segunda-feira, 25 de março de 2019

Brilha, Brilha, Unicórnio (Dana Simpson)

Ter um unicórnio como melhor amigo tem as suas... particularidades. Principalmente se se tratar de um unicórnio tão único como a Pureza. Com o seu (não muito) humilde esplendor, a Pureza dá brilho à vida quotidiana da Bia, além de partilhar com ela boleias, pequenas aventuras e a ocasional pérola de sabedoria. O resultado é, claro, uma vida mais cintilante!
Uma das primeiras coisas que importa dizer sobre este livro é que está muito longe de ser apenas para os mais novos. Fãs dos Mutts e de Calvin e Hobbes poderão encontrar na Bia e no seu unicórnio a mesma sensação de magia e de um delicado equilíbrio entre inocência e perspicácia na forma como as personagens vêem o mundo. E, embora haja uma sensação de continuidade entre os diferentes episódios, cada página é um todo completo, o que faz também deste livro um bom ponto a que regressar para recordar momentos específicos.
Mas falando especificamente da Bia e da Pureza. Sendo uma das protagonistas um unicórnio, brilho e cor são coisas bastante expectáveis. Mas há mais. há um equilíbrio entre estas cores vivas e cativantes e uma simplicidade que realça o essencial. Cada breve episódio traça uma ideia ou uma mensagem, e a simplicidade da imagem, associada à nitidez da cor, realça o impacto dessas ideias. Além, é claro, de haver também uma certa beleza associada a esta simplicidade - já disse que a Pureza é um unicórnio, não já?
Há sempre uma contrapartida em todas as histórias curtas, que é aquela vontade que fica de saber um pouco mais. Da vida da Bia, e também da natureza do seu unicórnio, vão surgindo novas perguntas a cada novo vislumbre, o que acaba por deixar também uma certa curiosidade em conhecê-las mais a fundo. Mas também aqui a brevidade e a simplicidade fazem sentido: cingindo-se ao essencial, a mensagem acaba por sobressair mais. O resto... bem, fica à imaginação do leitor.
Bonito, cativante e com uns quantos rasgos inesperadamente sábios, trata-se pois de uma leitura simples e envolvente para leitores de todas as idades. Fica a curiosidade em conhecer mais das histórias da Bia e do unicórnio. 

Autora: Dana Simpson
Origem: Recebido para crítica

sábado, 23 de março de 2019

Percy Jackson e o Mar dos Monstros (Rick Riordan)

É o último dia de aulas e Percy sente-se invulgarmente feliz: pela primeira vez, conseguiu chegar ao fim do ano lectivo sem ter sido expulso da escola. Mas essa paz está prestes a terminar. Tudo começa com um inesperado ataque de monstros canibais em plena aula... e as coisas não tardam a descontrolar-se. É que também entre os semideuses a situação está a descontrolar-se. A árvore que mantinha as defesas foi envenenada e só um artefacto poderoso pode salvá-la. Um artefacto que, por acaso, está em pleno Mar dos Monstros, onde o amigo de Percy, Grover, está também metido em sarilhos...
Um dos aspectos mais interessantes desta série, e um que se torna evidente logo ao iniciar a leitura deste segundo volume, é a agradável sensação de familiaridade que surge com o regresso. Agora que muitas das personagens são já conhecidas, tal como o mundo em que se movem e as relações entre elas, voltar a este mundo é como reencontrar um local onde já fomos felizes. É um mergulho imediato num oceano conhecido, onde tudo é agradável e cativante, e onde há também espaço para novos momentos bons e novas surpresas.
Porque surpresas não faltam. O regresso de Percy vem acompanhado de grandes mudanças, desde aliados que foram afastados a novas e inesperadas aparições dos inimigos, sem esquecer a sempre viciante teia de perigos e momentos de acção que trazem consigo não só novos elementos da mitologia (com todas as peculiaridades associadas) mas também toda uma série de aventuras intensas e surpreendentes. E, no centro de tudo, também um conjunto de sentimentos fortes: a amizade que une os protagonistas, a vulnerabilidade de se estar entre o mundo dos deuses e o dos humanos, o sempre delicado equilíbrio entre a necessidade de confiar e a possibilidade de se ser novamente enganado. Há muito de marcante a acontecer nesta história e é também por isso que é muito difícil parar de ler.
Também a escrita contribui para este embalo viciante. Ao narrar as aventuras de Percy na primeira pessoa, o autor cria uma proximidade muito mais intensa. Além disso, a visão necessariamente limitada de Percy sobre o contexto global de um mundo que apenas começou a desvendar faz com que cada revelação tenha um maior impacto. E, claro, há uma certa familiaridade na voz simples e divertida que o autor dá ao seu protagonista. Percy é jovem e é a própria escrita que nos lembra disso.
Trata-se, pois, de um segundo volume que corresponde inteiramente às expectativas, proporcionando uma aventura intrigante e cheia de surpresas ao mesmo tempo que promete já novas descobertas e novas vicissitudes para o caminho que se seguirá. Intenso, equilibrado e muito, muito viciante, um livro que prende desde as primeiras páginas e que não deixa de surpreender até ao fim. Muito bom, em suma.

Autor: Rick Riordan
Origem: Aquisição pessoal

sexta-feira, 22 de março de 2019

Flores sobre o Inferno (Ilaria Tuti)

A inspectora Teresa Battaglia encontrou no trabalho a melhor forma de lidar com os seus monstros interiores, pois, ao contrário dos outros, ela vê o inferno escondido sob as flores. Mas agora, aos sessenta anos, o corpo e a mente começam a traí-la no momento em que mais precisa de toda a sua lucidez. Um corpo foi encontrado numa pequena aldeia nos Alpes e o caso é algo nunca antes visto. Tudo aponta para um assassino em série, mas há partes que não batem certo. E, embora não faltem pistas forenses, o assassino move-se pela floresta como se da sua casa se tratasse. É preciso travá-lo... mas como? E que explicações pode haver para um comportamento tão incoerente - mesmo se visto do ponto de vista da patologia?
Um dos primeiros aspectos a chamar a atenção nesta história - e também uma das suas principais qualidades - é a peculiaridade da protagonista. Quando começamos a ler um policial, dificilmente esperamos que a figura central da investigação seja uma mulher frágil de sessenta anos cuja memória começa a falhar. Mas é precisamente esse o primeiro ponto a despertar para o fascínio de Teresa Battaglia: uma mulher fisicamente frágil, sim, mas dotada de uma perspicácia sem paralelo e com uma história pessoal que, embora abordada sempre de forma relativamente velada, realça o delicado equilíbrio entre as suas forças e vulnerabilidades.
Bastaria, pois, esta protagonista invulgar para fazer com que a leitura valesse a pena. Mas há mais. É que a história, o caso que está no cerne de toda esta investigação, é toda ela cheia de surpresas, desde os meandros de um passado sombrio envolvendo uma experiência macabra à estranheza das grandes descobertas, capazes de dar uma nova perspectiva a todo o percurso do assassino. Sem esquecer, claro, as peculiaridades dos relacionamentos fechados que unem a comunidade, gerando uma tão grande aversão ao exterior que a justiça e a necessidade de proteger vidas conseguem até ficar para trás na mente de alguns.
No fundo, o que se passa é que há um conjunto de elos que, somados, formam um todo complexo e surpreendente. Mas surpreende também a naturalidade com que estes elos se conjugam: a vida pessoal de Teresa (e a sua curiosa relação com o seu mais novo subalterno), a história do assassino e das experiências que o moldaram, os passos dados na investigação e até o ponto de união entre as diferentes vítimas, tudo isto forma uma teia intrincada, mas em que cada elemento é fácil de acompanhar. Porque tudo é interessante, claro, mas também porque a escrita tem uma fluidez que faz com que tudo pareça natural.
É esta sensação de equilíbrio que fica na memória, depois de terminada a leitura: de um equilíbrio delicado e eficaz entre um caso que se abre e resolve de forma adequada (e profundamente marcante, diga-se de passagem) e um percurso pessoal que promete ainda muito mais para desvendar. Vale, pois, a pena conhecer Teresa... e também Marini. E também esta história surpreendente e memorável.

Autora: Ilaria Tuti
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: 25 de Abril, Corte e Costura, de João Cerqueira

Celebram-se os 40 anos da revolução. A Direita propõe uma tourada, a Esquerda um desfile gay. Entretanto, chegam à cidade um antigo inspector da PIDE decidido a acabar com a festa, um toureiro espanhol que sonha com a União Ibérica, um guru tarado sexual e as Brigadas Indignadas com a missão de fazer explodir uma bomba.

João Cerqueira é doutorado em História da Arte e autor de oito livros. Está publicado em Espanha, em Itália, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Argentina e no Brasil. Venceu três prémios literários nos Estados Unidos com o romance The Tragedy of Fidel Castro que também foi considerado a terceira melhor tradução publicada em 2012 pela Foreword Reviews. O romance Jesus and Magdalene recebeu a medalha de prata no Global Ebook Awards e a medalha de bronze no Reader’s Favorite Awards em 2017. O conto Uma casa na Europa venceu o European Literary Competition Speakando, ficou em terceiro lugar no eBook Me Up competition na Austrália e recebeu uma menção honrosa no Short Story Fiction Award da revista Glimer Train em 2015.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Um Mundo sem Fim - Volume II (Ken Follett)

A mudança paira sobre o mundo, inevitável. E, por mais que os mais conservadores tentem opor-se, Kingsbridge não é excepção. Mas, para cada novo objectivo erguem-se novos protestos, e a sombra da peste paira sobre o país, ceifando vidas sem olhar a classes, deixando campos e negócios ao abandono e obrigando a medidas drásticas. É neste cenário que as vidas de Caris, Merthin, Ralph e Gwenda prosseguem, sempre no fio da navalha, entre os sonhos que persistem em alimentar e as batalhas constantes contra o que parecem ser intrigas incessantes e poderes inabaláveis. Mas a mudança é a única verdadeira constante - e o passar do tempo e dos perigos faz com que tudo ganhe novas formas. 
Parte do que torna este extenso livro tão marcante (porque, afinal, este é apenas o segundo volume e muito aconteceu já no interior) é a forma como a história parece abranger vidas inteiras, traçando para as suas personagens não só um contexto de mudança global, mas também um percurso de mudança e crescimento para cada uma das personagens. Ninguém chega ao fim da história tal como era no princípio. Pelo caminho, houve obstáculos, perdas, medos, batalhas perdidas e pequenas grandes vitórias. Crescimento, em suma. E isto é particularmente interessante porque, além de dar origem a história sempre intensa e cativante, apesar da sua extensão, permite ver as mutações que a vida opera sobre cada uma das diferentes personalidades envolvidas.
Tal como no primeiro volume (e como, aliás, seria de esperar), uma das grandes qualidades é a capacidade de despertar emoções fortes: há momentos de perigo, ameaças terríveis, a sempre pesada sombra da peste, relações que florescem, se quebram e voltam a renascer e vidas que, após demasiadas intrigas, acabam por receber mais do que o que esperavam por recompensa. De tudo isto, nascem momentos belíssimos, rasgos de emoção profunda, bem como momentos de tensão e de perigo. Até porque há um outro aspecto importante nestas personagens: as que não são fáceis de amar, são fáceis de odiar.
É um caminho longo, onde muitas vidas e histórias se cruzam. Talvez por isso não surpreenda que, embora todos os aspectos encontrem algum tipo de resolução, nenhuma delas seja propriamente perfeita. Aliás, na vida raramente o são. E, sendo certo que em casos como o de Philemon, fica até o desejo de uma queda um pouco mais dramática, faz sentido que as coisas terminem da forma como o fazem. Afinal, nem sempre são os heróis que vencem. E entre o desejado e o necessário, o caminho das personagens acaba por convergir nos destinos mais adequados.
Extensa e complexa, mas também intensa e repleta de momentos marcantes, trata-se, em suma, de uma leitura que exige o seu tempo, mas que merece cada segundo. Pois, com as suas personagens notáveis, o seu enredo cheio de mudanças e o seu mundo tão vasto como a vista da torre da catedral, nunca deixa de cativar e de surpreender. E fica na memória, claro, pelas emoções, pela história e, principalmente, pelas personagens. Muito bom.

Autor: Ken Follett
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 19 de março de 2019

Como Cozinhar uma Criança (Afonso Cruz)

Os ingredientes são claros - mas os dois cozinheiros têm ideias bastante diferentes para o seu objectivo de cozinhar uma criança. Para o primeiro, a intenção é o mais literal possível. Já o segundo vê as coisas de forma bastante mais metafórica. E se um tempera com sal e ervas, o outro tempera com outro tipo de ingredientes, mais interiores. Mas afinal vão cozinhar uma criança ou não? Bem... talvez. 
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção para este livro será - naturalmente - o título. Afinal, isto de cozinhar uma criança parece coisa de bruxas ou de outras entidades de quem se dizia que comiam criancinhas. Pois não é disso que se trata, mas não deixa de ser um diálogo muito interessante, em que o cozinheiro que pretende literalmente cozinhar crianças e o que opta pelo sentido mais metafórico defendem também visões muito distintas do mundo.
É precisamente esta visão que torna este livro apelativo não só para os mais novos, mas para leitores de todas as idades. Afinal, a ideia de "cozinhar" crianças no sentido de fazer deles adultos conformados não está assim tão distante da nossa realidade, pois não? Mais do que a história, que é, afinal, bastante sucinta, sobressai, por isso, uma mensagem positiva: a da necessidade de cozinhar mentes criativas, em vez de mentes resignadas. 
E, claro, impõe-se falar das ilustrações, que, não sendo um acompanhamento preciso da conversa, conseguem, ainda assim, acrescentar algo de novo à leitura. Primeiro, pela beleza da ilustração em si. Depois, pelo contraste entre os ingredientes normais (que ganham aqui uma nova forma) e, bem... os ingredientes de eleição do Cozinheiro 1. 
Lê-se num instante, mas conteúdo não lhe falta. E, além de uma leitura cativante e com uma mensagem muito pertinente, é também um livro bonito para folhear e descobrir. A impressão global é, por isso, muito positiva, de uma leitura que vale a pena apresentar aos mais pequenos... e não só. 

Autor: Afonso Cruz
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Mulher do Roupão de Seda (João Bernardo Soares)

Fátima passeia-se pelo prédio vestindo um roupão de seda como se nada se passasse no seu mundo. E, embora muitos a achem estranha, poucos parecem saber o segredo escondido no interior do seu apartamento. É uma mulher com um passado de dor e um presente de vingança. É também uma mulher capaz de chamar a atenção dos homens, inclusive de Flávio, um rapaz com idade para ser seu neto. Só que Flávio também não é um rapaz normal: em tempos, para lidar com um pesadelo recorrente, a avó levou-o a uma bruxa que fez uma profecia macabra. E agora, dez anos depois, essa profecia parece começar a ganhar vida.
É difícil dizer muito sobre este livro, pelo menos no que à história diz respeito, sem contar demasiado. A narrativa oscila entre diferentes períodos da linha temporal, e também entre diversas personagens, o que faz com que cada pequena revelação acabe por adquirir uma importância inesperada numa fase posterior do enredo, ainda que inicialmente possa parecer inofensiva. Assim sendo, é difícil traçar contornos para esta história sem estragar o efeito surpresa - e surpresas é o que não falta neste livro.
Deixando, pois, o enredo no campo dos enigmas que tão bem lhe assentam, passemos então às personagens. É talvez aqui que se encontra a maior força, e também a maior ambiguidade. Em certa medida, todas as personagens são vítimas de algum tipo de padecimento, e é este a força motriz para tudo o que virá depois. E estas múltiplas formas de padecimentos - maus-tratos, pesadelos, fantasias, desejos de vingança - fazem também com que nenhuma das personagens seja propriamente linear, pelo menos num sentido de separação clara entre bem e mal. A sensação que fica, ao longo de toda a leitura, é como um não saber o que pensar das personagens, que, não sendo heróis nem vilões, mostram um pouco de ambos, à medida que o enredo se encaminha para a derradeira conclusão. E assim afecto se transforma em ódio, numa história com tanto de emocional como de macabro e onde nada - mas mesmo nada - é tão simples e recto como parece.
Há ainda um outro aspecto a destacar, e prende-se naturalmente com a forma como a escrita parece realçar cada uma das múltiplas facetas e interrogações do enredo. Às vezes, adopta o tom simples e descontraído típico de um rapaz de dezassete anos. Outras, adensa-se para realçar o negrume da dura e cruel vida na aldeia. E outras ainda, parece verter-se em contrastes, ao ritmo de uma memória que ressurge em clarões. O impacto ajusta-se na perfeição àquilo que é narrado, sem dizer tudo, sim (o que deixa, claro, uma certa curiosidade em aberto), mas dizendo sempre o suficiente.
Um mistério pejado de mistérios: passados, presentes e... futuros. Assim é, pois, este livro, onde múltiplas vidas se cruzam e onde uma certa magia sombria contribui para cruzar destinos contrários. Cativante, intenso, e com um estranho e fascinante equilíbrio entre leveza e escuridão, um livro que prende desde as primeiras páginas e nunca deixa de surpreender. 

Autor: João Bernardo Soares
Origem: Recebido para crítica

domingo, 17 de março de 2019

The Dinner List (Rebecca Serle)

Pensou que o seu amor duraria para sempre... mas as coisas acabaram por seguir outro caminho. Agora, Sabrina está a viver o seu jantar de aniversário, aquele que a melhor amiga sempre a desafiou a imaginar: com as cinco pessoas, vivas ou mortas, que mais gostaria de ter consigo. Uma delas é a espantosa Audrey Hepburn. Mas a mais importante é Tobias, que estava destinado a ser o grande amor da sua vida... mas de quem acabou por se separar de forma um tanto dramática. O jantar tem agora um significado especial, pois pode muito bem ser a última oportunidade que Sabrina tem de resolver as coisas. Mas talvez as respostas que espera obter sejam impossíveis... e a única forma de seguir em frente seja deixar ir o passado.
Um dos aspectos mais impressionantes neste livro é como consegue ser ao mesmo tempo uma história leve, que flui com a mais natural das simplicidades, e uma profunda história de amor e de deixar ir. Parte da história é o jantar em si; o resto conta o passado de Sabrina. Mas ambos parecem apontar para o futuro - um futuro diferente do que era antes e, possivelmente, melhor. Pois planear um futuro significa deixar ir o passado, e a lição de Sabrina é muito importante.
Também bastante impressionante é a forma como até a mais pequena frase parece potenciar o impacto das emoções fortes que habitam este livro. As pérolas de sabedoria de Audrey e Conrad dão uma nova perspectiva a tudo. Robert, Jessica e Tobias trazem a emoção descontrolada de uma ligação próxima e forte. E há algo em todos eles, sejam conselhos ou lembranças, que faz deste livro um poço de emoções, presentes e passadas, em pensamento ou ação. Tudo é sentimento nesta história.
Talvez parte do que torna este livro tão intenso seja também a imperfeição das persoangens: uma imperfeição construída de forma bastante perfeita. Sabrina parece ser o centro de tudo, mas é a sua ligação com os que a rodeiam que desencadeia a mudança no âmago deste livro. As dificuldades do seu relacionamento com Tobias, a história inacabada com o pai qeu a abandonou, até mesmo a crescente distância entre ela e Jessica. Ninguém é perfeito. Todos falham. Mas tudo é uma relação em movimento. E, numa história que anda tão perto da vida e da morte, esta sensação de movimento é algo de bastante notável.
Amor e perda, em tão, e, acima de tudo, a necessidade de deixar ir: são estes os sentimentos na base deste livro. Um livro que, com a sua inesperada leveza, as suas personagens complexas e notáveis e a sua história de descoberta pessoal entre o sofrimento e a perda, facilmente encontra um lugar nos nossos corações, para aí se aninhar... durante muito tempo. 

Título: The Dinner List
Autora: Rebecca Serle
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 15 de março de 2019

A Última Ceia (Nuno Nepomuceno)

O impensável aconteceu: duas das três preciosas réplicas do deteriorado fresco de Leonardo da Vinci foram roubados e tudo indica que esse é apenas o início do plano do ladrão. O caso é tão preocupante que as duas principais leiloeiras inglesas ofereceram uma considerável recompensa em troca de informação sobre o paradeiro das obras, mas nem isso parece bastar para as recuperar. E é neste cenário tenso que uma outra apaixonada pela Última Ceia entra em cena. É perante o original que Sofia Conti conhece aquele que julga ser o seu grande amor e futuro marido. Mas Giancarlo Baresi guarda segredos sombrios - e planos intrincados. E, de inocente apaixonada, Sofia vê-se subitamente transformada em agente infiltrada em casa do seu amante. 
Um dos aspectos característicos dos livros deste autor é um delicado - e delicioso - equilíbrio entre novidade e familiaridade. Novidade porque cada um traz um tema diferente, sempre interessante e, neste caso, particularmente intrincado. Familiaridade porque há um conjunto de elos comuns que fazem com que cada livro seja como um agradável regresso a um lugar - ou, antes, a um sentimento - onde já fomos felizes. 
Os pontos comuns são vários e, naturalmente, todos muito bons. Desde a escrita fluída e cativante, que faz com que seja impossível resistir a ler mais um (ou mais uns quantos) capítulos ao entrecruzar de caminhos entre personagens novas e outras já conhecidas, construindo uma nova história central, ao mesmo tempo que desenvolve estas figuras que já tão familiares se tornaram. Por isso, embora seja um livro totalmente independente e, como tal, perfeitamente compreensível sem ter lido nenhum dos anteriores, a sensação de familiaridade aumenta se já conhecermos estas figuras cativantes. 
Isto não se aplica apenas a Afonso Catalão, que, mais uma vez, tem um papel relevante a desempenhar na resolução do problema. Claro que é ele quem mais se destaca, até porque há um conjunto de desenvolvimentos interessantes acerca da sua história pessoal. Mas há pequenos e encantadores detalhes, como o ressurgir de uma "vítima" passada de um certo jovem de olhos pardos ou a referência a um livro de um autor português que escreve sobre espiões, que acrescentam um leve (mas, mais uma vez, delicioso) elemento de surpresa e uma agradável sensação de reencontro.
Mas passemos à história principal. Também aqui há pontos comuns a destacar. Começando, claro, pela intensidade, bem como a sucessão de surpresas e também a forma como o enredo se encaminha para uma grande resolução, para depois culminar num final que, encerrando de facto as coisas, nunca é uma conclusão limpinha e perfeita. Haverá, talvez, uma maior concentração no casal protagonista, o que faz com que algumas das surpresas finais tenham um maior impacto, mas sem nunca perder de vista o mundo - e os outros - que os rodeiam. Além disso, há todo um mundo de revelações acerca do mundo da arte, principalmente no que diz respeito à obra que está no cerne de toda a narrativa, e também isto torna a leitura muito mais interessante. 
Tudo se resume, enfim, essencialmente a isto: um livro intenso, viciante, com personagens notáveis e um equilíbrio tão perfeito entre todos os seus elementos que é difícil não sentir que viajamos na companhia destas tão interessantes figuras. Mais que à altura das expectativas, um livro que recomendo vivamente.

Título: A Última Ceia
Autor: Nuno Nepomuceno
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 14 de março de 2019

Histórias para Rapazes que Sonham Mudar o Mundo (G. L. Marvel)

Todas as crianças têm grandes sonhos, mas às vezes o caminho pode parecer demasiado longo e o objectivo demasiado difícil de alcançar. Mas sempre houve sonhadores, criadores e inventores - e todos eles foram, em tempos, crianças que tiveram um sonho. Este livro é a história de cinquenta desses sonhadores - e de como, vindos de meios mais ou menos difíceis e de formas mais ou menos surpreendentes, conseguiram deixar a sua marca no mundo.
Composto por um conjunto de pequenas, mas cativantes, biografias, acompanhadas das respectivas ilustrações, mas também por várias citações dos protagonistas e ainda de um breve conjunto de desafios finais, este é um daqueles livros que, embora claramente pensado para os mais novos, consegue cativar leitores de todas as idades. Em primeiro lugar, devido ao aspecto, já que é um livro cheio de cor e em que a beleza das ilustrações desperta logo a vontade de começar a ler. E depois porque relembra ou apresenta todo um conjunto de personagens marcantes em diversos campos e períodos históricos.
Essa é, aliás, outra das suas qualidades: a diversidade. Os heróis incluídos neste livro vêm de diferentes épocas, de diferentes países e de diferentes ramos. Músicos, escritores, activistas, inventores, políticos... há espaço para todo o tipo de actividades, de histórias e de percursos. E ainda bem. Afinal, os sonhos não têm limites. E, se há nomes que são sobejamente conhecidos, outros talvez não o sejam tanto quanto deviam. Serve, pois, também este livro para os dar a conhecer, o que é também, naturalmente, benéfico.
Claro que haveria mais de cinquenta possibilidades relevantes para incluir neste livro, mas este número redondo parece bastante adequado, pois resulta num livro não demasiado grande (e convém lembrar que é um livro para os mais jovens) mas bastante abrangente em termos de personalidades e áreas de acção. E, quem sabe, talvez possa vir a ser apenas um de vários... 
Bonito, cativante e pertinente: esta seria uma boa forma de descrever este livro. Um livro que, além de nos apresentar muitas personalidades interessantes, tem o condão de lembrar também que os grandes sonhos também são possíveis. Mesmo que seja difícil. Mesmo que seja preciso esperar. E, por isso, um livro mais que recomendado - a leitores de todas as idades.

Autor: G. L. Marvel
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 13 de março de 2019

Regresso à tua Pele (Luz Gabás)

Brianda tem tudo para ser feliz: um relacionamento estável, um emprego sólido e uma vida sem grandes atribulações. Mas, de repente, começa a ter pesadelos e ataques de ansiedade. Numa tentativa de superar o problema, regressa a Tiles, terra dos seus antepassados. Mas eis que o que devia ser um período de descanso se transforma em algo mais. Brianda tem visões confusas do que parece ser um passado distante. Cruzou-se com um estranho, mas sente que o conhece desde sempre. E, quando a nova amiga que fez em Tiles descobre uns documentos que apontam para a execução de um grupo de mulheres por bruxaria que ali sucedeu no passado, Brianda começa a sentir uma inexplicável familiaridade. Pois uma das executadas chama-se também Brianda, e jurou quebrar as leis da morte para se reencontrar com o seu Corso.
Dividido entre períodos e personagens muito distintas, mas com um inegável elo de ligação, é no mistério que une estas duas histórias que reside uma das grandes qualidades deste livro. A Brianda do presente e a Brianda do passado têm, desde logo, muito em comum, mas a dimensão do que as une é algo que é revelado gradualmente, à medida que a própria protagonista começa a encontrar respostas. Tudo está, pois, envolto num grande mistério, que se torna tão mais intenso por transpor para o leitor as mesmas perguntas e enigmas com que Brianda é confrontada. 
É, na sua base, uma história de amor, do tipo de amor que transcende o tempo e a morte. Não surpreendem, por isso, os rasgos de romantismo, a intensidade da relação entre personagens presentes e passadas. Surpreende, sim, o todo que rodeia esta história de amor, desde uma vida pessoal presente em que ambos os envolvidos têm outra vida e outros compromissos, a um passado tão cheio de intrigas, conspirações e conflitos que é difícil não sentir com as personagens. Sentir a ânsia, o medo, a determinação, a dor... Pois da intriga resultam emoções fortes, e um crescendo de intensidade que culmina num final absolutamente brilhante. 
Equilibrar a história do que une os protagonistas com o desenvolvimento de um passado histórico maior (e também de uma vida pessoal muito mais vasta que o encontro entre ambos) faz com que haja elementos a passar para um inevitável segundo plano. Ainda assim, tudo parece ter as medidas certas e mesmo o que fica sem resposta faz um certo sentido, como se o resto se tivesse esbatido ante o impacto das coisas maiores. Isto resulta, claro, da intensidade da história, mas também de uma fluidez em toda a escrita que faz com que até o mais ínfimo gesto, o mais sombrio dos cenários, seja infinitamente real. 
História de amor, de intriga e de... bruxas (será?), trata-se, pois, de um livro complexo, cativante e equilibrado, não só na construção precisa dos cenários onde tudo decorre, mas principalmente na intensidade que define até o mais breve dos momentos. Belo, emocionante e poderoso, um livro que recomendo sem hesitações. 

Autora: Luz Gabás
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Regresso à tua Pele, clique aqui.

segunda-feira, 11 de março de 2019

28 Livros para te Encontrar (Ali Berg e Michelle Kalus)

Bloqueada devido às críticas arrasadoras ao seu último romance e com uma vida amorosa igualmente estagnada, Frankie Rose tem uma ideia arrojada: espalhar livros nas linhas de comboio com uma mensagem sua a desafiar o potencial leitor para um encontro. Além da vaga esperança de encontrar um novo amor, espera também encontrar a inspiração para voltar a escrever. Só que é nessa precisa altura que Frankie conhece Sunny: atraente, peculiar e com um ávido gosto por literatura para jovens adultos. À primeira vista, não têm assim tanto em comum (e muito menos o gosto literário), mas há algo que os atrai um para o outro. Só que, quando ambos guardam segredos, é difícil confiar. E confiar já é algo difícil por natureza para alguém como Frankie. 
Livros sobre livros: há algo de irresistivelmente encantador nesta simples ideia. E quando a concretização corresponde às expectativas... bem, difícil é parar de ler. É precisamente isso que acontece com este livro. Cativa, em primeiro lugar, pela premissa, bem como pelas deliciosas referências literárias que estão um pouco por todo o lado, e depois surpreende pela forma como constrói uma história divertida, emocional e intensa (por múltiplas razões) à volta do mundo das histórias. 
Há como que um ponto de identificação imediato, que contrasta com a peculiaridade das personagens. Frankie e Sunny são bastante invulgares e quase todas as personagens têm o seu quê de... único. (Do tipo de unicidade que proporciona uma boa dose de momentos caricatos.) Mas há algo que todos nós, apaixonados pelos livros, reconhecemos nesta história: o mesmo afecto, o mesmo fascínio, a mesma magia. Uma magia que se manifesta em todos os pequenos pormenores desta história, desde a sensação de proximidade ao reconhecermos um dos livros que Frankie deixa no comboio às pequenas trocas de palavras e epítetos com base literária (principalmente entre Frankie e Cat, mas não só).
Mas nem só de livros vive a história, embora estes sejam, de facto, a sua alma. Há relações atribuladas, desastres que se transformam em fenómenos da internet, vidas familiares um tanto ou quanto peculiares (mas também enternecedoras) e, claro, a procura do amor. Há tanto, enfim, a acontecer nesta história que é difícil apontar um único aspecto a destacar. O fio condutor são os livros. O resto... bem, o resto é um todo delicioso.
Leve e cativante, peculiar, mas cheio de emoções fortes, eis um livro tão mágico quanto caricato. História de amor entre os protagonistas, é também, e acima de tudo, uma história de amor aos livros - e ao muito que eles trazem às nossas vidas. Bonito, enternecedor e divertidíssimo, um livro recomendado a todos os bibliófilos. 

Autoras: Ali Berg e Michelle Kalus
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 8 de março de 2019

Despertar, Libertar, Crescer (Rossana Appolloni)

Pode não ser algo imediatamente evidente, mas as feridas da criança interior condicionam os comportamentos do adulto e é na aceitação e superação destas feridas que está o caminho do crescimento. É este o ponto de partida deste livro, que, analisando diferentes facetas do ser e da consciência, sugere um possível percurso de evolução através de uma análise muito própria e pessoal. Análise essa que é mais complexa - mas também mais pertinente - do que seria de prever.
Funcionando como uma espécie de livro de auto-ajuda, mas num registo bastante mais denso e complexo do que o habitual, uma das primeiras coisas a surpreender neste livro é a inesperada profundidade com que se debruça sobre as questões do condicionamento e da consciência. Isto faz com que seja uma leitura mais pausada, pois exige tempo para assimilar todas as ideias, mas curiosamente tem também o efeito de traçar um cenário mais amplo. Demora mais tempo a ler e a absorver, sim, mas, no fim, o conhecimento transmitido é também maior.
A contrapor a esta maior densidade, surgem rasgos de leveza: nos exercícios, que apelam à interacção, mas também nas histórias pessoais e nas imagens que tornam mais acessíveis os processos mais elaborados. Todos estes aspectos facilitam o ritmo de leitura sem cair na simplificação, expandindo as possibilidades de entendimento, e sintetizando alguns processos mais longos, mas sem esbater a ideia que transparece do todo: a mente é um todo complexo e, como tal, também a explicação dos seus processos tem de o ser. 
Há ainda um outro ponto que importa destacar. Às vezes, neste género de livros, verifica-se a tendência para adoptar um discurso demasiado simplista (é fácil fazer, só não faz quem não quer) ou demasiado autoritário (é-se infeliz por culpa própria). Não é o caso. Questões como a dor, os ressentimentos e outras emoções negativas são abordadas de forma bastante lúcida, aceitando a sua inevitabilidade e analisando mecanismos de superação, em vez de minimizar o impacto destas coisas na vida de cada um. Não é, pois, um livro que prometa mudanças de perspectiva milagrosa - mas é também isso que o torna mais realista. 
Fica, pois, uma impressão positiva, de um livro que leva o seu tempo a assimilar, mas com uma abordagem interessante e uma perspectiva bastante sólida do funcionamento de certos estados mentais. Complexo, mas cativante e pertinente, uma boa leitura.

Autora: Rossana Appolloni
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 6 de março de 2019

A História do Rei de Lever (Gil Nunes)

Osvaldo, jovem empreendedor negro adoptado por um casal de Lever, é visto por todos como um verdadeiro rei, fruto da sua simpatia, das peculiaridades que o caracterizam e das suas grandes e variadas ideias. Mas a mais recente acaba também por ser a última. A inauguração do seu restaurante de kebabs, com a improvável sociedade de Água com Piquinhos, mulher pouco estimada na região, gera um sucesso sem precedentes... e um acidente inesperado. Agora, há perguntas que precisam de respostas. E a investigação trará grandes segredos à superfície...
Algo que desde muito cedo se torna evidente é que este será um livro difícil de encaixar seja em que género for: com laivos de sátira, de análise social e um mistério que culmina quase num final de policial à antiga, este é um livro que recolhe elementos de diferentes géneros literários para construir uma história intrigante, equilibrada e muito, muito surpreendente.
Tudo parte de uma certa estranheza, pois, apesar da relativa brevidade do livro, o autor leva o seu tempo a caracterizar as peculiaridades de Osvaldo e dos restantes habitantes de Lever, bem como o raciocínio na génese do seu grande negócio. Leva um pouco a entrar no ritmo da história, portanto. Mas o que primeiro se estranha rapidamente se entranha e, prontos para esperar o inesperado, somos levados de surpresa em surpresa e de revelação em revelação. E, a partir do momento em que a polícia entra em cena... bem, então as coisas tornam-se viciantes.
Há, além disso, uma complexidade subjacente a esta história bizarra, que parte de um rasgo de empreendedorismo para depois se debruçar sobre os meandros da política, das lutas pelo poder e até do tráfico humano. E, curiosamente, embora tudo pareça ser relativamente breve, nada - mas mesmo nada - parece apressado nesta história, em que a peculiaridade parece contrastar com o tom benevolente, quase magnânimo, com que o narrador conta as aventuras - e desventuras - das suas personagens. O resultado é, enfim, uma certa fluidez, capaz de conferir naturalidade à mais inesperada das estranhezas. 
Peculiar, mas deliciosamente cativante e com um olhar tão intenso e certeiro sobre o mundo como o seu empreendedor protagonista, trata-se, pois, de um livro que surpreende não só pela estranheza, mas também pelas grandes verdades que lhe estão subjacentes. Envolvente, surpreendente e cheio de pormenores deliciosos, um livro que não posso deixar de recomendar. 

Título: A História do Rei de Lever
Autor: Gil Nunes
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 4 de março de 2019

Tu És Meu! (J. L. Butler)

Francine Day está numa fase particularmente boa da sua vida profissional. Habituada a lidar com divórcios de milhões, não se deixa intimidar pelos grandes e poderosos. Mas, quando o seu primeiro contacto com Martin Joy se torna em algo bastante mais intenso, Francine começa a ter mais com que se preocupar. Principalmente quando a mulher de quem Martin se pretende divorciar desaparece misteriosamente. Francine quer acreditar na inocência de Martin, mas sabe que os banqueiros podem ser impiedosos e há certas coisas que não batem certo. E, à medida que se envolve mais e mais no caso, também a sua carreira fica em risco. Para não falar da sua vida...
Povoada de transgressões e de personalidades implacáveis, este é um livro que, mais do que por qualquer tipo de empatia que as personagens possam despertar, cativa por uma teia de intrigas cada vez mais complexa. Nenhuma das personagens é propriamente inocente e muito menos uma vítima desprotegida, e a forma como a autor consegue realçar as imperfeições das personagens torna-se especialmente notável tendo em conta que tudo é narrado do ponto de vista de Francine. Mas, se este lado impiedoso cria uma maior sensação de distância, tem também um lado particularmente positivo: é impossível adivinhar se Martin é ou não culpado e, caso não o seja, quem é então o responsável pelo desaparecimento de Donna.
Surpreende também o equilíbrio construído entre os múltiplos factores que condicionam a história. Francine, com a sua doença, a sua ambição profissional e os seus sentimentos inexplicáveis. Martin, com o que parece uma atracção genuína em contraste com a sua natureza de banqueiro feroz. E, em menor grau, mas também de forma bastante marcante, as várias personagens que se cruzam com eles, desde a inesperada lealdade de Tom à manipulação de Pete, passando ainda por aspectos secundários, mas relevantes, como o passado de Francine com as amigas. 
Constrói-se, assim, uma teia surpreendentemente complexa, tanto que, em certos aspectos menores, fica uma ligeira sensação de curiosidade insatisfeita. Ainda assim, os elementos essenciais estão lá e a forma como a história é conduzida de surpresa em surpresa, num crescendo de intensidade que culmina num final também bastante inesperado, faz com que seja difícil parar de ler antes do fim. 
Simultaneamente intenso e intrincado, trata-se, pois, de um livro cheio de surpresas, tanto a nível do enredo como das personagens que o povoam. Uma história que cativa desde os primeiros instantes e que não deixa de intrigar e surpreender até ao fim. O balanço final não podia, por isso, ser outro: uma boa história e uma boa leitura.

Título: Tu És Meu!
Autora: J. L. Butler
Origem: Recebido para crítica

domingo, 3 de março de 2019

Uma Furtiva Lágrima (Nélida Piñon)

A escrita, o mundo, os deuses, a história, a fé. Pensamentos, vivências, sentimentos e percepções. E um mundo interior tão vasto que ora parece abranger toda uma vida, ora se resume em poucas linhas. É esta a imagem que este livro, feito de memórias, pensamentos e breves ensaios, transmite a quem o lê: uma experiência pessoal e única, mas que tem algo de abrangente e intemporal.
Feito essencialmente de pequenos textos, dedicados aos mais diversos temas e percepções, este é um livro que, funcionando mais como uma recolha de memórias dispersas do que como um registo biográfico, passa uma impressão algo fragmentária. É quase como se houvesse toda uma outra vida para contar para lá destes pequenos elementos. E, no entanto, e apesar desta inevitável curiosidade insatisfeita (principalmente quando o que é revelado é já tão interessante), fica também a curiosa sensação de um tudo equilibrado. Há textos em que a autora se revela a si mesma ou à sua história familiar. Noutros dedica-se a analisar figuras históricas, mitos ou factos concretos que contrastam com a abstracção dos textos mais introspectivos. E, assim, o que acontece é que há um pouco de tudo e um todo vasto e completo que tanto cativa numa leitura sequencial como no possível regresso a um texto particularmente marcante.
É na escrita, porém, que tudo se eleva a um novo nível. Todos - ou quase todos - os textos são bastante breves e, todavia, parecem ter precisamente a medida adequada. Nalguns casos, bastam duas ou três frases para traçar o quadro completo e, por isso, embora curto, nada falta a esse texto específico. Noutros, principalmente nos dedicados à história, exige-se uma maior contextualização e, por isso, o texto alonga-se, mas nunca se torna aborrecido. E eis que surge aqui um novo contraste: entre observações simples e certeiras e ponderações mais elaboradas, entre a brevidade das coisas simples e as que inevitavelmente reflectem uma maior complexidade. 
Há, claro, elementos recorrentes, figuras e ideias que surgem mais do que uma vez ao longo do livro. Ainda assim, também esta aparente circularidade consegue não se tornar cansativa, pois cada texto acrescenta algo de novo, seja um pormenor diferente ou uma perspectiva alterada pelo tempo.  
Terminada a leitura, fica uma impressão claramente positiva: a de um conjunto de visões e pensamentos que, nascidos de uma relativa simplicidade, convergem num todo mais vasto e sempre muito cativante. Trata-se, pois, de uma boa leitura, que desperta a curiosidade em conhecer mais da obra desta autora. 

Autora: Nélida Piñon
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 1 de março de 2019

Southern Bastards, Vol. 4 - Tê-los no Sítio (Jason Aaron e Jason Latour)

A derrota sofrida contra Wetumpka pode muito bem ter sido o início do fim da hegemonia de Euless Boss, mas este não está disposto a cair sem dar luta. Por isso, quando as derrotas começam a acumular-se, Boss renuncia aos poucos escrúpulos que lhe restam, disposto a fazer tudo o que for preciso para ganhar. Só que os inimigos estão à espreita... e não são assim tão poucos. Desde a filha do falecido Earl Tubb aos muitos que se viram forçados a aceitar o seu domínio, são vários os olhos à espreita de uma debilidade. E, quando assim é, uma coisa é certa. Euless Boss pode até sobreviver, mas dificilmente as coisas ficarão na mesma. 
Quando, ao quarto volume, a primeira impressão a emergir é novamente de surpresa total, então algo vai muito bem nesta série. E surpresa total por múltiplas razões: desde o crescendo de intensidade que, vindo do primeiro volume, continua a manifestar-se, à expansão de personalidades e consequentes motivações que faz com que cada desenvolvimento seja sempre algo de inesperado. Além claro, da capacidade de despertar emoções fortes, sejam elas de empatia ou de (no caso do coach Boss) de uma aversão cada vez maior. 
Cada volume acrescenta novas complexidades, como se de um jogo de xadrez particularmente elaborado se tratasse. Euless Boss é uma espécie de rei - do tipo que todos querem derrubar. E sendo uma personagem que já revelou as suas piores facetas, mas também o percurso que o conduziu até aí, não é, em circunstância alguma, um vilão previsível. Tal como os supostos heróis não o são. Talvez seja também isso que faz com que esta história deixe marcas tão profundas: é que não há ninguém nesta história que se aproxime sequer da perfeição... mas é precisamente isso que os torna tão reais. 
E depois, claro, continuam bem presentes as características dos volumes anteriores: desde a intensidade dos momentos de acção e violência aos inesperados rasgos de introspecção e nostalgia que parecem rasgar um mundo onde não há espaço para esse tipo de sentimentalismos. Tudo num mundo pejado de sangue, tiros e... futebol... em que cada diálogo, expressão ou tom contribui para realçar as características mais vincadas da história. 
Eis, pois, que, ao quarto volume, se voltam a cumprir e superar as expectativas, num livro que, embora deixando muito em aberto, quase insinua uma viragem de ciclo para o que se poderá seguir. Intenso, viciante e a transbordar de surpresas, um belíssimo desenvolvimento para uma história já cheia de qualidades. Muito bom. 

Autores: Jason Aaron e Jason Latour
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Porto Editora

A batalha pela coroa começou, mas qual das rainhas vencerá?
Depois de uma Cerimónia de Beltane marcante e com o Ano da Ascensão a decorrer, é altura de rever as apostas e escolher um lado.
Katharine, a gémea frágil e fraca, está mais forte que nunca. Arsinoe tem de descobrir de que forma o seu dom secreto a poderá ajudar. E Mirabella, a vencedora desejada, enfrenta uma oposição nunca vista... e de que poderá não se conseguir defender.
Neste novo capítulo da autora bestseller do New York Times, as rainhas mais mortíferas do mundo têm de enfrentar o implacável obstáculo que se lhes apresenta: elas mesmas.
Quando a batalha terminar, só uma irá reinar.

Kendare Blake nasceu na Coreia do Sul, mas cresceu nos EUA. Tem um mestrado em Escrita, pela Middlesex University em Londres. Vive actualmente em Kent, Washington.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Loucuras e Bizarrias de Reis, Rainhas e Fidalgos Infames

Para cada rei, rainha ou grande figura de um país, haverá certamente uma longa história para contar, feita de planos, de acções e de atitudes distintas. Mas algumas dessas figuras destacam-se também os comportamentos estranhos, sejam eles bizarros, um pouco loucos ou mesmo cruéis e sanguinários. E a este tipo de figuras que este livro se dedica, narrando um pouco das suas histórias e também os seus feitos mais... peculiares.
Abrangendo um vasto conjunto de figuras nacionais e estrangeiras, todas com um papel preponderante no seu tempo, é inevitável a sensação, ao ler este livro, de que muito mais haveria a dizer sobre estes protagonistas. Mas não é de uma história completa que se trata. Não é sequer esse o objectivo. O cerne da questão está, como o título indica, nas suas loucuras e bizarrias. E disso este livro tem em abundância.
Há, além disso, um outro lado para esta apresentação sucinta das diferentes personalidades: além de despertar a sempre agradável vontade de saber mais, consegue traçar uma visão geral bastante precisa das suas facetas mais peculiares. Além disso, a estrutura organizada permite também uma consulta rápida caso se pretenda recordar os feitos específicos de alguns destes infames. O resultado é, em suma, uma leitura ligeira e agradável, com todos os elementos essenciais, bem como o bónus acrescido de traçar uma breve (mas um tanto ou quanto horripilante) história da bizarria ao longo dos tempos. 
E, claro, importa ainda mencionar o aspecto visual do livro, com um pequeno retrato de cada protagonista a abrir o correspondente capítulo, o que permite não só associar um rosto aos actos, mas também, quiçá, tentar visualizar certas facetas descritas ao longo do texto. Não é o mais importante, não. Mas acrescenta um certo encanto a um livro que, por si só, já é muito interessante. 
Tudo somado, fica a impressão de um livro relativamente breve e bastante sucinto na abordagem a cada um dos seus protagonistas, mas bastante completo e interessante em termos das linhas essenciais da história. Cativante, agradável e cheio de histórias intrigantes, uma boa leitura, em suma. 

Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O Assassinato de Sócrates (Marcos Chicot)

Movido por genuíno afecto e por uma curiosidade irresistível, Querefonte desloca-se a Delfos para obter a resposta às suas perguntas, mas essas mesmas respostas assombrá-lo-ão para o resto da vida. Além de confirmar a inigualável sabedoria de Sócrates, o oráculo profetiza-lhe uma morte violenta "às mãos do homem do olhar mais claro". E, ao regressar, eis que Querefonte descobre que o seu amigo Eurímaco teve um filho com uns olhos claríssimos. Entretanto, por volta da mesma altura, foi rejeitada em Esparta uma criança saudável, que deveria ter morrido, mas que o destino salvou. E todos estes caminhos convergem. Atenas encaminha-se para uma longa guerra. Sócrates ganha fama, mas também inimigos. E Perseu cresce para se tornar um grande homem, mas também assombrado pelo que sente e pelo que não sabe...
Extenso não só em termos de número de páginas, mas também no período que abrange e no seu vasto leque de personagens, este é um livro que leva o seu tempo para que se possam assimilar todos os seus pormenores e qualidades. E diga-se já que qualidades não lhe faltam, desde a beleza de uma escrita cativante que transporta o leitor para os momentos que descreve a personagens e intrigas tão complexas quanto marcantes. Vale, pois, a pena cada momento dedicado à leitura deste livro - até porque a sua marca permanece muito depois de chegada a última página.
Pese embora o título do livro, a história não gira em torno de nenhuma grande intriga com vista a assassinar o filósofo, ainda que essa intriga venha, de facto, a ocupar o seu espaço. É mais do que isso. Aliás, Sócrates nem chega a ser verdadeiramente o protagonista directo da narrativa, mas antes a sombra guia que faz com que tudo se mova. É uma personagem notável, naturalmente, mas que complementa uma linha central mais vasta que opõe Perseu e Aríston, Atenas e Esparta, a guerra e a paz.
Todas as personagens têm algo de notável e a precisão com que o autor as constrói torna-as marcantes desde muito cedo. E, à medida que a história se desenrola, os sentimentos que despertam vão-se também tornando mais intensos, seja a empatia profunda por alguém vulnerável, a inevitável aversão face aos mais detestáveis dos intervenientes ou algo mais complexo e indescritível que surge quando a clara divisão entre bem e mal cede lugar aos múltiplos tons de cinzentos. É que, em plena guerra, há espaço para atrocidades de ambas as partes. E a forma como estas surgem na história, contextualizando um enredo que é, acima de tudo, o percurso pessoal das personagens, mas que o contexto transforma em algo de maior, confere um maior impacto a cada grande reviravolta.
E há tantos momentos marcantes... e o autor dá-lhes tanta força... Seja a intensidade de uma grande batalha ou o desencadear falhado de uma revolução doméstica, um grande discurso público ou a mais ténue troca de olhares proibidos, tudo parece ter precisamente o tom certo. E talvez seja por isso que a sensação que fica é a de que tudo atinge o equilíbrio perfeito... e que, ao longo destas mais de seiscentas páginas, viajámos realmente até à Grécia antiga.
Memorável será, pois, uma boa palavra para descrever este livro: memorável no contexto que apresenta, no cenário meticulosamente construído, e memorável, acima de tudo, nas personagens e na história que lhes traça. O resultado é uma leitura cativante, sempre surpreendente e marcante em todos os aspectos. Brilhante, em suma. 

Autor: Marcos Chicot
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro O Assassinato de Sócrates, clique aqui.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O Tempo nos Teus Olhos (José Rodrigues)

Dizem que o amor não tem idade, mas, quando a morte lhe levou Teresa, Manuel descobriu que as décadas partilharam não reduziram em nada o amor profundo que a unia à esposa. Agora, sozinho pela primeira vez, vê-se sozinho e dividido entre a sua própria vontade e a das filhas, que, obcecadas pelo que ele lhes poderá deixar, querem pô-lo num lar de onde possam controlar os seus actos. Mas Manuel sempre foi teimoso e, numa excursão desse lar para onde relutantemente se mudou, descobre uma outra residência - e uma residente - que o apaixona. Decide, pois, seguir o coração... na esperança de que os seus últimos anos lhe tragam também as melhores recordações. 
Mais do que uma história marcante, embora a história em si tenha, de facto, muito de bom, o que torna este livro realmente notável surge da mensagem maior escondida nas esquinas desta história. Manuel, abalado pela morte da esposa, sozinho e dividido entre a sua própria vontade e os planos que as filhas insistem em lhe impor, podia muito bem ser o retrato de muitas outras pessoas espalhadas por esse país. E a sua história está pejada de mensagens marcantes, desde a importância do amor em todas as ideias, ao valor de afectos que deviam ser mais importantes que as coisas materiais, passando pelo impacto da solidão, principalmente nas vidas dos que estão mais vulneráveis. Há muito material para reflexão ao longo deste livro e é isso, bem como a forma que este material assume, que torna este livro tão memorável.
Não se pense porém que a história perde força por ser a mensagem que mais se destaca. Com as suas personagens fortes, tanto as que despertam empatia como as que geram uma inevitável irritação, o autor constrói uma narrativa cheia de momentos comoventes, de surpreendentes rasgos de humor e de uma ternura transbordante que fica também na memória. Não é difícil adivinhar o fim de tudo, mas o caminho esse... o caminho é belíssimo. 
E depois, claro, há a forma: a escrita, introspectiva e emocional, que mergulha nos meandros do coração das diferentes personagens; e as fotografias, que quase acrescentam outras histórias à história, reflectindo momentos e dando à leitura uma nova perspectiva. Ambas conjugadas num equilíbrio perfeito, que torna a leitura mais marcante e o objecto de leitura mais belo.
Finda a leitura, ficam as memórias - um pouco à imagem do que acontece com as personagens que povoam este livro. E é este sentimento de plenitude, de ter mergulhado num livro que deixou mais do que apenas a impressão de uma boa história, que torna esta leitura tão marcante. Porque é como ter estado lá com eles, ainda que apenas por um bocadinho. 

Autor: José Rodrigues
Origem: Recebido para crítica

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Jessica Jones, Vol. 1 - Sem Limites (Brian Michael Bendis, Michael Gaydos e Matt Hollingsworth)

Jessica Jones está metida em sarilhos... outra vez. Acabada de sair da prisão, só quer regressar a uma relativa normalidade... pelo menos enquanto se conseguir manter longe do seu poderoso marido. É isso, aliás, que a leva a aceitar um caso, que, embora de contornos bizarros, não lhe parece muito preocupante. Só que não é bem assim. E quando a sua cliente aparece morta por culpa do homem que ela devia vigiar, Jessica começa a questionar muitas coisas. Inclusive o seu novo papel entre os muitos em seu redor que têm poderes.
Uma das primeiras coisas a sobressair neste volume, e algo que também já vinha, em certa medida, das anteriores histórias de Jessica, é a forma como uma personagem tão imperfeita e vulnerável consegue dar uma protagonista tão carismática. Talvez o motivo venha da própria imperfeição: num mundo onde o que não falta são super-heróis, ver uma protagonista que, apesar de ter também os seus poderes, têm uma vida tão ou mais lixada do que qualquer humano normal desperta uma estranha e fascinante empatia. É como se se criasse um ponto em comum num mundo onde tudo é tão diferente.
Também a história em si tem este mesmo impacto, com o seu lado sombrio a contrastar com o mundo cheio de cor e de fatiotas deslumbrantes dos super-heróis. Jessica pode ter ligações profundas aos Vingadores, ligações essas capazes de a colocar numa posição privilegiada (e perigosa) para certos planos, mas tem também uma fragilidade profunda, que se torna cada vez mais evidente à medida que, da estranheza inicial, a história evolui para novas e explosivas revelações. À profissão, juntam-se os segredos que guarda e as complexidades de uma vida familiar delicada, o que faz com que haja sempre algo de relevante - e intenso - a acontecer, bem como a promessa de ainda muito mais de bom para os volumes seguintes. 
E, claro, isto transparece em todos os aspectos, desde os diálogos mais furiosos a um arte que reflecte na perfeição tanto o movimento das sequências de acção como a serenidade (ou o vazio) dos momentos de introspecção. Além do inevitável contraste que resulta da fusão de uma história de super-heróis (com as já mencionadas fatiotas coloridas) com uma protagonista com laivos de detective noir. 
Fica, pois, a habitual impressão marcante das aventuras de Jessica Jones: uma história intensa, equilibrada, cheia de surpresas... e muito, muito viciante. Vale muito a pena conhecer esta personagem - e provavelmente também todas as outras que cruzam o seu caminho. Recomendo. 

Autores: Brian Michael Bendis, Michael Gaydos e Matt Hollingsworth
Origem: Recebido para crítica

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Pai, Conte-me a Sua História

A história de uma vida é algo de vasto e complexo, que só quem a viveu conhece totalmente. Mas a história do que nos são mais próximos é-nos também particularmente interessante. O que este livro sugere não é contar-nos uma histórias, mas antes construir uma a partir das memórias. E, com as suas várias perguntas e desafios pertinentes, consegue ser, ao mesmo tempo, viagem e desafio: um desafio a ser partilhado entre pais e filhos.
Embora tendo sempre uma grande relutância em preencher este tipo de livros (por não querer estragar algo tão giro com a minha letra terrível), dou sempre por mim a imaginar respostas, possibilidades, o resultado final de um livro totalmente preenchido. E a imagem que emerge deste exercício de imaginação é particularmente agradável no que respeita a este livro. É fácil imaginar longas conversas entre pais e filhos, a desfiar memórias e a analisar as várias questões propostas, para depois preencher os espaços. E basta esta impressão para fazer com que valha a pena: a de que se trata de um livro para partilhar.
É também um livro bonito, com um aspecto quase que de diário, e que ficará ainda mais bonito (para quem o preencheu) uma vez concluído, pois não só tem muito espaço para as respostas, mas também para fotografias, desenhos e rabiscos. Afinal, há memórias que são mais visuais do que verbais, não é? E também para essas há espaço neste livro.
Está longe também de ser apenas um desafio para os mais novos, havendo mesmo algumas perguntas que talvez sejam algo delicadas. Ainda assim, é um exercício gradual e um desafio interessante, tanto para um filho propor ao pai como para alguém que queira surpreender os filhos. 
O resultado é um projecto relativamente simples, mas bastante completo, que se tornará em algo único depois de preenchido. Uma experiência para partilhar, portanto, e para guardar, depois, como um daqueles pequenos tesouros que, no fundo, são os mais importantes: as memórias. 

Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Divulgação: Novidade Bertrand

Kate tem 26 anos e trabalha num pequeno jornal local no qual publica notícias insignificantes. Um dia é escolhida para escrever sobre o encerramento do Brockwell Lido, uma piscina local, ao ar livre e integrada num centro de lazer e desporto. No Lido, Kate conhece Rosemary, uma viúva de 86 anos que sempre frequentou o lugar, desde a sua inauguração, época em que ainda era criança. Foi aqui que Rosemary se apaixonou pelo marido e foi aqui que sempre nadaram juntos. Quando surge um projeto para transformar o Lido num complexo de apartamentos, as memórias de Rosemary e o seu mundo ficam subitamente ameaçados.
Enquanto Kate mergulha na história do Lido, vai-se envolvendo simultaneamente na história de uma piscina e na vida de Rosemary, uma mulher singular. O que começa por ser uma simples reportagem, apenas com interesse local, acaba por fazer nascer uma surpreendente relação de amizade entre duas mulheres empenhadas no combate contra o encerramento do Lido.

Libby Page é uma jovem autora inglesa que começou a trabalhar em marketing mas que continuou em paralelo, a atividade regular da escrita que mantinha desde criança. Com 16 anos, já publicara um livro ilustrado, chamado Love Pink, para angariação de fundos destinados ao combate contra o cancro da mama. Licenciou-se em Comunicação Social na London College of Fashion e posteriormente tornou-se jornalista do diário The Guardian. Depois da escrita, a sua segunda paixão é a natação.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Carta ao Cavaleiro de Nada (João Marecos e Rachel Caiano)

A caminho da África do Sul num grande barco chamado Castelo, o pequeno Fernando Pessoa sente-se sozinho, mas tem uma grande aventura pela frente. É essa, aliás, a história que tem para contar ao seu amigo Cavaleiro de Nada: de como um gato lhe roubou a mochila onde guardava as cartas que este lhe tinha escrito e de como, ao tentar recuperá-las, descobriu novos amigos. A mesma história, claro, que tem para nos contar a nós.
A ideia de construir uma história para crianças que pega não só na figura de Fernando Pessoa, mas também em vários dos seus heterónimos, para fazer deles os protagonistas, pode parecer, à partida, algo intimidante. Mas bastam as primeiras frases deste livro para perceber uma concretização à altura do desafio: num tom simples, mas evocativo da escrita do próprio Pessoa (heterónimos incluídos), o autor consegue atingir um equilíbrio praticamente perfeito entre estranheza e ternura, e entre uma visão muito particular do mundo e o que as mensagens deste mundo têm de universal.
Talvez seja precisamente isso a fazer com que este pequeno livro seja igualmente delicioso para leitores de todas as idades. Aos mais novos, narra uma aventura cativante, ao mesmo tempo que apresenta uma figura, ou várias - ou uma figura que é várias - intemporal da poesia portuguesa. Aos mais velhos, traz de volta a memória da simplicidade, ao mesmo tempo que fascina pela forma como consegue conter personalidades tão vastas numa história tão breve e, ao mesmo tempo, tão completa.
E depois, claro, há as ilustrações, com o seu azul vivo a evocar o mar e a aparente simplicidade a deixar espaço para que o leitor construa a sua própria imagem das personagens. Ilustrações que complementam na perfeição esta carta, pois acrescentam magia a uma história que é já em si muito mágica.
No fim, fica esta estranha sensação de ter partilhado uma aventura mágica com uma figura (ou, mais uma vez, várias) muito real. E uma mensagem de sonho e de memória que perdura e esbate o esquecimento. Um livro bonito, enternecedor e cativante em todos os aspectos. Muito bom, em suma. 

Autores: João Marecos e Rachel Caiano
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

366 Poemas que Falam de Amor (Vasco Graça Moura)

Será certamente o mais intemporal dos temas, e também um dos mais vastos. Amor permite tantas interpretações, tantos cenários, tão infinitas possibilidades. E, embora centrada essencialmente no amor romântico, esta antologia abrange muitas dessas possibilidades: diferentes tempos, diferentes estilos poéticos e diferentes formas - da mais alegre à mais trágica - de contemplar o amor. Cada poema é um mundo completo em si mesmo. E o todo esse... o todo é fascinante.
Um dos aspectos que importa, decerto, destacar é a forma como, abrangendo tantos estilos e tantos autores, esta antologia transmite, ainda assim, a sensação de ser uma unidade harmoniosa. Talvez devido ao tema comum, e ao contraste com a diversidade de vozes, mas a verdade é que parece haver um fio condutor a unir esta antologia - ainda que possa ser difícil descrevê-lo. E, curiosamente, esta unidade abrange também um equilíbrio: é que, apesar das suas 366 abordagens distintas a um tema comum, a leitura nunca se torna repetitiva, o que, por si só, já diz muito da qualidade da poesia contida neste livro.
Não é, e trata-se de um facto assumido, uma antologia organizada segundo um critério muito elaborado. É simplesmente uma escolha. E esta escolha resulta também bastante adequada, pois, sendo o conceito o de um poema para cada dia do ano, faz sentido uma orientação mais por estados de espírito do que por critérios académicos. Até porque é um sentimento o tema central. Além disso, permite também uma certa liberdade na leitura, que faz com que esta seja uma excelente antologia tanto para ler de forma sequencial como para revisitar em busca de um poema específico, ou de um simples laivo de amor poético.
E, claro, importa voltar a realçar a grande diversidade de nomes (e épocas) abrangidas, o que permite não só um reencontro com poetas mais célebres, mas também a descoberta de novos autores e a inevitável curiosidade em ler mais da obra de muitos deles. É, então, um livro que recomenda outros livros - o que não deixa de ser também muito agradável.
No fim, fica esta impressão tão simples: a de um livro que se lê com gosto e que, mesmo antes de terminada a leitura, já sabemos que iremos um dia revisitar, seja para reencontrar um poema ou para voltar a mergulhar nos meandros infinitos do amor. Tão vasta como o sentimento que lhe serve de tema, trata-se, pois, de uma antologia completa e cativante. Notável, em suma. 

Autor: Vasco Graça Moura
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

As Velhas (Hugo Mezena)

São mulheres que, depois de uma longa vida, subitamente se vêem reduzidas a um espaço. O espaço de uma casa vazia, ou de uma casa, de visitas ocasionais ou nulas, ou apenas de fantasmas pesados. Mulheres que envelheceram, mas que vivem ainda no seu próprio mundo, entre os mexericos das vizinhas ou a prisão de um corpo que pouco reage. E o mundo passa, talvez sem ver. E é para ver que serve este livro.
Não é exactamente um romance, na medida de que cada uma destas histórias é essencialmente independente. Também não é apenas um conjunto de contos, já que há pequenas ligações, além, claro, de uma sensação de unidade que parece brotar do todo. E, por isso, poder-se-á começar dizer que, apesar de breve, é um livro difícil de descrever. Cada história ocupa poucas páginas e deixa tanto sem resposta quanta matéria para reflexão. O resultado é um estranho equilíbrio entre uma certa curiosidade insatisfeita (qualquer destas histórias bastaria para um romance) e a sensação de que todas as bases essenciais estão lá.
Talvez não seja a história de nenhuma destas mulheres em específico, embora cada uma delas tenha um percurso e uma personalidade bem vincados. Talvez seja a história da velhice como um todos. E, se olharmos assim para o livro, tudo ganha um novo significado: não temos resposta para tudo, tal como, às vezes, vidas inteiras não chegam para obter respostas; e, entre caminhos tão diferentes, sente-se a mesma solidão, a mesma perda, a mesma mistura de sabedoria e abandono que aguarda lá mais perto do fim do caminho. Mais que de factos, é uma história de impressões, impressões essas que, curiosamente, ganham um maior impacto devido à brevidade. 
E isto reflecte-se na própria escrita, simples, sucinta, mas pejada de afirmações certeiras, de observações perspicazes sobre a passagem do tempo. Da estranha beleza, enfim, que faz com que, apesar de tudo o que fica por dizer, o livro pareça ter tudo aquilo de que precisa. 
Fica, pois, esta estranha marca de um livro tão breve contendo multidões. Multidões de vidas já avançadas - e abandonadas, por vezes - mas cheias, ainda, de histórias para contar. Simples, sim, mas marcante. E também muito pertinente. 

Título: As Velhas
Autor: Hugo Mezena
Origem: Recebido para crítica

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Vox (Christina Dalcher)

Muitos pensavam que nunca poderia acontecer, mas bastou o carisma de um reverendo fanático, um discurso demagógico assente em estatísticas deturpadas e a indiferença generalizada para que, de repente, todo o país mudasse. Agora, as mulheres estão limitadas a cem palavras por dia, à vida do lar e a uma existência onde tudo é controlado, quando não absolutamente negado. A Dra. Jean McClellan não se conforma, mas sabe que acordou tarde demais. Por isso, quando se vê ante a possibilidade de regressar ao seu trabalho de investigação, ainda que temporariamente, livrando-se da pulseira que lhe controla as palavras, Jean agarra a oportunidade. Só que o seu soro destina-se a algo muito mais vasto do que curar o irmão do presidente... e muito mais sombrio. A não ser que ela faça alguma coisa. 
Uma boa palavra para começar a descrever este livro será aterrador. Aterrador porque traça um cenário terrível e também porque o discurso na base deste cenário não anda assim tão longe do pensamento de certas figuras reais. A primeira qualidade é, por isso, esta mesma: a relevância de discutir direitos que, embora vistos por muitos como garantidos, podem facilmente ser retirados. É um cenário terrível, mas terrivelmente realista, o que faz deste livro a fonte de muito material para reflexão.
A segunda qualidade é o ritmo intenso e viciante, que, além de reforçar o impacto de cada desenvolvimento, torna impossível parar antes do fim. Há sempre algo para desvendar em cada um dos seus curtos capítulos, seja no percurso que gerou a situação actual, seja no caminho que Jean e os outros têm pela frente na sua oportunidade de mudar as coisas. E, à medida que o enredo evolui, há também todo um conjunto de surpresas e de momentos intensos a fazer com que tudo na história seja notável.
Há ainda a construção das personagens, particularmente da protagonista. Jean e Jackie, nas suas vidas passadas, eram pólos opostos: a conformada e a activista. E, ao assumir Jean como protagonista, aquela que não se preocupou, a que achava impossível que acontecesse, a que acordou demasiado tarde, a autora consegue, além de realçar a importância de se estar atento à realidade, gerar uma heroína a partir de uma personagem falível. Isso torna as coisas mais interessantes e o crescimento de Jean muito mais intenso. Além, é claro, de reforçar a ideia (sempre particularmente pertinente num livro destes) que é sempre possível - e preciso - fazer alguma coisa.
Intenso, relevante e assustadoramente real, trata-se, pois, de um livro que deixa uma marca profunda, não só nas questões que evoca, mas na história construída para as suas personagens. Com um cenário aterrador e um percurso feito de luta e de uma estranha redenção, um livro imperdível por todas as razões. Aterrador, sim. Mas acima de tudo brilhante. 

Título: Vox
Autora: Christina Dalcher
Origem: Recebido para crítica