domingo, 4 de setembro de 2016

Quem me Dera Ser Onda (Manuel Rui)

Vivem-se tempos de mudança e os ideais da revolução estão mais presentes que nunca. Tudo serve de desculpa para falar de reaccionários ou da pequena burguesia. Até mesmo um porco. O porco que Diogo, pai de família, decidiu criar no sétimo andar e que, passados alguns meses, lhe trará a carne por que tanto anseia. Ora, mas isto pode ser mais difícil do que parece. Os vizinhos não estão nada satisfeitos. E quanto aos filhos de Diogo, estes rapidamente se afeiçoam ao porquinho a que chamaram Carnaval da Vitória e que é objecto de todas as suas esperanças. Entretanto, entre fiscalizações, comunicados e confusões, o porquinho lá vai crescendo, alimentado a restos de restaurante de luxo. Mas e quando a data marcada chegar?
Se há algo que desde muito cedo salta à vista neste livro, e que acaba por ser a sua grande força, é a forma como, em menos de cem páginas escritas de forma muito simples, o autor consegue construir uma história tão completa e um tão cativante equilíbrio. Equilíbrio entre a inocência e a ingenuidade da infância, dos irmãos que, com todo o amor tentam salvar o seu porquinho, e o pragmatismo quase cruel da vida adulta. Entre o interesse (e as invejas) que movem os adultos e a solidariedade das crianças que partilham simplesmente uma alegria. E um equilíbrio todo ele feito de contrastes, que, de uma forma tão inocente e enternecedora, reflecte também os enredos e tribulações de uma vida em constante mudança.
Senão, vejamos: desde as decisões e intrigas dos moradores aos muito engenhosos planos das crianças, tudo parece ter subjacente alguma espécie de ideal revolucionário. E, assim, numa história tão simples como a da salvação de um porco (quase que a fazer lembrar, de início, uma Teia de Carlota), emerge uma percepção mais ampla. A de uma sociedade em que afectos e interesses coexistem e por vezes colidem. E em que a esperança nem sempre chega para se conseguir o objectivo pretendido.
Claro que, sendo a história tão breve, há pequenos elementos deixados por esclarecer. A situação da professora, as possíveis consequências de alguns dos planos mais ousados das crianças - o próprio final deixa em aberto tantas possibilidades como as certezas que apresentam. Mas, se isto deixa uma sensação de que mais se poderia dizer sobre esta história e estas personagens, também é verdade que a história, tal como é, serve um propósito. O de realçar o essencial. E fá-lo com uma estranha leveza, envolvente, às vezes até divertida - dizendo as verdades complexas da mais simples e clara das formas. O que acaba por ser, também, uma qualidade. 
Trata-se, pois, de um livro breve e simples, mas em que, a partir das pequenas coisas e da inocência dos mais novos, se reflecte também sobre umas quantas verdades da vida. Cativante, muito bem escrita e com um equilíbrio delicioso entre a seriedade e o humor, uma história leve, equilibrada e muito interessante. Gostei. 

Título: Quem me Dera Ser Onda
Autor: Manuel Rui
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Os 100 - O Regresso a Casa (Kass Morgan)

Depois de várias perdas dolorosas e de muitas tribulações, os 100 começam finalmente a habituar-se à nova vida na Terra. Mas, quando menos esperam, uma nova mudança vem pôr em causa tudo aquilo que construíram. A capacidade de sobrevivência na Colónia esgotou-se e aqueles que conseguiram lugar numa nave de transporte acabam de chegar à Terra. E vêm com ideias muito claras de fazer do seu novo lar uma réplica da Colónia no que diz respeito às regras e imposições. Wells, Clarke, Bellamy e o resto dos 100 terão, mais uma vez, de lutar para defender o que construíram. E as consequências podem muito bem ser terríveis.
Centrado, em grande medida, nas mesmas personagens e retomando o enredo no ponto onde parou no volume anterior, este é um terceiro volume em que as características essenciais são em tudo comuns às dos anteriores. A escrita directa, em que a acção é o elemento dominante, dividindo entre os percursos das várias personagens, continua a ser o traço essencial a definir esta história. Mas, situando-se também num ponto de viragem, há, desde logo, um desenvolvimento interessante. É que, com a chegada dos colonos, torna-se necessária uma acção mais global, o que leva a que os percursos individuais tendam a convergir para uma acção conjunta. As relações tornam-se mais fortes, o que dá origem a um maior impacto emocional. E, através desta evolução, passa-se de um grupo heterogéneo à possibilidade de uma comunidade mais sólida, o que torna todo o desenrolar dos acontecimentos muito mais interessante.
Também muito interessante é a forma como a autora explora as diferentes forças em jogo agora que todas se encontram num mesmo cenário. Por um lado, Rhodes, com as suas imposições vindas da colónia. Por outro, o papel dos protagonistas no meio de tudo isto, formando parte dos 100, mas de uma maneira um pouco diferente. E, por outro, as inevitáveis diferenças entre colonos e terrestres, com todas as possibilidades de conflito ou coexistência a eles associadas. Há todo um conjunto de novas possibilidades neste último volume - e isso torna o rumo efectivamente seguido mais surpreendente.
Há muito a acontecer para todas as personagens. Tanto que, por vezes, fica a sensação de que alguns dos momentos mais importantes acabam por surgir de forma um pouco apressada. A acção torna-se dominante, deixando para segundo plano os pensamentos e as explicações. Emoções não faltam, principalmente porque há momentos bastante delicados para os protagonistas. Mas ficam, no fim, algumas questões em aberto, principalmente quando as coisas mudam mais depressa. E uma vontade insatisfeita de saber mais sobre algumas facetas do contexto.
A impressão que fica é, essencialmente, a de um livro nos mesmos moldes dos anteriores. Leve, envolvente, com muita acção, um belo toque de emoção e uma muito interessante sequência de surpresas ao longo do caminho. Uma boa história, portanto, e uma boa leitura.

Título: Os 100 - O Regresso a Casa
Autora: Kass Morgan
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Bertrand

Dois irmãos. Um, mudo; o outro, o seu protector.
Todos os anos, a família visita o santuário que fica na desolada faixa de costa conhecida apenas como «Loney», desesperadamente à espera de uma cura.
Durante as longas horas de espera, os rapazes são deixados sozinhos. E não conseguem resistir à passagem que se vislumbra a cada mudança da maré, à velha casa que se ergue ao longe...
Muitos anos mais tarde, Hanny é um homem feito e já não precisa dos cuidados do irmão. Mas depois descobre-se o cadáver de uma criança, morta há muito.
O Loney acaba sempre por dar à costa os seus segredos.

Andrew Michael Hurley nasceu em Inglaterra em 1975 e Santuário é o seu livro de estreia. Publicado originalmente em 2014 numa edição limitada de 300 exemplares, os leitores e a crítica fizeram dele um enorme sucesso comercial. Foi-lhe atribuído o Costa Book Award 2015 na categoria de romance de estreia e o British Book Award 2016 nas categorias de melhor livro de estreia e melhor livro do ano.
O autor tinha publicado anteriormente dois livros de contos. Vive no norte de Inglaterra, em Lancashire, onde é professor de Literatura Inglesa e Escrita Criativa.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Divulgação: Novidade Livros do Brasil

Barstow, de cinquenta e oito anos, reitor da Holland University, jogava golfe domingo à tarde no campo do Green Meadow Club e de súbito caiu morto, vítima de ataque cardíaco: terá sido esta a notícia que Carlo Maffei guardou do jornal do dia em que foi visto pela última vez. O detective privado Nero Wolfe é contratado para o encontrar, mas não tarda muito até que seja a polícia a descobri-lo – morto, apunhalado. E quando Wolfe é presenteado no seu escritório com uma das mais temidas víboras conhecidas pelo homem, a fer-de-lance, o seu jovem assistente Archie Goodwin percebe que estão perto de desvendar dois crimes diabolicamente inteligentes.

Rex Stout nasceu a 1 de Dezembro de 1886 na cidade americana de Noblesville, Indiana. Após uma breve passagem pela Universidade do Kansas, alista-se na Marinha em 1906 e durante dois anos serve a bordo do iate Mayflower, do Presidente Roosevelt, como subtenente. Em 1916 cria um sistema bancário escolar que seria implementado em mais de quatrocentos estabelecimentos de ensino e que lhe garantiu lucros confortáveis, mas em 1927 abandona os negócios e passa a dedicar-se inteiramente à escrita. Publica três romances, que obtiveram críticas favoráveis, mas é com a sua primeira obra policial que alcança o reconhecimento do grande público: Picada Mortal surgiu em 1934 e com ela surgiu a personagem de Nero Wolfe, detective excêntrico, amante de boa comida e de belas orquídeas, que, juntamente com o jovem assistente Archie Goodwin, viria a protagonizar dezenas de histórias. Em 1959, Rex Stout recebeu a distinção de Grande Mestre pela Mystery Writers of America. Morreu a 27 de Outubro de 1975, em Danbury, no Connecticut, cerca de um mês após a publicação do seu último romance, Um Caso Familiar.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Angola, poucos anos depois da independência. Estamos mais precisamente em Luanda, em anos de esquemas de sobrevivência. Um pai de família desencanta um porco e leva-o para o seu apartamento, no sétimo andar de um prédio. Os filhos, Zeca e Ruca, apaixonam-se perdidamente pelo porquinho.
Com uma escrita límpida, Manuel Rui escreve um romance que é, ao mesmo tempo, delirantemente divertido e luminosamente redentor. Sim, vivemos num mundo de esquemas, de falsas aparências, de escusos interesses. O que pode, contra essa realidade crua e dura, a crença verdadeira e ingénua? Podemos ainda acreditar que o sonho, como uma vaga, vai limpar o mundo? Quem Me Dera Ser Onda é um romance genuinamente angolano. Um romance que trata a língua portuguesa de forma magistral e criativa.

Manuel Rui. Nasceu no Huambo, a 4 de Novembro de 1941. Licenciado em Direito, em Coimbra, foi ministro no governo de transição, em 1975, integrando a representação de Angola em organismos internacionais como a OUA e a ONU. É poeta, contista, dramaturgo, romancista e cronista. Escreveu a letra do Hino nacional angolano e letras de canções. Participou em filmes, como figurante e declamando poemas, mas também escrevendo diálogos. Do espanhol ao mandarim, os seus livros estão traduzidos em mais de doze línguas. Publicou, em 1977, Sim Camarada!, o primeiro livro de ficção angolana pós-independência. Quem Me Dera Ser Onda converteu-se num clássico da literatura escrita em português e A Acácia e os Pássaros é o seu mais recente romance. Mas os seus pulmões precisavam ainda de mais calor. Viajou, por isso, em 1888, para os Mares do Sul. Ficou a morar em Samoa. Os nativos gostaram dele. Sabia contar uma história e eles gostavam de o ouvir.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A Terapeuta (Gaspar Hernàndez)

Desde que presenciou um homicídio no parque de estacionamento, Hèctor Amat começou a ter ataques de ansiedade. Ataques esse que trouxeram ao de cima as suas inseguranças mais profundas. Agora, sente que precisa de ter a sua psicóloga na primeira fila do teatro para continuar a desempenhar o seu papel na peça em que é o protagonista. Quanto ao crime, lembra-se de muito pouco e também essa falta de memória o atormenta. Entretanto, vai conversando com a sua terapeuta, imaginando que, tal como a sua personagem em Terna é a Noite, talvez possa vir a apaixonar-se por essa mulher. Mas não é estranho que a sua psicóloga pareça ter todo o tempo do mundo para ele, ao ponto de o receber todos os dias e de ir todas as noites vê-lo ao teatro?
Apesar de ter como ponto de partida um crime, este é um livro onde os mistérios são de uma natureza diferente. Não importa quem matou ou porquê, sendo essas, aliás, as respostas mais fáceis, mas antes de que forma o sucedido moldou a vida e o estado mental do protagonista. Assim, a grande pergunta não é quem matou, mas antes, o que foi que aconteceu que fez com que Hèctor não conseguisse lembrar? E é a partir daí que todo o enredo se desenvolve.
O que acontece, portanto, é que os sentimentos, pensamentos e demónios interiores de Hèctor (e não só) acabam por ser tão relevantes como os verdadeiros acontecimentos. As conversas que tem com Eugènia, o que descobre, mas também o que pensa que está a acontecer, e a forma como avalia o seu papel de actor, a sua ligação às pessoas, o próprio raciocínio que o move a decisões inesperadas... Há, em todos estes elementos, um percurso mental que acaba por ser tão ou mais importante do que as coisas que de facto faz - no palco, na rua ou num quarto de hotel. 
E depois, subitamente, a história muda. Passa a ser Eugènia o centro da narrativa e a tal estranheza do seu comportamento começa a ser, então, explicada. Explicada de uma forma que complementa o ponto de vista de Hèctor, traçando um retrato diferente da terapeuta, que, além de, por vezes, contradizer as opiniões de Hèctor, levanta uma questão muito interessante, de como a doença se entranha também nos que deviam ser os cuidadores.
Ora, tudo isto converge para um ponto em que todas as possibilidades se insinuam. Hèctor toma uma medida que, à partida, deveria ter consequências. Eugènia tem os seus motivos para se ter posto na posição em que está. E, a partir daqui, tudo pode acontecer. É neste ponto que muito fica em aberto, pois o autor escolhe encerrar a história deixando à imaginação do leitor todas estas possibilidades. Fica, por isso, uma sensação de curiosidade insatisfeita por, depois de uma tão detalhada viagem aos meandros da mente das personagens, o que acontece a seguir ser deixado por dizer. Ainda assim, não deixa de fazer um certo sentido. Criou-se, de certa forma, um equilíbrio. A partir daí, todos os caminhos são possíveis.
Não é propriamente uma leitura compulsiva. Não o poderia ser, com tão intrincadas teias a formar-se na mente das personagens. Mas é, ainda assim, estranhamente envolvente. E, na forma como mergulha nas profundezas do pensamento, partindo do que poderia ser um mistério para explorar um tipo diferente de revelação, não deixa de ser uma boa e interessante surpresa. E uma boa leitura.

Título: A Terapeuta
Autor: Gaspar Hernàndez
Origem: Recebido para crítica

domingo, 28 de agosto de 2016

Filipa de Lencastre (Isabel Stilwell)

Casou tarde para os padrões da época, mas viria a ser a mãe da que ficaria conhecida como Ínclita Geração. Piedosa, séria, decidida a conter as emoções a todo o custo, muitos a julgariam como fria e indiferente. Mas não. Primogénita de John of Gaunt e destinada a grandes voos, viria a mudar a corte para onde se mudou como rainha, deixando às gerações futuras um legado de grandes obras e de novos costumes. Esta é a sua história.
Centrado, acima de tudo, na vida da sua protagonista e dividido nas duas partes essenciais do seu percurso - a de filha de John of Gaunt e a de rainha de Portugal - este é um livro em que o contexto e a forma são tão importantes como os acontecimentos em si. O contexto, porque os hábitos da época em que a narrativa decorre definem em muito a forma como Filipa rege a sua vida e as diferenças entre Inglaterra e Portugal são também uma influência essencial nas mudanças por ela operadas. A forma, porque são tantas as personagens relevantes que é importante a perspectiva pessoal, seja das dores contidas ou dos grandes entusiasmos, para contrapor à distância das movimentações políticas e intrigas de corte. 
Há, assim, um aspecto que sobressai: a capacidade da autora de realçar o retrato de uma mulher complexa e humana, ao mesmo tempo que enfatiza o seu papel enquanto rainha. As obras, os hábitos, a intriga palaciana convivem de perto com as saudades da família, a dor da perda de um filho e as aspirações e medos que tem por todos os outros. Há, assim, diferentes impactos para diferentes momentos. Curiosidade, sobre os elementos de política do reino (guerras, negociações, casamentos...), emoção, nos momentos de grande alegria ou grande perda, surpresa, ante a ocasional revelação inesperada e até um leve toque de humor, muitas vezes protagonizado pelos mais novos. E a soma de tudo é uma narrativa equilibrada, não propriamente de leitura compulsiva (ou não fosse tão vasta e relevante a componente descritiva), mas que nunca deixa de cativar.
Claro que, sendo Filipa a protagonista, é inevitável que algumas das outras personagens acabem por passar para segundo plano. E é aqui que fica uma certa curiosidade insatisfeita, pois é sabido que a história continua e fica sempre a vontade de saber mais sobre os outros intervenientes da narrativa. Mas também é certo que faz todo o sentido que, num livro sobre a vida da rainha, a história termine precisamente no ponto em que termina. E, quanto ao resto, há sempre outras formas de saber mais.
Muito interessante e sempre cativante, eis, pois, uma boa viagem à História de Portugal. E também à história de uma mulher que foi rainha e mãe sem nunca perder nada das raízes que a definiam. Uma boa leitura, portanto. Gostei.

Título: Filipa de Lencastre
Autora: Isabel Stilwell
Origem: Recebido para crítica