terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

As Velhas (Hugo Mezena)

São mulheres que, depois de uma longa vida, subitamente se vêem reduzidas a um espaço. O espaço de uma casa vazia, ou de uma casa, de visitas ocasionais ou nulas, ou apenas de fantasmas pesados. Mulheres que envelheceram, mas que vivem ainda no seu próprio mundo, entre os mexericos das vizinhas ou a prisão de um corpo que pouco reage. E o mundo passa, talvez sem ver. E é para ver que serve este livro.
Não é exactamente um romance, na medida de que cada uma destas histórias é essencialmente independente. Também não é apenas um conjunto de contos, já que há pequenas ligações, além, claro, de uma sensação de unidade que parece brotar do todo. E, por isso, poder-se-á começar dizer que, apesar de breve, é um livro difícil de descrever. Cada história ocupa poucas páginas e deixa tanto sem resposta quanta matéria para reflexão. O resultado é um estranho equilíbrio entre uma certa curiosidade insatisfeita (qualquer destas histórias bastaria para um romance) e a sensação de que todas as bases essenciais estão lá.
Talvez não seja a história de nenhuma destas mulheres em específico, embora cada uma delas tenha um percurso e uma personalidade bem vincados. Talvez seja a história da velhice como um todos. E, se olharmos assim para o livro, tudo ganha um novo significado: não temos resposta para tudo, tal como, às vezes, vidas inteiras não chegam para obter respostas; e, entre caminhos tão diferentes, sente-se a mesma solidão, a mesma perda, a mesma mistura de sabedoria e abandono que aguarda lá mais perto do fim do caminho. Mais que de factos, é uma história de impressões, impressões essas que, curiosamente, ganham um maior impacto devido à brevidade. 
E isto reflecte-se na própria escrita, simples, sucinta, mas pejada de afirmações certeiras, de observações perspicazes sobre a passagem do tempo. Da estranha beleza, enfim, que faz com que, apesar de tudo o que fica por dizer, o livro pareça ter tudo aquilo de que precisa. 
Fica, pois, esta estranha marca de um livro tão breve contendo multidões. Multidões de vidas já avançadas - e abandonadas, por vezes - mas cheias, ainda, de histórias para contar. Simples, sim, mas marcante. E também muito pertinente. 

Título: As Velhas
Autor: Hugo Mezena
Origem: Recebido para crítica

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Vox (Christina Dalcher)

Muitos pensavam que nunca poderia acontecer, mas bastou o carisma de um reverendo fanático, um discurso demagógico assente em estatísticas deturpadas e a indiferença generalizada para que, de repente, todo o país mudasse. Agora, as mulheres estão limitadas a cem palavras por dia, à vida do lar e a uma existência onde tudo é controlado, quando não absolutamente negado. A Dra. Jean McClellan não se conforma, mas sabe que acordou tarde demais. Por isso, quando se vê ante a possibilidade de regressar ao seu trabalho de investigação, ainda que temporariamente, livrando-se da pulseira que lhe controla as palavras, Jean agarra a oportunidade. Só que o seu soro destina-se a algo muito mais vasto do que curar o irmão do presidente... e muito mais sombrio. A não ser que ela faça alguma coisa. 
Uma boa palavra para começar a descrever este livro será aterrador. Aterrador porque traça um cenário terrível e também porque o discurso na base deste cenário não anda assim tão longe do pensamento de certas figuras reais. A primeira qualidade é, por isso, esta mesma: a relevância de discutir direitos que, embora vistos por muitos como garantidos, podem facilmente ser retirados. É um cenário terrível, mas terrivelmente realista, o que faz deste livro a fonte de muito material para reflexão.
A segunda qualidade é o ritmo intenso e viciante, que, além de reforçar o impacto de cada desenvolvimento, torna impossível parar antes do fim. Há sempre algo para desvendar em cada um dos seus curtos capítulos, seja no percurso que gerou a situação actual, seja no caminho que Jean e os outros têm pela frente na sua oportunidade de mudar as coisas. E, à medida que o enredo evolui, há também todo um conjunto de surpresas e de momentos intensos a fazer com que tudo na história seja notável.
Há ainda a construção das personagens, particularmente da protagonista. Jean e Jackie, nas suas vidas passadas, eram pólos opostos: a conformada e a activista. E, ao assumir Jean como protagonista, aquela que não se preocupou, a que achava impossível que acontecesse, a que acordou demasiado tarde, a autora consegue, além de realçar a importância de se estar atento à realidade, gerar uma heroína a partir de uma personagem falível. Isso torna as coisas mais interessantes e o crescimento de Jean muito mais intenso. Além, é claro, de reforçar a ideia (sempre particularmente pertinente num livro destes) que é sempre possível - e preciso - fazer alguma coisa.
Intenso, relevante e assustadoramente real, trata-se, pois, de um livro que deixa uma marca profunda, não só nas questões que evoca, mas na história construída para as suas personagens. Com um cenário aterrador e um percurso feito de luta e de uma estranha redenção, um livro imperdível por todas as razões. Aterrador, sim. Mas acima de tudo brilhante. 

Título: Vox
Autora: Christina Dalcher
Origem: Recebido para crítica

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Monstress, volume 3: Refúgio (Marjorie Liu e Sana Takeda)

Maika Meiolobo começa a entender melhor as suas origens, mas isso não faz com que o seu caminho seja menos perigoso. O ente a que está ligada é uma força poderosa, mas a verdade é que existem outros como ele. E a máscara, mesmo fragmentada, possui grande poder. Chegada a Pontus, onde espera encontrar refúgio enquanto decide os seus próximos passos, Maika vê-se forçada a assumir um papel na defesa da cidade - principalmente, quando a sua outra "metade" destrói o escudo que protege Pontus. Entretanto, há outras peças em movimento... e a certeza de que o caminho está ainda bem longe do fim.
Há algo de fascinante na forma como cada novo volume desta série acrescenta novas perguntas para cada resposta dada, adensando cada vez mais o mistério sem nunca perder de vista o delicado equilíbrio entre tensão, intriga e emoção que parece definir todo este mundo. Maika, na sua unicidade, é alvo do interesse de muitos, aliados e inimigos por igual. E cada novo passo que dá é relevante, seja para encerrar uma fase ou para abrir novas possibilidades para o que se seguirá.
É também desta unicidade que vive o impacto da história, pois, num mundo pejado de diferenças, cada personagem tem algo que a torna única. E mais, nenhuma delas é exactamente aquilo que parece. Os inimigos têm planos mais vastos. Os aliados têm a sua própria agenda. E, pelo caminho, quando cada vez mais parece difícil encontrar alguém realmente digo de confiança, surgem os rasgos de emoção (e até de um certo humor) a lembrar que também neste mundo existe algo de bom.
Claro que, falando no mundo, é inevitável falar na arte, que eleva uma história complexa e fascinante ainda a um nível mais notável. Desde os cenários à indumentária das personagens, passando pelas peculiaridades e expressões das personagens e o próprio contraste entre os cenários requintados e coloridos das cortes e das cidades e as sombras que realçam os momentos mais negros, há toda uma magia a acontecer neste livro e um equilíbrio perfeito entre um cenário belíssimo, uma história toda ela também de contrastes e um conjunto de personagens ricas e complexas.
Tudo somado, fica a deliciosa sensação de regressar um mundo que é todo de fascínio e de magia. Complexo mas viciante, com cenários arrebatadores e uma história tão intensa quanto as personagens que a povoam, um livro e uma série que não posso deixar de recomendar. A todos, mesmo. 

Autoras: Marjorie Liu e Sana Takeda
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Meu Gato, Meu Guru (Stéphane Garnier)

Viver com um gato traz-nos muitos benefícios, desde a sua simples companhia ao prazer de, ao fim de um dia cansativo, relaxar na companhia do seu pêlo sedoso e dos seus ronrons. Mas será que o gato pode também ser um mestre e um guia rumo a uma vida melhor e mais equilibrada? Sem dúvida! Afinal, basta olhar para o gato e analisar a sua atitude para vermos que ele tem muito para nos ensinar... E é precisamente desses ensinamentos que trata este livro.
Sendo certo que o aspecto mais importante é sempre o conteúdo (e, neste caso, a mensagem), há, ainda assim, elementos complementares que contribuem para que as ideias fiquem na memória. E este livro é muito rico nestes aspectos: basta a capa para chamar a atenção. E depois basta um primeiro folhear para que as suas deliciosas ilustrações (sim, porque há toda uma abundância de gatos neste livro) nos despertem a curiosidade em saber mais.
Claro que o conteúdo também não fica nada atrás. Primeiro, surpreende a simplicidade com que cada aspecto é abordado, sem grandes elaborações e dissertações espirituais, mas analisando as coisas como elas são. Depois, vem a ligação ao gato, com todas as inesperadas lições que este tem para ensinar. E, por fim, fica a sempre agradável sensação de concluir a leitura com uma visão um pouco mais vasta e, principalmente, com muitas ideias úteis para levar a vida de outra forma.
Importa ainda realçar a escrita e a forma como o autor organiza estas muitas ideias. Ao analisar diferentes características do gato, permite-nos analisar, de forma simples e igualmente precisa, as mesmas características em nós mesmos. E, ao complementar estas pequenas análises com pequenos fragmentos narrados da perspectiva de um gato, múltiplas citações de autores célebres e até uma desconstrução das rotinas diárias ao estilo felino, constrói também um todo mais completo e interessante: uma imagem de uma vida diferente.
Leve e divertido, mas também interessante e cheio de ideias boas, trata-se, pois, de um guia simples e inteligente para levar a vida de forma mais serena. E, claro, de um esplêndido elogio às mil formas como um gato nos pode melhorar a vida. Muito bom.

Autor: Stéphane Garnier
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Southern Bastards, Vol. 3 - Regressos (Jason Aaron e Jason Latour)

A morte de Earl Tubb desencadeou grandes tensões e novas perdas. Agora, paira no ar como que o pressentimento de uma ameaça. O grande mentor do temido Coach Boss pôs fim à vida, incapaz de continuar a lidar com aquilo em que o seu protegido se tornou. E, sem a sua orientação na defesa, o grande jogo que se aproxima pode muito bem  estar perdido. Além disso, não falta quem esteja atento ao mais pequeno descuido do treinador para tomar medidas drásticas. Afinal, quem ascendeu pelo sangue pode muito bem cair do mesmo modo. 
Ao terceiro volume, e num ponto da história em que julgamos começar a conhecer as personagens, um dos primeiros pontos fortes a sobressair neste livro, e uma das suas grandes surpresas, é, mais uma vez, a capacidade de surpreender. Se o primeiro volume contava a temerária entrada em cena de Earl Tubb e o segundo se embrenhava pelo passado de Euless Boss, o terceiro expande-se para um leque mais vasto de personagens, explorando passados, meandros do presente e até mesmo algumas possibilidades futuras. Poder-se-ia dizer que é, de certa forma, um volume de transição, preparando o caminho para o que promete ser um confronto brutal. Mas uma transição toda ela repleta de acção e de momentos marcantes.
Também particularmente notável nisto de explorar várias personagens é que esta expansão se sente não só ao nível dos acontecimentos propriamente ditos (e oh, se abundam as surpresas nestes acontecimentos) mas na própria cor. É como se a cada personagem correspondesse um tom específico, reflexo das particularidades do ambiente em que se movem. Ora isto, além de contribuir para realçar as particularidades de cada ramo da história, deixa uma grande curiosidade em ver de que forma convergirão estas diferentes facetas no próximo volume. 
Mas, voltando à história, há ainda um outro aspecto que importa referir: embora cada capítulo seja dedicado a uma personagem distinta, o que permite uma visão mais pessoal dos seus respectivos percursos, a soma das partes não deixa, ainda assim, de formar um todo equilibrado e uma linha narrativa muito clara. Tudo converge para um ponto de mudança que apenas se torna mais intenso com a crescente complexidade das personagens. O resultado é uma história que se torna mais viciante a cada novo volume e a promessa de um próximo ainda melhor.
Intenso e brutal, mas também complexo e surpreendente, trata-se, pois, de mais um livro que corresponde inteiramente às expectativas - com o bónus acrescido de as elevar ainda um pouco mais. Cheio de surpresas, muitíssimo viciante e uma visão estranhamente precisa de um mundo tão estranho - mas, afinal, tão perto - um livro e uma série que não posso deixar de recomendar.

Autores: Jason Aaron e Jason Latour
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Dia em que Perdemos a Cabeça (Javier Castillo)

Véspera de Natal. Um homem caminha pelas ruas da cidade, completamente nu e com uma cabeça nas mãos. Ao horror inicial, segue-se uma reacção rápida e o homem é detido e levado para uma instituição psiquiátrica, onde o Dr. Jenkins deverá avaliar se se trata de um louco ou de um assassino implacável. Mas cedo se torna evidente que o caso tem contornos estranhos. O misterioso homem, após um silêncio inicial, começa a falar por enigmas ao contactar com Stella Hyden, a agente do FBI encarregada de auxiliar o Dr. Jenkins. E a história dele começa a entrelaçar-se com outro tipo de pistas e o passado dos próprios investigadores. Tudo converge para Salt Lake... onde, há muito tempo, algo de perigoso e cruel começou a ganhar forma.
Oscilando entre vários pontos de vista e diferentes momentos da linha temporal, este livro tem na aura de mistério que tudo envolve o seu principal ponto forte. Desde o homem que se passeia com uma cabeça na mão às inocentes férias em Salt Lake que tudo desencadearam, há, para cada momento e para cada personagem, um enigma há espera de ser desvendado. É, pois, intensa a vontade que se gera de saber o que acontece a seguir, e vai crescendo à medida que também o enredo se intensifica.
Também particularmente intrigante é o facto de todas as personagens serem tudo menos perfeita. O presumível assassino esconde uma natureza bastante distinta da que aparenta e a sua história passada faz dele uma personagem surpreendentemente complexa. Mas o mesmo se aplica também aos outros, desde a desaparecida Amanda à estranhamente louca Laura, passando, claro, pelo irascível Dr. Jenkins e pelo atormentado Steven. Todas as personagens servem um propósito e são também muito bem construídas. E, à medida que a verdadeira dimensão dos acontecimentos começa a vir à tona, também o impacto desta construção se torna mais evidente.
E eis que chegamos ao fim e as peças do puzzle começam a encaixar. Não todas, é certo, o que deixa uma certa curiosidade insatisfeita a pairar, mas também a possibilidade de vir a existir uma sequela, mas as essenciais. O que aconteceu a Amanda torna-se claro, tal como o porquê do passeio na rua com uma cabeça nas mãos. E todas as explicações são inesperadas, ainda que não necessariamente completas, o que faz com que, no geral, o final esteja à altura das expectativas.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura enigmática e viciante, com personagens fascinantes e um mistério que, embora ainda não tenha sido completamente desvendado, prende do início ao fim e nunca deixa de surpreender. Uma boa história, em suma, e uma leitura muito cativante. 

Autor: Javier Castillo
Origem: Recebido para crítica

domingo, 10 de fevereiro de 2019

The Freedom Artist (Ben Okri)

Os velhos mitos falam de uma prisão, mas o sistema não pode permitir que essa história seja contada. Só há uma forma de progredir: através do trabalho árduo, da ausência de esforços intelectuais e, acima de tudo, sem fazer perguntas. Mas, quando uma rapariga que se atreveu a questionar é subitamente levada, o seu amante começa a questionar-se também sobre as perguntas que ela costumava fazer. E começa a ver... Num mundo em que todos gritam durante o sono e a atrocidade parece cada vez mais aceitável, Karnak começa a seguir o caminho dos que fazem perguntas. E, sem realmente o saber, torna-se parte de uma revolução silenciosa.
Não sendo propriamente um livro fácil de descrever, mas inesperadamente fácil de ler, esta é uma história de mitos e da construção do próprio mito. A história da prisão e a influência que exerce nas personagens é uma metáfora bastante precisa da vida: aqueles que negam o sistema e se atrevem a sobressair sofrem consequências diferentes (e menos atrozes) na vida real, mas há um paralelismo inegável entre a resignação de algumas das personagens deste livro e aqueles que, na vida real, têm medo de ser eles mesmos. 
Há, então, muito em que pensar ao ler este livro. É, afinal, de uma história de livre pensamento que se trata. Mas há também mais do que isso. Com os seus capítulos curtos, personagens interessantes e misterioso sistema, torna-se também uma leitura bastante viciante. E mesmo que nem tudo seja explicado e, no fim, fique uma certa curiosidade acerca da Hierarquia, todos os elementos essenciais estão lá. A revolução acontece e a grande resposta é dada. O entendimento total... bem, cabe a cada leitor encontrá-lo.
Um último elemento que importa mencionar é que, embora criando o seu próprio mito, esta história tem muitos pontos em comum com outros mitos existentes. O rapaz-guerreiro, que cura e é preso pelas suas acções. A sua estranha postura, tão semelhante às cartas do rator. A mulher numa colina, com a lua sob os pés e uma coroa de estrelas. Tudo assume uma natureza distinta - mas as ligações estão lá para ser descobertas.
Não é, portanto, um livro fácil de descrever, mas é bastante fascinante. E uma história intrigante e estranhamente viciante, sobre uma liberdade mais etérea e o poder das histórias para moldar vidas e criar revoluções. Uma boa leitura em suma.

Autor: Ben Okri
Origem: Recebido para crítica

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Improvement (Joan Silber)

Reyna é uma jovem mãe solteira cujo namorado ficará na cadeia durante alguns meses. A tia, Kiki, que em tempos viveu a sua própria história de amor na Turquia, vive agora sozinha é a familiar mais próxima de Reyna. Mas Kiki tem as suas dúvidas sobre Boyd, pois este parece querer envolver a sobrinha numa espécie de esquema criminoso. E, embora Reyna esteja disposta a muita coisa pelo namorado, quando as coisas se agravam subitamente, Reyna vê-se repentinamente obrigada a encontrar o seu próprio caminho.
Embora inicialmente focado em Reyna e na sua tia, um dos aspectos mais surpreendentes deste livro é que não tarda a expandir-se para uma perspectiva muito mais vasta. Reyna está no cerne do principal acontecimento, aquele que mudará muitas vidas, mas a história progride então para um acompanhamento destas vidas e das suas próprias evoluções pessoais. Daí que fique também a impressão de um título particularmente adequado: mais do que apenas a história de Reyna, é uma história de melhoramento - ou pelo menos do melhoramento possível - para todos os envolvidos.
É também uma história muito bem escrita, que dá voz aos aspectos mais marcantes do caminho de cada personagem. Isto, claro, enfatiza as suas principais qualidades, mas também o impacto de cada desenvolvimento. E há uma poesia estranha e melancólica em ver estas pessoas a tentar encontrar, de alguma forma, um lugar na vida. Não um grande feito, nem mesmo, nalguns casos, o melhor dos comportamentos, mas vida, ainda assim. Vida que desabrocha nas grandes qualidades, mas também nos defeitos e no que deles resulta.
No fim, nada termina realmente, mas parece, ainda assim, ser o fim adequado. Cada personagem percorreu o seu próprio caminho de melhoramento e, a partir daí, as suas vidas separaram-se por fim dos acontecimentos que tudo mudaram. O ciclo fechou-se. Esta história acabou. O resto... bem, é outra história que cabe ao leitor imaginar.
Tudo se resume, pois, nisto: uma história intrigante, poética e muito surpreendente, em que as acções de cada personagem podem moldar o mundo à sua volta. Maravilhosamente escrito e inesperadamente intenso, uma leitura bastante impressionante.

Título: Improvement
Autora: Joan Silber
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Grande Solidão (Kristin Hannah)

Alasca. A última fronteira. A grande solidão. E, para os Allbright, talvez um novo começo, menos assombrado pelas marcas da guerra que fizeram de quem antes era supostamente um bom homem um indivíduo instável e violento. O início faz-se de esperança para Ernt, Cora e a jovem Leni. Mas, à medida que as dificuldades se tornam evidentes, também as sombras de Ernt começam a vir novamente à superfície. Seguem-se os conflitos, a violência. E para Leni, que encontrou no Alasca um lar como jamais imaginou e um amor destinado a durar para sempre, viver à sombra do medo começa a tornar-se cada vez mais insuportável.
Basta um olhar para a capa para encontrar uma boa forma de descrever este livro: uma épica história de amor. Porque é de amor que se trata, embora não daquele que inicialmente julgamos estar no cerne do enredo. É uma história de amor, sim, mas também de brutalidade e violência, de provações e de esperança. E é precisamente isso que torna este livro tão angustiante quanto cativante.
É também uma história complexa, tal como o são as suas personagens. A relação entre Ernt e Cora, com tudo o que tem de disfuncional, torna-se ainda mais complicada no Alasca, com as grandes dificuldades da vida num local tão remoto a associar-se à tendência de Ernt para o conflito e para a obsessão. Leni, apanhada no meio de uma guerra pessoal, vê-se dividida entre amor e ódio, entre a necessidade de fugir e um sentimento que, ainda assim, não consegue negar. E pelo caminho há toda uma vastidão de crescimento: a adaptação ao Alasca, a descoberta das suas capacidades de resistência, o amor... com todas as suas consequências. E tudo num equilíbrio tão preciso de intensidade e de complexidade que a ambiguidade sentida pelas personagens transmite-se também para o leitor, moldando os traços de uma história memorável. 
Voltando ainda uma vez mais ao amor, importa ainda destacar outro elemento. Nem só do amor disfuncional entre Ernt e Cora vive a história, nem do profundo e doloroso amor entre Leni e Matthew. Há também o amor de Cora por Leni, com todas as decisões difíceis (certas e erradas) que isso implica, bem como os sentimentos fortes que unem uma comunidade sólida e coesa construída em torno da sobrevivência. Há um percurso longo, complexo e, sim, épico na história destas personagens. Um percurso notável e escrito com uma precisão marcante. 
Duro e cruel como o cenário que lhe serve de base, mas profundamente emotivo e marcante em todas as suas facetas, trata-se, pois, de uma história complexa, em que o amor é tão intenso na sua máxima disfuncionalidade como no verdadeiro sentido da palavra. Belo e poderoso, um livro memorável. Que não posso deixar de recomendar.

Autora: Kristin Hannah
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Porque Vivemos (Kentetsu Takamori, Daiji Akehashi e Kentaro Ito)

Qual é o sentido da vida? Há muitas respostas possíveis para esta pergunta, ainda que nenhuma delas pareça ser completamente satisfatória. Podemos apontar para os nossos sonhos e objectivos, mas, sabendo que a vida é finita, estes não poderão ser outra coisa que não temporários. Porque vivemos, então? É a esta pergunta enganadoramente simples que este livro pretende responder.
Com base nos ensinamentos do budismo, mas tentando transpor estes ensinamentos para a vida moderna, este é um livro que, embora bastante breve, consegue, ainda assim, trazer ao pensamento várias questões essenciais. A maior é, desde logo, a que dá título à obra. Afinal, o sentido da vida é uma questão intemporal. Mas, mais do que uma resposta definitiva, que, naturalmente, pode ser aceite ou não, o que este livro faz é olhar atentamente para a finitude das coisas, despertando várias questões relevantes. 
É também surpreendentemente simples na forma como expõe as suas ideias. Recorrendo a histórias, a dados da actualidade e também a citações de vários autores ilustres, consegue construir uma visão bastante clara daquilo que pretende transmitir - uma visão budista do porquê da vida e do sofrimento - sem se tornar demasiado denso ou esotérico. Claro que o tema justificaria uma abordagem mais extensa, até porque tem múltiplas ramificações. Ainda assim, o essencial da ideia está lá e isso faz com que, independentemente da curiosidade em saber mais, a impressão que fica seja a de uma leitura completa. 
Todo o livro gira em torno de uma perspectiva específica, o que significa que há certos aspectos que poderão provocar uma certa estranheza, seja devido a um sistema de crenças diferentes ou a uma simples interpretação distinta dos acontecimentos. Ainda assim, o objectivo essencial não parece perder-se. Concordar talvez não seja o mais importante: o que importa é reflectir. E material para reflexão não falta neste pequeno, mas muito interessante livro.
Simples, mas relevante e com uma visão muito interessante das grandes questões da vida, trata-se, pois, de um livro que se prolonga para lá da experiência de leitura. As ideias são clara e sucintamente expostas. As possibilidades, essas... ficam no pensamento bem depois de lida a última página. É também isto, afinal, que define uma boa leitura, não é? E é precisamente disso que se trata. 

Título: Porque Vivemos
Autores: Kentetsu Takamori, Daiji Akehashi e Kentaro Ito
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Southern Bastards, Vol. 2 - Sangue e Suor (Jason Aaron e Jason Latour)

Antes de se tornar na figura mais influente e temida da região, Euless Boss foi um rapaz apaixonado pelo futebol, disposto a resistir a tudo para entrar na equipa e a fazer tudo o que fosse preciso para se manter no meio. Poderoso e sem escrúpulos, rapidamente lidou com o único que se atreveu a fazer-lhe frente - mas esse acontecimento trouxe-lhe memórias. Segue-se, pois, uma longa viagem ao passado, com a promessa de que, depois da entrada em cena de Earl Tubb, nada voltará a ser exactamente o mesmo. Ainda que todos insistam em fingir que nada de grave aconteceu.
Talvez não seja inteiramente surpreendente, tendo em conta a forma como o volume anterior termina, mas não deixa de ser um aspecto peculiar o facto de este segundo volume conferir a uma outra personagem o foco da história. Se no volume anterior Euless Boss era o principal antagonista, agora é a sua história que vem à superfície: uma história cheia de sombras e de violência, pintada (tal como a de Earl, aliás) a vermelho sangue, mas que dá à sua posição toda uma nova perspectiva.
Boss, o treinador, é um indivíduo claramente sem escrúpulos - e há um funeral nesta história que serve perfeitamente para nos lembrar disso. Mas Euless, o rapaz com o seu sonho, é estranhamente vulnerável: desprezado pela maioria, preso numa relação com o pai que é tão má que disfuncional não chega para a descrever e agarrado a um sonho cada vez mais impossível. É fácil compreender o porquê da sua tenacidade. Ora, isto gera, naturalmente, sentimentos contraditórios - principalmente sabendo aquilo em que ele se tornará. Mas é também isso que torna a sua história tão notável: realçando os matizes de um cenário onde não há simplesmente bons e maus. O que há é ambições e o preço delas - e a violência necessária para concretizar o que se pretende. 
E depois... bem, há tudo o resto. A intensidade dos grandes momentos, o contraste vincado entre a pura violência e o que é, afinal, ainda e sempre um sonho - contraste este que transparece não só de uns quantos diálogos particularmente certeiros, mas da expressividade patente na arte, principalmente no que toca às feições das personagens. E desolação, claro. Uma desolação estranha, mas quase palpável, que resulta de uma história de sacrifício e sangue derramado em nome de algo que é duvidoso se vale a pena. 
Com um novo olhar a uma das personagens mais relevantes e um estranho equilíbrio entre os sonhos e as suas consequências, expande cenário e personagens para prometer ainda mais para o que virá. Intenso, sombrio e inesperadamente complexo, trata-se, pois, de um segundo volume mais do que à altura das expectativas geradas pelo primeiro. E que recomendo, naturalmente. 

Autores: Jason Aaron e Jason Latour
Origem: Recebido para crítica

domingo, 3 de fevereiro de 2019

A Fórmula do Amor (Helen Hoang)

Stella tem uma mente brilhante para os números, mas a sua síndrome de Asperger faz com que as suas interacções sociais tenham sérias limitações. Só que os pais delas querem netos e Stella está decidida a fazer-lhes a vontade, o que implica um relacionamento. Sentindo que precisa de melhorar, Stella decide procurar ajuda contratando um acompanhante que a ensine a ser melhor no sexo. Mas Michael tem muito mais do que isso para lhe ensinar. Atraente e encantador, mas com um passado conturbado que lhe impõe também as suas limitações, Michael começa por aceitar, com alguma relutância, a proposta de Stella. Mas, à medida que começam a interagir e a conhecer-se melhor, algo começa a despertar entre ambos. Algo de profundo e de verdadeiro... se estiverem dispostos a deixá-lo crescer.
Com um duo de protagonistas tão peculiar quanto carismático e uma história que parte de um estranhamente enternecedor constrangimento inicial para se tornar depois num crescendo de sentimentos profundos, este é um livro que cativa desde muito cedo e não deixa de surpreender até ao fim. Leve nos momentos certos, mas também com o equilíbrio ideal de humor, sentimento e sensualidade, é um daqueles em que mal damos pelas páginas a passar, tal é a vontade de saber o que acontece a seguir - e, principalmente, se as coisas vão acabar como desejamos para os protagonistas.
Parte desta sensação de proximidade vem de uma construção das personagens que vai muito mais fundo do que apenas a relação entre ambos. Stella, com a sua mente eficiente e os seus bloqueios sociais, tem experiências passadas e hábitos arraigados a condicionar cada passo que dá, e isto é marcante não só pela superação presente, mas pelos efeitos que, à medida que os acontecimentos passados vêm à tona, se tornam também mais evidentes. Michael, por sua vez, é uma estranha mistura de encanto e de sombras, com uma vida familiar cheia de ternura e capaz de despertar sorrisos enormes, mas com um passado cheio de fantasmas e de imposições que o prenderam à vida que tem. E a aproximação de ambos, com o desvendar destes aspectos não só ao leitor, mas também um ao outro, serve de base a uma relação mais sólida, mais completa... e mais complexa também, pois tudo isto implica os seus obstáculos. 
Surge então um contraste muito interessante: o de uma história de vidas complicadas contada com inesperada e deliciosa leveza. Pois a autora consegue dar a cada momento a forma que mais expande o seu potencial. Seja um jantar em família, um momento de sensualidade, uma grande discussão ou um simples gesto de conforto, em tudo surge o equilíbrio perfeito, pois tudo flui da forma mais natural.
No fim, fica esta deliciosa imagem: a de uma história cheia de romance e de humor, mas também de tensão, emoção e descoberta. Uma história de superação de obstáculos contada com toda a mestria e ternura de um enredo tão natural quanto a complexidade das suas personagens. Intenso, surpreendente, delicioso. E muito, muito bom. 

Autora: Helen Hoang
Origem: Recebido para crítica

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Ms. Marvel, Vol. 2 - Geração Perdida (G. Willow Wilson e Adrian Alphona)

Kamala Khan descobriu da maneira mais difícil que, com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Agora, o Inventor anda atrás dela, enviando máquinas cada vez mais perigosas, ao mesmo tempo que continua a empreender os seus planos maquiavélicos. Há vários adolescentes desaparecidos e é um destes desaparecimentos que faz com que Kamala se cruze com Wolverine, um dos seus heróis favoritos. Juntos, terão de encontrar a jovem desaparecida. Mas esse é apenas o início das revelações, pois, à medida que os contornos dos planos do Inventor começam a revelar-se, também a natureza dos poderes de Kamala se torna mais clara. E a certeza de que é preciso fazer alguma coisa.
Uma das primeiras coisas a sobressair neste segundo volume é que as peculiaridades que inicialmente se estranharam ao entrar nesta história são o que agora a torna tão única e cativante. Dos estranhos poderes de Kamala ao seu delicioso sentido de humor, passando, naturalmente, por um vincado contraste entre a sua natureza de super-heroína e a consciencialização para temas muito reais, são as coisas que tornam esta Ms. Marvel peculiar que a tornam também tão fascinante. E, agora que a conhecemos melhor, é fácil entrar no espírito da aventura, torcer para que seja bem-sucedida e sentir com ela, seja o impulso de agir, seja a confusão de descobrir que é ainda mais diferente do que pensava.
Esta fascinante peculiaridade sente-se em todas as facetas, desde os diálogos perspicazes às grandes sequências de acção, onde o movimento constante se associa a umas quantas expressões deliciosas. E, claro, Kamala pode ser uma super-heroína, mas é também uma adolescente entusiasmada. Daí que a expressividade do seu rosto em certos momentos específicos (com um destaque especial para as interacções com Wolverine) são algo de estranhamente encantador.
Mas voltando à história propriamente dita, há duas facetas que importa destacar. Primeiro, a riqueza e o contraste dos cenários, com o mundo dos adolescentes americanos a contrastar com o ambiente familiar de Kamala e também com o de Attilan. São ambientes muito distintos e os contrastes são notórios, o que, além de tornar tudo mais realista, permite compreender a posição de Kamala enquanto adolescente dividida entre mundos. E depois o equilíbrio, pois, ao longo da história, são muitos os momentos de acção, mas há espaço também para a necessária introspecção, para a análise das circunstâncias e até para uns quantos laivos brilhantes de emoção e de humor. São muitas facetas que convergem num todo harmonioso. E o melhor de tudo é que a conclusão é também, em si, um equilíbrio, encerrando uma fase - a do Inventor - para prometer novas e intensas aventuras. 
Intenso e viciante, trata-se, pois, de um livro imperdível, em que a aventura e a acção se conjugam com uma abordagem serena e perspicaz a um certo conflito geracional. Muito mais do que uma história de super-heróis, um livro cheio de surpresas e de vastíssimo potencial. Que promete ainda novas maravilhas. 

Autores: G. Willow Wilson e Adrian Alphona
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Divulgação: Novidade Suma de Letras

Uma tempestuosa manhã de Outubro. Num tranquilo subúrbio de Copenhaga, a Polícia faz uma descoberta terrível. No recreio de um colégio, uma jovem é encontrada brutalmente assassinada, e falta-lhe uma das mãos. Pendurado por cima dela, um pequeno boneco feito com castanhas.
A jovem e ambiciosa detective Naia Thulin é designada para desvendar o caso. Com o seu colega Mark Hess, um investigador que acabou de ser expulso da Europol, descobre uma misteriosa prova sobre «o homem das castanhas», nome com que os media baptizaram o assassino. Existem evidências que o ligam a uma menina que desapareceu um ano antes e foi dada como morta: a filha da ministra Rosa Hartung. Mas o homem que confessou o assassínio da menina, um jovem que sofre de uma doença mental, já está atrás das grades e o caso há muito encerrado.
Quando uma segunda mulher é encontrada morta e, junto dela, mais um boneco de castanhas, Thulin e Hess suspeitam de que possa haver uma ligação entre o caso Hartung e as mulheres assassinadas. Mas qual…?
Thulin e Hess entram numa corrida contra o tempo. O assassino tem uma missão… e está longe de a terminar.

SØREN SVEISTRUP é o guionista internacionalmente aclamado do fenómeno televisivo The Killing, vencedor de vários prémios internacionais, incluindo um BAFTA, e que foi reproduzido em mais de 100 países. Mais recentemente, escreveu para o cinema o guião do romance O Boneco de Neve, de Jo Nesbø. Sveistrup fez um Mestrado em Literatura e História na Universidade de Copenhaga e estudou na Danish Film School.
O Homem das Castanhas, o seu primeiro romance, é já um sucesso internacional, tanto de vendas como de crítica, e os seus direitos foram vendidos para 25 países.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Percy Jackson e os Ladrões do Olimpo (Rick Riordan)

Percy Jackson é tido como um rapaz problemático e prova disso é que está prestes a ser expulso de mais um colégio interno. Mas, quando a sua professora de matemática se transforma num monstro, para depois Percy a matar com a espada que o professor de latim lhe atirou, tudo acontecimentos de que mais ninguém se recorda, Percy começa a intuir que os seus problemas são outros. E essa suspeita vê-se confirmada quando se vê arrastado para uma fuga frenética que termina com a mãe aparentemente morta e ele à porta de um campo de férias para semideuses. Aí, Percy descobre a sua natureza divina e recebe a sua primeira missão: recuperar o raio-mestre de Zeus, roubado, ao que tudo indica, por ordem de Hades, e impedir a Terceira Guerra Mundial.
Parte do que torna este livro tão interessante é a forma como o autor consegue conjugar um vasto conjunto de elementos da mitologia grega, que é, aliás, a linha condutora de todo o enredo, com um cenário muito actual e uma história cheia de acção, o que resulta numa leitura viciante com uma história que decorre num mundo meticulosamente construído. Tudo faz, na verdade, um estranho sentido, embora tudo seja também bastante invulgar. E é esse estranho encanto que torna a história tão mágica... e tão difícil de largar.
Sendo uma história de deuses e semideuses, não é propriamente uma surpresa que outra das grandes forças seja o carisma das personagens. O curioso é que isto não se aplica apenas aos deuses, com as suas invulgares personalidades, mas também aos semideuses, com especial destaque, naturalmente, para Percy e os seus amigos. O que me leva a outro aspecto: podem ser personagens perfeitamente construídas, mas não são personagens perfeitas. Percy pode ser filho de um deus, mas não deixa de ser um miúdo assustado. Grover tem grandes sonhos, mas tem também as suas particularidades. E o caminho não se faz apenas do desvendar de mistérios e da realização de missões: faz-se também de crescimento e, acima de tudo, de amizade.
Claro que realizar uma missão para os deuses gregos nunca poderá ser fácil, o que significa que não falta acção ao longo do caminho. Mas o mais notável é como tudo parece surgir nas medidas certas: os grandes momentos de acção, os rasgos de humor, o ocasional episódio emotivo e as revelações capazes de mudar tudo. O resultado é uma história que começa logo viciante e que avança em crescendo para culminar num final poderoso e que promete também muito de bom para os volumes seguintes.
Com as suas personagens marcantes e a sua reconstrução da mitologia grega, cativa desde as primeiras páginas e não deixa de encantar mesmo até ao fim. Com o seu sentido de humor e o equilíbrio perfeito entre acção, intriga e emoção, conquista tanto nos grandes momentos como nas mais pequenas coisas. E, com o seu crescendo de intensidade, fica na memória bem depois de concluída a leitura. Intenso, cativante e cheio de surpresas, trata-se, pois, de um primeiro volume delicioso. E, sem dúvida, de uma série a não perder. 

Autor: Rick Riordan
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A Noite Passada (Alice Brito)

Eram os tempos do respeitinho, do silêncio, da submissão à autoridade. Do aceitar caladinho, porque, caso contrário, as consequências seriam terríveis. E foi nesses tempos que Amélia conheceu um homem, deixou-se encantar... e viu-se com o filho de um pide nos braços, felizmente aceite por um homem melhor. Mas esse seria apenas o início, pois a história de António seria também a dos primórdios da liberdade. Uma história de descoberta, de coragem e de revolução, acompanhada pelo olhar distante, mas preciso, de um narrador bastante especial. 
Contada a dois tempos e acompanhando o que, inicialmente, parecem ser duas histórias distintas - a da ficção e a da realidade do ficcionista - este é um livro que cativa primeiro pelo registo aparentemente simples, mas com uma fluidez cativante e eficaz, e depois pela naturalidade com que as verdadeiras complexidades se vão desvelando. Não é só a história de Amélia e António, nem é só a história de Luís escritor. É também a história do tempo em que se movem. E, todavia, é uma história pessoal: de Amélia e Joaquim, assombrados pelo medo constante; de António, da inocência à descoberta e à vingança; e também de Bárbara, Encarnação, Rui Corninho e todos esses outros que povoam o mundo destas personagens. Todos credíveis, todos genuínos. Todos marcantes.
Há ainda um outro aspecto interessante na forma como o livro está escrito: além dos dois pontos temporais bastante distintos, há também na voz que narra a história de António uma certa peculiaridade, como que uma proximidade que indicia a voz de alguém que esteve lá. Ora, isto faz todo o sentido uma vez feitas as derradeiras revelações, mas tem também o condão de dar à narrativa um tom invulgar. Há, aliás, umas quantas observações certeiras que quase parecem indicar que o narrador (ou bem, o narrador de uma parte do enredo) não tem lá muito boa impressão desta coisa de escrever romances. 
E depois, claro, há a história em si e a forma como equilibra um contexto meticulosamente descrito com uma história que vive de experiências individuais. Ao cenário complexo junta-se a tensão e a intensidade do medo, da dúvida, do perigo e da descoberta. E isso faz com que, além de marcante em todos os aspectos, a leitura se torne também surpreendentemente viciante. Claro que também o grande mistério - qual é o elo de ligação entre as duas partes - contribui para este ritmo intenso, mas bastam os acontecimentos para fascinar.
Complexo, mas pessoal e com uma intensidade quase irresistível, trata-se, pois, de um livro notável, não só pelo tempo e pela história que apresenta, mas principalmente pelas vidas que o povoam. Além, claro, da forma que lhe dá voz, que é também parte essencial do que torna este livro tão memorável. E tão, tão bom. 

Título: A Noite Passada
Autora: Alice Brito
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Southern Bastards, Vol. 1 - Aqui Jaz Um Homem (Jason Aaron e Jason Latour)

Ah, o Sul. Esse lugar de gente estranha, de influências em movimento e de um tipo de poder tão feroz que, nos seus momentos de máxima violência, deixa marcas tão profundas que quem parte fá-lo para nunca mais voltar. Ou, pelo menos, é essa a intenção. Earl Tubb deixou o Sul há quarenta anos e o regresso pretende ser apenas passageiro: esvaziar a casa do tio que se mudou para um lar e depois voltar para a sua vidinha bem longe dali. Só que... o Sul tem as suas manhas e, quando o caminho de Earl se cruza com o de um velho conhecido em sarilhos, ele não consegue resistir a tentar ajudar. O que, num cenário onde o poder se impõe pela força, talvez não seja a mais saudável das ideias...
Basta um olhar à capa, com os seus tons de vermelho e a sua imagem de violência anunciada, e uma breve leitura da sinopse para antever uma boa dose de sangue e de porrada. E, sim, também nesse sentido o livro corresponde às expectativas. Mas há algo mais e as surpresas começam desde muito cedo. O retrato do Sul cruel e impiedoso começa logo no prefácio, estranha declaração de amor-ódio ao Sul, e esse sentimento ambíguo prolonga-se para a própria história. Ou não fosse o protagonista um sulista que jurou nunca mais voltar... mas que, bem, está mesmo de volta.
O Sul desta série não é nitidamente um lugar muito civilizado e a forma como os autores retratam isto é bastante precisa. Afinal, há uma certa desolação que permeia tudo, desde os cenários propositadamente esbatidos às sombras da noite, onde tudo acontece, passando por um passado feito também de memórias vermelhas. Desolação e violência: talvez sejam estes os ingredientes centrais desta história. Mas o impacto... ah, bom. O impacto vem da complexidade que se esconde a cada canto.
E a maior complexidade está mesmo em Earl Tubb, embora o estranho regime instalado na sua terra natal tenha também as suas estranhas e tenebrosas complexidades. Mas Earl, o homem que partiu para nunca mais regressar, movido por uma aversão tão profunda que o levou a celebrar a morte do próprio pai... mas que se transformou num reflexo do seu próprio passado. Earl Tubb, que não veio para fazer frente ao poder instituído, mas que... não consegue evitar. Que quer recuar mas não pode, pois é, também, em certa medida, o herdeiro de um legado moral que nunca quis... Earl Tubb é a verdadeira alma do início desta estranha e implacável história. E é talvez também isto que faz com que a forma como este primeiro volume termina seja algo de tão devastador. Porque há uma leve esperança que se manifesta - o tipo de esperança que não pode ser permitido naquele tipo de local.
Escusado será dizer que tudo fica em aberto, mas não é de curiosidade insatisfeita a sensação que fica ao chegar ao fim. Não. Tudo o que tinha de acontecer aqui, aconteceu de facto. O que vier a seguir será uma nova fase. E por isso, não é curiosidade insatisfeita, é vontade de continuar. E de continuar o mais cedo possível. 
Intenso, complexo e implacável, trata-se, pois, de um início notável para uma série que promete ainda muito mais. Cheio de crueldade, mas permeado de meticulosos rasgos de emoção, um livro que se entranha na memória com a mesma tenacidade do seu protagonista. Muito bom.

Autores: Jason Aaron e Jason Latour
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Marcador

O passado e o presente estão entrelaçados nesta história de amor eterno, onde a sombra da bruxaria e a ganância do homem são derrotadas pela paixão de uma mulher que transcende o espaço e o tempo.
Brianda, uma jovem engenheira, deixa uma vida agitada em Madrid para regressar temporariamente à sua casa de infância, situada numa aldeia fria e isolada nos Pirenéus. Aí algo a impele a explorar as suas raízes e a descobrir um segredo de família… e um novo interesse amoroso, o enigmático Corso, que desafia o destino ao restaurar a mansão negligenciada que herdou. O mistério adensa-se quando Brianda descobre outra mulher com o mesmo nome nos arquivos da aldeia, uma mulher que viveu quatro séculos antes e desafiou convenções. Numa terra convulsionada por guerras, vinte e quatro mulheres foram acusadas num dos episódios mais dramáticos da história da feitiçaria espanhola. Entre elas está Brianda, que se torna um alvo e faz uma promessa ao seu verdadeiro amor, uma promessa que pode não viver para cumprir.

Luz Gabás nasceu em 1968 em Mozón (Huesca). Os  melhores momentos da sua infância e juventude tiveram lugar entre a terra onde vivia a sua família paterna (Cerler, no vale de Benasque) e a terra da sua família materna (Serrate, no vale de Lierp). Depois de viver um ano em San Luis Obispo (Califórnia), estudou em Saragoça, onde se licenciou em Filologia Inglesa e conseguiu mais tarde ocupar o lugar de professora universitária. Durante anos aliou a docência  universitária ao trabalho de tradutora, à publicação de artigos e à investigação em literatura e linguística, e participou ainda em projetos culturais, teatrais e de cinema independente. Desde 2007 vive na lindíssima vila de Anciles, perto de Benasque (situado nos Pirenéus espanhóis), onde se dedica, entre outras coisas, a escrever.
O seu primeiro romance, Palmeiras na Neve, foi um grande êxito editorial adaptado ao cinema.

Para mais informações, consulte o site da Marcador Editora aqui.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Laura and the Shadow King - The Pink Glove (Bruno Martins Soares)

O mundo mudou. Uma doença misteriosa que, na primeira vaga, matou demasiados, e na segunda transformou as suas vítimas numa espécie de zombie, fez com que o planeta mergulhasse no caos. E é no centro deste caos que a semente da mudança começa a germinar. Uma mulher dá início a uma fuga desesperada para salvar a sua filha das mãos de um impiedoso captor que não hesitará em usá-las as duas para os seus propósitos sombrios. Do outro lado, um homem leva a sua equipa para o Sul de Portugal, na esperança de resgatar os camaradas desaparecidos. E, sem saber, ambos convergem para o mesmo ponto: um ponto de protecção, de salvação... e, talvez, do primeiro vislumbre do que o futuro poderá trazer. 
Um bom indício do quanto eu gosto dos livros deste autor é que, não sendo propriamente fã da leitura em formato digital, aqui estou eu, a falar do quarto livro lido neste formato. E vale a pena abrir esta excepção? Vale, pois. E outro bom indício disso é que, apesar de ser muito mais lenta a ler neste formato, a primeira palavra que me ocorre para descrever este livro é viciante.
Uma das primeiras coisas a destacar neste início de série é o conjunto de diferenças e paralelismos com as The Dark Sea War Chronicles. Não na história propriamente dita, não, mas talvez na experiência de leitura. As qualidades são, aliás, comuns: viciante, intenso, com grandes e poderosas batalhas e um certo rasgo de crueldade que parece ser característico do autor. O que me leva à diferença inicial. J.J. Berger é uma personagem surpreendente menos atormentada do que, digamos, um Byllard Iddo, o que faz com que o impacto emocional dos primeiros acontecimentos não seja tão dramático. Mas, por outro lado, há a fuga de Maria, à qual não falta dramatismo. E, se a fase inicial parece menos devastadora no sentido emocional, à medida que o enredo evolui, essa impressão vai mudando. E o que começa por ser uma empatia inicial para com as personagens evolui para preocupação profunda.
Depois há o contexto em si, com a questão da doença e todas as mudanças que esta trouxe ao mundo a criar um certo ambiente de desolação. Além, é claro, do delicado equilíbrio de poderes que isto implica. Além disso, é este contexto delicado a base para tudo o que acontece a seguir, o que faz com que cada desenvolvimento tenha um maior impacto por se enquadrar perfeitamente no mundo em que as personagens se movem. Sejam os grandes momentos de combate, as estranhas trocas de palavras (e há uma personagem que tem um sentido de humor particularmente delicioso) ou os rasgos de emoção e de crueldade, tudo encaixa perfeitamente no cenário global. Sem perder de vista, claro, o impacto pessoal que cada desenvolvimento tem nas personagens - e que torna a história tão próxima e intensa. 
Sendo este apenas o primeiro volume, não surpreende que muito seja deixado em aberto. Das capacidades de Laura ao futuro do mundo e das personagens, tudo é possível a partir daqui. Mas, mais do que curiosidade insatisfeita, o que fica é uma vontade irresistível de deitar a mão ao próximo volume o mais cedo possível.
A impressão que fica é, pois, a de um livro mais do que à altura das expectativas. Intenso, viciante, cheio de acção e com uns quantos rasgos de emoção particularmente poderosos, cativa do início ao fim e promete ainda mais para o que se seguirá. A soma das partes é, naturalmente, algo de muito bom.

Título: Laura and the Shadow King - The Pink Glove
Autor: Bruno Martins Soares
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Pecados Santos (Nuno Nepomuceno)

Tudo começa com um homicídio altamente ritualizado numa sinagoga em Londres, uma espécie de encenação blasfema do sacrifício de Abraão. Mas aquele é apenas o primeiro crime e, embora haja um suspeito preso e bastantes provas a implicá-lo no caso, a situação cedo se revela bastante mais complexa. Ao crime em Londres, seguem-se outros em Lisboa, todos repletos de simbolismo e de brutalidade. É neste cenário que o professor Afonso Catalão se vê arrastado para o caso: enquanto namorado de Diana, vê-se naturalmente intrigado pelo que parece ser uma boa história. E, ao descobrir que o suspeito detido em Londres é filho de uma das mulheres do seu passado, Afonso descobre novos motivos para ajudar. Mas as pistas são escassas. As mortes acumulam-se. E os fantasmas do passado - de vários passados - começam a vir à superfície...
De vez em quando, deparamo-nos com um livro tão fascinante e repleto de qualidades que se torna difícil escolher explicar as sensações que despertam e escolher um ponto por onde começar. É o caso deste Pecados Santos. Com o seu ritmo intenso, escrita viciante, personagens complexas e história cheia de surpresas, não há nada que não seja, de alguma forma, uma qualidade e, assim sendo, torna-se difícil escolher o que dizer e o que deixar para o futuro leitor desvendar. 
Porque, futuro leitor, este livro é brilhante, e por todas as razões. Mas é preciso aprofundar um pouco mais esta afirmação, não é verdade? Vamos por partes, então. E a primeira parte passa... por recomendar outros livros. É que, sendo embora um livro totalmente independente, há toda uma série de razões que justificam ler todos os outros livros deste autor. Desde o muito agradável reencontro com Afonso Catalão, cujo percurso se torna ainda mais marcante conhecendo outros aspectos do seu passado, à história de outras personagens também vindas de um contexto anterior e que desempenham aqui um papel entre o relevante e o avassalador, passando, naturalmente, pela pequena profusão de detalhes deliciosos, como a menção a um tal de André Marques-Smith e a procura de um manuscrito raro da autoria de um autor de nome estranho que escreve "umas historietas de espionagem". Há força nos grandes momentos, mas há magia também nos mais discretos, e isso é também uma espécie de brilhantismo.
Mas concentremo-nos nesta história específica - e, uma vez mais, no seu aparente protagonista. Aparente porque a história está muito longe de se resumir apenas a Afonso, embora ele pareça estar no centro da tempestade. Afonso é uma figura atormentada por pecados passados, e isso faz com que seja a personagem ideal para acompanhar este complexo e intrigante mistério. É, além disso, hábil na interpretação de simbolismos, o que torna muito mais interessante acompanhar o ritmo das descobertas, até porque a sensação que fica é a de estarmos a fazê-las ao mesmo tempo que as próprias personagens. Junte-se a isto todo um conjunto de outras personagens carismáticas - a quem acontece muita coisa marcante e perturbadora - e o resultado resume-se numa única palavra: irresistível.
E, se as personagens são marcantes, o que dizer do enredo? Quase num piscar de olho ao filme Sete Pecados Mortais, pelo menos no que ao simbolismo dos crimes diz respeito, mas transpondo-o para algo de novo e com uma identidade muito própria, a história intriga desde os primeiros momentos e leva-nos de surpresa em surpresa até um final puramente devastador. Devastador não só pelo impacto, mas pelo contraste entre os rasgos de leveza e o choque final, e, claro, pela crueldade que insiste em cruzar o caminho de homens essencialmente bons. 
Termino, pois, tal como comecei: reforçando o impacto deste livro brilhante e cheio de qualidades, tanto nas grandes revelações como nos pequenos gestos. Intenso, viciante e devastador, um livro irresistível e surpreendente. E que recomendo a todos. Mas mesmo, mesmo todos. 

Título: Pecados Santos
Autor: Nuno Nepomuceno
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Starlight - O Regresso de Duke McQueen (Mark Millar e Goran Parlov)

Duke McQueen foi em tempos um piloto de testes que foi acidentalmente parar a outro planeta, onde viveu muitas aventuras, salvou aquele mundo do ditador que o governava e tornou-se um herói para todos os seus habitantes. Depois, regressou à Terra, contou a sua história... e ninguém acreditou nele. Agora, quarenta anos passados, Duke perdeu o amor da sua vida e os filhos não estão muito interessados em conviver com ele. Mas, quando parece que só lhe resta a nostalgia, Duke recebe a visita de um habitante do planeta que em tempos salvou. Aparentemente, estão novamente em dificuldades, e só uma lenda do calibre de Duke McQueen os pode ajudar!
Sendo essencialmente a história do herói que, sozinho (ou quase...) salva um planeta inteiro, seria, à partida, de esperar que esta leitura pudesse ser um pouco previsível, mas, na verdade, não é essa a sensação que fica. Bastam as primeiras páginas e a quase imediata sensação agridoce de se estar perante alguém que viveu muito de bom, mas que, sem saber como, parece ter perdido tudo, para entender que a grande resolução pode não ser surpreendente, mas o caminho está certamente repleto de surpresas. Duke McQueen, herói galáctico, e Duke McQueen, homem enlutado e sozinho, são uma e a mesma pessoa, e a forma como a história põe em evidência estas duas facetas, tanto a nível dos diálogos mais dolorosos, como de contraste entre a cor das diferentes sequências, é algo de muito poderoso.
Também há um contraste bastante vincado entre as cenas do quotidiano terrestre e as do outro planeta, com a indumentária peculiar a trazer à memória não só os filmes de ficção científica, mas também uma certa nostalgia terrestre. O que acaba por, de certa forma, pôr também em evidência uma certa universalidade das coisas: afinal, Duke pode estar a caminho de salvar outro planeta, mas é um planeta que, embora com hábitos e cenários diferentes (cenários, diga-se, magnificamente construídos), parece povoado pela mesma ambição, resignação, coragem, sentido de lealdade (ou falta de) e inclusive espírito de sacrifício e instinto protector. 
Mas, claro, importa ainda dizer isto: pode haver muito espaço para a emoção e a nostalgia, mas acção é também coisa que não falta. Seja num breve vislumbre de acontecimentos passados ou nas sequências das grandes batalhas, há ritmo e movimento até no mais pequeno dos confrontos, e isso faz com que, mesmo que não seja assim tão difícil adivinhar quem sairá vencedor, não se perca nenhum do impacto desses momentos mais intensos. 
Tudo somado, fica a impressão de uma história cativante e intensa, com um herói com o coração e a consciência nos sítios certos e um enredo que é muito mais do que apenas a luta pela liberdade de um planeta: é também a redescoberta da força de um homem quebrado. Intenso, viciante e notável no seu equilíbrio de contrastes, um livro que não posso deixar de recomendar. 

Autores: Mark Millar e Goran Parlov
Origem: Recebido para crítica

domingo, 20 de janeiro de 2019

Malícia (Aleatha Romig)

As regras mudaram. O que em tempos foi uma semana de paixão arrebatadora tornou-se agora um acordo com regras claras. Durante o próximo ano, Lennox Demetri será o dono de Alex Collins e ela deverá obedecer-lhe em tudo. Mas, embora tenham sido circunstâncias desesperadas a levá-la àquela situação, Alex mantém ainda a esperança de que o que, em tempos, a uniu a Nox possa voltar a vir à tona. Está, aliás, disposta a lutar por isso. Só que os problemas não se resumem às novas circunstâncias. Tanto Nox como Alex pertencem a famílias poderosas com grandes planos. E, embora determinada a não ceder ao que os Montague veêm como sendo o seu dever, a nova vida de Alex tem também os seus mistérios e perigo.
Um dos aspectos mais curiosos deste segundo volume é a capacidade que tem de ser, simultaneamente, cativante e contraditório. Cativante por várias razões, desde a escrita fluída à mistura de erotismo e mistério, passando ainda pelo entrecruzar de passado e presente. Contraditório pelas circunstâncias em que a história começa, com Nox a revelar uma faceta diferente e capaz de despertar sentimentos menos simpáticos, mas mantendo, ainda assim, a presença das suas qualidades. 
Isto torna-se ainda mais intrigante devido à alternância de pontos de vista, que permite ver o contraste entre pensamentos e acções, tanto pelos olhos de Alex como pelos de Nox. Além disso, os defeitos das personagens podem até gerar irritações ocasionais, mas tornam também mais real o seu percurso. Afinal, todas as relações implicam altos e baixos e, tendo em conta as circunstâncias da vida dos protagonistas, esta terá de implicar mais do que o costume. 
Nem só do casal vive a história, embora sejam eles o cerne, tanto nos momentos de tensão como nos de maior erotismo. Há também uma história vinda do passado, desta vez envolvendo a mãe de Alexandria. E, sendo certo que ficam muitas perguntas em aberto, até porque este é apenas o segundo livro de cinco, há também muitas revelações explosivas e um final que deixa uma imensa vontade de saber o que acontece a seguir.
Ainda uma última nota para referir um outro equilíbrio interessante: embora haja bastante tensão e erotismo a envolver os protagonistas, a autora consegue encontrar a medida certa a aplicar as várias facetas da história. Há cenas sensuais quanto baste, mas nenhuma delas parece exagerada e surgem precisamente nos momentos certos para enfatizar a relação entre Nox e Alex. Há uma relação a crescer, também do ponto de vista físico, mas há também muito mais nesta história, e a autora conjuga com precisão os diferentes elementos envolvidos.
Intenso, cativante e surpreendente, trata-se, pois, de um livro que eleva a novas complexidades a história do volume anterior, sem nunca perder de vista o equilíbrio entre sentimento, sensualidade e perigo. Cheio de mistérios e de surpresas, corresponde inteiramente às expectativas - e promete muito de bom para o que está para vir.

Título: Malícia
Autora: Aleatha Romig
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Um Bom Partido (Curtis Sittenfeld)

Os Bennet são uma família peculiar. Vários anos de desinteresse deixaram-nos em dificuldades financeiras e a grande esperança da Sra. Bennet é arranjar maridos ricos para as filhas, até porque Jane e Liz, as mais velhas, estão quase a chegar aos quarenta anos. Por isso, quando Chip Bingley, estrela do reality show Bons Partidos, chega a Cincinnati, a senhora Bennet começa a fazer grandes planos. Só que Jane e Liz não só as mais velhas, são também as mais independentes. Chip pode até ser um bom partido para Jane, mas a situação é delicada. E quanto a Liz... bem, sobre o homem rico que acaba de cruzar o seu caminho, Liz não tem nada de bom a dizer.
Sendo apresentado como uma versão moderna de Orgulho e Preconceito, é difícil não partir para esta leitura à procura das diferenças e dos paralelismos e, na verdade, as surpresas começam logo aí. As diferenças são, à partida, óbvias, com o cenário moderno e, consequentemente, cheio de desafios diferentes para as irmãs Bennet. Mas os paralelismos, esses, são deliciosos. Num registo bastante mais leve e divertido do que a obra que serviu de inspiração, a autora consegue, ainda assim, manter-se fiel à alma de Orgulho e Preconceito, transportando as mesmas personalidades para uma história completamente distinta.
Era de prever que a história fosse ter os seus momentos caricatos - mas talvez não tanto. Desde a relação amor-ódio entre Liz e Darcy às excêntricas irmãs mais novas de Liz, passando, claro, pelas pequenas grandes manias da senhora Bennet e pelo ódio (esse sim sem amor algum) entre Caroline e Bingley, há todo um conjunto de episódios bizarros, surpreendentes e principalmente muito divertidos ao longo desta história. O resultado... bem, o resultado é viciante. 
Tudo parece divergir da história de Orgulho e Preconceito, com o mundo dos telemóveis e dos reality shows a contrastar com o contexto da obra original. Ainda assim, o que a autora constrói é um equilíbrio notável entre o antigo e o novo. Liz, Darcy, Jane, a Sra. Bennet, todos eles têm bastante das personagens originais, mas têm também uma natureza própria e uma história que, num cenário muito mais moderno, permite também a abordagem de várias questões relevantes.
Tudo somado, fica a impressão de uma história que, inspirada numa obra intemporal, consegue transportá-la para um outro cenário e dar-lhe uma vida diferente sem perder nenhum dos seus traços essenciais. Viciante, divertido e cheio de surpresas, um livro irresistível.

Título: Um Bom Partido
Autora: Curtis Sittenfeld
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A Quinta dos Animais (George Orwell)

Tudo começou com um sonho e um discurso, e, à primeira oportunidade, os animais tomaram conta da Quinta do Infantado, expulsando os humanos e recuperando o controlo das suas vidas. Mas a Rebelião foi apenas o início. Liderados por dois porcos, os animais definem os mandamentos que deverão reger o seu regime e as regras a aplicar à população da recém-rebaptizada Quinta dos Animais. E o que inicialmente pareciam ser regras claras transforma-se em algo bastante mais complexo, à medida que a esperança de trabalhar com vista a uma vida melhor se esbate num regime cada vez mais sombrio e autoritário, dominado pelo ambicioso Napoleão.
Não é propriamente difícil de adivinhar que esta história está muito longe de ser apenas uma fábula sobre animais que decidem libertar-se do jugo dos humanos. É muito mais do que isso. É o retrato do nascimento e ascensão de um regime autoritário e também uma reflexão sagaz sobre todos os autoritarismos. E, sim, começa por ser uma história aparentemente leve e ligeiramente caricata sobre animais que falam e que aspiram à liberdade. Mas a marca vai-se entranhando à medida que o lado sombrio desta história - em si mesma e também com os evidentes paralelismos com o mundo dos humanos - começa a vir à tona.
Basta esta perspectiva - e, claro, a mestria em que toda esta impressionante construção assenta - para fazer deste livro uma obra relevante. Mas há mais a destacar. A escrita que, embora bastante descritiva, flui com uma precisão tal que quase parece perfeitamente natural a interacção entre porcos, cavalos, cães e restantes animais da quinta. A construção das personagens, que, embora representativas de uma realidade bem diferente, têm também personalidades e peculiaridades próprias. E a visão de um todo que é muitíssimo mais vasto... mas que é também uma história tão estranhamente cativante que, mesmo conhecendo a realidade e adivinhando, por isso, aquilo que virá, é impossível não torcer por uma conclusão mais benéfica para os animais envolvidos.
E é curiosa esta sensação que vai surgindo: por um lado, reconhecemos o regime que inspirou a história, os problemas, as personagens. Por outro, há uma certa e inevitável leveza - talvez devido ao facto de ser uma história protagonizada com os animais - que contrasta com o crescendo de negrura que marca a ascensão do porco Napoleão. Como se houvesse um outro fim possível, uma revolução dentro da revolução. 
O resultado é um livro intemporal, pois, embora retratando um regime muito específico, contém muito de pertinente para a análise de todos os autoritarismos. E também uma leitura cativante, surpreendente e tão capaz de marcar por aquilo que representa como pelos simples passos da história em si. Breve, mas notável em todos os aspectos, um livro que todos deviam ler.

Autor: George Orwell
Origem: Aquisição pessoal

Divulgação: Novidade Porto Editora

No Portugal festivo e individualista do fim da década de 80, Violeta, uma professora de 32 anos, engravida de Ildo, um aluno de 14 anos, filho de uma mãe solteira cabo-verdiana. O Insubmisso, novo jornal de uma elite em ascensão, perseguirá a história e descobrirá que o pai de Ildo é um cavaleiro tauromáquico aristocrata. O escândalo do chamado processo Violeta contrastará com o silêncio absoluto através do qual Ana Lúcia, amiga de Violeta, oculta a sua violação por um outro aluno de 14 anos da mesma escola.
Este romance apaixonante interroga, com inteligência, imaginação e humor, os interditos de uma sociedade que se diz livre e despida de preconceitos. O processo Violeta é, afinal, o de um país de hábitos clandestinos, esconsos, sacrificiais e crepusculares.

Inês Pedrosa (1962, Coimbra) tem uma vasta obra de ficção, crónica, dramaturgia e biografia, na qual se destacam os romances Nas Tuas Mãos (1997, Prémio Máxima de Literatura), Fazes-me Falta (2002, mais de 150 mil exemplares vendidos), A Eternidade e o Desejo (2007, finalista dos Prémios Portugal Telecom e Correntes d’Escritas), Os Íntimos (2010, Prémio Máxima de Literatura), Dentro de Ti Ver o Mar (2012) e Desamparo (2015).
Livros seus estão publicados nos Estados Unidos da América, na Alemanha, no Brasil, na Croácia, em Espanha e em Itália. O seu percurso jornalístico foi distinguido com vários prémios. Dirigiu a Casa Fernando Pessoa entre 2008 e 2014. Trabalha também como tradutora e curadora de eventos literários. Participa no programa semanal de debate político O Último Apaga a Luz (RTP3) e no
programa semanal de debate sobre literatura A Páginas Tantas (Antena 1). É autora e realizadora do programa semanal sobre questões de Género Um Homem, Uma Mulher (Antena 1). Em 2017 lançou uma editora, Sibila Publicações. O Processo Violeta é o seu mais recente romance.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Tempo de Crises (Michel Serres)

Crise. Tem sido uma palavra recorrente ao longo dos últimos anos, mas é também uma palavra que abrange muito mais do que apenas as omnipresentes crises financeiras. O mundo mudou e, com essa mudança, trouxe novas crises. O domínio do homem sobre o mundo pode muito bem ser a causa da sua extinção, a não ser que se atinja um novo equilíbrio. É sobre estas crises - que aparentemente tudo abrangem - que se debruça este breve, mas surpreendentemente complexo, livro.
Apesar das suas aparentemente escassas cento e vinte páginas, desengane-se quem espera uma leitura simples. O autor tem uma visão bastante complexa do mundo e das suas crises e a forma como o analisa tem o condão de ser simultaneamente muito pragmática e muito elaborada. É, por isso, um livro que exigirá concentração, mas que, acima de tudo, proporciona muito material para reflexão.
É interessante que, apesar da linguagem elaborada, que torna a leitura inevitavelmente mais pausada, bem como das múltiplas referências a outras obras do autor, as ideias essenciais são, ainda assim, bastante fáceis de reter. As hierarquias do mundo, as crises resultantes do domínio, as nossas possibilidades (boas e más) abertas pela tecnologia e a possibilidade de um novo equilíbrio são elementos bastante claros a sobressair da exposição global. E, assim, de um desenvolvimento simultaneamente breve e profundo, emerge um conjunto de pontos relevantes, sendo estes que ficam gravados na memória.
Sendo certo que o mais importante de um livro é sempre o conteúdo, importa, ainda assim, mencionar o aspecto visual. Com o vermelho característico desta colecção, destaca-se também por ser um livro diferente, o que contribui também para o tornar memorável. Faz também um certo sentido, neste caso, aplicar a cor vermelha a um livro sobre crises. Ou não fosse ele também um interessante alerta.
Complexo, na escrita e no conteúdo, mas, ainda assim, estranhamente cativante: assim se poderá resumir este pequeno, mas vastíssimo livro. Um livro breve, mas acima de tudo relevante. Ou não fossem as crises o seu tema.

Título: Tempo de Crises
Autor: Michel Serres
Origem: Recebido para crítica

sábado, 12 de janeiro de 2019

Unpredictable Bitch (Gabrielle Bernátová)

Lea costumava ser uma mulher bondosa e afectuosa, mas tudo mudou quando o seu marido foi preso, deixando-a a lidar com as guerras entre famílias e a protecção da sua irmã mais nova. Aconteceram coisas más e Lea escolheu afastar-se. Mas agora precisa de se ligar novamente a Lev, pois tem o seu próprio plano perigoso. Com uma nova jovem para proteger, Lea dá por si a aproximar-se novamente de quem era... mas há coisas agora em movimento que já não podem ser travadas.
Provavelmente a maior força desta história é a sua natureza viciante. Começa com um salvamento involuntário e, daí em diante, está cheia de momentos intensos - seja devido aos planos de Lea, aos negócios de Lev ou ao casamento que ambos querem - e não querem - salvar. Há também algo de intrigante na aura sombria que parece envolver tudo. Os negócios obscuros da família, o cenário de onde Viky escapou e até mesmo o passado: há perigo e intriga em toda a parte e a sensação de que, caso algo corra mal, as consequências serão terríveis faz com que a leitura seja bastante cativante.
Há essencialmente duas possíveis fraquezas. A primeira é que há tantas coisas a acontecer, e um passado tão complexo, que a relativa brevidade do livro faz com que certos aspectos da história pareçam um pouco apressados. A outra... bem, a outra é que ficam muitas coisas sem resposta no final. Embora isto pareça fazer também um certo sentido, já que a forma como tudo termina parece apontar para uma inevitável sequela.
Um último aspecto que importa mencionar é o desenvolvimento das personagens. Lea, com o seu temperamento fogoso, parece fazer justiça ao título do livro, mas é também muito mais do que isso. E os que a rodeiam são também muito intrigantes, com uma mistura de inocência, amor, implacabilidade e um delicado equilíbrio entre lealdade e auto-preservação. Fica muito por dizer acerca deles, é verdade. Mas o que é, de facto, contado é muito bom.
Tudo somado resulta numa história bastante negra e viciante sobre relações familiares no submundo - e também sobre mudanças de lealdade e uma vingança ainda por suceder. Bastante bom, em resumo.

Título: Unpredictable Bitch
Autora: Gabrielle Bernátová
Origem: Recebido para crítica