quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Festa de Anos Mortal (Sue Fortin)

Carys, Zoe, Andrea e Joanne costumavam ser grandes amigas, mas as dificuldades dos últimos dois anos fizeram com que as relações se tornassem tensas. Assim, quando Joanne as convida para a festa de aniversário que preparou, um fim de semana cheio de aventura e de surpresas, as amigas sentem-se obrigadas a aceitar, na esperança de que a intenção seja restaurar a relação do passado. Só que as intenções são outras. Joanne guarda grandes ressentimentos e pretende confrontar as amigas. E não é a única com planos dramáticos para esse fim de semana...
Narrado maioritariamente na primeira pessoa, e com um enredo que é todo ele uma sucessão de mistérios e de reviravoltas, é na imprevisibilidade que está a grande força deste livro. Desde o início que é bastante óbvio que há planos tenebrosos em curso, mas essa é mesmo a única certeza ao longo de todo o enredo. Além disso, o desenrolar das circunstâncias e a abundância de segredos guardados pelas várias personagens fazem com que a suspeita seja uma constante, incidindo até sobre a própria narradora. O que significa que a leitura facilmente se torna viciante, pois é impossível não querer desvendar a verdade por trás desta teia de intrigas e de segredos.
É certo que a perspetiva de Carys implica algumas limitações, pois a sua visão pessoal significa que o que move as outras personagens acaba por ser visto apenas na medida do que ela sabe. Ainda assim, este menor desenvolvimento de alguns aspetos secundários acaba por ser compensado pela intensidade das surpresas e pelas muitas reviravoltas que se seguem a cada revelação. Além disso, Carys é deliberadamente pouco fiável enquanto narradora, o que significa que nada é o que parece... incluindo o que ela vai relatando.
A história vai, pois, crescendo em intensidade e abrindo caminho para um final vertiginoso. E também particularmente adequado, tendo em conta o desenvolvimento das personagens. É que é esta é uma história onde ninguém é propriamente inocente, e onde são inevitáveis os sentimentos ambíguos sobre as personagens e as suas escolhas passadas e presentes. Esta ambiguidade moral torna, porém, tudo mais intenso, pois onde todos têm segredos, todos podem estar dispostos a tudo para os esconder. E isso contribui para adensar o mistério.
Intenso, viciante e carregadinho de surpresas, eis, portanto, um livro que prende do início ao fim. Com um núcleo de personagens nem sempre fáceis de entender, mas com uma sucessão de intrigas e de ações que culmina num final poderoso e memorável, vale bem a pena descobrir esta história. 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A Criatura do Lago (Bruno Matos e Raquel Carrilho)

A Mizé está a precisar de sossego. E por isso decide ir passar uns dias com os seus amigos da Família Monstro. Só que, em Monstrópolis, nunca há dias aborrecidos e, sendo assim, é certo que tem à sua espera uma bela aventura. Tudo começa com uma visita a um primo da Mamã Ogre, que vive numa casa humilde junto ao lago. Mas essa casa humilde transformou-se na fortuna do proprietário, através da inesperada de um monstro cuja fama atravessa mundos: a Nak'ia... ou Nessie. E há muitos interessados nela, nem todos com boas intenções.
Parte do que torna estas histórias tão cativantes é a forma como, de forma simples e divertida, conseguem proporcionar sempre uma bela aventura sem perder de vista as mensagens e valores que se pretende realçar. Neste caso, temos vários, desde o medo da diferença à forma como traumas passados levam a generalizações erradas, sem esquecer, claro, a forma como a ganância leva a atos censuráveis, e também que as aparências iludem. Tudo isto está presente nesta história e é refletido da mais eficaz das formas: pelo exemplo. Ora, tendo em conta que se trata um livro infantil, esta forma de transmitir a mensagem é, evidentemente, a mais eficaz.
Mas a mensagem não é tudo. Importa olhar para a história e para a forma como é construída. Ao terceiro volume da série, há um conjunto de características que são, à partida, expectáveis: as ilustrações cheias de cor e de expressividade, a relativa brevidade de uma história a que, apesar disso, não falta ação nem coisas interessantes a acontecer, e um núcleo de personagens surpreendentemente fofas, dada a sua natureza. Mas há também elementos novos: novas personagens, novos desenvolvimentos e uma nova aventura para descobrir, o que significa que as histórias nunca se tornam repetitivas.
Importa, finalmente, referir que, apesar de ser uma história pensada para um público jovem, daí a relativa simplicidade, tem o cuidado de não se tornar demasiado simples. E isto aplica-se não só à história, mas também à escrita, havendo um claro incentivo ao desenvolvimento de um vocabulário maior. Além, claro, de alguns pormenores deliciosos, como a existência de uma personagem chamada Baaz Ofya.
Simples e divertido, com uma história cativante e uma mensagem forte, trata-se, em suma, de um livro perfeito para os mais novos, mas perfeitamente capaz de cativar também os que... já não o são. É sempre bom reencontrar esta curiosa família, e ir com ela à aventura.

sábado, 16 de outubro de 2021

Diário de Uma Miúda como Tu - Sem Dramas, Please! (Maria Inês Almeida e Manel Cruz)

Mais um aniversário, mais umas férias... e, como sempre, não faltam à Francisca coisas a que se dedicar. Desde a melhor festa de aniversário de sempre (bem, quase) ao campo de férias de teatro, passando pelas suas iniciativas em prol do ambiente, não lhe falta com que ocupar a cabeça. Além, claro, das amigas e das paixonetas. Mas há ainda um mistério a pairar. Andam a desaparecer coisas do teatro. Será um fantasma? Ou algo mais mundano?
Ao sétimo volume de uma série, e sobretudo de uma série em que o quotidiano desempenha um papel tão importante, não são propriamente de esperar grandes surpresas em termos de qualidades. Mas são precisamente as expetativas, e a forma como cada novo volume lhes corresponde sempre, um dos aspetos que tornam estes livros tão cativantes. Sempre simples, sempre divertidos e sempre com uma componente didática que flui com naturalidade por entre os ritmos do enredo, podem seguir essencialmente um percurso comum, mas nunca deixam de proporcionar uma leitura envolvente, não só por haver sempre algo de novo nas aventuras da protagonista, mas porque, chegados a este ponto, já é quase como se estivéssemos a vê-la crescer.
Sendo uma série juvenil, há caraterísticas que são quase inevitáveis, e que importa sempre salientar, desde a relativa simplicidade do texto e do enredo às ilustrações também simples, mas que se ajustam perfeitamente ao que imaginamos ser... bem, o diário de uma miúda. Vista da perspetiva adulta, sobressai ainda outro aspeto: a dos vários temas importantes que vão sendo abordados de forma bastante concisa, mas também muito certeira. E que não são, de todo, importantes apenas para os mais jovens.
Não deixa de ser a história de uma miúda de onze anos. O que significa que, além das preocupações globais, tem também as suas aspirações e dramas pessoais - como, aliás, é anunciado pelo próprio título. E este equilíbrio entre as duas facetas torna a personagem mais real, mais próxima. E se o faz da perspetiva de um adulto, fá-lo-á ainda mais, certamente, junto do público a que se destina.
Leve, divertido, educativo e cativante: assim se resume, basicamente, este novo diário da Francisca. Que continua igual a si mesma e igualmente digna de acompanhar nas suas sempre descontraídas e envolventes aventuras.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Umbigo do Mundo, Vol. 1 - Alma Mãe (Penim Loureiro e Carlos Silva)

O mundo transformou-se. Ignorados os avisos da natureza, instalou-se a deterioração e a decadência. Mantém-se, ainda que com uma estrutura mais vincada, a divisão entre norte e sul e o fosso entre ricos e pobres, mas elevado agora a um nível de vida ou morte. E é neste mundo de poder e de ruínas que a misteriosa Alma se move. Ninguém sabe muito bem as suas origens, mas tudo indica que é mais velha do que aparenta. E o que começa por ser apenas um roubo desperta interesses perigosos para a sua singularidade. E o perigo torna-se mais vasto... e mais próximo.
Mais do que a história propriamente dita, ainda que também ela tenha muito de interessante, o primeiro ponto a captar a atenção neste livro é visual. Visual e omnipresente, pois uma das grandes forças está nos cenários, na construção de um mundo feito de singularidades, mas também de paralelismos, e onde é fácil intuir muitas referências, desde um espírito como que greco-romano a elementos aparentemente templários. É curioso, aliás, que sejam os cenários que mais ficam na retina, tendo em conta que também não faltam movimento e expressividade na ação. E, que entre os grandes momentos de ação e as pequenas pérolas emotivas, seja a paisagem aquilo que mais sobressai.
Olhando agora para o enredo, há sobretudo dois aspetos a destacar, importando, ainda assim, referir primeiro um outro: que, sendo um primeiro volume, ficam necessariamente perguntas sem resposta. Muitas perguntas. Perguntas que fazem sentido, não só em termos de continuidade, pois a história termina num ponto de abertura para múltiplas possibilidades, mas também de passado. É que a linha temporal parece ser tudo menos linear - o que significa que estas perguntas sem reposta sobre passado e futuro prometem muito de bom para o que se seguirá.
Passando, então, aos dois aspetos que sobressaem. Um deles é, obviamente, a construção do mundo e das suas regras, já refletido na vasta paisagem visual, mas também muito presente na construção das diferentes forças em movimento, e na forma como refletem com aterradora precisão certas facetas do nosso próprio mundo. O outro é o equilíbrio entre ação e emoção que, numa história que é apenas o início, e onde muito fica em suspenso, gera um interesse quase imediato pelas personagens e pelo que lhes acontece.
Altamente promissor e também muito cativante: assim se pode descrever, pois, este primeiro contacto com o Umbigo do Mundo. Uma viagem visualmente fascinante, mas também cheia de intensidade e de expressão. Recomenda-se, em suma. E mal posso esperar para ver o que vem a seguir.



terça-feira, 12 de outubro de 2021

O Hotel de Vidro (Emily St. John Mandel)

Vincent sempre viveu, de certo modo, à deriva, assombrada pelo desaparecimento inexplicável da mãe, pelos comportamentos do meio-irmão, pelas dúvidas sobre o que fazer consigo mesma. Mas a vida vai passando e, apesar de todas as sombras, vai encontrando os seus passos, o seu caminho, o seu lugar. E um dia, enquanto trabalha no bar de um hotel no meio do nada, a sua vida cruza-se com a de Jonathan Alkaitis, dono do hotel e uma grande figura do mundo financeiro. Começa assim uma nova mudança de vida e a entrada fulgurante no país do dinheiro. Mas Alkaitis tem os seus próprios segredos e a teia que construiu reúne muitas vidas - e consequências capazes de as abalar a todas.
Uma das primeiras e mais marcantes impressões da leitura deste livro é o reforçar de uma perceção comum ao anterior Estação Onze: a extraordinária capacidade que a autora tem de construir histórias complexas, de entrelaçar múltiplas vidas através de longos e conturbados períodos de tempo e de construir com elas poderosos contrastes, seja qual for o cenário ou o tipo de perturbações envolvidas. Em termos de enredo geral, dificilmente poderiam ser mais diferentes, mas têm em comum esta voz singular, que dá a cada personagem e a cada desenvolvimento o equilíbrio perfeito entre complexidade e naturalidade, entre a esperança das aspirações e a imensa desolação da realidade.
O enredo oscila entre diferentes períodos de tempo, com avanços e recuos na linha temporal, mas feitos sempre com uma tão grande naturalidade que nunca é difícil acompanhar o ritmo. Oscila também entre diferentes personagens, ao ponto de ser difícil, por vezes, associar o protagonismo a uma só, pois todas têm vidas completas, histórias fascinantes e percursos carregadinhos de momentos memoráveis. E tudo vai convergindo, à medida que as relações se tornam mais claras, num crescendo de intensidade, feito de grandes surpresas e de pequenas revelações, de tragédias anunciadas e de outras que sempre estiveram lá, na sombra, à espera de se fazerem notar.
Ainda seguindo nesta senda, importa salientar o que é, provavelmente, o aspeto mais poderoso de uma história toda ela impressionante: a forma como as linhas da moralidade se cruzam, sem nunca se esbater por completo, mas criando sentimentos contraditórios que tornam tudo ainda mais notável. A figura mais impressionante neste sentido é, como seria de prever, a de Jonathan Alkaitis, dadas as repercussões das suas atividades. Mas é algo que está presente em todos, desde Paul à própria Vincent: uma relativa ambiguidade que não dilui por completo a linha que separa o certo do errado, mas que permite sentimentos de empatia, de proximidade e até de um certo apego, mesmo por aqueles que, sob qualquer perspetiva lógica, só poderiam ser classificados como vilões.
O enredo é soberbo. As personagens são fascinantes. E a escrita é simplesmente sublime na precisão com que desperta emoções e sustém com avassaladora naturalidade uma complexa teia de equilíbrios e de ações. Tudo neste livro é memorável. Tudo é brilhante. Magnífico.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A Mulher de Vestido Vermelho que Dança na Praia (Pedro Rui Sousa)

Vivem-se tempos de mudança e de luta na cidade de Hong Kong, mas, para o protagonista desta história, as lutas e os conflitos são outros, mais pessoais, mais internos. Entre sucessivos encontros amorosos sem grande futuro, projetos de escrita meio dispersos e uma vida de viagens mais ou menos impulsivas, procura uma forma de lidar com dois sentimentos contraditórios que o atormentam: o peso da solidão e o medo da intimidade. O caminho, porém, é tudo menos linear, até porque nem tudo tem respostas na vida. E, aos poucos, vai-se encontrado na procura da mulher que procura. Nem sempre gostando do que vê, mas aspirando a tentar ser quem é.
É nos contrastes da escrita, e no estranho equilíbrio entre uma introspeção poética e uma visão por vezes brutal da realidade, que está a grande força deste livro. Os capítulos curtos tornam mais fluida a sucessão de introspeções. O choque entre espiritual e carnal ganha forma num contraste tão poderoso que é quase avassalador que todos esses momentos possam pertencer a uma única vida. E não faltam frases a ficar no pensamento e ecos de uma vaga identificação, mesmo quando o percurso do protagonista se revela no seu mais pessoal e intransmissível.
Esta proximidade suscitada pelas palavras torna-se ainda mais interessante se tivermos em conta o labirinto de sentimentos ambíguos que o percurso do protagonista parece despertar. Não é propriamente o tipo de vida - e de personalidade - que desperte uma empatia incondicional, até porque parte da sua história é feita de decisões questionáveis. Mas é algo curioso a forma como é possível não simpatizar muito com a personagem e ainda assim compreender o que a move. E reconhecer no seu percurso algo maior do que ela e que suplanta até os tais sentimentos ambíguos.
Tendo em conta todos estes contrastes, que vão das ambiguidades do protagonista a um certo percurso de possível crescimento espiritual, não é de surpreender que o final deixe também muito em aberto. Fica, é certo, uma ligeira curiosidade insatisfeita, tendo em conta a ideia de busca que paira sobre toda a história. Mas fez sentido que tudo acabe como acaba, deixando uma sensação de que nem tudo tem respostas conclusivas (como na vida) e de que há sempre mais caminho para lá da meta (também como na vida).
Poético, mas com uma naturalidade fluida. Ambíguo, mas marcante nos seus contrastes. Introspetivo, mas com uma visão maior para lá do pessoal. Assim é este livro de solidão e de amor(es), feito de iguais medidas de carne e espírito, e muito interessante em todas as suas facetas. Uma boa surpresa, em suma.