domingo, 21 de outubro de 2018

A Fórmula do Peregrino (Tiago Moita)

Um acidente de automóvel e um resgate oportuno levam a jornalista Catherine Delgado a cruzar-se com o enigmático Gabriel Search. Professor de física quântica, tem uma visão do mundo bastante mais espiritual do que as duas posições extremadas que parecem ter tomado conta da opinião pública. E a sua viagem, para a qual Catherine acaba por ser também puxada, poderá ser o início da mudança de que o mundo precisa. O objectivo é seguir as misteriosas pistas deixadas por um peregrino e chegar ao esconderijo da fórmula de Deus. Mas, mais que a busca de uma fórmula milagrosa, a viagem promete ser de descoberta - embora haja forças poderosas dispostas a tudo para os impedir de chegar ao destino.
Um pouco à semelhança de O Evangelho do Alquimista, também este parece ser um livro que dá mais importância e destaque à mensagem das personagens do que ao enredo em si. Não que faltem mistérios, descobertas e reviravoltas, mas o domínio parece pertencer às explicações de diferentes elementos e perspectivas. Ora, isto tem dois efeitos. O primeiro, e mais evidente, é o de tornar o ritmo da narrativa bastante mais pausado, ainda que a vastidão de conhecimentos e teorias compense em parte este passo mais lento. O outro é o inevitável conflito de pontos de vista. Ao longo da história parecem haver duas facções extremas e uma intermédia: ciência, religião e espiritualidade. Mas, sendo certo que o percurso do peregrino parece representar o lado certo, a verdade é que as barreiras nunca são assim tão claras. Há valores do lado da fé, do lado da ciência e do lado da espiritualidade, estando o problema principalmente nos fanatismos. Mas, por vezes, há qualidades descritas de forma demasiado crítica e, por outro lado, aspectos pouco questionados. O resultado serão sentimentos ambíguos, possivelmente variando consoante a posição do próprio leitor relativamente a estes temas.
Mas, passando ao enredo e às personagens. Pode parecer, de início, que tudo começa de forma demasiado simples: Catherine cruza-se por acaso com a pessoa que lhe alterará o destino. Ainda assim, e à medida que a história evolui, começam a surgir segredos e possibilidades e a teia de intrigas e planos torna-se bastante mais intrigante. Além disso, as ligações secretas entre as diferentes personagens - e a forma como algumas delas são reveladas - geram alguns picos de emoção que conferem à história uma maior intensidade.
É curioso, num livro que se alonga bastante em explicações, mas ficam algumas questões em aberto. Talvez por a história se centrar mais no percurso de Gabriel e Catherine, os passos dos adeptos de Seal e Lawkins acabam por ser explorados de forma bastante mais sucinta, o que deixa uma certa curiosidade insatisfeita acerca de como ganhou forma o grande projecto de ambos. Não são elementos essenciais, é verdade, pois a base do que os move é explicada ao pormenor, e o final não ganharia mais força com uma caracterização mais profunda. Ainda assim, fica a tal vontade de saber mais sobre a construção - e povoação - desse misterioso empreendimento.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura pausada, mas intrigante e com um desenvolvimento bastante detalhado das temáticas da fé, da ciência e da espiritualidade. Interessante e envolvente, uma boa história.

Autor: Tiago Moita
Origem: Recebido para crítica

sábado, 20 de outubro de 2018

Descender, Vol. 2: Lua Máquina (Jeff Lemire e Dustin Nguyen)

TIM-21 contém dentro de si a resposta para o mistério dos Colectores e isso faz com que muitos procurem deitar-lhe a mão. Mas a situação desesperada em que o pequeno robô e os seus aliados se encontravam sofreu uma grande reviravolta com a entrada em cena da resistência dos robôs. Agora, TIM-21 parece estar junto dos seus - embora também estes tenham interesses ocultos. E, entretanto, aquele que tanto procura, Andy, o seu irmão, anda também à procura dele. E, embora o universo seja grande, não desistirá enquanto não o encontrar. 
Dando continuidade directa aos acontecimentos do primeiro volume e expandindo a história para um novo e mais complexo contexto, este livro eleva a história de TIM a novas alturas, ao mesmo tempo que, apresentando novas personagens e novos grupos, desenvolve também a complexidade do universo em que se movem. A história está agora mais dividida - entre TIM e Andy - e ambas as partes têm a mesma cativante mistura de mistério, acção e emoção. E aqui está o cerne do que torna esta história tão marcante: é que ambos, ainda que de maneiras diferentes, parecem conhecer o caminho mais rápido para o coração dos leitores.
Se basta a história em si para gerar emoções fortes (e, com personagens como estas, é mais do que suficiente), a forma como os autores lhe dão vida reforça imensamente o seu impacto. Da arte, destacam-se os tons, as cores contrastantes e, acima de tudo, a expressividade das personagens. Dos diálogos, a mistura de intriga e de inocência que faz com que TIM seja, ainda e sempre, o centro de algo muito maior do que ele. As vulnerabilidades das personagens - expressas tanto em texto como em imagem - tornam-se assim nas grandes forças de uma história cheia de acção e de potencial.
Sendo o segundo volume de uma história mais vasta, não é de esperar que sejam já dadas todas as respostas. E não são mesmo. Todo o final é, aliás, uma grande pergunta - uma pergunta tão grande que deixa uma vontade praticamente irresistível de saber o que acontece a seguir. Final mais aberto seria difícil, mas é também um final adequado, pois replica - e intensifica - a estrutura do volume anterior. TIM parte de uma mudança, percorre um caminho difícil e completa uma fase do seu percurso - a que se seguirá certamente algo de diferente. As respostas em falta são também possibilidades - e o que se segue só pode ser bom. 
A mesma emoção, o mesmo fascínio e o mesmo equilíbrio entre acção e emoção - mas com o dobro da intensidade. Assim é este segundo volume: uma leitura viciante, intrigante, muito comovente e que promete ainda novas e melhores surpresas para o que resta descobrir da história. Belíssimo - e muito bom.

Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Cor Verde (Jaime Soares)

Verde. Cor de esperança, mas de muito mais do que isso. De amor e tentação, de perda, de desilusão, de maldições que se prolongam e que, sem ganhar forma, assombram. Verde - o discreto fio condutor que une estes dois contos, tão diversos na linha essencial do enredo, mas com tanto, afinal, em comum.
Dos dois contos que compõem este pequeno livro, o primeiro e mais extenso é Vedação. Fala de um fotógrafo e de um trabalho invulgar, em que as teias insinuantes do erotismo se conjugam com a mágoa de um amor que fugiu. Longo e bastante descritivo, tanto nos cenários como no comportamento das personagens, é um conto de ritmo bastante pausado e, envolto em enigmas do início, deixa umas quantas possibilidades sem resposta. Ainda assim, faz todo o sentido que assim seja e é difícil não se entrar no fascínio da qualidade quase onírica que parece envolver todo o cenário.
No segundo conto, Casebre, história de uma ambígua maldição familiar, muda o enredo e o ritmo acelera um pouco, mas mantém-se o mesmo equilíbrio entre um cenário quase que sonhado e uma deambulação onde pensamentos e imagens quase se misturam. As personagens, complexas como parecem ser, não são ainda assim o cerne da história. É-o o mistério, que parece ganhar vida em cada momento peculiar, em cada acaso e coincidência  e no que também aqui é deixado para esclarecer.
A unir as duas histórias está o verde: discreto, manifestando-se apenas em pequenas coisas, mas com uma influência como que de assombração. E é deste pequeno verde que emergem as outras qualidades comuns: o tom ambíguo (e, por isso, intrigante), o cenário que parece estar ao mesmo tempo ali tão perto e num passado muito longínquo e uma escrita que, parecendo deambular ao ritmo dos pensamentos das personagens, sabe, ainda assim, onde pretende chegar. Ficam perguntas sem resposta? Sim. Mas é dessa natureza a vida das personagens: uma vida que é quase inevitável que se tente imaginar depois do fim.
Breve, mas surpreendentemente complexo e com um ambiente feito de sonhos que se entrelaçam com a realidade, trata-se, pois, de uma leitura cativante, feita de personagens imperfeitas na dança (também) imperfeita da vida. Gostei.

Título: A Cor Verde
Autor: Jaime Soares
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Bertrand

Como foi possível alguns dos maiores criminosos nazis terem conseguido escapar da Europa e evitar o julgamento em Nuremberga? Este livro analisa as circunstâncias dessas fugas, debruçando-se especialmente sobre a chamada Rota das Ratazanas (ou Ratlines), nome dado ao esquema internacional que possibilitou a milhares de nazis, acusados de genocídio e de crimes contra a Humanidade, fugirem da Europa — colaboração que ainda hoje envergonha muitas pessoas e instituições, em especial o Vaticano. Entre as ratazanas cuja evasão se estuda contam-se Adolf Eichmann, o arquitecto do Holocausto, Josef Mengele, o Anjo da Morte de Auschwitz, Franz Stangl, a Morte Branca, Erich Priebke, o Carrasco de Roma, Klaus Barbie, o Carniceiro de Lyon, John Ivan Demjanjuk, ou Ivan, o Terrível, Gustav Wagner, o Monstro de Sobibor, Otto Wächter, o Carrasco de Cracóvia, Walter Rauff, o Assassino do Gás, Herberts Cukurs, o Carrasco de Riga, Hermine Braunsteiner, a Égua de Madjdanek, e Erich Rajakowitsch, o Carrasco da Holanda — alguns dos maiores criminosos morais e de guerra do século XX, que deixaram para trás um rasto de sangue e terror.

Eric Frattini foi correspondente no Médio Oriente e residiu em Beirute e Jerusalém. É autor de mais de uma vintena de livros e ensaios, entre os quais se contam Mossad: Os Carrascos do Kidon e Hitler Morreu no Bunker?. A sua obra está traduzida para várias línguas e editada em 47 países. Em 2013, recebeu o II Prémio Nacional de Investigação Jornalística (Itália) pela sua investigação do caso Vatileaks — trabalho que deu origem ao livro, já publicado em Portugal, Os Abutres do Vaticano — e o Prémio Anual Strillaerischia (Itália) pelo seu trabalho como correspondente no Afeganistão. Realizador e guionista de dezenas de documentários de investigação para as principais cadeias espanholas de televisão, colabora assiduamente em diferentes programas de rádio e TV.
Ministra frequentemente cursos e conferências sobre segurança e terrorismo islâmico a várias forças policiais e de segurança em Espanha, na Grã-Bretanha, Portugal, Roménia e Estados Unidos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Night Driver (Marcelle Perks)

Frannie deixou a sua vida e o seu país para viver com o marido na Alemanha, mas agora, no fim da gravidez, começa a ver que Kurt não é quem ela pensou que era e que a sua relação está a desmoronar. Entretanto, Frannie sabe que tem de aprender a conduzir para poder tomar conta do seu bebé, mas as aulas estão a dar-lhe cabo dos nervos e tudo piora quando um péssimo condutor se cruza no seu caminho. Mas ainda pior é que Lars não é apenas um condutor maluco. Tem uma compulsão que o leva a matar. E quando Frannie tenta ajudar um novo amigo a encontrar a irmã desaparecida, o seu caminho cruza-se com o de Lars numa vida muito mais perigosa.
Uma das primeiras coisas que importa referir sobre este livro é que está cheio de surpresas. No princípio, leva-nos a acreditar que a situação no trânsito será o desencadeador de um conflito muito mais negro. Mas depois tudo se expande. Lars não é apenas um assassino em série, mas também um homem influente no mundo das drogas e da prostituição. E o seu sócio, Hans, é ainda pior. É a relação entre ambos, todavia, que dá origem às maiores surpresas da história. Pois Hans tem a sua própria perversidade e, quando as coisas começam a complicar-se, começam também a ficar mais negras.
Também bastante impressionante é o facto de a história arrancar a um ritmo relativamente pausado, embora intrigante, crescendo depois exponencialmente a nível de intensidade. Começa de forma relativamente calma, apesar dos momentos de tensão, e depois as coisas parecem descontrolar-se para todas as personagens centrais. Define-se uma rota, fazem-se planos... e a busca de respostas representa um perigo para todos. Frannie e Dorcas tentam descobrir o que aconteceu a Tomek. Lars... bem, tenta recuperar o controlo da sua vida retorcida. E, à medida que estes dois caminhos convergem, a história torna-se viciante. E no fim tudo é inesperado.
O que me leva a um outro aspecto inesperado: Lars. É um assassino em série e há muito tempo que tem vindo a matar. Mas não é necessariamente o mal maior nesta história, o que é em si também uma surpresa. Além disso, há uma complexidade subjacente ao que o move e isso coloca-o num caminho com apenas duas possibilidades futuras: total condenação ou a redenção possível. Também isto faz parte do que torna o final tão forte. Ninguém era exatamente o que parecia. Mas Lars? Era isso, mas também mais.
Com um cenário tão negro e intrigante como a mente de algumas das personagens, no fim, tudo neste livro se resume a isto: uma história intensa e intrigante, com relações intrincadas e um conjunto de personagens bastante complexo e impressionante. Um muito bom livro, em suma.

Título: Night Driver
Autora: Marcelle Perks
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Grandes Insultos (Manuel S. Fonseca)

Chama-se O Pequeno Livro dos Grandes Insultos - e é um livro que se sintetiza perfeitamente a si mesmo no título. Pequeno, porque é um livro relativamente pequeno. E quanto a Grandes Insultos? Bem, é exactamente isso. Por isso, não se esperem grandes eufemismos e muito menos insultos menores. Este é um livro como poucos no que toca à abundância de palavrões por metro quadrado. E, por isso, nesta sua estranha declaração de amor ao palavrão, é também um livro especialmente rico nesta tão específica área do vocabulário.
Um dos primeiros aspectos que importa referir acerca deste livro - e talvez algo surpreendente tendo em conta o conteúdo - é o talvez inesperado facto de se tratar de um livro... bonito. Bonito, sim, com os seus tons de vermelho na capa e no interior e os elementos visuais bombásticos (talvez não no primeiro sentido que vem ao pensamento) presentes ao longo do livro. E isto tem um efeito curioso: é que, além de despertar a curiosidade para a leitura, quase que desmistifica o factor choque nesta abordagem bastante complexa à arte do palavrão. Afinal, também faz parte da vida, não é? E os tabus... bem, alguns existem para ser quebrados.
Mas passemos ao conteúdo e importa, claro, começar por dizer que talvez não seja um livro recomendado às almas mais sensíveis. É que, se pensarem no palavrão mais forte que conseguirem imaginar e depois o forem procurar nas páginas deste livro, é bem provável que o encontrem. Até porque alguns deles são do tipo que se ouve a toda a hora. Mas há, mais do que os insultos em si - e não é impressionante a criatividade de alguns dos insultos que vêm à cabeça das pessoas? - destacam-se dois aspectos: primeiro, a organização do livro, que lhe confere quase que um estatuto de tratado sobre o vernáculo; e segundo, a boa disposição que faz com que até as mais rebuscadas blasfémias despertem facilmente uma gargalhada. Ou não fosse o inesperado um dos factores que aumentam o impacto de um palavrão bem proferido.
Há algumas repetições ao longo do livro, principalmente de expressões que surgem em múltiplos contextos. Mas, embora isto desperte a sensação de já ter visto aquele insulto antes, faz todo o sentido que esta repetição aconteça: afinal, o contexto também faz parte do impacto e o palavrão é um departamento da linguagem que inclui muitas possibilidades.
Fica, então, esta curiosa impressão: a de um pequeno, mas completo, tratado sobre a surpreendentemente vasta arte de insultar. E, claro, um livro divertido e surpreendente - nos mais inesperados aspectos.

Autor: Manuel S. Fonseca
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Nuvem de Tinta

O que têm em comum a padeira Brites de Almeida, a sufragista Beatriz Ângelo, a actriz Beatriz Costa e a pintora Paula Rego? Além de serem todas mulheres, lutadoras, corajosas, independentes e livres… são Portuguesas com M Grande! 
Todos temos o sonho de mudar o mundo e mudar com ele, de criar futuros e esperança, de ser livres para escolher, transformar, crescer e aprender, de errar e construir um caminho, de viver uma vida em pleno. E hoje todos podemos fazê-lo. Mas para aqui chegar foi necessária a coragem de mulheres sem medo para ir mais longe, como as Portuguesas com M Grande!
Um livro para nunca esquecermos como aqui chegámos e nos lembrarmos de que poderemos ir ainda mais longe.

Lúcia Vicente nasceu em Outubro de 1979, à beira da Ria Formosa, em Faro, numa família cheia de mulheres. Foi a primeira desse núcleo a concluir uma licenciatura. Cedo se questionou sobre o papel da mulher na sociedade e por que razão os livros de História nunca mencionavam mulheres. Em 1995, criou, juntamente com um grupo de amigas e amigos, o colectivo feminista MUPI (Mulheres Unidas Pela Igualdade).

Cátia Vidinhas nasceu em 1989, num lugar onde as montanhas são tão altas que facilmente se consegue chegar ao céu. Enquanto ilustradora, colaborou com autores como Valter Hugo Mãe, Álvaro Magalhães, José Jorge Letria e Adélia Carvalho. É autora das ilustrações de oito livros infantis, entre os quais Figura de Urso (2015), Palavras Bonitas Sobre Contas (2017) ou Infâncias (2017). Os seus livros estão publicados em diversos países, como Espanha, Brasil ou Colômbia. Em 2015, viu o seu trabalho destacado pelo Prémio Nacional de Ilustração com o livro WonderPorto.