sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Dia Cinzento e outros contos (Mário Dionísio)

Histórias de vidas normais e de gestos quotidianos, num tempo talvez distante, mas com muito de actual. É isso que define os contos que constituem este livro, onde os sonhos e medos do dia a dia são o molde para cada vida e cada história. O que gerou este livro, as motivações do autor e o cenário que este encontrou em recepção à sua obra são lembrados numa Evocação em forma de prefácio, que é também uma interessante introdução às raízes e motivos por detrás deste livro.
O primeiro conto é Nevoeiro na Cidade, história de espera e de pensamento na mente de um homem em busca de uma decisão. Introspectivo, com o ritmo algo irregular correspondente aos pensamentos do protagonista, reflecte essencialmente um ambiente de apatia perante as circunstâncias. Já Véspera trata das preocupações de uma mulher doente na iminência de um procedimento arriscado. Aqui, domina a intensidade, numa visão precisa e marcante daquelas horas de dúvida e medo que surgem quando a saúde falha. Um conto bastante impressionante.
Segue-se Assobiando à Vontade, história de como um homem a assobiar no eléctrico influencia o humor dos restantes passageiros. Interessante a visão de como as conveniências mudam as pessoas, fazendo de cada mudança um choque - mesmo quando o novo elemento inspira alegria.
Os Sapatos da Irmã é a história de um rapaz e de como a vergonha dos seus medos e humilhações molda cada um dos seus actos. Reflexo de tempos mais cruéis, este é um conto sobre a idade da inocência, como ela é para quem não a conhece verdadeiramente. Intenso e marcante, muito bom. Morena-Vulcão, por sua vez, mostra como pode ser fascinante a descoberta de um novo elemento, na figura de uma rapariga pouco habituada a viajar que se deixa maravilhar por cada um dos passageiros do seu comboio. Curioso o reflexo dos hábitos sociais e do impacto destes sobre a ingenuidade da protagonista.
História de amores e namoros destinados a desaparecer com o passar do tempo, O Corte das Raízes surpreende pela forma como o autor alterna entre presente e memória, numa história de ritmo pausado, mas envolvente. Já em A Lata de Conserva, história de como um pequeno roubo perturba a rotina de uma mulher grávida, o que marca é o contraste entre a vida confortável, mas entediante, da mulher e a agitação causada pelo roubo visto de longe.
A Corrida mostra uma tentativa de regressar à normalidade depois de uma situação de doença, bem como a tomada de consciência de como o mundo mudou. Nostálgico e introspectivo, marca neste conto a poderosa visão do que é o mundo ante alguém para quem todas as portas se fecham. Interessante reflexão sobre persistência e resignação.
Das desventuras de uma família de bonecreiros e da necessidade de um novo rumo de acção trata Os Bonecreiros Vão de Terra em Terra. Pausado, mas cativante, uma imagem precisa das agruras da pobreza. Segue-se Uma Principiante, retrato dos sonhos e inseguranças de uma rapariga nos primeiros dias de trabalho. Cativante e de leitura agradável, fica, contudo, no final, a sensação de algo deixado por explicar.
Sardinhas e Vento apresenta um homem e os seus demónios, numa multidão em dia de feira. Cativante, com um início bastante centrado no protagonista, mas expandindo-se na contextualização do ambiente circundante. Levanta, ainda, algumas questões sobre o sistema de justiça e os interesses subjacentes.
Entre o trabalho e a sociedade, um homem com dificuldades em lidar com o mundo em seu redor. É este o foco de Uma Tarde de Agosto, onde choque de classes, interesses e futilidades sociais se cruzam para construir uma história onde a serenidade e a dureza se misturam. Segue-se Horas Suplementares, história de um caso amoroso feito de segredos e particularidades. Algo melancólico, este conto marca principalmente pelo tom de quase resignação.
O último conto é Entre Cafés e Pensamentos, e trata das amizades e de como estas se desvanecem com o tempo, a experiência e as dificuldades. Soturno e intenso, sombrio nas certezas da perda e por estas particularmente marcante, este é um conto que impressiona pela visão sombria do mundo aos olhos do protagonista.
Visão de pequenas rotinas e grandes tragédias pessoais, este conjunto de contos, alguns impressionantes e nenhum menos que interessante, cativa tanto pelas histórias individuais como pelo reflexo de tempos e costumes que a totalidade dos contos transmite. Uma leitura que, independentemente do anos que passaram desde a sua primeira publicação, continua interessante e actual.

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