segunda-feira, 22 de abril de 2019

Levaram Annie Thorne (C. J. Tudor)

Regressar ao lugar onde cresceu e onde deixou tantos fantasmas não é propriamente o plano de sonho de Joe Thorne, mas às vezes a vida não dá alternativas. Perseguido pelas dívidas e atraído por um misterioso email que lhe traz memórias do passado, Joe volta agora como professor à escola que frequentou na juventude. O objectivo é em parte fugir, em parte encontrar uma solução para os seus problemas e em parte perceber o que se passa. Pois o que o email lhe disse é verdade: está a acontecer outra vez. O mesmo que aconteceu com a irmã que, quando tinha oito anos, desapareceu e voltou... diferente.
Provavelmente a maior qualidade deste livro (e qualidades não lhe faltam) é a aura de mistério que parece englobar todo o enredo. Tudo começa com um cenário macabro, o acontecimento na raiz do regresso de Joe. Mas, a partir daí, e embora haja espaço mais que suficiente para desenvolvimentos sinistros, grandes confrontos e até um ou outro rasgo de emoções positivas, tudo parece envolto numa bruma indizível. Na base, está o enigma que se esconde nas minas e que, embora sempre presente, nunca cai numa explicação limpa e perfeita, deixando o mistério a pairar na imaginação do leitor.
É impossível (principalmente se, como eu, o tiverem lido há pouco tempo) não sentir também um certo paralelismo com o livro Samitério de Animais, de Stephen King. Há uma certa proximidade entre as entidades centrais dos dois livros. Mas, e também isto é curioso, a sensação que fica não é de uma semelhança exagerada, mas antes como que de uma fonte comum que se ramifica em duas correntes distintas. A semelhança está lá, mas este livro tem a sua própria identidade: nas personagens, no desenvolvimento da história e na forma como tudo termina. Sendo que o ponto comum é o mistério dominante - que é, obviamente, uma qualidade.
Mas voltando à história e às suas qualidades, importa necessariamente destacar o protagonista. Joe Thorne regressa a Arnhill como que disposto a enfrentar o passado, mas isso não faz necessariamente dele um herói. Muito pelo contrário: vem com um passado de fracassos às costas e também as memórias da sua história ali são de quase tudo menos bondade. Joe não é uma personagem perfeita (e ainda bem), mas é uma personagem perfeitamente construída, e o seu percurso, não sendo propriamente uma jornada heróica, mostra, apesar de tudo, um coração no sítio certo ante circunstâncias difíceis, o que faz dele um protagonista particularmente memorável.
Nem tudo tem respostas claras e nem tudo termina de forma clara e definitiva. E, curiosamente, este final meio aberto, que encerra as questões necessárias, deixando a pairar a presença maior que sempre esteve, afinal, na base de todo o enredo, é absolutamente adequado. Além disso, tendo em conta o evoluir da história e o registo da própria escrita, onde as introspecções sombrias contrastam com os diálogos directos e um estranhamente delicioso humor sarcástico, este final ligeiramente ambíguo ajusta-se na perfeição à aura que envolveu todo o percurso.
Que mais dizer, então, sobre este livro? Que prende desde as primeiras páginas e que, com o seu protagonista estranhamente cativante e a sua história de mistérios e surpresas, não há como o largar antes do fim. Que fica na memória, tanto pela história que conta como pela visão do mistério que se insinua. E que facilmente se entranha no coração de quem lê, tanto pelas vulnerabilidades das personagens como pela sensação de algo mais vasto que nunca deixa de pairar sobre a narrativa. Se recomendo este livro? Recomendo, pois. Absolutamente e sem reservas.

Autora: C. J. Tudor
Origem: Recebido para crítica

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