terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

As Velhas (Hugo Mezena)

São mulheres que, depois de uma longa vida, subitamente se vêem reduzidas a um espaço. O espaço de uma casa vazia, ou de uma casa, de visitas ocasionais ou nulas, ou apenas de fantasmas pesados. Mulheres que envelheceram, mas que vivem ainda no seu próprio mundo, entre os mexericos das vizinhas ou a prisão de um corpo que pouco reage. E o mundo passa, talvez sem ver. E é para ver que serve este livro.
Não é exactamente um romance, na medida de que cada uma destas histórias é essencialmente independente. Também não é apenas um conjunto de contos, já que há pequenas ligações, além, claro, de uma sensação de unidade que parece brotar do todo. E, por isso, poder-se-á começar dizer que, apesar de breve, é um livro difícil de descrever. Cada história ocupa poucas páginas e deixa tanto sem resposta quanta matéria para reflexão. O resultado é um estranho equilíbrio entre uma certa curiosidade insatisfeita (qualquer destas histórias bastaria para um romance) e a sensação de que todas as bases essenciais estão lá.
Talvez não seja a história de nenhuma destas mulheres em específico, embora cada uma delas tenha um percurso e uma personalidade bem vincados. Talvez seja a história da velhice como um todos. E, se olharmos assim para o livro, tudo ganha um novo significado: não temos resposta para tudo, tal como, às vezes, vidas inteiras não chegam para obter respostas; e, entre caminhos tão diferentes, sente-se a mesma solidão, a mesma perda, a mesma mistura de sabedoria e abandono que aguarda lá mais perto do fim do caminho. Mais que de factos, é uma história de impressões, impressões essas que, curiosamente, ganham um maior impacto devido à brevidade. 
E isto reflecte-se na própria escrita, simples, sucinta, mas pejada de afirmações certeiras, de observações perspicazes sobre a passagem do tempo. Da estranha beleza, enfim, que faz com que, apesar de tudo o que fica por dizer, o livro pareça ter tudo aquilo de que precisa. 
Fica, pois, esta estranha marca de um livro tão breve contendo multidões. Multidões de vidas já avançadas - e abandonadas, por vezes - mas cheias, ainda, de histórias para contar. Simples, sim, mas marcante. E também muito pertinente. 

Título: As Velhas
Autor: Hugo Mezena
Origem: Recebido para crítica

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Vox (Christina Dalcher)

Muitos pensavam que nunca poderia acontecer, mas bastou o carisma de um reverendo fanático, um discurso demagógico assente em estatísticas deturpadas e a indiferença generalizada para que, de repente, todo o país mudasse. Agora, as mulheres estão limitadas a cem palavras por dia, à vida do lar e a uma existência onde tudo é controlado, quando não absolutamente negado. A Dra. Jean McClellan não se conforma, mas sabe que acordou tarde demais. Por isso, quando se vê ante a possibilidade de regressar ao seu trabalho de investigação, ainda que temporariamente, livrando-se da pulseira que lhe controla as palavras, Jean agarra a oportunidade. Só que o seu soro destina-se a algo muito mais vasto do que curar o irmão do presidente... e muito mais sombrio. A não ser que ela faça alguma coisa. 
Uma boa palavra para começar a descrever este livro será aterrador. Aterrador porque traça um cenário terrível e também porque o discurso na base deste cenário não anda assim tão longe do pensamento de certas figuras reais. A primeira qualidade é, por isso, esta mesma: a relevância de discutir direitos que, embora vistos por muitos como garantidos, podem facilmente ser retirados. É um cenário terrível, mas terrivelmente realista, o que faz deste livro a fonte de muito material para reflexão.
A segunda qualidade é o ritmo intenso e viciante, que, além de reforçar o impacto de cada desenvolvimento, torna impossível parar antes do fim. Há sempre algo para desvendar em cada um dos seus curtos capítulos, seja no percurso que gerou a situação actual, seja no caminho que Jean e os outros têm pela frente na sua oportunidade de mudar as coisas. E, à medida que o enredo evolui, há também todo um conjunto de surpresas e de momentos intensos a fazer com que tudo na história seja notável.
Há ainda a construção das personagens, particularmente da protagonista. Jean e Jackie, nas suas vidas passadas, eram pólos opostos: a conformada e a activista. E, ao assumir Jean como protagonista, aquela que não se preocupou, a que achava impossível que acontecesse, a que acordou demasiado tarde, a autora consegue, além de realçar a importância de se estar atento à realidade, gerar uma heroína a partir de uma personagem falível. Isso torna as coisas mais interessantes e o crescimento de Jean muito mais intenso. Além, é claro, de reforçar a ideia (sempre particularmente pertinente num livro destes) que é sempre possível - e preciso - fazer alguma coisa.
Intenso, relevante e assustadoramente real, trata-se, pois, de um livro que deixa uma marca profunda, não só nas questões que evoca, mas na história construída para as suas personagens. Com um cenário aterrador e um percurso feito de luta e de uma estranha redenção, um livro imperdível por todas as razões. Aterrador, sim. Mas acima de tudo brilhante. 

Título: Vox
Autora: Christina Dalcher
Origem: Recebido para crítica

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Monstress, volume 3: Refúgio (Marjorie Liu e Sana Takeda)

Maika Meiolobo começa a entender melhor as suas origens, mas isso não faz com que o seu caminho seja menos perigoso. O ente a que está ligada é uma força poderosa, mas a verdade é que existem outros como ele. E a máscara, mesmo fragmentada, possui grande poder. Chegada a Pontus, onde espera encontrar refúgio enquanto decide os seus próximos passos, Maika vê-se forçada a assumir um papel na defesa da cidade - principalmente, quando a sua outra "metade" destrói o escudo que protege Pontus. Entretanto, há outras peças em movimento... e a certeza de que o caminho está ainda bem longe do fim.
Há algo de fascinante na forma como cada novo volume desta série acrescenta novas perguntas para cada resposta dada, adensando cada vez mais o mistério sem nunca perder de vista o delicado equilíbrio entre tensão, intriga e emoção que parece definir todo este mundo. Maika, na sua unicidade, é alvo do interesse de muitos, aliados e inimigos por igual. E cada novo passo que dá é relevante, seja para encerrar uma fase ou para abrir novas possibilidades para o que se seguirá.
É também desta unicidade que vive o impacto da história, pois, num mundo pejado de diferenças, cada personagem tem algo que a torna única. E mais, nenhuma delas é exactamente aquilo que parece. Os inimigos têm planos mais vastos. Os aliados têm a sua própria agenda. E, pelo caminho, quando cada vez mais parece difícil encontrar alguém realmente digo de confiança, surgem os rasgos de emoção (e até de um certo humor) a lembrar que também neste mundo existe algo de bom.
Claro que, falando no mundo, é inevitável falar na arte, que eleva uma história complexa e fascinante ainda a um nível mais notável. Desde os cenários à indumentária das personagens, passando pelas peculiaridades e expressões das personagens e o próprio contraste entre os cenários requintados e coloridos das cortes e das cidades e as sombras que realçam os momentos mais negros, há toda uma magia a acontecer neste livro e um equilíbrio perfeito entre um cenário belíssimo, uma história toda ela também de contrastes e um conjunto de personagens ricas e complexas.
Tudo somado, fica a deliciosa sensação de regressar um mundo que é todo de fascínio e de magia. Complexo mas viciante, com cenários arrebatadores e uma história tão intensa quanto as personagens que a povoam, um livro e uma série que não posso deixar de recomendar. A todos, mesmo. 

Autoras: Marjorie Liu e Sana Takeda
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Meu Gato, Meu Guru (Stéphane Garnier)

Viver com um gato traz-nos muitos benefícios, desde a sua simples companhia ao prazer de, ao fim de um dia cansativo, relaxar na companhia do seu pêlo sedoso e dos seus ronrons. Mas será que o gato pode também ser um mestre e um guia rumo a uma vida melhor e mais equilibrada? Sem dúvida! Afinal, basta olhar para o gato e analisar a sua atitude para vermos que ele tem muito para nos ensinar... E é precisamente desses ensinamentos que trata este livro.
Sendo certo que o aspecto mais importante é sempre o conteúdo (e, neste caso, a mensagem), há, ainda assim, elementos complementares que contribuem para que as ideias fiquem na memória. E este livro é muito rico nestes aspectos: basta a capa para chamar a atenção. E depois basta um primeiro folhear para que as suas deliciosas ilustrações (sim, porque há toda uma abundância de gatos neste livro) nos despertem a curiosidade em saber mais.
Claro que o conteúdo também não fica nada atrás. Primeiro, surpreende a simplicidade com que cada aspecto é abordado, sem grandes elaborações e dissertações espirituais, mas analisando as coisas como elas são. Depois, vem a ligação ao gato, com todas as inesperadas lições que este tem para ensinar. E, por fim, fica a sempre agradável sensação de concluir a leitura com uma visão um pouco mais vasta e, principalmente, com muitas ideias úteis para levar a vida de outra forma.
Importa ainda realçar a escrita e a forma como o autor organiza estas muitas ideias. Ao analisar diferentes características do gato, permite-nos analisar, de forma simples e igualmente precisa, as mesmas características em nós mesmos. E, ao complementar estas pequenas análises com pequenos fragmentos narrados da perspectiva de um gato, múltiplas citações de autores célebres e até uma desconstrução das rotinas diárias ao estilo felino, constrói também um todo mais completo e interessante: uma imagem de uma vida diferente.
Leve e divertido, mas também interessante e cheio de ideias boas, trata-se, pois, de um guia simples e inteligente para levar a vida de forma mais serena. E, claro, de um esplêndido elogio às mil formas como um gato nos pode melhorar a vida. Muito bom.

Autor: Stéphane Garnier
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Southern Bastards, Vol. 3 - Regressos (Jason Aaron e Jason Latour)

A morte de Earl Tubb desencadeou grandes tensões e novas perdas. Agora, paira no ar como que o pressentimento de uma ameaça. O grande mentor do temido Coach Boss pôs fim à vida, incapaz de continuar a lidar com aquilo em que o seu protegido se tornou. E, sem a sua orientação na defesa, o grande jogo que se aproxima pode muito bem  estar perdido. Além disso, não falta quem esteja atento ao mais pequeno descuido do treinador para tomar medidas drásticas. Afinal, quem ascendeu pelo sangue pode muito bem cair do mesmo modo. 
Ao terceiro volume, e num ponto da história em que julgamos começar a conhecer as personagens, um dos primeiros pontos fortes a sobressair neste livro, e uma das suas grandes surpresas, é, mais uma vez, a capacidade de surpreender. Se o primeiro volume contava a temerária entrada em cena de Earl Tubb e o segundo se embrenhava pelo passado de Euless Boss, o terceiro expande-se para um leque mais vasto de personagens, explorando passados, meandros do presente e até mesmo algumas possibilidades futuras. Poder-se-ia dizer que é, de certa forma, um volume de transição, preparando o caminho para o que promete ser um confronto brutal. Mas uma transição toda ela repleta de acção e de momentos marcantes.
Também particularmente notável nisto de explorar várias personagens é que esta expansão se sente não só ao nível dos acontecimentos propriamente ditos (e oh, se abundam as surpresas nestes acontecimentos) mas na própria cor. É como se a cada personagem correspondesse um tom específico, reflexo das particularidades do ambiente em que se movem. Ora isto, além de contribuir para realçar as particularidades de cada ramo da história, deixa uma grande curiosidade em ver de que forma convergirão estas diferentes facetas no próximo volume. 
Mas, voltando à história, há ainda um outro aspecto que importa referir: embora cada capítulo seja dedicado a uma personagem distinta, o que permite uma visão mais pessoal dos seus respectivos percursos, a soma das partes não deixa, ainda assim, de formar um todo equilibrado e uma linha narrativa muito clara. Tudo converge para um ponto de mudança que apenas se torna mais intenso com a crescente complexidade das personagens. O resultado é uma história que se torna mais viciante a cada novo volume e a promessa de um próximo ainda melhor.
Intenso e brutal, mas também complexo e surpreendente, trata-se, pois, de mais um livro que corresponde inteiramente às expectativas - com o bónus acrescido de as elevar ainda um pouco mais. Cheio de surpresas, muitíssimo viciante e uma visão estranhamente precisa de um mundo tão estranho - mas, afinal, tão perto - um livro e uma série que não posso deixar de recomendar.

Autores: Jason Aaron e Jason Latour
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Dia em que Perdemos a Cabeça (Javier Castillo)

Véspera de Natal. Um homem caminha pelas ruas da cidade, completamente nu e com uma cabeça nas mãos. Ao horror inicial, segue-se uma reacção rápida e o homem é detido e levado para uma instituição psiquiátrica, onde o Dr. Jenkins deverá avaliar se se trata de um louco ou de um assassino implacável. Mas cedo se torna evidente que o caso tem contornos estranhos. O misterioso homem, após um silêncio inicial, começa a falar por enigmas ao contactar com Stella Hyden, a agente do FBI encarregada de auxiliar o Dr. Jenkins. E a história dele começa a entrelaçar-se com outro tipo de pistas e o passado dos próprios investigadores. Tudo converge para Salt Lake... onde, há muito tempo, algo de perigoso e cruel começou a ganhar forma.
Oscilando entre vários pontos de vista e diferentes momentos da linha temporal, este livro tem na aura de mistério que tudo envolve o seu principal ponto forte. Desde o homem que se passeia com uma cabeça na mão às inocentes férias em Salt Lake que tudo desencadearam, há, para cada momento e para cada personagem, um enigma há espera de ser desvendado. É, pois, intensa a vontade que se gera de saber o que acontece a seguir, e vai crescendo à medida que também o enredo se intensifica.
Também particularmente intrigante é o facto de todas as personagens serem tudo menos perfeita. O presumível assassino esconde uma natureza bastante distinta da que aparenta e a sua história passada faz dele uma personagem surpreendentemente complexa. Mas o mesmo se aplica também aos outros, desde a desaparecida Amanda à estranhamente louca Laura, passando, claro, pelo irascível Dr. Jenkins e pelo atormentado Steven. Todas as personagens servem um propósito e são também muito bem construídas. E, à medida que a verdadeira dimensão dos acontecimentos começa a vir à tona, também o impacto desta construção se torna mais evidente.
E eis que chegamos ao fim e as peças do puzzle começam a encaixar. Não todas, é certo, o que deixa uma certa curiosidade insatisfeita a pairar, mas também a possibilidade de vir a existir uma sequela, mas as essenciais. O que aconteceu a Amanda torna-se claro, tal como o porquê do passeio na rua com uma cabeça nas mãos. E todas as explicações são inesperadas, ainda que não necessariamente completas, o que faz com que, no geral, o final esteja à altura das expectativas.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura enigmática e viciante, com personagens fascinantes e um mistério que, embora ainda não tenha sido completamente desvendado, prende do início ao fim e nunca deixa de surpreender. Uma boa história, em suma, e uma leitura muito cativante. 

Autor: Javier Castillo
Origem: Recebido para crítica

domingo, 10 de fevereiro de 2019

The Freedom Artist (Ben Okri)

Os velhos mitos falam de uma prisão, mas o sistema não pode permitir que essa história seja contada. Só há uma forma de progredir: através do trabalho árduo, da ausência de esforços intelectuais e, acima de tudo, sem fazer perguntas. Mas, quando uma rapariga que se atreveu a questionar é subitamente levada, o seu amante começa a questionar-se também sobre as perguntas que ela costumava fazer. E começa a ver... Num mundo em que todos gritam durante o sono e a atrocidade parece cada vez mais aceitável, Karnak começa a seguir o caminho dos que fazem perguntas. E, sem realmente o saber, torna-se parte de uma revolução silenciosa.
Não sendo propriamente um livro fácil de descrever, mas inesperadamente fácil de ler, esta é uma história de mitos e da construção do próprio mito. A história da prisão e a influência que exerce nas personagens é uma metáfora bastante precisa da vida: aqueles que negam o sistema e se atrevem a sobressair sofrem consequências diferentes (e menos atrozes) na vida real, mas há um paralelismo inegável entre a resignação de algumas das personagens deste livro e aqueles que, na vida real, têm medo de ser eles mesmos. 
Há, então, muito em que pensar ao ler este livro. É, afinal, de uma história de livre pensamento que se trata. Mas há também mais do que isso. Com os seus capítulos curtos, personagens interessantes e misterioso sistema, torna-se também uma leitura bastante viciante. E mesmo que nem tudo seja explicado e, no fim, fique uma certa curiosidade acerca da Hierarquia, todos os elementos essenciais estão lá. A revolução acontece e a grande resposta é dada. O entendimento total... bem, cabe a cada leitor encontrá-lo.
Um último elemento que importa mencionar é que, embora criando o seu próprio mito, esta história tem muitos pontos em comum com outros mitos existentes. O rapaz-guerreiro, que cura e é preso pelas suas acções. A sua estranha postura, tão semelhante às cartas do rator. A mulher numa colina, com a lua sob os pés e uma coroa de estrelas. Tudo assume uma natureza distinta - mas as ligações estão lá para ser descobertas.
Não é, portanto, um livro fácil de descrever, mas é bastante fascinante. E uma história intrigante e estranhamente viciante, sobre uma liberdade mais etérea e o poder das histórias para moldar vidas e criar revoluções. Uma boa leitura em suma.

Autor: Ben Okri
Origem: Recebido para crítica