domingo, 1 de outubro de 2017

A Última Viúva de África (Carlos Vale Ferraz)

Recusados os apoios ao filme que tinham planeado, e para salvar a produtora da falência, Miguel Barros vê-se obrigado a seguir uma estranha inspiração: a notícia de um emigrante rico que deseja sepultar a mãe numa igreja transformada em panteão particular desperta a curiosidade do seu realizador e, sem ideias melhores, Miguel Barros vê-se também arrastado para essa estranha possibilidade. Mas o que o espera em Vilar é uma verdade bastante mais dura: a morta é Alice Oliveira e Miguel Barros tem com ela um passado em comum. Em tempos, quando em África se travavam guerras e se lutava por uma independência diferente, Alice foi Madame X, informadora de governos e de mercenários. E Miguel, que também por lá passou, lembra-se dela e da sua história - do passado que agora, passado tanto tempo, quer finalmente contar...
Tendo como cerne a figura de Alice Oliveira, mas contando a história de uma perspectiva já um pouco distante, uma das primeiras coisas a surpreender neste livro é precisamente a estrutura da narrativa, pois, sendo embora Alice a raiz de todo o enredo, é talvez ela quem menos se dá a conhecer. De certa forma, é Miguel Barros o protagonista, pelo menos no sentido em que é o percurso dele que a narrativa acompanha. E é através das suas memórias que tudo o resto vem a superfície, primeiro nas evasivas, enquanto ele e a sua equipa seguem a pista da notícia, depois no desvelar da verdade quando já mais nada resta para contar. 
Ora, esta forma de contar a história deixa alguns sentimentos ambíguos, já que a perspectiva de Miguel acaba por ser um pouco limitativa: o que viu da guerra e quis contar, bem como a forma sintética como conta algumas das coisas, acabam por deixar uma sensação de distância que nunca se esbate por completo. Ainda assim, faz um certo sentido que assim seja, pois a história de Miguel é a de um passado guardado em silêncio e, visto desta forma, é apenas natural que a derradeira narração das memórias seja tão sucinta quanto possível.
E, ainda que o impacto emocional seja, em parte, atenuado por essa mesma distância, a verdade é que há muito de relevante para descobrir neste livro. Desde a história de Alice à de Jean Scrame, passando pelo que o próprio Miguel viveu em África e, curiosamente, também pelo percurso final da criação do filme, há em todos os elementos algo de pertinente a ponderar, uma certa surpresa ante o percurso pessoal de cada personagem e, principalmente, uma muito certeira visão da forma como a influência molda os caminhos dos homens. No fundo, mais até que a história das personagens, são as verdades desagradáveis que ficam na memória - e, se são incómodas, é porque precisam de ser ditas.
A imagem que fica é, portanto, a de um romance que leva o seu tempo a assimilar, com o seu ritmo pausado e as impressões que parecem marcar aos poucos, mas também um livro interessante e pertinente, em que cada personagem parece representar mais que a sua própria jornada. Uma boa história, em suma. E uma boa leitura. 

Autor: Carlos Vale Ferraz
Origem: Recebido para crítica

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