domingo, 14 de agosto de 2022

O Apelo (Janice Hallett)

Duas estudantes de direito recebem do seu mentor um conjunto de correspondência alegadamente associado a um possível caso. E nada mais. Nem um contexto prévio, nem qualquer ligação aos possíveis crimes envolvidos ou a mais ínfima informação sobre os envolvidos. Porquê? Porque Roderick Tanner acredita que é essa a melhor forma de gerar uma nova perspetiva sobre o caso - e talvez descobrir o que falta para repor a verdade. É neste cenário que a história começa a desenrolar-se, com a correspondência a revelar relações, personalidades, sombras de tragédia e de mistério. Há um grupo de teatro, uma criança gravemente doente e uma angariação de fundos para um tratamento experimental. E há também muitas mentiras. Tantas que a revelação da verdade pode ser fatal.
Parte do que torna este livro tão viciante - e oh, se é viciante - é a sua estrutura singular. Todo ele é composto por documentos: transcrições de interrogatórios, trocas de mensagens, listas, um ou outro bilhete e muitos, muitos e-mails. E nada mais. É a partir desta abundante correspondência que a história e os seus enigmas vão sendo revelados, que as reviravoltas ganham forma, que as múltiplas facetas das personagens se manifestam. E acompanhar esta teia irresistivelmente complexa facilmente se torna absurdamente viciante.
Outro aspeto particularmente forte prende-se com o equilíbrio entre a leveza da leitura, resultante em grande medida do registo epistolar, e a abundância de temas pesados que a envolvem. Sim, o cerne da história pode estar na descoberta do responsável por um crime, mas há muito mais para além disso. Há o espírito de comunidade, explorado na mobilização em auxílio de uma criança doente, e a forma como esse espírito pode assumir contornos mais ambíguos, na forma de encobrimentos e de rumores. Há o motivo que levou uma das personagens a regressar de África, com um tema particularmente pesado associado a algumas das suas revelações. Há questões de doença mental, visões sobre o funcionamento da justiça e um tipo de intriga que mexe inevitavelmente com as emoções, pois gira em torno da confiança das pessoas. E assim, a história é leve, mas não simples, e tem mais complexidades além do seu mistério central.
Mas, claro, é um mistério. E quanto a esse aspeto, sobressaem duas coisas: a sucessão alucinante de reviravoltas que vai ganhando forma ao longo da correspondência. E as revelações finais, que, além de inesperadas, ganham uma intensidade maior devido à sensação de proximidade anteriormente gerada em relação às personagens. Tal como na vida real, também aqui julgamos conhecer as pessoas. Mas nunca por completo. Nunca.
Viciante, intenso e carregadinho de surpresas, este é um livro em que tudo é singular, desde a estrutura às personagens, sem esquecer a sucessão de revelações. E é isso que o torna tão memorável: que tudo encaixa nos sítios certos, nas medidas certas, para dar forma a uma viagem absolutamente imprevisível. Muito, muito bom.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Assombro (Richard Powers)

Na sua profissão de astrobiólogo, Theo Byrne está habituado a formular teorias complexas sobre a possibilidade de existir vida noutros planetas. Mas os problemas que o assombram estão bem mais perto do que isso. Viúvo e a ter de lidar com a sua própria perda, Theo tem também de encontrar uma forma de lidar com o filho. Robin, de nove anos, é uma criança diferente, que vê o mundo como mais ninguém vê, mas que tem também grandes dificuldades em controlar as suas emoções. E, após alguns incidentes, Theo está a ser pressionado a deixar que o seu filho seja medicado, mas ele quer encontrar uma alternativa. Será possível encontrar uma forma de domar a mente brilhante de Robin sem apagar quem ele é? E valerá a pena experimentar algo sem resultados provados, mas que os pode levar a ambos para mais perto do que amam? Uma coisa é certa: Theo não tem muito a perder. E talvez Robin tenha tudo a ganhar.
Tudo neste livro é absurdamente prodigioso - basta isto para o descrever, na verdade. Da escrita à estrutura, passando pelos desenvolvimentos da própria história e pelos paralelismos evidentes - e certamente aterradores - com a nossa realidade, sem esquecer a profundíssima emoção que transborda até dos mais inesperados momentos, tudo neste livro é simplesmente prodigioso. Beleza pura. Emoção pura. E pura devastação.
E, tendo isto em conta, talvez seja bom salientar que Assombro é basicamente o título perfeito para esta história, porque, se olharmos bem, toda ela gira em torno dos vários motivos que a vida nos dá para o espanto. A mistura de inocência, brilhantismo e dor de Robin lembra-nos que há perdas que não se ultrapassam, que todos travamos as nossas batalhas interiores, que ser diferente não é ser inconsciente e que tudo na vida tem um preço. A posição devastadora de Theo lembra-nos as alturas na vida em que nos sentimos impotentes, o desconcerto ante aquilo de que o mundo é capaz e o assombro ante a beleza inesperada das coisas mais simples. E o caminho percorrido por ambos... bem, esse leva-nos de assombro em assombro, nas palavras, nas memórias, no confronto com o absurdo do mundo e no infinito inefável da imaginação.
E a própria escrita realça tudo isto, com o seu equilíbrio entre episódios curtos, mas de uma complexidade profunda, com a sua voz singular, mas absurdamente certeira, com a profusão de frases memoráveis que brotam de onde menos se espera e com a forma como cada presença e cada pensamento parecem repercutir um mundo mais próximo do nosso do que parece confortável.
Termino com uma repetição, porque tudo neste livro é realmente prodigioso. Prodigioso e devastador na sua intensidade emocional e na forma como conjuga beleza e angústia, esperança e desespero, assombro ante o esplendor da vida e assombro ante a capacidade para a crueldade do ser humano. Tudo é brilhante neste livro. Tudo é inesquecível.

domingo, 7 de agosto de 2022

A Semente Má (Jory John e Pete Oswald)

Era uma vez uma semente má. Muito má. E, por onde quer que passasse, todos a reconheciam como tal. Porquê? Bem, porque fazia muitas maldades. Mas o que ninguém perguntava - nem a própria semente - era porquê. Porque era a semente má tão má? Bem, o passado tinha-lhe feito coisas que a transformaram. Mas o que mudou para pior também pode mudar para melhor. E, às vezes, basta uma oportunidade para começar.
Um dos aspetos mais impressionantes deste pequeno livro é a forma como as questões que suscita têm tanta importância para o seu público-alvo como para os leitores de todas as idades seguintes. Bem e mal nem sempre são facilmente distinguíveis. Muitas vezes, as más ações - e sim, estas podem ser fáceis de reconhecer - têm motivos mais complexos do que o ser mau apenas porque sim. Os traumas do passado deixam marcas e repercutem-se nas atitudes. E há sempre a possibilidade de mudar: basta uma oportunidade e quere fazê-lo.
E tudo isto está presente nas quarenta páginas deste livro? Sim, e com uma precisão muitíssimo certeira. A história da semente má é muito simples e breve, como seria, aliás, de esperar, tendo em conta o género do livro, mas tem tudo nas medidas certas. Uma mensagem forte, uma história cativante, um equilíbrio perfeito entre leveza e emoção e muita vida a transbordar das páginas.
E, claro, muita dessa vida vem também do aspeto visual, num livro em que as ilustrações são particularmente deliciosas e têm uma expressividade que fica na memória, principalmente tendo em conta a natureza das personagens. Sim, porque a semente má é... bem, uma semente, mas é também uma semente muito expressiva.
Mensagem, ilustrações e história: tudo neste livro converge para um equilíbrio particularmente eficaz. E que transcende o âmbito de um livro infantil, pois dá-nos a todos, crianças e adultos, muito material para reflexão sobre o que somos e o que queremos ser na vida. Muito bom.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

A Vingança do Conde Skarbek (Yves Sente e Grzegorz Rosinski)

A chegada de um conde polaco a Paris começa por despertar curiosidade na sociedade, em parte devido ao seu aspeto misterioso e estranho. Mas quando se espalha a notícia de que o homem tem um interesse particular por um pintor que morreu prematuramente e cujos quadros ficaram nas mãos de um homem sem escrúpulos, a curiosidade torna-se apreensão. E o conde Skarbek não tarda a justificar esses receios. Movendo cordelinhos no sítio certo, desencadeia um processo contra o seu arqui-inimigo. Mas o processo que devia ser a revelação da verdade - e a apoteose de uma vingança magistral - é apenas o início do desfazer de uma longa e complexa teia de mentiras.
A ideia de um conde misterioso com um ajuste de contas a executar devido a injustiças passadas soa vagamente familiar - pelo menos para quem conhecer a obra de Alexandre Dumas. E, antes de mais, importa realçar que esse paralelismo é premeditado. Como bem demonstram certos desenvolvimentos da fase final que não convém aqui descrever. Mas este paralelismo merece destaque. Porquê? Porque quem gostou do outro conde, também vai certamente apreciar a história deste.
Mas olhemos então para a história de Skarbek. E, neste livro, é inevitável destacar dois aspetos, um na arte e outro na história. Na arte, o que sobressai acima de tudo é o equilíbrio perfeito entre luz e sombra. Há cenários vastos e visões de pormenor, há confrontos de multidões, grandes duelos e momentos de uma vaga introspeção, além, claro, das repercussões de um contexto histórico cuidadosamente refletido nas imagens. Mas, em tudo isto, há contrastes poderosos, traços que se destacam da sombra e luzes que tudo invadem, equilíbrios entre o visto e o insinuado. E isso torna tudo - os cenários, as expressões, as figuras - particularmente marcante.
Quanto à história, sobressai obviamente a sucessão de surpresas. Num enredo que gira todo ele em torno de vinganças e de regressos imprevistos, e de uma mentira tornada verdade e que é imperioso desmentir, é impressionante a quantidade de vezes que este livro nos leva a pensar que já sabemos tudo para depois nos revelar uma nova possibilidade. E sim, isto acontece mesmo até ao final, uma conclusão intensa e suficientemente ambígua (do ponto de visto emocional, não no enredo) para deixar como que um sentimento de pertença para trás.
Visualmente brilhante e com uma história surpreendente em todas as suas facetas, este é um livro que fascina desde a primeira à última página: pelos diálogos, pela visão e sobretudo pela intensidade da história. E, para quem gostou de conhecer um tal conde de Monte Cristo... bem, será certamente recomendável conhecer também o conde Skarbek.

sábado, 30 de julho de 2022

Este Livro é Cinzento (Lindsay Ward)

O cinzento está farto de ser excluído. Só porque não faz parte do arco-íris, isso não significa que tenha de ser visto como aborrecido, mas o que é certo é que as outras cores estão sempre a deixá-lo de fora. Por isso, decidiu escrever um livro. Um livro cinzento, para provar que a sua cor também serve para contar uma história. Só que as outras cores não estão lá muito satisfeitas com isso. E, quando se começam a intrometer no projeto do cinzento, ele começa a sentir-se novamente desprezado... e à beira de uma explosão.
É inevitável que seja a mensagem a sobressair neste livro: temos uma cor que é excluída porque os outros a veem como diferente e, por isso, a deixam de parte ou entendem como negativa. Parece familiar, certo? Mas é interessante como este livro cinzento pode servir de base para múltiplas abordagens: desde logo, a questão de que não há cores menores aproxima-se de um tema muito pertinente na atualidade. Mas as diferentes cores servem também de ponto de partida para uma visão mais estrita - a aplicação das diferentes cores, primárias, secundárias e por aí adiante, ao mundo da arte - e também para uma visão mais ampla, a de que nenhum tipo de exclusão faz sentido. E assim, mais uma vez, é a mensagem que sobressai: em múltiplas facetas, todas elas relevantes.
Quanto à história, é naturalmente muito simples, como seria de esperar, mas também surpreendente. Até porque, de certa forma, acabamos por ter duas histórias: a do cinzento e a que o cinzento quer contar. E embora sejam ambas muito breves, têm ambas os seus momentos singulares e divertidos e um toque de ternura bastante eficaz.
Naturalmente breve, mas bonito e relevante, trata-se, pois, de uma história cheia de matizes - sim, de cinzento e não só - e com uma mensagem muito forte. Capaz de servir de ponto de partida para questões complexas e para transmitir mensagens de igualdade, diversidade e amizade.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Armazém Central: As mulheres | Notre-Dame-des-Lacs (Régis Loisel e Jean-Louis Tripp )

Passou um ano, e ninguém poderia ter imagino que a tranquila Notre-Dame-des-Lacs ia sofrer tantas mudanças em tão pouco tempo - no espaço, nos costumes e até na mentalidade. E as mudanças ainda não acabaram. Agora, com um novo inverno à porta, e tendo os homens voltado a partir, as mulheres veem-se a braços com novas questões. A alegria das mais novas despertou em todas as outras uma mistura de nostalgia e de dúvida capaz de as levar a novos caminhos. Marie está grávida, não sabe quem é o pai... e, ainda assim, espera aceitação, porque a vida é sua e de mais ninguém. Já o padre, em plena crise de fé, tem muito mais para dar do que apenas apoio espiritual. E a aldeia vai mudando. As pessoas vão mudando. E o mundo... o mundo cresce.
Sendo este o último volume da série, é naturalmente de esperar que seja também o das resoluções finais, aquele em que tudo converge e em que o pano desce sobre uma história encerrada. Bem, mas se nos lembrarmos dos volumes anteriores, também sabemos que esta não é uma história que viva apenas de grandes momentos. É, aliás, nas pequenas coisas que está a sua alma. E assim, este volume final confronta-nos com uma certa ambiguidade, em que há resoluções perfeitas e outras que ficam pela sugestão, em que há soluções que parecem, talvez, demasiado simples, mas em que tudo se ajusta à serenidade global. E assim, pode não ser um final estrondoso, mas é um final enternecedor, e reforçado ainda mais pelo delicioso álbum de fotografias no final... que dá um bocadinho da história depois da história.
Importa também referir, naturalmente, que se mantêm todas as qualidades que vinham de trás, com destaque para a ternura e para a expressividade. Toda esta série é visualmente belíssima, mas é na expressividade - e numa expressividade que não se cinge às personagens humanas - que está o fulcro de maior intensidade, independentemente das belas paisagens e do movimento transbordante da dança (que também dão ampla vida a estes livros). Mas é a expressividade, acima de tudo, porque é a expressividade que reflete a ternura. E é a ternura avassaladora desta história que a mantém sempre memorável - mesmo quando os conflitos geram tensões desagradáveis, mesmo quando há decisões difíceis de assimilar, mesmo quando a perda se abate. Há ternura e união e comunidade... e isso é maravilhoso.
Não será, talvez, o livro mais marcante da série, sobretudo devido às já referidas ambiguidades. Mas não deixa de estar à altura da longa viagem e de ser um final perfeitamente adequado. Porquê? Porque, entre o que resolve, o que sugere... o que quase nem insinua... deixa um reflexo perfeito da vida como ela é no mundo real. Nem tudo tem respostas. Nem tudo tem soluções perfeitas. E a vida é feita de pequenas coisas, em Notre-Dame-des-Lacs como noutro sítio qualquer.
É essa a maior beleza desta série - a de como reflete realidades e, ao mesmo tempo, aspirações mais nobres. A de como traça os conflitos do dia a dia e lembra, ao mesmo tempo, o que realmente importa. A de como nos mostra gente perfeitamente normal... e nos faz sonhar com a união dessas pessoas. Vale a pena fazer esta viagem? Vale muito a pena. Só é mesmo pena que fique por aqui.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Moonshine, Vol. 4 - Embarrilado (Brian Azzarello e Eduardo Risso)

Incapaz de controlar aquilo em que se transformou, exceto com recurso ao álcool, Lou Pirlo afoga as suas tristezas num bairro de lata em Cleveland, sem imaginar que aquilo que deixou para trás continua por perto. É que, além da sua nova natureza e dos fantasmas que o acompanhou, também a sua antiga vida de mafioso persiste em assombrá-lo. Entretanto, há um assassino em série à solta - e Lou não tem bem a certeza de que não possa ser ele. Mas, quando o seu caminho se cruza com o de um velho conhecido, novas questões começam a emergir...
Parte do que torna esta série tão intensa - e também parte do que deixa, por vezes, deixa alguma curiosidade insatisfeita - é a velocidade alucinante com que tudo progride. Há sempre algo a acontecer, novas surpresas a emergir, e não há verdadeiramente descanso para nenhuma das personagens. Neste volume, a história divide-se entre os planos de vingança de Tempest e a... bem, falta de planos de Lou. Mas que Lou Pirlo tenha falta de planos não significa que a vida não tenha planos para ele. E a evolução frenética deste volume, com o poderoso crescendo de intensidade da fase final, é prova disso.
Outro ponto interessante é o persistente entrelaçado de crime e horror, que espalha enigmas por ambas as facetas ao mesmo tempo que levanta novas perguntas para cada resposta dada. Lou continua tão perdido em relação àquilo que é como quando a mudança aconteceu. E, ainda assim, a história vai muito além das suas disputas interiores. Fica, aliás, uma certa curiosidade em conhecer um pouco mais desta faceta, pois o cenário global acaba por fazer com que passe, por vezes, para segundo plano. Ainda assim, quando se manifesta, fá-lo com a máxima intensidade... e nos momentos mais delicados.
Finalmente, importa referir o que é, provavelmente, o traço visual mais marcante: os contrastes de cores e de expressões. É como se o cenário se ajustasse aos ritmos da ação e dos estados de espírito, com a luz dos dias e a escuridão das noites a acompanhar as diferentes vertentes da história. Há, aliás, um contraste particularmente interessante: o de uma decisão de uma das personagens que não é realmente mostrada na sua execução, mas que transparece das expressões de outras personagens.
Deixa a ligeira impressão de que poderia ser uma história um pouco mais longa. Mas não lhe faltam, ainda assim, qualidades: intensidade, ritmo, expressividade e mistério. E basta isso - aliás, é mais do que suficiente - para que valha sempre a pena regressar a esta série. Onde o mistério persiste no natural e no sobrenatural.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

As Musas (Alex Michaelides)

Para Mariana, regressar a Cambridge só pode ser penoso, pois tudo lhe recorda o amor que perdeu. Mas não tem propriamente alternativa, pois a melhor amiga da sobrinha foi assassinada e pede-lhe que a vá apoiar. E assim que chega, não tem tanto tempo como julgava para lidar com as memórias. O caso é desconcertante, a morte foi brutal e há um óbvio suspeito que todos parecem ignorar. Mariana está convencida de que Edward Fosca, um professor com um óbvio grupo de favoritas, foi o assassino, apesar de ter um álibi para o momento do crime. E, já que ninguém lhe dá ouvidos, terá de ser Mariana a investigar. Mas nada naquela situação é normal. Há contornos rituais e ligações secretas que não podem deixar de desconcertar Mariana. E a morte da amiga de Zoe é, afinal, apenas o início...
Com capítulos curtos e uma história carregada de enigmas, este é um livro que facilmente se torna viciante, não só pela força do mistério, mas pela forma como a teia se vai entrelaçando no passado da protagonista. Na verdade, são tantos os fios enredados que há certos aspetos que acabam por passar para segundo plano com o evoluir do enredo, deixando, a espaços, uma ligeira curiosidade insatisfeita. Mas, mais do que as perguntas sem resposta, o que sobressai é, acima de tudo a intensidade. E é a intensidade que prende, da primeira à última página.
Também a construção das personagens tem vários aspetos a destacar, sobretudo na fase final, com as grandes reviravoltas, mas também com a evolução que vai abrindo caminho para essas surpresas. A relação de Mariana e Sebastian, as sombras do passado que se vão insinuando, confere à história um tom de melancolia que torna os desenvolvimentos finais mais chocantes. Já o percurso dos homens da história - Henry, Fosca, Fred, Morris - faz com que, apesar das convicções de Mariana, haja múltiplos suspeitos viáveis e gera momentos de tensão particularmente fortes e também rasgos de inocência surpreendentemente ternos.
Finalmente, e um pouco à semelhança do livro anterior do autor (com o qual, já agora, existem relações discretas, mas claras), importa salientar os laços com o mundo clássico, agora com os mistérios de Elêusis, a tragédia grega e a deusa Perséfone. São elementos que acrescentam complexidade ao livro, além de adensarem o mistério. E que, embora também desenvolvidos de forma discreta, são também um especial ponto de interesse pela relação que têm com o percurso da protagonista.
Ligeiramente apressado, por vezes, mas muito intenso e cativante, trata-se, em suma, de um livro viciante, carregado de mistério e de melancolia e capaz de surpreender em todas as suas facetas. Vale bem a pena, portanto.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

...como que lisboandando (Fernando Machado Antunes)

As cidades têm vida. Têm a vida das ruas por onde as pessoas deambulam, dos monumentos que a contemplam dos séculos, das árvores que lhes dão cor, dos dias e das noites que as banham. Têm também a vida das pessoas que nelas habitam, que por elas passam, que por aí se perdem e encontram e descobrem novas formas de ser. É dessas vidas de Lisboa - as da cidade e as das gentes - que esta poesia é feita.
Ao percorrer as páginas deste livro, existem facetas que se destacam em forma e em conteúdo. Em forma, a cadência, a rima, o entrelaçar dos vários poemas numa estrutura coesa e a forma como tudo isto flui com naturalidade. Em conteúdo, as imagens inesperadas, a mistura de emoção, contemplação e paisagem e a surpreendente proximidade emocional de uma poesia que é, apesar de tudo, relativamente descritiva.
Mas o que sobressai realmente... bem, é a forma como ambas as facetas se entrelaçam e a estranha e fascinante imagem que projetam. Não é preciso conhecer bem Lisboa para entrar nesta leitura e ficar com a sensação de que se deambula pelas suas ruas, pelas suas tradições, pelas suas vidas. Há como que uma presença nas próprias palavras que é tangível em si mesma. E não é preciso conhecer as gentes que a povoam - neste livro, entenda-se - para sentir o mesmo fascínio, ainda que nem sempre se compreendam as especificidades da escolha, a forma de vida escolhida.
E a este entrelaçado juntam-se contrastes e ambiguidades. Como uma viagem pelo desconhecido, há surpresas que marcam e outras que desconcertam, há palavras que aproximam e outras que afastam, há rasgos que ficam na memória e outros que deixam apenas uma vaga perplexidade. É como se todas as facetas convergissem num todo complexo, onde há momentos mais e menos marcantes, mas onde tudo pertence.
Um ritmo próprio, uma voz eficaz e, acima de tudo, uma contemplação de que o afeto pelo tema sobressai com a máxima clareza. Eis a raiz deste pequeno livro de poemas sobre uma cidade que é também pessoas. E, acima de tudo, vida.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Mausart (Thierry Joor e Gradimir Smudja)

Wolfgang Amadeus Mausart é um ratinho que vive no piano do compositor da corte austríaca com a sua família. Leva uma vida discreta, a compor melodias na sua cabeça. Mas tudo muda no dia em que, na ausência de Salieri, decide experimentar o piano, ao alcance dos ouvidos da rainha, que imediatamente exige que Salieri lhe interprete aquela melodia. Só que... Salieri não a sabe. E, se ele não a sabe, alguém terá de a tocar. Senão...
É fácil apontar a grande força deste livro. Basta olhar para capa para ficar uma ideia de que o aspeto visual será deslumbrante. E é-o, de facto. Dos cenários ricamente detalhados à construção meticulosa de um leque vastíssimo de personagens, passando pela forma como a música parece transbordar das páginas, há uma beleza absurda ao longo de todo este livro. E é impossível não sentir um certo fascínio pela forma como esta versão animal da corte, com a sua diversidade e as suas regras singulares, ganha intensa vida através da cor, do traço e da expressão.
Da história propriamente dita, ficam sensações um pouco mais ambíguas, essencialmente devido à relativa brevidade. É que há tanto para explorar e descobrir na arte que acaba por ficar a sensação de que tudo acontece de forma um pouco apressada. Ainda assim, também aqui não faltam forças, desde o reflexo da paixão pela música aos momentos de tensão e de ternura e a uma certa inocência que facilmente desperta sorrisos.
Ainda um último ponto notável resulta da capacidade de emocionar, mesmo numa história tão concisa. Momentos de medo e momentos de alegria, rasgos de esperança e até de uma certa redenção, convivem tranquilamente neste mundo carregado de música, em que as vidas podem ser simples, mas os valores são universais. E há algo de interessante no crescimento das personagens: Mausart é sempre Mausart, mas a sua intervenção oportuna abre para o revelar de novas facetas noutras personagens. E também isso tem o seu quê de fascinante.
Conciso na história, mas vastíssimo na arte, lê-se num instante, mas convida a uma contemplação mais demorada. E, assim, nesta ambiguidade entre o que é simples e o que é imenso, acaba por ficar na memória de todas as maneiras. E pela melhor das razões.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Os Choco-Boys (Ralf König)

Acabado de chegar a Straight Gulch, Lucky Luke procura um trabalho tranquilo que lhe possa servir quase que de descanso. E tomar conta de cinco vacas suíças que precisam de repouso parece tranquilo quanto baste. O problema é que há certas tensões por aquelas paragens, uma história de amor por resolver e as gentes daquela terra precisam de aprender uma lição sobre aceitação da diferença. E, como se não bastasse, onde vai Lucky Luke, aparecem também os seus fãs e os seus inimigos.
É inevitável não começar por salientar o tema flagrante deste livro e a sua importância: diversidade e aceitação. A história de amor entre dois cowboys, não muito bem vista por... bem, quase todos... serve de ponto de partida para uma bela e importante lição, e é impossível não destacar isso como um dos pontos fortes deste livro. Há uma certa ternura que surpreende, tendo em conta o registo global e a própria história, é isso é algo de especialmente memorável.
Mas... nem só de amor vive esta história. Vive de chocolate suíço, de caçadores de autógrafos, da aparição de velhos aliados e inimigos e de um equilíbrio entre tensão e simplicidade. É Lucky Luke a ser Lucky Luke, o que significa que há sempre surpresas, episódios caricatos e um percurso razoavelmente conciso, mas cheio de momentos divertidos. Inesperado quanto baste, mas reconfortantemente familiar... e carregadinho de leveza para tirar a cabeça do mundo real.
Visualmente falando, importa destacar, mais uma vez, o contraste com os outros volumes desta coleção. Cada artista tem um estilo muito próprio, e as diferenças são claras, neste caso com as suas figuras mais redondinhas e expressões mais... desconcertadas. Ainda assim, também aqui sobressai o tal equilíbrio entre diferença e familiaridade, em que cada livro é uma entidade própria e, ao mesmo tempo, parte de um todo maior.
Simples, cativante e muito divertido, quase parece que chega ao fim demasiado depressa. Mas, apesar disso, a impressão que fica é a de uma história com as medidas certas de aventura, humor e surpreendente ternura. Uma bela viagem, em suma.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Querido Monstro (Dita Zipfel e Mateo Dineen)

O medo faz parte da vida. E quando somos pequenos, as pequenas coisas podem tornar-se grandes medos. Mas... nem sempre. Que o diga o monstro deste livro que, apesar de se ter instalado debaixo da cama de uma criança, não consegue assustá-la por mais que se esforce... E não falta criatividade nas suas tentativas.
O ponto mais surpreendente desta pequena história vem, naturalmente, da perspetiva que assume. Afinal, a ideia do monstro debaixo da cama não é propriamente nova, mas ver as coisas da perspetiva do monstro? Já é algo diferente. Além disso, o medo e a procura de formas de lidar com ele são algo de perfeitamente natural. Mas o que resulta desta visão é algo de mais simples, mas também bastante certeiro: opor ao medo a serenidade.
Outro elemento importante prende-se, naturalmente, com o aspeto visual. Sendo um livro para crianças, as imagens dizem tanto como as palavras. Neste caso, sobressaem dois pontos: a carta, que constrói uma imagem do monstro mais vulnerável e falível (tem, aliás, o seu próprio lado infantil, o que cria paralelismos interessantes com a imaginação do seu impassível rapaz); e o contraste entre os deliberados desenhos rabiscados desta carta e as ilustrações mais vivas e complexas que a complementam, dando uma visão mais clara de quem é este monstro frustrado com a sua vida profissional.
É, naturalmente, uma história breve, e bastante simples. Não há grandes reviravoltas nem grandes desenvolvimentos. Ainda assim, há uma exceção peculiar. Dada a forma como a história é escrita, quase que se antecipa um certo final... e depois as coisas seguem um rumo que não é bem o esperado, numa conclusão menos linear, mas mais forte, para esta carta de aparente despedida.
Simples, cativante e com o seu quê de enternecedor, trata-se, em suma, de um belo ponto de partida para uma primeira reflexão sobre o medo. E para uma perspetiva diferente dos monstros debaixo da cama da nossa própria imaginação.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Amor de Pechisbeque (Pedro Rodrigues)

O fim de uma relação pode ser o início de um novo caminho, mas não é por isso que deixa de doer. Que o diga o escritor, que, apesar do conforto dos amigos, tem de lidar não só com o bloqueio criativo, mas com tudo o que não estava preparado para perder. No início, julga que uma nova relação pode ser a solução para todos os seus problemas. Mas precisa de se descobrir primeiro. Até porque às vezes o passado volta.
Sendo uma história relativamente breve, e centrada sobretudo no quotidiano, um dos aspetos mais surpreendentes é necessariamente o equilíbrio de contrastes. Ambientes boémios e melancólicos, vícios privados e epifanias quase espirituais, sonhos idílicos e realidades imperfeitas. Muito do que aqui acontece prende-se com os sentimentos do protagonista, mas há um mundo à volta, e estes contrastes enfatizam-no.
Outro aspeto curioso vem da visão simples, mas bastante certeira, por vezes, do mundo digital. É fácil reconhecer partes do que o autor descreve e, podendo embora haver discordância com algumas perceções do protagonista, não deixa de ser uma boa base de reflexão para algo complexo no meio de uma história simples.
Finalmente, importa salientar que, numa história de fins e de inícios em que o quotidiano reina, o facto de as personagens serem imperfeitas as torna mais reais. E que, ainda que fique uma ligeira curiosidade insatisfeita ante o final relativamente aberto, a verdade é que faz sentido a forma como tudo termina.
Simples, leve, mas com as medidas certas de poesia e de emoção, é um livro atual na perspetiva exterior... e surpreendente na proximidade interior. E uma boa história, pois claro.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Revolver (Sérgio Almeida)

O absurdo da existência assume formas insuspeitas, evocações de algo maior que se esbate na presença da simples realidade, contemplações de outras vozes que ressoam no coração dos tempos e uma fusão de ordem e caos que é, no fundo, a ordem dos dias. É este essencialmente o cerne desta poesia: transformação e finitude, tempo e o fim do tempo.
Feitos maioritariamente de imagens inesperadas, o maior impacto destes poemas resulta provavelmente dos contrastes. Há algo de etéreo, mas também raízes do quotidiano. Contemplações inspiradoras, mas também imagens de puro pesadelo. E há uma voz que é pessoal, mas suficientemente ambígua para criar laços de universalidade com quem a contempla do outro lado do papel.
Outro aspeto a salientar destes poemas tem a ver com a liberdade total em termos de estrutura. Breves ou longos, variados na métrica, na cadência e até na aproximação ao diálogo, cada poema assume a forma que o conteúdo lhe pede. E assim, as palavras fluem com naturalidade plena.
Finalmente, importa destacar a coesão do todo por entre a individualidade das partes. Haverá sempre textos que deixam marcas mais profundas, mas a sensação que predomina é a de que tudo neste livro está lá porque deve estar. 
Tudo somado, o que fica é a impressão de uma voz pessoal que parte da sua própria liberdade para falar ao universal. E que reflete facetas e contrastes num todo complexo, mas coeso e muito cativante. Uma voz singular, em suma, mas fácil de absorver. 

terça-feira, 7 de junho de 2022

A Colónia de Férias (Manuela Piemonte)

Sara, Angela e Margherita são como quaisquer outras irmãs, com as suas rivalidades, mas também com os seus laços. E têm uma vida feliz, ainda que as exigências da mãe as exasperem, por vezes. Mas tudo muda quando chega à Líbia a ordem de que todas as crianças devem ser enviadas para uma colónia de férias em Itália, a fim de conhecerem a pátria e receberem uma educação de acordo com os valores que a definem. E depois começa a guerra, e os três meses previstos transformam-se numa estadia sem prazo. E as três irmãs terão de aprender a crescer longe de casa, tendo apenas o apoio umas das outras... e alguns segredos.
Parte da força deste livro vem da capacidade de construir contrastes. A história centra-se maioritariamente no percurso das três irmãs, o que cria laços de proximidade fortes, mas reflete as complexidades do contexto histórico, o que contrapõe à inocência aspetos bastante mais cruéis da vida. Além disso, no mundo fechado em que as protagonistas se movem, há também um delicado equilíbrio entre as suas realidades e fantasias.
É um livro relativamente pausado, não só por abranger um longo período, mas também pela caracterização expansiva dos cenários, das regras e até sas fantasias das personagens. Mas pausado está longe de significar maçador e a fluidez peculiar das palavras justifica plenamente o tempo exigido por esta cadência mais lenta.
Tendo em conta o período em que decorre, é também expectável que nada seja simples. E não é, não faltando matéria para reflexão nesta história onde haverá inevitavelmente altos e baixos, mas nunca poderá haver finais perfeitos.  Faz sentido que assim seja, e é também por isso que a forma como tudo termina se afigura bastante adequada.
História de inocência e de crescimento, de guerra mundial e rebelião individual, de perdas e encontros, e de vida para lá dos regulamentos, trata-se, em suma, de um livro complexo e cativante, duro e enternecedor. E que exige o seu tempo, sim. Mas também o merece.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Divulgação: Novidades Saída de Emergência

 As vidas perfeitas podem ser uma ilusão.
A família Bigelow parece ter uma vida de sonho. Contudo, as aparências enganam e, por detrás de portas fechadas, Zane e Britt vivem aterrorizados. O pai mantém um controlo férreo sobre a família, e as crianças aprenderam a esconder o medo do resto do mundo. Até ao dia em que Zane comete o erro de discutir com o pai. As consequências separam a família e deixam uma marca indelével.
Anos mais tarde, Zane regressa à cidade onde cresceu determinado a ultrapassar o medo do passado. E basta um olhar para ele perceber que, sob uma aparência alegre e descontraída, Darby McCrae esconde um trauma profundo e doloroso.
Quando as trevas do passado os alcançam, Zane e Darby terão de enfrentar juntos os seus demónios. Conseguirão encontrar forças para superar os medos e defender aqueles que amam?

A biografia de uma figura incontornável do Islão
Um rapaz de seis anos chora nos braços da mãe enquanto ela o incentiva com o último suspiro: «Maomé, sê aquele que muda o mundo!» O menino, subitamente órfão numa sociedade tribal que teme mudanças, terá de ultrapassar enormes obstáculos para libertar o seu potencial e inspirar outros a fazer o mesmo.
Ao apresentar ao grande público detalhes conhecidos apenas pelos investigadores, Mohamad Jebara dá vida à história do profeta que fundou o Islão. Desde o seu nascimento dramático, passando por tentativas de rapto e homicídio, Maomé emerge como um homem único. Ao seu lado estão mulheres dinâmicas que o educam, mentores judeus, cristãos que o inspiram e escravos que ajuda a libertar e que impulsionam o seu movimento.
Jebara contextualiza historicamente a vida de Maomé, evocando a sociedade de Meca em que ele nasceu e defendendo que a visão inovadora do profeta ajudou a moldar o mundo moderno.

E se a rainha Isabel II resolvesse crimes enquanto desempenha os seus deveres reais?
No verão de 2016, no rescaldo de um referendo que dividiu a nação, a última coisa de que a Rainha precisa é de mais problemas. Contudo, quando uma pintura do iate real Britannia – oferecida à Rainha nos anos 60 – aparece inesperadamente numa exposição da Marinha Real, Sua Majestade percebe que alguma coisa está errada.
No Palácio de Buckingham, alguns membros do pessoal começam a receber cartas perturbadoras. E se inicialmente Rozie, a fiel secretária da Rainha, pensa não existir motivo para preocupações, o caso muda de figura quando um corpo é encontrado na piscina do palácio. A Rainha está determinada a resolver o caso – afinal, às vezes é necessário um olhar real para perceber as ligações mais ténues. Mas conseguirá fazê-lo antes de o assassino atacar de novo?

Uma visão da guerra, desde a Antiguidade até à atualidade
Ao longo da História, a guerra transformou os aspetos sociais, políticos, culturais e religiosos das nossas vidas. A guerra – passada, presente e a que poderá acontecer no futuro – é recordada e narrada para criar e reforçar um objetivo comum.
Neste livro, Jeremy Black analisa a guerra como um fenómeno global, olhando para as duas Guerras Mundiais, mas igualmente para os conflitos na China, Roma Imperial, França de Napoleão, Vietname e Afeganistão. Explora igualmente o significado da guerra e o modo como o entendimento cultural do conflito teve consequências duradouras nas sociedades em todo o mundo. O armamento, defende o autor, teve um impacto fundamental na forma como a guerra se desenvolveu: permitiu a guerra aérea e transformou-a no mar.
Numa época em que as armas do século XXI são desafiadas pelos drones e pela robótica, Jeremy Black reflete sobre o futuro da guerra e as suas consequências para o mundo.

No derradeiro volume deste clássico, Morgaine vai ao encontro do seu destino, que a coloca contra Arthur, agora seu inimigo. Ao regressar a Camelot durante o Pentecostes, Morgaine acusa Arthur de comprometer a coroa e exige que este lhe devolva a espada mágica Excalibur.
Contudo, Arthur recusa e Morgaine terá de fazer tudo para o travar, até usar as pessoas que ama para o desafiar. Quando Avalon se sente traída por Arthur, Morgaine invoca a sua magia para lançar os companheiros de Arthur numa demanda pelo cálice sagrado.
Os acontecimentos escapam ao controlo de todos quando Lancelet regressa e sucumbe de novo à sua paixão por Gwenhwyfar. Mas o Rei Veado tem outros assuntos mais importantes, como a guerra decretada por Mordred, que pretende usurpar o trono de Camelot.
Conseguirá o mundo de Avalon sobreviver ou será forçado a desaparecer nas brumas do tempo e memória?

segunda-feira, 30 de maio de 2022

O Gato que Salvava Livros (Sosuke Natsukawa)

A morte do avô de Rintaro deixou-o desligado da vida, e ainda mais isolado do mundo. A sua melhor companhia sempre foram os livros, e é neles que agora procura refúgio enquanto espera que alguém dê rumo à sua vida. Mas as respostas virão de onde menos espera, na forma de um gato falante com várias missões para lhe atribuir. Tudo em prol do seu amor maior, naturalmente - os livros.
O aspeto que mais sobressai desta leitura é inquestionavelmente o delicado equilíbrio entre o improvável e o familiar. Temos um gato falante, livros que caem do céu como neve, portas secretas, labirintos e até um livro com dois mil anos a ganhar vida. E, subjacentes a estas ideias, temos um conjunto de coisas com que qualquer leitor se poderá identificar e que convergem numa só: o amor aos livros.
Também interessante, tendo em conta todos estes elementos, é a relativa brevidade do livro. Há mesmo alguns momentos, no início, em que tudo parece ser um pouco apressado. Com o progredir da história, contudo, esta concisão ganha um novo sentido, pois reflete não só o poder universal dos livros, mas principalmente os diferentes fios que puxam cada leitor. E que, sendo diferentes, têm necessariamente de ser mais intuídos do que descritos.
Finalmente, importa salientar o impacto emocional inesperado. Não é um livro de grande dramatismo, e até os momentos mais intensos parecem ter uma certa calma a envolvê-los. Mas é uma serenidade que faz sentido, e que abrange também momentos de surpreendente ternura e de crescimento pessoal.
Relativamente breve, mas muito cativante e cheio de empatia, trata-se, pois, de um livro sobre livros que ecoará no coração de quantos adoram ler. E de uma história curiosa sobre o crescimento interior de um protagonista que nem sempre é fácil de entender, mas com quem é muito fácil simpatizar.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Revelação de Capa - Amor de Pechisbeque


 
Como é que alguém se apaixona? Abrindo os olhos.

Quando alguém termina um relacionamento amoroso, a vida parece um verdadeiro fim do mundo. O desnorte nos sentimentos baralha-nos em tudo o resto, desde a simples ocupação dos tempos livres com os amigos, à própria estabilidade pessoal e familiar. Amor de Pechisbeque é um romance escrito à flor da pele, que nos faz descobrir vírgulas onde só vemos pontos finais.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Uma Mulher Aparentemente Viva (Cláudia R. Sampaio)

A mulher acorda... e o mundo que vê entrelaça-se entre futuros e passados de uma mente quase labiríntica. Parte numa viagem à mente para descobrir a solidão e encontra-se, transforma-se... a si e ao que contempla. E é a história dessa mulher, nos seus improváveis contornos, que molda a forma desta poesia.
Geralmente, ao ler um livro de poesia, espera-se uma certa medida de coesão, havendo também, contudo, uma certa independência entre os poemas. Neste caso, essa coesão é mais profunda e indivisível, pois não só existe uma protagonista definida, como também uma certa linha sequencial, o que implica um todo mais vasto, maior do que a soma das partes, e que gera um impacto global maior do que o de qualquer leitura parcial.
É um livro de poesia, mas que parece ter uma história para contar, ainda que de forma muito singular. E isso significa ecos e repetições na forma, ideias que se vão multiplicando ao longo do livro. Por outro lado, as imagens evocadas vão do contemplativo ao quotidiano, evocando uma espécie de espiritualidade peculiar enraizada na solidão em pleno mundo material. Ora, esta conjugação suscita um certo desconcerto, mas que faz também um estranho sentido.
Há também como que uma reflexão subjacente, mas impossíveis de descrever, pois surge mais de impressões do que pensamentos elaborados. Também isto tem um efeito desconcertante, pois o despertar da mulher é também uma viagem em comunhão com o leitor. Mas também esta perplexidade dá lugar a momentos de fascínio.
História em forma de poema, ou poema esculpido em história, trata-se, em suma, de um livro singular, mistura de contemplação e de realidade, de ritmos e de impressões indescritíveis, enigmático, mas muito cativante. Uma forma especial de vida, digamos assim. 

domingo, 22 de maio de 2022

O Fim dos Homens (Christina Sweeney-Baird)

Tudo começa com um caso do que parece ser uma doença incómoda mas não grave, como uma gripe ou algo similar. Mas os verdadeiros contornos do caso não tardam a revelar-se sob a forma de uma doença fulminante e mortal. Inicialmente, os primeiros casos são ignorados, o que permite uma propagação descontrolada da doença. E é então que tudo se torna claro: há uma nova peste a espalhar-se pelo mundo. E afeta exclusivamente os homens.
Parte do poderosíssimo impacto deste livro resulta dos inevitáveis paralelismos com a realidade recente. Não, não são muitas as semelhanças entre esta peste e a recente pandemia, mas coisas como a necessidade de tomar medidas impopulares, o abalo na vida das pessoas, as perdas e transformações e a diversidade de reações criam, de certa forma, um laço entre ficção e realidade. Além, claro, de suscitarem a inevitável questão de como reagiria o mundo perante uma pandemia de repercussões muito mais graves.
Outra das grandes forças deste livro está na multiplicidade de pontos de vista. Ao contar a evolução da doença e as consequentes reações através da perspetiva de várias personagens, a autora constrói um enredo muito mais completo e intenso, abrangendo momentos de grande tensão e outros de desespero, episódios dramáticos, tragédias e rasgos de esperança, pequenos rasgos de alegria e muito sacrifício e superação.
O que me leva a outro dos grandes prodígios desta história: a capacidade de refletir todas as facetas. Não é uma história de heróis perfeitos nem de união absoluta e perfeita na busca por uma resolução. É uma história de seres humanos, corajosos e cobardes, abnegados e egoístas, lutadores e pessimistas, esperançosos e desesperados. E estas características coexistem, por vezes, na mesma personagem, o que implica uma história de personalidades complexas, falíveis e nem sempre compreensíveis perante a maior das adversidades. Humanas, em suma.
E, claro, importa salientar que não é uma história de resoluções fáceis. Não o poderia ser, atendendo às circunstâncias. Mas é também isso que a torna tão real, o facto de tudo ser complexo e multifacetado, revelando o melhor e o pior das personagens e colocando-as perante escolhas inevitáveis de modo a refletir quem são e a refletir sobre o que se faz depois do impensável.
Intensa, angustiante, avassaladora, eis, pois, uma história passada no futuro, mas com laços de proximidade. E um livro que, através das suas circunstâncias dolorosas e das suas personagens multifacetadas, cativa, surpreende, abala e enternece, sempre nas medidas certas. Maravilhoso, em suma. E inesquecível.  

sexta-feira, 20 de maio de 2022

O Combate Quotidiano - Volume Dois (Manu Larcenet)

A vida continua depois da perda. As barreiras do quotidiano continuam a surgir, mesmo quando tudo parece ter estagnado. E cada novo sucesso parece vir acompanhado de novas dificuldades e desafios. Marco tem de aprender a lidar com os seus medos e angústias. De descobrir formas de lidar com as mudanças do mundo. E de aceitar os inesperados com que a vida lhe atira...
Parte da beleza deste livro, tal como do anterior, na verdade, é a forma como reflete, através de percursos pessoais, problemas comuns a muitos seres humanos. A perda de um ente querido e a consequente solidão, as aspirações que não são partilhadas pelos dois membros do casal, a perda de um trabalho que se tornou identidade, os preconceitos e a necessária superação... é efetivamente um combate quotidiano o que esta história descreve. E é por refletir facetas do quotidiano de muitos que a história é tão cativante, mesmo nos elementos que deixa em aberto.
Também a nível visual há poderosos contrastes a realçar estas pequenas grandes lutas. Cenários luminosos e sombrios refletem o equilíbrio entre tristezas e alegrias. Os objetos que acompanham as partes mais introspetivas realçam o simbolismo das coisas que não são só coisas. E a expressividade nos rostos de traço relativamente simples enfatiza a melancolia desta história de vidas mais ou menos normais.
Ainda um último ponto a salientar tem a ver com o facto de as personagens não serem perfeitas. Sejam fantasmas do passado, indecisões presentes, mudanças impossíveis de aceitar ou meras explosões de mau feitio, todas as personagens tem o seu lado menos perfeito, o que as torna mais humanas e mais marcantes nas suas pequenas epifanias pessoais.
É uma história singular, mas feita de toda uma vastidão de questões importantes. Aparentemente simples, mas capaz de refletir a complexidade do mundo. E intensa no seu equilíbrio entre desolação e esperança, entre exasperação e ternura. Entre os desafios e as pequenas luzes do quotidiano da vida.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Paraíso (Pedro Eiras)

O caminho começou no Inferno e foi progredindo. Agora, abrem-se as portas do Paraíso. Mas nada é, também aqui, como esperado. Longe da rutilante glória da paz perfeita e da absoluta impassibilidade, este é um paraíso de fúria salvífica, de interrogação aos dogmas do mundo, de contemplação dos mártires da bondade e de abertura aos desenquadrados da vida. Um paraíso mais ambíguo, e povoado até de matizes sombrios, mas por isso mesmo mais glorioso.
Conclusão de um tríptico que, qual Divina Comédia, nos levou já a Inferno e Purgatório, este último livro é como que o culminar do caminho. Contempla um Paraíso de imperfeitos, tudo questionando. E, através de imagens verdadeiramente notáveis, evoca quotidiano e espiritual, fé e ausência dela, almas de bondade e crueldades absurdas.
Existe uma evidente coesão entre as três partes da viagem, mas este livro chega ainda mais longe. Se, na fase inicial, é possível distinguir os poemas como unidades independentes, a partir de um certo ponto, e embora continue a haver divisões, torna-se clara a unidade de um apelo que, em tom de exortação e de quase profecia, transmite um crescendo de intensidade que funciona como uma espécie de exaltação.
E, claro, muito à semelhança dos livros anteriores, também aqui não há grandes imposições em termos de regras estruturas, o que significa que as palavras - e as imagens por elas evocadas - fluem com uma liberdade avassaladora.
Chegamos ao fim do caminho, e o Paraíso está longe de ser o das promessas. Já o que este livro prometia é amplamente superado, com o seu equilíbrio de luz e sombra, a sua voz única e cativante e a capacidade de tornar naturais as mais inesperadas imagens. Não é o Paraíso esperado, não. Mas é certamente glorioso.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Diário de Uma Miúda como Tu - A Sério ?! (Maria Inês Almeida e Manel Cruz)

A Francisca está a entrar na adolescência, o que significa mudanças de humor, novos interesses e algumas distrações. No essencial, contudo, continua igual a si mesma, com os seus interesses e frustrações, os seus altos e baixos e as suas aventuras ao longo de um quotidiano normal. É uma miúda como qualquer outra... mas quem disse que era simples?
Parte do que torna estes livros cativante, mesmo para quem já não faz parte do seu público principal, é a forma como acompanham o crescimento da protagonista, não só nas suas aventuras mais caricatas, mas também na forma como lida com os obstáculos da vida. São histórias simples e descontraídas, assentes sobretudo nos dilemas da vida normal, mas não deixam de ter muitos momentos divertidos e algumas surpresas ao longo do caminho.
Outro ponto interessante são as mensagens subjacentes. Uma delas prende-se, naturalmente, com a questão do ambiente, que é uma das preocupações da protagonista, marcando por isso presença em todos os livros. Mas há também uma ideia subjacente à absoluta normalidade da Francisca. Não é uma miúda perfeita com notas perfeitas e comportamentos imaculados. É uma miúda normal, com as suas particularidades e vulnerabilidades, que são também o que a torna tão fácil de  compreender.
Finalmente, importa referir, como sempre, o aspeto visual, que, de forma simples mas criativa, confere a estes livros o aspeto de verdadeiros diários, tornando a leitura mais imersiva e envolvente.
Uma história simples sobre os desafios do crescimento de uma adolescente perfeitamente normal, mas também singular na sua normalidade, com novos desenvolvimentos, mas com a mesma leveza e capacidade de cativar. Assim é, em suma, este novo diário da Francisca - uma boa leitura, como sempre. 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Pensar Mais de Cinco Minutos Prejudica a Saúde (Marta Cabeza Villanueva)

Pensar pode significar analisar profundamente uma situação em busca de respostas, procurar novas aprendizagens, descobrir soluções para grandes desafios. Mas pode também significar dar rédea livre aos medos, deixá-los crescer ao ponto da paralisia. E é sobre o equilíbrio entre pensamento e quietude que este pequeno livro se debruça.
Facilmente se poderia dividir este livro em duas partes, uma introspetiva e outra espiritual. Assentes ambas numa experiência pessoal, que confere ao texto um registo mais próximo, a parte introspetiva olha  para o papel dos pensamentos, dos medos, das intuições e das emoções na construção de uma vida mais serena. Já a espiritual vem no seguimento da anterior, avançando, porém, para uma perceção que exige uma certa medida de fé.
Em ambas as facetas existem posições de fácil compreensão e outras que suscitam alguns sentimentos ambíguos, nomeadamente no que diz respeito à saúde física. Ainda assim, e ambiguidades à parte, é sempre possível retirar do texto pontos de identificação. Pensar demasiado, ao ponto de a questão se tornar dúvida e depois medo é algo que acontece a todos. E há nesta visão várias considerações positivas que não exigem concordância plena para serem úteis.
Ainda um último ponto a mencionar tem a ver com o aspeto visual. As ilustrações são simples, mas complementam perfeitamente o texto, dando-lhe uma etérea aura de magia que faz todo o sentido num livro sobre intuições e convicções espirituais.
Terá um impacto diferente consoante as crenças e convicções de quem o ler, mas não deixará de ser uma boa reflexão sobre os efeitos de pensar demasiado e de deixar os medos mo comando. E basta isso para fazer com que valha a pena conhecer este pequeno livro. 

terça-feira, 10 de maio de 2022

A Arte da Guerra (Sun Tzu)

As guerras do passado e as guerras do presente dificilmente poderiam ser mais diferentes, pelo menos do ponto de vista tecnológico. Ainda assim, reduzidas ao mais essencial - métodos, planos, manobras, objetivos - são também bastante evidentes as semelhanças. E prova disso é este livro milenar, cujas leis e conselhos remontam a tempos antigos, mas podem perfeitamente ser identificados na atualidade. Na guerra e não só. 
Há livros que são tão conhecidos que dispensam apresentações, e este é certamente um deles. E, ainda assim, mesmo para quem já leu outras adaptações da obra, não deixa de ter o seu lado revelador. Primeiro, pelo tom imperioso, que lembra a cada palavra que é de uma lei estratégica que se fala. Depois, pela abrangência e intemporalidade da visão, que está longe de ser aplicável apenas à guerra. E finalmente pela precisão e concisão das ideias, resumindo ao seu cerne essencial o que aparenta ser complexo.
Tendo em conta a estrutura do livro, que se debruça sobre as várias facetas da lei da guerra, é inevitável alguma repetição, pois a mesma questão surge em vários contextos. Ainda assim, sendo um livro tão conciso e imperativo, essas repetições não parecem forçadas ou maçadoras, principalmente vendo o livro como o que ele é no seu âmago: um manual para a guerra, onde é crucial que tudo seja claro. 
Finalmente, importa destacar nesta edição específica o aspeto visual, que, além de tornar o livro mais bonito, acrescenta elementos que nos transportam para o período em que terá sido escrito, e também a introdução, que, embora muito breve, abre caminho a uma leitura mais esclarecedora.
Intemporal na sua visão estratégica, abrangente apesar da concisão e aplicável a muito mais do que apenas a ação militar, trata-se, em suma, de uma leitura muito interessante. E perfeitamente atual.

sábado, 7 de maio de 2022

Enfermaria (Ana Paula Jardim)

Dificilmente a primeira imagem a surgir no pensamento ao pensar em poesia seria a de um hospital. E, no entanto, poucos locais contêm tantas histórias, tantas transformações, tantos ciclos de vida e morte, tanta emoção. E todos estes elementos compõem, de certo modo, uma forma de poesia muito singular, simultaneamente pessoal e aberta, enraizada do real, mas estendendo ramos para o sagrado, e capaz de se entranhar no pensamento com a sua proximidade indefinível. Assim é a poesia deste livro.
Ao tentar caracterizar um poema ou conjunto de poemas, contemplam-se geralmente dois aspetos: forma e conteúdo. E são aspetos que tenderão a convergir para um todo equilibrado. Neste caso, o equilíbrio é tão coeso que a linha entre as duas facetas quase se esbate, tal é a precisão com que a palavra se ajusta ao que tem para evocar.
Olhemos, ainda assim, para estas duas partes, pois ambas têm aspetos a destacar. Da forma, sobressai uma estrutura muito livre, sem normas rígidas de rima ou métrica, mas em que o ritmo resultante da cadência das palavras assume uma fluidez quase hipnótica. São, aliás, do tipo de poemas que soam especialmente bem lidos em voz alta, pois assumem, por vezes, um tom de quase profecia.
Do conteúdo, destacam-se os equilíbrios e contrastes, o entrelaçar do ambiente estéril da enfermaria com a profusão de memórias e emoções que aí habitam, da implacabilidade do ciclo da vida com as perceções do sagrado, da presença num local de vida e morte de outras vidas passadas e futuras. Há algo que ecoa na alma de forma quase inconsciente, com esta fusão de imagens singulares e estranhamente familiares.
E o que fica então deste livro é uma contemplação da vida no seu mais frágil e persistente, construída com uma voz única e fascinante cujos ecos ficam na memória bem depois de terminada a leitura. Breve, mas muito belo, um livro inesquecível. 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Outcast, Vol. 6: A Escuridão Cresce | A Fusão (Robert Kirkman e Paul Azaceta)

O fim está próximo e o impasse que parece ter-se instalado não tardará a quebrar, em virtude da ação de ambos os lados. Mas a dúvida e o cansaço parecem ter-se apoderado de todos e nem Kyle Barnes nem os que o rodeiam sabem como enfrentar o fim iminente. Uma coisa é certa, ainda assim: deixou de ser possível continuar a fugir. E nada ficará igual quando o derradeiro confronto se materializar finalmente.
Parte do que tornou esta série tão intensa foi, desde o início, a sua singular forma de luta entre o bem e o mal. E essa luta foi crescendo de intensidade de volume para volume. Agora, chegados ao fim da história, tudo atinge o seu crescendo final, carregado de movimento, de ação, de surpresas e de uma poderosa capacidade de emocionar.
Também o aspeto visual foi especialmente importante, e atinge uma nova dimensão nesta etapa final. O contraste entre luz e trevas chega a atingir momentos ofuscantes. Os momentos de maior impacto estão cheios de movimento e de expressão. Os rostos retratam na perfeição as emoções das personagens e o horror dos elementos menos humanos. E os pequenos pormenores destacados ao longo do livro salientam a complexidade do todo.
Olhando para o enredo propriamente dito, destacam-se três pontos: o final perfeitamente adequado, que dá resposta a todos os pontos essenciais, mas deixa o suficiente à imaginação do leitor; a forma como as repercussões do passado não desaparecem depois de tudo concluído, o que torna tudo mais real, pois tudo na vida tem consequências; e o desenvolvimento do aspeto sobrenatural, que é simultaneamente universal e singular na sua abordagem ao eterno conflito entre o bem e o mal.
Tudo se resume, portanto, a um final que atinge e supera as altas expetativas geradas ao longo da viagem. E que deixa ao mesmo tempo uma certa saudade e uma poderosa sensação de missão cumprida. Como deve ser, naturalmente. 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Divulgação: Novidades Saída de Emergência

Este não é um diário comum. Pode utilizá-lo todos os dias. Ou não. Também pode deixá-lo por uns tempos e depois regressar a ele. Ou não.
No estilo a que já nos habituou, Mark Manson apresenta o diário que nos vai ajudar a pensar sobre temas profundos com base em A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da.
Os conselhos de Manson são complementados com exercícios que nos vão fazer rir e refletir sobre o que é realmente importante.
Com a sua irreverência única, Manson ajuda-nos a encontrar respostas simples para questões que são aparentemente complexas. Com espaço para as próprias reflexões, este diário permite-nos ver os momentos-chave da vida como as oportunidades de crescimento que eles realmente são.

As fronteiras de Huaxia são defendidas por máquinas de guerra gigantescas movidas pela energia vital de um piloto e da sua concubina. Os combates são violentos e, se os homens sobrevivem, as mulheres são quase sempre sacrificadas. Apesar de saber o futuro trágico que a espera, Zetian alista-se no exército com apenas um objetivo: a vingança.
Graças à sua força psíquica excecional, Zetian sai vitoriosa do confronto e torna-se na Viúva de Ferro, juntando-se à elite de pilotos e fazendo par com Li Shimin, o piloto mais perigoso e controverso de Huaxia.
Agora que sabe do que é capaz, Zetian vai utilizar todas as armas para permanecer viva e lutar contra o sistema patriarcal que governa a sociedade e que despreza a vida das mulheres...

Nos anos que se seguem à coroação de Arthur, a rainha Gwenhwyfar continua as manipulações para assegurar a lealdade do seu marido à igreja cristã, enquanto a sacerdotisa Viviane decide confrontar Arthur pela traição contra Avalon.
Nos bastidores, Morgaine planeia o casamento de Lancelet, que ameaça sucumbir ao desespero pelo triângulo amoroso em que se vê envolvido. Quando a rainha Gwenhwyfar descobre esse plano, jura vingança. Morgaine dedica-se a fortalecer a causa de Avalon enquanto as sacerdotisas tudo farão para resgatar a alma da Grã-Bretanha contra a maré insurgente da Cristandade. Mas que efeitos terá a chegada do jovem Gwydion, filho de Morgaine e Arthur? Irá correr em auxílio do rei ou libertar o caos?

Mary Russell, a brilhante aprendiza de Sherlock Holmes, está prestes a receber uma herança considerável. Finalmente independente, apaixonada pelo divino e pelo trabalho de investigação, o seu mistério mais desconcertante parece agora envolver Holmes e o surgimento de uma afeição profunda pelo aposentado detetive.
Mas as atenções de Russell estão igualmente focadas no Novo Templo em Deus e na sua líder, Margery Childe, uma carismática sufragista e mística, que aparentemente vive muito acima das suas posses. Quando quatro sufragistas do Templo morrem pouco depois de terem alterado os seus testamentos, Russell e Holmes iniciam uma discreta investigação que levará a jovem a enfrentar um perigo maior do que alguma vez imaginou.

Numa grande mansão inglesa, uma mulher seduz uma das figuras mais poderosas e influentes do país – uma manobra cuidadosamente planeada com um objetivo mortal…
De férias em França, Tom Wilde resgata um antigo aluno do campo de detenção de Le Vernet, ao mesmo tempo que os tanques alemães se aproximam da fronteira com a Polónia. Entretanto, o paquete Athenia, com vários americanos a bordo, é atacado no Atlântico. Goebbels defende que o responsável é Churchill, numa jogada preparada para incriminar a Alemanha e atrair a América para a guerra.
Enquanto as várias peças de uma conspiração internacional estão em movimento, Tom Wilde enfrenta um grande perigo pessoal. Quem é Marcus Marfield? E onde reside a sua lealdade?

Segundos depois de levar o cálice aos lábios durante a celebração de um funeral, o padre Miguel Flores morre no altar assassinado pelo sangue de Cristo. A tenente Eve Dallas confirma que o vinho consagrado continha cianeto suficiente para derrubar um rinoceronte. Quem mataria um padre de forma tão súbita e horrível? E quem poderia ter acesso privilegiado ao vinho da comunhão?
A autópsia revela detalhes surpreendentes que sugerem que o «padre Flores» não era quem parecia. Enquanto reúne as pistas que sugerem roubo de identidade, ligações a gangues e um ato profundamente pessoal de vingança, Eve espera apanhar quem cometeu este ato profano. Contudo, a descoberta de um segredo obscuro poderá trazer de volta os demónios de Eve e deitar por terra toda a investigação…

Estará a História desatualizada?
A resposta a esta questão é sim, se considerarmos a História como conhecimento histórico, como resultado do estudo e da investigação sobre o passado. A análise de novas fontes, perspetivas e abordagens permite redefinir o conhecimento que temos, apesar de muitos mitos e ideias da História de Portugal continuarem a ser repetidos e permanecerem no imaginário popular.
Neste sentido, o objetivo deste livro é o de atualizar muitas destas ideias, desmontando, dentro do possível, alguns destes mitos. Tomando por base 29 temas da História de Portugal, desde Viriato até ao legado da memória do império colonial, 28 autores procuraram redefinir aquilo que sabemos sobre estes assuntos. Um livro para quem quer perceber os vários aspetos de uma História longa e complexa, e não tanto os muitos e longos debates académicos que existem sobre cada assunto.

A 25 de maio de 1977, um filme de ficção científica com um orçamento elevado e problemas de produção estreou em apenas 32 cinemas americanos. Idealizado, escrito e realizado pelo, até então, pouco conhecido George Lucas, Star Wars bateu recordes de bilheteira e deu início a uma nova forma de produzir, vender e comercializar filmes.
Lucas foi igualmente responsável por outro blockbuster – Indiana Jones –, transformando completamente o universo dos efeitos especiais e sonoros. A sua ambição e visão inovadora estiveram na origem de empresas revolucionárias como a Pixar e a Lucasfilm.
Brian Jay Jones conta detalhadamente a incrível trajetória do homem que criou Darth Vader, Han Solo e Indiana Jones. Em George Lucas: Uma Vida, os colegas, familiares e concorrentes de Lucas oferecem um olhar fascinante sobre a vida do cineasta, dos seus sucessos e fracassos profissionais e sobre a criação de um império cinematográfico independente com uma influência incomparável.

Laura pode ter deixado subitamente Shane Dominic há mais de uma década, mas ele nunca a esqueceu ou deixou de se questionar sobre as razões da separação. Até que o homicídio de um líder criminoso coloca Laura novamente no seu caminho e dá a Shane uma oportunidade única para descobrir o que aconteceu – nem que para isso tenha de utilizar os meios mais ardilosos para descobrir a verdade.
Os sentimentos de Laura podem ainda ser profundos, mas ela nunca revelará os seus segredos – uma promessa desesperada que fica comprometida quando Shane a mantém refém numa cabana isolada e a submete aos seus caprichos eróticos. À medida que as defesas de Laura cedem, ela não tem escolha senão confiar a Shane uma verdade chocante que os vai expor a um perigo explosivo.

Durante a Pax Romana, as viagens e o turismo conheceram um estrondoso desenvolvimento no Império Romano. Esta estabilidade permitia deslocações nas suas várias formas: por terra e mar; em representação oficial, em estudo ou em turismo; de oficiais, de ricos proprietários, de artistas e artesãos, de enfermos. As cidades adquiriram um novo nível de cosmopolitismo e a religião acolheu novas influências.
Viajando através dos grandes centros culturais, passando pelos antigos monumentos e pelas províncias mais afastadas, Falx explora o vasto Império Romano numa jornada que permite ao leitor mais sedentário experienciar com vívido detalhe a vida no Império.

A paz na Europa tem sido historicamente efémera. Desde o século XVIII, a discussão intelectual e política em busca de uma paz duradora incluía uma ideia de unificação.
Através de filósofos como Rousseau e Kant, e de estadistas como o Czar Alexandre I, Woodrow Wilson, Winston Churchill, Robert Schuman e Mikhail Gorbachev, Stella Ghervas apresenta‑nos cinco conflitos‑chave nessa busca por sistemas de paz na Europa: a Guerra da Sucessão Espanhola, as guerras napoleónicas, as duas guerras mundiais e a Guerra Fria. Cada momento gerou um renovado «espírito» de paz entre as forças vivas, procurando construir mecanismos e instituições capazes de prevenir guerras futuras.
Procurando uma continuidade desde os ideais do Iluminismo, passando pelo Concerto das Nações do século XIX, até às instituições da União Europeia, este livro apresenta a paz como o valor que marcou uma ideia de Europa unificada muito antes de a União Europeia nascer.

James Cordier é um mestre do disfarce, um ladrão brilhante e um amante de primeira classe. A sua derradeira missão é resgatar um pacote de cartas incriminatórias que estão na posse de uma mulher caída em desgraça. Só depois poderá regressar a Londres e deixar para trás uma vida de intrigas.
Desprezada pela sociedade depois de um divórcio escandaloso, Francesca Bonnard é a mais famosa cortesã de Veneza. Bela, inteligente e educada, ela é versada nas artes da sedução, e os homens são apenas meios para chegar a um fim. E o próximo candidato está à distância de um passeio de gôndola…
Contudo, James não é o único à procura das cartas. E tudo se complica quando a química explosiva dá lugar a um duelo de sedução. No entanto, arriscar tudo pode valer a pena para alcançar o verdadeiro amor.

O tempo é de turbulência política à medida que o rei Eduardo começa a perder o controlo sobre os seus sucessores e apoiantes. Há dois herdeiros e dúvidas sobre a frágil união dos reinos do Wessex e da Mércia. Apesar das tentativas para o comprometer na luta política, Uhtred de Bebbanburg só está interessado na sua amada Nortúmbria – e na sua independência em relação ao Sul.
Contudo, um juramento é um compromisso quase sagrado, e tal promessa foi trocada entre Uhtred e Æthelstan, agora um potencial rei. Uhtred tentou ignorar as exigências do juramento e permanecer na sua fortaleza no Norte, mas um ataque e um inesperado pedido de ajuda levam-no até ao Sul, para a batalha pelo reino… e pelo destino de Inglaterra.