sábado, 5 de novembro de 2016

Cântico dos Cânticos / Manual de Civilidade para Meninas (Salomão / Pierre-Félix Louÿs)

Amor sagrado e amor obsceno, espiritual e carnal. Duas facetas do amor completamente opostas - mas talvez também complementares. E que melhor exemplo desse contraste que as duas obras que se conjugam neste Livro Amarelo? O Cântico dos Cânticos, mil vezes reinterpretado para servir a metáfora mais conveniente e, porém, explicitamente feito de amor - espiritual e carnal. E o Manual de Civilidade para Meninas, profano, blasfemo, por vezes incrivelmente obsceno... e, porém, analisando da forma mais crua a hipocrisia da sociedade da moral e dos bons costumes. Não podiam ser mais diferentes, provavelmente. E, contudo, o conjunto cria uma estranha harmonia...
Uma das características mais interessantes destes Livros Amarelos é a forma como, conjugando duas obras contrastantes, e associando-lhes depois alguns ensaios e notas bibliográficas, se constrói um todo que é mais que a soma das partes. Sim, cada obra é completa em si mesma, mas associando-lhe os textos complementares (neste caso, de Eugénia de Vasconcellos - responsável também por esta versão do Cântico dos Cânticos - e Manuel S. Fonseca) cria-se uma percepção mais vasta, mais completa do todo. Algo que, neste livro, se torna particularmente interessante, tendo em conta que há, para ambas as obras, interpretações possíveis para além do que o texto diz.
Mas passando às obras. O Cântico dos Cânticos dispensa apresentações. Poema de amor sagrado entre o amado e a amada, expressa esse amor em todas as suas facetas. Não é uma história, e contudo há algo a acontecer entre as suas figuras centrais. Não é (por mais interpretações nesse sentido que se lhe tenham dado) propriamente um texto de fé, e contudo há algo de sagrado nas suas palavras. É, sim, e acima de tudo, um texto de amor e na expressão desse amor há muita beleza e harmonia.
Quanto ao Manual de Civilidade para Meninas, é mais complexo de digerir. Conjunto de aforismos obscenos e, principalmente, irónicos, se se interpretar à letra, pouco mais parece do que um conjunto de estranhas blasfémias (principalmente se se tiver em conta a época em que foi escrito). Mas aqui importa ter em conta a interpretação referida por Manuel S. Fonseca: é que há mais no texto do que aquilo que se lê. Considerando a sociedade dos bons costumes, as estritas regras da etiqueta social e a necessidade de evitar o escândalo a todo o custo, pode ver-se cada um destes conselhos como uma estocada irónica na hipocrisia das tais regras sociais. Se isso torna a leitura mais fácil? Não propriamente. Ainda assim, tendo a concordar com esta interpretação.
E, mais uma vez, importa ainda realçar as peculiaridades da edição, que fazem deste novo Livro Amarelo uma pequena beleza em termos visuais. Invulgar em todos os aspectos, é um livro que cativa ao primeiro olhar, pois, com todas as suas peculiaridades visuais, rapidamente desperta curiosidade para o conteúdo. E este é também um dos pontos fortes deste livro - ou, melhor dizendo, da colecção de que faz parte.
O que chamar, então, a este livro senão um livro de contrastes? Contraste entre o sagrado e o obsceno, como já disse, o espiritual e o carnal. E, porque nunca é demais repetir, contraste - mas também complementaridade, formando um equilíbrio delicado. Equilíbrio que é o mais fascina - e faz com que valha a pena descobrir este livro. 

Título: Cântico dos Cânticos / Manual de Civilidade para Meninas
Autores: Salomão / Pierre-Félix Louÿs
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Morre, Alex Cross (James Patterson)

Tudo começa com o desaparecimento dos filhos do presidente. Acontece tudo muito depressa e, por mais rápida que seja a reacção de polícia e Serviços Secretos, quando dão pela falta de Zoe e Ethan, já é tarde demais para impedir o rapto. Em simultâneo, uma nova organização terrorista parece ter planos em grande para a destruição da América - planos de consequências mortais. Se as duas situações estão ligadas ou não, ninguém sabe ao certo. Mas há membros de todas as agências envolvidos no caso. E um deles é o detective Alex Cross, que, por mais indesejado que possa ser, não consegue ficar de lado num caso em que sente que a sua experiência pode ajudar. Mas não poderá essa mesma experiência - e a reputação que lhe conquistou - fazer dele um alvo a abater?
Chega-se a um ponto quando se leram vários livros do mesmo autor - e principalmente quando vários deles são da mesma série - onde não há muito de novo que se possa dizer sem estragar as surpresas da história. E, assim sendo, as características que importa destacar acabam por ser essencialmente as mesmas de sempre. A escrita directa, em capítulos curtos, doseando a informação na medida em que ela vai sendo necessária, confere ao enredo o habitual ritmo compulsivo, potenciando também o impacto das surpresas proporcionadas por cada nova revelação. E o próprio enredo, em que há sempre algo a acontecer, faz com que seja muito difícil largar a leitura.
Há, ainda assim, dois elementos que, não sendo propriamente exclusivos deste livro, importa, ainda assim, destacar. O primeiro é a conjugação de situações possivelmente pessoais (como as reacções de Alex à questão do rapto) com a vasta medida de caos associada aos actos de uma organização terrorista. Estes dois elementos conjugam-se, confundem-se, por vezes, levantando novas perguntas e possibilidades à medida novas pistas vão sendo reveladas. Além disso, a mudança de pontos de vista, passando da perspectiva pessoal de Alex para a visão de outros intervenientes (de ambos os lados do mistério) permite uma visão mais ampla do que está a acontecer. E isto é particularmente interessante se tivermos em conta que o melhor de Alex Cross se revela nas situações mais pessoais, mas que, ao conjugar as duas possibilidades, o protagonista acaba por estar sempre no seu máximo.
O que me leva ao outro ponto. Apesar de tudo o que passou em casos anteriores e contrariamente a muitas outras personagens do género, Alex não tem nada de disfuncional. Funciona, aliás, como um pilar de estabilidade no meio do caos, conseguindo manter um delicado equilíbrio entre a sua (um tanto invulgar) vida familiar e os casos de altíssima importância que sempre tem nas mãos. Sólido, seguro, com a cabeça e o coração no sítio certo - mas não infalível. E é precisamente isso, essa solidez em contraste com os momentos de vulnerabilidade, que o torna uma personagem tão fascinante.
Intenso, viciante, com uns leves toques de humor a acrescentar leveza à tensão crescente e um enredo cheio de reviravoltas do início ao fim, este é, pois, mais um livro que não desilude. E é por tudo isto (e mais que só lendo se descobre) que é sempre um prazer voltar à companhia do detective Alex Cross.

Título: Morre, Alex Cross
Autor: James Patterson
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Planeta

Dixon Mathews, um reputado psiquiatra de Nova Iorque, a duas semanas do casamento é traído pela noiva com o seu melhor amigo.
Para superar o desgosto sofrido, Dixon resolve não ter mais nenhuma relação séria e torna-se viciado em sexo. Assim pretende continuar, até que o destino lhe prega uma partida.
Duas mulheres cruzam-se no seu caminho. Juliet, deslumbrante, extrovertida, manipuladora e viciada em sexo. E Madison, inocente e frágil. A primeira atrai-o sexualmente. A segunda toca-lhe o coração. Dixon não é o melhor dos homens, e tem fraquezas, mas está confuso sobre quem deve escolher. Mas as escolhas óbvias nem sempre são as melhores.
Dixon vai descobrir o que de facto quer, mas os erros do passado, como sempre voltam para ensombrar o presente.

Francisco ao assumir a postura de uma nova filosofia do que deve ser a Igreja e o ser cristão, mudou no Vaticano paradigmas e antigos dogmas.
Este livro é a oportunidade de conhecer o seu pensamento e a doutrina que defende nesta quadra especial.
Calorosas e cativantes, aqui estão as palavras do Papa sobre o espírito e a importância da quadra natalícia. Nestas homilias e reflexões, Francisco convida os leitores a deterem-se diante de Jesus, a permitirem que o coração se transforme, a perderem o medo das lágrimas.
Para uma vivência plena da festa que celebra o nascimento de Cristo, o Sumo Pontífice exorta a que todos se deixem tocar por Deus, que penetra na alma humana com o toque do amor.
Porque este é o verdadeiro significado do Natal.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Divulgação: Novidade Porto Editora

Califórnia. Verão de 1969. Evie, uma adolescente insegura e solitária, avista um grupo de raparigas no parque e fica fascinada com a aura de abandono que as envolve: vestem-se de forma descuidada, andam descalças e parecem levar uma existência feliz à margem das convenções. Dias depois, Suzanne, uma das raparigas, convida Evie a acompanhá-la até às montanhas, ao rancho isolado onde vive numa comunidade organizada em torno de Russell, músico frustrado e líder carismático. Desesperada por ser aceite, Evie mergulha numa espiral de drogas e amor livre. Porém, à medida que se vai afastando da mãe e das rotinas da vida, e à medida que a sua obsessão por Suzanne se intensifica, Evie não se apercebe de que está a um passo de uma violência inimaginável, a caminho daquele momento na vida de uma rapariga em que uma simples escolha pode determinar o futuro. Um retrato excepcional da fragilidade adolescente, uma reflexão sobre as decisões que nos marcarão toda a vida e uma evocação daqueles anos de paz e amor em que germinava um lado obscuro...

Emma Cline nasceu em Sonoma, na Califórnia, em 1989. Trabalhou como leitora para o The New Yorker e tem publicado textos de ficção em revistas como Tin House ou a The Paris Review, que em 2014 a galardoou com o Plimpton Prize. As Raparigas, o seu primeiro romance, tem recebido uma grande aceitação internacional, tendo os direitos de tradução sido negociados já para 25 países, prevendo-se também uma adaptação cinematográfica pela mão do produtor Scott Rudin.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Divulgação: Novidades Livros do Brasil

Em 1959, a revista Life encarregou Ernest Hemingway de fazer a cobertura de um acontecimento extraordinário que ia ter lugar em Espanha, durante esse verão. Com efeito, estava previsto que aí se defrontassem, na arena, dois dos mais célebres toureiros de todos os tempos, Antonio Ordóñez e Luis Miguel Dominguín. Durante meses, Hemingway viveu junto destes carismáticos matadores, acompanhou os seus esplendorosos triunfos e as suas derrotas dolorosas. O livro que nasceu dessa encomenda, Verão Perigoso, é uma das obras de referência sobre a arte do toureio, mas é também o testemunho melancólico de um homem que, aos sessenta anos, sabe que se aproxima da morte e regressa a um palco que tanto o havia cativado na sua juventude.

Quando no rescaldo de um jantar de antigos alunos de Harvard o grupo se vê ensombrado por duas mortes e um desaparecimento, todos os olhos se viram para Paul Chapin, sujeito controverso, amigo das três vítimas, que fora nesses tempos de universidade seu companheiro na chamada Liga da Expiação – e que às suas mãos ficara severa e irreversivelmente magoado após uma partida infeliz.
Estará Chapin por fim a procurar vingança? Os membros da agora Liga dos Homens Assustados pedem a ajuda de Nero Wolfe, mas à medida que as mortes se sucedem o carismático detective intui que o rancor de Chapin está longe de ser a única ameaça que o grupo tem de enfrentar.

Divulgação: Convite


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Ouro Preto (Sérgio Luís de Carvalho)

Vivem-se tempos de fausto. Graças ao ouro do Brasil, D. João V pode lançar-se em obras, ambições e sonhos de grandes relações religiosas... enquanto que outros permanecem na pobreza, cuidadosamente escondida pelo esplendor dos grandes momentos. É nesses tempos de glória, mas também de alguma insatisfação, que surge Pedro de Rates Henequim. No Brasil, ganhou conhecimentos que só ele consegue alcançar e acredita que a única coisa de que precisa para devolver às terras do Brasil o seu estatuto de paraíso terreno é, talvez, de um rei melhor. Mas, se querer roubar território ao rei é traição, as profecias de Pedro de Rates aproximam-se de heresia. E, quando se fazem inimigos em todos os lados, é difícil escapar as dificuldades...
Percorrendo três pontos de vista diferentes - o de Pedro de Rates Henequim, o de Alexandre de Gusmão e ainda as notícias da Gazeta de Lisboa - este é um livro que é tanto a história das suas personagens como o retrato da época em que se move. Por Pedro de Rates, preso nos Estaus e à espera da misericórdia do inquisidor-mor, ficamos a conhecer o percurso da sua vida e as suas ideias, mas também o modo de vida no Brasil do seu tempo. Por Alexandre de Gusmão, as ambições do rei, as intrigas de corte e as diferentes opiniões no seio desta. E pela Gazeta de Lisboa revelam-se pequenas coisas - sendo, contudo, mais o que não é dito, realçando-se assim a diferença entre o que o povo sabe e o que realmente acontece.
Ora, se estas três linhas da narrativa parecem, de início, não ter muito em comum, a teia da história vai-as aproximando. E é esta convergência gradual que, num livro que, graças à vasta descrição, não é propriamente de leitura compulsiva, confere à narrativa uma intensidade cada vez maior, que culmina num final não propriamente inesperado, mas, ainda assim, bastante impressionante. 
Ainda um outro aspecto que importa referir quanto a este livro (e é também um toque delicioso) é que, apesar de centrado nas cartas dos dois protagonistas, grande parte do enredo é narrado na terceira pessoa por um narrador não identificado. Narrador esse que não se coíbe de, nos momentos certos, fazer uns quantos comentários certeiros que não só conferem às coisas uma nova perspectiva como lhe dão o fino toque de ironia de quem, observando de longe, tem, ainda assim, opiniões muito claras sobre o que vê.
Mas voltando à descrição. Há, de facto, muito contexto histórico a assimilar ao longo deste livro, o que confere à narrativa um ritmo pausado. Mas é curioso que este ritmo mais lento não diminui em nada a envolvência da leitura. Porquê? Primeiro, pela tal voz cativante e inesperada que vai contando grande parte da história. E depois porque esse vasto contexto histórico é complementado pelos momentos de aproximação pessoal (principalmente nas cartas e acima de tudo nas de Pedro de Rates) em que há laivos de emoção a vir ao de cima. 
Interessante, envolvente e, nos momentos certos, surpreendente, trata-se, portanto, de um livro em que factos históricos e vivências individuais se conjugam num intrigante equilíbrio. E que, mesmo pedindo algum tempo para assimilar todos os pequenos pormenores, vale cada segundo do tempo nele empregue. Recomendo. 

Título: Ouro Preto
Autor: Sérgio Luís de Carvalho
Origem: Recebido para crítica