terça-feira, 21 de maio de 2019

O Silêncio das Águas (Brittainy C. Cherry)

Na vida, basta um momento e tudo muda. O que costumava ser uma voz corajosa e sem barreiras transforma-se num silêncio tão profundo como as águas mais insondáveis. E o tempo passa e, ainda que a vida continue, cada momento é passado no limiar do afogamento. É assim para Maggie May, que, quando era criança, assistiu a um crime e, em resultado, perdeu a voz e a capacidade de sair de casa. A sua única âncora é Brooks, o amigo do irmão que se tornou também o seu melhor amigo. Agora, porém, ambos cresceram e a amizade ameaça tornar-se em algo mais. Mas Maggie não fala nem sai de casa e Brooks tem um futuro de sucessos musicais à sua espera. Como poderão continuar juntos, se fazê-lo significa puxar o outro para baixo? E se os papéis se inverterem, será Maggie capaz de fazer o mesmo que Brooks fez ao longo de vinte longos anos?
História de amor jovem e de crescimento para lá das dificuldades, uma das primeiras coisas a marcar neste livro é o facto de se estender muito para lá da história de amor entre os protagonistas. Sim, há amor, um amor sem reservas, e ver este amor crescer por entre tribulações é algo de mágico. Mas há também algo muito mais profundo do que a descoberta de um primeiro amor. Brooks e Maggie descobrem-se a si mesmos, nos bons momentos e nos maus, no trauma e na superação. E, ao fazê-lo, tornam-se força e exemplo para os que os rodeiam e que, às vezes, também não sabem muito bem como lidar com eles.
A história começa com os protagonistas ainda muito jovens e abrange um longo período de tempo. Ainda assim, consegue um equilíbrio surpreendentemente eficaz: há partes das vidas das personagens que são percorridas de forma mais sucinta, mas nunca fica a impressão de uma história demasiado apressada. Muito pelo contrário. Esta passagem do tempo permite realçar o melhor do seu crescimento: Maggie, parada no tempo do seu trauma, descobre o amor, aprende a perdoar, torna-se ela mesma salvadora e acaba por ter de confrontar aquilo que a moldou; Brooks, que podia ter ficado de fora a assistir, torna-se amigo, amado, confidente... e depois aprende com Maggie a lidar com as suas próprias sombras. E o amor entre ambos torna-se também uma voz - uma voz capaz de abalar todos aqueles que acompanharam o percurso de ambos.
Tendo tudo isto em conta, não é propriamente uma surpresa que a grande marca deste livro seja a emoção. Há sentimentos fortes à espreita ao virar de cada página, momentos comoventes, rasgos de pura emotividade. É possível sofrer com os protagonistas, sentir com eles, partilhar do seu crescimento. E, claro, o resultado é que se torna impossível largar a leitura, tal é a força com que estamos a torcer para que tudo acabe bem. Além disso, a estes rasgos de emoção acrescenta-se ainda um muito agradável sentido de humor, que, além de acrescentar leveza nos momentos em que esta é mais necessária, realça uma característica particularmente marcante das personagens: a capacidade de rir por entre as sombras.
Amor, crescimento e superação: são estes, em suma, os ingredientes que tornam esta leitura tão marcante. O amor paciente que tudo supera, o crescimento da passagem à idade adulta e a superação das sombras que, durante muito tempo, impuseram a sua autoridade. O resultado é um livro cativante, comovente e repleto de momentos memoráveis. Muito bom, em suma.

Autora: Brittainy C. Cherry
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro O Silêncio das Águas, clique aqui.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A Rapariga sem Pele (Mads Peder Nordbo)

Quando a primeira múmia viquinge - e o que pode muito bem ser a resposta para uma lacuna da História - é encontrada na Gronelândia, o jornalista Matthew Cave é destacado para seguir o caso. Mas a história está prestes a tornar-se em algo muito mais sombrio. Primeiro, a múmia desaparece, sendo encontrado no seu lugar o corpo esventrado do polícia que ficara a guardar o local. Depois, a mesma múmia é encontrada - com os órgãos do morto dentro e a certeza de que afinal é muito posterior ao dos homens do norte. E eis que Matthew se vê sem a sua história, mas com um outro caso para acompanhar. É que tudo parece estar ligado a uma série de homicídios macabros nos anos 70. Crimes esses que serviram para esconder outros segredos igualmente sombrios.
Viciante seria uma boa palavra para começar a descrever este livro, já que, mergulhando de cabeça na intensidade que definirá todo o enredo, consegue, desde as primeiras páginas, captar a atenção para nunca mais alargar. Primeiro são as circunstâncias da descoberta, associadas à história pessoal de Matthew, que basta, por si só, para gerar empatia. E depois, à medida que a trama se desenrola e os segredos e intrigas começam a vir à tona, é praticamente impossível parar de ler antes de saber o que acontece a seguir. O resultado é um livro que se lê quase de uma assentada e que fica na memória tanto pelos aspectos mais negros como pela intensidade constante que pauta toda a narrativa.
Matthew é um protagonista carismático e basta a sua história - e a sua incapacidade de obedecer quando lhe dizem para parar - para fazer com que a leitura valha a pena. Mas há mais. Ao intercalar a sua história com a de Jakob, o autor consegue construir uma visão mais próxima - e mais empolgante - dos crimes do passado, o que, além de adensar o mistério, faz com as grandes revelações ganhem outra força. Além disso, a presença da misteriosa Tupaarnaq, também ela com o seu passado sombrio, acrescenta ainda um outro toque de perigo, além de reforçar também o impacto das revelações. Afinal, também ela está no centro de um crime.
Há ainda um outro ponto a realçar: não são só as mortes em si que têm uma vincada faceta macabra. As razões que as provocaram são igualmente perturbadoras, com questões como o abuso de menores, a influência política como forma de encobrir o inimaginável e até mesmo a facilidade com que o sistema olha para o outro lado se confrontado com os motivos certos acrescentam a uma história cuja premissa é já bastante negra uma faceta ainda mais sombria. E é aqui que o equilíbrio se torna excepcional: na forma séria como o autor aborda estas questões sem nunca perder de vista o ritmo intenso de uma história que se quer viciante.
Fica, pois, um impacto poderoso e a impressão de uma leitura que, embora de ritmo acelerado e em que há sempre algo de importante a acontecer, as grandes questões estão sempre presentes e nunca são subestimadas. Notável na construção das personagens e extraordinário no equilíbrio entre as várias facetas e momentos da história, um livro intenso, intrigante e que recomendo sem reservas.

Autor: Mads Peder Nordbo
Origem: Recebido para crítica

domingo, 19 de maio de 2019

Descender, Vol. 3: Singularidades (Jeff Lemire e Dustin Nguyen)

TIM-21 pensava ter encontrado um refúgio temporário, mas, mais uma vez, as coisas acabaram por seguir um rumo inesperado. Agora, tudo pende num equilíbrio delicado. E é neste ponto de viragem que o tempo pára e todos os pensamentos se voltam para o passado. Afinal, pode haver relações desconhecidas que as personagens desconhecem e o passado que os une talvez seja a chave para o que virá depois. TIM-22, Telsa, Bandit, Andy, Effie e até mesmo o Broca: todos têm uma história antes do momento em que os seus caminhos voltaram a cruzar-se. E, nessa história, estão as pistas para o futuro.
Poder-se-á, talvez, dizer que este terceiro livro funciona, em certa medida, como um volume de transição: afinal, em termos da linha principal da história, as coisas não evoluem muito. Ainda assim, uma das primeiras coisas a sobressair é que, pese embora esse facto, há muito de novo - e muito de marcante - a descobrir neste livro. Afinal, o passado faz parte do que nos define. E o passado destas personagens é, em muitos aspectos, assombroso.
Sendo um olhar aos diferentes passados, há dois elementos que se destacam. O primeiro é o conjunto de revelações pertinentes - e uma ou outra reviravolta - que irão seguramente influenciar os acontecimentos futuros. O segundo, e talvez o mais importante, é a intensa carga emocional associada a todas estas memórias. Da antiga vida de TIM-22 ao passado comum de Andy e Effie, passando pelas dilacerantes cenas de Bandit sozinho e à procura na colónia mineira e pela posição de Broca ante a forma como foi tratado pelos humanos (ou por um humano em particular), há toda uma vastidão de momentos memoráveis, capazes de despertar emoções fortes e de potenciar ainda mais a já forte empatia que estas personagens despertam. Estendendo-a, aliás, a personagens que anteriormente não pareciam merecê-la.
E eis que, mais uma vez, entra a questão da expressividade e a forma como as personagens são retratadas. As expressões das personagens ao longo dos acontecimentos são uma porta aberta para todas estas emoções. E, além disso, há ainda uma outra faceta: Bandit e Broca são robôs sem aspecto humano e, ainda assim, esta expressividade estende-se também a eles. A parte dedicada a Bandit é, aliás, particularmente marcante, porque, sendo embora um robô, é praticamente impossível não o ver como um cão como qualquer outro - sozinho, perdido, à procura de afecto.
Pode parecer uma pausa na história principal, mas tudo o que contém é relevante. E, com a sua vastíssima força emotiva e os muitos desenvolvimentos interessantes, tudo aquilo que acrescenta à história é bom, tudo é belo e tudo fica na memória. Acabando, por isso, por surpreender, ao mesmo tempo que corresponde e supera as expectativas. Muito bom.

Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Origem: Recebido para crítica

sábado, 18 de maio de 2019

Hotel Silêncio (Auður Ava Ólafsdóttir)

Jónas Ebeneser sente que já não tem nada a perder. Divorciado, sozinho, com uma vida que lhe parece não ter qualquer importância, acaba de descobrir que não é o pai biológico da que julgava ser sua filha e, por isso, decide acabar com a vida. Mas o suicídio não é um acto assim tão simples, e muito menos para alguém que sente a necessidade de consertar tudo o que precisa de conserto. Decide então viajar para o país menos seguro do mundo, onde a guerra fará com que a sua morte rapidamente caia no esquecimento. No Hotel Silêncio, porém, aguarda-o uma outra vida: uma vida onde ele é necessário, ainda que apenas para as pequenas coisas que consegue consertar num país devastado.
Narrado essencialmente da perspectiva do protagonista, e de um protagonista cuja mente está perturbada, este é um livro que vive tanto das impressões como dos acontecimentos. É também um percurso em duas fases: o mergulho no abismo e a recuperação possível. É, por isso, difícil descrever este livro de forma concreta, já que as marcas que deixa devem-se mais às profundezas da alma do protagonista do que propriamente a gestos e actos - ainda que também estes tenham a sua importância.
Há também como que um choque de sentimentos que se reflecte acima de tudo na escrita e que, através dela, é transposto para a narrativa. Tudo é descrito como que de uma certa distância, o que faz com que a situação de Jónas acabe por não despertar uma proximidade imediata, mas essa distância é também reflexo da apatia que parece ter tomado conta do protagonista. Vai-se, por isso, desvanecendo com a mudança de cenário e de interlocutores, sem nunca perder de vista a profunda introspecção que tanto marca a natureza do protagonista, mas mostrando também como que um ténue - mas notável - desabrochar.
No fim, é como se nada terminasse verdadeiramente - excepto aquilo que menos se esperava. O futuro de Jónas, se o tiver, fica à imaginação do leitor. E as possibilidades são surpreendentemente vastas, já que a estadia no Hotel Silêncio fez, involuntariamente, dele uma pessoa diferente. Fica, por isso, uma agradável ambiguidade, onde não há princípio e quase não há fim e onde a derradeira surpresa vem, ainda assim, de onde menos se espera.
Relativamente breve, leva, ainda assim, o seu tempo para assimilar a inesperadamente complexa teia de impressões e de emoções. Mas, cativante desde a primeira página e repleto de momentos e frases memoráveis, acaba, ainda assim, por marcar em todas as suas facetas e por surpreender tanto no que conta como no que deixa por dizer. Uma boa surpresa, em suma, e um livro que vale a pena descobrir.

Título: Hotel Silêncio
Autora: Auður Ava Ólafsdóttir
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 17 de maio de 2019

História de uma Baleia Branca (Luis Sepúlveda)

Era uma vez uma baleia da cor da lua. Habitava as profundezas do oceano, vindo à tona apenas para respirar e para aprender sobre os estranhos seres que, em barcos, se aventuravam cada vez mais longe. Até que recebeu uma missão: proteger o Povo do Mar e as baleias que os protegiam até ao momento da última viagem. Protegê-los dos homens que, avançando cada vez mais, vinham à caça das baleias para lhes retirar o óleo e a gordura. Uma baleia que se tornou protector, e que, na sua luta contra a cobiça dos homens, viria a adquirir um nome e uma reputação terríveis: Mocha Dick.
Basta um primeiro olhar a este livro para se ficar encantado. Porquê? Bem, porque sendo certo que a alma de um livro é, muitas vezes, a sua história, neste caso são as ilustrações o primeiro aspecto a marcar. Basta um breve folhear para despertar a curiosidade para a história associada a estas imagens que são pura magia - e, à medida que a história é desvendada, adquirem também um novo sentido, pois complementam na perfeição a história desta baleia branca.
É uma história relativamente breve e essencialmente bastante simples. Fica, aliás, uma certa curiosidade insatisfeita acerca de partes da história da baleia (embora talvez o nome possa ser uma boa pista de onde procurar mais respostas). Ainda assim, a história parece ter o equilíbrio certo. Ao ser maioritariamente narrada do ponto de vista da baleia, confere uma perspectiva diferente à visão quase romantizada da vida nos baleeiros. Ao cingir-se ao essencial, faz com que os grandes momentos tenham outro impacto. E ao dar conferir à baleia voz e missão ao protagonista, permite uma visão mais emotiva dos acontecimentos: expectativa, missão, fracasso, vingança e um ambíguo depois que formam um todo marcante.
No fundo, tudo gira em torno de um mesmo equilíbrio, em que a simplicidade da escrita se alia ao impacto das imagens para construir uma história capaz de marcar leitores de todas as idades. Não é, aliás, preciso conhecer Moby Dick para apreciar a história desta baleia branca, pois o seu percurso é um todo completo, cheio de aventuras, de descobertas e de emoções fortes, culminando num final que, não sendo propriamente inesperado, é ainda assim também muito marcante.
Marcante será, pois, uma boa palavra para definir este livro que, com o seu eficaz equilíbrio entre texto e ilustração, dá vida a uma história breve, mas notável em tudo o que realmente importa. Simples, cativante e muito bonita, uma boa história, em suma.

Autor: Luis Sepúlveda
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Uma Pedra Sobre a Boca (João Moita)

De sombras, de sangue, de fome e até de uma incerta fé: de tudo isto são feitos os poemas deste livro. Poemas onde a brevidade se une a uma construção de imagens tão precisa quanto perturbadora para dar forma a uma visão que é mundo e crença e sentimento sempre de uma forma muito interior. Em poucos versos, parece conter um quadro inteiro. Um quadro tão sombrio quanto eficaz na sua (aparente) simplicidade.
Abrangendo vários anos da poesia do autor, uma das coisas que importa começar por destacar é que, ao longo da leitura, sente-se não só uma viagem pessoal, mas acima de tudo uma evolução estrutural. Aos muito breves e muito sombrios poemas das primeiras páginas sucede-se como que um crescendo que, sem perder de vista os seus matizes mais obscuros, se vai tornando mais descritivo, um pouco mais distante. Início e fim são quase vozes diferentes, ainda que unidas pelo mesmo fio condutor.
Outro aspecto que cedo se torna evidente, e talvez também devido a esta evolução gradual, é a coesão do todo. Cada poema é um todo completo e, se fizermos o exercício de ler o primeiro e o último, as relações não serão lá muito evidentes. Mas, lido de forma sequencial, há neste livro como que uma união, quase como uma via sacra interior que se aproxima de um estranho clímax. Da sombra da introspecção à fome da própria terra, há espaço para imagens pessoais e imagens do mundo. E este contraste entre as duas facetas confere ao todo um sentimento de pertença.
São maioritariamente poemas muito breves, daí que esta sensação de vastidão acabe por resultar também especialmente surpreendente. E, embora não deixe de ficar também a pairar como que uma curiosidade em ver mais a fundo este mundo, o facto de cingir o traçado da imagem a poucos versos torna mais memoráveis as grandes frases - e mais peculiar o estilo global.
Finda a leitura, fica a sensação de uma estranha viagem ao interior, a um interior que tanto consegue roçar os contornos da devoção como a simples aridez da paisagem. Um interior aparentemente simples, mas de complexidade insuspeita, e em que cada poema é um passo rumo a um destino maior. Difícil de descrever, sim, mas bastante memorável.

Autor: João Moita
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Indeh (Ethan Hawke e Greg Ruth)

A guerra é uma velha inimiga da nação Apache, e ainda mais agora que os Olhos Brancos, determinados a tomar posse da terra e de todas as suas riquezas, querem confiná-los a reservas. Mas, embora sejam mais que os gafanhotos, a confiança dos soldados americanos não chega. Não contra Cochise, um chefe destemido e sábio, que tem ao seu lado guerreiros fortes, um dos quais deixaria a sua alcunha gravada na história: Gerónimo. O que começa por ser um massacre transforma-se numa guerra sem tréguas. E, muitas mortes depois, a esperança torna-se cada vez mais ténue: será possível alcançar a paz? A que preço? E por quanto tempo?
Parte do que torna um livro de banda desenhada memorável será sempre e necessariamente o equilíbrio entre a arte e a história, entre diálogos e movimento, por assim dizer. Neste livro específico, este equilíbrio atinge um novo auge. Os diálogos, sucintos, cingindo-se ao essencial, mas sempre com algo de memorável a acrescentar, aliam-se a uma arte tão avassaladoramente expressiva que se torna difícil desviar o olhar, seja no retrato das personagens, nas sequências de guerra, cheias de movimento e morte, ou até na estranha desolação das paisagens de um mundo perdido - pelo menos para os protagonistas.
Isto torna-se especialmente notável se tivermos em conta que se trata de um livro a preto e branco. Às vezes, a cor ajuda a dar vida à história, não é? Bem, neste caso, diga-se que a cor não faz falta nenhuma. Há todo um equilíbrio de tons, mais esbatidos para as memórias, mais intensos para os momentos mais próximos, sempre precisos no traçado de rostos, expressões e movimentos. E isto, além do previsível facto de tornar o livro lindíssimo, tem também o condão de tornar a leitura ainda mais memorável: ver o sofrimento nos rostos das personagens torna a sua dor mais próxima. Ver a firmeza torna mais admirável a sua coragem.
E, claro, há a história em si e toda a visão que implica. Afinal, todos nós vimos uns quantos filmes de índios - aqueles em que os índios são sempre os vilões que é preciso perseguir e abater. Pois bem, este livro inverte por completo essa perspectiva, traçando o percurso de um povo perseguido até aos limites e, como tal, forçado a quebrar também limites para sobreviver. A história de Cochise e do seu povo é memorável em si mesma e também pelo que representa: a visão de que a tantas vezes branqueada história do triunfo da civilização foi tudo... menos civilizada.
Belíssimo, intenso e marcante em todas as suas facetas, cativa desde o primeiro contacto e não deixa de surpreender até ao fim. Basta, pois, um olhar para tornar este livro memorável - e a leitura só reforça esta impressão. 

Título: Indeh
Autores: Ethan Hawke e Greg Ruth
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 14 de maio de 2019

Implacável (Lisa Kleypas)

Devon Ravenel acaba de herdar um título, e com ele uma propriedade tão extensa quanto arruinada. E, embora inicialmente os seus planos sejam livrar-se da sua herança e continuar a levar a mesma vida boémia que até ali, está longe de imaginar quão profundamente a sua vida vai mudar. Quando ele e a viúva do seu falecido antecessor se encontram pela primeira vez, tudo indica que estão destinados a ser inimigos. Mas há algo em Kathleen que o fascina e, quase sem querer, a sua dedicação às irmãs de Theo, bem como a determinação em zelar pelas muitas pessoas que dependem da propriedade, começa a cativar Devon. E, à medida que a relação começa a aprofundar-se, há também algo de mais profundo a ganhar forma: uma atracção que começa por ser física, mas que ameaça estender-se até ao coração.
A passagem de inimigos a amantes não é algo de totalmente novo neste género de romance. E, ainda assim, uma das primeiras coisas a destacar neste livro é a forma como a autora consegue conferir a esta premissa uma identidade única e intransmissível. Talvez porque cada personagem tem um carisma muito seu, ou talvez porque a história gira à volta do que muito mais do que apenas o romance, o que faz com que o amor aconteça de forma gradual, o que é certo é que tudo neste livro - estrutura, enredo, personagens - parece desenvolver-se de forma notavelmente eficaz.
Claro que a alma está nas personagens, e isto aplica-se tanto à sua natureza como à sua evolução. O infame temperamento Ravenel faz de Devon uma figura um tanto ou quanto implacável e dominadora, mas o seu percurso sobressai, acima de tudo, por outros aspectos: a descoberta da responsabilidade, a manifestação de um heroísmo tão inesperado quanto natural na força do momento e também um sentido de humor delicioso, atrás do qual se escondem emoções mais fortes do que o próprio Devon gostaria de admitir. E há algo de semelhante a acontecer para muitas das principais personagens: West, de puro tratante a trabalhador dedicado; Kathleen, que esconde sob a imagem da viúva agarrada às convenções uma faceta de mulher determinada; até Helen, com a sua tímida quietude a esconder um grande coração. Todas as personagens têm algo de notável e todas proporcionam grandes momentos, sejam eles de humor ou de emoção. 
Há também algo que sobressai na história em si: o equilíbrio entre múltiplas facetas. O foco central está, naturalmente, no romance entre Kathleen e Devon, mas há muito mais para além disso. Há a recuperação da propriedade, o catastrófico acidente na base de alguns dos grandes momentos do livro, a história secundária de Helen e Winterborne (que prepara já caminho para um volume seguinte) e até mesmo uma análise de um mundo que se move mais por estatutos e aparências do que pelo verdadeiro valor. Tudo isto torna o enredo mais amplo, as personagens mais complexas e confere ao romance um crescimento gradual que torna tudo também mais autêntico.
Equilibrado, intenso e repleto de momentos deliciosos: assim se poderia descrever, em suma, esta história de atracção e de amor, em que dois protagonistas que inicialmente parecem ter muito pouco em comum se tornam na dupla perfeita. Divertido, emotivo e cheio de surpresas, um livro implacavelmente delicioso. E que recomendo, naturalmente.

Título: Implacável
Autora: Lisa Kleypas
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Seca (Neal Shusterman e Jarrod Shusterman)

Há já algum tempo que a seca dura na Califórnia e, apesar de terem sido aprovadas algumas leis para combater o problema, não foram de todo suficientes. Agora, a água deixou de jorrar das torneiras e ninguém sabe ao certo quanto tempo o problema vai durar. Mas uma coisa é certa: sem água não se sobrevive e há quem esteja disposto a tudo para sobreviver. É neste cenário que Alyssa, o seu irmão Garrett, e Kelton, o seu vizinho estranho, se vêem longe do mundo que julgavam conhecer e empurrados para uma brutal luta pela sobrevivência.
Um dos aspectos mais impressionantes deste livro, e também certamente o mais perturbador, é a facilidade com que permite imaginar o cenário desta história transposto para a vida real. A manifestação da catástrofe e a passagem para modo de sobrevivência são manifestamente compreensíveis, mas há um impacto crescente à medida que o lado mais negro e desesperado das pessoas vem à tona. E o mais aterrador de tudo é a rapidez com que tudo acontece. A história abrange muito poucos dias e, contudo, a civilização parece colapsar. E é assustador imaginar isto numa realidade não muito distante.
Parte do que torna isto tão realista é também a construção das personagens. Alyssa, Kelton, Garrett, Jacqui e Henry, as principais figuras deste livro, podem ser vistos como os heróis da narrativa, mas não são propriamente heróis. São personagens a lutar pelas suas vidas postas perante um cenário inimaginável: e isto implica decisões impensáveis, comportamentos (no mínimo) censuráveis e fantasmas que, caso o problema venha a ser superado, perdurarão para sempre. Também isto impressiona, pois, além de recordar que a perfeição não existe, põe o mundo e os acontecimentos narrados numa perspectiva diferente: uma em que tudo é possível nas condições certas.
Até a própria escrita parece maximizar este impacto. Ao contar a história na primeira pessoa, mas de diferentes perspectivas, os autores abrem as portas dos pensamentos, dilemas e decisões das suas personagens, o que contribui em muito para gerar emoções mais fortes. Há quem desperte empatia e há quem desperte aversão. Depois, com o evoluir dos acontecimentos, estes sentimentos vão-se transformando em algo mais ambíguo, mais complexo - como as circunstâncias que desencadearam estas mudanças. E, quando tudo termina, já ninguém é o mesmo. As marcas ficaram, as coisas mudaram. E isso - esse final em que tudo é novo e, mais uma vez, nada é perfeito - torna também a história muito mais realista.
Chega-se, pois, ao fim com a melhor das impressões: a de um livro complexo, mas viciante, com personagens marcantes e um enredo tão surpreendente, mas tão aterradoramente próximo, que é impossível não ficar gravado na memória. Intenso, surpreendente e, principalmente, muito relevante, um livro que não posso deixar de recomendar.

Título: Seca
Autores: Neal Shusterman e Jarrod Shusterman
Origem: Recebido para crítica

domingo, 12 de maio de 2019

Gallowstree Lane (Kate London)

Há uma guerra territorial a acontecer em Gallowstree Lane e a sua dimensão cedo se torna evidente quando um jovem chamado Spencer se esvai em sangue na rua na sequência de um esfaqueamento. Mas há uma teia sombria a desenrolar-se nesta guerra de gangues. Shakiel, líder de um dos grupos rivais, planeia introduzir armas no país e isto fez que as forças da lei montassem uma grande operação para o travar. Mas, para manter esta operação a salvo, a investigação do homicídio de Spencer tem de ser gerida com cuidados adicionais. E isto implica uma relutante cooperação entre os agentes responsáveis pelas diferentes investigações - e a sua própria guerra territorial, que tem de ser posta de parte em nome do bem maior.
Sendo o terceiro livro da série, com várias referências ao passado e uma linha comum a unir várias personagens, uma das primeiras coisas que importa referir acerca deste livro é que a história central é totalmente independente. Sim, há pequenos momentos e uma evolução pessoal que provavelmente fazem com que valha a pena ler os livros por ordem (eu não li os anteriores... ainda), mas a investigação central é uma história própria e não há nada de essencial que não seja plenamente desenvolvido neste livro.
Há também uma multiplicidade de coisas a acontecer ao longo de toda a história, o que faz com que o início possa parecer um pouco confuso, tornando-se porém rapidamente num crescendo de intensidade e acção que abre caminho para um final bastante avassalador. Além disso, ao seguir várias perspectivas - Kieran, Lizzie, Sarah e até Ryan - a autora consegue fazer com que a história seja mais do que a mera resolução de um caso. É a história destas pessoas, dos seus sentimentos e dificuldades, das suas vidas. E isto torna tudo muito mais intrigante.
O que me leva à principal qualidade deste livro: o desenvolvimento das personagens. No início, praticamente todas despertam sentimentos ambíguos. Kieran em particular não é propriamente a mais adorável das personagens. Mas isto tem dois efeitos muitos positivos: primeiro, numa história em que ninguém é perfeito, é mais fácil entender os seus comportamentos e imaginá-los a mover-se num cenário real. Segundo, não sendo perfeitos, podem evoluir. Podem redimir-se. E fazem-no de forma brilhante.
Começa um pouco pausado, sim, mas cedo se torna viciante, convergindo através de várias linhas para dar forma um final bastante memorável. E, com as suas personagens complexas, o seu caso delicado e o seu equilíbrio eficaz entre pessoal e profissional, acção e reacção, vida e morte, cedo se torna uma leitura memorável. E, definitivamente, uma série que vale a pena descobrir.

Autora: Kate London
Origem: Recebido para crítica

sábado, 11 de maio de 2019

Romanceiro Cigano seguido de Pranto Por Ignacio Sánchez Mejías (Federico García Lorca)

"Verde que te quero verde." Provavelmente já todos ouvimos este verso algures, de forma mais ou menos descontextualizada. A obra a que pertence, essa, talvez já não seja tão conhecida como merecia. E, porém, há tanta beleza e tanto ritmo, tanta história contada em poesia neste livro que é difícil não encontrar nele aquela esquiva qualidade que fala ao coração de quem lê.
Não é propriamente fácil descrever este livro, não só porque a poesia tem um certo encanto que se torna indescritível (e que é particularmente evidente nestes poemas específicos), mas porque há um certo embalo nas palavras que é mais sentido do que pensado. Rima, ritmo, imagens e emoções surgem, ao longo destes poemas, num equilíbrio estranhamente delicado, estranhamente cativante, que se entranha na memória quase sem querer e que lá fica durante muito tempo. Porquê? Pois essa é a parte difícil de explicar.
O mesmo equilíbrio que se sente entre os vários elementos do poema é também transposto para a comparação entre o todo e as partes. Cada poema é um todo completo, com a sua mais ou menos estranha história, o seu ritmo quase melodioso e o seu estranho e delicioso contraste de sombra e luz (física e emocional). Mas há como que um fio condutor a moldar todo o conjunto, algo que também não é propriamente fácil de descrever, mas que passa a sensação de que todos estes poemas pertencem juntos: não só pela obra coesa que constituem, mas porque parecem brotar de uma mesma natureza.
E há ainda um outro aspecto muito específico deste livro que importa destacar: tratando-se de uma edição bilingue, permite ver, lado a lado, original e tradução. Ora, isto permite não só apreciar a mestria - e as dificuldades - de transpor o poema para uma língua diferente, mas também, para quem conhecer minimamente o castelhano, apreciar semelhanças e diferenças, reconhecer as nuances do ritmo em ambas as versões e descobrir que os pontos de união são, afinal, mais do que os de divergência.
Eis, pois, um todo que é o equilíbrio das partes, mas também algo mais vasto que a sua soma. Um conjunto em que cada parte é um todo completo, mas que faz com que, da leitura total, brote uma sensação de fascínio - e também de certa indescritível nostalgia - que faz com que todo o conjunto se torne memorável. Ritmo, rima, imagens e emoções entrelaçadas num equilíbrio brilhante. E não é disso, afinal, que se faz a boa poesia?

Autor: Federico García Lorca
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ilíada, de Homero, em Poucas Palavras (Roberto Piumini)

Ilíada. O nome nunca nos será estranho, nem o dos seus protagonistas: Ulisses, Menelau, Páris, Heitor. Mas a história, essa, é vasta, ou não se tratasse de um dos grandes épicos. Pode, por isso, ser algo intimidante. O que este livro propõe é um resumo sucinto da história, pensado, talvez, para um público mais jovem, e que funciona, ao mesmo tempo, como síntese e simplificação de uma história vastíssima, mas também como um desafio a descobrir depois o original.
Resumir todo um épico a pouco mais de cem páginas afigura-se, à partida, como difícil. E, olhando para a história tal como ela é aqui apresentada, com todas as suas batalhas, negociações, intervenções divinas e tudo o mais, é inevitável a sensação de que há muito pais para esta história do que aquilo que nos é aqui contado. É, ainda assim, uma história completa, cheia de deuses e heróis, de batalhas intensas e sangrentas e que culmina num final particularmente marcante. Para quem (como eu, admito) ainda não leu o poema original, será um belo ponto de partida para despertar a curiosidade. E, para os mais novos, consegue ser também uma belíssima introdução aos meandros da mitologia grega e da lendária história da guerra de Tróia.
Sendo uma versão resumida em poucas palavras, é apenas de esperar que também a escrita seja bastante simples. Há, ainda assim, um aspecto curioso e que reforça também a vontade de ver até que ponto se trata de um reflexo do original: a abundância de comparações e metáforas que surge ao longo de todo o texto, equiparando a batalha a outro tipo de fenómenos e comportamentos naturais. Ora, sendo que a batalha domina todo o livro, estas comparações não deixam de ter um efeito peculiar: por um lado criando uma espécie de distância de observação, por outro, conferindo um certo toque de poesia ao que é, ao fim e ao cabo, uma simplificação em prosa de um poema.
Terminada a leitura, fica esta agradável impressão: a de se ter captado um breve vislumbre de um todo mais vasto, mas um vislumbre suficientemente claro para ficar a conhecer personagens e acontecimentos. Sucinto, mas completo quanto baste, deixa uma grande vontade de ler o épico que lhe deu origem, proporcionando ao mesmo tempo a sempre agradável sensação de se ter mergulhado de cabeça numa boa história.

Autor: Roberto Piumini
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Ilíada, de Homero, em Poucas Palavras, clique aqui.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Declarações de Guerra (Vasco Luís Curado)

A guerra colonial, muitas vezes associada aos primórdios da revolução e à forma como tudo mudou, parece ser um tema bastante recorrente em muita da literatura nacional. Mas as memórias, essas, pertencem a quem por lá passou. E é dessas mesmas memórias que se faz este livro: quarenta e oito testemunhos da guerra colonial, vista tal como ela foi pelos combatentes que por lá passaram. Sem rodeios, sem eufemismos, a guerra pura e dura - e as suas consequências.
A primeira coisa que importa destacar acerca deste livro é relativamente óbvia: o facto de se concentrar, acima de tudo, nos testemunhos dos combatentes. Mas isto é também especialmente pertinente, já que esta forma de analisar a guerra consegue deixar alguns sentimentos ambíguos: por um lado, a ausência de explicações para lá das apresentadas nos próprios testemunhos faz com que nem sempre seja fácil ver o contexto global; por outro, este olhar simples e directo às memórias de quem por lá passou, contadas na primeira pessoa e sem virar a cara aos aspectos mais chocantes, permite uma visão mais clara do verdadeiro impacto da guerra, nos que lá ficaram... e nos que lá deixaram pelo menos uma parte de si mesmos.
Nunca será uma leitura fácil, até porque o próprio conteúdo se assegura disso. Há relatos de brutalidade, de ataques devastadores, de feridos, de mortos, de mutilados... Tudo isto é, inevitavelmente, perturbador. E há ainda uma outra faceta igualmente perturbadora, que vem na forma das marcas que ficaram depois. A forma como alguns destes testemunhos se referem com naturalidade a actos de descontrolo e de violência já de regresso ao que se supunha ser a normalidade consegue ser igualmente chocante - sendo, ao mesmo tempo, testemunho das marcas deixadas pelos traumas.
Ficam, por isso, os tais sentimentos ambíguos: talvez um maior contexto permitisse ver certas acções de uma perspectiva diferente, mas, ao narrá-los apenas tal como foram, fica mais clara a dimensão do impacto e das perturbações que ficaram. Além disso, tratando-se de um conjunto de testemunhos, fica também bem evidente o conhecimento limitado que cada um tinha dos comos e dos porquês da guerra - o que não deixa de ser também algo de relevante a ter em conta.
Não, não é uma leitura fácil - nem deve ser. O que é, sim, é um livro bastante relevante não só para ver mais de perto os actos e as consequências de uma guerra, mas também que ela nunca termina realmente para quem por lá passou. Muito pertinente, em suma, e repleto de material para reflexão.

Autor: Vasco Luís Curado
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Y - O Último Homem: O Anel da Verdade (Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.)

Yorick e companhia chegaram finalmente ao seu destino, mas os problemas estão longe de resolvidos. Primeiro, continuam a ser precisos exames e investigações para que a Dra. Mann consiga descobrir o porquê de Yorick ter sobrevivido. E, além disso, o facto de terem chegado onde precisavam de ir significa que os seus principais inimigos também sabem exactamente onde os procurar. E não falta quem os procure. Das dissidentes do Círculo Culper a uma misteriosa miúda ninja de intenções obscuras, passando ainda pela estranha viagem de Hero, todos os caminhos convergem para o local onde Yorick está. Mas será que a resposta que todos procuram - o porquê da sobrevivência - não será também uma espécie de desilusão?
Nunca deixa de ser impressionante a forma como, de volume em volume, a história vai abrindo caminho a novas surpresas e rumos inesperados. Aqui, há novamente elementos do passado a vir à tona e um percurso mais pessoal a ganhar forma, para Yorick e também para Hero. E claro que a história central continua a ser mais vasta, com um contexto global cada vez mais perigoso e inimigos (e segredos) à espreita em cada esquina, mas esta visão mais próxima, com vislumbres do passado e uma certa sombra mental a pairar sobre os protagonistas, gera não só uma maior empatia, mas também uma visão geral mais realista: afinal, ninguém poderia passar pelo que eles passaram sem ficar com uma ou outra marca.
Entenda-se, porém, que este lado mais introspectivo nada retira à intensidade da acção e ao ritmo viciante da história. Há sempre algo de importante a acontecer, tanto na vida pessoal como no percurso global dos protagonistas. E, por isso, há espaço também para grandes momentos de acção, rasgos de perda e umas quantas revelações imprevistas, capazes de, uma vez mais, orientar a história num sentido completamente inesperado, culminando num final que deixa muitas e promissoras possibilidades para os volumes que se seguirão.
Voltando ainda uma vez mais a este contraste entre cenário global e histórias pessoais, é interessante ver que este equilíbrio não se repercute apenas nas múltiplas facetas da história em si, expandindo-se para a própria arte. Elementos como as fotografias de Hero, as memórias dos dois irmãos e até mesmo o ressurgir fugaz (mas deveras notável) da agente 711 transpõem para o lado visual o mesmo contraste que marca os diálogos e o próprio enredo. Mudanças de tons, feições expressivas e um certo equilíbrio entre momentos de luz e sombra fazem com que a história não fique apenas gravada na memória. Fica também na retina.
No fim, fica, acima de tudo, a vontade de continuar a ler, não só para descobrir as respostas às perguntas que ficaram, mas principalmente porque este cenário e estas personagens já se tornaram tão familiares que é, de certa forma, difícil abandoná-las. Mas fica também a promessa de muito mais de bom à espera no futuro desta história que nunca deixa de exceder as expectativas. E isso... isso é fantástico.

Autores: Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.
Origem: Aquisição pessoal

sábado, 4 de maio de 2019

Os Fins do Mundo (Peter Brannen)

Há quem diga que estamos no limiar da sexta extinção em massa. Mas o que sabemos realmente sobre as extinções anteriores? Conhecemos a história do asteróide que alegadamente aniquilou os dinossauros, mas o que sabemos ao certo de como tudo isso se processou? O que este livro pretende é apresentar uma visão precisa e o mais completa possível das origens e explicações apresentadas para os cinco grandes eventos de extinção da história do planeta. E, ao mesmo tempo, alertar talvez para os problemas que pairam sobre o futuro...
Uma das primeiras coisas que importa salientar sobre este livro é que, embora aborde um tema muito específico, com uma linguagem própria e que talvez exija algum conhecimento prévio, é também um livro pensado para o público em geral. Por isso, e olhando para lá do inevitável jargão, uma das suas principais qualidades é o registo acessível, não só na tentativa de dar explicações claras até para os mais estranhos fenómenos, mas também no tom pessoal que o autor confere à leitura ao narrar o seu próprio percurso em busca de respostas.
Também necessariamente interessante - e evidente - é a vastidão de conhecimento contido neste livro. Há teorias, estudos, referências a artigos publicados por diferentes autores e até uma visão bastante perspicaz dos atritos entre proponentes de ideias distintas. O resultado é que, havendo tanto conhecimento para assimilar, a leitura terá de ser um pouco mais pausada. Mas nunca deixa de ser interessantissima.
Além dos factos em si e da sua incontestável importância, há ainda um último ponto interessante a destacar. À medida que percorre o traçado das cinco grandes extinções, o autor vai estabelecendo paralelismos com o presente e o possível futuro, o que apela também a uma certa reflexão sobre certos comportamentos actuais e a necessidade de tomar medidas preventivas. Além dos factos em si, emerge, pois, uma mensagem forte, como que um apelo à conservação, não alarmista nem exagerado, mas muito sério e exposto com precisão.
Não é propriamente leitura compulsiva. Não podia ser, com um olhar tão completo à história do planeta. É, sim, um livro completo, interessante, agradável de ler e que é, ao mesmo tempo, um repositório de conhecimento sobre o passado e um alerta para um futuro tão vasto que faz com que toda a história da humanidade pareça abrangida por um piscar de olhos. Uma boa leitura, em suma, cheia de coisas interessantes para transmitir.

Autor: Peter Brannen
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Em Queda Livre (Jennifer Weiner)

Allison Weiss tem dificuldades em conciliar o trabalho, o cuidado com a filha e as exigências de uma casa que, apesar de já ter passado algum tempo, continua quase totalmente por decorar. O marido parece cada vez mais distante, as birras da filha cada vez mais insuportáveis e só os comprimidos que um médico em tempos lhe receitou para a dor de costas parecem ajudá-la a sentir-se normal. Allison acha que não tem um problema, mas, à medida que os comprimidos que toma começam a ser cada vez mais, adquiridos por vias cada vez mais duvidosas e de forma cada vez mais sorrateira, algo começa a tornar-se evidente: Allison está viciada. E a única forma de o fazer pode muito bem ser renunciar ao controlo e passar por um difícil processo de reabilitação.
Uma coisa que desde muito cedo se torna evidente neste livro é que não se trata de uma história onde as personagens despertem profunda e total empatia. Allison, com o seu problema e escolhas cada vez mais desequilibradas, desperta muitas vezes compaixão, mas tem o mesmo condão de irritar. E aqueles que a rodeiam estão muito longe de ser o apoio perfeito e incondicional que talvez fosse de esperar. Contudo, e surpreendentemente, isto acaba por não prejudicar a história. Se inicialmente se sente uma maior distância relativamente às personagens, com o evoluir do enredo há uma visão mais ampla a vir à superfície: a de que ninguém é perfeito, nem uma perfeita vítima nem um vilão absoluto. E que a vida é sempre mais complexa e difícil do que parece vista de fora.
Outro aspecto a destacar é que não se trata, de modo algum, de uma história simples. Claro que a linha geral é bastante clara e pretende ser uma história de queda e recuperação. Mas a autora consegue expandir a narrativa para múltiplos aspectos, fazendo deste romance mais do que a história de alguém que luta contra o vício. Há os problemas familiares, o papel de Allison enquanto mulher na vida do casal, o problema das receitas médicas pouco ou nada controladas e até a forma de funcionamento das instituições de reabilitação. São muitos, afinal, os temas pertinentes e, se as imperfeições das personagens fazem com que não gostemos tanto delas, também fazem com que as complexidades do tema ganhem uma maior clareza.
E há ainda a escrita propriamente dita. Ao narrar a história da perspectiva de Allison, a autora abre uma porta para os seus pensamentos, tanto quando tenta conduzir os seus passos com relativa normalidade como no seu mergulho em direcção ao vício. Isto pode tornar a visão dos acontecimentos um pouco parcial, mas torna também mais nítidos os sentimentos e frustrações da protagonista, além claro, de permitir uma visão mais próxima do que vai na cabeça de Allison e do que a preocupa.
A história termina com algumas perguntas sem resposta, mas acima de tudo com a sensação de uma conclusão adequada. E é também por isso que a imagem que fica na memória acaba por ser muito positiva: a de uma história relevante, nos temas e no percurso, cativante e com vários momentos notáveis. Marcante, em suma, e uma boa leitura.

Título: Em Queda Livre
Autora: Jennifer Weiner
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Presença

Alice Berenson é uma pintora britânica, jovem e famosa, que vive numa casa sublime nos arredores de Londres com o marido, Gabriel, um conhecido fotógrafo de moda. A vida de ambos parece perfeita. Mas uma noite , quando ele chega a casa depois de uma sessão fotográfica, Alicia mata -o com cinco tiros. E nunca mais diz uma palavra.
A recusa de Alicia em falar e dar qualquer tipo de explicação sobre a tragédia, transforma-se num mistério que prende a imaginação da opinião pública, e confere a Alicia uma notoriedade sem precedentes. O preço dos seus trabalhos artísticos dispara e ela, a paciente silenciosa, é alvo de um mediatismo implacável. Para evitar isso, é conduzida para uma unidade forense de alta segurança no norte de Londres.
Theo Faber, um psicoterapeuta criminal, espera há muito pela oportunidade de trabalhar com Alicia. A sua determinação em convencê-la a falar e a desvendar as razões misteriosas que motivaram o assassínio do marido leva-o por um caminho tortuoso, numa busca pela verdade que ameaça consumi-lo...

Alex Michaelides nasceu no Chipre, em 1977, sendo filho de pai grego e mãe inglesa. Estudou Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge, e tirou o mestrado em Escrita de Argumentos para Filmes no American Film Institute, em Los Angeles. Este seu primeiro romance, cujos direitos estão vendidos para 42 países, está a ser adaptado ao cinema, numa grande produção americana. Vive em Londres. Reino Unido.

Stella Grant gosta de sentir que está tudo sob controlo - embora os seus problemas pulmonares a obriguem a permanecer no hospital durante a maior parte da sua vida. Ela sofre de fibrose quística, uma doença que impede os pulmões de funcionarem normalmente. De momento, o que a jovem Stella tem de controlar, com a máxima atenção, é a distância que a separa de uma pessoa ou de uma coisa de forma a prevenir infecções que ponham em risco a possibilidade de um transplante pulmonar. Ela tem de se manter a um metro e oitenta - três passos - de distância dos outros. É o limite.
A única coisa que Will Newman quer ter sob controlo é a sua saída do hospital. Ele não quer saber de
tratamentos nem de novos testes clínicos. Dentro de dias fará dezoito anos e poderá, ele próprio, desligar-se de todas estas máquinas, e partir para conhecer o mundo que há para lá dos hospitais.
Will é exactamente alguém de quem Stella deve manter-se à distância. Mas, de súbito, um metro e oitenta não é uma distância segura. Parece castigo. E se eles pudessem recuperar um pouco do espaço que os pulmões de ambos lhes roubaram? Será o espaço de um metro e oitenta entre eles tão perigoso assim já que a essa distância os seus corações pulam de alegria?

Rachael Lippincott nasceu em Filadélfia e cresceu em Bucks County, na Pensilvânia. Possui um bacharelato em Língua Inglesa pela Universidade de Pittsburgh. Atualmente divide o seu tempo entre a escrita e a gestão de um restaurante ambulante com o marido.
Mikki Daughtry é natural de Atlanta, Georgia. Estudou Artes Dramáticas na Brenau University. É autora de argumentos para cinema. Vive em Los Angeles.
Tobias Iaconis nasceu na Alemanha, filho de pai norte-americano e mãe alemã. Estudou Literatura Inglesa no Haverford College, em Filadélfia. Trabalha como argumentista para cinema em Los Angeles, onde mora com a mulher e o filho.

Para mais informações, consulte o site da Editorial Presença aqui.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Y - O Último Homem: A Senha (Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.)

Continua a viagem em direcção a São Francisco e à melhor hipótese que têm de começar a perceber o que aconteceu, mas, mais uma vez, impõe-se um desvio. E desta vez, devido à sua impulsividade e a sua tendência para se meter em problemas, Yorick tem mesmo de ficar para trás aos cuidados de uma outra agente do Círculo Culper. Só que a agente 711 não é tão inofensiva como parece. E Yorick está prestes a começar a ver a sua impetuosidade de uma maneira completamente diferente...
Ao quatro volume da série, seria de esperar que, por esta altura, as linhas gerais do enredo já fossem bastante claras. Mas uma das qualidades desta série é a capacidade quase inesgotável de surpreender. Aqui, embora a progressão seja relativamente curta em termos de aproximação ao destino, há todo um conjunto de novos desenvolvimentos, que vão desde o passado de Yorick à sua inesperadamente vulnerável visão do futuro - que passa por uma epifania... bem, chamemos-lhe arrancada a ferros. Yorick, impulsivo e aparentemente infantil, tem afinal motivos bem mais pungentes para os seus comportamentos. E a forma como esta verdade vem à tona forma um episódio todo ele bastante memorável.
Outro aspecto a destacar deste volume é que, embora as grandes respostas para o problema global (afinal, o que é que causou a praga?) continuem bem longe, já para os diferentes elementos que o compõem há bastantes desenvolvimentos. Do volume anterior, vem uma esperança que se concretiza. Do Círculo Culper, surge o vislumbre de uma maior complexidade. E, à medida que os protagonistas avançam na sua viagem, surge também uma visão mais ampla das consequências da praga a um nível mais global.
Mas importa, ainda e sempre, realçar a faceta mais pessoal, que neste livro se torna particularmente vincada, com o passado de Yorick e o seu presente estado mental a ocuparem o primeiro plano. Há, aliás, algo de particularmente notável neste aspecto: é que além do inesperado da situação, já que nada na história até aqui implicava uma possível manifestação do "espírito" de Sade, a própria arte parece ajustar-se a este novo elemento, com tons mais escuros e um ambiente vagamente cruel e vagamente sedutor, mas acima de tudo profundamente sombrio, a abrir as portas da mente do protagonista.
Sempre surpreendente e com alguns momentos absolutamente notáveis, trata-se, pois, de um belíssimo desenvolvimento para uma história cujas expectativas são já sempre muito elevadas. Intenso, viciante e, como sempre, cheio de surpresas, mais um livro que não posso deixar de recomendar.

Autores: Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 30 de abril de 2019

Dois Guardam Um Segredo (Karen M. McManus)

Ellery e Ezra Corcoran acabam de se mudar para Echo Ridge, na sequência de um incidente com a mãe, quando se deparam com a repetição de uma velha história. Em tempos, a irmã gémea da mãe desapareceu misteriosamente. Alguns anos depois, foi a vez de uma nova rainha do baile. E agora alguém parece querer recriar o passado. Ameaças sinistras começam a aparecer em locais públicos e, imediatamente, todas as suspeitas se voltam para Malcolm, principal suspeito (mas nunca condenado) do crime anterior. E, como se as coisas ainda não estivessem suficientemente tenebrosas, eis que outra rapariga desaparece. Ellery, fascinada desde sempre com este tipo de casos, decide investigar por conta própria, até porque o seu amigo está sob suspeita. Mas será que a sua mente de investigadora é tão boa como ela pensa?
Contada dos pontos de vista de Malcolm e Ellery, esta é uma história com muitas qualidades em comum com o anterior Um de Nós Mente. Também aqui o mistério domina, os suspeitos são vários e os motivos diversos e a história progride de revelação em revelação para culminar num final bastante inesperado. Mas, além disso, ao alternar pontos de vista entre uma potencial vítima e um potencial suspeito, a autora consegue acrescentar ao mistério um toque pessoal: dos sentimentos incipientes que começam a surgir entre os dois ao equilíbrio entre dúvida e confiança, há também muita emoção a pairar no ar - entre os protagonistas e não só.
Também particularmente interessante é que cada narrador tem uma voz distinta, o que se torna particularmente notável tendo em conta que Ellery é a aspirante a criminologista que tudo analisa e tudo quer descobrir e Malcolm é alguém que já viu a suspeita no passado e que, por isso, só quer que tudo desapareça. Esta maior proximidade faz com que as coisas ganhem um maior impacto, com aspectos como o passado da mãe de Ellery e as suspeitas que sempre pesaram sobre Declan a influenciarem as escolhas dos protagonistas. Além, claro, de contribuir para adensar o mistério: pois o que eles (ainda) não sabem, também não podem contar.
A própria escrita parece ajustar-se à voz dos protagonistas, num registo relativamente simples, mas que põe em evidência o impacto dos elementos centrais. Ellery analisa tudo, mas as relações pessoais não deixam por isso de ser complicadas e há uns quantos momentos de emoção bastante marcantes. Já entre Malcolm e Declan há uma tensão evidente, que se prolonga para os próprios pensamentos do primeiro. E, à medida que as coisas se aproximam do fim, também a tensão vai aumentando, o que faz com que o final, além de surpreendente em si mesmo, tenha um inesperado impacto emocional, principalmente - mas não só - do lado de Malcolm.
Intenso, cheio de surpresas e com um equilíbrio bastante eficaz entre o percurso pessoal dos protagonistas (que são, afinal, adolescentes, com tudo o que isso implica) e o mistério maior que paira sobre Echo Ridge, trata-se, pois, de uma leitura que mistura as medidas certas de leveza e de tensão para proporcionar uma leitura viciante e surpreendente. Memorável , em suma.

Autora: Karen M. McManus
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Pendragon (James Wilde)

O salvador por que todos esperam ainda não chegou, mas há poderes em movimento. E quando seis batedores romanos são brutalmente assassinados, começam a levantar-se suspeitas. Lucanus, líder entre os Arcani, batedores de elite e leais como nenhuns outros, dá por si no meio de coisas que não consegue entender. Pois há uma profecia que fala de um rei que está para vir e deve ser ele o protetor do sangue real. O mesmo sangue que corre nas veias de Marcus, uma criança a quem Lucanus ama como se fosse seu filho e que está no centro de demasiadas conspirações. Para o proteger, Lucanus terá de deixar para trás a sua antiga vida... para se tornar no Pendragon, um líder como o mundo nunca antes viu.
Tendo em conta o título deste livro, é de esperar que se trate de uma reconstrução do mito do rei Artur e, de certa forma, é disso que se trata. Mas não da história de Artur. Uma história anterior, sobre os primórdios da lenda e os antecessores do grande rei. Isto faz parte do que torna o livro tão interessante: é uma história arturiana, mas não sobre Artur. Tem as suas próprias personagens, a sua própria identidade, os seus próprios perigos, profecias, batalhas e perda. É uma história completa.
É também um livro bastante memorável, e por várias razões. Sendo a maior, como é evidente, Lucanus. Líder nato, mas algo relutante, trata-se de um homem sábio, de um amigo leal, de um companheiro dedicado, mas vulnerável, atormentado, tão heróico nas falhas como nas qualidades. Um protagonista complexo, como deve ser, principalmente tendo em conta que esta história envolve grandes conflitos e uma luta pela sobrevivência.
Mas, para além das batalhas, da intriga e das profecias, há também um percurso mais pessoal. A transformação de Lucanus no Pendragon é a realização de um destino, e cada acontecimento faz sentido. Mas há pequenas coisas que são igualmente impressionantes. A relação de Lucanus com Catia, e lealdade e amizade no seio do seu grupo de Arcani, até mesmo as escolhas feitas mais com o coração do que com a cabeça por muitas das personagens. Há um crescendo de tensão ao longo de todo o livro, mas há também muitos grandes momentos que só parecem importar aos envolvidos. E isto lembra-nos que estas personagens são mais do que peças de xadrez: são humanas.
É o início de uma série, e por isso faz sentido também que haja muitas perguntas sem resposta. Mas o final parece dar-se no momento certo, como se fosse o fim de uma era a abrir lugar à iminência de uma nova aurora. Há muito mais coisas no destino destas personagens, isso é evidente: mas a história até aqui é já quase um ciclo completo.
Com um protagonista notável, um enredo cheio de surpresas e de reviravoltas e um cenário onde a magia - e a crença - moldam os caminhos de gerações, trata-se de um início bastante brilhante para uma série que transborda de potencial. Intenso, cheio de surpresas e com um conjunto memorável de personagens, um livro que recomendo sem reservas.

Título: Pendragon
Autor: James Wilde
Origem: Recebido para crítica

domingo, 28 de abril de 2019

Resumo: A Poesia em 2012

Resumir um ano inteiro de poesia pode parecer um desafio tão difícil, já que, mesmo cingindo a selecção ao material publicado em livros e revistas, a produção total não será assim tão curta. Mas há também algo de cativante na ideia de, através de um único livro, ficar com uma visão geral da poesia escrita num ano em específico. É esta ideia, aliás, que torna estes livros tão interessantes: uma sensação de abrangência e de unidade, mesmo englobando autores muito diferentes.
O critério parece ser simples: escolher os melhores do ano. E talvez por isso haja autores com vários poemas presentes neste livro enquanto outros surgem de forma mais discreta. Ainda assim, a grande qualidade é uma e evidente: a de permitir conhecer autores contemporâneos que talvez, de outra forma, não nos chamassem a atenção. 
Tudo o resto varia. Há estilos diferentes, temas distintos e formas de escrever capazes de agradar a diferentes leitores. Alguns poemas ficarão na memória. Outros talvez não nos digam tanto. Mas a imagem global que fica é positiva, e por duas razões: por transmitir a imagem de que houve muita (boa) poesia a ser produzida no ano a que este livro diz respeito, e porque permite chegar ao fim com uma lista de autores cuja obra interessa descobrir mais a fundo.
Somadas as partes, fica a impressão de uma antologia interessante, capaz de abranger estilos e autores diferentes, criando uma selecção abrangente, mas que funciona, ainda assim, como um todo coeso. Cativante, completa e, a espaços, memorável, uma boa leitura.

Título: Resumo: A Poesia em 2012
Origem: Aquisição pessoal

sábado, 27 de abril de 2019

Truques Sombrios (Linda Chapman)

Maia, Sita, Lottie e Ionie já venceram várias Sombras e estão cada vez melhores a usar a sua magia, mas continuam sem saber quem é a pessoa que anda a usar magia negra para causar problemas. E, por mais que tentem descobrir, as pistas não parecem levar a lado nenhum. O que ainda não sabem é que o perigo está mais perto do que imaginam e, embora não pareça haver nenhuma Sombra por perto, há uma influência estranha a gerar conflitos entre elas. Para resolver a situação, as quatro amigas terão de se agarrar bem aos seus Animais Estrela e de superar a influência da magia negra. Mas conseguirão dar a volta a uma inimiga que as enganou tão bem?
Quarto volume de uma série em que cada história é relativamente simples, mas onde há também pequenos pormenores a surpreender a cada nova reviravolta, este é, finalmente, o livro onde tudo atinge a conclusão que se esperava - ainda que não um fim definitivo para a série. E, sendo certo que esta conclusão não é propriamente inesperada, já que havia muitas pistas nos livros anteriores a apontar para a identidade da grande inimiga, não deixa, ainda assim, de ser um final adequado para esta linha da história. Sim, era fácil adivinhar quem era - mas a forma como as amigas chegam lá e como resolvem a situação? Bem, essa já não é assim tão previsível.
Claro que importa sempre lembrar o público-alvo destes livros, já que, sendo destinados aos mais novos, a simplicidade da escrita e do enredo faz todo o sentido. Mas não deixa de sobressair também que, desta relativa simplicidade, emerge também uma certa envolvência, além de uma mensagem positiva e importante para todas as idades: a do valor da amizade. Por isso, mesmo não sendo um livro particularmente complexo, é perfeitamente capaz de cativar leitores mais crescidos com a sua história de magia e de amizade.
E há ainda as ilustrações, bonitas, expressivas e que acrescentam ainda um pouco mais de... bem, de magia à história. Ter uma imagem das quatro amigas, e principalmente dos seus Animais Estrela, cria uma maior sensação de proximidade, fazendo com que as emoções que vão surgindo nos grandes momentos do enredo venham também à tona com mais facilidade. Além do simples mas sempre pertinente facto de tornarem o livro mais bonito.
Simples mas enternecedor, com uma mensagem positiva e uma história cheia de magia e de aventura, trata-se, pois, de um livro cativante para leitores de todas as idades. E de uma série para continuar a acompanhar.

Autora: Linda Chapman
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Y - O Último Homem: Um Pequeno Passo (Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.)

O facto de ser o último homem na Terra fez de Yorick Brown alguém altamente procurado, e isso é tudo menos bom. Depois de ter escapado por pouco às Filhas da Amazonas, continua a sua viagem na companhia de uma agente secreta, da cientista cuja pesquisa precisam de recuperar e do seu macaco. Mas o seu caminho está prestes a sofrer uma nova paragem imprevista, com a entrada em cena de uma agente russa que lhes anuncia a chegada iminente de uma cápsula vinda do espaço. Yorick pode estar prestes a deixar de ser o último homem... e a ideia agrada-lhe bastante.
Seria, talvez, de esperar que ao terceiro volume não houvesse muito de novo que se pudesse dizer sem contar demasiado da história. E, de facto, uma das grandes qualidades desta série são as surpresas, pelo que, nesse aspecto, há muito de bom que tem de ficar por dizer. Mas os pontos fortes deste volume são essencialmente os mesmos: a história surpreendente, as personagens marcantes e a arte, com especial destaque para a expressividade das personagens e para o contraste entre os diferentes elementos.
Sendo um percurso de surpresas, uma coisa é certa: haverá sempre novos intervenientes a entrar em cena nos momentos mais inesperados. Neste caso, destacam-se a agente russa e a intervenção das israelitas. Isto para reforçar dois aspectos: o tal contraste visual, com a uniformidade do grupo israelita a contrastar com o ar algo desencontrado (perfeito para um grupo de personagens que anda a modos que em fuga) das gentes de Yorick; e a ideia das possíveis movimentações de poderes num mundo assolado por uma catástrofe global. Alter é, aliás, a imagem perfeita disso, com a sua visão de guerras necessárias e de união através da inimizade.
Mas voltando às personagens. Há uma espécie de crescimento a acontecer em todos os principais intervenientes, mas é em Yorick que este se torna mais evidente. Continua a estar bem presente o seu peculiar e algo inoportuno sentido de humor, mas a delicada situação em que se encontra começa realmente a influenciá-lo. Fica na memória, por isso, o contraste entre as suas tiradas humorísticas e os rasgos de introspecção, de emoção e mesmo os invulgares gestos heróicos.
Mais que à altura das expectativas e com a mesma deliciosa mistura de humor, acção e um toque de emoção, trata-se, pois, de um belíssimo acréscimo a uma história que se torna cada vez mais viciante. Intenso, surpreendente e com alguns rasgos particularmente memoráveis, um livro que se recomenda e uma série para continuar a acompanhar.

Autores: Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.
Origem: Aquisição pessoal

quarta-feira, 24 de abril de 2019

O Mundo à Beira de um Ataque de Nervos (Matt Haig)

Vivemos num mundo ansioso, onde as notícias nos bombardeiam com motivos de preocupação, a necessidade de pertencer ou de corresponder às expectativas se sobrepõe à magia de quem realmente somos e onde pequenas preocupações se transformaram numa descomunal carga de stress. E, se é o próprio mundo que nos deixa ansiosos, não surpreende assim tanto que a ansiedade seja uma das doenças do século. Baseando-se na sua experiência pessoal, mas com um olhar bastante certeiro sobre o mundo, Matt Haig traça neste livro algo que é, ao mesmo tempo, um guia e um ponto de identificação.
Muito à semelhança do que acontece no igualmente brilhante Razões para Viver, uma das primeiras coisas a impressionar é a abertura e a simplicidade com que o autor fala das suas experiências. Não deveria ser um acto de coragem (esta é, aliás, uma das ideias que o autor explora neste livro), mas, no mundo em que vivemos, cheio de expectativas e de julgamentos, a verdade é que falar dos próprios problemas ainda o é. E esta abertura tem a capacidade de gerar compreensão, não só pela harmonia da escrita, mas pela sensação de que, pelo menos nalgumas das coisas que o autor descreve, podíamos muito bem ser nós.
A própria estrutura do livro tem também o condão de facilitar esta sensação de compreensão, já que os textos curtos, as listas, a frase certeira que nos vai direitinha ao coração, tornam a leitura muitíssimo acessível e realçam a importância do essencial. Afinal, é de um mundo sobrecarregado que falamos, não é? Faz, por isso, todo o sentido esta redução à simplicidade, que reforça a ideia de que o essencial não tem de ser muito, tem de ser o que conta para nós. E, além disso, se os textos são curtos, aquela frase marcante acaba também por sobressair mais. E por se entranhar na memória.
Embora possa ser classificado como tal, não é propriamente o habitual livro de auto-ajuda. E por boas razões. Primeiro, não cai nunca na tentação de fazer com que as coisas pareçam demasiado fáceis e muito menos na de exercer pressão (no sentido às vezes tão recorrente de "a vida só não é melhor porque não faz mais por isso"). A base vem da experiência do autor, e essa experiência implica momentos sombrios, momentos em que a vida parece demasiado pesada... E só quem nunca passou por lá pode achar que basta querer. O caminho não é fácil, não, e esta é uma ideia estranhamente reconfortante, pois afasta as culpas de um possível fracasso. O que acaba por ser também mais um dos valiosos efeitos deste livro. Esse e o de nos lembrar a magia de ser simplesmente humano, de estar simplesmente vivo.
Trata-se, pois, de um daqueles livros que deixarão uma marca diferente em cada leitor, pois, da visão pessoal do autor, emerge um terreno comum e uma sensação de compreensão que às vezes falha naquilo que, parafraseando o autor, romanticamente chamamos o mundo real. E, com a sua simplicidade, com a maravilhosa beleza das palavras e com a sempre encantadora sensação de encontrar um bocadinho de nós mesmos escondido entre estas páginas, trata-se de um livro que nos fala ao coração. É isso que o torna mágico. É isso que o torna brilhante.

Autor: Matt Haig
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 23 de abril de 2019

Um Fio de Sangue (Ann Yeti)

Joana apaixonou-se por ele assim que o viu, mas não sabe nada a seu respeito. Tomás vive na sombra de um desgosto passado e, por isso, encontra no sexo desenfreado a gratificação necessária, mas vê nela algo mais do que um encontro de uma noite. E por isso, quando finalmente se conhecem, nenhum deles está propriamente disposto a mergulhar de cabeça. Há, ainda assim, algo que os atrai e, por isso, sob condições específicas, acabam por partilhar algumas noites. Mas, quando a relação começa a aprofundar-se, também os fantasmas do passado vêm à tona... e o que podia ser um amor descomplicado transforma-se num jogo de sombras.
Centrado acima de tudo no romance, mas com um duo de protagonistas bastante complicado (e, no caso de Tomás, com um passado difícil), este é um livro que facilmente poderia ter sido mais extenso. É, aliás, este o único ponto negativo a sobressair da leitura: a ideia de que a história, principalmente no que diz respeito ao passado, podia ter sido um pouco mais aprofundada. Ainda assim, é interessante notar que, apesar de uma certa curiosidade em ver mais a fundo certas facetas da vida das personagens, não falta à história nada de essencial. O romance desenvolve-se de forma algo rápida, mas isso faz sentido tendo em conta a posição dos protagonistas. E, quanto ao resto... bem, o resto tem um equilíbrio surpreendente eficaz, com os momentos sensuais e a partilha de emoções a contrastarem vivamente com um final absolutamente inesperado.
Também na escrita este equilíbrio parece estar presente, havendo, apesar da relativa brevidade, espaço para momentos de introspecção por parte das personagens, para um ou outro rasgo de humor e, acima de tudo, para uma harmonia que vem não só da fluidez das palavras, mas principalmente do crescendo de intensidade que parece definir o ritmo da história.
E depois temos o título, que desde cedo dá a entender que a história não vai seguir o caminho linear que inicialmente imaginamos. O que tem, afinal, um fio de sangue a ver com uma história de descoberta do amor? Pois, essa pergunta sempre presente é também parte do que torna a leitura tão viciante, pois alimenta a curiosidade em saber mais. E quando a resposta chega... é, no mínimo, muito surpreendente.
Relativamente simples, mas cheio de emoção e de intensidade, trata-se, pois, de um livro que se lê de uma assentada, que surpreende em todos os momentos certos e que, com a sua mistura de amor arrebatado e de sombras passadas que persistem em regressar, cativa desde o início ao fim. Uma boa história, portanto, e um boa leitura.

Autora: Ann Yeti
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Levaram Annie Thorne (C. J. Tudor)

Regressar ao lugar onde cresceu e onde deixou tantos fantasmas não é propriamente o plano de sonho de Joe Thorne, mas às vezes a vida não dá alternativas. Perseguido pelas dívidas e atraído por um misterioso email que lhe traz memórias do passado, Joe volta agora como professor à escola que frequentou na juventude. O objectivo é em parte fugir, em parte encontrar uma solução para os seus problemas e em parte perceber o que se passa. Pois o que o email lhe disse é verdade: está a acontecer outra vez. O mesmo que aconteceu com a irmã que, quando tinha oito anos, desapareceu e voltou... diferente.
Provavelmente a maior qualidade deste livro (e qualidades não lhe faltam) é a aura de mistério que parece englobar todo o enredo. Tudo começa com um cenário macabro, o acontecimento na raiz do regresso de Joe. Mas, a partir daí, e embora haja espaço mais que suficiente para desenvolvimentos sinistros, grandes confrontos e até um ou outro rasgo de emoções positivas, tudo parece envolto numa bruma indizível. Na base, está o enigma que se esconde nas minas e que, embora sempre presente, nunca cai numa explicação limpa e perfeita, deixando o mistério a pairar na imaginação do leitor.
É impossível (principalmente se, como eu, o tiverem lido há pouco tempo) não sentir também um certo paralelismo com o livro Samitério de Animais, de Stephen King. Há uma certa proximidade entre as entidades centrais dos dois livros. Mas, e também isto é curioso, a sensação que fica não é de uma semelhança exagerada, mas antes como que de uma fonte comum que se ramifica em duas correntes distintas. A semelhança está lá, mas este livro tem a sua própria identidade: nas personagens, no desenvolvimento da história e na forma como tudo termina. Sendo que o ponto comum é o mistério dominante - que é, obviamente, uma qualidade.
Mas voltando à história e às suas qualidades, importa necessariamente destacar o protagonista. Joe Thorne regressa a Arnhill como que disposto a enfrentar o passado, mas isso não faz necessariamente dele um herói. Muito pelo contrário: vem com um passado de fracassos às costas e também as memórias da sua história ali são de quase tudo menos bondade. Joe não é uma personagem perfeita (e ainda bem), mas é uma personagem perfeitamente construída, e o seu percurso, não sendo propriamente uma jornada heróica, mostra, apesar de tudo, um coração no sítio certo ante circunstâncias difíceis, o que faz dele um protagonista particularmente memorável.
Nem tudo tem respostas claras e nem tudo termina de forma clara e definitiva. E, curiosamente, este final meio aberto, que encerra as questões necessárias, deixando a pairar a presença maior que sempre esteve, afinal, na base de todo o enredo, é absolutamente adequado. Além disso, tendo em conta o evoluir da história e o registo da própria escrita, onde as introspecções sombrias contrastam com os diálogos directos e um estranhamente delicioso humor sarcástico, este final ligeiramente ambíguo ajusta-se na perfeição à aura que envolveu todo o percurso.
Que mais dizer, então, sobre este livro? Que prende desde as primeiras páginas e que, com o seu protagonista estranhamente cativante e a sua história de mistérios e surpresas, não há como o largar antes do fim. Que fica na memória, tanto pela história que conta como pela visão do mistério que se insinua. E que facilmente se entranha no coração de quem lê, tanto pelas vulnerabilidades das personagens como pela sensação de algo mais vasto que nunca deixa de pairar sobre a narrativa. Se recomendo este livro? Recomendo, pois. Absolutamente e sem reservas.

Autora: C. J. Tudor
Origem: Recebido para crítica