segunda-feira, 25 de março de 2019

Brilha, Brilha, Unicórnio (Dana Simpson)

Ter um unicórnio como melhor amigo tem as suas... particularidades. Principalmente se se tratar de um unicórnio tão único como a Pureza. Com o seu (não muito) humilde esplendor, a Pureza dá brilho à vida quotidiana da Bia, além de partilhar com ela boleias, pequenas aventuras e a ocasional pérola de sabedoria. O resultado é, claro, uma vida mais cintilante!
Uma das primeiras coisas que importa dizer sobre este livro é que está muito longe de ser apenas para os mais novos. Fãs dos Mutts e de Calvin e Hobbes poderão encontrar na Bia e no seu unicórnio a mesma sensação de magia e de um delicado equilíbrio entre inocência e perspicácia na forma como as personagens vêem o mundo. E, embora haja uma sensação de continuidade entre os diferentes episódios, cada página é um todo completo, o que faz também deste livro um bom ponto a que regressar para recordar momentos específicos.
Mas falando especificamente da Bia e da Pureza. Sendo uma das protagonistas um unicórnio, brilho e cor são coisas bastante expectáveis. Mas há mais. há um equilíbrio entre estas cores vivas e cativantes e uma simplicidade que realça o essencial. Cada breve episódio traça uma ideia ou uma mensagem, e a simplicidade da imagem, associada à nitidez da cor, realça o impacto dessas ideias. Além, é claro, de haver também uma certa beleza associada a esta simplicidade - já disse que a Pureza é um unicórnio, não já?
Há sempre uma contrapartida em todas as histórias curtas, que é aquela vontade que fica de saber um pouco mais. Da vida da Bia, e também da natureza do seu unicórnio, vão surgindo novas perguntas a cada novo vislumbre, o que acaba por deixar também uma certa curiosidade em conhecê-las mais a fundo. Mas também aqui a brevidade e a simplicidade fazem sentido: cingindo-se ao essencial, a mensagem acaba por sobressair mais. O resto... bem, fica à imaginação do leitor.
Bonito, cativante e com uns quantos rasgos inesperadamente sábios, trata-se pois de uma leitura simples e envolvente para leitores de todas as idades. Fica a curiosidade em conhecer mais das histórias da Bia e do unicórnio. 

Autora: Dana Simpson
Origem: Recebido para crítica

sábado, 23 de março de 2019

Percy Jackson e o Mar dos Monstros (Rick Riordan)

É o último dia de aulas e Percy sente-se invulgarmente feliz: pela primeira vez, conseguiu chegar ao fim do ano lectivo sem ter sido expulso da escola. Mas essa paz está prestes a terminar. Tudo começa com um inesperado ataque de monstros canibais em plena aula... e as coisas não tardam a descontrolar-se. É que também entre os semideuses a situação está a descontrolar-se. A árvore que mantinha as defesas foi envenenada e só um artefacto poderoso pode salvá-la. Um artefacto que, por acaso, está em pleno Mar dos Monstros, onde o amigo de Percy, Grover, está também metido em sarilhos...
Um dos aspectos mais interessantes desta série, e um que se torna evidente logo ao iniciar a leitura deste segundo volume, é a agradável sensação de familiaridade que surge com o regresso. Agora que muitas das personagens são já conhecidas, tal como o mundo em que se movem e as relações entre elas, voltar a este mundo é como reencontrar um local onde já fomos felizes. É um mergulho imediato num oceano conhecido, onde tudo é agradável e cativante, e onde há também espaço para novos momentos bons e novas surpresas.
Porque surpresas não faltam. O regresso de Percy vem acompanhado de grandes mudanças, desde aliados que foram afastados a novas e inesperadas aparições dos inimigos, sem esquecer a sempre viciante teia de perigos e momentos de acção que trazem consigo não só novos elementos da mitologia (com todas as peculiaridades associadas) mas também toda uma série de aventuras intensas e surpreendentes. E, no centro de tudo, também um conjunto de sentimentos fortes: a amizade que une os protagonistas, a vulnerabilidade de se estar entre o mundo dos deuses e o dos humanos, o sempre delicado equilíbrio entre a necessidade de confiar e a possibilidade de se ser novamente enganado. Há muito de marcante a acontecer nesta história e é também por isso que é muito difícil parar de ler.
Também a escrita contribui para este embalo viciante. Ao narrar as aventuras de Percy na primeira pessoa, o autor cria uma proximidade muito mais intensa. Além disso, a visão necessariamente limitada de Percy sobre o contexto global de um mundo que apenas começou a desvendar faz com que cada revelação tenha um maior impacto. E, claro, há uma certa familiaridade na voz simples e divertida que o autor dá ao seu protagonista. Percy é jovem e é a própria escrita que nos lembra disso.
Trata-se, pois, de um segundo volume que corresponde inteiramente às expectativas, proporcionando uma aventura intrigante e cheia de surpresas ao mesmo tempo que promete já novas descobertas e novas vicissitudes para o caminho que se seguirá. Intenso, equilibrado e muito, muito viciante, um livro que prende desde as primeiras páginas e que não deixa de surpreender até ao fim. Muito bom, em suma.

Autor: Rick Riordan
Origem: Aquisição pessoal

sexta-feira, 22 de março de 2019

Flores sobre o Inferno (Ilaria Tuti)

A inspectora Teresa Battaglia encontrou no trabalho a melhor forma de lidar com os seus monstros interiores, pois, ao contrário dos outros, ela vê o inferno escondido sob as flores. Mas agora, aos sessenta anos, o corpo e a mente começam a traí-la no momento em que mais precisa de toda a sua lucidez. Um corpo foi encontrado numa pequena aldeia nos Alpes e o caso é algo nunca antes visto. Tudo aponta para um assassino em série, mas há partes que não batem certo. E, embora não faltem pistas forenses, o assassino move-se pela floresta como se da sua casa se tratasse. É preciso travá-lo... mas como? E que explicações pode haver para um comportamento tão incoerente - mesmo se visto do ponto de vista da patologia?
Um dos primeiros aspectos a chamar a atenção nesta história - e também uma das suas principais qualidades - é a peculiaridade da protagonista. Quando começamos a ler um policial, dificilmente esperamos que a figura central da investigação seja uma mulher frágil de sessenta anos cuja memória começa a falhar. Mas é precisamente esse o primeiro ponto a despertar para o fascínio de Teresa Battaglia: uma mulher fisicamente frágil, sim, mas dotada de uma perspicácia sem paralelo e com uma história pessoal que, embora abordada sempre de forma relativamente velada, realça o delicado equilíbrio entre as suas forças e vulnerabilidades.
Bastaria, pois, esta protagonista invulgar para fazer com que a leitura valesse a pena. Mas há mais. É que a história, o caso que está no cerne de toda esta investigação, é toda ela cheia de surpresas, desde os meandros de um passado sombrio envolvendo uma experiência macabra à estranheza das grandes descobertas, capazes de dar uma nova perspectiva a todo o percurso do assassino. Sem esquecer, claro, as peculiaridades dos relacionamentos fechados que unem a comunidade, gerando uma tão grande aversão ao exterior que a justiça e a necessidade de proteger vidas conseguem até ficar para trás na mente de alguns.
No fundo, o que se passa é que há um conjunto de elos que, somados, formam um todo complexo e surpreendente. Mas surpreende também a naturalidade com que estes elos se conjugam: a vida pessoal de Teresa (e a sua curiosa relação com o seu mais novo subalterno), a história do assassino e das experiências que o moldaram, os passos dados na investigação e até o ponto de união entre as diferentes vítimas, tudo isto forma uma teia intrincada, mas em que cada elemento é fácil de acompanhar. Porque tudo é interessante, claro, mas também porque a escrita tem uma fluidez que faz com que tudo pareça natural.
É esta sensação de equilíbrio que fica na memória, depois de terminada a leitura: de um equilíbrio delicado e eficaz entre um caso que se abre e resolve de forma adequada (e profundamente marcante, diga-se de passagem) e um percurso pessoal que promete ainda muito mais para desvendar. Vale, pois, a pena conhecer Teresa... e também Marini. E também esta história surpreendente e memorável.

Autora: Ilaria Tuti
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: 25 de Abril, Corte e Costura, de João Cerqueira

Celebram-se os 40 anos da revolução. A Direita propõe uma tourada, a Esquerda um desfile gay. Entretanto, chegam à cidade um antigo inspector da PIDE decidido a acabar com a festa, um toureiro espanhol que sonha com a União Ibérica, um guru tarado sexual e as Brigadas Indignadas com a missão de fazer explodir uma bomba.

João Cerqueira é doutorado em História da Arte e autor de oito livros. Está publicado em Espanha, em Itália, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Argentina e no Brasil. Venceu três prémios literários nos Estados Unidos com o romance The Tragedy of Fidel Castro que também foi considerado a terceira melhor tradução publicada em 2012 pela Foreword Reviews. O romance Jesus and Magdalene recebeu a medalha de prata no Global Ebook Awards e a medalha de bronze no Reader’s Favorite Awards em 2017. O conto Uma casa na Europa venceu o European Literary Competition Speakando, ficou em terceiro lugar no eBook Me Up competition na Austrália e recebeu uma menção honrosa no Short Story Fiction Award da revista Glimer Train em 2015.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Um Mundo sem Fim - Volume II (Ken Follett)

A mudança paira sobre o mundo, inevitável. E, por mais que os mais conservadores tentem opor-se, Kingsbridge não é excepção. Mas, para cada novo objectivo erguem-se novos protestos, e a sombra da peste paira sobre o país, ceifando vidas sem olhar a classes, deixando campos e negócios ao abandono e obrigando a medidas drásticas. É neste cenário que as vidas de Caris, Merthin, Ralph e Gwenda prosseguem, sempre no fio da navalha, entre os sonhos que persistem em alimentar e as batalhas constantes contra o que parecem ser intrigas incessantes e poderes inabaláveis. Mas a mudança é a única verdadeira constante - e o passar do tempo e dos perigos faz com que tudo ganhe novas formas. 
Parte do que torna este extenso livro tão marcante (porque, afinal, este é apenas o segundo volume e muito aconteceu já no interior) é a forma como a história parece abranger vidas inteiras, traçando para as suas personagens não só um contexto de mudança global, mas também um percurso de mudança e crescimento para cada uma das personagens. Ninguém chega ao fim da história tal como era no princípio. Pelo caminho, houve obstáculos, perdas, medos, batalhas perdidas e pequenas grandes vitórias. Crescimento, em suma. E isto é particularmente interessante porque, além de dar origem a história sempre intensa e cativante, apesar da sua extensão, permite ver as mutações que a vida opera sobre cada uma das diferentes personalidades envolvidas.
Tal como no primeiro volume (e como, aliás, seria de esperar), uma das grandes qualidades é a capacidade de despertar emoções fortes: há momentos de perigo, ameaças terríveis, a sempre pesada sombra da peste, relações que florescem, se quebram e voltam a renascer e vidas que, após demasiadas intrigas, acabam por receber mais do que o que esperavam por recompensa. De tudo isto, nascem momentos belíssimos, rasgos de emoção profunda, bem como momentos de tensão e de perigo. Até porque há um outro aspecto importante nestas personagens: as que não são fáceis de amar, são fáceis de odiar.
É um caminho longo, onde muitas vidas e histórias se cruzam. Talvez por isso não surpreenda que, embora todos os aspectos encontrem algum tipo de resolução, nenhuma delas seja propriamente perfeita. Aliás, na vida raramente o são. E, sendo certo que em casos como o de Philemon, fica até o desejo de uma queda um pouco mais dramática, faz sentido que as coisas terminem da forma como o fazem. Afinal, nem sempre são os heróis que vencem. E entre o desejado e o necessário, o caminho das personagens acaba por convergir nos destinos mais adequados.
Extensa e complexa, mas também intensa e repleta de momentos marcantes, trata-se, em suma, de uma leitura que exige o seu tempo, mas que merece cada segundo. Pois, com as suas personagens notáveis, o seu enredo cheio de mudanças e o seu mundo tão vasto como a vista da torre da catedral, nunca deixa de cativar e de surpreender. E fica na memória, claro, pelas emoções, pela história e, principalmente, pelas personagens. Muito bom.

Autor: Ken Follett
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 19 de março de 2019

Como Cozinhar uma Criança (Afonso Cruz)

Os ingredientes são claros - mas os dois cozinheiros têm ideias bastante diferentes para o seu objectivo de cozinhar uma criança. Para o primeiro, a intenção é o mais literal possível. Já o segundo vê as coisas de forma bastante mais metafórica. E se um tempera com sal e ervas, o outro tempera com outro tipo de ingredientes, mais interiores. Mas afinal vão cozinhar uma criança ou não? Bem... talvez. 
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção para este livro será - naturalmente - o título. Afinal, isto de cozinhar uma criança parece coisa de bruxas ou de outras entidades de quem se dizia que comiam criancinhas. Pois não é disso que se trata, mas não deixa de ser um diálogo muito interessante, em que o cozinheiro que pretende literalmente cozinhar crianças e o que opta pelo sentido mais metafórico defendem também visões muito distintas do mundo.
É precisamente esta visão que torna este livro apelativo não só para os mais novos, mas para leitores de todas as idades. Afinal, a ideia de "cozinhar" crianças no sentido de fazer deles adultos conformados não está assim tão distante da nossa realidade, pois não? Mais do que a história, que é, afinal, bastante sucinta, sobressai, por isso, uma mensagem positiva: a da necessidade de cozinhar mentes criativas, em vez de mentes resignadas. 
E, claro, impõe-se falar das ilustrações, que, não sendo um acompanhamento preciso da conversa, conseguem, ainda assim, acrescentar algo de novo à leitura. Primeiro, pela beleza da ilustração em si. Depois, pelo contraste entre os ingredientes normais (que ganham aqui uma nova forma) e, bem... os ingredientes de eleição do Cozinheiro 1. 
Lê-se num instante, mas conteúdo não lhe falta. E, além de uma leitura cativante e com uma mensagem muito pertinente, é também um livro bonito para folhear e descobrir. A impressão global é, por isso, muito positiva, de uma leitura que vale a pena apresentar aos mais pequenos... e não só. 

Autor: Afonso Cruz
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Mulher do Roupão de Seda (João Bernardo Soares)

Fátima passeia-se pelo prédio vestindo um roupão de seda como se nada se passasse no seu mundo. E, embora muitos a achem estranha, poucos parecem saber o segredo escondido no interior do seu apartamento. É uma mulher com um passado de dor e um presente de vingança. É também uma mulher capaz de chamar a atenção dos homens, inclusive de Flávio, um rapaz com idade para ser seu neto. Só que Flávio também não é um rapaz normal: em tempos, para lidar com um pesadelo recorrente, a avó levou-o a uma bruxa que fez uma profecia macabra. E agora, dez anos depois, essa profecia parece começar a ganhar vida.
É difícil dizer muito sobre este livro, pelo menos no que à história diz respeito, sem contar demasiado. A narrativa oscila entre diferentes períodos da linha temporal, e também entre diversas personagens, o que faz com que cada pequena revelação acabe por adquirir uma importância inesperada numa fase posterior do enredo, ainda que inicialmente possa parecer inofensiva. Assim sendo, é difícil traçar contornos para esta história sem estragar o efeito surpresa - e surpresas é o que não falta neste livro.
Deixando, pois, o enredo no campo dos enigmas que tão bem lhe assentam, passemos então às personagens. É talvez aqui que se encontra a maior força, e também a maior ambiguidade. Em certa medida, todas as personagens são vítimas de algum tipo de padecimento, e é este a força motriz para tudo o que virá depois. E estas múltiplas formas de padecimentos - maus-tratos, pesadelos, fantasias, desejos de vingança - fazem também com que nenhuma das personagens seja propriamente linear, pelo menos num sentido de separação clara entre bem e mal. A sensação que fica, ao longo de toda a leitura, é como um não saber o que pensar das personagens, que, não sendo heróis nem vilões, mostram um pouco de ambos, à medida que o enredo se encaminha para a derradeira conclusão. E assim afecto se transforma em ódio, numa história com tanto de emocional como de macabro e onde nada - mas mesmo nada - é tão simples e recto como parece.
Há ainda um outro aspecto a destacar, e prende-se naturalmente com a forma como a escrita parece realçar cada uma das múltiplas facetas e interrogações do enredo. Às vezes, adopta o tom simples e descontraído típico de um rapaz de dezassete anos. Outras, adensa-se para realçar o negrume da dura e cruel vida na aldeia. E outras ainda, parece verter-se em contrastes, ao ritmo de uma memória que ressurge em clarões. O impacto ajusta-se na perfeição àquilo que é narrado, sem dizer tudo, sim (o que deixa, claro, uma certa curiosidade em aberto), mas dizendo sempre o suficiente.
Um mistério pejado de mistérios: passados, presentes e... futuros. Assim é, pois, este livro, onde múltiplas vidas se cruzam e onde uma certa magia sombria contribui para cruzar destinos contrários. Cativante, intenso, e com um estranho e fascinante equilíbrio entre leveza e escuridão, um livro que prende desde as primeiras páginas e nunca deixa de surpreender. 

Autor: João Bernardo Soares
Origem: Recebido para crítica