sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Gideon Falls - Volume Seis: O Fim (Jeff Lemire, Andrea Sorrentino e Dave Stewart)

Todos os mundos convergem para o centro. E agora que o fim está próximo, é na direção do centro que tudo colapsa. Mas ainda nem tudo está perdido. Há uma última corrida contra o tempo, na esperança de encontrar uma resposta e de travar o caos desencadeado pela destruição do Celeiro Negro. Para o fazer, porém, Danny e os outros terão de saltar entre mundos, de regressar à Gideon Falls de onde partiram e de voltar ao início para inverter parte do que foi feito. Mas será possível? E que consequências terá a possível anulação de tudo o que aconteceu?
Parte do fascínio desta série, desde o primeiro volume, tem origem na mistura de mistério e de estranheza que define toda a progressão do enredo. Há sempre algo de inexplicável, e a procura de respostas para esse inexplicável conduz sempre a momentos singulares, seja de convergência de mundos, de aparições inesperadas ou de um improvável mas fascinante dobrar da linha temporal. O que começou por ser um mundo aparentemente simples rapidamente se expandiu em infinitas possibilidades, que agora, neste volume final, convergem para uma derradeira conclusão, igualmente singular e estranha, e igualmente impressionante.
Ora, esta singularidade é também origem e causa de muitos contrastes, tanto em termos de enredo como de construção visual. À semelhança do universo, também a arte deste livro é feita de traços singulares, com rasgos que quase parecem brotar da página, construções de mundos que se entrelaçam em figuras a fazer quase lembrar a dupla hélice do ADN, expressões de horror sobrenatural que contrastam com outros horrores humanos e um mundo de sombras rasgadas a vermelho que realça o crescendo emocional da história. Mas o maior contraste vem da construção das próprias personagens e da forma como, depois deste longo caminho, onde tudo o que sabiam sobre a vida se transformou, continuam a manter a sua essência, a sua humanidade, os laços simples por entre o caos do multiverso.
Tudo converge para o centro e o fim está próximo. Mas isso não significa que tudo atinja explicações perfeitas e resoluções absolutas. Dado o percurso até aqui, estranho seria que o fizesse. Ainda assim, a forma como tudo termina faz sentido, deixando o suficiente em aberto para estimular a imaginação dos leitores, mas encerrando de forma adequada a longa expansão deste mundo - ou pelo menos esta etapa dessa expansão.
Tudo somado, fica a imagem global de um destino à altura da viagem, de uma conclusão que encerra com chave de ouro o longo percurso de estranheza e de descoberta que foi esta aventura nos meandros de Gideon Falls. Estranho e fascinante, poderoso em todas as facetas e sempre envolvente nos seus tortuosos labirintos, um final inesquecível para uma série toda ela memorável.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A Noiva Judia (Nuno Nepomuceno)

Quando o cadáver de um escritor famoso é encontrado numa praia deserta, com evidentes sinais de violência, o caso rapidamente se torna notícia. Assim, quando, nessa mesma noite, um jovem confessa o homicídio como alegada legítima defesa contra o assédio do escritor, a polícia não hesita em aceitar essa confissão. Pelo menos aparentemente. É que há provas que apontam para a inocência do suposto assassino - e a história da vítima está cheia de segredos tortuosos. É a notícia desta morte que desperta o interesse da jornalista Diana Santos Silva - e, inevitavelmente, do marido, o professor Afonso Catalão. O que nenhum deles sabe ainda é quantas teias convergem para esse mesmo mistério...
Existem certos aspetos que, ao sexto volume de uma série, são, à partida, expectáveis: uma certa familiaridade com as personagens, um certo conhecimento do que as move, certos hábitos e formas de reagir que ditarão, à partida, alguns dos seus comportamentos. E, tendo tudo isto em conta, uma das primeiras coisas a sobressair deste volume final é a forma como tudo isso se verifica, sem que enredo e personagens percam a sua capacidade de surpreender. Sim, conhecemos Afonso e o que o move, conhecemos as suas relações os seus fantasmas. Conhecemos Diana e a sua infinita curiosidade. E conhecemos também muitas das misteriosas figuras com que se cruzam. Mas a verdade é que esta fase final do percurso, onde múltiplas ligações confluem para uma série de poderosos desenvolvimentos, não deixa, ainda assim, de ser toda ela feita de surpresas, de momentos intensos e de um crescendo de intensidade que culmina num final praticamente perfeito.
Tudo neste livro é equilibrado. O enredo, com a sua sucessão de reviravoltas, intrigas e mistérios, entrelaçando os percursos das várias personagens de forma intensa e sempre intrigante. A construção das personagens, com os fantasmas das suas vidas a repercutirem no presente as consequências das suas escolhas. E a própria forma de apresentar tudo isto, com momentos de ação e de emoção, de introspeção e até de uma certa divertida leveza. É o tipo de livro em que as páginas quase voam, dada a facilidade com que nos transporta para o seu interior.
Há ainda dois últimos pontos que importa referir. O primeiro prende-se com o facto de ser o sexto - e último - volume de uma série. Se é certo que alguns dos volumes são relativamente independentes, este livro final é o exemplo perfeito do porquê de valer a pena conhecê-los a todos e por ordem. É para este ponto que tudo converge, é aqui que todas as relações se entrelaçam e o seu verdadeiro impacto vem tanto do percurso que traça como do conhecimento e da familiaridade que temos já com estas personagens. É memorável por si só, é certo. Mas sê-lo-á ainda mais para quem já conhecer o que vem de trás.
E o último ponto não será uma surpresa para quem acompanha o autor, e particularmente esta série. Pode ser o último volume, pode ser o ponto para onde todas as linhas confluem, mas a conclusão nunca poderá ser linear e absoluta. Nunca é. A forma como tudo termina dá realmente resposta a muitos dos mistérios. Mas deixa o suficiente de enigmas e de possibilidades para ficar na imaginação do leitor. E insinuar, talvez, a ténue esperança de um possível reencontro.
O que dizer, então, desta última notável viagem? Que nada lhe falta e que tem tudo na medida certa. Mistério, perigo, intensidade, emoção. Personalidades complexas, mas fascinantes e humanas. E um percurso que, surpreendente da primeira à última página, marca em todos os aspetos, nas pequenas e nas grandes revelações. Brilhante, em suma. Como sempre.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Um Belo Dia Para Morrer e Outras Histórias (Amílcar Monteiro)

Vidas que se cruzam, catástrofes globais, a procura da tranquilidade nos últimos momentos, pactos improváveis e desenvolvimentos inesperados - sempre com a morte na sombra, à espreita, como na própria vida. Eis a raiz dos contos que constituem este livro, histórias distintas e singulares, com uma voz sempre envolvente e com um dom natural para tecer surpresas. Histórias que são uma viagem e que nos levam à descoberta da vida - e do outro lado dela.
Tudo começa com Um Belo Dia para Morrer. Primeiro conto e história que dá título ao livro, fala de um índio que decide retirar-se para um sítio secreto a fim de morrer em paz e em comunhão com a natureza. Só que o sítio não é assim tão secreto e tranquilidade é coisa que não abunda por aqueles lados. Cativante desde as primeiras frases e com uma curiosa sucessão de reviravoltas, este é um conto que surpreende sobretudo pela naturalidade com que o registo se vai alterando. Começa num tom quase melancólico, passando depois para um registo mais caricato à medida que os episódios bizarros se sucedem e culminando num final inusitadamente cruel. Surpreende em todos os aspetos, em suma, e não se podia pedir melhor forma de inaugurar esta leitura.
Segue-se A Todo o Vapor, história de um encontro entre estranhos num comboio, de um sucessivo cruzar de caminhos e de como os mesmos gestos podem ser interpretados de perspetivas muito diferentes. Fluido e cativante na sua conjugação de duas vozes muito distintas, ao ponto de dar aos mesmos momentos uma perspetiva totalmente diferente, marca sobretudo pela abordagem a como o medo condiciona a vida e altera perceções, acrescentando a uma história a que não falta envolvência uma boa dose de material para reflexão. 
Vem depois Descansa em Paz, história da celebração da paz entre cinco cidades após uma longa guerra e de um banquete que se transforma em caos com a súbita morte do provador real. Um pouco mais pausado do que os contos anteriores, mas igualmente cativante, trata-se de uma história de conflitos e tensões provocadas por um equívoco. Percorre também um amplo espetro emocional, partindo de um ambiente de festa para se expandir depois num crescendo de intensidade e de fúria que abre caminho a uma possível quebra de todas as conquistas passadas. Surpreendente e envolvente, uma boa história.
O Melhor Amigo apresenta dois amigos que, fruto de uma natural rivalidade infantil, juram acertar contas quando forem adultos num duelo até à morte para provar qual dos dois é o melhor. Intenso na premissa e sobretudo na forma como a história se vai desenrolando, entre dúvidas, hesitações e reviravoltas, trata-se de um conto relativamente longo, mas que nunca deixa de cativar. Além disso, vai abordando várias questões relevantes pelo caminho, desde a forma como a obsessão motiva escolhas erradas ao impacto que essas escolhas têm na vida de familiares e outras pessoas próximas. Vai também crescendo em força à medida que o inevitável desenlace se aproxima e culmina num final verdadeiramente implacável.
Finalmente, temos Um Final Feliz, história de um vírus altamente contagioso indutor de uma espécie de felicidade extrema com consequências surpreendentemente pouco felizes. Narrado sob a forma de testemunhos dos sobreviventes, trata-se de um conto peculiar, com a estranheza do vírus a despertar uma curiosidade quase imediata e as diferentes vozes a contribuir para a construção de uma teia verdadeiramente fascinante. Não faltam ideias intrigantes, a começar, desde logo, pelo próprio vírus e pelos efeitos que induz. Mas o mais impressionante de tudo é o impacto do que é no fundo uma vasta e especialmente envolvente reflexão sobre a importância e a influência das emoções, culminando numa conclusão tão cruel quanto poderosa.
Terminada a leitura dos contos, importa fazer ainda uma referência final à secção intitulada Sobre as Histórias, onde o autor expõe um pouco da origem das suas ideias e da forma como cada conto se foi desenvolvendo. Ainda que as histórias falem por si, é sempre interessante conhecer um pouco melhor a sua origem e esta visão sucinta, mas pessoal, acrescenta ainda um novo ponto de interesse a esta leitura.
E o que fica desta leitura não podia ser senão uma impressão muito positiva. Histórias de vida e de morte, cada uma com um contexto e uma visão muito diferentes, mas todas cativantes, intensas e surpreendentes, formam um todo coeso mas amplo, e sempre muito intrigante. A soma das partes é, pois, deveras memorável. E interessantíssima de descobrir.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Dragomante - Fogo de Dragão (Filipe Faria e Manuel Morgado)

De um rito místico concebido para combater os dragões, que viam a humanidade como presa, nasceram os Dragomantes. No sangue, corre-lhes um fogo que lhes permite domar um dragão e estabelecer com ele um vínculo inquebrável, e também uma destreza inigualável que os torna imbatíveis, mas talvez um pouco menos humanos. E é por isso que cada Dragomante tem de ter um escudeiro para o ancorar à humanidade. Nereila, a primeira mulher Dragomante em muito tempo, acaba de completar o seu treino e tem uma missão delicada pela frente. Pois o orgulho do pai deixou-lhe um inimigo de herança, que tudo fará para destruir tudo o que ela ama. Mas o mais difícil de tudo pode muito bem ser controlar o seu fogo interior...
Um dos aspetos mais impressionantes deste livro - além da arte prodigiosa, obviamente - é a forma como, apesar de relativamente breve, consegue apresentar um mundo tão vasto. Claro que está longe de nos dizer tudo, até porque se trata de um primeiro volume, mas diz muito, sobre os ritos, sobre os locais, sobre os sistemas de poder e sobre as relações entre personagens. Não falta informação neste primeiro contacto com este mundo, e informação interessante, intrigante e exposta de forma natural, sem tornar o ritmo demasiado parado nem abrandar a intensidade do enredo (que é, aliás, de ritmo furioso).
Outro elemento notável é a arte que, como já disse, é prodigiosa. A expressividade das personagens é notável, sobretudo no caso de Nereila, os cenários são fascinantes, as sequências de ação estão carregadinhas de movimento e não faltam pormenores a sobressair, por exemplo, na indumentária das personagens. Apesar de ser um livro com bastante texto - o que é, de certo modo, inevitável ao começar a apresentar um novo mundo - a parte visual fala eloquentemente. E fica a sensação de que ambas as facetas - texto e imagem - se entrelaçam num equilíbrio perfeito.
Voltando ao enredo, escusado será dizer que ficam muitas perguntas sem resposta, como é natural, sendo um primeiro volume. Mas também aqui há um bom equilíbrio entre o muito que é revelado e o possivelmente muito mais que fica por dizer. Há desenvolvimentos marcantes, momentos de ação e de emoção, espaço para algum humor e uma fase da história que parece ficar encerrada, abrindo caminho para novas etapas. É um primeiro volume, sim, e a história está longe de ter terminado. Mas parece ter-se interrompido num ponto muito adequado.
Visualmente deslumbrante, com um mundo muitíssimo interessante e uma história que parece ter apenas começado, mas a que não faltam já momentos marcantes, trata-se de um belo início para o que promete ser uma aventura memorável. Muito bom.

sábado, 22 de janeiro de 2022

E Se os Animais Dessem Beijinhos de Boa Noite? (Ann Whitford Paul e David Walker)

E se os animais dessem beijinhos de boa noite? Como o fariam? Esticando os pescoços no caso das girafas? Tocando os bicos, no caso das aves? Uivando à Lua? Rosnando? Saltitando? Ou numa aproximação muuuito cuidadosa? Conseguem imaginar como seria? Bem, uma coisa é certa - não faltaria ternura. E este livro é a prova exata disso.
É absurdamente fácil descrever este livro numa palavra, até porque lhe assenta na perfeição: fofo. E é fofo em todos os aspetos, desde as ilustrações carregadinhas de ternura ao texto simples, mas cheio de harmonia e de ritmo, sem esquecer, naturalmente, a premissa da história, que é desde logo um hino ao afeto. É o tipo de livro que é a definição de reconfortante e, na suas poucas páginas, transporta-nos para tempos mais inocentes, lembra-nos o poder do mais simples de todos os gestos e leva-nos à aventura como na infância, o tempo em que tudo era possível.
É uma história sobre beijinhos de boa noite, e basta isto para a tornar perfeita para ler aos mais pequenos antes de dormir. É breve, é ternurenta, tem os seus momentos divertidos e tem uma cadência que quase embala, o que a torna ideal para ler antes de adormecer. E tudo isto surge também num livro que é simplesmente bonito, com as suas ilustrações coloridas e fofas, a sua diversidade de cenários e de animais e o equilíbrio entre a simplicidade e o pormenor.
Carregadinho de ternura, é o tipo de livro infantil perfeito para partilhar com os mais pequenos, mas também para nos levar numa viagem à nostalgia de quando o éramos. E com o seu equilíbrio ideal entre todos os elementos - e a fofura que transborda das páginas - é absurdamente memorável na sua simplicidade. Belo, reconfortante, enternecedor. Lindo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

O Caminho do Burro (Paulo Moreiras)

Nem só de longas histórias vive a literatura. Algumas são viagens breves, no mundo, no tempo, no nosso próprio íntimo. E às vezes bastam poucas páginas para nos levar à aventura, a caminhos nunca antes percorridos. É isso que acontece neste livro. Mas já lá vamos.
Antes dos contos propriamente ditos, surge, À Guisa de Prólogo, uma breve introdução do autor sobre os seus passos e inspirações de escrita, que conta também a muito interessante origem do título. E porquê referir esta introdução? Porque, como tantas vezes acontece, desperta uma sensação de proximidade que abre logo portas à curiosidade sobre o que se seguirá.
Passando aos contos, o primeiro chama-se Ars Amatoria, e fala de uma invasão de ratos num mosteiro, da única solução possível e de uma forma de amor inocente, mas inevitavelmente questionada. Cativante pela voz singular e pela forma como dá vida ao ambiente, este conto tem, ainda assim, a sua grande força no amplo espetro emocional que percorre. Vai do desconcerto ao humor, e depois da ternura à desolação, sem nunca perder a fluidez e a naturalidade. E nunca deixa de surpreender, em todas estas etapas.
Segue-se Doces e Paixões de Calistra, história de uma rivalidade entre conventos e da origem secreta de um doce tentador. Também aqui as oscilações emocionais se destacam, entre a leveza de um concurso culinário conventual e a intensidade de uma paixão impossível. O registo global acaba por ser mais ligeiro, mas igualmente memorável, ainda assim.
A Pedra do Diabo fala da aparição de um forasteiro, da construção de uma vida, de uma vingança jurada e de um pacto com o maligno. E conjuga todos estes elementos num conto surpreendentemente leve, com um toque a evocar quase as lendas tradicionais e cheio de momentos inusitados.
Vem depois A Perdição de Sebastião das Canas, história de um homem mulherengo, mas pacato, e com fama de guardar um tesouro. Mais pausado, mais descritivo, mas igualmente cativante, trata-se de uma história que, mais que pelo protagonista, surpreende pela precisão com que invoca as imaginações e murmúrios da natureza humana, tão presentes sobretudo em meios pequenos.
As Queijadas do Rei do Botão fala de um rapaz particularmente hábil no jogo e de sentidos culinários especialmente apurados. Mais breve do que os anteriores, trata-se um conto mais simples e direto, mas igualmente cativante e evocativo.
O Traga-Moscas conta a história de um forreta e da inesperada revelação trazida pela luz. Um pouco caricato, mas também muito cativante, destaca-se sobretudo pela singularidade das circunstâncias e pela reflexão que estas podem evocar.
Segue-se O Tambor de Albano Marmelo, história das aspirações de um homem e de uma vaca com influências singulares. Surpreendente em primeiro lugar pelo seu lado um pouco caricato, que evolui depois para um registo mais intenso e até cruel, sobressai deste conto o crescendo de intensidade e a forma como o inesperado se torna quase natural.
A Herança de Ernesto Trabuco fala de um homem observador e da sua carreira de fotógrafo. Relativamente pausado, apesar de não ser dos contos mais longos, destaca-se, ainda assim, pela mistura de nostalgia e aspiração que parece definir o percurso do protagonista.
Vem depois O Príncipe das Camarinhas, história de um rapaz aventureiro e de uma guardiã de tradições. Nostálgico e cativante, transporta para as memórias do protagonista, realçando a importância não só das tradições, mas também dos pequenos momentos que perduram.
As Confissões de Mestre Roupinho fala de um alfaiate de hábitos fixos e devoção... singular. Bastante leve, apesar da forte componente descritiva, é não só uma história cativante e peculiar, mas também uma reflexão sobre os segredos e como vêm à tona quando menos se espera.
Segue-se A Suprema Conquista, história de um homem que faz da felicidade negócio e que se depara com o maior dos desafios. Algo caricato, mas muito envolvente, também por ser narrado na primeira pessoa, é todo ele leveza e inesperado,  e é também isso que o torna singular. 
O Bacalhau de Chico Rosalino fala da elaborada busca de um bacalhau para a consoada em tempos de vacas magras. Peculiar, mas deliciosamente viciante, cativa sobretudo pelo tom leve e pela sucessão de surpresas a surgir no caminho dos planos do protagonista.
E o último conto, O Calvário de Chico Rosalino, recupera o protagonista do conto anterior, na história de uma atribulada peregrinação a Fátima motivada por estranhos pretextos. Leve e singular, tal como o conto anterior, e também igualmente inesperado, realça também a aparentemente inesgotável capacidade de surpreender das pessoas.
Finalmente, importa referir ainda Um Fardo de Curiosidades, breve traçado da vida destes contos antes desta sua conjugação. Não é uma informação crucial, claro, mas não deixa de ser interessante conhecer o contexto em que surgiram inicialmente.
Tudo somado, o que fica é a imagem de um conjunto de histórias cativantes e singulares, com uma voz muito própria, uma agradável leveza e uma profusão de surpresas. E é esta, naturalmente, a matéria de que são feitas as boas leituras.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Sapiens Imperium (Sam Timel e Jorge Miguel)

Na sequência da derrota que lhes custou o trono imperial, todos os membros da dinastia Khelek, bem como os seus aliados, foram enviados para Tazma, uma prisão numa lua abandonada. Seguiram-se sessenta e cinco anos de sofrimento, miséria e morte, longe dos olhos de todos e sem esperanças de libertação. Mas isso está prestes a mudar. Primeiro, geram-se tensões entre os prisioneiros, causando o colapso da relativa ordem, a morte do príncipe e uma fuga precipitada de um dos seus filhos. Depois, começam os planos de fuga e de uma possível luta pela liberdade. Mas violência gera violência e não é só entre os prisioneiros que há tensões... A liberdade, se vier, terá um preço elevado. E talvez nem todos sobrevivam para a ver...
Passada num futuro distante, num cenário que abrange galáxias, com toda uma cronologia a servir-lhe de base e uma série de relações ancestrais a justificar a situação presente, é quase inevitável que a primeira impressão que fica desta história é que poderia perfeitamente ser parte de uma história muito maior. Há um contexto vastíssimo, de relações e de evolução do sistema, que justificaria perfeitamente outras tantas histórias complementares a esta. E assim, é também de certa forma inevitável uma curiosidade em conhecer as partes que acabam por ficar para segundo plano.
Dito isto, não faltam acontecimentos na parte que efetivamente nos é dada a conhecer. Tantos que também aqui fica a sensação de que a história poderia ter sido mais aprofundada nalgumas facetas. Ainda assim, há um certo equilíbrio na forma concisa com que alguns desenvolvimentos são explorados. Como se esta história onde os conflitos são constantes quisesse mostrar as sombras para lá da guerra e da intriga: o impacto nos inocentes, no mundo, e os motivos por vezes fúteis que desencadeiam consequências muito mais graves.
Há, aliás, algo de particularmente interessante na forma como, num cenário onde tudo é diferente do que conhecemos, a força motriz das ações - seja ela de raiz emocional ou racional, desinteressada ou egoísta - continua a ter tanto em comum com o nosso presente. E mais: o próprio sistema funciona muitas vezes como uma projeção para o futuro de comportamentos bem conhecidos do passado ou do presente. Sendo de destacar, naturalmente, a forma como os Sapiens lidam com as espécies inteligentes não humanas.
Do ponto de vista visual, importa destacar dois aspetos. Um deles, talvez menos destacado, tem a ver com as ilustrações que acompanham a cronologia e que, nalguns casos, dão uma perspetiva mais detalhada dos cenários onde tudo acontece. O outro tem a ver com a forma como estes cenários surgem na história propriamente dita, inevitavelmente mais simples em comparação, mas perfeitamente ajustados não só no contraste entre locais, mas também entre o antes e o depois da devastação.
Fica, sim, a sensação de que poderia ser parte de uma história muito mais vasta. Mas não lhe faltam qualidades tal como é, desde os momentos de emoção às surpresas ao longo do percurso, sem esquecer, claro, o abundante material para reflexão que se vai insinuando através da história. E é por tudo isto que, mesmo com as perguntas que deixa e a relativa concisão de certas facetas, não deixa de ser uma bela leitura.