quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Cor Verde (Jaime Soares)

Verde. Cor de esperança, mas de muito mais do que isso. De amor e tentação, de perda, de desilusão, de maldições que se prolongam e que, sem ganhar forma, assombram. Verde - o discreto fio condutor que une estes dois contos, tão diversos na linha essencial do enredo, mas com tanto, afinal, em comum.
Dos dois contos que compõem este pequeno livro, o primeiro e mais extenso é Vedação. Fala de um fotógrafo e de um trabalho invulgar, em que as teias insinuantes do erotismo se conjugam com a mágoa de um amor que fugiu. Longo e bastante descritivo, tanto nos cenários como no comportamento das personagens, é um conto de ritmo bastante pausado e, envolto em enigmas do início, deixa umas quantas possibilidades sem resposta. Ainda assim, faz todo o sentido que assim seja e é difícil não se entrar no fascínio da qualidade quase onírica que parece envolver todo o cenário.
No segundo conto, Casebre, história de uma ambígua maldição familiar, muda o enredo e o ritmo acelera um pouco, mas mantém-se o mesmo equilíbrio entre um cenário quase que sonhado e uma deambulação onde pensamentos e imagens quase se misturam. As personagens, complexas como parecem ser, não são ainda assim o cerne da história. É-o o mistério, que parece ganhar vida em cada momento peculiar, em cada acaso e coincidência  e no que também aqui é deixado para esclarecer.
A unir as duas histórias está o verde: discreto, manifestando-se apenas em pequenas coisas, mas com uma influência como que de assombração. E é deste pequeno verde que emergem as outras qualidades comuns: o tom ambíguo (e, por isso, intrigante), o cenário que parece estar ao mesmo tempo ali tão perto e num passado muito longínquo e uma escrita que, parecendo deambular ao ritmo dos pensamentos das personagens, sabe, ainda assim, onde pretende chegar. Ficam perguntas sem resposta? Sim. Mas é dessa natureza a vida das personagens: uma vida que é quase inevitável que se tente imaginar depois do fim.
Breve, mas surpreendentemente complexo e com um ambiente feito de sonhos que se entrelaçam com a realidade, trata-se, pois, de uma leitura cativante, feita de personagens imperfeitas na dança (também) imperfeita da vida. Gostei.

Título: A Cor Verde
Autor: Jaime Soares
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Bertrand

Como foi possível alguns dos maiores criminosos nazis terem conseguido escapar da Europa e evitar o julgamento em Nuremberga? Este livro analisa as circunstâncias dessas fugas, debruçando-se especialmente sobre a chamada Rota das Ratazanas (ou Ratlines), nome dado ao esquema internacional que possibilitou a milhares de nazis, acusados de genocídio e de crimes contra a Humanidade, fugirem da Europa — colaboração que ainda hoje envergonha muitas pessoas e instituições, em especial o Vaticano. Entre as ratazanas cuja evasão se estuda contam-se Adolf Eichmann, o arquitecto do Holocausto, Josef Mengele, o Anjo da Morte de Auschwitz, Franz Stangl, a Morte Branca, Erich Priebke, o Carrasco de Roma, Klaus Barbie, o Carniceiro de Lyon, John Ivan Demjanjuk, ou Ivan, o Terrível, Gustav Wagner, o Monstro de Sobibor, Otto Wächter, o Carrasco de Cracóvia, Walter Rauff, o Assassino do Gás, Herberts Cukurs, o Carrasco de Riga, Hermine Braunsteiner, a Égua de Madjdanek, e Erich Rajakowitsch, o Carrasco da Holanda — alguns dos maiores criminosos morais e de guerra do século XX, que deixaram para trás um rasto de sangue e terror.

Eric Frattini foi correspondente no Médio Oriente e residiu em Beirute e Jerusalém. É autor de mais de uma vintena de livros e ensaios, entre os quais se contam Mossad: Os Carrascos do Kidon e Hitler Morreu no Bunker?. A sua obra está traduzida para várias línguas e editada em 47 países. Em 2013, recebeu o II Prémio Nacional de Investigação Jornalística (Itália) pela sua investigação do caso Vatileaks — trabalho que deu origem ao livro, já publicado em Portugal, Os Abutres do Vaticano — e o Prémio Anual Strillaerischia (Itália) pelo seu trabalho como correspondente no Afeganistão. Realizador e guionista de dezenas de documentários de investigação para as principais cadeias espanholas de televisão, colabora assiduamente em diferentes programas de rádio e TV.
Ministra frequentemente cursos e conferências sobre segurança e terrorismo islâmico a várias forças policiais e de segurança em Espanha, na Grã-Bretanha, Portugal, Roménia e Estados Unidos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Night Driver (Marcelle Perks)

Frannie deixou a sua vida e o seu país para viver com o marido na Alemanha, mas agora, no fim da gravidez, começa a ver que Kurt não é quem ela pensou que era e que a sua relação está a desmoronar. Entretanto, Frannie sabe que tem de aprender a conduzir para poder tomar conta do seu bebé, mas as aulas estão a dar-lhe cabo dos nervos e tudo piora quando um péssimo condutor se cruza no seu caminho. Mas ainda pior é que Lars não é apenas um condutor maluco. Tem uma compulsão que o leva a matar. E quando Frannie tenta ajudar um novo amigo a encontrar a irmã desaparecida, o seu caminho cruza-se com o de Lars numa vida muito mais perigosa.
Uma das primeiras coisas que importa referir sobre este livro é que está cheio de surpresas. No princípio, leva-nos a acreditar que a situação no trânsito será o desencadeador de um conflito muito mais negro. Mas depois tudo se expande. Lars não é apenas um assassino em série, mas também um homem influente no mundo das drogas e da prostituição. E o seu sócio, Hans, é ainda pior. É a relação entre ambos, todavia, que dá origem às maiores surpresas da história. Pois Hans tem a sua própria perversidade e, quando as coisas começam a complicar-se, começam também a ficar mais negras.
Também bastante impressionante é o facto de a história arrancar a um ritmo relativamente pausado, embora intrigante, crescendo depois exponencialmente a nível de intensidade. Começa de forma relativamente calma, apesar dos momentos de tensão, e depois as coisas parecem descontrolar-se para todas as personagens centrais. Define-se uma rota, fazem-se planos... e a busca de respostas representa um perigo para todos. Frannie e Dorcas tentam descobrir o que aconteceu a Tomek. Lars... bem, tenta recuperar o controlo da sua vida retorcida. E, à medida que estes dois caminhos convergem, a história torna-se viciante. E no fim tudo é inesperado.
O que me leva a um outro aspecto inesperado: Lars. É um assassino em série e há muito tempo que tem vindo a matar. Mas não é necessariamente o mal maior nesta história, o que é em si também uma surpresa. Além disso, há uma complexidade subjacente ao que o move e isso coloca-o num caminho com apenas duas possibilidades futuras: total condenação ou a redenção possível. Também isto faz parte do que torna o final tão forte. Ninguém era exatamente o que parecia. Mas Lars? Era isso, mas também mais.
Com um cenário tão negro e intrigante como a mente de algumas das personagens, no fim, tudo neste livro se resume a isto: uma história intensa e intrigante, com relações intrincadas e um conjunto de personagens bastante complexo e impressionante. Um muito bom livro, em suma.

Título: Night Driver
Autora: Marcelle Perks
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Grandes Insultos (Manuel S. Fonseca)

Chama-se O Pequeno Livro dos Grandes Insultos - e é um livro que se sintetiza perfeitamente a si mesmo no título. Pequeno, porque é um livro relativamente pequeno. E quanto a Grandes Insultos? Bem, é exactamente isso. Por isso, não se esperem grandes eufemismos e muito menos insultos menores. Este é um livro como poucos no que toca à abundância de palavrões por metro quadrado. E, por isso, nesta sua estranha declaração de amor ao palavrão, é também um livro especialmente rico nesta tão específica área do vocabulário.
Um dos primeiros aspectos que importa referir acerca deste livro - e talvez algo surpreendente tendo em conta o conteúdo - é o talvez inesperado facto de se tratar de um livro... bonito. Bonito, sim, com os seus tons de vermelho na capa e no interior e os elementos visuais bombásticos (talvez não no primeiro sentido que vem ao pensamento) presentes ao longo do livro. E isto tem um efeito curioso: é que, além de despertar a curiosidade para a leitura, quase que desmistifica o factor choque nesta abordagem bastante complexa à arte do palavrão. Afinal, também faz parte da vida, não é? E os tabus... bem, alguns existem para ser quebrados.
Mas passemos ao conteúdo e importa, claro, começar por dizer que talvez não seja um livro recomendado às almas mais sensíveis. É que, se pensarem no palavrão mais forte que conseguirem imaginar e depois o forem procurar nas páginas deste livro, é bem provável que o encontrem. Até porque alguns deles são do tipo que se ouve a toda a hora. Mas há, mais do que os insultos em si - e não é impressionante a criatividade de alguns dos insultos que vêm à cabeça das pessoas? - destacam-se dois aspectos: primeiro, a organização do livro, que lhe confere quase que um estatuto de tratado sobre o vernáculo; e segundo, a boa disposição que faz com que até as mais rebuscadas blasfémias despertem facilmente uma gargalhada. Ou não fosse o inesperado um dos factores que aumentam o impacto de um palavrão bem proferido.
Há algumas repetições ao longo do livro, principalmente de expressões que surgem em múltiplos contextos. Mas, embora isto desperte a sensação de já ter visto aquele insulto antes, faz todo o sentido que esta repetição aconteça: afinal, o contexto também faz parte do impacto e o palavrão é um departamento da linguagem que inclui muitas possibilidades.
Fica, então, esta curiosa impressão: a de um pequeno, mas completo, tratado sobre a surpreendentemente vasta arte de insultar. E, claro, um livro divertido e surpreendente - nos mais inesperados aspectos.

Autor: Manuel S. Fonseca
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Nuvem de Tinta

O que têm em comum a padeira Brites de Almeida, a sufragista Beatriz Ângelo, a actriz Beatriz Costa e a pintora Paula Rego? Além de serem todas mulheres, lutadoras, corajosas, independentes e livres… são Portuguesas com M Grande! 
Todos temos o sonho de mudar o mundo e mudar com ele, de criar futuros e esperança, de ser livres para escolher, transformar, crescer e aprender, de errar e construir um caminho, de viver uma vida em pleno. E hoje todos podemos fazê-lo. Mas para aqui chegar foi necessária a coragem de mulheres sem medo para ir mais longe, como as Portuguesas com M Grande!
Um livro para nunca esquecermos como aqui chegámos e nos lembrarmos de que poderemos ir ainda mais longe.

Lúcia Vicente nasceu em Outubro de 1979, à beira da Ria Formosa, em Faro, numa família cheia de mulheres. Foi a primeira desse núcleo a concluir uma licenciatura. Cedo se questionou sobre o papel da mulher na sociedade e por que razão os livros de História nunca mencionavam mulheres. Em 1995, criou, juntamente com um grupo de amigas e amigos, o colectivo feminista MUPI (Mulheres Unidas Pela Igualdade).

Cátia Vidinhas nasceu em 1989, num lugar onde as montanhas são tão altas que facilmente se consegue chegar ao céu. Enquanto ilustradora, colaborou com autores como Valter Hugo Mãe, Álvaro Magalhães, José Jorge Letria e Adélia Carvalho. É autora das ilustrações de oito livros infantis, entre os quais Figura de Urso (2015), Palavras Bonitas Sobre Contas (2017) ou Infâncias (2017). Os seus livros estão publicados em diversos países, como Espanha, Brasil ou Colômbia. Em 2015, viu o seu trabalho destacado pelo Prémio Nacional de Ilustração com o livro WonderPorto.

Divulgação: Novidade Companhia das Letras

Chegados a Lisboa em junta médica, Cartola e Aquiles descobrem-se pai e filho na desventura, sobrevivendo ao ritmo da doença, do acumular de dívidas e das cartas e telefonemas trocados com a família deixada em Luanda. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo. Será esta amizade capaz de os salvar? «Se o entendimento entre duas almas não muda o mundo, nenhuma ínfima parte do mundo é exactamente a mesma depois de duas almas se entenderem.» Luanda, Lisboa, Paraíso, o segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, é o balanço tocante de três vidas simples, em que esperança e pessimismo, desperdício e redenção, surgem lado a lado numa sequência de tableaux sombrios, doces e trágicos.

Djaimilia Pereira de Almeida é autora de Esse cabelo (Teorema, 2015) e Ajudar a cair (FFMS, 2017). Publicou em Granta, Revista Serrote, Common Knowledge, Quatro cinco um, Words Without Borders, Revista Zum, entre outras. Nascida em Angola, vive nos subúrbios de Lisboa e escreve no Blog da Companhia das Letras.

domingo, 14 de outubro de 2018

Outcast, Vol. 1: As Trevas que o Rodeiam (Robert Kirkman e Paul Azaceta)

A vida de Kyle Barnes sempre esteve rodeada de acontecimentos estranhos, que o levaram a perder todas as pessoas que amava e a fechar-se sobre si mesmo, isolado. Mas um súbito encontro - e um auxílio quase que involuntário - levam-no a suspeitar de que esses estranhos acontecimentos são mais do que uma sombra que o persegue. Há demónios à solta e, embora não saiba porquê, Kyle parece ter uma defesa que mais ninguém. Começa, por isso, a procurar respostas. Mas, quando as encontrar, o seu mundo deixará de ser o mesmo...
Abundante em elementos sobrenaturais e com um conjunto de forças que parecem começar apenas a ganhar forma neste primeiro volume, basta uma palavra para descrever este livro: viciante. Primeiro, cativa a situação algo desolada de Kyle. Depois, a misteriosa presença de forças demoníacas e o tipo de comportamento que parecem exibir. E subitamente tudo se expande. Não é simplesmente a história de um demónio que insiste em perseguir o protagonista: é uma guerra cujos contornos começam apenas a desenhar-se. E, a partir do momento em que isto se torna claro, é impossível não querer saber o que vem a seguir.
É uma história sombria, não só pelos elementos demoníacos, mas principalmente pelo peso da desolação que assenta sobre os ombros de Kyle. E importa por isso realçar a forma como tudo converge para potenciar esta imagem de desolação: desde os tons sombrios que pautam todo o livro, rasgados por traços de cor que surgem precisamente nos momentos certos, às expressões das várias personagens, que contêm toda uma história em si mesmas. O sobrenatural é causa e motivação de tudo - mas são os demónios interiores das consequências que despertam as verdadeiras emoções. E, no fim... No fim, é impossível não sentir um pouco por Kyle, pelo que passou - e pelo longo e árduo caminho que tem nitidamente pela frente.
Quanto a respostas... Bem, estamos no primeiro volume, por isso não é propriamente uma surpresa que fiquem mais perguntas do que respostas. Ainda assim, o final parece especialmente adequado, não só por deixar a história num ponto em que é quase irresistível a vontade de começar imediatamente a ler o próximo volume, mas pela intrigante sensação de que aquele final é também um início: o início da verdadeira guerra.
Não se pode, pois, pedir muito mais a este volume de abertura. Intenso, sombrio, enigmático, abre as portas para um mundo de sombras e de demónios onde o potencial parece ser tão ilimitado quanto o peso da vida do protagonista. E, a cada novo momento, a cada pequena revelação, acende um bocadinho mais a chama da curiosidade para o que se poderá seguir. Curiosidade que cedo se torna irresistível - como este livro, aliás. 

Autores: Robert Kirkman e Paul Azaceta
Origem: Recebido para crítica

sábado, 13 de outubro de 2018

Uma Coisa Absolutamente Incrível (Hank Green)

April May está a caminho de casa depois de um longo dia de trabalho quando eis que, do nada, se depara com uma enorme escultura na rua. De início, April pensa que deve ser uma espécie de obra de arte, uma instalação elaborada, mas, ainda que a sua primeira reacção seja seguir em frente, decide chamar o seu melhor amigo. Juntos fazem um vídeo sobre a estátua a que April deu o nome de Carl. Mas o que devia ser um vídeo interessante ganha uma nova dimensão quando se descobre que o Carl é apenas um de sessenta e quatro espalhados por todo o mundo. E mais: que tem características impossíveis a qualquer material terrestre. April vê-se assim no papel de primeira a estabelecer contacto com uma possível espécie alienígena. E, de repente, ascende à fama mundial... algo que talvez lhe agrade mais do que devia.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção nesta história - além, claro, da ideia de estátuas gigantes a aparecer de repente em todo o lado - é a forma como, embora contando a história pela voz da sua protagonista, o autor nunca cai na tentação de a aperfeiçoar demasiado (nem mesmo aos seus próprios olhos). Desde cedo se torna evidente que, no momento em que conta a história, April May está bem consciente das suas fragilidades e defeitos e isso torna tudo muito mais interessante, não só porque permite emoções mais intensas (seja de empatia ou de irritação), mas principalmente porque se ajusta na perfeição ao papel de April de "representante" da humanidade.
Importa também destacar que esta está muito longe de ser apenas uma história de alienígenas - apesar de ter como ponto fulcral uma manifestação de... bem, alienígenas. É uma história sobre a fama e o seu lado mais sombrio, sobre as discussões e ódios no tempo das redes sociais, sobre o crescimento das personagens num mundo em constante mudança e, sim, também sobre a forma como a humanidade poderia lidar com uma manifestação extraterrestre. Tudo isto mais em actos do que em palavras, e por isso muito mais visível - embora April tenha também um ou outro discurso bastante notável.
Voltemos aos extraterrestres - e ao desenvolvimento das personagens - para realçar outro aspecto. A história dos Carls começa como um enigma e termina como tal. Aliás, tudo no final aponta para a possibilidade de uma sequela. Mas há todo um mundo de desenvolvimento ao longo do caminho: as estátuas, o Sonho, as mensagens em código - tudo aponta para algo muito complexo que apenas começou a manifestar-se. E, do outro lado, do lado da humanidade, há uma outra base de complexidades: os ódios, os medos, as intrigas - e a capacidade de trabalhar em conjunto para resolver um mistério. Tudo num cenário que é, ao mesmo tempo, global (fruto da capacidade mobilizadora de April) e pessoal (influindo nas suas relações familiares, amizades e romances). 
E depois há a conclusão, que é a convergência de todas estas facetas num final explosivo. Ficam perguntas em aberto, claro, e a muito clara sensação de que a história continuará. Mas fica também a ideia de que uma fase se concluiu - para o mundo, para April e para os Carls. O que vier a seguir será diferente. Mas, a julgar pelo impacto deste final, será certamente muito bom.
Com uma voz única, um enredo surpreendente e um belíssimo equilíbrio entre humor e emoção, trata-se, pois, de uma história de fama e de extraterrestres, mas em que nenhum deles é apenas um elemento estático. A história de April, em suma, e da sua notoriedade - num mundo capaz do melhor e do pior.

Autor: Hank Green
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O Amor que Sinto Agora (Leila Ferreira)

O passado disfuncional da mãe fez com que Ana sempre sentisse sobre os ombros o peso da obrigação de a fazer feliz - mesmo que isso significasse manter-se num casamento tranquilo, mas sem amor. Agora, porém, a mãe partiu e a vida que Ana vinha a suportar com esforço desmoronou. Resta-lhe, por isso, pôr em cartas o que sempre disse à mãe, recordar - e fazer as pazes - com o passado e partir depois para um futuro diferente. Nas cartas, contará toda a sua história - abrindo, talvez, assim caminho a uma nova esperança.
Parte do que torna esta leitura tão cativante é a forma como conjuga uma escrita harmoniosa e natural, nas cartas e nas recordações, com um cenário tão cheio de possibilidades como de momentos disfuncionais. A história de Ana e das suas antepassadas está cheia de dor, de mágoa e de crueldade. E, todavia, mais que o choque dessas revelações (que chocam, de facto), marca uma melancolia persistente que parece construir uma ponte entre o peso do passado e uma libertação futura. Assim, sente-se desespero e esperança - os mesmos que movem as personagens e são a alma deste romance.
Também notável é o facto de nenhuma personagem ser perfeita - mas também nenhuma ser irremediavelmente maligna. Até mesmo os tais homens do passado que tanta destruição espalharam parecem ter alguma qualidade redentora. Insuficiente, claro, mas mais do que capaz de justificar indecisões, demoras, escolhas erradas. De dar forma à verdadeira complexidade da situação das personagens. Além disso, a própria Ana está longe de ser uma figura perfeita e as suas decisões são igualmente ambíguas e contraditórias, mesmo quando movidas pelos melhores dos sentimentos. São humanas, em suma. E, por natureza, imperfeitas.
Quanto à história em si, é uma passagem: de um passado de sombra e desolação para a promessa de um futuro melhor. O elemento central é a esperança e, assim sendo, faz sentido que tudo termine assim: num ponto de viragem decisivo, feito de promessas futuras, mas deixando em aberto todas as possibilidades. Fica, é claro, a tal curiosidade insatisfeita - principalmente no que diz respeito a Ana e ao português - mas é apenas natural que assim seja. Porque, afinal, é a própria protagonista que não acredita em "juntos para sempre". Se a vida a persuadiu ou não do contrário... fica à imaginação do leitor. 
No fim, fica a soma de três grandes qualidades: uma escrita belíssima, personagens complexas e uma história feita de emoções intensas. Mais do que o suficiente para moldar um bom romance - e é precisamente isso que este livro é.

Autora: Leila Ferreira
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A Solidão de Sermos Dois (Maria João Carrilho)

Na vida de Liza há um grande mistério, o de não saber quem é o pai. E parece que esse mistério é também comum à sua mãe, que também não conheceu o seu em criança. Mas a família, essa, parece mais vasta - principalmente, porque cada elemento parece ter múltiplas e contraditórias facetas. Enquanto Liza procura respostas na mãe e na avó, os segredos de Laura e Filomena vêm também à superfície. E há amores ceifados cedo demais, relações proibidas - e uma figura que parecia ser um amigo, mas que era afinal tudo menos isso...
Relativamente breve, e abrangendo contudo vidas inteiras, este é um livro que vive tanto daquilo que conta como do que é apenas insinuado. Talvez por isto seja esta a faceta que mais acaba por ficar retida na memória: a de uma história onde muitas perguntas ficam sem resposta, e em que muitas das respostas parecem ser algo vagas, mas que atinge, ainda assim, um cativante equilíbrio entre o que de facto é revelado e o que se julga ficar a saber. 
É também um livro de sentimentos contraditórios, até porque os saltos temporais nos permitem ver as personagens em diferentes fases da sua vida - com novos conhecimentos a determinar novas posições. Se, a espaços, uma personagem parece cativar pelo seu estranho carisma, logo uma faceta mais sombria vem à tona. E quanto à relação entre as mulheres desta história... bem, é complexa. É algo disfuncional, também. Mas, com todas as suas teias e meandros, contém também bastante do possível e isso torna fácil imaginar qualquer destas personagens como uma pessoa real.
Mas é na escrita que está o encanto. Numa história em que as figuras centrais tanto despertam amor como aversão e em que os mistérios e experiências alcançam tudo menos uma resolução absoluta, é a escrita que sustenta o equilíbrio global. Pois as palavras fluem com naturalidade, dão vida às emoções e transbordam da estranha melancolia que parece preencher toda a narrativa. O resto da vida pode ficar sem resposta - mas a alma essencial das personagens está lá. Nas palavras.
Ficam, pois, os tais sentimentos contraditórios. Mas principalmente a sensação de ter entrado numa história capaz de conter, em poucas dezenas de páginas, as complexidades de uma vida inteira. O que fica por dizer torna-se secundário... porque o essencial da vida - e das palavras - está lá, nesta pequena, mas cativante leitura.

Autora: Maria João Carrilho
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 9 de outubro de 2018

The Wicked + The Divine: Fandemónio (Kieron Gillen, Jamie McKelvie, Matt Wilson e Clayton Cowles)

Desde o desaparecimento de Lúcifer que Laura alimenta a pequena esperança de pertencer também ao panteão - o grupo de deuses que reencarna a cada noventa anos para inspirar amores e ódios e, passados dois anos, morrer. Mas o seu sonho é tudo menos cor-de-rosa. O que aconteceu realmente a Lúcifer continua a ser um mistério e os outros deuses... bem, digamos que não são propriamente divinamente bons. Laura quer respostas e isso implica manter a proximidade. Só que há um desígnio insondável em acção e nem todos os deuses parecem ter os mesmos planos para o seu limitado futuro.
Se bastava o primeiro volume para reconhecer o vastíssimo potencial da premissa desta série - deuses enquanto estrelas e tão efémeros como a fama - esse potencial é aqui imensamente expandido. Para lá da fama, do brilho e dos estranhos poderes, surgem as outras facetas de se ser divino: as invejas, a soberba, a irresistível aspiração a mais. E é assim que começam a formar-se os contornos de um plano sombrio, em que cada deus parece ter um papel diferente - e mais ou menos voluntário - a desempenhar.
Um dos aspectos mais poderosos deste livro é que, embora desenvolvendo as relações de adoração entre homens e deuses (ainda que numa faceta... pouco convencional), se há coisa que não existe é uma barreira clara entre o bem e o mal. Cada deus tem as suas características e, principalmente, a sua personalidade própria. E nenhum deles é simplesmente bom ou mau. No seu caminho, deixam fãs extasiados, ressentimentos profundos e atritos mais longos e complexos - principalmente uns com os outros. E as motivações para cada comportamento nunca são fáceis e muito menos claras. Não fica, aliás, muito em aberto para o volume seguinte: fica tudo em aberto. E é isso principalmente (além, é claro, das muitas qualidades do livro) que deixa uma vontade irresistível de ler o próximo volume o mais rapidamente possível.
Mas voltando às qualidades. Falei já da ambiguidade das personagens - que as torna mais complexas e fascinantes. Falta-me falar, naturalmente, da arte, tão cheia de cor e de expressão que é impossível não se ficar com vontade de entrar naquele estranho mundo. E que impressiona principalmente por se ajustar tão perfeitamente ao mundo que este livro apresenta: um mundo de celebridades, logo, de brilho, festas e excessos, mas também um mundo de deuses, e portanto de sacrifício e adoração - com um inevitável lado sombrio.
Corresponde às expectativas? Oh, sim, e supera-as plenamente. Pois, com a sua expansão em termos de diversidade e complexidade, acrescenta novas camadas de emoção e dramatismo, sem perder nenhuma da intensidade e do fascínio do volume anterior. Intenso, belíssimo, cheio de surpresas... mal posso esperar para ver o que vem a seguir. Maravilhoso.

Autores: Kieron Gillen, Jamie McKelvie, Matt Wilson e Clayton Cowles
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Três Coroas Negras (Kendare Blake)

Nasceram rainhas, mas só uma delas será coroada. Cada uma tem um dom muito diferente, como compete às rainhas de Fennbirn. Mas Katharine, Arsinoe e Mirabella são diferentes em muitos outros aspectos e, em comum, têm apenas isto: estão destinadas a matar as irmãs ou a ser mortas por uma delas. E, embora apenas Mirabella pareça ser forte no seu dom, todas têm uma sólida rede de aliados e apoiantes, dedicados apenas à sua causa. A batalha pela coroa está prestes a começar - e, entre aliados, amigos, amores e inimigos, existe apenas uma certeza: nada ficará igual quando tudo tiver terminado.
Dividido entre o percurso das três rainhas, e abrangendo uma intriga inesperadamente complexa, este é um livro que intriga desde as primeiras páginas. Bastam, aliás, os dons das três rainhas e o facto de uma delas ser uma envenenadora para gerar a impressão de que esta não vai ser uma contenda vulgar. E, à medida que a história avança, esta impressão vai sendo cada vez mais reforçada - até ao final tão intenso como inesperado, e que deixa uma imensa vontade de ler o volume seguinte o mais cedo possível.
No cerne, está a intriga, é certo, e as movimentações das diferentes facções. Mas o mais impressionante é que há muito mais nesta história além disso. Desde as intrincadas regras da ilha às sedes e mecanismos dos diferentes dons, passando, é claro, pelas transgressões e inevitáveis consequências, há todo um mundo de coisas a acontecer nesta história. Desde os momentos divertidos aos de profunda tensão, passando, é claro, pelos rasgos de afecto, pelas explosões e emotividade e pelo entretecer de manobras de bastidores, há sempre algo de novo para desvendar. E assim se tece um enredo de surpresas, mas, acima de tudo, de momentos muito marcantes.
E. claro, tudo se torna mais intenso quando as personagens são também elas notáveis. Diferentes em tudo, Katharine, Arsinoe e Mirabella conseguem, ainda assim, gerar a mesma forte empatia, não só devido à delicadeza das suas circunstâncias, mas principalmente pela teia de planos e expectativas que vai sendo moldada à sua volta. Além disso, as personagens que lhes são mais próximas, e os laços que as unem, constroem também uma teia emocional, cheia de momentos marcantes e de revelações poderosas. Revelações essas que, nalguns casos, apenas começaram a surgir - prometendo muito de bom para o que se seguirá.
O resultado é, claro, o melhor dos inícios: um início já cheio de acção, de intriga e de surpresas, com personagens tão complexas e marcantes como o enredo e um cenário cheio de intrigas e de enigmas que promete surpreender ainda mais nos volumes seguintes. A melhor das aberturas, portanto, e um livro que não posso deixar de recomendar.

Autora: Kendare Blake
Origem: Recebido para crítica

domingo, 7 de outubro de 2018

Preacher - A Caminho do Texas (Garth Ennis e Steve Dillon)

Há cinco anos, Jesse Custer voltou-se subitamente para a Igreja. Agora, em plena crise de fé, está prestes a descobrir todo um novo significado para a religião. Possuído por uma poderosa criatura, alegadamente fruto da relação entre um anjo e o demónio, Jesse dá por si com o poder da palavra de Deus - quando ordena, todos têm de lhe obedecer. Já Deus, esse... bem, deixou tudo para trás e desistiu. Ora, Jesse não está disposto a aceitar isso e não descansará enquanto não o encontrar e lhe disser umas quantas verdades na cara...
Não é propriamente fácil descrever este livro sem contar demasiado, já que as várias surpresas ao longo do percurso são parte do que torna tudo tão intenso. Mas uma boa palavra para começar seria fascinante. E em múltiplos aspectos, que vão desde a expressividade e a aura de mistério que envolve o desenho, particularmente no que toca às expressões de algumas personagens, à sequência de revelações inesperadas ao longo do enredo, sem esquecer, claro, todo o contexto em torno de fé e religião, céu e inferno, santos... e pecadores.
É daqui, aliás, que nasce o elemento de choque: é que este não é um livro recomendado a almas religiosamente sensíveis. O Deus de Jesse pode ter deixado o mundo por sua conta, mas continua a haver toda uma abundância de anjos e santos... pouco convencionais. Além disso, não importa que Jesse seja um pregador e o Santo dos Assassinos... bem, um santo. Se há coisa que não há neste livro é paz e inocência. E mais: de toda a violência e morte que, ao longo do caminho, se manifesta, surge ainda a sensação de que tudo isto é apenas o início. E que muito mais virá certamente.
Ora, tendo tudo isto em vista, escusado será dizer que a moralidade das personagens é, na melhor das hipóteses, ambígua. Mas é também daqui que acaba por surgir um dos grandes pontos fortes da história: é que, sendo certo que ninguém é santo neste livro, também o é que há momentos - e dos bons - em que a melhor faceta das personagens vem à tona. Jesse, em particular, é a imagem perfeita de uma personagem completa, capaz de fazer o que tem de ser feito, mas com poderosos laivos de consciência e responsabilidade.
Intenso, viciante e inesperadamente complexo, trata-se, pois, do mais promissor dos inícios. Com as suas personagens fascinantes e a sua fusão de blasfémia e religião, prende desde o primeiro contacto e é impossível largá-lo antes do fim. Que mais se pode pedir, então? Só mesmo o próximo volume - o mais rapidamente possível. 

Título: Preacher - A Caminho do Texas
Autores: Garth Ennis e Steve Dillon
Origem: Recebido para crítica

sábado, 6 de outubro de 2018

Coração Negro (Naomi Novik)

A cada dez anos, o Dragão, o feiticeiro do vale, leva uma rapariga para o servir durante dez anos. E, quando a rapariga volta, o apego que tem à sua terra desapareceu e ela parte rumo a outra vida. Ainda assim, é o preço a pagar pela protecção do feiticeiro e, naquele ano em particular, ninguém está muito preocupado, pois há uma rapariga que é a escolha óbvia. Só que... não é bem assim. Agnieszka não é bonita nem particularmente prendada, mas tem magia dentro de si, e isso torna-a a escolha óbvia para o irascível Dragão. Mas submissa é algo que ela também não é e, por isso, a sua aprendizagem revelar-se-á uma tarefa árdua para o feiticeiro. Principalmente porque tem, ao mesmo tempo, uma batalha terrível a travar contra a corrupção do Bosque que os ameaça a todos.
Sendo certo que o aspecto mais importante de um livro é sempre o conteúdo, este é um daqueles casos em que a primeira impressão é o arauto perfeito do que virá depois. A capa é maravilhosa e cheia de pequenos pormenores que, à primeira vista, captam a atenção e, depois de lida, a história fazem todo o sentido. Basta, pois, a capa para despertar a curiosidade e prometer muito de bom. Promessa que é cumprida em todos os aspectos.
É uma história de ritmo relativamente pausado, graças em grande parte às extensas, mas fascinantes, descrições de cenários, contexto, regras, comportamentos e rituais. E, ainda assim, facilmente se torna viciante. É que há algo de impressionante na forma como a história é construída, narrada pela voz de uma protagonista frágil, mas determinada, que cresce ao mesmo tempo que as batalhas se tornam mais difíceis. Além disso, há tantos momentos marcantes no percurso de Sarkan e Agnieszka que é impossível não querer saber o que acontece a seguir.
Há também uma estranha magia nesta história de... bem, de magia. As emoções parecem estar sempre à flor da pele, embora não haja espaço para grandes sentimentalismos - principalmente da parte de Sarkan. O mistério é igualmente intenso: o que é o Bosque, o que o move, de que forma poderá ser derrotado. E há ainda espaço para intrigas intrincadas, de corte e não só, o que torna tudo tão mais complexo e fascinante que tudo - mas mesmo tudo - acaba por se tornar irresistível.
E há magia também na escrita e na forma como nos leva num embalo tão estranho quanto natural. Agnieszka acaba de dizer adeus à sua antiga vida e, por isso, tudo é novo. Mas o mais importante em toda esta história são, ainda e sempre, as raízes. A forma como a autora explora este equilíbrio entre quebra e ligação é algo de brilhante e a forma como este equilíbrio se estende para lá de Agnieszka envolvendo outras personagens e chegando ao ponto de tocar até o distante Dragão é simplesmente memorável.
No fim, fica aquela tão mágica sensação de ter descoberto finalmente as respostas - e da forma mais satisfatória - mas de querer ficar dentro do livro um pouco mais. É essa, afinal, a verdadeira magia: a de uma história que nos leva para o seu interior, nos faz viver com as personagens e sentir tudo o que elas sentem e, depois, deixa uma pequena semente no fundo do nosso coração. Coração Negro é tudo isto. E é brilhante.

Título: Coração Negro
Autora: Naomi Novik
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Deuses Americanos - Sombras (Neil Gaiman, P. Craig Russell e Scott Hampton)

Shadow sai da prisão para descobrir que a mulher e o melhor amigo morreram no mesmo acidente e que a vida que julgava pode reconstruir está irremediavelmente perdida. Mas eis que uma nova estranha oportunidade surge no seu caminho, na forma do misterioso Sr. Wednesday, que parece saber tudo sobre ele e estar absolutamente empenhado em oferecer-lhe emprego. Só que não é um emprego vulgar e, ao serviço de Wednesday, Shadow terá de aprender a acreditar em tudo, desde a simples estranheza da vida à realidade de uma guerra entre deuses antigos e modernos.
Uma das primeiras coisas que importa dizer sobre este livro é que não importa ter lido ou não o romance original para desfrutar de toda a estranheza e fascínio desta intrigante história. É fácil entrar no mundo de Deuses Americanos, mesmo que, como eu, não tenham dele qualquer conhecimento prévio. E, para quem está a entrar neste mundo pela primeira vez, é, aliás, particularmente fascinante a forma como partilhamos da estranheza do protagonista. Tudo é estranho e tudo é novo. E é isso mesmo que torna tudo tão genial.
É, naturalmente, Shadow a personagem que se destaca, até porque as suas circunstâncias - e o facto de dar por si perdido num mundo completamente novo - despertam uma empatia imediata. Mas há muito mais para descobrir e em comum têm apenas este aspecto: é tudo fascinante. Desde Wednesday e os outros que partilham a sua natureza aos seus maiores inimigos, passando, é claro, pelas figuras aparentemente secundárias que vão deixando a sua marca ao longo do caminho. Além disso, há vários episódios que, apresentando personagens aparentemente isoladas do enredo central, permitem uma visão bastante mais vasta do que seria a presença dos deuses no mundo moderno.
E, claro importa ainda falar do elemento visual. Não conhecendo (ainda) o romance original, é difícil julgar da fidelidade em termos de caracterização. Mas é fácil ouvir a voz de Gaiman no texto e imaginar que essa linha se manterá também nas imagens. Além disso, a fidelidade à história é apenas uma faceta a ter em conta, porque há outras qualidades: a cor, a expressividade, a construção de um mundo onde o sonho, a imaginação e o divino têm um papel tão importante. Os diálogos podem ser a alma do enredo, mas é a arte que dá às personagens a imensa vida que têm. 
O resultado é ma leitura intensa, viciante e tão cheia de surpresas como de emoção. E um mundo diferente a explorar e desvendar, em que deuses antigos e deuses modernos convergem rumo a um conflito em que quase tudo será permitido. Genial, em suma.

Autores: Neil Gaiman, P. Craig Russell e Scott Hampton
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Cães Mais Famosos (Cláudia Cabaço)

São muitos os cães que deixaram a sua marca na história e na memória das pessoas, seja devido a actos de heroísmo ou pelo protagonismo em histórias que sempre tiveram o condão de encantar. Quem não se lembra, afinal, de Lassie ou de Rin Tin Tin? E quem nunca ouviu falar de Bo, o famoso cão de Barack Obama? Estes são apenas alguns dos protagonistas caninos deste pequeno, mas deveras adorável livro que, a cada novo protagonista, nos faz lembrar uma vez mais o porquê de se dizer que o cão é o melhor amigo do homem.
Bonito seria uma boa palavra para começar a descrever este livro. Bonito visualmente, porque bastas as várias imagens e o design apelativo para alimentar a vontade de continuar a folhear e depois a ler. E bonito, acima de tudo, pelo conteúdo, pois há tanta beleza, tanta ternura - e tanta inocência principalmente - nestas histórias que é difícil não chegar ao fim com um sorriso de encanto... e uma ou outra lágrima de emoção.
Outra boa palavra para o descrever será portanto enternecedor. E comovente. É que, se todas estas histórias são de amor e de devoção canina, algumas são também de heroísmo em circunstâncias terríveis. E, assim sendo, é apenas expectável que nem todas terminem com o final desejado. Mas ficam, ainda e sempre, as facetas mais positivas: o heroísmo, a coragem, o espírito de sacrifício, a companhia. O amor, enfim, porque é ele que está na base de tudo.
E há ainda um outro aspecto que cativa. Sendo tantas as histórias neste livro, e tendo ele "apenas" cento e sessenta páginas, é de esperar que as histórias sejam contadas de forma relativamente sucintas. É assim, de facto. Mas, curiosamente, talvez devido à fluidez da escrita, ou talvez devido à própria simplicidade do essencial, nunca fica a sensação de que falte dizer alguma coisa. Está lá a alma da história - e a dos seus protagonistas. O resto, cabe-nos a nós imaginar.
É um livro pequeno, tal como o título indica, mas grande nas emoções que desperta. Pois, nas suas histórias ternas e comoventes, faz-nos lembrar um tipo de amor mas simples, mas mais intenso e incondicional. O cão é realmente o melhor amigo do homem - e nada como este livro adorável para nos lembrar disso. Muito bom.

Autora: Cláudia Cabaço
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 2 de outubro de 2018

A Gathering of Ravens (Scott Oden)

Ele é o último da sua espécie, uma criatura lendária, perversa, mortífera, e está decidido a obter a sua vingança. Chama-se Grimnir e está vivo há séculos. Agora, porém, o mundo está a mudar, com uma nova fé a ameaçar as velhas crenças, e esta pode muito bem ser a sua última oportunidade de se vingar do assassino do seu irmão. Um homem e a sua protegida entraram, incautos, na sua gruta. Quando saírem... será para diferentes destinos e muitas batalhas inesperadas. Pois Grimnir pode ser um assassino, e dos mais perversos... mas tem também o seu próprio código. E está decidido a segui-lo.
Com uma intrincada teia de lendas e de crenças, e um cenário bastante vasto para os acontecimentos, este é um livro que parece arrancar de forma um pouco lenta. Mas lento nem sempre quer dizer aborrecido, e este livro é tudo menos isso. Primeiro, há o mistério e as sombras da situaçã de Étain. Depois o perigo, a perda, a sua estranha forma de cativeiro. E então... Então Grimnir começa a revelar a sua verdadeira complexidade e a intriga em seu redor torna-se mais vasta. Além disso, há dois mundos de fé em colisão, criaturas antigas, e uma estranha e poderosa (e assustadora) magia. O resultado é um mundo fascinante.
Também bastante impressionante é o desenvolvimento de Grimnir e de Étain. Ele é uma criatura sem coração - ou assim parece - mas os seus actos revelam aos poucos um interior bem mais complexo. Ela é frágil, quase indefesa, mas aprende a tomar conta de si, fiel à sua fé, mas com uma mente que começa a abrir-se às novas realidades que se desenrolam diante dos seus olhos. E as circunstâncias de ambos - a sua união forçada e depois natural - tornam os acontecimentos do livro muito mais poderosos devido à superação das diferenças. No fim da história, Étain e Grimnir já não são os mesmos. Mudaram-se um ao outro. E contudo, a sua essência mantém-se a mesma.
Um último aspecto que importa mencionar é, claro, a escrita. Sim, a história evolui a um ritmo pausado. Mas há magia em cada canto, não apenas na história, mas também na forma como é contada. Há escuridão, há sangue (muito sangue), mas há também uma espécie de pureza a florescer no meio de tudo isto. E a forma como o autor espalha estas pequenas sementes de esperança quando tudo parece convergir para o mais negro dos fins... bem, é bastante brilhante.
Levará o seu tempo a desvendar toda a extensão do seu poder - mas é então que se torna fascinante. Pois há vida nos corações de todas as personagens - mesmo quando rodeadas de morte. E é isto que faz desta história uma viagem tão memorável. E tão marcante. 

Autor: Scott Oden
Origem: Recebido para crítica