domingo, 22 de julho de 2018

Insustentável Saudade (Jorge Afonso)

Filho de emigrantes portugueses, José nunca se sentiu totalmente enquadrado em Bordéus. E, apesar dos laços de afecto que o unem à sua namorada, a vida do adolescente é tudo menos tranquila e harmoniosa. Em casa, a mais pequena transgressão é recebida com violência. Na escola, José não vê motivos para se esforçar e, do preconceito de alguns professores, faz causa de toda a sua desgraça. A sua única esperança é o planeado regresso da família a Portugal no espaço de um ano. E, até lá, sobreviver aos maus momentos e desfrutar dos bons, procurando alcançar a tranquilidade possível. Mas, entretanto, o mundo move-se... e o tempo não pára para ninguém...
Retrato das dificuldades da emigração e de uma mentalidade bastante distinta da actual (ainda que com pontos ainda bem presentes), este é um livro que desperta sentimentos contraditórios. Por um lado, as circunstâncias difíceis do protagonista e os paralelismos com tantas outras vidas do mesmo tempo, despertam uma imediata empatia, ao mesmo tempo que levantam várias questões relevantes. Por outro, há pontos e temas que, por falta de uma conclusão vincada ou pela simples aceitação, parecem, talvez, demasiado normalizados. Mas vamos por partes.
A história gira essencialmente em torno da figura de José, adolescente dividido entre dois mundos e a lidar com pequenas e grandes dificuldades no seu caminho. E, sendo ele o cerne de toda a história, é apenas natural que o registo se torne bastante pessoal, no que aos seus sentimentos e dilemas diz respeito. Assim, a escrita cativa principalmente por expor claramente as emoções do protagonista, ainda que por vezes se disperse em descrições de locais e contextos que, embora tornando o texto mais pausado, permitem também uma visão mais clara do cenário global.
É deste cenário global que emergem as questões relevantes: a vida dos emigrantes em França nos anos 80, com as dificuldades, o preconceito e a eterna saudade da terra natal. Mas o mais curioso é a posição de José, nascido em França, mas sentindo-se sempre português, que põe no regresso todas as esperanças de superação das barreiras, barreiras essas em parte erguidas por ele mesmo e em parte pelo mundo que o rodeia. E é aqui que começam os sentimentos contraditórios, pois, se é verdade que José é, em alguns aspectos, vítima, noutros são as suas escolhas a colocá-lo na posição em que se encontra.
A dúvida essencial vem, todavia, de outro aspecto. A vida familiar de José implica castigos pesados, humilhação e violência injustificada. Este é um elemento presente ao longo de toda a história, sendo aliás a base de alguns dos momentos mais angustiantes. E é precisamente por isso que o final deixa tantos sentimentos ambíguos, pois, se faz um certo sentido um final aberto, fim de um ciclo e início de uma nova fase, o facto de deixar em aberto todas estas questões - a violência familiar, o futuro possível, a relação disfuncional de uma família onde a desvalorização do outro é algo de normal e onde parece haver tudo menos amor - parece quase normalizá-las, deixando sem resposta a razão que mais empatia despertou durante todo o percurso.
E assim, ficam portanto sentimentos contraditórios, de uma leitura essencialmente cativante e com vários momentos marcantes, onde por vezes fica demasiado por resolver. Valeu a pena a viagem, ainda assim, a este retrato de um passado não muito distante e de uma saudade ainda e sempre intemporal. 

Autor: Jorge Afonso
Origem: Recebido para crítica

sábado, 21 de julho de 2018

Sonho, Fé e Coragem (José Canita)

Vivemos num mundo em constante correria. As obrigações profissionais, os problemas pessoais e o ritmo acelerado do mundo fazem com que, muitas vezes, falte o tempo para pensarmos no nosso próprio bem-estar. E é esse bem-estar a missão do autor deste livro, resultado de um projecto envolvendo palestras em diferentes pontos do país e uma experiência que é, acima de tudo, algo de pessoal e intransmissível.
Uma das primeiras impressões a emergir desta leitura é a de que, provavelmente, terá um maior impacto para quem tiver lido o livro anterior ou então assistido a alguma dessas palestras. Porquê? Porque os temas são bastante vastos e, apesar disso, cada uma das 75 "inspirações" deste livro não ocupa mais de três páginas. Fica, por isso, a impressão de se ter apenas um vislumbre de algo que possivelmente terá sido mais desenvolvido noutros meios. E, abrangendo questões tão vastas e complexas como os principais problemas de saúde, as relações interpessoais e o próprio bem-estar interior, é inevitável a sensação de que qualquer um destes textos poderia ter sido bastante mais aprofundado.
Olhando para a perspectiva global, é fácil reconhecer uma mensagem positiva: de força para enfrentar os obstáculos, de coragem para lutar pelos sonhos e de cuidado pessoal, para uma melhor qualidade de vida. E bastaria esta mensagem enquanto chamada de atenção para tornar válida esta leitura. Ainda assim, há aspectos que deixam sentimentos ambíguos: desde logo, a já referida brevidade faz com que tudo pareça demasiado "fácil", já que, muitas vezes, o texto se cinge a algumas informações essenciais sobre o tema e um breve reforço positivo. Além disso, vários textos vivem da experiência pessoal do autor na realização do seu percurso, o que acaba por criar uma certa distância face a outras experiências e decisões. É difícil ignorar, nalguns casos, uma certa impressão de julgamento, ainda que a mensagem global seja mais ampla e mais aberta do que esses casos particulares.
Há, ainda assim, algo de muito bom a retirar desta leitura: o exemplo de determinação que moveu o autor a realizar o seu percurso. Além, é claro, da curiosidade em ver mais desenvolvimentos sobre os temas aqui abordados. Pois haverá certamente muito mais a dizer e muitas mais experiências a partilhar - em livro ou nas já referidas palestras.
Fica, pois, a impressão de uma leitura que peca um pouco pela brevidade excessiva com que aborda as várias questões. Mas também de um livro com uma mensagem positiva, alguns exemplos notáveis e um percurso pessoal que, ainda que apenas vislumbrado, denota já algo de admirável. Haveria mais a dizer? Sem dúvida alguma. Mas o que diz tem muito de interessante.

Autor: José Canita
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Deixar Ir (David R. Hawkins)

Às vezes, a vida parece estar dominada por sentimentos negativos: ira, medo, culpa... E superar o peso desses sentimentos parece algo inatingível - ou, pelo menos, só ao alcance de uns poucos iluminados. Mas, segundo este livro, não será bem assim. O primeiro passo para lidar com a negatividade é deixar ir os sentimentos negativos. E os resultados podem ser espantosos, na estabilidade mental... e talvez até para além dela.
Fundindo espiritualidade e auto-ajuda, este é um livro capaz de despertar impressões bastante distintas. Por um lado, abrange muitas possibilidades, não seguindo um método de normas e passos estritos, mas antes uma possível evolução a um ritmo pessoal. Por outro, como todos os métodos, parece abranger possibilidades fáceis de vislumbrar e outras que implicam provavelmente uma certa medida de crença. Ainda assim, o primeiro aspecto a destacar-se é que, apesar de abranger um método vasto e complexo, é possível retirar pontos positivos quer se sigam todas as orientações, quer se escolha apenas aquilo que mais parece encaixar com as crenças e experiências de cada uma. Até porque a escolha é um dos elementos essenciais deste livro.
Outro aspecto que surpreende é o contraste entre a simplicidade da base - deixar simplesmente ir os sentimentos negativos - e a abrangência e complexidade da obra construída à sua volta. Há uma análise aprofundada de todos os elementos, o que torna a leitura mais pausada e exige mais tempo de assimilação, mas permite também ver um todo mais vasto. Além disso, ao abordar diferentes áreas e possibilidades, sai reforçada a possibilidade de retirar partes do todo, beneficiando do que faz sentido durante a leitura independentemente dos sentimentos ambíguos que outros elementos possam despertar.
E esses sentimentos prendem-se essencialmente com o limite das possibilidades: se é fácil entender que uma forma de estar menos negativa resultará num maior bem-estar mental e emocional, a transposição para elementos da saúde física acaba por deixar algumas questões. O conceito de autocura, ou de cura pela fé, implica necessariamente uma dose de crença, o que deixa algumas dúvidas acerca dos reais riscos e possibilidades desse tipo de abordagem. Trata-se, ainda assim, de apenas uma das facetas de um todo bastante mais vasto. E, mesmo de um ponto de vista algo céptico, são mais as coisas positivas a retirar da leitura.
Fica, por isso, essencialmente a impressão de uma leitura interessante e com uma visão bastante abrangente das possíveis consequências de olhar a vida de uma forma menos negativa. Uma obra vasta, mas de leitura agradável, que talvez não apresente todas as respostas, mas de onde é possível, ainda assim, tirar muitos pontos positivos. E uma nova perspectiva, claro. 

Título: Deixar Ir
Autor: David R. Hawkins
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Fugitivo (Mason Cross)

Carter Blake é um homem peculiar. O passado que deixou para trás dotou-o de um talento especial para encontrar pessoas que não querem ser encontradas. Mas, embora o caso que tenha em mãos não seja particularmente complexo, há algo no seu caminho que está prestes a mudar drasticamente. Em tempos, deixou a Winterlong, a organização a que em tempos pertenceu, com uma espécie de pacto de não agressão. Mas a estrutura organizacional alterou-se e o passado está de volta para atar, enfim, todas as pontas soltas. E eis que, habituado a seguir e localizar, é agora Blake quem está em fuga e à procura de uma solução para o problema que não acabe com o seu cadáver largado algures.
Sendo um dos grandes pontos fortes desta série a construção do seu protagonista, não é propriamente uma surpresa que seja este livro, com toda a sua exposição do passado de Carter Blake, o que revela a personagem no seu máximo potencial. Já nos volumes anteriores era uma figura intrigante, com o seu passado tortuoso, a sua postura enigmática e a impressão, apesar de tudo, de um coração no sítio certo. Mas é aqui que tudo é finalmente explicado: a vida de Blake antes da sua estranha profissão, o que levou à partida e de que forma conseguiu garantir alguns anos de relativa paz. Além, é claro, de toda uma sucessão de relações e inimizades passadas que ganham agora toda uma nova dimensão.
E, sendo certo que bastava Carter Blake para tornar a leitura memorável, há ainda muito mais a acrescentar às impressões desta leitura. O enredo, dividido entre o estranho caso de Bryant e a inevitável perseguição a Blake, está todo ele repleto de momentos de tensão e de perigo. Há sempre algo a acontecer, o que torna a leitura viciante, mas há também laivos de emoção e de humor que tornam o todo mais abrangente, além de criarem uma maior proximidade entre leitor e personagens. E a forma como o autor desenvolve a narrativa, num equilíbrio perfeito entre todas as suas facetas, faz com que todos os momentos, grandes e pequenos, tenham o máximo impacto possível.
Mas há ainda um outro aspecto que, presente já nos volumes anteriores, ganha também aqui nova relevância. Enquanto organização secreta e com ampla liberdade de acção, a Winterlong cruza barreiras injustificáveis. E a forma como esse aspecto é abordado, com as consequências que teve na vida de Blake, mas não só, desperta a sempre pertinente questão do que é ou não aceitável em nome de uma suposta segurança.
De tudo isto resulta uma leitura viciante, cheia de surpresas e com um protagonista que nunca deixa de cativar. Intenso, poderoso e com um equilíbrio deveras eficaz entre acção, humor e questões de consciência, um livro que eleva ainda mais as expectativas para o que poderá ser o futuro do enigmático Carter Blake. Muito bom. 

Título: O Fugitivo
Autor: Mason Cross
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 17 de julho de 2018

Jessica Jones: Alias - Volume 3 (Brian Michael Bendis e Michael Gaydos)

Longe vão os tempos em que Jessica Jones era uma super-heroína... mas isso não significa que tenham deixado de lhe acontecer coisas estranhas. E, quando encontra uma desconhecida em casa, com um fato de Homem-Aranha e num estado bastante deplorável, Jessica não pode deixar de procurar respostas. Para as primeiras, bastam alguns contactos. Trata-se de Mattie Franklin, uma adolescente que assumiu o papel de Mulher-Aranha. Mas o que lhe aconteceu - e porquê - já é uma questão mais complexa. E, sem que tenha sido propriamente contratada para resolver o caso, Jessica dá por si a seguir as pistas - e a envolver-se em situações delicadas - para devolver Mattie à sua antiga vida.
Um dos aspectos mais intrigantes desta série é o facto de, mesmo ao terceiro volume, continuar a haver espaço para muitas - e impressionantes - surpresas. Chegados a este ponto, é fácil sentir que se conhece (pelo menos tão bem quanto possível) a protagonista e aquilo que a move, mas as circunstâncias e a forma como Jessica lida com elas nunca deixam de surpreender. Além disso, bastariam os elos comuns a todos os livros desta série - equilíbrio de géneros, enredo intenso, arte e texto simplesmente viciantes e personagens fortíssimas num universo vasto - para fazer deste terceiro volume uma leitura imperdível.
Mas há mais. Há sempre mais a cada novo livro. E, tal como aconteceu com o anterior, também aqui o enredo central é perfeitamente independente dos anteriores, mas há ligações que ganham outro impacto com o conhecimento prévio do que aconteceu antes. Presenças discretas, mas relevantes, como as de J. Jonah Jameson e, claro, do enigmático Matt Murdock, adquirem outro significado se soubermos a que "coisas do passado" se está Jessica a referir. E, tal como toda a base é independente, também o final é bastante conclusivo... mas há pequenas coisas. Pequenas coisas que deixam uma enorme curiosidade em descobrir o que se segue. 
Ainda uma última nota para o contraste entre a vastidão do universo em que estes livros se enquadram - ao ponto de, por vezes, ser difícil decidir por onde começar a explorar o imenso universo Marvel - e a facilidade com que se entra neste ambiente e na vida destas personagens. Sim, há figuras sobejamente conhecidas - seja de outros livros ou da televisão - que surgem apenas de forma algo secundária. Mas todo o essencial está contido nesta série. E, claro, fica a vontade de descobrir mais - sobre Jessica e sobre os outros - mas nada de fundamental fica por dizer. Para o resto, haverá outros livros. Outras histórias. E esta tem tudo aquilo de que precisa. 
Visualmente fascinante e com um enredo cheio de surpresas e de momentos notáveis, fica, mais uma vez, a impressão de uma leitura intensa e viciante, com personagens tão misteriosas quanto a imensidão do universo a que pertencem. Mais que à altura das expectativas, um livro a não perder numa série toda ela memorável. Recomendo. 

Autores: Brian Michael Bendis e Michael Gaydos
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 16 de julho de 2018

1001 Coisas que Nunca te Disse (Catarina Rodrigues)

Era um amor que devia durar para sempre... até ao dia em que acabou. E Sara pode ter sido enganada, mas o amor ficou, ainda assim, para lá da revolta e do ultraje. Por isso, movida pelo desgosto, começa a escrever cartas. Cartas a David, que nunca as lerá. E, nessas cartas, revisita a sua história, não só do amor que partilharam, mas também da infância e da vida que a moldou tal como é e da vida que veio depois de David. Porque em tudo pode haver uma aprendizagem e, teimosa e determinada, Sara não está disposta a deixar-se derrubar. Muito menos pelos seus próprios sentimentos.
Parte romance e parte introspecção, este é um livro feito de uma mistura de normalidade e de surpresas. Normalidade, porque grande parte da história é feita das coisas normais da vida: paixões, vida profissional, saídas com amigos, pequenas e grandes perdas, desgostos e superações. Surpresas, porque há todo um passado difícil na sombra da protagonista e um conjunto de revelações que, pelo impacto com que surgem, não deixam de ter um efeito de choque.
Não é uma história linear. Escrita maioritariamente na forma de cartas da protagonista, oscila entre diferentes pontos das suas memórias, percorrendo ainda longas reflexões e perspectivas. É, por isso, uma história pessoal e, às vezes, contraditória, pois a forma como Sara vê o mundo é imperfeita - como o são todas. Tem uma visão única e só sua - mas cai, por vezes, nas inevitáveis generalizações. Percorre um caminho de superação, mas acaba por cair nas inevitáveis repetições. E o resultado são sentimentos contraditórios, pois nem sempre é fácil entender as suas escolhas e a sua visão do mundo. Mas também uma certa impressão de realismo - pois, na história como na vida, opiniões e perspectivas são algo em constante mutação.
Fica também muito em aberto, não só sobre a vida de Sara depois desta longa relação interna com o seu próprio desgosto de amor, mas também sobre certas partes do passado, principalmente a vida familiar. E, claro, é inevitável a curiosidade insatisfeita, pois há muito nessa parte da história a gerar tensão e possibilidade. Mas também faz um certo sentido que assim seja, não só porque a Sara que escreve as cartas está a lidar com dificuldades mais recentes, mas principalmente porque a intenção da própria protagonista é afirmar-se como mais do que o seu passado.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura cativante e surpreendente, apesar das suas voltas e contradições. Com uma escrita envolvente e um registo pessoal, uma história única, mas que permite vários pontos de identificação, e por isso mesmo mais viva e equilibrada. Interessante e bem escrita, uma boa leitura, em suma.

Autora: Catarina Rodrigues
Origem: Recebido para crítica

domingo, 15 de julho de 2018

A Mulher de Einstein (Marie Benedict)

Mileva Maric sabe que as suas origens e a condição de mulher serão sempre um obstáculo ao seu sonho de uma vida de sucesso no mundo da ciência, mas não está disposta a deixar-se travar por qualquer barreira. É por isso que, quando chega a Zurique para frequentar o curso de física, leva também consigo a determinação necessária para enfrentar todos os problemas e humilhações. Não está à espera é de se apaixonar pelo seu pouco convencional, mas estranhamente encantador, colega. Albert Einstein não é como os outros homens e promete-lhe, além do seu afecto, uma vida de companheirismo e de colaboração científica. E, apesar da resistência inicial, Mileva acaba por deixar-se encantar. Só que o sonho começa a tornar-se cada vez mais difícil e Albert está muito longe de ser o cavalheiro por quem Mileva se apaixonou...
Basta a premissa deste livro para despertar uma certa curiosidade para a história: afinal, é sabido que há muitas mulheres cujo papel nos avanços científicos do seu tempo foi passado para segundo plano ou deixado no anonimato. E, ao acompanhar a história de uma dessas figuras, a autora constrói, logo à partida, um enredo cativante e cheio de potencial. Criam-se expectativas e, embora nem tudo seja fácil de assimilar, essas expectativas são totalmente atingidas, no que é uma leitura envolvente, surpreendente e repleta de momentos emotivos.
Era apenas de esperar uma visão diferente da que normalmente vem à cabeça ao pensar em Einstein. Mas não é apenas diferente: é perturbadora. O Albert Einstein deste livro está longe de ser apenas o académico brilhante, embora tenha ainda também a natural medida de brilhantismo. O que fica deste retrato é um homem que começa por ser encantador, mas que se transforma em alguém cruel, indiferente e centrado apenas nos seus próprios feitos. O que cria, é certo, uma certa distância, pois a história passa do companheirismo científico para um percurso familiar condenado ao fracasso. Mas também uma história emocionalmente intensa, pois torna-se assustadoramente fácil sentir com Mileva - e por Mileva.
E, sendo verdade que nem sempre é fácil gostar das personagens, ou entender as decisões que tomam, esta visão tudo menos simples e alegre de uma relação que se transforma em pesadelo ganha outro impacto por ser protagonizada por um dos grandes da ciência. Além, é claro, da forma sempre intensa e surpreendente que a autora tem de dar aos momentos mais emotivos o máximo impacto possível. Mais que uma história de ciência, é também uma história de descoberta pessoal e de desencanto, de amor e desilusão, de perda e de reconstrução. E no fim é isso que fica na memória - a intensidade das emoções e as sombras que se escondem sob uma aparente harmonia.
Cativante, com momentos belíssimos e um enredo capaz de construir para uma das grandes descobertas científicas toda uma nova possível perspectiva, trata-se, pois, de uma leitura surpreendente, com personagens que, nem sempre fáceis de compreender, se entranham, apesar de tudo, da memória. Uma boa história, portanto, e uma que vale a pena ler.

Autora: Marie Benedict
Origem: Recebido para crítica