a verdade é que o todo parece formar algo de diferente que se sobrepõe a tudo isto. Ao longo da leitura, as imagens vão-se entranhando no pensamento, as referências vão-se dando a conhecer. E, ainda assim, a impressão que fica é mais de sensações do que de descrições palpáveis, o que faz com que a imagem resultante seja bastante difícil de descrever.
Há, ainda assim, um ponto bastante evidente nestas mais de trezentas páginas: a união. E é uma união surpreendente, tendo em conta não só a extensão do livro, mas também o facto de ser dividido em três partes - ou talvez, seguindo a lógica do título, duas e meia. A divisão é clara: na primeira domina Heitor, na última a Arca, na intermédia o insondável Quíron. E estas figuras dominantes, elo de ligação entre cada uma das secções, podem ter as suas diferenças e mover-se em meandros distintos, mas há um elo também indescritível - a voz do próprio autor, talvez? - que faz com que este díptico e meio se constitua em unidade. Cada peça é um todo completo - mas, juntas, formam um todo maior a que todas as peças pertencem.
É um livro longo, e às vezes chega a ser desconcertante na estranheza das imagens que evoca. O mundo em que as figuras se movem é tudo menos linear, tal como as próprias figuras não o são. E, assim, é impossível não ficar com uma certa sensação de estranheza, já que a visão global é difícil de assimilar e as suas pequenas partes estão cheias de contrastes. Não deixa, ainda assim, de ser impressionante, até porque não faltam versos notáveis ao longo deste extenso volume.
Feito de impressões e de imagens difíceis de descrever, trata-se, pois, de um volume extenso, mas sempre surpreendente na sua vastidão por vezes insondável. E de um conjunto equilibrado, cuja totalidade é também uma odisseia, mas em que cada parte vale também por si mesma. Vale a pena embarcar nesta estranha viagem.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

A Cor Azul (Jaime Soares)

Azul. Do céu, do mar, de luzes que se acendem, de um sabão que serve de marcador, de fenómenos estranhos e de pedras preciosas. Azul também de melancolia e das consequências que ficam depois dos golpes da vida. Azul, presença discreta em histórias com todas as cores do mundo - mas que têm, ainda assim, também nas palavras uma melancolia azul. São de azul os dois contos deste livro - e de um azul mais sentido do que visível.
O primeiro conto, Tesouro, parece expandir-se pelos labirintos de múltiplas formas. Conta a história de um casal de agricultores, ele apegado à terra, ela desejosa de partir para a cidade. E conta também a história de um casal que se vai afastando, de desconfianças moldadas à base de segredos e de um elemento mítico que, aparentemente imaginado, assume outras formas com o desfiar das revelações. Mantém sempre um registo algo ambíguo, como que pretendendo deixar ao leitor as derradeiras conclusões, mas nunca deixa de cativar no contraste entre a intensidade crua de alguns momentos e os laivos quase introspectivos que entre eles se vão cruzando.
Já o segundo conto, Contrato, história de uma investigadora cuja carreira está prestes a chegar ao fim, mantém os mesmos contrastes transpostos para outro cenário e outra vida. Os acontecimentos são bem menos enigmáticos, já sem a presença de uma inefável moira encantada, mas não deixam de ter, ainda assim, o seu lado inesperado, a contrastar com a melancolia que parece definir o percurso da protagonista. Mantém-se também a ambiguidade, mas uma ambiguidade que faz sentido, pois parece evocar um percurso que não se esgota nas partes que são contadas.
De ambos os contos, sobressai ainda a relativa brevidade e o contraste entre as suas poucas páginas e uma escrita tão complexa e enigmática como o percurso das personagens que a habitam. Complexa, mas não na forma, que flui com naturalidade, e sim no tipo de imagens que evoca durante a leitura, surpreendentes e inefáveis como o toque de mistério que as parece envolver.
Muito breve, mas sempre cativante, trata-se sobretudo viagem aos labirintos da mente. Tem como base uma cor, mas expande-se para lá dela. E, feita de contrastes, de surpresas e de enigmas, fica na memória bem depois de terminada a breve leitura. Vale, pois, a pena explorar mais esta cor.