quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Cor Verde (Jaime Soares)

Verde. Cor de esperança, mas de muito mais do que isso. De amor e tentação, de perda, de desilusão, de maldições que se prolongam e que, sem ganhar forma, assombram. Verde - o discreto fio condutor que une estes dois contos, tão diversos na linha essencial do enredo, mas com tanto, afinal, em comum.
Dos dois contos que compõem este pequeno livro, o primeiro e mais extenso é Vedação. Fala de um fotógrafo e de um trabalho invulgar, em que as teias insinuantes do erotismo se conjugam com a mágoa de um amor que fugiu. Longo e bastante descritivo, tanto nos cenários como no comportamento das personagens, é um conto de ritmo bastante pausado e, envolto em enigmas do início, deixa umas quantas possibilidades sem resposta. Ainda assim, faz todo o sentido que assim seja e é difícil não se entrar no fascínio da qualidade quase onírica que parece envolver todo o cenário.
No segundo conto, Casebre, história de uma ambígua maldição familiar, muda o enredo e o ritmo acelera um pouco, mas mantém-se o mesmo equilíbrio entre um cenário quase que sonhado e uma deambulação onde pensamentos e imagens quase se misturam. As personagens, complexas como parecem ser, não são ainda assim o cerne da história. É-o o mistério, que parece ganhar vida em cada momento peculiar, em cada acaso e coincidência  e no que também aqui é deixado para esclarecer.
A unir as duas histórias está o verde: discreto, manifestando-se apenas em pequenas coisas, mas com uma influência como que de assombração. E é deste pequeno verde que emergem as outras qualidades comuns: o tom ambíguo (e, por isso, intrigante), o cenário que parece estar ao mesmo tempo ali tão perto e num passado muito longínquo e uma escrita que, parecendo deambular ao ritmo dos pensamentos das personagens, sabe, ainda assim, onde pretende chegar. Ficam perguntas sem resposta? Sim. Mas é dessa natureza a vida das personagens: uma vida que é quase inevitável que se tente imaginar depois do fim.
Breve, mas surpreendentemente complexo e com um ambiente feito de sonhos que se entrelaçam com a realidade, trata-se, pois, de uma leitura cativante, feita de personagens imperfeitas na dança (também) imperfeita da vida. Gostei.

Título: A Cor Verde
Autor: Jaime Soares
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Bertrand

Como foi possível alguns dos maiores criminosos nazis terem conseguido escapar da Europa e evitar o julgamento em Nuremberga? Este livro analisa as circunstâncias dessas fugas, debruçando-se especialmente sobre a chamada Rota das Ratazanas (ou Ratlines), nome dado ao esquema internacional que possibilitou a milhares de nazis, acusados de genocídio e de crimes contra a Humanidade, fugirem da Europa — colaboração que ainda hoje envergonha muitas pessoas e instituições, em especial o Vaticano. Entre as ratazanas cuja evasão se estuda contam-se Adolf Eichmann, o arquitecto do Holocausto, Josef Mengele, o Anjo da Morte de Auschwitz, Franz Stangl, a Morte Branca, Erich Priebke, o Carrasco de Roma, Klaus Barbie, o Carniceiro de Lyon, John Ivan Demjanjuk, ou Ivan, o Terrível, Gustav Wagner, o Monstro de Sobibor, Otto Wächter, o Carrasco de Cracóvia, Walter Rauff, o Assassino do Gás, Herberts Cukurs, o Carrasco de Riga, Hermine Braunsteiner, a Égua de Madjdanek, e Erich Rajakowitsch, o Carrasco da Holanda — alguns dos maiores criminosos morais e de guerra do século XX, que deixaram para trás um rasto de sangue e terror.

Eric Frattini foi correspondente no Médio Oriente e residiu em Beirute e Jerusalém. É autor de mais de uma vintena de livros e ensaios, entre os quais se contam Mossad: Os Carrascos do Kidon e Hitler Morreu no Bunker?. A sua obra está traduzida para várias línguas e editada em 47 países. Em 2013, recebeu o II Prémio Nacional de Investigação Jornalística (Itália) pela sua investigação do caso Vatileaks — trabalho que deu origem ao livro, já publicado em Portugal, Os Abutres do Vaticano — e o Prémio Anual Strillaerischia (Itália) pelo seu trabalho como correspondente no Afeganistão. Realizador e guionista de dezenas de documentários de investigação para as principais cadeias espanholas de televisão, colabora assiduamente em diferentes programas de rádio e TV.
Ministra frequentemente cursos e conferências sobre segurança e terrorismo islâmico a várias forças policiais e de segurança em Espanha, na Grã-Bretanha, Portugal, Roménia e Estados Unidos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Night Driver (Marcelle Perks)

Frannie deixou a sua vida e o seu país para viver com o marido na Alemanha, mas agora, no fim da gravidez, começa a ver que Kurt não é quem ela pensou que era e que a sua relação está a desmoronar. Entretanto, Frannie sabe que tem de aprender a conduzir para poder tomar conta do seu bebé, mas as aulas estão a dar-lhe cabo dos nervos e tudo piora quando um péssimo condutor se cruza no seu caminho. Mas ainda pior é que Lars não é apenas um condutor maluco. Tem uma compulsão que o leva a matar. E quando Frannie tenta ajudar um novo amigo a encontrar a irmã desaparecida, o seu caminho cruza-se com o de Lars numa vida muito mais perigosa.
Uma das primeiras coisas que importa referir sobre este livro é que está cheio de surpresas. No princípio, leva-nos a acreditar que a situação no trânsito será o desencadeador de um conflito muito mais negro. Mas depois tudo se expande. Lars não é apenas um assassino em série, mas também um homem influente no mundo das drogas e da prostituição. E o seu sócio, Hans, é ainda pior. É a relação entre ambos, todavia, que dá origem às maiores surpresas da história. Pois Hans tem a sua própria perversidade e, quando as coisas começam a complicar-se, começam também a ficar mais negras.
Também bastante impressionante é o facto de a história arrancar a um ritmo relativamente pausado, embora intrigante, crescendo depois exponencialmente a nível de intensidade. Começa de forma relativamente calma, apesar dos momentos de tensão, e depois as coisas parecem descontrolar-se para todas as personagens centrais. Define-se uma rota, fazem-se planos... e a busca de respostas representa um perigo para todos. Frannie e Dorcas tentam descobrir o que aconteceu a Tomek. Lars... bem, tenta recuperar o controlo da sua vida retorcida. E, à medida que estes dois caminhos convergem, a história torna-se viciante. E no fim tudo é inesperado.
O que me leva a um outro aspecto inesperado: Lars. É um assassino em série e há muito tempo que tem vindo a matar. Mas não é necessariamente o mal maior nesta história, o que é em si também uma surpresa. Além disso, há uma complexidade subjacente ao que o move e isso coloca-o num caminho com apenas duas possibilidades futuras: total condenação ou a redenção possível. Também isto faz parte do que torna o final tão forte. Ninguém era exatamente o que parecia. Mas Lars? Era isso, mas também mais.
Com um cenário tão negro e intrigante como a mente de algumas das personagens, no fim, tudo neste livro se resume a isto: uma história intensa e intrigante, com relações intrincadas e um conjunto de personagens bastante complexo e impressionante. Um muito bom livro, em suma.

Título: Night Driver
Autora: Marcelle Perks
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Grandes Insultos (Manuel S. Fonseca)

Chama-se O Pequeno Livro dos Grandes Insultos - e é um livro que se sintetiza perfeitamente a si mesmo no título. Pequeno, porque é um livro relativamente pequeno. E quanto a Grandes Insultos? Bem, é exactamente isso. Por isso, não se esperem grandes eufemismos e muito menos insultos menores. Este é um livro como poucos no que toca à abundância de palavrões por metro quadrado. E, por isso, nesta sua estranha declaração de amor ao palavrão, é também um livro especialmente rico nesta tão específica área do vocabulário.
Um dos primeiros aspectos que importa referir acerca deste livro - e talvez algo surpreendente tendo em conta o conteúdo - é o talvez inesperado facto de se tratar de um livro... bonito. Bonito, sim, com os seus tons de vermelho na capa e no interior e os elementos visuais bombásticos (talvez não no primeiro sentido que vem ao pensamento) presentes ao longo do livro. E isto tem um efeito curioso: é que, além de despertar a curiosidade para a leitura, quase que desmistifica o factor choque nesta abordagem bastante complexa à arte do palavrão. Afinal, também faz parte da vida, não é? E os tabus... bem, alguns existem para ser quebrados.
Mas passemos ao conteúdo e importa, claro, começar por dizer que talvez não seja um livro recomendado às almas mais sensíveis. É que, se pensarem no palavrão mais forte que conseguirem imaginar e depois o forem procurar nas páginas deste livro, é bem provável que o encontrem. Até porque alguns deles são do tipo que se ouve a toda a hora. Mas há, mais do que os insultos em si - e não é impressionante a criatividade de alguns dos insultos que vêm à cabeça das pessoas? - destacam-se dois aspectos: primeiro, a organização do livro, que lhe confere quase que um estatuto de tratado sobre o vernáculo; e segundo, a boa disposição que faz com que até as mais rebuscadas blasfémias despertem facilmente uma gargalhada. Ou não fosse o inesperado um dos factores que aumentam o impacto de um palavrão bem proferido.
Há algumas repetições ao longo do livro, principalmente de expressões que surgem em múltiplos contextos. Mas, embora isto desperte a sensação de já ter visto aquele insulto antes, faz todo o sentido que esta repetição aconteça: afinal, o contexto também faz parte do impacto e o palavrão é um departamento da linguagem que inclui muitas possibilidades.
Fica, então, esta curiosa impressão: a de um pequeno, mas completo, tratado sobre a surpreendentemente vasta arte de insultar. E, claro, um livro divertido e surpreendente - nos mais inesperados aspectos.

Autor: Manuel S. Fonseca
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Nuvem de Tinta

O que têm em comum a padeira Brites de Almeida, a sufragista Beatriz Ângelo, a actriz Beatriz Costa e a pintora Paula Rego? Além de serem todas mulheres, lutadoras, corajosas, independentes e livres… são Portuguesas com M Grande! 
Todos temos o sonho de mudar o mundo e mudar com ele, de criar futuros e esperança, de ser livres para escolher, transformar, crescer e aprender, de errar e construir um caminho, de viver uma vida em pleno. E hoje todos podemos fazê-lo. Mas para aqui chegar foi necessária a coragem de mulheres sem medo para ir mais longe, como as Portuguesas com M Grande!
Um livro para nunca esquecermos como aqui chegámos e nos lembrarmos de que poderemos ir ainda mais longe.

Lúcia Vicente nasceu em Outubro de 1979, à beira da Ria Formosa, em Faro, numa família cheia de mulheres. Foi a primeira desse núcleo a concluir uma licenciatura. Cedo se questionou sobre o papel da mulher na sociedade e por que razão os livros de História nunca mencionavam mulheres. Em 1995, criou, juntamente com um grupo de amigas e amigos, o colectivo feminista MUPI (Mulheres Unidas Pela Igualdade).

Cátia Vidinhas nasceu em 1989, num lugar onde as montanhas são tão altas que facilmente se consegue chegar ao céu. Enquanto ilustradora, colaborou com autores como Valter Hugo Mãe, Álvaro Magalhães, José Jorge Letria e Adélia Carvalho. É autora das ilustrações de oito livros infantis, entre os quais Figura de Urso (2015), Palavras Bonitas Sobre Contas (2017) ou Infâncias (2017). Os seus livros estão publicados em diversos países, como Espanha, Brasil ou Colômbia. Em 2015, viu o seu trabalho destacado pelo Prémio Nacional de Ilustração com o livro WonderPorto.

Divulgação: Novidade Companhia das Letras

Chegados a Lisboa em junta médica, Cartola e Aquiles descobrem-se pai e filho na desventura, sobrevivendo ao ritmo da doença, do acumular de dívidas e das cartas e telefonemas trocados com a família deixada em Luanda. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo. Será esta amizade capaz de os salvar? «Se o entendimento entre duas almas não muda o mundo, nenhuma ínfima parte do mundo é exactamente a mesma depois de duas almas se entenderem.» Luanda, Lisboa, Paraíso, o segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, é o balanço tocante de três vidas simples, em que esperança e pessimismo, desperdício e redenção, surgem lado a lado numa sequência de tableaux sombrios, doces e trágicos.

Djaimilia Pereira de Almeida é autora de Esse cabelo (Teorema, 2015) e Ajudar a cair (FFMS, 2017). Publicou em Granta, Revista Serrote, Common Knowledge, Quatro cinco um, Words Without Borders, Revista Zum, entre outras. Nascida em Angola, vive nos subúrbios de Lisboa e escreve no Blog da Companhia das Letras.

domingo, 14 de outubro de 2018

Outcast, Vol. 1: As Trevas que o Rodeiam (Robert Kirkman e Paul Azaceta)

A vida de Kyle Barnes sempre esteve rodeada de acontecimentos estranhos, que o levaram a perder todas as pessoas que amava e a fechar-se sobre si mesmo, isolado. Mas um súbito encontro - e um auxílio quase que involuntário - levam-no a suspeitar de que esses estranhos acontecimentos são mais do que uma sombra que o persegue. Há demónios à solta e, embora não saiba porquê, Kyle parece ter uma defesa que mais ninguém. Começa, por isso, a procurar respostas. Mas, quando as encontrar, o seu mundo deixará de ser o mesmo...
Abundante em elementos sobrenaturais e com um conjunto de forças que parecem começar apenas a ganhar forma neste primeiro volume, basta uma palavra para descrever este livro: viciante. Primeiro, cativa a situação algo desolada de Kyle. Depois, a misteriosa presença de forças demoníacas e o tipo de comportamento que parecem exibir. E subitamente tudo se expande. Não é simplesmente a história de um demónio que insiste em perseguir o protagonista: é uma guerra cujos contornos começam apenas a desenhar-se. E, a partir do momento em que isto se torna claro, é impossível não querer saber o que vem a seguir.
É uma história sombria, não só pelos elementos demoníacos, mas principalmente pelo peso da desolação que assenta sobre os ombros de Kyle. E importa por isso realçar a forma como tudo converge para potenciar esta imagem de desolação: desde os tons sombrios que pautam todo o livro, rasgados por traços de cor que surgem precisamente nos momentos certos, às expressões das várias personagens, que contêm toda uma história em si mesmas. O sobrenatural é causa e motivação de tudo - mas são os demónios interiores das consequências que despertam as verdadeiras emoções. E, no fim... No fim, é impossível não sentir um pouco por Kyle, pelo que passou - e pelo longo e árduo caminho que tem nitidamente pela frente.
Quanto a respostas... Bem, estamos no primeiro volume, por isso não é propriamente uma surpresa que fiquem mais perguntas do que respostas. Ainda assim, o final parece especialmente adequado, não só por deixar a história num ponto em que é quase irresistível a vontade de começar imediatamente a ler o próximo volume, mas pela intrigante sensação de que aquele final é também um início: o início da verdadeira guerra.
Não se pode, pois, pedir muito mais a este volume de abertura. Intenso, sombrio, enigmático, abre as portas para um mundo de sombras e de demónios onde o potencial parece ser tão ilimitado quanto o peso da vida do protagonista. E, a cada novo momento, a cada pequena revelação, acende um bocadinho mais a chama da curiosidade para o que se poderá seguir. Curiosidade que cedo se torna irresistível - como este livro, aliás. 

Autores: Robert Kirkman e Paul Azaceta
Origem: Recebido para crítica

sábado, 13 de outubro de 2018

Uma Coisa Absolutamente Incrível (Hank Green)

April May está a caminho de casa depois de um longo dia de trabalho quando eis que, do nada, se depara com uma enorme escultura na rua. De início, April pensa que deve ser uma espécie de obra de arte, uma instalação elaborada, mas, ainda que a sua primeira reacção seja seguir em frente, decide chamar o seu melhor amigo. Juntos fazem um vídeo sobre a estátua a que April deu o nome de Carl. Mas o que devia ser um vídeo interessante ganha uma nova dimensão quando se descobre que o Carl é apenas um de sessenta e quatro espalhados por todo o mundo. E mais: que tem características impossíveis a qualquer material terrestre. April vê-se assim no papel de primeira a estabelecer contacto com uma possível espécie alienígena. E, de repente, ascende à fama mundial... algo que talvez lhe agrade mais do que devia.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção nesta história - além, claro, da ideia de estátuas gigantes a aparecer de repente em todo o lado - é a forma como, embora contando a história pela voz da sua protagonista, o autor nunca cai na tentação de a aperfeiçoar demasiado (nem mesmo aos seus próprios olhos). Desde cedo se torna evidente que, no momento em que conta a história, April May está bem consciente das suas fragilidades e defeitos e isso torna tudo muito mais interessante, não só porque permite emoções mais intensas (seja de empatia ou de irritação), mas principalmente porque se ajusta na perfeição ao papel de April de "representante" da humanidade.
Importa também destacar que esta está muito longe de ser apenas uma história de alienígenas - apesar de ter como ponto fulcral uma manifestação de... bem, alienígenas. É uma história sobre a fama e o seu lado mais sombrio, sobre as discussões e ódios no tempo das redes sociais, sobre o crescimento das personagens num mundo em constante mudança e, sim, também sobre a forma como a humanidade poderia lidar com uma manifestação extraterrestre. Tudo isto mais em actos do que em palavras, e por isso muito mais visível - embora April tenha também um ou outro discurso bastante notável.
Voltemos aos extraterrestres - e ao desenvolvimento das personagens - para realçar outro aspecto. A história dos Carls começa como um enigma e termina como tal. Aliás, tudo no final aponta para a possibilidade de uma sequela. Mas há todo um mundo de desenvolvimento ao longo do caminho: as estátuas, o Sonho, as mensagens em código - tudo aponta para algo muito complexo que apenas começou a manifestar-se. E, do outro lado, do lado da humanidade, há uma outra base de complexidades: os ódios, os medos, as intrigas - e a capacidade de trabalhar em conjunto para resolver um mistério. Tudo num cenário que é, ao mesmo tempo, global (fruto da capacidade mobilizadora de April) e pessoal (influindo nas suas relações familiares, amizades e romances). 
E depois há a conclusão, que é a convergência de todas estas facetas num final explosivo. Ficam perguntas em aberto, claro, e a muito clara sensação de que a história continuará. Mas fica também a ideia de que uma fase se concluiu - para o mundo, para April e para os Carls. O que vier a seguir será diferente. Mas, a julgar pelo impacto deste final, será certamente muito bom.
Com uma voz única, um enredo surpreendente e um belíssimo equilíbrio entre humor e emoção, trata-se, pois, de uma história de fama e de extraterrestres, mas em que nenhum deles é apenas um elemento estático. A história de April, em suma, e da sua notoriedade - num mundo capaz do melhor e do pior.

Autor: Hank Green
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O Amor que Sinto Agora (Leila Ferreira)

O passado disfuncional da mãe fez com que Ana sempre sentisse sobre os ombros o peso da obrigação de a fazer feliz - mesmo que isso significasse manter-se num casamento tranquilo, mas sem amor. Agora, porém, a mãe partiu e a vida que Ana vinha a suportar com esforço desmoronou. Resta-lhe, por isso, pôr em cartas o que sempre disse à mãe, recordar - e fazer as pazes - com o passado e partir depois para um futuro diferente. Nas cartas, contará toda a sua história - abrindo, talvez, assim caminho a uma nova esperança.
Parte do que torna esta leitura tão cativante é a forma como conjuga uma escrita harmoniosa e natural, nas cartas e nas recordações, com um cenário tão cheio de possibilidades como de momentos disfuncionais. A história de Ana e das suas antepassadas está cheia de dor, de mágoa e de crueldade. E, todavia, mais que o choque dessas revelações (que chocam, de facto), marca uma melancolia persistente que parece construir uma ponte entre o peso do passado e uma libertação futura. Assim, sente-se desespero e esperança - os mesmos que movem as personagens e são a alma deste romance.
Também notável é o facto de nenhuma personagem ser perfeita - mas também nenhuma ser irremediavelmente maligna. Até mesmo os tais homens do passado que tanta destruição espalharam parecem ter alguma qualidade redentora. Insuficiente, claro, mas mais do que capaz de justificar indecisões, demoras, escolhas erradas. De dar forma à verdadeira complexidade da situação das personagens. Além disso, a própria Ana está longe de ser uma figura perfeita e as suas decisões são igualmente ambíguas e contraditórias, mesmo quando movidas pelos melhores dos sentimentos. São humanas, em suma. E, por natureza, imperfeitas.
Quanto à história em si, é uma passagem: de um passado de sombra e desolação para a promessa de um futuro melhor. O elemento central é a esperança e, assim sendo, faz sentido que tudo termine assim: num ponto de viragem decisivo, feito de promessas futuras, mas deixando em aberto todas as possibilidades. Fica, é claro, a tal curiosidade insatisfeita - principalmente no que diz respeito a Ana e ao português - mas é apenas natural que assim seja. Porque, afinal, é a própria protagonista que não acredita em "juntos para sempre". Se a vida a persuadiu ou não do contrário... fica à imaginação do leitor. 
No fim, fica a soma de três grandes qualidades: uma escrita belíssima, personagens complexas e uma história feita de emoções intensas. Mais do que o suficiente para moldar um bom romance - e é precisamente isso que este livro é.

Autora: Leila Ferreira
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A Solidão de Sermos Dois (Maria João Carrilho)

Na vida de Liza há um grande mistério, o de não saber quem é o pai. E parece que esse mistério é também comum à sua mãe, que também não conheceu o seu em criança. Mas a família, essa, parece mais vasta - principalmente, porque cada elemento parece ter múltiplas e contraditórias facetas. Enquanto Liza procura respostas na mãe e na avó, os segredos de Laura e Filomena vêm também à superfície. E há amores ceifados cedo demais, relações proibidas - e uma figura que parecia ser um amigo, mas que era afinal tudo menos isso...
Relativamente breve, e abrangendo contudo vidas inteiras, este é um livro que vive tanto daquilo que conta como do que é apenas insinuado. Talvez por isto seja esta a faceta que mais acaba por ficar retida na memória: a de uma história onde muitas perguntas ficam sem resposta, e em que muitas das respostas parecem ser algo vagas, mas que atinge, ainda assim, um cativante equilíbrio entre o que de facto é revelado e o que se julga ficar a saber. 
É também um livro de sentimentos contraditórios, até porque os saltos temporais nos permitem ver as personagens em diferentes fases da sua vida - com novos conhecimentos a determinar novas posições. Se, a espaços, uma personagem parece cativar pelo seu estranho carisma, logo uma faceta mais sombria vem à tona. E quanto à relação entre as mulheres desta história... bem, é complexa. É algo disfuncional, também. Mas, com todas as suas teias e meandros, contém também bastante do possível e isso torna fácil imaginar qualquer destas personagens como uma pessoa real.
Mas é na escrita que está o encanto. Numa história em que as figuras centrais tanto despertam amor como aversão e em que os mistérios e experiências alcançam tudo menos uma resolução absoluta, é a escrita que sustenta o equilíbrio global. Pois as palavras fluem com naturalidade, dão vida às emoções e transbordam da estranha melancolia que parece preencher toda a narrativa. O resto da vida pode ficar sem resposta - mas a alma essencial das personagens está lá. Nas palavras.
Ficam, pois, os tais sentimentos contraditórios. Mas principalmente a sensação de ter entrado numa história capaz de conter, em poucas dezenas de páginas, as complexidades de uma vida inteira. O que fica por dizer torna-se secundário... porque o essencial da vida - e das palavras - está lá, nesta pequena, mas cativante leitura.

Autora: Maria João Carrilho
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 9 de outubro de 2018

The Wicked + The Divine: Fandemónio (Kieron Gillen, Jamie McKelvie, Matt Wilson e Clayton Cowles)

Desde o desaparecimento de Lúcifer que Laura alimenta a pequena esperança de pertencer também ao panteão - o grupo de deuses que reencarna a cada noventa anos para inspirar amores e ódios e, passados dois anos, morrer. Mas o seu sonho é tudo menos cor-de-rosa. O que aconteceu realmente a Lúcifer continua a ser um mistério e os outros deuses... bem, digamos que não são propriamente divinamente bons. Laura quer respostas e isso implica manter a proximidade. Só que há um desígnio insondável em acção e nem todos os deuses parecem ter os mesmos planos para o seu limitado futuro.
Se bastava o primeiro volume para reconhecer o vastíssimo potencial da premissa desta série - deuses enquanto estrelas e tão efémeros como a fama - esse potencial é aqui imensamente expandido. Para lá da fama, do brilho e dos estranhos poderes, surgem as outras facetas de se ser divino: as invejas, a soberba, a irresistível aspiração a mais. E é assim que começam a formar-se os contornos de um plano sombrio, em que cada deus parece ter um papel diferente - e mais ou menos voluntário - a desempenhar.
Um dos aspectos mais poderosos deste livro é que, embora desenvolvendo as relações de adoração entre homens e deuses (ainda que numa faceta... pouco convencional), se há coisa que não existe é uma barreira clara entre o bem e o mal. Cada deus tem as suas características e, principalmente, a sua personalidade própria. E nenhum deles é simplesmente bom ou mau. No seu caminho, deixam fãs extasiados, ressentimentos profundos e atritos mais longos e complexos - principalmente uns com os outros. E as motivações para cada comportamento nunca são fáceis e muito menos claras. Não fica, aliás, muito em aberto para o volume seguinte: fica tudo em aberto. E é isso principalmente (além, é claro, das muitas qualidades do livro) que deixa uma vontade irresistível de ler o próximo volume o mais rapidamente possível.
Mas voltando às qualidades. Falei já da ambiguidade das personagens - que as torna mais complexas e fascinantes. Falta-me falar, naturalmente, da arte, tão cheia de cor e de expressão que é impossível não se ficar com vontade de entrar naquele estranho mundo. E que impressiona principalmente por se ajustar tão perfeitamente ao mundo que este livro apresenta: um mundo de celebridades, logo, de brilho, festas e excessos, mas também um mundo de deuses, e portanto de sacrifício e adoração - com um inevitável lado sombrio.
Corresponde às expectativas? Oh, sim, e supera-as plenamente. Pois, com a sua expansão em termos de diversidade e complexidade, acrescenta novas camadas de emoção e dramatismo, sem perder nenhuma da intensidade e do fascínio do volume anterior. Intenso, belíssimo, cheio de surpresas... mal posso esperar para ver o que vem a seguir. Maravilhoso.

Autores: Kieron Gillen, Jamie McKelvie, Matt Wilson e Clayton Cowles
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Três Coroas Negras (Kendare Blake)

Nasceram rainhas, mas só uma delas será coroada. Cada uma tem um dom muito diferente, como compete às rainhas de Fennbirn. Mas Katharine, Arsinoe e Mirabella são diferentes em muitos outros aspectos e, em comum, têm apenas isto: estão destinadas a matar as irmãs ou a ser mortas por uma delas. E, embora apenas Mirabella pareça ser forte no seu dom, todas têm uma sólida rede de aliados e apoiantes, dedicados apenas à sua causa. A batalha pela coroa está prestes a começar - e, entre aliados, amigos, amores e inimigos, existe apenas uma certeza: nada ficará igual quando tudo tiver terminado.
Dividido entre o percurso das três rainhas, e abrangendo uma intriga inesperadamente complexa, este é um livro que intriga desde as primeiras páginas. Bastam, aliás, os dons das três rainhas e o facto de uma delas ser uma envenenadora para gerar a impressão de que esta não vai ser uma contenda vulgar. E, à medida que a história avança, esta impressão vai sendo cada vez mais reforçada - até ao final tão intenso como inesperado, e que deixa uma imensa vontade de ler o volume seguinte o mais cedo possível.
No cerne, está a intriga, é certo, e as movimentações das diferentes facções. Mas o mais impressionante é que há muito mais nesta história além disso. Desde as intrincadas regras da ilha às sedes e mecanismos dos diferentes dons, passando, é claro, pelas transgressões e inevitáveis consequências, há todo um mundo de coisas a acontecer nesta história. Desde os momentos divertidos aos de profunda tensão, passando, é claro, pelos rasgos de afecto, pelas explosões e emotividade e pelo entretecer de manobras de bastidores, há sempre algo de novo para desvendar. E assim se tece um enredo de surpresas, mas, acima de tudo, de momentos muito marcantes.
E. claro, tudo se torna mais intenso quando as personagens são também elas notáveis. Diferentes em tudo, Katharine, Arsinoe e Mirabella conseguem, ainda assim, gerar a mesma forte empatia, não só devido à delicadeza das suas circunstâncias, mas principalmente pela teia de planos e expectativas que vai sendo moldada à sua volta. Além disso, as personagens que lhes são mais próximas, e os laços que as unem, constroem também uma teia emocional, cheia de momentos marcantes e de revelações poderosas. Revelações essas que, nalguns casos, apenas começaram a surgir - prometendo muito de bom para o que se seguirá.
O resultado é, claro, o melhor dos inícios: um início já cheio de acção, de intriga e de surpresas, com personagens tão complexas e marcantes como o enredo e um cenário cheio de intrigas e de enigmas que promete surpreender ainda mais nos volumes seguintes. A melhor das aberturas, portanto, e um livro que não posso deixar de recomendar.

Autora: Kendare Blake
Origem: Recebido para crítica

domingo, 7 de outubro de 2018

Preacher - A Caminho do Texas (Garth Ennis e Steve Dillon)

Há cinco anos, Jesse Custer voltou-se subitamente para a Igreja. Agora, em plena crise de fé, está prestes a descobrir todo um novo significado para a religião. Possuído por uma poderosa criatura, alegadamente fruto da relação entre um anjo e o demónio, Jesse dá por si com o poder da palavra de Deus - quando ordena, todos têm de lhe obedecer. Já Deus, esse... bem, deixou tudo para trás e desistiu. Ora, Jesse não está disposto a aceitar isso e não descansará enquanto não o encontrar e lhe disser umas quantas verdades na cara...
Não é propriamente fácil descrever este livro sem contar demasiado, já que as várias surpresas ao longo do percurso são parte do que torna tudo tão intenso. Mas uma boa palavra para começar seria fascinante. E em múltiplos aspectos, que vão desde a expressividade e a aura de mistério que envolve o desenho, particularmente no que toca às expressões de algumas personagens, à sequência de revelações inesperadas ao longo do enredo, sem esquecer, claro, todo o contexto em torno de fé e religião, céu e inferno, santos... e pecadores.
É daqui, aliás, que nasce o elemento de choque: é que este não é um livro recomendado a almas religiosamente sensíveis. O Deus de Jesse pode ter deixado o mundo por sua conta, mas continua a haver toda uma abundância de anjos e santos... pouco convencionais. Além disso, não importa que Jesse seja um pregador e o Santo dos Assassinos... bem, um santo. Se há coisa que não há neste livro é paz e inocência. E mais: de toda a violência e morte que, ao longo do caminho, se manifesta, surge ainda a sensação de que tudo isto é apenas o início. E que muito mais virá certamente.
Ora, tendo tudo isto em vista, escusado será dizer que a moralidade das personagens é, na melhor das hipóteses, ambígua. Mas é também daqui que acaba por surgir um dos grandes pontos fortes da história: é que, sendo certo que ninguém é santo neste livro, também o é que há momentos - e dos bons - em que a melhor faceta das personagens vem à tona. Jesse, em particular, é a imagem perfeita de uma personagem completa, capaz de fazer o que tem de ser feito, mas com poderosos laivos de consciência e responsabilidade.
Intenso, viciante e inesperadamente complexo, trata-se, pois, do mais promissor dos inícios. Com as suas personagens fascinantes e a sua fusão de blasfémia e religião, prende desde o primeiro contacto e é impossível largá-lo antes do fim. Que mais se pode pedir, então? Só mesmo o próximo volume - o mais rapidamente possível. 

Título: Preacher - A Caminho do Texas
Autores: Garth Ennis e Steve Dillon
Origem: Recebido para crítica

sábado, 6 de outubro de 2018

Coração Negro (Naomi Novik)

A cada dez anos, o Dragão, o feiticeiro do vale, leva uma rapariga para o servir durante dez anos. E, quando a rapariga volta, o apego que tem à sua terra desapareceu e ela parte rumo a outra vida. Ainda assim, é o preço a pagar pela protecção do feiticeiro e, naquele ano em particular, ninguém está muito preocupado, pois há uma rapariga que é a escolha óbvia. Só que... não é bem assim. Agnieszka não é bonita nem particularmente prendada, mas tem magia dentro de si, e isso torna-a a escolha óbvia para o irascível Dragão. Mas submissa é algo que ela também não é e, por isso, a sua aprendizagem revelar-se-á uma tarefa árdua para o feiticeiro. Principalmente porque tem, ao mesmo tempo, uma batalha terrível a travar contra a corrupção do Bosque que os ameaça a todos.
Sendo certo que o aspecto mais importante de um livro é sempre o conteúdo, este é um daqueles casos em que a primeira impressão é o arauto perfeito do que virá depois. A capa é maravilhosa e cheia de pequenos pormenores que, à primeira vista, captam a atenção e, depois de lida, a história fazem todo o sentido. Basta, pois, a capa para despertar a curiosidade e prometer muito de bom. Promessa que é cumprida em todos os aspectos.
É uma história de ritmo relativamente pausado, graças em grande parte às extensas, mas fascinantes, descrições de cenários, contexto, regras, comportamentos e rituais. E, ainda assim, facilmente se torna viciante. É que há algo de impressionante na forma como a história é construída, narrada pela voz de uma protagonista frágil, mas determinada, que cresce ao mesmo tempo que as batalhas se tornam mais difíceis. Além disso, há tantos momentos marcantes no percurso de Sarkan e Agnieszka que é impossível não querer saber o que acontece a seguir.
Há também uma estranha magia nesta história de... bem, de magia. As emoções parecem estar sempre à flor da pele, embora não haja espaço para grandes sentimentalismos - principalmente da parte de Sarkan. O mistério é igualmente intenso: o que é o Bosque, o que o move, de que forma poderá ser derrotado. E há ainda espaço para intrigas intrincadas, de corte e não só, o que torna tudo tão mais complexo e fascinante que tudo - mas mesmo tudo - acaba por se tornar irresistível.
E há magia também na escrita e na forma como nos leva num embalo tão estranho quanto natural. Agnieszka acaba de dizer adeus à sua antiga vida e, por isso, tudo é novo. Mas o mais importante em toda esta história são, ainda e sempre, as raízes. A forma como a autora explora este equilíbrio entre quebra e ligação é algo de brilhante e a forma como este equilíbrio se estende para lá de Agnieszka envolvendo outras personagens e chegando ao ponto de tocar até o distante Dragão é simplesmente memorável.
No fim, fica aquela tão mágica sensação de ter descoberto finalmente as respostas - e da forma mais satisfatória - mas de querer ficar dentro do livro um pouco mais. É essa, afinal, a verdadeira magia: a de uma história que nos leva para o seu interior, nos faz viver com as personagens e sentir tudo o que elas sentem e, depois, deixa uma pequena semente no fundo do nosso coração. Coração Negro é tudo isto. E é brilhante.

Título: Coração Negro
Autora: Naomi Novik
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Deuses Americanos - Sombras (Neil Gaiman, P. Craig Russell e Scott Hampton)

Shadow sai da prisão para descobrir que a mulher e o melhor amigo morreram no mesmo acidente e que a vida que julgava pode reconstruir está irremediavelmente perdida. Mas eis que uma nova estranha oportunidade surge no seu caminho, na forma do misterioso Sr. Wednesday, que parece saber tudo sobre ele e estar absolutamente empenhado em oferecer-lhe emprego. Só que não é um emprego vulgar e, ao serviço de Wednesday, Shadow terá de aprender a acreditar em tudo, desde a simples estranheza da vida à realidade de uma guerra entre deuses antigos e modernos.
Uma das primeiras coisas que importa dizer sobre este livro é que não importa ter lido ou não o romance original para desfrutar de toda a estranheza e fascínio desta intrigante história. É fácil entrar no mundo de Deuses Americanos, mesmo que, como eu, não tenham dele qualquer conhecimento prévio. E, para quem está a entrar neste mundo pela primeira vez, é, aliás, particularmente fascinante a forma como partilhamos da estranheza do protagonista. Tudo é estranho e tudo é novo. E é isso mesmo que torna tudo tão genial.
É, naturalmente, Shadow a personagem que se destaca, até porque as suas circunstâncias - e o facto de dar por si perdido num mundo completamente novo - despertam uma empatia imediata. Mas há muito mais para descobrir e em comum têm apenas este aspecto: é tudo fascinante. Desde Wednesday e os outros que partilham a sua natureza aos seus maiores inimigos, passando, é claro, pelas figuras aparentemente secundárias que vão deixando a sua marca ao longo do caminho. Além disso, há vários episódios que, apresentando personagens aparentemente isoladas do enredo central, permitem uma visão bastante mais vasta do que seria a presença dos deuses no mundo moderno.
E, claro importa ainda falar do elemento visual. Não conhecendo (ainda) o romance original, é difícil julgar da fidelidade em termos de caracterização. Mas é fácil ouvir a voz de Gaiman no texto e imaginar que essa linha se manterá também nas imagens. Além disso, a fidelidade à história é apenas uma faceta a ter em conta, porque há outras qualidades: a cor, a expressividade, a construção de um mundo onde o sonho, a imaginação e o divino têm um papel tão importante. Os diálogos podem ser a alma do enredo, mas é a arte que dá às personagens a imensa vida que têm. 
O resultado é ma leitura intensa, viciante e tão cheia de surpresas como de emoção. E um mundo diferente a explorar e desvendar, em que deuses antigos e deuses modernos convergem rumo a um conflito em que quase tudo será permitido. Genial, em suma.

Autores: Neil Gaiman, P. Craig Russell e Scott Hampton
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Cães Mais Famosos (Cláudia Cabaço)

São muitos os cães que deixaram a sua marca na história e na memória das pessoas, seja devido a actos de heroísmo ou pelo protagonismo em histórias que sempre tiveram o condão de encantar. Quem não se lembra, afinal, de Lassie ou de Rin Tin Tin? E quem nunca ouviu falar de Bo, o famoso cão de Barack Obama? Estes são apenas alguns dos protagonistas caninos deste pequeno, mas deveras adorável livro que, a cada novo protagonista, nos faz lembrar uma vez mais o porquê de se dizer que o cão é o melhor amigo do homem.
Bonito seria uma boa palavra para começar a descrever este livro. Bonito visualmente, porque bastas as várias imagens e o design apelativo para alimentar a vontade de continuar a folhear e depois a ler. E bonito, acima de tudo, pelo conteúdo, pois há tanta beleza, tanta ternura - e tanta inocência principalmente - nestas histórias que é difícil não chegar ao fim com um sorriso de encanto... e uma ou outra lágrima de emoção.
Outra boa palavra para o descrever será portanto enternecedor. E comovente. É que, se todas estas histórias são de amor e de devoção canina, algumas são também de heroísmo em circunstâncias terríveis. E, assim sendo, é apenas expectável que nem todas terminem com o final desejado. Mas ficam, ainda e sempre, as facetas mais positivas: o heroísmo, a coragem, o espírito de sacrifício, a companhia. O amor, enfim, porque é ele que está na base de tudo.
E há ainda um outro aspecto que cativa. Sendo tantas as histórias neste livro, e tendo ele "apenas" cento e sessenta páginas, é de esperar que as histórias sejam contadas de forma relativamente sucintas. É assim, de facto. Mas, curiosamente, talvez devido à fluidez da escrita, ou talvez devido à própria simplicidade do essencial, nunca fica a sensação de que falte dizer alguma coisa. Está lá a alma da história - e a dos seus protagonistas. O resto, cabe-nos a nós imaginar.
É um livro pequeno, tal como o título indica, mas grande nas emoções que desperta. Pois, nas suas histórias ternas e comoventes, faz-nos lembrar um tipo de amor mas simples, mas mais intenso e incondicional. O cão é realmente o melhor amigo do homem - e nada como este livro adorável para nos lembrar disso. Muito bom.

Autora: Cláudia Cabaço
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 2 de outubro de 2018

A Gathering of Ravens (Scott Oden)

Ele é o último da sua espécie, uma criatura lendária, perversa, mortífera, e está decidido a obter a sua vingança. Chama-se Grimnir e está vivo há séculos. Agora, porém, o mundo está a mudar, com uma nova fé a ameaçar as velhas crenças, e esta pode muito bem ser a sua última oportunidade de se vingar do assassino do seu irmão. Um homem e a sua protegida entraram, incautos, na sua gruta. Quando saírem... será para diferentes destinos e muitas batalhas inesperadas. Pois Grimnir pode ser um assassino, e dos mais perversos... mas tem também o seu próprio código. E está decidido a segui-lo.
Com uma intrincada teia de lendas e de crenças, e um cenário bastante vasto para os acontecimentos, este é um livro que parece arrancar de forma um pouco lenta. Mas lento nem sempre quer dizer aborrecido, e este livro é tudo menos isso. Primeiro, há o mistério e as sombras da situaçã de Étain. Depois o perigo, a perda, a sua estranha forma de cativeiro. E então... Então Grimnir começa a revelar a sua verdadeira complexidade e a intriga em seu redor torna-se mais vasta. Além disso, há dois mundos de fé em colisão, criaturas antigas, e uma estranha e poderosa (e assustadora) magia. O resultado é um mundo fascinante.
Também bastante impressionante é o desenvolvimento de Grimnir e de Étain. Ele é uma criatura sem coração - ou assim parece - mas os seus actos revelam aos poucos um interior bem mais complexo. Ela é frágil, quase indefesa, mas aprende a tomar conta de si, fiel à sua fé, mas com uma mente que começa a abrir-se às novas realidades que se desenrolam diante dos seus olhos. E as circunstâncias de ambos - a sua união forçada e depois natural - tornam os acontecimentos do livro muito mais poderosos devido à superação das diferenças. No fim da história, Étain e Grimnir já não são os mesmos. Mudaram-se um ao outro. E contudo, a sua essência mantém-se a mesma.
Um último aspecto que importa mencionar é, claro, a escrita. Sim, a história evolui a um ritmo pausado. Mas há magia em cada canto, não apenas na história, mas também na forma como é contada. Há escuridão, há sangue (muito sangue), mas há também uma espécie de pureza a florescer no meio de tudo isto. E a forma como o autor espalha estas pequenas sementes de esperança quando tudo parece convergir para o mais negro dos fins... bem, é bastante brilhante.
Levará o seu tempo a desvendar toda a extensão do seu poder - mas é então que se torna fascinante. Pois há vida nos corações de todas as personagens - mesmo quando rodeadas de morte. E é isto que faz desta história uma viagem tão memorável. E tão marcante. 

Autor: Scott Oden
Origem: Recebido para crítica

domingo, 30 de setembro de 2018

O Cobrador (Seth C. Adams)

Ao entrar na floresta pela primeira vez e avistar uma luz misteriosa, Joey está longe de imaginar que a sua infância e inocência acabarão ali. E o primeiro momento marcante, embora de conflito, também não lhe insinua que isso esteja prestes a acontecer. É ali que faz o seu primeiro novo amigo, no início do que se tornará o Clube dos Intrusos. Só que a luz misteriosa acaba por ser um carro abandonado com uma fortuna no interior e um cadáver na mala. E, enquanto Joey e os amigos começam a imaginar as possibilidades que aquele dinheiro lhes poderá proporcionar, outros há, porém, que também o procuram. Outros que não olharão a meios para atingir os seus fins.
Bastam algumas páginas para começar a sentir a ambiguidade que acompanhará o ritmo desta leitura até ao final. Ambiguidade não só nas sensações que desperta, mas principalmente nas decisões e comportamentos das personagens. Afinal, trata-se de um grupo de crianças e, assim sendo, a primeira coisa a surpreender terá de ser, necessariamente, a mistura de intrepidez e de violência que se manifesta no seu caminho. Mas toda a história é de sentimentos contraditórios, com empatia e aversão a ganhar forma em medidas iguais, e por isso surpreende também a mistura de distância para com as motivações das personagens... e a necessidade de saber se tudo acabará bem.
Também o ritmo do enredo parece sofrer oscilações, com um avanço relativamente pausado na primeira fase, ainda que rasgado por vários picos de intensidade, e uma intriga crescente que culmina num final bastante forte. Não é propriamente uma leitura compulsiva, até porque as personagens levam o seu tempo a entranhar-se. Mas tem, ainda assim, muitas boas surpresas ao longo do caminho e um ambiente de mistério que, ao acabar por conduzir num rumo totalmente diferente do que insinua, reforça o impacto dos momentos mais tensos.
Nem tudo encontra resposta e, nalguns aspectos, é inevitável a sensação de curiosidade insatisfeita - principalmente no que diz respeito ao carro e ao Cobrador. Ainda assim, há uma linha de desenvolvimentos que, mais do que os mistérios em si, culmina numa conclusão satisfatória: querendo ou não, Joey e os amigos acabaram por crescer. E, mais do que o que ficou por explicar, fica a imagem desse crescimento - e das marcas que inevitavelmente deixou.
Leva o seu tempo, sim, mas acaba por valer a pena. Pois, com a sua narrativa de ambiguidades, retrata uma história tão composta de segredos e perigos como das (tudo menos) simples barreiras do crescimento. Acaba, pois, por ser uma boa leitura - e um autor a acompanhar.

Título: O Cobrador
Autor: Seth C. Adams
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Convite


sábado, 29 de setembro de 2018

Atlas (Jorge Luis Borges)

Todos os lugares de uma viagem deixam, de alguma forma, a sua marca - ainda que nem sempre sejam fáceis de exprimir. E será, talvez, essa a essência deste pequeno livro, que, mais que um registo de viagens, parece formar mais um atlas de impressões, em que memórias, imagens, evocações e poemas encontram um equilíbrio delicado e cativante. Da brevidade, surge uma imagem completa, ainda que não exaustiva. E, no fim, fica a impressão de ter viajado - no espaço, mas também no tempo - sem se ter saído do sítio.
Provavelmente o aspecto mais cativante deste pequeno livro é a forma como parece possível dizer tanto em tão poucas linhas. É como se cada texto evocasse uma passagem completa, ainda que não haja grandes descrições e grande parte das referências visuais surjam das diferentes fotografias. Talvez porque a viagem não se concentra apenas no espaço físico: divaga por referências a autores, a memórias, a afectos e experiências pessoais. E, assim, a impressão que fica é a de ver aqueles momentos pelo olhar de quem os exprime: como uma memória enquadrada, completa.
Não é - e importa ter isto em mente - o que habitualmente se espera de um livro sobre viagens e talvez seja também por isso que a impressão que provoca é tão surpreendente. É que a viagem é, acima de tudo, ao mundo do autor, mas fica, ainda assim, a sensação de ter viajado. Além disso, a diversidade de imagens, de referências e até de registos faz com que pareça haver neste livro um mundo inteiro - apesar de haver certamente, para cada espaço ou referência, muito mais a contar.
E, claro, esta mistura de precisão e brevidade faz com que as páginas voem. É fácil mergulhar nesta estranha viagem e, embora fique a sensação de haver ainda mais mundo para descobrir (e basta qualquer um dos textos para gerar esta sensação), fica também a ideia de um percurso satisfatório: como que de ver pelos olhos de quem viu e, assim, ver de uma forma única.
É um livro breve, sim, e aparentemente simples. Mas há um equilíbrio tão eficaz e uma experiência tão pessoal por detrás de cada momento que, mais do que perguntas sem resposta ou cenários vistos apenas de forma velada, fica a sensação de uma viagem única. E basta isso para que a leitura valha a pena.

Título: Atlas
Autor: Jorge Luis Borges
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A Memória da Árvore (Tina Vallès)

Quando lhe dizem que os avós vêm viver com ele, Jan quer fica contente, mas algo lhe diz que essa não é a reacção certa. É que algo se passa com a memória do avô e, embora Jan não queira realmente saber, todos os sinais estão lá. Enquanto os pais tentam protegê-lo - a prazo, como necessariamente tem de ser - Jan agarra-se às histórias e aos passeios com o avô. Mas primeiro perder-se-á a memória. Depois... E, mesmo sem querer, Jan começa a ver a difícil verdade.
Inocência e tristeza: todos os aspectos deste livro convergem para realçar estes dois elementos. Inocência, a inocência de Jan que conta a história, que se vê confrontado com uma perda aos poucos, mas talvez por isso ainda mais devastadora, que se agarra aos fragmentos da memória para confrontar a memória que se esvai. E tristeza, a tristeza da perda em si, do tempo que passa, do crescimento inevitável e do que se perde nos meandros da vida. Tudo isto reside no âmago deste livro, contado com toda a simplicidade que compete a um protagonista tão jovem - e, por isso, com o seu máximo impacto.
Sendo essencialmente uma história de tempo, e de tempo que se esgota, talvez não seja uma surpresa a relativa brevidade de cada momento. Mas também esta brevidade, que reduz cada episódio à sua máxima precisão, realça o impacto da história que conta. Das memórias de Jan, como dos sonhos que o atormentam, do que partilha com o avô e com os pais e de um quotidiano simples em que, face ao fim, tudo se torna memorável, emerge um retrato de vida que, sendo breve, abrange tudo. E a forma como, a partir destes fragmentos, a autora constrói um todo tão abrangente não poderia ser outra coisa que não memorável também.
Há também uma estranha harmonia nas palavras, um equilíbrio que nascido da breve simplicidade, faz com que tudo pareça ter a medida certa. É como se a história nascesse realmente das mãos do jovem Jan e, por isso, os seus sentimentos transbordassem. Não há grandes descrições e as instrospecções nunca são muito demoradas, mas a verdade é que está tudo lá e há poesia a surgir até nas mais pequenas coisas. E nas árvores, claro. Principalmente nas árvores. 
Relativamente breve, mas absolutamente completa: assim é, pois, esta história de crescimento e de perda, em que o amor pode não vencer tudo - mas perdura, mesmo quando a memória não o faz. Muito bom. 

Autora: Tina Vallès
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O Barqueiro (Claire McFall)

Dylan nunca conheceu o pai, mas isso está prestes a mudar. Mas, no comboio que a leva rumo a Aberdeen, a passagem de um túnel dá lugar a uma tragédia terrível - e a uma viagem muito diferente da que planeara. Dylan dá por si num lugar estranho, aparentemente a única sobrevivente, excepto por um rapaz de ar triste que parece estar à sua espera. Só que as coisas não são o que parecem. Ela não é uma sobrevivente e Tristan não é apenas um rapaz. É o barqueiro e a sua missão é conduzi-la em segurança à passagem para o outro lado. Porque aquele lugar não é seguro. As fúrias andam à caça de almas humanas e o cenário é cada vez mais desolador, lá fora e no coração dos dois jovens. Pois nenhum deles pertence entre os vivos - mas como podem aceitá-lo, quando o amor começa a florescer?
Provavelmente o aspecto mais cativante desta leitura é a estranha harmonia que parece definir-lhe o ritmo. Basta a premissa - de uma viagem pelo mundo dos mortos - para despertar curiosidade, mas a novidade desta viagem implica também longas descrições e algumas repetições que talvez pareçam quebrar um pouco a magia. Ainda assim, há um estranho equilíbrio na forma como os elementos se conjugam e isto deve-se em grande medida à fluidez com que a autora entrelaça cenários e emoções.
Cada momento, cada revelação, está associado a um impacto emocional, e é isso acima de tudo que marca nesta viagem. A situação delicada de Dylan, além, é claro, da do próprio Tristan, despertam desde muito cedo sentimentos fortes e cada situação por que passam contribui para aumentar esses sentimentos. E, quando as emoções de ambos começam a misturar-se... então o impacto das coisas torna-se ainda maior, até porque, dado o cenário onde tudo acontece, é difícil acreditar num final feliz.
Nem só das emoções vive esta história, ainda que elas sejam a sua verdadeira alma. Há todo um cenário a explorar - um mundo inteiro para além da vida, desolado, mas cheio de complexidades e a fazer lembrar, a espaços, os círculos infernais de Dante. É, aliás, difícil ignorar os paralelismos e não reconhecer o mesmo impacto: afinal, não é por acaso que algumas histórias se tornam intemporais e a ideia de uma vida depois da morte - e de um possível regresso à vida - nunca perde o seu estranho fascínio.
E, claro, a história não termina aqui. Mas, embora fiquem algumas questões em aberto, gerando boas expectativas para o que se poderá seguir, destaca-se também um outro aspecto: este livro é um ciclo completo em si mesmo e põe fim a uma fase específica do caminho das personagens. O que vier será inevitavelmente diferente e, por isso, fica, além da curiosidade, a sensação de uma conclusão satisfatória. 
História de vida e de amor para além da morte, trata-se, pois, de um livro que abre literalmente portas para outro mundo. E que, com os seus cenários complexos mas harmoniosos e as suas personagens marcantes, nos leva a viajar para lá da morte - e a descobrir o que importa na vida. Uma boa história, em suma, e uma bela viagem. 

Título: O Barqueiro
Autora: Claire McFall
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O Mistério dos Três Quartos (Sophie Hannah)

Ao chegar a casa após um almoço deveras agradável, Poirot vê o seu dia piorar irremediavelmente. Uma mulher transtornada acusa-o de lhe ter escrito uma carta onde ele a acusa a ela do homicídio de um homem. Ora, Sylvia Rule não conhece esse homem - nem é a única acusada. Seguem-se outras três cartas igualmente desagradáveis e o resultado... bem, o resultado é o esperado. Poirot vê-se impelido a investigar a subitamente misteriosa morte de Barnabas Pandy e a examinar a história dos quatro acusados. E é aí que as revelações começam a ganhar forma.
Um dos primeiros aspectos a destacar neste livro, principalmente para quem, como eu, ainda não tiver lido mais nenhum destes novos mistérios de Poirot, é a facilidade com que o registo parece ajustar-se aos originais escritos por Agatha Christie. São histórias novas e portanto tudo é novo - mas Poirot é o mesmo e, portanto, o seu método de actuar também o é. A sensação é, por isso, a de um agradável regresso a um local familiar - quer se goste mais ou menos das outras aventuras do famoso detective belga.
Claro que outro dos grandes pontos fortes é... bem, o próprio Poirot. Com a sua excentricidade e as suas eficazes celulazinhas cinzentas, faz de cada caso uma revelação, e este mistério não é excepção. Desde as invulgares comparações com um certo bolo à decisiva revelação final, há nas grandes e nas pequenas coisas todo um conjunto de qualidades que tornam a leitura irresistível. Além disso, o caso propriamente dito é todo ele cheio de surpresas e todas as outras personagens têm também muito de interessante.
E há ainda uma última faceta especialmente notável: é que, sendo embora um caso específico e de natureza relativamente particular (envolvendo essencialmente afectos, amores e vinganças), há, ainda assim, um grande tema subjacente que, embora abordado num estilo discreto que agradaria decerto ao próprio Poirot, não deixa de ter o seu devido destaque. É que há entre as personagens um defensor feroz da pena de morte e um igualmente feroz opositor. E, claro, se comprovado o homicídio, será esse o resultado expectável. A forma como a autora aborda esta divergência de posições e a influência que o caso tem na opinião das personagens acrescenta ao enredo uma nova camada de complexidade - além de reforçar o impacto da conclusão. 
Trata-se, pois, do mais agradável dos reencontros: uma história intrigante e cheia de surpresas, protagonizada por uma figura tão peculiar quanto fascinante e em que as motivações acabam por ser tão importantes quanto o acto em si. Viciante, surpreendente e com um belíssimo final, um livro que não posso deixar de recomendar. 

Autora: Sophie Hannah
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Danos Colaterais (David Baldacci)

Will Robie sabe que o seu trabalho para a Agência exige máxima calma e máxima precisão. Mas um incidente inesperado numa missão compromete a sua tão meticulosamente construída calma e, se quer voltar a desempenhar o seu papel, Will tem de resolver os problemas do seu passado. Até porque não podia haver melhor altura. O pai, a quem há muito virou costas, está preso e a acusação de homicídio parece mais sólida do que seria desejável. Will terá, pois, de voltar ao lugar onde cresceu, enfrentar o passado e, se possível, salvar a vida do pai. Pois todas as provas apontam para Dan Robie - mas a verdade não é assim tão simples.
Uma das grandes forças dos livros deste autor é a facilidade com que nos transporta lá para dentro, levando-nos numa viagem cheia de perigos e revelações, onde cedo se torna impossível resistir à vontade de saber mais. Isto deve-se a vários factores: a escrita, com os seus capítulos curtos e o ritmo de acção constante; o enredo, com todos os seus mistérios, intrigas e surpresas; e principalmente as personagens, com a sua natureza complexa, a inevitável ambiguidade moral e, todavia, uma empatia praticamente imediata.
Claro que Will já é uma figura conhecida, pelo menos para quem leu os outros livros desta série, e estas facetas não são propriamente novas. Mas aqui a história torna-se ainda mais pessoal e, se já antes era uma surpresa o grau de vulnerabilidade e empatia geradas por Will (principalmente tendo em conta a sua escolha de carreira), este confronto com o passado traz à superfície todas as marcas da sua vida e, por isso, é ainda mais irresistível a vontade de mergulhar na sua história - e só vir à tona no fim.
Nem só de Will vive a história, claro. E, sendo este um regresso às origens, a família e as amizades passadas desempenham um papel importante - além, é claro, da linha central do enredo. Afinal, é o pai de Will que está preso. Mas o mais impressionante é a forma como todas estas facetas - vida pessoal e profissional, amizades e reencontros, intrigas e revelações - se conjugam num equilíbrio praticamente perfeito, em que tudo - da tensão à emoção e sem esquecer o humor - tem precisamente as medidas certas.
Tudo somado, fica a melhor das impressões: a de uma história repleta de acção e intensidade, mas com espaço para as vulnerabilidades pessoais de uma personagem que, a cada volume que passa, se torna mais complexa e fascinante. Muito bom. 

Autor: David Baldacci
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Sangue Frio (Robert Bryndza)

A descoberta de um cadáver desmembrado dentro de uma mala deixa Erika Foster preocupada. Já lidou com muitos casos difíceis e basta um primeiro contacto para perceber que este será mais um. Só que aquele corpo é apenas o primeiro e as poucas pistas parecem não levar a lado nenhum. Certezas tem apenas duas: a de que há um assassino cruel à solta e de que precisa de resolver o caso. Mas, quando mais precisava de se concentrar, uma traição vinda de onde menos espera resulta num ataque que a deixa fragilizada. E o caso tem de ficar para segundo plano - pelo menos até poder regressar.
É sempre um prazer regressar à companhia de Erika Foster. É, aliás, uma das grandes qualidades desta série, a forma como, apesar dos diferentes casos e das relações que acabam ou se alteram, surge sempre uma agradável sensação de reencontro ao mergulhar na leitura de um novo volume. É que as coisas vão mudando: Erika rejeitou uma promoção, o relacionamento que começava a desabrochar mudou e até mesmo a segurança de trabalhar com uma equipa de confiança pode ser abalada. Mas Erika continua a mesma: feroz, determinada, com a cabeça no lugar.
Quem já leu os outros volumes da série, saberá, claro, que Erika tem muitas qualidades, mas está longe de ser perfeita - o que só a torna mais interessante. Isto é particularmente evidente neste livro, em que um ataque pessoal e alguns fios vindos da história anterior fazem com que o mundo pessoal de Erika ganhe um maior destaque. Claro que o caso continua a ser o elemento fundamental, e é no trabalho que o melhor de Erika se revela, mas conhecer o seu lado vulnerável torna tudo muito mais intenso e maior a curiosidade acerca do que poderá vir a seguir.
Quanto ao caso em si, é cheio de surpresas - sendo que só isto é que não é uma surpresa. O autor divide-se entre o percurso da investigação e o percurso dos criminosos, o que, por um lado, permite uma visão mais próxima do que está a acontecer de ambos os lados e, por outro, evidencia desde muito cedo que nunca nada será tão simples como parece. E assim, a história vai-se desenrolando, numa sequência de pistas, revelações e mudanças de rumo cuja intensidade vai em crescendo e culmina num final especialmente poderoso. Marcante não só pela resolução do mistério, mas porque não é só Erika quem tem questões pessoais a explorar - e a forma como os dois mundos se conjugam (ou, de certa forma, colidem) torna tudo bastante mais avassalador.
Com a sua protagonista notável e complicada, um caminho difícil e um caso cheio de surpresas e reviravoltas, trata-se, pois, de mais um volume que corresponde inteiramente às expectativas criadas pelos anteriores. Intenso, surpreendente e muito, muito viciante, um livro a não perder. Recomendo.

Título: Sangue Frio
Autor: Robert Bryndza
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Ansiedade dos Nossos Dias (Diogo Telles Correia)

Vivemos num mundo frenético, competitivo e com cada vez menos espaço para o erro. Não surpreende, por isso, que a ansiedade seja um mal que tem vindo a aumentar. Mas o que é isso da ansiedade? Em que consiste? É toda igual? Há outras questões associadas? Como se diagnostica? E, mais importante ainda, como se trata? É a estas perguntas - e a mais algumas delas decorrentes - que este livro pretende dar resposta.
Uma das primeiras coisas que importa realçar acerca deste livro é que não é um livro de auto-ajuda. Não vai sugerir soluções, muito menos desencadear mudanças milagrosas. Não. É um livro que explica, que permite compreender e que, com as suas explicações esclarecedoras e os exemplos dos vários casos relatados, permite compreender melhor o que é a ansiedade e como se manifesta. As soluções, essas, partem sempre da procura de ajuda especializada.
Como todas as doenças, e principalmente as do foro mental, trata-se de um tema complexo e que envolve múltiplos factores. O interessante neste livro é a forma como o autor consegue simplificar, explicando o essencial de uma forma acessível - mesmo a quem não tenha grandes conhecimentos prévios sobre o tema - e realçando o mais importante: a necessidade de compreender o que se passa e de procurar ajuda para combater os problemas. Abordando os diferentes tipos de ansiedade de uma forma organizada, das causas ao diagnóstico e tratamento, e usando depois casos práticos, contados de forma aberta e cativante, para dar exemplos práticos, o autor abre portas a uma mais ampla compreensão deste problema.
É, curiosamente, um livro relativamente breve e é inevitável a sensação - até porque muito haveria a dizer sobre a complexidade dos mecanismos envolvidos - de que muito mais haveria a explorar sobre o tema. Ainda assim, o registo sintético parece, neste caso, ser bastante adequado, realçando os elementos essenciais sem se dispersar em demasiados detalhes, o que permite uma compreensão global do problema e das possíveis soluções.
Relevante, esclarecedor e de leitura agradável, trata-se, portanto, de um bom livro para começar a entender esta doença que, num mundo capaz de pôr a prova os nervos de qualquer um, tem vindo a tornar-se cada vez mais presente. Muito interessante. 

Autor: Diogo Telles Correia
Origem: Recebido para crítica

sábado, 15 de setembro de 2018

As Ondas do Destino (Sarah Lark)

Apesar da sua história delicada, Deirdre Fortnam leva uma vida alegre e protegida na plantação dos pais. O seu crescimento, porém, desperta algumas preocupações sobre o seu futuro. Por isso, quando o jovem médico Victor Dufresne entre na vida de Deirdre, parece ser uma solução caída dos céus. Victor e Deirdre amam-se e o facto de o futuro de ambos ter de ser em Saint-Domingue parece até uma bênção disfarçada. Mas também aí se vivem tempos de mudança e rebeliões começam a ganhar forma. E Deirdre encontrará paixão onde menos espera - uma paixão que não poderá continuar...
Apesar das evidentes ligações (e das personagens comuns) com A Ilha das Mil Fontes, esta é uma história essencialmente independente da anterior. Ainda assim, ganha um novo impacto conhecendo à partida o passado de algumas personagens. Deirdre e Jefe têm elos comuns e esses terão um papel fulcral na evolução dos acontecimentos. Além disso, é também interessante reparar nos paralelismos e nas divergências entre as histórias de Nora e Deirdre: caminhos diferentes, personalidades muito distintas, mas ambas em pleno ponto de viragem do mundo a que pertencem.
Os paralelismos não se ficam por aqui, claro, pois também nesta história o tema da escravatura desempenha um papel dominante. E é interessante a forma como a autora consegue acrescentar algo que diferencia às duas histórias ao mesmo tempo que realça as mesmas - e sempre pertinentes - questões. A vida em Saint-Domingue é diferente da da Jamaica, mas estão presentes o mesmo desprezo, a mesma crueldade... e as mesmas consequências, ainda que assumindo uma forma distinta. Tudo isto está subjacente à história central e reforça-lhe o impacto - pois compreender a vida das personagens e compreender também as condições e o contexto da época.
Mas passando à história. Uma das grandes qualidades dos livros de Sarah Lark é a naturalidade com que tudo parece fluir, ao ponto de nem as descrições mais extensas retirarem intensidade ao ritmo da narrativa. E também aqui há um cenário novo e regras novas, revelados de forma gradual e ao ritmo da percepção das próprias personagens. Há, pois, uma beleza e e uma fluidez naturais que facilmente nos transportam para o interior da história. E depois... Depois os acontecimentos fazem o resto.
O cenário pode ser idílico, mas nada - nem ninguém - é perfeito. E aqui está outra das grandes surpresas deste livro. Deirdre e Victor (e Jefe) estão muito longe de ser Nora e Doug. E, às vezes, não é tão fácil compreender as suas motivações. O impressionante é que, mesmo quando as escolhas são imperfeitas, quando não é difícil adivinhar que aquilo não vai correr bem, a história nunca perde a magia. A imperfeição humaniza as personagens. As consequências, essas, aumentam o impacto emocional. E no fim fica a sensação de uma longa e árdua jornada, feita tanto de sonhos e de esperanças como de queda e da redenção... possível.
Fica, pois, a mesma magia e o mesmo encanto, resultado de um mergulho profundo feito igualmente de beleza, de amor e de brutalidade. Uma história notável, em suma, com personagens marcantes e uma escrita que encanta desde as primeiras linhas. Belíssima. 

Autora: Sarah Lark
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro As Ondas do Destino, clique aqui.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Divulgação: Novidade Asa

Na noite em que a mãe lhes foi arrancada, os gémeos Maisy e Duncan perceberam que só podiam contar um com o outro. Se até então a vida deles não fora fácil, a partir desse momento piora dramaticamente pois o pai decide enviá-los para casa da avó, a ríspida Violet.
Os gémeos sentem-se mais abandonados do que nunca. Mas a negligência da avó tem um lado positivo: Maisy e Duncan passam a desfrutar de uma liberdade inesperada e podem explorar o campo e fazer novas amizades sem terem de se justificar a ninguém. Até ao dia em que Duncan desaparece sem deixar rasto.
À medida que os dias dão lugar a semanas, perante a ineficácia da polícia e a indiferença da avó, Maisy decide descobrir por si própria o que aconteceu à única pessoa que verdadeiramente ama. E vai começar por Grace Deville, a excêntrica amiga do irmão. Grace vive isolada na floresta... e tem segredos por revelar…
O Dia Em Que Te Perdi explora ternamente temas delicados e actuais. Lesley Pearse, uma contadora de histórias nata, fala-nos de perda, de esperança, de força interior, e dos inquebráveis laços de família.

Lesley Pearse é autora de uma vasta obra publicada em todo o mundo e uma das escritoras preferidas do público português. A sua própria vida é uma grande fonte de inspiração para os seus romances. Quer esteja a escrever sobre a dor do primeiro amor, crianças indesejadas e maltratadas, adopção, pobreza ou ambição, ela viveu tudo isto em primeira mão. Lesley é uma lutadora, e a estabilidade e sucesso que atingiu na sua vida deve-os à escrita. Com o apoio da editora Penguin, criou o Women of Courage Award para distinguir mulheres comuns dotadas de uma coragem extraordinária.

Divulgação: Novidade Saída de Emergência

Shadow Moon sai da prisão e descobre que a sua mulher morreu. Derrotado, falido e sem saber para onde ir, conhece o misterioso Sr. Wednesday, que o emprega como guarda-costas, empurrando Shadow para um mundo mortífero onde fantasmas do passado regressam da morte e onde uma guerra entre deuses está iminente. O romance vencedor de prémios Hugo, Bram Stoker, Locus, World Fantasy e Nebula que deu origem ao sucesso televisivo da Starz, com autoria de Neil Gaiman, é adaptado como novela gráfica pela primeira vez!Compilando os primeiros nove números da série de banda desenhada Deuses Americanos, juntamente com arte adicional, esboços de personagens e capas de David Mack, Glenn Fabry, Becky Cloonan, Skottie Young, Fábio Moon, Dave McKean e mais!

NEIL GAIMAN é um autor galardoado de romances, novelas gráficas, contos e filmes para todas as idades. Os seus títulos incluem Mitologia Nórdica, A estranha vida de Nobody Owens, Coraline, O que se vê da última fila, O oceano no fim do caminho, Neverwhere: Na Terra do Nada e a série de novelas gráficas The Sandman, entre outras obras. A sua ficção recebeu os prémios Newbury, Carnegie, Hugo, Nebula, World Fantasy e Will Eisner. A adaptação cinematográfica do seu conto Como falar com raparigas em festas e a segunda temporada da adaptação televisiva aclamada e premiada com Emmy do seu romance Deuses Americanos estreará em 2019. Nascido no Reino Unido, vive actualmente nos Estados Unidos.

Formado em pintura pela Universidade de Cincinnati, P. CRAIG RUSSELL fez de tudo na banda desenhada. Depois de se distinguir ao serviço da Marvel pelo trabalho com Killaraven e Doctor Strange, tornou-se um dos pioneiros no desbravar de novos rumos para esta forma de expressão subestimada com, entre outros esforços, adaptações de óperas de Mozart (A Flauta Mágica), Strauss (Salomé) e Wagner (O Anel dos Nibelungos). Craig é autor dos cinco volumes da adaptação em banda desenhada dos Contos de Fadasde Oscar Wilde e deu vida de forma soberba a personagens tão diversos como Batman, Conan, Hellboy, The Spirit, Morte e Sandman. O seu trabalho mais recente inclui adaptações em banda desenhada de Coraline e The Graveyard Book de Neil Gaiman.

SCOTT HAMPTON nasceu em 1959 em High Point, Carolina do Norte, e cresceu embrenhado em literatura clássica, romances de horror e banda desenhada. O seu irmão mais velho, Bo, foi responsá-vel por alimentar um enorme apetite por banda desenhada em Scott.
Foi natural que, quando Bo se tornou ilustrador de banda desenhada, o irmão mais novo lhe seguisse o exemplo (ambos estagiaram com Will Eisner em 1976!) Scott tornou-se um dos mais respeitados artistas e contadores de histórias no meio da banda desenhada. O seu trabalho em Silverheels (Pacific Comics, 1983) é considerado o primeiro título de banda desenhada pintado com continuidade. Além de ilustrar as suas histórias, Scott ilustrou livros de alguns dos melhores autores de fantasia, incluindo Neil Gaiman (Books of Magic, Robert E. Howard (Pigeons from Hell), Clive Barker (Tapping the Vein), Archie Goodwin (Batman: Night Cries) e David Brin (The Life Eaters).