domingo, 22 de abril de 2018

Violeta e Índigo Descobrem Klimt (Isabel Zambujal e Gonçalo Viana)

O Índigo tem um dom especial. Basta uma pincelada sua que se assemelhe a um quadro famoso e, na companhia da sua amiga Violeta, é projectado para a vida do grande pintor que criou essa obra. Desta vez, a inspiração leva-os à vida e aos quadros de Klimt. E há muito para descobrir, como sempre.
Misturando uma aventura cativante, uma boa base de informação para aprender e algumas actividades divertidas, este livro vem confirmar a impressão de que esta colecção é um belo ponto de partida para incentivar os mais novos a descobrir a arte. Não é um livro extenso e, escusado será dizer que certamente a vida do autor justificaria um livro bastante maior, mas é uma boa base e abre caminho à curiosidade em saber mais. Além disso, ao acrescentar à vida do pintor a pequena aventura de Índigo e Violeta, cria-se uma agradável sensação de descoberta comum, como se quem lê estivesse a acompanhar os protagonistas na sua breve e interessante aprendizagem.
Ora, sendo um livro infantil e um livro sobre um pintor famoso, não é propriamente uma surpresa que as imagens sejam tão importantes como o texto em si. Primeiro, a cor desperta curiosidade. Depois, a mesma dualidade entre a história de Klimt e a história dos dois amigos que se manifesta no texto vê-se também nas imagens, com a presença de várias obras do pintor a contrastar com o traçado cativante que ilustra o percurso de Violeta e Índigo. Além de que, claro, as imagens complementam na perfeição o texto, tornando tudo mais nítido e mais colorido.
E depois há o outro aspecto que também parece ser característico desta colecção, que é o acrescentar à história um breve conjunto de actividades que, além de reforçarem a atenção (pois há um pequeno questionário no final do livro) criam uma maior interactividade, tornando ainda mais divertida e agradável a experiência da descoberta.
Fica, por isso, a impressão de um livro simples e agradável e de uma bela forma de despertar desde cedo o interesse pela pintura e pelos grandes pintores. Bonito, colorido e cativante, uma boa leitura.

Título: Violeta e Índigo Descobrem Klimt
Autores: Isabel Zambujal e Gonçalo Viana
Origem: Recebido para crítica

sábado, 21 de abril de 2018

A Volta ao Medo em Oitenta Dias (José Jorge Letria)

A vida de Gustavo sempre se definiu pelo medo: medo das pessoas, medo dos espíritos, medo da morte, dos conflitos, da guerra. Medo de ficar, medo de partir. Medo de tudo. Mas, nascido numa casa onde não se falava de política, Gustavo foi, apesar de tudo, interessando-se pelos subversivos e encontrando um lugar para si num país em mudança. Mas agora os anos passaram e só ficou a memória do que ficou para trás - e o medo, ainda e sempre o medo. Será, talvez, finalmente o momento de ousar?
De uma simplicidade aparente, mas abrangendo praticamente uma vida inteira, este é um livro em que, apesar do contexto delicado em que tudo decorre, é mais a vida interior do protagonista o factor dominante do que propriamente o seu percurso através de um país em mudança. Pelo caminho de Gustavo - como interveniente ou como espectador - passam muitas das grandes dificuldades do seu tempo: o medo da denúncia, o necessário secretismo acerca de certas formas de arte, a iminência de uma partida para a guerra e as possíveis consequências. E este contexto está bem presente em todo a narrativa, mas mais como pano de fundo para o que é afinal o grande problema de Gustavo: o medo constante.
Nem sempre é fácil simpatizar com as personagens, em parte talvez porque algumas delas parecem estar apenas de passagem, mas principalmente por serem vistas da perspectiva de Gustavo. E, claro, há personagens de que é simplesmente impossível gostar - mas, dada a sua posição, isso faz todo o sentido. Ainda assim, e se nem as escolhas do próprio Gustavo são sempre fáceis de entender, há algo no seu percurso - na forma como lida com o medo, fugindo ou ficando, mas raramente enfrentando - que é fácil de identificar. Nunca é fácil fazer escolhas e muito menos quando se tem algo a perder. E, num tempo como o de Gustavo, uma certa dose de medo seria provavelmente uma segurança.
Tudo é contado de forma relativamente sucinta, ficando, em alguns pontos, uma certa vontade insatisfeita de saber mais. Ainda assim, e apesar da relativa brevidade, os elementos essenciais - as emoções, o crescimento, a perspectiva pessoal de um mundo em mudança e, claro, o sempre presente medo - são muito claros e, se nem todas as opções são de molde a inspirar simpatia... bem, a verdade é que não há seres humanos perfeitos.
No fim, fica a sensação de uma viagem aparentemente simples, feita de um protagonista imperfeito, de um contexto difícil e, acima de tudo, de sentimentos fortes. Porque o medo existe, não é? E todos o conhecemos. E é esta proximidade das emoções, ainda que nem sempre das personagens, que fica na memória a guardar o espacinho desta cativante e agradável leitura.

Autor: José Jorge Letria
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 20 de abril de 2018

The Dark Sea War Chronicles - Shark-Killer (Bruno Martins Soares)

Depois de uma missão praticamente suicida, que, apesar do preço elevado, trouxe consigo informações capazes de mudar o rumo da guerra, o mais difícil parece ser agora regressar a casa. O inimigo é letal e praticamente invisível - e, quando a inferioridade numérica se torna evidente, também a sobrevivência começa a aparecer impossível. Mas, apesar de tudo aquilo por que passou, Byl ainda não está disposto a desistir da vida - muito menos agora, que recuperou o que julgava perdido. Mais uma vez, impõem-se decisões loucas e aparentemente suicidas - mas inevitáveis, se quiser ter uma hipótese de sobreviver.
Um dos aspectos mais impressionantes nesta trilogia - e, oh, se ela tem aspectos impressionantes - é a forma como o autor consegue encaixar tanto num volume relativamente breve. Em cerca de cento e cinquenta páginas, há grandes e memoráveis batalhas, decisões de vida e morte, revelações e demónios interiores, momentos de humor, rasgos de emoção e um contexto global tão vasto que quase parece inesgotável. E o melhor disto tudo é que nada parece apressado, nada parece demasiado sintético, nada de crucial é deixado de fora. Há mais para explorar nesse mundo? Com certeza. O potencial é vastíssimo. Mas esta história - a destas personagens específicas - tem tudo, mesmo tudo, na medida certa. E deixem-me que vos diga: é muito difícil parar antes do fim.
E por falar em fim (e não só, porque é algo que tem sido uma constante nesta trilogia), outro dos muitos aspectos memoráveis nesta leitura é que não há resultados - nem percursos, nem pontos de partida - fáceis. Todo o caminho é duro - pelas circunstâncias, pelo conflito, pelas dificuldades e fragilidades pessoais. A vida das personagens é dura, a crueldade está à espreita a cada novo desenvolvimento e a verdade é que ninguém é verdadeiramente poupado. O resultado é uma intensidade quase irresistível, uma proximidade para com o que nos está a ser contado que é praticamente palpável e uma sensação de estar, sentir e viver com as personagens que... bem, nos põe a alma das personagens nas mãos.
Mas falei em crueldade e crueldade não falta no caminho destas personagens - crueldade que as molda e que define as suas escolhas, pensamentos e emoções. E também isso impressiona, pois sentir pontos de vulnerabilidade, de falibilidade, reconhecer que a humanidade das personagens é precisamente aquilo que as torna tão marcantes, mesmo quando tudo à volta é conflito e discórdia e, bem, explosões... é uma estranha espécie de magia a acontecer. É belo, é fascinante. É irresistível.
Que mais dizer então sobre este livro? Que vale cada segundo da viagem, nos momentos mais belos como nos mais difíceis. Que fascina pela complexidade do cenário, mas que se grava a fogo na memória pela complexidade das personagens que o povoam. E que, abrindo as portas para um mundo vastíssimo, deixa ao mesmo tempo a sensação de uma missão mais que cumprida e esta vontade de mais. Sempre, sempre mais. Leiam, porque vale a pena. Muito, muito, muito. Muito mesmo.

Título: The Dark Sea War Chronicles - Shark-Killer
Autor: Bruno Martins Soares
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

E se a terra fosse o planeta mais absurdo do universo?
O professor Andrew Martin, génio matemático, acaba de descobrir a chave para os maiores mistérios do Universo. Ninguém sabe do salto que isto representará para a Humanidade… excepto seres evoluídos de outro planeta.
Determinados a impedir que esta revelação caia nas mãos de uma espécie tão primitiva quanto os humanos, estes seres enviam um emissário para destruir as provas. E é assim que um alien intruso, completamente alheio aos costumes, chega à Terra. Rapidamente, ele descobre que os humanos são horrendos e têm hábitos ridículos — comida dentro de embalagens, corpos dentro de roupas e indiferença por trás de sorrisos… Esta espécie não faz sentido!
Durante a sua missão, sob a pele e identidade de Andrew Martin, este alien sente-se perdido e odeia todos os terráqueos. Excepto, talvez, Newton, um cão. Contudo, quanto mais se envolve com os que o rodeiam mais fica a perceber de amor, perda, família; e de repente está contagiado: será que afinal há qualquer coisa de extraordinário na imperfeição humana?

Matt Haig foi jornalista, tendo colaborado com o Guardian, o Sunday Times e o Independent. Escreveu o seu primeiro livro em 2004 e, desde então, nunca mais parou. Autor bestseller com obras para adultos e para o público mais jovem, venceu o Blue Peter Book Award, o Smarties Book Prize e foi três vezes finalista do prémio literário Carnegie Medal.
Os seus livros estão traduzidos em mais de 30 línguas. O Guardian considerou a sua escrita «deliciosamente estranha», e o New York Times tem-no como um «escritor de grande talento» capaz de narrativas «divertidas, fascinantes e arrebatadoras».

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Diversidade - A Vida na Terra (Nicola Davies e Emily Sutton)

Quantas espécies existem no mundo? E, dessas, quantas conhecemos? E quantas terão deixado de existir devido à intervenção humana? A diversidade é uma parte fundamental do equilíbrio do planeta e entendê-la é o primeiro passo para cuidar. E esse, então, o tema deste cativante e colorido livro, que permite aprender com toda a clareza - e todo o encanto de uma nova descoberta.
À semelhança do que aconteceu em Minúsculos - O Mundo Invisível dos Micróbios também este livro tem na forma como permite assimilar ideias através da visualização e de um conjunto de explicações simples o seu grande ponto forte. Basta folhear para que a beleza das imagens prenda a atenção e, quando se começa a ler, a informação surge de forma sucinta, mas perfeitamente clara e muito cativante. Surge, pois, naturalmente a ideia sempre actual do aprender brincando - e é muito fácil aprender com este livro.
Tem também a muito relevante qualidade de não só realçar a diversidade das espécies como de apelar a uma certa consciência ecológica, realçando o papel da acção humana na extinção de algumas espécies e apelando ao tal cuidado que é sempre tão essencial. E também isto surge com naturalidade, o que nunca deixa de ser a melhor forma de assimilar ideias e informações.
Importa ainda voltar uma vez mais ao aspecto visual, pois, sendo um livro para os mais novos, a imagem é tão ou mais importante que as palavras. E o aspecto deste livro é encantador. As imagens das diferentes espécies e os cenários cheios de cor fazem deste livro uma viagem à beleza natural do mundo, o que, tendo em conta que o tema é a diversidade e a sua importância, serve também para sublinhar a importância da mensagem. 
No fim, fica uma imagem à semelhança deste livro: uma aprendizagem feita de conhecimento e de cor, de factos e de preocupações e de uma visão do mundo como algo que necessita de ser cuidado. Uma belíssima leitura, portanto, para aprender e despertar consciências desde cedo. Muito bom. 

Autoras: Nicola Davies e Emily Sutton
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 18 de abril de 2018

E Depois Chegaste Tu (Jennifer Weiner)

Jules é uma estudante universitária sem grande vida social e à procura de uma solução que lhe permita ajudar o pai a deixar para trás o vício que o arruinou. Annie ama o marido e os filhos, mas as dificuldades financeiras começam a ser demasiado difíceis de suportar. E Bettina sente-se tudo menos confortável com a nova mulher do pai, India, e com a ideia de eles virem a ter um bebé. Dificilmente poderiam ser mais diferentes mas os seus caminhos estão prestes a cruzar-se irreversivelmente: Jules doou o óvulo, Annie servirá de barriga de aluguer e India deverá ser a mãe. O plano é simples. Mas, quando menos esperam, um acontecimento dramático dá a tudo um rumo completamente diferente. E encontrar uma solução adequada poderá ser tudo menos fácil...
Alternando entre as perspectivas das diferentes personagens e, a partir daí, construindo uma cativante mistura de medos, segredos e pequenos grandes dramas familiares, este é um livro que cativa, acima de tudo, pelo facto de não haver personagens perfeitas. Todas as personagens estão a lutar com alguma espécie de problema, presente ou passado, e isso faz com que a situação que estão a viver nunca pareça demasiado fácil. Além disso, o facto de ser uma história que envolve barrigas de aluguer, mas não estritamente apenas sobre este tema, abre caminho a uma visão muito mais vasta do todo. 
Jules, Annie, India e Bettina. Qualquer uma delas justificaria por si só um romance e, por isso, é inevitável a sensação de que haveria mais história para contar: da relação amorosa de Jules, da história entre Bettina e Darren, até mesmo das relações familiares de Annie ou das mudanças operadas na vida de India. Ainda assim, há um ponto comum que as une a todas e esse ponto comum - o bebé que está para nascer - é também o fio condutor de todo o enredo. Assim, faz sentido que a história termine naquele preciso momento, e também o faz que nem tudo tenha respostas limpas. Afinal, ninguém sabe tudo na vida e nenhuma história acaba verdadeiramente na palavra fim.
Voltando ainda outra vez à imperfeição das personagens, é interessante a forma como esta imperfeição se reflecte nos acontecimentos, motivando momentos de tensão, mas também de ternura, rasgos de fúria e pequenas revelações. Há muitas coisas marcantes a acontecer e só acontecem porque nenhuma das personagens é perfeita e infalível. Porque todas têm espaço para crescer - e crescem, de facto.
No fim, fica esta imagem de evolução e de crescimento, não só de uma vida ainda por chegar, mas principalmente na vida das intervenientes no processo. Uma história bonita, cheia de momentos marcantes e com um grupo de personagens tão memorável nas forças como nas vulnerabilidades. Gostei.

Autora: Jennifer Weiner
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 17 de abril de 2018

A Mulher Culpada (Elle Croft)

Bethany Reston ama o marido, mas nunca soube bem o que queria da sua vida e, quase sem dar por isso, viu-se envolvida num caso amoroso com um cliente, o bilionário Calum Bradley. Não é algo de inconsequente e sente que ama verdadeiramente Calum. Mas também ama o marido e a situação começa a pesar-lhe. E, quando pensa que uma discussão e o consequente afastamento temporário são o maior dos seus problemas, Calum é assassinado numa estação de metro - a mesma onde Bethany se encontrou com ele poucos minutos antes. Bethany não é a responsável pelo crime, mas também não pode propriamente admitir que estava a ter um caso. Principalmente a partir do momento em que começa a receber mensagens ameaçadoras do verdadeiro assassino.
A principal qualidade deste livro é, sem dúvida alguma, a intensidade. Escrito em capítulos relativamente curtos, com um estilo directo em que a acção e a tensão predominam, e com um enredo onde suspeitas, segredos e revelações parecem ocupar um claro papel de protagonismo, é fácil entrar no ritmo da narrativa - e é difícil parar de ler antes do fim. Bethany pode ser inocente, mas tem segredos a esconder. E, quando o verdadeiro assassino entra em cena, com a sua identidade desconhecida e os seus planos de perseguir e incriminar Bethany, é impossível resistir à curiosidade de saber o que acontece a seguir.
Claro que, ao centrar a história na perspectiva de Bethany, a aura de mistério em torno dos restantes aumenta. E, se isto contribui para manter acesa a tal curiosidade em descobrir as respostas, também deixa, por vezes, a sensação de que algumas coisas acontecem demasiado depressa. Teria sido interessante saber um pouco mais sobre a história de Jason ou a posição de Alex relativamente à situação. E a fase final, com a sua derradeira revelação completamente inesperada e uma conclusão... bem, bastante invulgar para este género de livro, talvez pudessem ter ganho ainda mais intensidade se aspectos como o julgamento tivessem sido mais desenvolvidos. 
Há, ainda assim, um outro aspecto que se destaca - a capacidade de transmitir com toda a clareza as motivações das personagens. Claro que, sendo a história vista pelos olhos de Bethany, é ela quem sobressai neste aspecto e a forma como a autora transmite o seu medo, a sua apreensão e também os seus dilemas de consciência aumenta em muito a intensidade do enredo. E, ainda que de forma mais ténue (e parcial, pois surge maioritariamente da perspectiva de Bethany) também para as outras personagens é possível reconhecer forças e vulnerabilidades, traços de carácter e máscaras que se recusam a cair. 
No fim, fica a impressão de uma história que talvez pudesse alongar-se um pouco mais em alguns momentos, mas que basta, tal como é, para cativar do início ao fim. Intenso, misterioso e surpreendente, um livro para devorar de uma assentada. E uma autora a seguir.

Autora: Elle Croft
Origem: Recebido para crítica