domingo, 16 de dezembro de 2018

Pocketful of Dreams (Jean Fullerton)

1939. Vem aí a guerra e, para os Brogan, como para muitas outras famílias, há medos e possíveis perdas a assombrar-lhes os pensamentos. Mas são uma família corajosa e a vida tem de continuar mesmo perante o medo. Por isso, cada um escolhe a sua forma de lidar com a situação. Mattie Brogan, a filha mais velha, decide ajudar no esforço de guerra e é assim que conhece um jovem intrigante. Mas o seu coração está noutro lado: pois chegou um novo padre à sua paróquia, um padre com uma aura de mistério que parece fasciná-la e atraí-la. E, embora tal romance pareça impossível, a verdade alterará tudo. Pois o Padre Daniel McCree não é exactamente quem diz ser. E os sentimentos de Mattie por ele são correspondidos.
Provavelmente o aspecto mais impressionante neste livro é o facto de se tratar essencialmente de um romance, mas nunca apenas uma história de amor. Sim, grande parte da história gira em torno de Mattie e Daniel, mas há muito mais para além disso. Há a guerra e as dificuldades que traz à vida das pessoas. Os movimentos secretos das diferentes facções, desde as que tentam defender o país aos que, em segredo, simpatizam com o inimigo. E há também um retrato muito preciso das mentalidades da época, com os ataques a judeus levados a cabo pelos simpatizantes nazis a contrastar com os ataques aos residentes italianos motivados pela guerra.
É, portanto, uma história bastante complexa, com muitos ângulos a considerar. E é, todavia, também um romance, e um romance bastante intenso. Há algo belo a acontecer entre os protagonistas e esta beleza é intensificada pela escuridão do mundo à sua volta. Daniel está numa situação muito delicada e Mattie tem os seus próprios problemas, mas o crescimento natural dos seus sentimentos e todos os momentos intensos, comoventes e perigosos que isto gera tornam esta história muito cativante.
E depois há as outras personagens: também os outros Brogan parecem ter as suas próprias histórias, algumas reveladas neste mesmo livro, outras deixando a muito agradável sensação de que haverá muito mais a descobrir sobre esta família. A Cathy parece ter calhado uma situação particularmente difícil e difícil de superar. E estas histórias, fundindo-se com a de Mattie, contribuem para dar forma a um todo mais complexo: não há finais perfeitamente felizes em temos de guerra. Alguns podem nem sequer ter o seu final feliz, o que dá mais força a cada momento de alegria - por mais fugaz que possa ser.
Situada em tempos sombrios, mas repleto de emoção, trata-se, pois, de uma história de amor em tempos de guerra. Uma história maravilhosamente escrita, com personagens notáveis e um enredo que, completo em si mesmo, tem todo o potencial necessário para ser o início de uma saga brilhante. Belo, emotivo e cheio de surpresas, um livro memorável.

Autora: Jean Fullerton
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O Presidente Desapareceu (Bill Clinton e James Patterson)

Uma ameaça sem precedentes paira sobre a Casa Branca. A qualquer momento, um vírus informático pode erradicar toda a tecnologia dos Estados Unidos, causando caos e destruição a uma escala nunca antes vista. E resta muito pouco tempo para o travar. A melhor hipótese é seguir os passos de dois dissidentes que parecem determinados a correr o risco de ajudar o presidente. Mas, para isso, Jonathan Duncan terá de seguir as instruções, mantendo todo o seu pessoal às cegas numa tentativa de prevenir o ataque - ou então de minimizar os estragos. Até porque uma coisa é certa: há um traidor no seu círculo interno. E descobri-lo pode ser secundário face à necessidade de travar o vírus, mas é, ainda assim, necessário.
Há uma característica que é, à partida, expectável neste livro, a partir do momento em que tem o nome de James Patterson na capa: será, certamente, uma aventura viciante. E esta expectativa é altamente cumprida, não só devido à intensidade do enredo, que é todo ele uma corrida contra o tempo, cheia de acção e de reviravoltas, mas também à construção das próprias personagens, que, movendo-se num mundo implacável, fazem sobressair, acima de tudo, as qualidades que as sustentam em tempos de crise.
Parte do que torna tudo tão intenso é o protagonista. Jonathan Duncan, enquanto presidente de uma super-potência, tem de tomar decisões difíceis e escusado será dizer que a política e a estratégia desempenham um papel fulcral neste livro. Mas é também uma personagem profundamente humana e inesperadamente complexa: a perda da esposa, a doença, o passado apenas ligeiramente aflorado, mas mais do que suficiente para despertar empatia e a forma como equilibra as necessárias manobras políticas com uma vontade profunda de fazer algo de bom acrescentam à figura do presidente uma nova camada de complexidade que o torna muito mais interessante. E, claro, há o seu lado vulnerável: não é apenas o presidente que dita ordens ao ritmo da crise. É um homem que se preocupa, angustia e sofre com o que está a viver e com o que tem de fazer.
E, claro, isto é essencial para potenciar o impacto de tudo o resto, pois grande parte da história gira em torno de relações de confiança e traição. O vírus, com todos os passos necessários para o combater, pode ser o elemento central nesta corrida cheia de acção e de perigo, mas é ao acrescentar os outros elementos que a história se torna memorável. Bach, com o passado que a levou às circunstâncias actuais. Carolyn, braço direito de Duncan. Kathy, alvo de todas as suspeitas. Augie, criador do vírus e potencial salvador. Todas estas personagens são mais do que inicialmente pareciam e é também isso que torna o enredo tão fascinante. E o fim... o fim é de uma intensidade irresistível, cheio de surpresas e profundamente satisfatório.
Intenso, viciante, cheio de personagens marcantes e com um enredo sempre surpreendente, trata-se, pois, de um livro que, apesar de extenso, se devora quase de uma assentada. Surpreendente na história, mas também na construção das personagens, uma belíssima aventura que é muito mais do que apenas um thriller político. Recomendo.

Autores: Bill Clinton e James Patterson
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Alves e Cª (Eça de Queirós)

Godofredo Alves tem uma vida pacata. Dá-se bem com o sócio, a sua vida doméstica é tranquila, ama a sua Lulu e nada lhe falta na vida. Mas essa tranquilidade desfaz-se no dia em que, ao voltar a casa, encontra Lulu nos braços do seu sócio. A cólera é insuportável. O primeiro que lhe ocorre fazer é pôr a esposa na rua. Depois exigir a Machado o preço daquela traição - de preferência em sangue. Só que, passada a fúria inicial, começam a vir à tona os obstáculos logísticos. E os amigos que escolheu como testemunhas começam a fazê-lo ver a razão e tudo o que perderá se persistir na ideia do duelo.
Um dos aspectos mais surpreendentes deste livro é que, embora relativamente breve, (principalmente se o compararmos com, por exemplo, Os Maias) contém a mesma exacta precisão na descrição dos hábitos e pensamentos das personagens. O cerne da história é um acontecimento dramático, mas, em volta dele, giram questões bastante mais práticas: se a mulher é posta fora, é, ainda assim, preciso pagar-lhe uma mesada; se vai haver duelo, então tudo tem de ser acertado; e, se houver reconciliação, então tanto as relações pessoais como as profissionais têm de ser acauteladas. É uma história de traição, e isso implica dramatismo, mas é também uma história em que as minúcias da vida quotidiana assumem o seu respectivo peso. Do equilíbrio destas duas facetas resulta uma história muito surpreendente.
Também interessante é a forma como este contraste entre dramático e pragmático é transposto para a mente do próprio protagonista. Se inicialmente o marido traído surge como a figura compreensivelmente exaltada e furiosa, o certo é que não é só na mente dos amigos que as questões pragmáticas começam a surgir. O próprio Godofredo, que primeiro anseia pela morte, depois pela vingança, começa a ver todas as possibilidades de uma forma mais lúcida - pesando não só a justa retribuição, mas também o que poderá perder com ela. Surpreende, pois, este contraste, mas acaba também por fazer sentido - pois a vida da personagem não se resume a Ludovina e o mundo continua a girar. 
E há, claro, uma análise de mentalidades a retirar desta história: fruto do seu tempo, Godofredo pensa em primeiro lugar em lavar a honra, de preferência com morte. Mas, à medida que o bom senso se manifesta, as coisas vão mudando, gradual, mas naturalmente. É também esta a beleza da escrita de Eça de Queirós: há toda uma mudança de pensamento escondida nas linhas do enredo. E também ela não deixa de surpreender. 
Lê-se de uma assentada e surpreende a cada instante. E, com a sua mistura de grandes gestos dramáticos e superação pragmática das circunstâncias, traça também um retrato de um pensamento em mudança - em Godofredo e também no mundo que o rodeia. Vale, pois, a pena descobrir esta história. Vale muito a pena.

Título: Alves e Cª
Autor: Eça de Queirós
Origem: Aquisição pessoal

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Uma Magia Mais Escura (V. E. Schwab)

Partilham um nome, mas é mesmo a única coisa que as quatro Londres têm em comum: uma transborda de magia, outra quase não a tem, a terceira fez da magia um poder que a esvai gradualmente e a última deixou que a magia a destruísse. Têm o mesmo nome, mas estão totalmente separadas - excepto para os poucos que, como Kell, conseguem viajar entre mundos. O seu dom particular fez dele embaixador da realeza da Londres Vermelha, mas não basta isso, nem a capacidade de ver todos os mundos, para satisfazer os anseios de Kell. Como passatempo, leva objectos entre os mundos e vende-os a quem puder pagar o seu preço. Mas o que devia ser um hábito inofensivo, embora altamente ilegal, torna-se extremamente perigoso quando Kell dá por si na posse de um talismã da Londres Negra. A partir daí, tudo se complica... e Kell precisará de toda a ajuda possível para se livrar daquele objecto sem se perder pelo caminho.
Com o seu mundo fascinante, personagens carismáticas e enredo cheio de surpresas e de momentos marcantes, este é um livro cheio de qualidades e um daqueles que prendem desde a primeira página para, uma vez terminada a leitura, ficarem como que gravados a fogo - ou a magia - na memória.
Tudo começa com Kell e a sua personalidade fortíssima, capaz dos mais audazes dos gestos (um pouco à semelhança do seu príncipe), mas também consumido por angústias interiores. Kell, com o seu delicioso carisma a despertar uma curiosidade imediata e depois, com o evoluir dos acontecimentos, uma empatia tão profunda que é quase como partilhar das suas dificuldades. Depois vêm os outros: o exuberante Rhy, a fascinante Lila Bard, os maquiavélicos monarcas da Londres Branca e até mesmo o esquivo Holland. Todos têm os seus traços especiais. Todos cativam à sua maneira, despertando sentimentos fortes, sejam de proximidade ou de aversão. E, no contexto que os une, todos contribuem de forma notável para tornar esta aventura tão marcante.
Há também o mundo em si, cheio de particularidades e com um equilíbrio interessantíssimo. Às diferenças entre as várias Londres, com a sua ligação à magia, mas também à forma como os seus habitantes vêem o poder, juntam-se os mecanismos da própria magia, as diferentes formas como pode ser controlada - ou utilizada para controlar - e a vida subjacente ao que aparenta ser apenas uma ferramenta. E tudo isto vai sendo descrito de forma gradual, surgindo à medida que é necessário ao enredo, o que torna tudo mais natural e também mais surpreendente.
E há, claro, o enredo em si e a belíssima voz que a autora confere à sua história. Sempre intensa e cativante, a escrita realça na perfeição o impacto de todos os momentos, sejam eles uma batalha, um pequeno roubo, um rasgo de emoção ou uma divertida e acutilante troca de palavras. Tudo tem o tom certo, o que é especialmente impressionante se tivermos em conta a complexidade das circunstâncias das personagens. E, no fim, tudo faz sentido, pois também a forma como tudo termina é natural.
Dificilmente se poderia pedir um início de série mais promissor. Intenso, viciante, cheio de surpresas, prende desde os primeiros momentos. E, com as suas personagens marcantes, o seu mundo em tudo fascinante e o seu enredo memorável, deixa as melhores das expectativas para o que virá a seguir. É desta matéria que se fazem as grandes histórias - e este livro é, sem dúvida, uma delas. 

Autora: V. E. Schwab
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Feitiço da Lua Azul (Joanne Harris)

Ela é uma criatura sem nome e é isso que lhe permite viajar na pele de todas as criaturas vivas. Selvagem e sem alma, é livre, como todos os que pertencem à gente viajante. Mas tudo muda quando o seu caminho se cruza com William, um jovem e belo nobre que lhe conquista o coração. Por ele, ela aceita sacrificar a sua liberdade e aceitar o nome que ele lhe deu, para que possam ficar juntos para sempre. Mas, por mais verdadeiro que seja o coração dela, o amor de William não o é. E, perdidas todas as esperanças, só há agora uma forma de ela recuperar a sua liberdade: vingança.
Com os seus capítulos curtos e uma aura de mistério que nasce logo nas primeiras páginas e se prolonga até ao fim, este é um livro que facilmente se torna viciante. Primeiro, pelo enigma da protagonista, cuja natureza peculiar desperta, desde logo, a vontade de saber mais. Depois, pelo crescendo de intensidade e de fúria que pauta a evolução do enredo, passando de um amor inocente à mais meticulosa das vinganças, sem nunca perder de vista a magia quase fantasmagórica que move as personagens. E finalmente a revelação de que, tal como tudo é mais complicado do que parece, também tudo parece ter um qualquer sentido - ainda que não seja o que inicialmente esperávamos.
Ao contar a história pela voz da protagonista, o livro acompanha essencialmente a sua perspectiva: o que se passa do lado de William, primeiro nos afectos e depois nas perseguições, é visto sempre pelo olhar parcial da narradora. Mas, embora isto imponha algumas limitações, não deixa de ser interessante notar que, dividida entre o amor e a vingança, a protagonista consegue ver as ambiguidades da situação. Sim, os seus movimentos são claros e há algo que sabe que tem de fazer - mas o amor permite-lhe ver o outro lado, ainda que não baste isso para a fazer recuar.
A própria escrita reflecte esta ambiguidade, pois realça na perfeição os sentimentos contraditórios que habitam a alma da protagonista. E mais: a forma como descreve a sua natureza, as transformações, o instinto selvagem que nunca se desvanece, realça o que ela e o seu povo têm de diferente, mas também o coração comum entre as coisas bravias e as coisas amansadas. Nada é linear, nem mesmo nos momentos mais previsíveis. E é também isso - associado, naturalmente, as belíssimas ilustrações - que torna a leitura tão cativante. 
No fim, fica a intrigante sensação de um equilíbrio de opostos: uma história sombria, mas que se percorre com estranha leveza, protagonizada por uma personagem capaz de despertar a máxima empatia, mas capaz também da máxima crueldade. História de amor e de magia, de inocência e de vingança, eis pois um livro que surpreende em todas as suas facetas. E que, viciante desde o início, fica na memória bem depois do fim.

Autora: Joanne Harris
Origem: Recebido para crítica

domingo, 9 de dezembro de 2018

Um Rapaz Chamado Natal (Matt Haig)

O pequeno Nicolau não tem uma vida fácil, mas tem o amor do pai e isso basta-lhe. Até ao dia em que as coisas começam a correr mal. Tudo começa com a chegada de um caçador que convida o pai de Nicolau a embarcar numa expedição em busca da terra dos elfos. Ora, isto significa que Nicolau acaba por ter de ficar com a sua tia, que é tudo menos simpática e afável. Com o passar dos meses e a falta de notícias do pai, Nicolau acaba por decidir ir à procura dele. Mas o caminho é árduo e não basta descobrir os elfos. Pois o que aconteceu à expedição traz algumas verdades difíceis. E só a fé de Nicolau no impossível poderá mudar um pouco as coisas.
Pensado para os mais novos, mas perfeito para leitores de todas as idades, este é um livro que tem muitas qualidades. E a primeira é a mistura de inocência com lucidez, pois Nicolau, sendo uma criança, ainda vê o mundo com a inocência da infância e a sua história é feita de aparentes impossíveis, mas há também verdades duras e dificuldades. A história de Nicolau pode ser mágica, mas não se faz de soluções fáceis. E é talvez por isso mesmo que acaba por ser tão marcante. 
Outra grande qualidade é a magia em si, claro. Magia na história, magia nas capacidades das personagens, magia como força motriz do mundo dos elfos... e magia na escrita. Matt Haig escreve maravilhosamente, e isto aplica-se tanto aos seus romances mais adultos como a estes livros pensados para os mais novos. Há frases simplesmente deliciosas ao longo desta história e tudo parece fluir com total naturalidade. Mesmo quando o que nos é contado é improvável! Além disso, as ilustrações complementam na perfeição a magia do texto, dando caras e corpos às personagens e também um toque peculiar a um cenário já de si incomum.
E depois há as personagens, naturalmente. Nicolau, com a sua infância difícil, a sua crença vincada na bondade e o seu longo percurso rumo à descoberta de quem é, é uma personagem que cativa desde o primeiro contacto e nunca deixa de surpreender com a sua sabedoria inocente. E depois há os que o rodeiam: os sempre peculiares elfos, as renas, a Duende da Verdade... todas estas personagens acrescentam magia à história, além de alguns rasgos bastante brilhantes de humor. E, no fim, todas têm o seu papel na transmissão de uma mensagem positiva e clara: a de que, na vida, nem tudo corre bem... mas também há muito de bom à espreita.
Magia e inocência nas medidas certas: são estes os ingredientes centrais desta história ternurenta, cativante e, a espaços, muito comovente. Uma história para iluminar o Natal de leitores de todas as idades. Recomendo.

Autor: Matt Haig
Origem: Aquisição pessoal

sábado, 8 de dezembro de 2018

História de Portugal: Perguntas e Respostas (Luís Mendonça)

Desde a alegada descendência dos lusitanos aos motivos para a adesão à moeda única, passando por invasões, revoluções, guerras e tratados, sem esquecer, claro, os hábitos e mentalidades dos diferentes períodos históricos: de tudo isto é feito este livro que, através de um conjunto de perguntas que englobam toda a história de Portugal, desmistifica algumas ideias, ao mesmo tempo que apresenta uma explicação sucinta, mas bastante clara, de vários pontos essenciais. São setenta perguntas ao todo. E, nas respostas, há muito para descobrir.
Um dos aspectos mais interessantes deste livro é a forma como consegue abranger uma história tão vasta e, embora não a analisando de forma exaustiva, não deixar de fora nenhum elemento essencial. É verdade que há grandes acontecimentos aos quais não é dedicada uma pergunta específica. Mas estão tão presentes no contexto de algumas das outras perguntas que a informação relevante acaba por estar lá de qualquer forma, sendo assimilada também da mesma forma.
Setenta perguntas, muitos séculos de história e menos de trezentas páginas implicam, naturalmente, que não será uma abordagem detalhada a todas estas questões. Também não parece ser esse o objectivo: para isso, há livros mais concentrados num único destes temas, o que lhes permite uma abordagem mais completa. Ainda assim, é interessante notar que, apesar da brevidade, a sensação que fica é a de ter lido um texto bastante completo, não só por toda a informação essencial estar presente, mas também, talvez, pelo registo algo grave que parece definir a escrita.
É, pois, um livro mais denso do que o habitual neste género de livros dedicados a explorar sucintamente múltiplos episódios históricos. E, sendo por isso uma leitura mais pausada, não perde, ainda assim, nenhuma da sua capacidade de cativar. Até porque o conhecimento transmitido é muito e, apesar da relativa brevidade das respostas, há muita informação interessante para descobrir ao longo desta leitura.
Tudo se conjuga, então, numa impressão bastante positiva: a de um livro que demora o seu tempo, mas que apresenta muita informação relevante sobre a história de Portugal - não só no que respeita aos grandes acontecimentos, mas também aos hábitos e mentalidades. Interessante e cativante, uma boa leitura, em suma.

Autor: Luís Mendonça
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Miss Marley (Vanessa Lafaye)

Clara e Jacob Marley são dois órfãos a viver na rua e todas as noites Jacob promete a Clara que as coisas vão melhorar. Mas, quando isso acontece, é devido a um homem que morreu na rua e esse facto assombrar-lhes-á o caminho até ao fim. Pois Jacob tem apenas um objectivo: garantir que não voltarão a ser pobres. E, à medida que as suas vidas evoluem a partir dessa primeira bolsa dourada, o coração de Jacob começa a mudar. Enquanto Clara se move por compaixão e piedade, Jacob pensa apenas nas suas ambições. E, quando os negócios e os assuntos pessoais começam a misturar-se, revela-se a verdadeira frieza do coração de Jacob.
Jacob Marley é uma personagem célebre. Quem não o reconhece de Um Cântico de Natal? Mas, visto pelos olhos de Clara, este livro mostra um Jacob muito diferente e o caminho que fez dele o fantasma que todos conhecemos. Pois Jake, o pequeno órgão, é muito diferente do homem que surge no fim e a história desta mudança é muito impressionante.
É também uma história muito comovente. Clara, vulnerável desde criança, cresce para se tornar uma mulher com o coração no sítio certo. Há, por isso, um óbvio contraste e um equilíbrio muito delicado entre as acções e pensamentos de Jacob e os de Clara. É Clara a personagem que realmente marca neste livro, com a triste história de tudo o que passou e a sua natureza fiel, compassiva e afectuosa a guiá-la mesmo até ao fim. E é também uma pequena luz entre as trevas do irmão. Um farol de bondade no meio da crueldade dos negócios.
Há em toda esta história uma beleza algo melancólica, algo comovente que a torna memorável. E também a escrita faz parte do que a torna assim. Tudo parece fluir com naturalidade, desde os diálogos mais intensos às descrições dos diferentes cenários. E aquela visão final... bem, é digna do próprio Dickens.
Tudo se resume, pois, a isto: uma história bela, intensa e capaz de partir corações, apresentando uma nova perspectiva para uma muito célebre personagem e introduzindo novos elementos - e também novas profundidades - a um conto já bastante impressionante. Clara e Jacob Marley - na sua perfeita oposição - são ambos personalidades memoráveis. E o mesmo se aplica a esta sua bela história. 

Título: Miss Marley
Autora: Vanessa Lafaye
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O Homem que Matou o Diabo (Aquilino Ribeiro)

Uma visita fortuita fez com que o caminho de Máxima, célebre actriz, se cruzasse com o de Macário, que imediatamente fica enfeitiçado por ela. E agora, incapaz de a esquecer, apesar do seu lugar seguro e do conformismo que sempre o manteve ali, eis que, sem conseguir resistir à tentação, Macário parte numa peregrinação invulgar. É que Máxima incumbiu-o de esculpir o seu busto. E isso - bem como o amor inebriante que o consome - basta para levar Macário a atravessar Espanha e parte de França a pé, passando por inúmeras provações, em nome de um amor que não consegue esquecer. Só que o amor não basta - muito menos para alguém como Máxima. E o que Macário julgava ser o fim da sua via sacra poderá ser apenas o início...
Denso, pautado por vastas reflexões, descrições tão extensas como a paisagem que retratam e uma linguagem também muito elaborado, este é um livro que exigirá o seu tempo, mas que não deixará de trazer as suas recompensas. Leva o seu tempo, porque ao ritmo pausado associa-se uma visão surpreendentemente ampla de certos temas de fé e moralidade - principalmente tendo em conta a quase improvável inocência inicial do protagonista. Mas vale a pena, pois, além da peregrinação física de Macário, com todas as suas aventuras e desventuras, há também como que uma peregrinação interior, da inocência de uma fé cega à percepção de um mundo muito mais complexo e cruel.
Há toda uma multiplicidade de facetas em torno da figura de Macário, personagem central de toda esta aventura. Enquanto homem apaixonado, deixa-se levar pelo seu demónio interior até ao mais amargo dos cálices. Enquanto inocente, vê-se perante um mundo cujas forças nunca conseguirá realmente vencer. E se, ao longo do seu caminho, há todo um conjunto de momentos notáveis - das situações mais caricatas às mais inesperadamente comoventes - é o final que realmente marca. O Macário do final deste livro está muito longe de ser o do início e, mais do que as longas palavras dedicadas ao seu mentor, são os derradeiros gestos que o provam. Do homem que tinha medo dos ruídos do convento abandonado nada resta. E as escolhas, essas... bem, nada faria prever que fossem de tal molde.
Mas, voltando ainda à questão da densidade da escrita, pois faz também um certo sentido que assim seja. A história de Macário é um aprofundar das percepções do mundo, uma descoberta de que a vida é muito mais complexa e mais dura do que o que sempre lhe foi ensinado. É certo que este alongar de explicações e pensamentos torna a leitura mais pausada. Mas também o é que realça a transformação operada em Macário: da inocência de uma criança grande à indiferença de um homem duro como a vida.
Repito-me, pois, em jeito de conclusão, dizendo que é, de facto, um livro que leva o seu tempo, mas que vale muito a pena. Pois, com o seu protagonista invulgar e o atribulado percurso de crescimento para ele construído, consegue reflectir na perfeição algumas das facetas mais duras do mundo e dos homens. E é também essa familiaridade que torna a leitura notável. 

Autor: Aquilino Ribeiro
Origem: Recebido para crítica

domingo, 2 de dezembro de 2018

Almanaque de Natal

Vem aí o Natal. Luzes nas ruas, cânticos natalícios, árvores enfeitadas, presépios, doces... enfim. Um sem fim de pequenas coisas para nos lembrar o espírito festivo. E é de tradições, de histórias, de convívios e... mais uma vez, de doces... que é feita esta quadra. Por isso, o que este almanaque pretende é reunir todos estes aspectos da época numa viagem pelas particularidades do Natal: desde as origens aos hábitos, sem esquecer, claro, o inevitável Pai Natal.
Quer se seja um apaixonado por esta época de luzes, quer um daqueles que acham o Natal uma simples época de consumismo e hipocrisia (e, por isso, se irritam com tudo quanto é natalício), provavelmente há neste livro algo fácil de compreender. Quanto mais não seja a secção intitulada "Eu Odeio o Natal". Mas, gostando ou não, há muito sobre esta época que importa lembrar e descobrir, desde as tradições mais famosas às mais surpreendentes (e um tanto ou quanto aterradoras) criaturas. Este livro é, por isso, ideal para entrar no espírito natalício, mesmo para aqueles para quem esse espírito não é coisa muito abundante.
Mas não é só o teor do livro que é natalício. O próprio aspecto visual grita Natal em cada página, com as ilustrações a reforçar o ambiente festivo que caracteriza todo este Almanaque. É um livro bonito, o que faz dele também - naturalmente - um bom presente de Natal. E é, acima de tudo, um daqueles livros que nos fazem voltar a tempos inocentes: ou não teremos todos um dia ficado todos na esperança de que o Pai Natal descesse pela chaminé e nos trouxesse algo de bom?
Voltando ainda um bocadinho atrás. Há um pouco de tudo neste livro, desde as tradições dos diferentes países aos hábitos culinários, passando pela história, os cânticos, as decorações, várias sugestões (livrescas, naturalmente) de presentes de Natal e até algumas anedotas da época. E há também, no fim, um espaço para um Natal mais literário, com dois contos surpreendentemente angustiantes e comoventes e dois poemas de também surpreendentemente leveza, para nos lembrar que Natal pode ser luz e festa, mas, para alguns, está muito longe de ser perfeito. 
Bonito, cativante, capaz de arrancar sorrisos com a sua escrita leve e o seu retrato animado destes tempos de luz - e também lágrimas com algumas das páginas finais. Assim é este Almanaque de Natal: completo, envolvente e cheio da magia que caracteriza esta época do ano. Muito bom, em suma. 

Origem: Recebido para crítica

sábado, 1 de dezembro de 2018

Plano Natalício de Leituras


Estamos na época das luzes, dos embrulhos, do frio e da música natalícia em toda a parte. Vem aí o Natal. E que melhor forma de entrar no espírito do que... livros natalícios? 
Este ano, decidi tentar algo um pouco diferente. Sem grande organização - até porque os outros livros continuam a chamar por mim - , decidi escolher esta pequena pilha de livros natalícios para intercalar com as (muitas) outras leituras em curso. Por isso, se tudo correr de acordo com este meu plano natalício, estes são alguns dos livros que me vão fazer companhia durante este mês.

E vocês, o que vão ler este Natal?

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

São Lágrimas, Senhor, São Lágrimas (Fernando Correia)

Basta ligar a televisão ou abrir um jornal para nos cruzarmos com estas histórias recorrentes: casos de violência doméstica que acabam em morte, mesmo quando previamente sinalizados, situações em que o medo continuado fez com que tudo se descobrisse demasiado tarde e também as batalhas jurídicas que se seguem à denúncia. Mas quebrar o silêncio é o primeiro passo e é essa a mensagem que, através das histórias reais reunidas neste livro, o autor pretende transmitir. O resultado é um livro perturbador - mas muito, muito relevante.
Sendo um livro relativamente breve, e que contém várias histórias, um dos aspectos mais marcantes prende-se com a capacidade de, em poucas páginas, conter uma vida inteira sem nunca parecer que há algo por dizer ou outro lado da história. Os factos são os factos - puros e duros - e é a estes, bem como ao impacto emocional que têm, que o autor se cinge, o que faz com que a mensagem sobressaia com mais intensidade. 
Há, aliás, um contraste curioso na forma como este livro está estruturado. A introdução que o autor faz a cada história, com o seu registo como que pensativo, quase poético, contrasta fortemente com a brutalidade dos casos. E, se isto cria uma espécie de efeito de choque - como se de dois mundos diferentes se tratasse - também realça o verdadeiro âmago da questão. A violência existe e, às vezes, vem de onde - e como - menos se espera. Conhecer os casos, conhecer as histórias, é por isso fundamental.
Às histórias, une-as o demónio da violência doméstica. O resto é diferente: diferentes meios, diferentes classes sociais, gente de poucos estudos e com cursos superiores, fortes e vulneráveis, mas todos susceptíveis. O que reforça também outra faceta da mensagem: a violência existe e não apenas nos meios instruídos. Às vezes, está onde menos se imagina e não é mais nem menos importante por afectar alguém com uma posição mais (ou menos) privilegiada.
Trata-se, em suma, de um livro relevante e de uma importante chamada de atenção, e basta isso para justificar a leitura. Mas é também um livro marcante, não só pela mensagem que transmite, mas, acima de tudo, pela forma precisa e clara como retrata os diferentes casos - e as angústias a eles associadas. Vale a pena, pois, ler este livro. E pensar... principalmente pensar.

Autor: Fernando Correia
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Então, Boa Noite (Mário Zambujal)

Afonso Júlio é um homem peculiar. Devido a uma alegada plasticidade dos neurónios, passa as noites acordado e, de dia, dorme profundamente. Ora, isso traz inconvenientes, não só profissionais, mas ao nível dos relacionamentos amorosos. E, como se não bastasse esta circunstância invulgar, Afonso Júlio vê-se agora a braços com uns quantos assuntos a resolver. O padrinho deixou-lhe uma carta que, com três anos de atraso, acaba de lhe chegar às mãos e que o incumbe de cobrar uma dívida e de casar com uma desconhecida sobrinha. E a mulher dos seus sonhos desapareceu, cabendo-lhe agora a tarefa de a encontrar. Tudo nos seus horários bizarros em que a noite começa ao amanhecer.
Com o seu protagonista invulgar e uma história cheia de peripécias, tanto no que respeita à difícil "missão" de Afonso Júlio como às histórias do seu passado, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo delicioso sentido de humor. É difícil resistir às aventuras de Afonso, com a sua atribulada vida nocturna (ou diurna?) e os seus complicados amores. Além disso, há algo de fascinante em acompanhar o percurso de um herói com traços que são tudo menos heróicos. Seja no ocasional episódio de conflito, seja nos grandes gestos de sedução, Afonso Júlio está longe de ser o herói másculo e cheio de coragem. E talvez seja por ser tudo menos isso que é tão fácil torcer para que o caminho lhe corra bem.
Também particularmente cativante é a leveza da escrita, com o seu ajuste perfeito às peculiaridades da história. Afonso Júlio pode ter uma série de sarilhos para resolver, mas são sarilhos que, associados à sua muito invulgar personalidade, proporcionam momentos divertidíssimos. E, assim, a leveza da forma como o enredo é narrado ajusta-se perfeitamente ao estranho e delicioso humor das circunstâncias e a brevidade e simplicidade das soluções só as torna mais surpreendentes. 
E, claro, há sempre a relação entre o protagonista e as mulheres, algo que parece ser característico dos "bons malandros" do autor. É como que um elo comum entre diferentes histórias que, embora únicas e distintas, parecem reforçar o laço sempre presente de uma malandrice bastante inofensiva.
Somadas as partes, fica naturalmente a melhor das impressões: a de uma história leve, divertida e cheia de surpresas. Invulgar, como o seu noctívago protagonista, e muito, muito cativante, um livro para devorar de uma assentada. E que recomendo, naturalmente. 

Autor: Mário Zambujal
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Emporium

Prepare-se para uma história envolvente, uma mistura de romance de época e de aventuras em ambiente palaciano onde personagens fortes e tramas surpreendentes prendem o leitor a cada momento. Leónia Lencastre, inteligente e corajosa neta bastarda do rei, e Alexandre Toledo destemido Cavaleiro da Ordem e defensor do Reino, são protagonistas de um intrincado enredo onde ódios, lutas e traições polarizam toda a acção. Conseguirá o amor vencer as duras batalhas que têm que enfrentar?

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Os Dados Estão Lançados (Jean-Paul Sartre)

Pierre, chefe de um grupo de conspiradores contra o regime prestes a entrar em acção, vê a sua obra interrompida por uma inesperada traição. No mesmo dia, Ève, uma senhora da sociedade, é envenenada pelo marido ambicioso. E, do outro lado da morte, descobrem não só estas revelações difíceis, mas também uma inesperada esperança. Foram, na verdade, feitos um para o outro e estipulam as regras que, não se tendo encontrado em vida, deverão ter uma nova oportunidade - vinte e quatro horas - para se amarem, se quiserem retomar a sua vida humana. Só que os dados estão lançados e o que parecia uma paixão fácil na morte revela-se bastante mais complexa em vida. Principalmente porque ambos têm assuntos inacabados a resolver.
Quando ouvimos falar em Jean-Paul Sartre, nome maior do existencialismo, imaginamos a contemplação das grandes questões da vida e da morte, do sentido ou da falta dele. E talvez por isso imaginemos também uma obra mais densa, mais elaborada. Era esse, pelo menos, o meu caso. Surpreende, por isso, logo às primeiras páginas a envolvência e a fluidez deste pequeno livro onde todos os acontecimentos se cingem ao essencial e os sentidos - simbólicos, emocionais, pessoais ou universais - surgem da acção, mais do que propriamente da introspecção. Surpreendentemente viciante seria, pois, uma boa forma de começar a descrever esta história.
Surpreende também o contraste vincado entre a leveza e a intensidade de um enredo onde há sempre algo de notável a acontecer com a presença evidente dos grandes temas que estão, de facto, lá. Basta a premissa, aliás: a morte, do outro lado da vida, enquanto lugar de observação impotente, de conformismo e indiferença, de vago divertimento com as tribulações dos vivos. O amor, intenso quando tudo o que existe é o par, mas muito mais complicado quando outros valores se levantam. A luta por uma causa, o espírito de sacrifício - e, por outro lado, o egoísmo, a ambição, a traição. Tudo numa história relativamente breve, e tudo mais em actos do que em reflexões. E, por isso mesmo, tudo tão marcante.
E, claro, isto leva ao lado emocional, também ele surpreendentemente forte. Bastam as circunstâncias de Eve para despertar empatia e as de Pierre para gerar uma certa admiração. E, à medida que a história evolui, primeiro para a descoberta da morte, depois para as possibilidades do amor e da correcção dos males, também as emoções se tornam mais intensas. É absurdamente fácil sentir com os protagonistas: a confusão, o afecto, a ternura, a ira... a resignação. Pois basta o título para nos dizer que haverá nesta história inevitáveis - mas nem essa certeza faz com que deixemos de torcer para que as coisas possam ser diferentes.
Nem sempre é precisa uma grande complexidade para dar forma a um grande livro  - até porque a complexidade emerge, às vezes, das coisas mais simples. É esse o caso deste Os Dados Estão Lançados: história intensa, envolvente, viciante e cheia de grandes questões nas pequenas coisas. Um livro notável, em suma. 

Autor: Jean-Paul Sartre
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Todo ou o Seu Nada (Amadeu Lopes Sabino)

Náufrago, professor, jornalista, escritor. Autor de obras marcantes e criador de outras que pouco passaram do título. Célebre no seu tempo pela autoria de Fogo no Mar, João Falcato levaria uma vida de mudanças constantes, de maior ou menor mediania e deixaria sobretudo as suas marcas naqueles que o conheceram mais de perto. Como o narrador desta exacta história.
Espécie de romance biográfico, que mistura factos, ideias e ficções, este é um livro que desperta sentimentos ambíguos. Enquanto romance, gera uma inevitável sensação de distância, não só pelas longas exposições de ideias e contextos políticos, mas pela às vezes parca empatia que desperta para com o seu protagonista. Enquanto biografia, é precisamente o pormenor do contexto que torna a leitura interessante. 
Talvez a maior qualidade do livro esteja na escrita e na forma como, quando menos se espera, faz surgir de uma longa divagação uma frase memorável ou um momento de especial impacto que conferem a tudo uma nova perspectiva. Nem sempre é fácil admirar a personagem, com as suas relações conflituosas (principalmente no que ao casamento diz respeito) e a estranha mistura de ambição e desinteresse que parece moldar todos os seus planos. Além disso, as longas deambulações pelas questões políticas e sociais - embora relevantes, principalmente no que toca à forma como reflectem a mentalidade da época - reforçam a sensação de distância face a uma figura que, já de si, não desperta grandes proximidades. Ainda assim, há momentos notáveis, sendo o final o mais interessante de todos eles.
Olhando, por outro lado, para o aspecto biográfico, há ainda uma outra característica que se destaca: é que não é só a vida de João Falcato que é contada nas páginas deste romance. É todo o contexto do tempo e de outras figuras sonantes da sua época. Há, pois, muito de interessante a descobrir - no contexto político, nas formas de pensamento, no contraste entre aspirações de mudança e pensamentos ainda colados ao passado - e uma visão bastante clara da época abrangida por este livro. 
Talvez não seja o mais envolvente dos romances, até porque a sua figura central não é - nem parece que pretendesse sê-lo - um herói. É, ainda assim, uma leitura interessante, não só pelo vasto conhecimento contido, mas também pelos momentos notáveis que fazem com que tudo valha a pena. Interessante e com as suas surpresas, leva o seu tempo... mas vale a pena ler. 

Autor: Amadeu Lopes Sabino
Origem: Recebido para crítica

domingo, 25 de novembro de 2018

Teresa de Calcutá (Maria Isabel Sánchez Vegara e Natascha Rosenberg)

Desde pequena que Agnes sonhava ajudar os outros e, inspirada pelo exemplo de um padre missionário, viria a deixar a sua terra natal e a construir uma imensa missão de auxílio aos mais necessitados. Ficaria conhecida como Madre Teresa de Calcutá e viria a ser canonizada. Esta é a sua história contada aos mais novos.
Parecem ser características desta colecção a escrita simples com rima, as ilustrações bonitas e cheias de cor e a simplicidade que enfatiza o essencial. São também estas as características que mais se destacam neste livro em específico, onde, contada em poucas páginas, é possível ficar com uma ideia clara da história de Teresa de Calcutá e, ao mesmo tempo, com uma mensagem muito positiva de amor e ajuda.
É, naturalmente, um livro pensado para os mais pequenos, bastante breve e relativamente simples. Mas é também um daqueles livros que conseguem evocar nos leitores mais velhos a agradável sensação de um regresso à infância. Lembram-se? De quanto bastavam umas poucas páginas para nos fazer sonhar e viajar e aprender também? Pois este é um livro pequeno, mas desperta essa mesma sensação, não só pelo percurso da sua protagonista, mas pela forma colorida e cativante como este é contado.
Cinge-se ao essencial, claro, como é natural num livro infantil. Mas tem também este condão: o de despertar a curiosidade sobre a vida da sua protagonista. Lendo este pequeno livro, aprende-se a linha essencial da história. Mais tarde, haverá espaço e livros - há sempre livros - para descobrir o pormenor.
A colecção chama-se Meninas Pequenas, Grandes Sonhos. E é também disso que trata este livro: da história de uma menina que concebeu - e realizou - um grande sonho, deixando assim a sua marca no mundo. Uma história bonita, cativante e muito interessante.  

Autores: Maria Isabel Sánchez Vegara e Natascha Rosenberg
Origem: Recebido para crítica

sábado, 24 de novembro de 2018

Os Templários (Dan Jones)

Nasceram como uma ordem de pobres cavaleiros destinada a proteger os peregrinos durante as suas viagens à Terra Santa, mas protagonizariam uma ascensão imensa e uma queda ainda mais estrondosa. Grandes guerreiros, homens influentes, dotados de disciplina e organização incomparáveis, inspirariam admiração e ódio. E, cada vez mais embrenhados nas malhas do poder, cairiam às mãos de uma outra ambição. Esta é a história dos Templários - peregrinos, combatentes, banqueiros e hereges - das origens ao seu amargo fim.
Bastante extenso e muito completo, uma das primeiras coisas que importa destacar acerca deste livro é a organização. Abrangendo grandes conflitos e tendo como protagonista uma organização espalhada por vastos territórios, é apenas natural que percorra diferentes períodos e diferentes locais - referindo, por vezes, acontecimentos simultâneos em diferentes territórios. A organização cronológica permite, por isso, uma visão mais clara do todo, acompanhando os diferentes ramos e facetas da Ordem e também o crescimento - e desmoronamento - das suas amplas relações.
Uma vez que abrange um vasto período de tempo, uma ordem numerosa e as vastas movimentações das cruzadas, é apenas de esperar uma abundância de nomes e datas. Também aqui sobressai a estrutura do livro, que, com a sua organização clara e escrita acessível, permite assimilar facilmente todos os pormenores e proporciona uma leitura envolvente e agradável, quase como se de um romance se tratasse. Além disso, a história em si tem muito de cativante, desde os relatos das grandes batalhas ao inevitavelmente sombrio processo que conduziria à extinção da Ordem. 
Trata-se de um retrato estritamente histórico, o que significa que tenta não tomar partidos (embora, na fase final, seja difícil não se ficar com uma opinião... pouco abonatória... acerca de Filipe, o Belo) e que se cinge essencialmente aos factos. Assim, o que acontece é que os aspectos míticos frequentemente associados aos Templários - a guarda do Santo Graal, a adoração de Baphomet, entre outros - são remetidos apenas para um epílogo que analisa o legado templário no imaginário das pessoas. O resto é história pura e dura - e mais do que suficiente para fascinar.
Completo, cativante e esclarecedor, eis, pois, uma belíssima forma de conhecer a fundo a complexa e fascinante história dos Templários, com todas as movimentações militares, políticas e também religiosas (ou não fosse o apogeu da Ordem no tempo das grandes cruzadas). Muito interessante, em suma. E muito bom.

Título: Os Templários
Autor: Dan Jones
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Os Templários, clique aqui.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O Príncipe Piloto (Henrique Sequerra)

Segundo filho de D. Luís, Afonso de Bragança nunca esteve destinado a reinar e, por isso, construiu uma vida diferente. Embora menos eficiente nos estudos e mais concentrado nos conhecimentos práticos, deixaria, à sua maneira, uma marca no seu tempo, tanto antes como depois da entrada do automóvel em Portugal. Piloto exímio, muito faria para popularizar esse novo engenho. E, entre tempos conturbados e uma iminente mudança de regime, manter-se-ia discreto, mas leal aos seus, até ao exílio e à derradeira ruptura.
Dividido entre a história de D. Afonso e a história mais ampla do desenvolvimento automóvel em Portugal, este é um livro que gera duas impressões distintas. Se em ambas as facetas a escrita é clara e agradável, já o conhecimento transmitido gera impactos diferentes quanto aos dois temas. No que toca à história dos Bragança, é apenas natural que se reconheçam alguns aspectos - quanto mais não seja das aulas de História - e o clima de tensão e mudança em que a vida do príncipe decorre confere à leitura a mesma fluidez de um romance. Já no que toca ao automóvel, surge uma maior quantidade de elementos específicos, nomeadamente no que respeita ao conhecimento dos modelos, o que pode ser um pouco confuso para quem, como eu, perceber pouco da matéria.
Não deixa, ainda assim, de ser um livro muito interessante em ambos os aspectos. Não sendo demasiado extenso, é bastante completo, quer na abordagem aos primeiros anos da indústria automóvel, quer na história dos últimos dias dos Bragança enquanto reis (e um pouco além). Além disso, o vasto conjunto de fotografias e ilustrações que acompanha o texto permite uma visualização mais clara não só das personagens, mas de certos aspectos específicos (como, por exemplo, a publicidade) do mundo automóvel desse período.
Claro que, ao centrar a história em Afonso, ficam muitas questões em aberto no que toca aos outros membros da família real. Ainda assim, é contado o suficiente para se ficar com uma boa ideia das relações - e tensões - entre os diferentes elementos, bem como do contexto global da época. O resto... bem, o resto justificaria mais um - ou vários - livros. Aqui fica o essencial, e isso basta.
Fica, pois, a impressão de um livro claro, acessível e de muito agradável leitura sobre os últimos dias da monarquia e os primeiros do automóvel em Portugal. Relativamente breve, mas bastante complexo, um livro muito interessante.

Autor: Henrique Sequerra
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A Sereia de Brighton (Dorothy Koomson)

Quando, após uma saída sem autorização, Nell e a sua amiga Jude encontraram um cadáver na praia e, depois de denunciarem o caso à polícia, passaram por uma experiência traumática, estavam longe de imaginar o que se seguiria: o desaparecimento de Jude e uma perseguição à família de Nell por parte de um polícia particularmente preconceituoso. Agora, vinte e cinco anos passados, o fantasma da Sereia de Brighton continua a pairar sobre a vida de Nell e todas as suas acções. Por isso, ela está decidida a descobrir finalmente o que aconteceu. Só que as respostas são complexas, principalmente quando se trabalha sozinha - ou com aliados indesejáveis. E, quando Nell começa a aproximar-se da verdade, novos perigos começam também a surgir... vindos de onde menos espera.
Alternando entre períodos diferentes e acompanhando, essencialmente, duas perspectivas também muito distintas, este é um livro que, apesar de relativamente extenso, facilmente cativa. Primeiro, pela aura de mistério que nasce logo desde os primeiros capítulos. E depois, e principalmente, pelas muitas emoções fortes que a história desperta.
É fácil simpatizar com Nell desde o início, com a descoberta do cadáver e todos os subsequentes traumas da sua vida a fazerem sobressair um caminho árduo e difícil. E o mesmo se aplica a Macy, embora com reacções totalmente distintas. Este é, aliás, um bom ponto de partida para destacar uma das principais qualidades desta história: a construção de um enredo em que nenhuma das personagens é perfeita e todas (ou quase) são passíveis de suspeita, mas em que muitas delas têm grandes qualidades redentoras e uma bondade intrínseca que se torna mais impressionante por nascer também de imperfeições. 
Claro que há também vilões: afinal, há cadáveres abandonados que precisam de explicação. Mas também daqui surge algo de impressionante: por um lado, os responsáveis dos crimes são totalmente inesperados, sendo que aquilo que parecia ser a natureza dessas personagens é afinal uma ilusão. Por outro, o sempre presente John Pope, com os seus preconceitos e comportamento abusivo, está do que deveria ser o lado certo - mas nem isso o redime face aos seus comportamentos. 
Importa ainda destacar um outro aspecto. Tendo na base uma série de crimes, é apenas natural que grande parte do enredo gire em torno do mistério. Mas a verdade é que há muito mais à volta disso: questões de racismo e de preconceito, grandes segredos capazes de condicionar uma vida, problemas de ansiedade também eles capazes de abalar tudo e ainda a sempre complicada - e profundamente afectuosa - relação entre irmãs. Tudo entrelaçado de forma equilibrada, cativante e cheia de emoção.
Tudo somado, fica a melhor das impressões: a de uma história envolvente e equilibrada, com um grande mistério por base e um enredo que é muito mais do que a mera resolução de um caso. Intenso, emotivo e cheio de surpresas, uma história de fantasmas que perduram - e de amor fraternal para lá das dificuldades. Muito bom. 

Autora: Dorothy Koomson
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Frida Khalo (Maria Isabel Sánchez Vegara e Gee Fan Eng)

Será possível contar a história de uma vida em poucas frases e umas quantas - ainda que expressivas - imagens? Depende. Se o objectivo for percorrer exaustivamente todos os factos, então provavelmente não. Mas se o que se pretende é contar as linhas gerais e dar a conhecer - principalmente os mais novos, mas não só - uma figura importante, então não só é possível fazê-lo, mas também dar-lhe o encanto de um quase conto de fadas. É o que acontece neste livro que, de forma muito breve, mas muito cativante, apresenta Frida Kahlo aos seus jovens - e não tão jovens - leitores.
Um dos aspectos mais bonitos deste livro é que, com as suas frases sucintas, mas com ritmo e rima quase melodiosos, e as ilustrações cheias de cor, é tão capaz de encantar os jovens leitores que nunca antes ouviram falar em Frida como aqueles de nós que, embora há muito passada a infância, descobrimos nas coisas simples a magia de tempos mais inocentes. Ler este pequeno livro é quase como um regresso à infância, ao tempo em que bastavam algumas frases para aprender algo de novo. E é isso que se pretende, afinal. Aprender - e aprender de forma cativante.
Também muito interessante é notar que, apesar da evidente brevidade, não parece faltar lá nada. Pode estar resumido em poucas linhas, mas o percurso de Frida Kahlo está todo neste livro - seja no breve texto, seja nas belas imagens que o complementam. E há além disso uma concentração no sonho - e na ideia de que todos os sonhos são possíveis - que transmite inevitavelmente uma mensagem muito positiva.
Bonito, interessante e com uma mensagem forte: é esta, pois, a impressão que fica deste livro pensado para dar a conhecer aos mais novos a história de uma Menina Pequena com Grandes Sonhos. Uma breve e muito agradável leitura para os mais pequenos... e não só. 

Título: Frida Kahlo
Autores: Maria Isabel Sánchez Vegara e Gee Fan Eng
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Little (Edward Carey)

Tendo perdido os pais muito nova, a pequena Anne Marie Grosholtz dá por si a agarrar-se ao peculiar Doutor Curtius e às suas criações de cera como modo de vida. Mas, quando Curtius se dedica a fazer cabeças de cera, a sua situação torna-se demasiado delicada e vê-se forçado a fugir com Marie para Paris. Aí, conhecem a ambiciosa Viúva Picot e a vida de Marie muda para sempre. Em tempos aprendiz de Curtius, é agora apenas uma criada numa casa estranha. Mas tem, ainda assim, os seus sonhos e os seus talentos, e o mundo à sua volta está a mudar tão depressa que Marie terá, por fim, de encontrar o seu lugar no mundo. Como manter esse lugar, contudo, quando o mundo parece estar a desabar sob o peso da Revolução - e a morte espreita a cada esquina?
Contado do ponto de vista de Marie e acompanhando grande parte da sua vida, um dos aspectos mais impressionantes deste livro é a forma como consegue retratar um período inteiro pelos olhos de uma única perspectiva pessoal. Durante grande parte do seu tempo em Paris, Marie é pouco mais que uma criada, mas as suas percepções da iminente Revolução transmitem com absoluta clareza as tensões e medos da época. Além disso, a história de Marie começa antes e acaba depois desse período, pelo que é possível ver o contraste entre diferentes momentos e a forma como a sua vida (e as daqueles que a rodeiam) muda dramática e inesperadamente.
Marie é também uma personagem muito carismática. Conhecemo-la enquanto criança, vulnerável e exposta, e vemo-la aguentar muito. Esses momentos aproximam-nos dela: sentimos a sua tristeza, os seus medos, a sua perda... o seu amor. A delicada relação de Marie com Curtius, e depois com Edmond, a longa batalha pelo seu lugar contra a Viúva Picot, a luta pela sobrevivência quando tudo ameaça desabar... Marie é vulnerável, mas é forte, e isto torna-se mais impressionante devido ao cenário e às personagens em seu redor. Personagens que, elas mesmas peculiares, deixam também a sua marca nos seus comportamentos e escolhas - nos gestos de amor e nas traições.
O conteúdo é sempre o mais importante, mas, neste caso, há dois aspectos formais que importa mencionar. Primeiro a escrita: bela, expressiva, cheia de emoção e de poesia, mas com um ritmo natural que encaixa perfeitamente na história. E depois as ilustrações: também belas e peculiares, complementando a história com recordações visuais do estranho e fascinante mundo em que Marie se move. Tudo se torna mais marcante devido a estes elementos. O resto... O resto é tudo Marie.
Talvez houvesse mais a dizer sobre esta belíssima história, mas não sem estragar a experiência da descoberta. Fica, pois, esta soma de todas as partes: uma história cativante, bonita e comovente. Uma pequena maravilha, em suma. 

Título: Little
Autor: Edward Carey
Origem: Recebido para crítica

domingo, 18 de novembro de 2018

O Meu Coração Entre Dois Mundos (Jojo Moyes)

Louisa Clark tomou finalmente a decisão de viver sem medos e dizer sim às coisas e, por isso, acabada de chegar a Nova Iorque, está pronta a dar início a uma nova vida. Mas bastam alguns dias para perceber que, além de tudo ser novo, é também muito mais complicado do que esperava. Como se não bastassem as regras e complicações da vida dos super ricos, Agnes Gopnik, a mulher para quem trabalha, guarda grandes segredos e, embora a sua fragilidade a leve a querer fazer de Louisa uma amiga, talvez Lou devesse ter bem presente que continua, afinal, a fazer parte do pessoal. Além disso, a relação que criou com Sam começa também a manifestar o peso da distância... principalmente a partir do momento em que tanto Lou como Sam se cruzam com novas pessoas. À medida que o tempo passa e os meandros da vida começam a ganhar uma nova forma, Louisa terá de descobrir o seu lugar no mundo - e se prefere viver à imagem dos que a rodeiam ou como a pessoa que realmente é.
Sendo a continuidade da história de Viver Sem Ti, também sequela de um livro aparentemente completo, uma das primeiras coisas a destacar neste livro será inevitavelmente a forma como consegue acrescentar coisas novas - e uma nova fase de crescimento - a uma história que podia perfeitamente ter acabado em Viver Depois de Ti. A vida continuou para Lou e não deixa de ser notável a forma como a autora consegue construir novas histórias para ela quando a figura central que deu ao primeiro livro um tão grande impacto já não está presente. Ou será que está?
É que parte do que torna estes livros tão cativantes é que, pese embora a ausência de Will, a sua memória agora mais discreta continua a funcionar como força motriz nas decisões mais importantes. E, assim, o elo de ligação entre os três livros torna-se mais forte, sem que nenhum deles se torne repetitivo. Além disso, cada fase da vida de Lou é um todo em si mesma, e um todo cheio de aventuras, experiências e descobertas, o que faz com que seja difícil não querer continuar a acompanhar esta peculiar e tão cativante protagonista.
Há um pouco de tudo nesta história, desde o contraste entre a vida dos super ricos e a dos trabalhadores numa cidade dura aos erros que assombram toda uma vida, mas que podem sempre ser corrigidos, passando, é claro, por toda uma sequência de sucessos, fracassos e novos sucessos. Lou tem uma vida intensa e preenchida e cada episódio que protagoniza deixa, à sua maneira única, uma grande marca. O mesmo se aplica, aliás, às personagens que a rodeiam, já que, embora de forma mais discreta, também elas protagonizam vários momentos marcantes.
E parece ser aqui que Louisa encontra finalmente o seu caminho, por entre situações divertidas, momentos profundamente emotivos e uma mistura de nostalgia e de esperança que torna tudo tão mais impressionante. No fim, fica a sensação de ter viajado com Louisa até Nova Iorque, sentido com ela os seus desgostos e frustrações e acompanhado, enfim, as grandes descobertas e revelações da sua vida. 
Cativante, emotivo, cheio de surpresas e de momentos deliciosos, trata-se, pois, do fim de ciclo ideal para uma protagonista muito querida. E uma lição, também, de certa forma, sobre o valor da identidade própria num mundo que, às vezes, se impõe demasiado. Muito bom. 

Autora: Jojo Moyes
Origem: Recebido para crítica

sábado, 17 de novembro de 2018

Homo Creator (Edward O. Wilson)

A capacidade de pensar e de criar faz parte do que torna a espécie humana tão avançada. Mas de onde vem a criatividade? E de que forma se enquadra na possibilidade de um sentido - ou de uma explicação - para a condição humana? Recorrendo a exemplos da natureza, à sua própria experiência e ao percurso evolutivo das ciências e das humanidades, o autor debruça-se sobre estas e outras questões para tentar dar uma explicação mais precisa acerca das origens genéticas, bem como das influências ambientais, da criatividade. E recorre a um passado muito distante - para contemplar, talvez, um possível futuro.
Provavelmente o aspecto mais interessante deste livro é a forma como o autor conjuga múltiplos elementos - da história, da ciência, da filosofia e da sua própria experiência pessoal - para traçar uma análise bastante vasta das origens e mecanismos da criatividade. Não se cinge, aliás, à criatividade, debruçando-se sobre a natureza das humanidades, o seu conflito com a ciência e até o impacto destas duas grandes áreas no equilíbrio económico e social dos dias de hoje. Recua até aos primórdios da evolução da espécie humana, debruçando-se depois sobre as perspectivas da ciência moderna. E tudo de forma acessível e interessante, sem nunca se tornar monótono ou maçador.
Esta expansão para diferentes aspectos - embora todos eles pertinentes - tem uma contrapartida: a sensação de que sobre todos eles haveria mais a desenvolver. Ainda assim, não parece que o objectivo seja uma exploração exaustiva, mas antes uma visão global. E nesse sentido, o livro cumpre plenamente o seu objectivo, traçando hipóteses para as origens e o futuro da criatividade e também para o desenvolvimento das humanidades na era da ciência.
Importa ainda destacar dois aspectos que, embora possam parecer menores na perspectiva global, contribuem em muito para tornar a leitura mais interessante: a fluidez de uma escrita que não se perde em demasiados pormenores e o recurso a experiências pessoais, o que permite não só uma percepção mais clara, mas também uma sensação de maior proximidade relativamente às descobertas narradas.
Finda a leitura, fica a impressão de um livro abrangente e esclarecedor, escrito de forma acessível e com muito de interessante a considerar. Uma boa leitura, em suma, e uma bela perspectiva das origens da criatividade. 

Título: Homo Creator
Autor: Edward O. Wilson
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Obras Completas, volume I (Maria Judite de Carvalho)

Quando se começa a descobrir um autor de obra vasta, é difícil, às vezes, decidir por onde começar. Este livro resolve facilmente esse problema. Primeiro volume das obras completas de Maria Judite de Carvalho, aqui se reúnem os livros Tanta Gente, Mariana e As Palavras Poupadas, ambos colectâneas de contos e ambos obras deveras relevantes.
E o primeiro conto é precisamente o que dá título ao primeiro livro. Tanta Gente, Mariana apresenta a vida de uma mulher só no meio do mundo, uma vida de enganos, desamores e da indiferente crueldade da normativa social. Relativamente longo, mas magnificamente escrito, transporta-nos para o pensamento - e para o coração, principalmente - de Mariana, fazendo-nos sentir as suas esperanças e desejos e, por isso, também a imensidade da sua desolação. Cativante, angustiante e emotivo, um conto verdadeiramente memorável.
Bastante mais breve é A Vida e o Sonho, história de Adérito e das linhas que separam o sonho da vida real. Introspectivo, questiona escolhas próprias e alheias, pondo o protagonista em destaque como alguém com um grande e indefinível sonho, mas preso a uma realidade a que nunca conseguirá escapar. É isso que torna marcante este pequeno conto: a peculiaridade das circunstâncias do protagonista e a forma como, dessas circunstâncias, surge um sentimento quase universal.
Segue-se A Avó Cândida, também uma história de amores profanos, mas estes preservados em segredo até ao raiar do derradeiro dia. Começa por mostrar os desgostos de Clara, mas é a história da Avó que lhe confere um tão intenso final. E deixa também uma pequena reflexão: que segredos se escondem, afinal, sob a fachada da moralidade?
A Mãe fala de uma mulher sem filhos e de um caso amoroso destinado à tragédia. Relativamente breve, mas bastante introspectivo, consegue, ao mesmo tempo que surpreende com as revelações finais, questionar as pequenas rotinas e indiferenças do quotidiano das relações.
A Menina Arminda fala de uma mulher atingida pela tragédia e pelas subsequentes tragédias inspiradas por esse acontecimento inicial. Melancólico, feito de tristeza tanto nas palavras como nos acontecimentos, marca, em primeiro lugar, pela forma como retrata a durabilidade de um único momento. Depois, pelos contrastes entre indiferença e estranha lealdade e, acima de tudo, pela forma como de um erro nascem outros, culminando num final devastador.
Noite de Natal conta uma história de vício e violência em que, numa noite de suposta paz, todos os sonhos e esperanças se desfazem. Angustiante, como a situação das protagonistas, marca pela forma como, embora encaminhado para uma conclusão previsível, reflecte em cada momento todo o peso das trágicas circunstâncias.
Segue-se Desencontro, e basta o título para adivinhar que não será propriamente uma história de final feliz. Os protagonistas são um homem habituado a uma vida errante e uma mulher que esperou... e depois deixou de esperar. Trata-se de um encontro final e o que mais impressiona é a forma como convenções e modos de pensamento distintos criam um contraste tão forte entre a posição de ambos. E, claro, como nenhum deles é exactamente quem pensava ser.
O último conto deste primeiro livro é O Passeio no Domingo, história de uma transgressão planeada e de como a vida às vezes tem outros planos. Pausado, embora relativamente breve, é pelo inesperado das circunstâncias, em contraste com a vida meticulosamente planeada do protagonista, que este conto se destaca. Pois, questionando pela primeira vez as normas da sua vida, Marcelino acaba por... encontrar algo diferente do que esperava.
Passando agora a As Palavras Poupadas. Também neste segundo livro, o título é comum ao do primeiro conto. As Palavras Poupadas conta a história de Graça, uma mulher cuja vida é feita de silêncios, de segredos e de pequenas transgressões familiares. Uma vida de regras impostas e ultrapassadas e, por isso, uma história feita de grandes descobertas e pequenas tensões, num relato extenso e pausado, mas estranhamente fascinante e também capaz de gerar emoções intensas
Segue-se Uma História de Amor, muito breve conto de amor e morte, de um amor "ridículo", como dizia o poeta, e de consequências igualmente absurdas. Dividido entre o tom de benevolente diversão da narradora e a estranha crueldade da conclusão, é como se contivesse vidas inteiras nas suas poucas páginas, deixando uma marca intensa e poderosa ao chegar ao final da história.
Uma Varanda com Flores fala de uma tragédia e de uma dúvida perdida nas memórias de uma velinha. Misterioso, por um lado, devido à resposta que se procura, e por outro profundamente triste, cativa pela forma como estas duas facetas se conjugam para dar forma à desolação da vida.
Segue-se Choveu Esta Tarde, breve reencontro com um passado que deixou marcas, mas também a certeza de que a vida continua. Marca, além da belíssima escrita que caracteriza todos estes contos, pela facilidade com que nos transporta para dentro da cabeça da protagonista, com toda a sua saudade daquele passado.
É sobre a velhice e o isolamento que A Sombra da Árvore se debruça, na história de um acto desesperado contada com a tristeza e a ternura de quem contempla os sentimentos mais difíceis. É fácil compreender a angústia de Firmino e é talvez por isso que o final tem um tão grande impacto. E é também uma história que faz pensar - na vida, na morte e na passagem de uma para a outra.
Surge depois A Noiva Inconsolável, história de uma solidão profunda e de um estranho amor que subitamente - ou talvez não - se desfez. Cativa, acima de tudo, por dois aspectos: pelo retrato breve, mas muitíssimo certeiro, da hipocrisia que, por vezes, se manifesta nas relações sociais, e pela forma como retrata a possibilidade de se estar só no meio das outras pessoas. Bastante profundo, principalmente tendo em conta a brevidade.
O Aniversário Natalício, por sua vez, fala, como o título indica, de um dia de aniversário. Um aniversário onde os sucessos e fracassos da vida são profundamente analisados e que culmina num momento... peculiar. Pese embora a estranheza do final, é nas introspecções de Boaventura e na sua análise da passagem do tempo que está a grande força deste conto, ainda que fique uma certa curiosidade insatisfeita acerca da carta misteriosa.
Segue-se Câmara Ardente, história da morte de um homem autoritário e das marcas que deixa naqueles que se reuniram para o velar. Partindo de um momento dramático para mergulhar nas vidas e sentimentos das várias personagens, culmina num final enigmático que torna tudo ainda mais notável.
E tudo termina em Viagem, provavelmente o conto mais sombrio do livro e também o mais surpreendente. Fala de uma viagem de avião povoada por perspectivas trágicas da parte do protagonista, e mostra sentimentos sombrios, ressentimentos secretos... e uma certa expectativa que acaba por, inesperadamente, se cumprir.
Três pontos unem o conjunto de todos estes contos: uma escrita belíssima, uma visão profunda e perspicaz dos recessos mais escondidos da natureza humana e um conjunto de episódios e circunstâncias tão capazes de gerar sentimentos fortes como momentos de profunda introspecção. A soma é mais do que suficiente para justificar o valor desta leitura tão marcante como intensa e surpreendente. E uma clara recomendação.

Autora: Maria Judite de Carvalho
Origem: Recebido para crítica

Vencedor do passatempo Não Há Rosas sem Espinhos

Pois é, terminou mais um passatempo. E é mais uma vez chegada a hora de anunciar quem vai receber um exemplar do livro Não Há Rosas sem Espinhos.

E o vencedor é...

15. Bruno Moura (Águas Santas)

Parabéns e boa leitura!

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Segredos Mortais (Robert Bryndza)

Passou muito pouco tempo desde a resolução de um caso penoso, mas o crime não pára nem no Natal e, por isso, também Erika Foster o não fará. E o novo caso tem também contornos sinistros. Uma bailarina burlesca foi brutalmente assassinada à porta de casa e, embora não fosse alguém que despertasse grandes simpatias, Marissa tinha grandes aspirações e algumas ligações fortes. Não faltam por isso suspeitos e o caso torna-se ainda mais complexo com a descoberta de que há relatos de vários ataques por parte de alguém que usa uma máscara de gás... tal como o assassino de Marissa. Erika terá de reunir a sua equipa, seguir as pistas e descobrir o culpado. Ao mesmo tempo que lida com os seus próprios problemas pessoais.
Nunca deixa de ser impressionante a forma como, quando se começa a ler um novo livro dessa série, a sensação que fica é a mesma de ao ler o primeiro. Já conhecemos Erika, conhecemos o seu percurso pessoal e também os seus grandes casos, e conhecemos ainda as pessoas que a rodeiam. E, ainda assim, há sempre uma impressão de surpresa, não só por o caso ser totalmente novo, mas porque a vida parece evoluir a cada novo livro, mostrando-nos novas facetas das personagens. Cria-se assim um muito interessante equilíbrio: a familiaridade de regressar a um muito querido núcleo de personagens e a novidade de um novo e surpreendente percurso.
Parte do que torna Erika Foster uma figura tão carismática é o seu passado - o de antes do primeiro livro e os acontecimentos dos volumes anteriores. É, por isso, particularmente interessante acompanhar a evolução da protagonista, principalmente neste livro, que ocorre pouco depois de um último caso traumático e em que, embora sem qualquer relação com o caso em si, a vida pessoal de Erika adquire um papel tão preponderante. Além disso, estes elementos pessoais influenciam directamente o curso da história, seja por pequenas tensões com outras personagens, seja por passos que essas situações impõem. A história ganha impacto por ser mais do que apenas o caso, e isto deve-se também à marca deixada pelas personagens.
Mas passando ao caso. Como já vem sendo habitual, a linha principal do enredo é uma investigação com princípio, meio e fim, e é em torno dela que a narrativa se move. Assim sendo, importa destacar os seus elementos centrais. Misterioso e com laivos sinistros (potenciados pela presença da máscara de gás e pelo factor medo a ela associado), intriga desde o primeiro capítulo e vai surpreendendo a cada nova revelação. Seguem-se pistas, encontram-se e descartam-se suspeitos, correm-se perigos, falha-se, obtêm-se respostas... e no fim... bem, no fim, tudo é inesperado, não só porque nada fazia prever aquilo, mas porque tudo se ajusta na perfeição a certos comportamentos das personagens. 
E, claro, tudo é narrado com a maior naturalidade, seja um momento de perigo e de terror, seja uma discussão pessoal, seja ainda um pequeno rasgo de inesperada emoção ou introspecção por parte da protagonista. Os capítulos curtos e o enredo intenso conferem à leitura um ritmo viciante. A mistura de humor e de emoção dão-lhe um toque pessoal. E, no fim, tudo encaixa nos sítios certos, o caso resolve-se... como tem de ser... e a viagem revelou-se mais do que satisfatória.
É uma espécie de magia descobrir, ao sexto volume de uma série, todas as qualidades (e mais) que nos prenderam no primeiro e descobrir que, embora conhecendo tão bem as personagens, elas nunca nos deixam de surpreender. Quanto a Erika Foster... vale muito a pena conhecer Erika Foster e os seus casos. E este está mais que à altura dos melhores.

Autor: Robert Bryndza
Origem: Recebido para crítica