sábado, 19 de março de 2011

A Promessa de Kushiel (Jacqueline Carey)

Prisioneira e no limiar da loucura, Phèdre não vê grande solução para a situação desesperada em que se encontra. Mas há demasiadas forças de olhos postos no seu percurso e nem só os deuses se preocupam com a salvação da sua eleita. Assim, eis que, mais uma vez, o caminho de Phèdre é o de terras distantes, gentes desconhecidas e uma luta aparentemente insuportável para deter as sempre elaboradas conspirações de Melisande. E entre aliados improváveis, manifestações para lá do humano e sentimentos que unem, talvez, o melhor e o pior, a jovem anguissette tem, mais uma vez, uma dura missão pela frente.
Há algo de mágico e de fascinante em cada novo regresso a este mundo. A criação de Jacqueline Carey marca não só pelo seu mundo complexo, habitado por personagens fascinantes e onde a acção de alguns pode mudar as vidas de todos, mas pela intensidade de acontecimentos e sentimentos, pela força emotiva inerente às mais intensas e dolorosas situações e pela forma como passado e futuro se entrelaçam numa vida demasiado dura para, no fim de contas, quebrar.
A história de Phèdre atinge, neste livro, o seu ponto mais sombrio... mas também uma nova iluminação. La Dolorosa e o Thetalos são ambientes de particular força, tanto pelas emoções que evocam como pela forma como representam o efeito de um passado imutável nos passos e decisões de toda uma vida. E, por outro lado, a tensão progressiva que se estabelece entre personagens, os momentos de dor e de dúvida, em contraste com os momentos de tranquilidade, de amor e até as pequenas situações divertidas que vão surgindo, conferem a este mundo tão diferente e tão vasto algo de próximo ao leitor. Algo que deixa uma marca bem depois de terminada a leitura.
Apesar da sua ausência durante uma parte significativa do livro, continuam a estar associados a Joscelin, personagem profundamente fascinante, muitos dos momentos mais marcantes do livro. E isto aplica-se tanto às suas intervenções directas como ao lugar especial que este ocupa na vida de Phèdre, numa relação que só se torna verdadeiramente clara numa fase bastante adiantada deste livro e que culmina num final verdadeiramente delicioso. E também as novas figuras a surgir nesta história, com especial ênfase para Kazan, dão a todo este universo uma nova sensação de maravilhoso, com a certeza de que há sempre mais a descobrir.
Belo, tocante, intenso e envolvente, mais um livro impressionante de uma autora que já conquistou nas minhas predilecções um lugar muito, muito especial.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Caso do Colar Desaparecido (S.S. Van Dine)

Com o objectivo de acalmar as apreensões de Carrington Rexon, Philo Vance é convidado a passar uns dias na sua mansão, onde uma recepção terá lugar com o objectivo de mostrar as famosas esmeraldas da colecção de Rexon. Os presentes são, todos eles, indivíduos peculiares. Mas a situação só se torna realmente preocupante quando um homem encontra a morte numa queda... não muito acidental.
Sendo uma história que segue as linhas essenciais do policial clássico - um detective que reúne pistas para descobrir, entre múltiplos suspeitos, quem é o responsável por determinada(s) morte(s) - existem alguns elementos neste livro que não são, de todo, inesperados. Desde as suspeitas que recaem sobre os trabalhadores da casa (ainda que não exactamente o mordomo) às perguntas essenciais de quem, como e com que arma, este livro segue a linha base de muitos outros livros do género. E, contudo, há alguns elementos peculiares, desde o facto de Rexon convidar o detective para a sua casa antes do crime às múltiplas ligações entre as diferentes personagens.
A ideia tem, portanto, os seus pontos de interesse. O problema está na forma como a história é concretizada, onde tudo parece acontecer demasiado depressa e, talvez pelo seu pouco desenvolvimento, o comportamento das personagens é, muitas vezes, inexplicável. Além disso, resumindo-se a interacção com cada personagem aos assuntos necessários à investigação, não há nenhuma que se torne conhecida ao ponto de criar um maior interesse no leitor, ficando, por isso, um global tom de distância que diminui a envolvência de um livro que, sendo breve, nunca chega a fascinar por completo.
Um mistério interessante, em suma, mas que, talvez pela brevidade ou talvez pela distância com que, durante a maior parte do livro, os acontecimentos e relações são tratados, deixa a sensação de que muito mais poderia ser explorado. Intrigante o suficiente, não foi, ainda assim, leitura que me cativasse por completo.

Novidade Planeta

Vinte e cinco anos após a primeira edição, só a citação de Eça envelheceu um século neste resumo, pois Hotel Lusitano continua a retratar-nos por inteiro e, se algumas rugas de expressão tiver, só lhe dão mais charme: são do sorriso.
Os quartos terão agora televisão, haverá um terraço-bar na cobertura, como observa, no prefácio à presente edição, esse americano que quase poderia ser protagonista chamado Richard Zenith. Mas neste Hotel Lusitano, o primeiro romance de Rui Zink, continuamos em casa, ao espelho.

Rui Zink nasceu em Lisboa em 1961. É escritor e professor no Departamento de Estudos Portugueses na Faculdade da Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Estreou-se como ficcionista em 1986 com a novela Hotel Lusitano e desde então publicou mais de duas dezenas de obras, entre ficção, ensaio, literatura para a infância, BD e teatro. Alguns dos seus livros encontram-se traduzidos para inglês, alemão, hebraico, japonês, romeno, italiano, sérvio, croata e francês. É autor dos seguintes romances e novelas: Apocalipse Nau (1996), A Espera (1998), O Suplente (1999), Os Surfistas (2001,romance interactivo), Dádiva Divina (2004, Prémio Pen Club), A Espera (2007), O Destino Turístico (2008, Prémio Ciranda), O Anibaleitor (2010), e, em co-autoria com António Jorge Gonçalves, as novelas gráficas A Arte Suprema (1997, Prémio do Amadora BD para melhor livro) e Rei (2007).
Para saber mais sobre o autor, consultar: http://www.ruizink.com/

quinta-feira, 17 de março de 2011

A Profecia do Juízo Final (Scott Mariani)

Atormentado pelo passado e cansado do rasto de morte que parece deixar à sua passagem, Ben Hope decide renunciar à sua antiga vida e concluir o há muito abandonado curso de teologia. Mas o passado não se afasta assim tão facilmente e, quando a filha de um dos seus professores desaparece sem deixar rasto, Ben acaba por se ver envolvido numa busca perigosa, onde interesses consideráveis estão em jogo e onde um simples artefacto pode ser a base para o colapso do mundo.
Tal como já acontecera em O Segredo do Alquimista, a grande força deste livro está no seu protagonista. E isto não se aplica necessariamente às suas reacções e relações com o enredo principal, mas acima de tudo com a sua personalidade e história passada. Benedict Hope é um indivíduo profundamente humano, mas marcado por uma vida dura, onde a perda parece ser uma constante. E, pior que isso, o facto é que, por melhores que sejam as suas intenções, por mais que tente minimizar os estragos, o facto é que a morte floresce por onde ele passa. E, numa figura que (apesar de ser particularmente hábil nisso) não gosta de matar, acabam por ser as mortes involuntariamente causadas, aquelas que se revelam também desnecessárias, as que lhe marcam uma consciência viva e dolorosa que é, sem dúvida, o elo mais forte de todo este livro.
Quanto à linha principal desta história, é curioso notar que o autor foge às exaustivas aplicações de informação histórica e mitológica associadas a vários livros deste género. Há toda a profecia do livro do Apocalipse, é claro, e o artefacto a ela associado, mas estes elementos são explorados apenas na medida em que são necessários ao enredo, permitindo um ritmo envolvente e viciante, à medida que acontecimento atrás de acontecimento vão tomando lugar, sem que explicações desnecessárias quebrem a intensidade da leitura.
Há alguns momentos em que não é difícil prever o que acontecerá a seguir, nomeadamente na intervenção do agente especial Callaghan. Ainda assim, estes pontos mais previsíveis na linha narrativa são compensados pela força de personagens, já que a personalidade forte característica de Ben não é a única a marcar ao longo desta história. Também Zoë e, principalmente, Alex, têm uma natureza surpreendente a ser revelada no decorrer deste livro.
Intrigante, viciante e com um protagonista de grande força mental e emocional, uma leitura de ritmo intenso, mas sem descurar uma certa dose de emoção que torna o leitor quase próximo a cada personagem. Fica a curiosidade em ler novos livros deste autor... porque ainda há muito a dizer sobre Ben Hope.

3ª Convenção Nacional de BookCrossing


Novidade Sextante

«As narrativas que integram este livro falam de indivíduos que não pertencem à categoria dos mártires nem dos anacoretas nem dos santos influentes. Em rigor, não são santos ou são-no numa terceira categoria que a Igreja não reconhece e até condena.
A maioria destes santos que o não são parte de uma ideia equivocada, de um trauma psicológico. Como a sua luta é interior e ninguém se interessa pelo seu aspecto, quase não têm representação gráfica. Em contrapartida, são os favoritos da literatura, por razões óbvias. Dom Quixote, Hamlet e o capitão Ahab são exemplos válidos, a literatura russa alimenta-se deles.» (Do Prólogo)

Eduardo Mendoza nasceu em Barcelona em 1943. Escreveu entre outros romances A verdade sobre o caso Savolta (1975, Prémio da Crítica), O mistério da cripta assombrada, O labirinto das azeitonas, A cidade dos prodígios (1986, Prémio Cidade de Barcelona), Uma comédia ligeira (1996, Prémio de Melhor Livro Estrangeiro em Paris em 1998), A aventura do cabeleireiro de senhoras (2001, Prémio para o «Livro do Ano» do Grémio dos Livreiros de Madrid) e Maurício ou as eleições sentimentais (2006, Prémio de Romance da Fundação José Manuel Lara). Com Riña de gatos venceu o Prémio Planeta 2010. A Sextante Editora iniciou em 2010, com A assombrosa viagem de Pompónio Flato, a publicação regular em Portugal das obras de Eduardo Mendoza

quarta-feira, 16 de março de 2011

Os Contos Completos de Ambrose Bierce - terceira parte

Retomo, mais uma vez, esta longa opinião no ponto onde a deixei no último post dedicado a este livro. E o conto que se segue é Uma Senhora de Redhorse, onde uma algo peculiar atracção amorosa é contada pela voz de uma mulher. Estranho nalgumas partes, este conto é particularmente intrigante e cativante nas relações estabelecidas com o passado.
Em Chickamauga, a história é a de uma criança perdida e de uma visão perturbadora, num conto particularmente impressionante pela forma como um imaginário inicialmente idílico vai cedendo lugar à negrura, num intenso contraste entre inocência e macabro. Já em O Viúvo Turmore, o protagonista é um homem sem escrúpulos, que descobre que o seu plano de assassinar a mulher não é, afinal, tão infalível como julgara. Intrigante e algo sombrio, o mais marcante neste conto acaba, contudo, por ser o lado peculiar de toda a situação.
Uma Mensagem sem Fios trata de uma visão premonitória ligada a um acontecimento terrível, sendo uma história que, apesar da sua brevidade, abala pela nitidez das imagens. Em A Cidade dos que Partiram, por outro lado, são os malefícios do trabalho que servem de base a um peculiar e enigmático conto, em jeito de reflexão sobre a morte e os seus sagrados rituais.
Uma Corrida Inacabada, que, como o título indica, trata de uma corrida com um final inesperado, surge também como uma ideia bastante interessante, mas que peca pela brevidade. Já o conto seguinte, O Vale Assombrado, é bem mais detalhado. Esta história de um indivíduo peculiar, com um ódio visceral por asiáticos, começa de forma algo confusa, mas torna-se marcante pelas grandes revelações associadas aos motivos de tal ódio, bem como pela conclusão estranhamente tocante.
Segue-se Três Mais Um são Um, uma história de abandono motivado por ideais e de um regresso tardio. Um conto onde a guerra é apenas a base de uma história sobre escolhas e as suas consequências.
Uma Sepultura de Fundo fala de como a morte súbita de um inventor altera as vidas da sua estranha família. Invulgar, improvável, mas estranhamente divertido, um conto negro, mas invulgarmente leve. Bem mais sério, O Amo de Moxon trata da história de uma máquina de xadrez, bem como da possibilidade de consciência nos autómatos. Reflexões interessantes, uma história envolvente e um final de impacto são as principais forças deste conto que é, na sua totalidade, magnífico.
Haïta, o Pastor conta a história de um jovem pastor e da sua relação com as divindades. Impressionante pela quase terna ingenuidade do protagonista, pela visão dos deuses caprichosos e pela natureza associada à inconstância da felicidade. Toda uma mensagem sob a forma de narrativa.
O Pequeno Conto resume-se à história de um conto e suas sucessivas alterações, numa ideia intrigante e bastante peculiar, ainda que talvez pudesse ter sido mais longamente explorada.
Segue-se Um Carregamento de Gatos, conto sobre um navio que transportava uma vasta quantidade de felinos e dos incidentes que nessa viagem ocorreram. Um conto estranho, marcado por uma certa crueldade, mas onde os aspectos mais improváveis do enredo são o que, de facto, chama a atenção.
Mais um conto particularmente marcante. Um Incidente nos Postos Avançados apresenta a história de um homem que, movido pelo simples desejo de morrer, se alista no exército. Intenso nas descrições de guerra, profundo nas emoções, um conto de profunda beleza e muitíssimo bem escrito.
De uma janela e do que atrás dela se esconde fala A Janela Entabulada, um conto de ritmo bastante pausado, mas de final intenso, numa interessante visão da morte e do luto. E ainda sobre morte, mas num ponto de vista bem diferente, O Relógio de John Bartine, onde um relógio, a sua história e uma superstição talvez justificada estão na origem de um conto envolvente, de ritmo progressivamente mais intenso e final marcante.
Um dos Desaparecidos traz a história de um soldado corajoso numa situação extrema. Neste conto, é o crescendo de intensidade que torna a evolução do enredo progressivamente mais angustiante, tornando a iminência da morte numa presença quase palpável.
Por último (para já), Um Vigilante Junto ao Morto fala de uma aposta invulgar... de concretização sinistra. Mais um conto de ritmo pausado, mas onde o principal ponto de interesse reside no constraste entre os diferentes momentos da narrativa.

A minha opinião sobre este livro continuará num futuro post.